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sábado, 23 de fevereiro de 2013

A guerra do ocidente contra a África


20/2/2013, Dan Glazebrook, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dan Glazebrook

A destruição, pelos EUA-OTAN, do sistema de segurança do Sahel-Saara beneficiou aqueles que desejam ver a África permanecer no papel de fornecedor subdesenvolvido de matérias-primas baratas, escreve Dan Glazebrook



A imagem clássica da África, difundida pela imprensa-empresa ocidental – um saco gigante, cheio até a boca de guerras infindáveis, fome, crianças abandonadas – cria a ilusão de um continente que dependeria existencialmente do que lhe dê a caridade ocidental.

Soldados tuaregues malianos patrulham as ruas de Gao, norte do Mali, no sábado 
A verdade é exatamente o contrário disso. O ocidente é que depende existencialmente do que extráia da África. O que o ocidente obtém da África é obtido de várias, muitas maneiras. Dentre essas maneiras, os fluxos ilícitos de recursos; os lucros que, invariavelmente, acabam nos cofres dos bancos ocidentais pelas trilhas dos paraísos fiscais, como já está fartamente documentado no livro Poisoned Wells [Poços envenenados], de Nicholas Shaxson. Ou pelo mecanismo de extorsão do sistema das dívidas nacionais, pelo qual bancos ocidentais emprestam dinheiro a governantes militares, quase sempre postos no poder com a ajuda de forças ocidentais, como Mobutu, ex-presidente do Congo; esses governantes apropriam-se do dinheiro emprestado, quase sempre em contas privadas no próprio banco que emprestou ao país, cabendo ao país a missão de pagar juros exorbitantes que crescem exponencialmente.

Pesquisa recente de Leonce Ndikumana e James K. Boyce descobriu que mais de 80 centavos de cada dólar emprestado deixaram o país devedor em “voos do capital”, no período de um ano, sem jamais terem sido investidos no país devedor; e que $20 bilhões são drenados da África, por ano, como pagamento “do serviço da dívida” desses “empréstimos” essencialmente fraudulentos.
Latuff  2013 (Opera Mundi)
Outra via pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário, é o saque de minérios. Países como a República Democrática do Congo são saqueados por milícias armadas que roubam recursos naturais do país e os revendem a preços inferiores aos dos mercados a empresas ocidentais; muitas dessas milícias são controladas de países vizinhos, como Uganda, Ruanda e Burundi, os quais, por sua vez, são patrocinados pelo ocidente – como relatam rotineiramente os relatórios da ONU.

E há também a via, talvez a mais importante, pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário: os preços escandalosamente baixos pagos na compra de matérias primas da África e, sempre, da força de trabalho africana que minera minérios, cultiva o que seja cultivável ou colhe o que tenha de ser colhido. Assim acontece que a África, de fato, subsidia os altos padrões de vida no ocidente e as empresas e corporações ocidentais.

Esse é o papel atribuído à África pelos donos da economia capitalista ocidental: fornecedora de recursos e de mão de obra de baixo preço. Para que o trabalho e os recursos continuem baratos, exige-se, basicamente, que a África continue subdesenvolvida e pobre; se prosperar, os salários crescem; se se desenvolver em termos tecnológicos, os preços dos recursos se somarão ao valor agregado antes da exportação; e valor agregado tem de ser pago.

Assim sendo, a extração de petróleo e de recursos minerais a baixo preço depende de manter os estados africanos frágeis e desunidos. A República Democrática do Congo, por exemplo – cujas minas produzem dezenas de bilhões de dólares de minérios todos os anos – só arrecadou, em recente ano fiscal, miseráveis $32 milhões de impostos sobre material extraído das minas, por causa das guerras por procuração que o ocidente mantêm ativas na região, entre milícias patrocinadas pelo ocidente.

União Africana
A União Africana (UA), criada em 2002, surgiu como ameaça nova contra tudo isso: um continente africano mais integrado e unificado, não seria tão facilmente saqueado. O que mais preocupou os estrategistas ocidentais foram os aspectos financeiros e militares da unificação africana. Num nível financeiro, os planos para a constituição de um Banco Central Africano (que criaria uma moeda africana única, o dinar, com lastro-ouro) ameaçariam gravemente a capacidade de EUA, Grã-Bretanha e França para continuar a saquear o continente. Todo o comércio africano feito mediante o dinar-ouro implicaria, em última instância, que os países ocidentais teriam de pagar em ouro por recursos africanos que comprassem, não mais, como até agora, em libras, francos ou dólares que, bem feitas as contas, sempre podem ser impressos em papel podre.

As duas outras instituições financeiras previstas pela União Africana – o Banco Africano de Investimentos e o Fundo Monetário Africano – também comprometeriam fatalmente a capacidade de instituições como o Fundo Monetário Internacional para manipular as políticas econômicas dos países africanos mediante seu monopólio das finanças. Como o economista Jean-Paul Pougala mostrou, o Fundo Monetário Africano, com capital inicial previsto de $42 bilhões “rapidamente suplantará as atividades africanas do Fundo Monetário Internacional, o qual, com apenas $25 bilhões, conseguiu pôr de joelhos o continente inteiro e obrigou a África a engolir um processo muito questionável de privatizações, forçando os países africanos a converter-se em monopólios privados”.

Além desses desenvolvimentos fiscais potencialmente ameaçadores, houve também movimentos no front militar. A reunião de cúpula da União Africana em 2004 em Sirte, Líbia, decidiu elaborar uma Carta de Defesa e Segurança Comum Africana, que incluía um artigo que estipulava que “qualquer ataque contra um país africano é considerado ataque contra o continente como um todo” – copiada, de fato, da Carta da OTAN. Em seguida, em 2010, foi criada uma Força Reserva Africana (FRA), com delegação para defender e fazer valer as definições da Carta de Defesa. Bem evidentemente, se a OTAN tivesse de desmontar a unidade africana pela força das armas, quanto mais depressa agisse, melhor para a OTAN.

Mas a constituição da Força de Reserva Africana representou, além de uma ameaça, também uma oportunidade. Embora houvesse, sem dúvida, a possibilidade de ela vir a ser força genuína para a independência, para resistir ao colonialismo e para defender a África contra a agressão imperialista, criava-se, simultaneamente, a possibilidade de, adequadamente manobrada e sob a liderança adequada, aquela mesma força converter-se em seu oposto – uma força para promover a subjugação colonial, ligada numa cadeia de comando ocidental. As apostas eram – e são – altíssimas.

