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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Valores Britânicos: reais e imaginários


Como David Cameron faz o jogo do Estado Islâmico


3-5/4/2015, [*] Dan Glazebrook - Counterpunch
How David Cameron Plays Right Into the Hands of ISIS
Traduzido por Emex que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


David Cameron
por DonkeyHotey
David Cameron pisou na bola outra vez. Após os brutais ataques a visitantes do museu Bardo na Tunísia no mês passado, Cameron aproveitou para repetir uma das mais comuns e perniciosas falsidades de seu mandato como primeiro ministro, segundo a qual ele seria um firme defensor de uma série de perfeições morais que ele chama de “Valores Britânicos”.

Ao final, disse ele, nossos valores – liberdade de expressão, democracia, o primado da lei – ... haverão de se impor.

Convenientemente, ele só se esqueceu de dizer, é claro, que os atentados de Túnis foram o resultado direto de sua própria decisão resoluta, tomada em 2011, de transformar a Líbia num saladão de ultrassectários esquadrões da morte racistas, nos quais foram treinados os perpetradores dos atentados de Bardo.

Mas esse tema – o da obstinada fidelidade de Cameron aos valores britânicos frente aos ataques islamistas – foi exaustivamente trazido à tona a cada vez que um europeu somou-se às dezenas de milhares de vítimas líbias, nigerianas, malianas, sírias, argelinas e iraquianas de sua política de recrutamento de militantes sectários como ferramenta de mudança de regime. Por exemplo, quando Lee Rigby foi morto em Londres por um homem (Michael Adebolajo), a quem o serviço de inteligência britânica, o MI5, havia oferecido emprego  algumas semanas antes, Cameron disse que:

(...) os terroristas nunca vencerão porque eles não poderão com os valores que nos são caros, com nossa crença na liberdade, na democracia, na liberdade de expressão, em nossos valores britânicos, em nossos valores ocidentais.

E quando Mohammed Emwazi conquistou o status de celebridade instantânea, graças à mídia-empresa britânica, que repercutiu seus atos de decapitação de jornalistas e trabalhadores humanitários postados em YouTube, Cameron disse que os atos de Emwazi  eram “o extremo oposto de tudo o que este país representa”, isso apesar do fato de que seus próprios serviços de inteligência terem recrutado Emwazi para seus trabalhar para eles, da mesma forma como facilitaram a ida do provável treinador do mesmo Emwazi para a Síria.

Mohammed Emwazi (Jihad John)
O papel crucial de Cameron na criação e no apoio aos esquadrões da morte que ele diz combater é, no entanto, bem conhecido por aqueles que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio; eu mesmo e outros tantos temos extensivamente escrito sobre o tema aqui e alhures. O que quero criticar no presente texto é a afirmação de Cameron segundo a qual a democracia, o primado da lei, a liberdade de expressão e a tolerância são de fato “valores britânicos” seja lá em que sentido for. Na verdade, esses valores não têm origem britânica e nunca foram sinceramente praticados pelos governos britânicos.

Tomemos o exemplo da democracia. Nem mesmo os textos didáticos tradicionais afirmam que esta nasceu na Grã-Bretanha; supõe-se geralmente que Atenas foi o berço da democracia (ainda que haja cada vez mais evidências de que os atenienses se basearam em sistemas já existentes na África). É claro que Cameron tem uma resposta para isso. Em seu artigo publicado em Daily Mail depois da confusão do mítico “complô do Cavalo de Tróia”, ele escreveu que:

(...) muitos dirão que estes valores sãos vitais para outros povos de outros países... Mas a especificidade britânica está em suas tradições e em sua história, que dão esteio a estes valores e lhes permite continuar, florescer e se desenvolver. Nossa liberdade não surgiu do nada. Ela se enraíza em nossa democracia parlamentar.

O que ele não menciona é que essa versão particular da democracia está baseada numa profunda desconfiança em relação ao povo e foi consciente e abertamente arquitetada para mantê-lo o mais distante possível dos processos decisórios. É importante observar igualmente que o governo britânico sempre concedeu o poder de voto a apenas uma fração de privilegiados. E isso continua a ser assim. Os proprietários de negócios não aristocratas só tiveram o direito de voto em 1832, depois de se tornaram imensamente ricos; esse direito só foi estendido aos trabalhadores 35 anos mais tarde, mas apenas àqueles que recebiam os mais altos salários e gozavam de altos padrões de vida.