Os preparativos militares dos ocidentais na África

O ocidente também já iniciara seus preparativos militares para a África. O declínio econômico do ocidente, além da ascensão da China, indicava que o ocidente já não poderia depender tão essencialmente da chantagem econômica e da manipulação financeira para manter o continente fraco e subjugado. Vendo claramente que isso implicava a necessidade crescente de ação militar para manter a dominação, documento publicado em 2002 pela Iniciativa Grupo de Política para o Petróleo Africano [orig. African Oil Policy Initiative Group] recomendava que “um foco novo e vigoroso sobre a cooperação militar dos EUA na África subsaariana inclua o projeto de uma estrutura de comando militar subunificada que possa produzir dividendos significativos na proteção dos investimentos dos EUA”. Essa estrutura veio à luz em 2008, sob o nome de Comandos dos EUA na África, AFRICOM.

Contudo, os custos – econômicos, militares e políticos – da intervenção direta no Iraque e no Afeganistão (só o custo da guerra do Iraque já ultrapassa os 3 trilhões de dólares) indicavam que o AFRICOM teria de depender basicamente de tropas locais, para o serviço de guerrear e morrer. O AFRICOM teria de ser o corpo que coordenaria (e coordenou) a subordinação de exércitos africanos presos a uma cadeia ocidental de comando. Isso, em outras palavras, converteu exércitos africanos em exércitos ocidentais “por procuração”.

Mapa das riquezas minerais do Sahel/Saara com o Mali ao centro
O maior obstáculo a esse plano era a própria União Africana, que, em 2008, categoricamente rejeitou qualquer presença de militares dos EUA em solo africano, o que forçou o AFRICOM a instalar seu quartel-general em Stuttgart, Alemanha, humilhação para o presidente G. W. Bush, que já anunciara, pessoalmente, sua intenção de implantar o AFRICOM em território africano. O pior viria em 2009, quando o então líder líbio Muammar Gaddafi – o mais empenhado inimigo das políticas imperialistas no continente – foi eleito para presidir a União Africana. Sob o comando de Gaddafi, a Líbia já se convertera em principal mantenedora e financiadora da União Africana. Agora, o mesmo Gaddafi propunha processo rápido de integração africana, que incluía a constituição de exército africano unificado, moeda única e passaporte único.

O destino de Gaddafi já é de conhecimento público. Depois de montar a invasão da Líbia a partir de um pacote de mentiras ainda maior do que o que servira de pretexto para a invasão do Iraque, a OTAN destruiu a Líbia, reduziu o país à condição de mais um estado africano falhado e facilitou a tortura e o assassinato de Gaddafi. Assim se viu livre de seu principal opositor.

Naquele momento, tudo levava a crer que a União Africana teria sido domada. Três de seus membros – Nigéria, Gabão e África do Sul – votaram a favor da intervenção militar na Líbia, no Conselho de Segurança da ONU; e o novo presidente, Jean Ping, apressou-se a reconhecer o novo governo que a OTAN impôs na Líbia e pôs-se a denegrir as realizações de Gaddafi. Fez mais: proibiu a assembleia da União Africana de fazer um minuto de silêncio, depois do assassinato de Gaddafi.

Sahel/Saara - Região objeto da cobiça dos EUA-OTAN
Mas esse quadro não durou. Os sul-africanos foram os primeiros a arrepender-se do apoio à intervenção; nos meses seguintes, o presidente Zuma e o ex-presidente Thabo Mbeki fizeram sérias críticas à OTAN. Zuma disse – com razão – que a OTAN agira ilegalmente ao impedir o cessar fogo e as negociações que a Resolução da ONU exigia, já intermediados pela União Africana e com os quais Gaddafi já concordara. Mbeki foi além: disse que o Conselho de Segurança da ONU, ao ignorar as propostas da União Africana, estava tratando “os povos da África com absoluto desprezo”, o que fez aumentar “a sanha das potências ocidentais para intervir em nosso continente, inclusive com força armada, para proteger os próprios interesses, sem considerar a posição dos próprios africanos”.

Experiente diplomata sul-africano, do Departamento de Relações Internacionais do Ministério de Relações Exteriores da África do Sul, disse que “muitos estados da Comunidade Sul Africana de Desenvolvimento [orig. Southern African Development Community, SADC], sobretudo África do Sul, Zimbábue, Angola, Tanzânia, Namíbia e Zâmbia, que tiveram papel chave nas lutas de libertação sul-africanas, não estavam satisfeitos com o modo como Ping conduziu a questão do bombardeio da Líbia pelos jatos da OTAN”. Em julho de 2012, Ping foi forçado a deixar a presidência da União Africana e foi substituído – com apoio de 37 estados africanos – por Nkosazana Dlamini-Zuma, ex-ministra de Relações Exteriores da África do Sul, braço direito de Mbeki e, bem claramente, militante do campo oposto ao dos capitulacionistas de Ping. Mais uma vez, a União Africana estava sob comando de forças comprometidas com genuína independência.

O assassinato de Gaddafi, porém, não tirou de campo apenas um poderoso membro da União Africana; removeu também o eixo em torno do qual girava todo o sistema de segurança regional na região do Sahel-Sahara. Usando cuidadosa e complexa mistura de força, projeto e desafio ideológico e negociação, a Líbia de Gaddafi sempre foi a cabeça de um sistema de segurança transnacional que conseguira impedir que milícias salafistas se implantassem na região – como reconheceu, em 2008, o embaixador Christopher Stevens, dos EUA:

Christopher Stevens
O governo da Líbia empreendeu operações agressivas para interromper o fluxo de combatentes estrangeiros, inclusive com monitoramento cerrado dos portos e aeroportos de entrada, e rechaçou o apelo ideológico do Islã radical (...). A Líbia coopera com estados vizinhos no Saara e Sahel, para conter o fluxo de combatentes extremistas e terroristas transnacionais. Muammar Gaddafi negociou recentemente um muito divulgado acordo com líderes tribais tuaregues da Líbia, Chade, Niger, Mali e Argélia, conseguindo que desistissem de suas aspirações separatistas e das práticas de contrabando (de armas e de extremistas transnacionais) em troca de assistência para o desenvolvimento dos seus países e apoio financeiro (...) Nossa avaliação é que o fluxo de combatentes estrangeiros da Líbia para o Iraque e o fluxo reverso de veteranos do Iraque para a Líbia diminuiu por causa da cooperação entre a Líbia e outros estados – disse Stevens.

Essa “cooperação entre a Líbia e outros estados” refere-se à CEN-SAD (Community of Sahel-Saharan States / Comunidade de Estados Sahel-Saarianos), organização lançada por Gaddafi em 1998 visando ao livre comércio, livre movimentação de pessoas e desenvolvimento regional de seus 23 estados-membros, mas com foco principal na segurança mútua e na paz. Além de conter a influência das milícias salafistas, a CEN-SAD desempenhou papel chave mediando conflitos entre Etiópia e Eritreia e na região do rio Mano; e negociou solução duradoura e sustentável para a rebelião no Chade. A CEN-SAD tinha sede em Trípoli e a Líbia, sem dúvida, era a principal força do grupo. De fato, o apoio da CEN-SAD foi fator determinante para a eleição de Gaddafi à presidência da União Africana em 2009.

A própria eficácia desse sistema de segurança local foi um duplo golpe contra a hegemonia do ocidente na África: não apenas aproximou a África de uma condição de paz, na qual a prosperidade local tornava-se possível, como, também, simultaneamente, esvaziava o pretexto chave para todas as intervenções militares do ocidente no continente. Os EUA haviam criado uma sua “Parceria de Contraterrorismo Trans-Saara” [orig. “Trans-Sahara Counter-Terrorism Partnership” (TSCTP)], mas, como Mutassim Gaddafi (conselheiro de Segurança Nacional da Líbia) explicou à ex-secretária de Estado Hillary Clinton em Washington em 2009, a “Comunidade de Estados Sahel-saarianos (CEN-SAD) e a Força de Reserva tornam dispensável qualquer TSCTP”.

Enquanto Gaddafi esteve no poder e comandou um efetivo e poderoso sistema de segurança regional, as milícias salafistas no Norte da África não podiam ser usadas como “terrível ameaça” para justificar invasões e ocupação pelo ocidente, para salvar os nativos desamparados. Ao conseguir fazer o que o ocidente diz desejar (mas, em todos os pontos, fracassa sempre) – neutralizar o “terrorismo islamista”– a Líbia tirou dos imperialistas um pretexto chave para todas as guerras que fizeram contra a África. Ao mesmo tempo, impediram que as milícias continuassem a desempenhar outra função histórica que sempre tiveram, servindo ao ocidente como força “alugada”, que agia por procuração, para desestabilizar estados seculares independentes, como Mark Curtis documentou em seu excelente Secret Affairs. O ocidente apoiou esquadrões da morte salafistas em campanhas para desestabilizar a URSS e a Iugoslávia, com grande sucesso; e planejava fazer o mesmo contra a Líbia e a Síria.

A África depois de Gaddafi

Com a OTAN trabalhando para fazer da Líbia estado falhado, esse sistema local foi destroçado. As milícias salafistas não receberam só equipamento militar ultra moderno, cortesia da OTAN; receberam também carta branca para saquear os arsenais do governo líbio e um paraíso seguro a partir do qual organizar ataques por toda a região. As fronteiras entraram em colapso, com a aparente conivência do novo governo líbio e de seus patrocinadores na OTAN – como registra um trágico relatório da empresa de segurança global Jamestown Foundation.

Segundo esse relatório, “Al-Wigh era importante base estratégica do regime Gaddafi, localizada em região próxima das fronteiras com Niger, Chade e Argélia. Depois da queda de Gaddafi, a base passou a ser controlada por combatentes da tribo Tubu, sob comando nominal do Exército Líbio, mas sob comando local de um comandante tubu, Sharafeddine Barka Azaiy, que reclamou que “durante a revolução, controlar essa base era assunto de máxima importância estratégica. Conseguimos ocupar a base. Agora nos sentimos abandonados. Não temos equipamento suficiente, nem viaturas nem armas para proteger a fronteira. Embora sejamos parte do exército nacional, ninguém nos paga soldo”.

O relatório conclui que “o Conselho de Governo Nacional Líbio (GNC) e o que havia antes dele, Conselho Nacional de Transição (TNC), falharam na segurança de importantes instalações militares no sul e permitiram que a segurança de vastas porções de fronteira no sul fossem, de fato, “privatizadas” nas mãos de grupos tribais, conhecidos há muito tempo pela prática, ali tradicional, de contrabando. Isso, por sua vez, põe em risco a segurança da infraestrutura do petróleo líbio e a segurança das regiões vizinhas. Com a venda e o transporte de armas líbias já convertidos em mini-indústria na era pós-Gaddafi, as imensas quantidades de dinheiro com que conta a Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM) conseguem abrir muitas portas, em região empobrecida e subdesenvolvida. Ainda que a invasão francesa no norte do Mali consiga desalojar os militantes islamistas, nem assim haverá o que impeça os mesmos grupos de estabelecer novas bases nas áreas mal controladas do deserto selvagem no sul da Líbia. Enquanto não houver estruturas de segurança controladas por autoridade central na Líbia, o interior desse país continuará a ser ameaça de segurança para todas as demais nações na região”.

Mali e fronteiras. O trecho hachurado em vermelho é a área  tomada pelos salafistas
A vítima mais óbvia dessa desestabilização foi o Mali. Não há analista sério que não saiba que a tomada do Mali pelos salafistas é consequência direta da ação da OTAN na Líbia. Um dos resultados do avanço da desestabilização promovida pela OTAN no Mali é que a Argélia – que perdeu 200 mil cidadãos numa guerra civil contra os islamistas nos anos 1990s – está hoje cercada por milícias salafistas pesadamente armadas em duas fronteiras: ao leste (fronteira com a Líbia) e ao sul (fronteira com o Mali). Depois da destruição da Líbia e da derrubada de Hosni Mubarak no Egito, a Argélia é hoje o único estado do norte da África ainda governado pelo partido anticolonialista que conquistou a independência contra a tirania das forças coloniais europeias.

Esse postura de independência ainda está bem evidente na atitude da Argélia em relação à África e à Europa. No front africano, a Argélia é forte apoiadora da União Africana, contribuindo com 15% do orçamento da organização; e tem 16 bilhões de dólares empenhados na constituição do Fundo Monetário Africano, o que faz dela o maior contribuinte do FMA. E nas relações com a Europa, a Argélia tem-se recusado repetidamente a fazer o papel de nação subordinada que a Europa espera dela. Argélia e Síria foram os dois únicos países da Liga Árabe que votaram contra o bombardeio da OTAN contra a Líbia e a Síria. E, como se sabe, a Argélia deu abrigo a membros da família Gaddafi que fugiam de ser massacrados pela OTAN.

Mas, do ponto de vista dos estrategistas europeus, muito mais preocupante que tudo isso é, provavelmente, que a Argélia – com o Irã e a Venezuela – constituem o que eles chamam de uma “[Organização dos Países Produtores de Petróleo] OPEC linha dura”, empenhados em vender caro o acesso aos seus recursos nacionais. Como se lia recentemente em furibundo artigo publicado no London Financial Times, “o nacionalismo dos recursos” impera. Resultado disso, “as Grandes do Petróleo padecem muitas dificuldades na Argélia; as empresas reclamam da burocracia que as esmaga, dos controles fiscais duríssimos e do comportamento abusivo da Sonatrach, a empresa estatal de energia, que participa de quase todos os contratos de petróleo e gás”. Na sequência, o artigo observa que a Argélia implementou “um controverso imposto monstro” em 2006, e cita um executivo de petroleira ocidental em Argel, que disse que “as empresas [de petróleo] estão fartas da Argélia”.

É instrutivo observar que o mesmo jornal também acusou a Líbia de “nacionalismo dos recursos” – ao que parece, o crime mais hediondo, na avaliação daqueles leitores – apenas um ano antes da invasão da OTAN.

Evidentemente, “nacionalismo dos recursos” significa precisamente que os recursos de uma nação sejam usados, em primeiro lugar, para promover o desenvolvimento em benefício da própria nação, não em benefício de empresas estrangeiras e, nesse sentido, a Argélia bem merece a “acusação”. A Argélia exporta mais de cerca de $70 bilhões em petróleo por ano, e muito desse dinheiro tem sido usado em investimentos massivos em moradia e saúde pública, além de um financiamento recente de $23 bilhões, num programa de estímulo para pequenos comerciantes. De fato, esses altos níveis de investimentos sociais são considerados por muitos como a principal razão pela qual não se viram levantes da “Primavera Árabe” na Argélia, em anos recentes.

A mesma tendência de “nacionalismo dos recursos” também aparece anotada em recente material distribuído por STRATFOR, empresa de inteligência global, que escreveu que “a participação estrangeira na Argélia sofreu, em larga medida, por causa de políticas protecionistas aplicadas pelo governo militar fortemente nacionalista”. Seria evento particularmente preocupante, diz STRATFOR, em momento em que a Europa aproxima-se de situação em que se tornará muito mais dependente do gás argelino, com as reservas no Mar do Norte em processo de esgotamento. “Desenvolver a Argélia como grande exportador de gás natural é imperativo econômico e estratégico para os países da União Europeia, em momento em que a produção da commodity entra em declínio terminal na próxima década. A Argélia já é importante fornecedor de energia para o continente, mas a Europa precisará de acesso expandido àquele gás natural, para suprir o declínio de suas reservas indígenas” – diz STRATFOR.

Os planos das Grandes do Petróleo para a África

Prevê-se que as reservas britânicas e holandesas de gás no Mar do Norte estarão esgotadas no final dessa década; e que as da Noruega entrarão em acentuado declínio a partir de 2015. Com a Europa temerosa de tornar-se superdependente do gás da Rússia e da Ásia, o relatório anota que a Argélia – com reservas de gás natural estimadas em 4,5 trilhões de metros cúbicos, e reservas de gás de xisto de 17 trilhões de metros cúbicos – tornar-se-á fornecedora essencial. Mas o maior obstáculo para que a Europa controle esses recursos ainda é o governo da Argélia – com suas “políticas protecionistas” e seu “nacionalismo dos recursos”.

Mapa legendado da Argélia  elaborado pelo Repsol (petróleo & gás) 
Sem dizê-lo abertamente, o relatório conclui sugerindo que uma Argélia desestabilizada e convertida em “estado falido” seria sempre preferível a uma Argélia sob governo “protecionista”. E sugere que “o envolvimento que se vê hoje das majors de energia da União Europeia em países de alto risco, como Nigéria, Líbia, Iêmen e Iraque, indica saudável tolerância à instabilidade e a problemas de segurança”.

Em outras palavras: em tempos de segurança privada, o Big Oil já não carece de estabilidade ou da proteção do estado para seus investimentos. Zonas de desastre são toleráveis. Intoleráveis, só estados fortes e independentes.

Já aparece, portanto, no radar dos interesses estratégicos da segurança energética do ocidente, uma Argélia reduzida a estado falhado, exatamente como o Iraque, o Afeganistão e a Líbia um dia apareceram no mesmo radar.

Com isso em mente, é fácil ver como a política aparentemente contraditória de armar milícias salafistas num primeiro momento (na Líbia) e imediatamente depois passar a bombardeá-las (no Mali) faz, de fato, perfeito sentido. A missão francesa de bombardeio visa, nas próprias palavras dos franceses, à “total reconquista” do Mali. Na prática, implica empurrar os rebeldes gradualmente para o norte do país. Quer dizer: diretamente para a Argélia.

Vê-se afinal que a deliberada destruição do sistema de segurança que a Líbia coordenava em toda a região do Sahel-Saara trouxe vastos benefícios para os que contam com que a África permaneça presa no papel de fornecedora subdesenvolvida de matéria prima barata. O processo já armou, treinou e assegurou território para milícias que, em seguida, serão usadas na destruição da Argélia – o único grande estado rico em recursos naturais do norte da África ainda empenhado numa genuína unidade africana, com independência. A operação também persuadiu alguns africanos de que – diferente da rejeição unânime contra o AFRICOM, há pouco tempo – eles realmente precisam, hoje, de que o ocidente os “proteja” daquelas milícias.

Como a clássica venda de proteção à moda das máfias, o ocidente cuida de tornar sua proteção “necessária”: arma e atiça ele mesmo as forças contra as quais, adiante, as pessoas terão de ser protegidas.

Agora, a França está ocupando o Mali; os EUA estão montando uma nova base de drones no Niger; e o primeiro-ministro britânico David Cameron fala de seu compromisso com uma nova “guerra ao terror” que se alastrou sobre seis países e durará décadas.

Mas nem tudo caminha bem, no front imperialista. Longe disso, porque o ocidente, sem dúvida alguma, contava com não ter de mobilizar seus próprios soldados. O objetivo inicial era sugar a Argélia e colhê-la exatamente na mesma armadilha já usada com sucesso contra a União Soviética nos anos 1980s – exemplo anterior de Grã-Bretanha e EUA, patrocinando violenta insurgência sectária nas fronteiras do território inimigo, para atrair o inimigo-alvo para guerra destrutiva de retaliação. A guerra da URSS no Afeganistão, no final, não apenas fracassou: ela também, no processo, destruiu a moral e a economia do país e foi fator chave por trás da autodestruição do estado soviético em 1991.

Mas a armadilha para pegar a Argélia não funcionou. A jogada de Clinton e François Hollande, fazendo a cena do “policial bonzinho” e “policial durão” – uma “pressionando para a ação” em Argel, em outubro; e as ameaças dos franceses, dois meses depois – deu em nada.

Simultaneamente, em vez de se manterem fiéis ao roteiro, os imprevisíveis salafistas, na função de simulacros locais do ocidente, optaram por expandir sua base no norte do Mali, não na direção da Argélia, como previsto, mas para o sul, rumo a Bamako, ameaçando desestabilizar um regime aliado do ocidente, ali instalado, por golpe, menos de um ano antes. Os franceses foram obrigados a intervir, para mandar os salafistas de volta para o norte, de volta contra o estado que, desde o início, deveria ter sido seu alvo real.

Até aqui, essa invasão parece contar com certo nível de apoio entre os africanos que temem os salafistas simulacros do Ocidente, ainda mais do que temem os próprios soldados ocidentais. Mas, à medida que a ocupação se aprofunde, desconstruindo a credibilidade dos salafistas e ultrapassando-os em número de soldados ocupantes, ao mesmo tempo em que se for conhecendo a brutalidade dos ocupantes e de seus aliados... então, veremos.

Veremos quanto tempo durará tudo isso. 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

África, 1987: “O discurso da dívida”


29/7/1987, Thomas Sankara (então presidente revolucionário de Burkina Faso [1]) - Discurso na Conferência da Organização da Unidade Africana, Addis Abeba, Etiópia e a seguir traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também

 

 

Não podemos pagar a dívida. E com isso não quero dizer que somos contra a moral, a dignidade e o dever de cumprir nossa palavra. Quero dizer que a moral, a dignidade e o dever de cumprir nossa palavra não são a mesma coisa entre os ricos e os pobres. A Bíblia, o Corão, não podem servir do mesmo modo aos que exploram os pobres e aos explorados. É preciso que haja duas edições da Bíblia e duas edições do Corão.

Não podemos aceitar que nos deem lições de dignidade. Que elogiem os que pagam as dívidas, e desqualifiquem os que não pagam, que nos digam que os que não pagam não merecem confiança. Ao contrário disso, devemos dizer que, hoje, os maiores assaltantes são os mais ricos, e que isso é visto como normal. Porque um pobre, quando rouba, comete pequeno crime, um pecadilho. Trata-se de sobreviver, de necessidade. Mas os ricos, quando roubam, têm autoridade fiscal, ou roubam na Alfândega. São os que exploram o povo.

Senhor presidente, minha ideia aqui não é provocar, nem fazer espetáculo. Apenas digo aqui o que todos nós pensamos e desejamos. Quem aqui não deseja que essa dívida seja simplesmente cancelada? Quem não desejar que essa dívida seja cancelada, que tome seu avião é vá pagá-la imediatamente, ao Banco Mundial! 

Tampouco desejo que pensem que a proposta de Burkina Faso é ideia saída da cabeça de jovens inexperientes e imaturos, ou que a ideia de não pagar a dívida seja ideia só dos revolucionários. Digo que a proposta de não pagarmos a dívida é proposta objetiva, e é nossa obrigação. E posso citar muitos exemplos de outros que também disseram que não paguemos a dívida, revolucionários e não revolucionários, jovens e velhos.

Cito, por exemplo, Fidel Castro, que já disse que não paguemos. É revolucionário, como eu; e mais velho que eu. Mas posso citar também François Mitterand, que também disse que os países africanos, os países pobres, não podem pagar a dívida. Posso citar a senhora primeira-ministra. Não sei quantos anos tem e não perguntarei, mas é mais um exemplo. Posso citar também o presidente Felix Houphoüet-Boigny, que não é tão jovem e declarou, oficialmente, publicamente, pelo menos em relação ao seu próprio país, que a Costa do Marfim não pode pagar a dívida. Ora, a Costa do Marfim classifica-se entre os países mais ricos da África, ou pelo menos da África ‘francófona’. Por isso também, a Costa do Marfim paga contribuição maior aqui [risos].

Mas, senhor presidente, não falo para provocar. É preciso que os senhores nos ofereçam melhores soluções. Gostaria que nossa conferência adotasse como resolução muito necessária, uma declaração de que não podemos pagar a dívida. E que seja resolução conjunta, não declarações individuais.

É importante que assim seja, para que não nos exponhamos a ser assassinados. Se Burkina Faso permanecer sozinha, como único país que se recusa a pagar a dívida, eu não estarei aqui, na nossa próxima Conferência. Mas se, ao contrário, obtivermos aqui o apoio de todos, de que eu tanto preciso, conseguiremos não ser obrigados a pagar.

Se conseguirmos não pagar essa dívida, poderemos aplicar nossos pequenos recursos ao nosso próprio desenvolvimento.

Para terminar, quero dizer que cada vez que um país africano compra uma arma, é arma que será usada contra outro africano. Não será usada contra europeu nem contra país asiático. Será usada contra africanos. Portanto, temos de tirar vantagem da questão da dívida, para lançar, para encaminhar alguma solução para o problema das armas. Sou militar e ando armado. Mas, senhor presidente, sei que o desarmamento é questão inadiável. Eu ando armado, com a única arma que tenho. E muitos têm um arsenal escondido em casa. Assim, queridos irmãos, com o apoio de todos, conseguiremos ter paz em casa.

Também conseguiremos usar as imensas potencialidades da África para desenvolver a África. Nosso solo é rico. Nosso subsolo é rico. Temos braços e temos um vasto mercado, do norte ao sul e de leste a oeste. Temos capacidades intelectuais para criar ou, no mínimo, para usar todas as tecnologias e ciências, onde quer que as encontremos.

Senhor presidente, façamos dessa Conferência de Addis Abeba uma frente unida contra o pagamento da dívida. Façamos dessa Conferência de Addis Abeba uma frente unida para limitar o comércio de armas entre os países pobres e fracos. Os porretes e facões que se compram por toda parte são inúteis. 

Façamos também dessa Conferência uma frente a favor do mercado africano, a favor do mercado para os africanos. Produzir na África, transformar na África e consumir na África. Vamos produzir o que nos falta, e consumir nossa produção, em vez de importar tudo.

Burkina Faso aqui está para apresentar os tecidos de algodão que nós mesmos estamos produzindo. Algodão plantado em Burkina Faso, tecido em Burkina Faso, modelado e costurado em Burkina Faso, para vestir os burkinabeses. Minha delegação e eu aqui estamos, vestidos por nossos tecelões  camponeses. Não há aqui um único fio importado da Europa ou dos EUA. Mas não estou aqui para apresentar desfile de modas. Queria dizer apenas que temos de aprender a viver à africana, porque não há outro meio para vivermos livres e com dignidade.

Agradeço a atenção, senhor presidente. Pátria ou morte! Venceremos!
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 Nota dos tradutores
[1] Thomas Sankara [1949-1987] foi assassinado três meses depois desse discurso. Lê-se sobre ele, em “Who killed the lion king?: “Thomas Sankara liderou, entre 1983 e 1987, uma das revoluções mais radicais e criativas que a África produziu em décadas. Sankara inaugurou uma trilha que outros países africanos poderiam seguir, genuína alternativa à modernização conservadora do continente. Como outros líderes africanos radicais, Sankara foi assassinado. O homem que o matou continua no poder, há 24 anos, sempre apoiado pelo ocidente”.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

EUA na Somália: o tiro pela culatra

7/9/2011, Jeremy Scahill, The Nation 
Blowback in Somalia
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O famoso senhor-da-guerra paramilitar somaliano conhecido pelo codinome Indha Adde [“Olhos Brancos”], anda ao longo de trincheiras, nos arredores do Mercado Bakara em Mogadisco, que já esteve ocupado pelos milicianos do Shabab, o grupo de milícias islâmicas que jurou fidelidade à Al-Qaeda. Numa das trincheiras, o pé de um cadáver aflora à superfície de uma cova rasa, apenas algumas pás de areia jogadas de longe sobre o corpo. Um dos milicianos que acompanham Indha Adde diz que é o cadáver de um estrangeiro que lutou com o Shabab. “Enterramos os mortos deles, e também capturamos vários vivos”, diz Indha Adde, voz grave, rascante. “Cuidamos deles se são somalianos, mas se capturamos um estrangeiro, é executado para que outros saibam que não temos piedade.” 

Apesar da conversa, Indha Adde já não é simples senhor-da-guerra, não, pelo menos, oficialmente. Atualmente, é conhecido também como general Yusuf Mohamed Siad e usa uniforme militar somaliano, completo, com boina vermelha e três estrelas nos ombros. As armas e a nova legitimidade que carrega foram-lhe entregues diretamente pelo exército da União Africana patrocinado pelos EUA conhecido como AMISOM e que ocupa hoje grandes porções da área de Mogadisco.

É grande mudança. Há apenas cinco anos, Indha Adde era um dos mais importantes aliados da Al-Qaeda e dos paramilitares de Shabab, além de comandante de uma das mais poderosas facções islâmicas que combatiam contra grupos estrangeiros na Somália e contra o governo apoiado pelos EUA na Somália. Ele admite abertamente que deu abrigo a algumas das figuras mais famosas da Al-Qaeda – entre os quais Fazul Abdullah Mohammed, suposto cérebro por trás dos atentados à bomba, em 1998, contra as embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia – e que desobedeceu ordens da CIA, protegê-los. (Fazul foi morto em junho, em Mogadisco.)

“A CIA não conseguiu me convencer a trabalhar para eles” – Indha Adde relembra seus encontros na Somália, no Quênia e em Dubai com agentes da CIA no início de 2004. Diz que se reuniu com o chefe da CIA para o leste na África, nos Emirados. “Ofereceram dinheiro, depois ofereceram ajuda para a região que eu controlava, ofereceram influência e poder na Somália, com cooperação dos EUA, mas recusei tudo”. Naquele momento, Indha Adde – como muitos muçulmanos em todo o mundo – viam os EUA como “arrogantes” e em cruzada contra o Islã. “Pessoalmente, eu pensava que até Osama [bin Laden] fosse homem bom, que só queria implantar a lei islâmica” – diz-me ele, numa de suas casas em Mogadisco.

Nem sempre Yusuf Mohamed Siad foi conhecido como Indha Adde. Como um dos senhores-da-guerra que dividiram e destruíram a Somália durante a guerra civil que se arrastou pelos anos 1990s, ele assumiu brutalmente o poder na região do baixo Shabelle, povoada por um clã rival. Sua ação ali lhe valeu o apelido de “Açougueiro”. Há quem diga que controlava operações de tráfico de drogas e armas pelo porto de Merca. Então, quando os ventos religiosos e políticos começaram a mudar na Somália, depois do 11/9, repaginou-se e converteu-se em xeique islâmico, em meados dos anos 2000s, dedicado a combater estrangeiros, inclusive outros senhores-da-guerra sustentados e comandados pela CIA.

Talvez mais que qualquer outro personagem, Indha Adde corporifica a constelação de ‘fidelidades’ e de solidariedades cruzadas que marcaram a Somália desde o fim do último governo estável, derrubado em 1991. E o personagem que encarna hoje traz em si todas as contradições do presente do país: é um senhor-da-guerra que acredita na lei da Xaria, é cúmplice da CIA e ganha milhões, em dinheiro e armas, da AMISOM (African Union Mission in Somalia). Em várias áreas de Mogadisco ninguém entra sem sua permissão; ele controla as maiores milícias; e, de todos os senhores-da-guerra, é quem controla o maior arsenal de armamento ‘técnico’ (armas automáticas pesadas montadas em caminhões) de toda a cidade.

Apesar de os EUA e outras potências ocidentais gastarem centenas de milhares de milhões de dólares em armas, treinamento e equipamento para militares de Uganda e Burundi, sob os auspícios da AMISOM, os militares somalianos continuam sem recursos e sem armas. Os soldados são mal pagos, indisciplinados e, no final das contas, mais leais aos respectivos clãs que ao governo central. É onde entram as milícias que Indha oferece para alugar.

Ao longo do ano passado, o governo da Somália e da AMISOM Awakening Councils nas áreas sunitas do Iraque em 2006, para comprar lealdade estratégica de ex-aliados do atual inimigo – nesse caso, do grupo Shabab. Alguns senhores-da-guerra, como Indha Adde, receberam cargos ministeriais ou patentes militares em troca de emprestar seus soldados para a luta contra o grupo Shabab. Vários são ex-aliados da Al-Qaeda ou do grupo Shabab, e muitos combateram contra a invasão dos etíopes patrocinados pelos EUA em 2006 ou contra a missão comandada pelos EUA na Somália no início dos anos 1990s que culminou no incidente que se conhece como “Falcão Negro em Perigo” [ing. Black Hawk Down] ( procuraram contato com tipos sinistros, num esforço duplo para construir alguma coisa que, pelo menos, se pareça com  um exército nacional e, como os EUA tentaram fazer com seus “Conselhos para Despertar” (ing. [1]).

O presidente da Somália Xeique Sharif Sheik Ahmed diz que Indha Adde e outros senhores-da-guerra juraram fidelidade ao governo, mas quem viaje por Mogadisco com Indha Adde comprova facilmente que seus homens são leais a ele, acima de qualquer outra lealdade. O presidente Sharif dava a impressão de nada saber dessa realidade, quando o encontrei em seu gabinete em Mogadisco. “Quanto mais território se ganhe, mais fácil será unir [as várias milícias] sob um só guarda-chuva”, disse ele.

Nem todos, no governo da Somalia veem as coisas do mesmo modo. “Esse pessoal não deveria ter qualquer função no atual governo”, diz Ahmed Nur Mohamed, prefeito de Mogadisco. “As milícias não apoiam o governo, mas estão à espera. É uma bomba-relógio: eles esperam, querem enfraquecer o governo, e esperam que o governo caia. Então, cada milícia ocupará uma área.”

Mohamed Afrah Qanyare, outro mal afamado senhor-da-guerra que foi apoiado durante anos pela CIA, concorda com essa avaliação-prognóstico. Entrevistado numa de suas casas em Mogadisco, tomando café, Qanyare manifesta desagrado por a CIA ter rompido relações com ele e não acredita que eu não trabalhe para ‘eles’. “Irlandeses-norte-americanos sempre são da CIA”, diz ele, rindo e dando palmadinhas no joelho de um deputado do Parlamento somaliano que veio prestar-lhe seus respeitos. E continua: “Seja como for, estão cometendo erro muito grave” – ao apoiar senhores-da-guerra que foram aliados do grupo Shabab e da Al-Qaeda, como Indha Adde. Diz que “há diferença entre conflito de ideologia e conflito de interesses”. “Os senhores-da-guerra que vocês [EUA] estão apoiando só se distinguem do grupo Shabab por um conflito de interesses, não por algum aspecto ideológico. Armá-los e apoiá-los é jogo muito perigoso.” 

* * *
Depois dos ataques do 11/9 e do “Vocês estão conosco ou estão contra nós” do presidente Bush, a Somália rapidamente tratou de oferecer apoio aos EUA. Naquele momento, o governo somaliano havia perdido o controle de praticamente o país inteiro, que, desde o início dos anos 90s estava sendo governado por senhores-da-guerra. Mesmo assim, o ministro das Relações Exteriores da Somália, Ismail Mamou “Buubaa” Hurre, apressou-se a escrever ao secretário de Estado dos EUA. Hoje, Buubaa cita a carta, de memória: “Estamos com vocês e tão preocupados quanto vocês sobre a possibilidade de a Al-Qaeda mudar suas bases para a Somália.” Diz também que Washington “demorou muito” a decidir-se e tomar a decisão de vir para cá”. E que, quando afinal chegaram, diz Buubaa, “o tiro saiu pela culatra”. Grave e espetacularmente pela culatra.

Quando a “guerra global ao terror” foi disparada, os EUA criaram uma Força Tarefa Combinada Unida para o Chifre da África. Em 2002, cerca de 900 militares e pessoal de inteligência foram mandados para a ex-base militar francesa de Camp Lemonier, no Djibuti. Essa base secreta rapidamente se converteria em centro de ações clandestinas dos EUA no Chifre da África e na Península Arábica, e plataforma de lançamento de operações da CIA e do Comando das Operações Especiais Conjuntas [ing. Joint Special Operations Command (JSOC)] contra alvos da Al-Qaeda fora dos cenários declarados de combate no Afeganistão. Foi parte da estratégia de guerra sem fronteiras, do governo Bush.

Quando ainda se discutia quais seriam os alvos selecionados dos EUA na Somália, especialistas experientes, profundos conhecedores da região, já se manifestavam contra toda a operação. “Não há nenhuma necessidade de correr para a Somália”, disse o ex-embaixador dos EUA na Etiopia, David Shinn. “Se estão à procura de alvos militares, meu palpite é que, por lá, não existem.” Ken Menkhaus, professor somaliano do Davidson College e ex-conselheiro político da ONU sobre a Somália, escreveu inúmeros artigos sobre a ausência de qualquer tradição de radicalismo islâmico na Somália. No início de 2002, estimou que não passaria de “entre dez e doze” o número de cidadãos somalianos (além de alguns poucos estrangeiros), que mantinham laços significativos com a Al-Qaeda. Por causa da “abismal” falta de informação de inteligência, disse Shinn, não se recomendavam, naquele momento, táticas de “saltar sobre o que aparecesse”.

Os EUA não conduziram soluções diretas de “saltar sobre o que aparecesse” na Somália. Mas iniciaram ali uma guerra-simulacro que usou e divulgou exatamente essa tática. Em vez de fazer contato com o governo somaliano, para enfrentar o que inúmeros especialistas definiam como ameaça relativamente pequena, sem gravidade ou urgência maiores, os EUA, na Somália, aproximaram-se de senhores-da-guerra como Qanyare. Escolheram um caminho que levaria a influência e o poder da Al Qaeda e do grupo Shabaa a crescer muito, crescimento que, hoje, já praticamente não se consegue avaliar.


Nota dos tradutores


[1] O incidente deu origem a um filme (“Falcão Negro em Perigo”, 2001). O enredo do filme é bom resumo dos eventos: “Em outubro de 1993, durante a guerra civil da Somália, soldados americanos participaram da Batalha de Mogadísco. Uma força de elite estadunidense foi enviada ao local para capturar generais que obedeciam a Mohamed Farrah Aidid. Porém, dois helicópteros Black Hawk [Falcão Negro] foram derrubados; e a operação, que deveria levar em torno de meia hora, tornou-se uma batalha de 15 horas, terminando com 19 estadunidenses mortos e 73 feridos, além de 1.000 somalianos mortos”.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pepe Escobar – “Líbia: A verdadeira guerra começa agora”

6/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

Chega de falar da derrubada do Grande Gaddafi. Agora, chegamos aos finalmentes: será Afeganistão 2.0, Iraque 2.0, ou uma mistura dos dois.

Os “rebeldes da OTAN” sempre garantiram que não querem ocupação estrangeira. Mas a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – sem a qual não haveria vitória dos “rebeldes” – não pode governar a Líbia sem coturnos em solo. Assim sendo, examinam-se hoje vários cenários virtuais no quartel-general da OTAN em Mons, Bélgica – a OTAN protegida sob o estofamento de veludo da ONU.

Segundo planos já vazados, mais cedo ou mais tarde podem aparecer por lá soldados das monarquias do Golfo Persa e aliados amigáveis, como a Jordânia e, especialmente, como a Turquia, que é membro da OTAN e interessada em embolsar vastos contratos comerciais. Dificilmente alguma nação africana fará parte do grupo – dado que a Líbia foi “relocalizada” e, agora, é parte das Arábias.

O Conselho Nacional de Transição aceitará – ou será forçado a aceitar – se, ou quando, a Líbia entrar em espiral de total caos. Mesmo assim não será produto fácil de vender internamente – com as furiosamente disparatadas facções dos ‘rebeldes da OTAN’ já empenhados freneticamente em consolidar seus respectivos feudos e prontas para saltarem, umas nos pescoços das outras.

Não se vê nem sinal, até aqui, de que o Conselho Nacional de Transição tenha qualquer ideia sobre o que fazer para administrar a complexa paisagem política dentro da Líbia, além das repetidas genuflexões ante o altar das nações membros da OTAN.

Guns e nada de roses

Na Líbia, praticamente toda a população está hoje armada até os dentes. A economia está paralisada. E já está em campo a mais feroz briga de gatos-do-mato pelo controle dos bilhões de dólares congelados dos líbios.

A tribo Obeidi está furiosa com o Conselho Nacional de Transição, porque não há nem sinal de investigação para saber quem matou o comandante militar do exército “rebelde” Abdul Fattah Younis dia 29 de julho. Já ameaçaram fazer justiça pelas próprias mãos.

Os principais suspeitos do assassinato são os homens da Brigada Abu Ubaidah bin Jarrah – uma milícia islâmica fundamentalista linha duríssima que rejeitou a intervenção da OTAN, recusou-se a combater sob comando do Conselho Nacional de Transição e declarou “infiéis” o Conselho e a OTAN.

Há também a pergunta que tantos tentam afogar em petróleo: quando o ramo da al-Qaeda na Líbia, a nuvem de guerrilha islâmica conhecida como Grupo Islâmico de Combate na Líbia [ing. Lybia Islamic Fighting Group (LIFG)], organizará seu próprio golpe para derrubar o Conselho Nacional de Transição?

Por toda Trípoli veem-se os ecos gráficos do inferno das milícias armadas que se viu no Iraque. O general Abdelhakim Belhaj - que trabalhou para a CIA-EUA e foi prisioneiro da “guerra ao terror” – original do círculo de Derna, o marco zero do fundamentalismo islâmico na Líbia – é o líder do novíssimo Conselho Militar de Trípoli.

Já houve acusações, feitas por outras milícias, de que Belhaj não combateu na “libertação” de Trípoli e, portanto, tem de deixar o posto – verdade ou mentira, é o que o Conselho anda dizendo. Isso significa que, mais dia menos dia, a nuvem indefinida conhecida como LIFG-al-Qaeda estará empenhada num dos lados da guerra de guerrilhas que virá – contra o Conselho Nacional de Transição, contra outras milícias ou contra todos.

Em Trípoli, rebeldes de Zintan, nas montanhas do oeste do país, controlam o aeroporto. O banco central, o porto de Trípoli e o gabinete do primeiro-ministro são controlados por rebeldes de Misrata. Berberes da cidade de montanha de Yafran controlam a praça central de Trípoli, coberta com dísticos de “Revolucionários de Yafran”, escritos com spray. Todos demarcam claramente os respectivos territórios, como aviso.

Como o Conselho Nacional de Transição, como unidade política, já está se comportando como pato manco; como as milícias não sumirão no ar – não é preciso muita imaginação pra prever que a Líbia será um novo Líbano. No Líbano, a guerra começou quando toda a cidade dividiu-se, cada subúrbio de um grupo: ou sunitas, ou xiitas, ou cristãos maronitas, ou nasseristas ou druzos.

Além do mais, a libanização da Líbia também inclui a mortal tentação muçulmana – que se espalha como vírus por toda a Primavera Árabe.

Pelo menos 600 salafistas que combateram na resistência sunita iraquiana contra os EUA foram libertados pelos “rebeldes” e deixaram a prisão de Abu Salim. É fácil prever que tirarão o máximo proveito possível das muitas Kalashnikovs e dos lança-granadas Sam-7, soviéticos, de ombro, para combate antiaéreo, aproveitando-os para reequipar sua milícia islâmica ultra linha-dura – sem se afastar de sua própria agenda e de sua própria guerra de guerrilhas.

Bem-vindos à nossa “democracia” racista

A União Africana (US) não reconhecerá o Conselho Nacional de Transição. Está acusando os “rebeldes” da OTAN de matar indiscriminadamente negros africanos, metidos todos num mesmo saco, identificados como “mercenários”.

Segundo Jean Ping, da União Africana, “o Conselho Nacional de Transição parece confundir pessoas de pele negra e mercenários (...) [Dão a impressão de que, para eles] todos os negros são mercenários. Um 1/3 da população líbia é negra. Para o Conselho Nacional de Transição, são todos mercenários”.

O pequeno porto de Sayad, 25 km a oeste de Trípoli, foi convertido em campo de refugiados para africanos negros apavorados com a nova “Líbia livre”. A organização Médicos sem Fronteira descobriu o campo dia 27 de agosto. Os refugiados dizem que, desde fevereiro, começaram a ser expulsos pelos donos das empresas e lojas onde trabalhavam, sempre acusados de serem mercenários – e, desde então, têm sido sistematicamente perseguidos.

Segundo a mitologia “rebelde”, o regime de Muammar Gaddafi seria protegido essencialmente por murtazaka (“mercenários”). A verdade é que Gaddafi empregou apenas um contingente de combatentes africanos negros – do Chad e do Sudão e tuaregues do Niger e do Mali. A maioria dos africanos negros subsaharianos que vivem na Líbia são trabalhadores migrantes, com empregos legais.

Para ver em que direção está andando essa coisa toda, é preciso olhar para o deserto. O imenso deserto líbio não foi conquistado pela OTAN. O Conselho Nacional de Transição praticamente não tem acesso a nenhuma gota d’água líbia e não chega a parte considerável do petróleo.

Gaddafi tem a chance de “trabalhar o deserto”, de negociar com várias tribos, de comprar e firmar a solidariedades delas e de organizar uma guerra de guerrilha de longo prazo.

A Argélia está envolvida em luta terrível contra a Al-Qaeda-no-Maghreb. Os 1.000 km da longa, porosa fronteira entre Argélia e Líbia continua aberta. Gaddafi pode facilmente plantar seus guerrilheiros no deserto do sul, com paraíso seguro na Argélia – ou até no Niger. Essa possibilidade já pôs o Conselho Nacional de Transição em estado de terror  e pânico.

A operação “humanitária” da OTAN já despejou no mínimo 30 mil bombas sobre a Líbia, nos últimos poucos meses. Pode-se dizer com segurança que muitos milhares de líbios foram mortos nos bombardeios. O bombardeio não pára nunca: mais um pouco, os únicos alvos da OTAN serão os mesmos – civis e não civis – que, em teoria, há alguns dias, a OTAN estaria “protegendo”.

Um Grande Gaddafi derrotado pode vir a revelar-se muito mais perigoso que um Grande Gaddafi no poder. A verdadeira guerra está começando agora. Será infinitamente mais dramática – e será trágica. Porque agora será uma guerra norte-africana darwiniana, guerra de todos contra todos, na qual só o mais forte sobreviverá.