Quando o privilégio do sufrágio universal masculino foi conquistado na Grã-Bretanha em 1918, ele foi evidentemente negado às dezenas de milhares de súditos coloniais (inclusive aos muitos católicos da Irlanda do Norte), cujo trabalho e cujas riquezas criavam então condições relativamente privilegiadas para os súditos metropolitanos. Mesmo hoje, os poderes britânicos vão muito além de suas fronteiras territoriais, e os iraquianos, afegãos, líbios, somalianos e outros que estão sujeitos aos seus maiores abusos não têm voz na formação do governo. Se democracia significa que os subordinados ao poder têm alguma influência sobre aqueles que o detêm, a Grã-Bretanha lamentavelmente não cumpre tal requisito.

Tony Blair - Criminoso de Guerra
E quanto ao primado da lei? Uma vez mais, apesar dos 800 anos de existência da Carta Magna constantemente fanfarreada por Cameron, quando se trata de questões internacionais, ele tem tratado este aparentemente sacrossanto princípio britânico com o mais absoluto desprezo. Desde seu apoio à destruição do Iraque por Tony Blair em 2003, passando por seu próprio ataque fulminante à Líbia em 2011, Cameron tem sido um arrogante defensor da guerra de agressão- definida pelo Tribunal de Nuremberg, para que não esqueçamos, como

(...) não apenas um crime internacional; [mas] o crime internacional supremo, diferente de outros crimes de guerra apenas por conter em si toda a vileza que se possa acumular.

E até mesmo no âmbito doméstico, Cameron tem mais que alegremente violado o primado da lei quando lhe convém. Assim, ao menor sinal de agitação civil em 2011, o governo Cameron instruiu magistrados a que ignorassem suas próprias orientações legais e pusessem na cadeia qualquer pessoa “envolvida” na insurreição juvenil, por mais anódina que fosse sua infração, fazendo assim pouco caso da independência judicial.

Pior ainda, cada semana que passa é prolífica em evidências da aparente colusão entre serviços de inteligência, polícia e ministros do governo para facilitar e cobrir a mais horrenda escalada de abusos sexuais de crianças – e tudo indica que o governo Cameron tem feito todo o possível para atrasar as investigações e limitar suas consequências. O primado da lei pode ser muito valorizado na Grã-Bretanha, mas certamente ele não se aplica aos escalões sociais mais elevados que Cameron representa. Em matéria de tolerância e liberdade de expressão, a Grã-Bretanha parece sair-se um pouco melhor. Mas isso apenas se ignorarmos a história, a política estrangeira e a própria legislação antiterrorismo de Cameron. Historicamente, é muito difícil dizer que a Grã-Bretanha tem sido um modelo de tolerância.

Não precisamos voltar aos tempos em que o Rei Eduardo expulsou os judeus (muitos dos quais buscaram refúgio nos impérios islâmicos, historicamente muito mais tolerantes) ou àqueles das leis anticatólicas (em vigor até 1829 e abolidas apenas sob a ameaça de uma guerra civil na Irlanda) para nos depararmos com a discriminação institucionalizada: batidas policiais racializadas vêm aumentando desde 1999, quando o comitê de investigação MacPherson concluiu que a polícia britânica é “institucionalmente racista”.

Racismo da polícia britânica
Isso não chega a surpreender, visto que o próprio Império Britânico foi construído com base na intolerância e na discriminação, privando os povos nativos de direitos políticos e amiúde reduzindo-os a uma condição legal ligeiramente diferente daquela atribuída a animais ou propriedades. Quanto a isso, as leis de 2012 impostas pelo governo líbio sob tutela da OTAN, que ameaçam com a prisão perpétua os defensores do governo anterior e garantem impunidade a quem os matar, estão em plena harmonia com as práticas britânicas historicamente aplicadas no estrangeiro, e não têm nada a ver com nenhum mítico engajamento com “tolerância” ou liberdade de expressão. No plano interno, a definição de “extremismo” dada por Cameron inclui as variedades não violentas e se combina com novas propostas draconianas para garantir que todas as instituições educacionais  estejam livres de qualquer sombra de tais extremismos. Tais medidas são a própria antítese da liberdade de expressão, como já foi observado por analistas de todos os matizes políticos.

Mas talvez o que há de mais insidioso seja a declaração de Cameron segundo a qual “o modelo ocidental combinando uma vibrante democracia com a liberdade de empresa tem permitido grande progresso e prosperidade”. Na verdade, o “modelo ocidental” não tem sido baseado em nenhuma “vibrante democracia”, mas precisamente no seu oposto, com a expoliação da vasta maioria das pessoas submetidas ao seu jugo. Assim aconteceu com os autóctones da América do Norte, com os africanos escravizados num passado recente, com os incontáveis milhões de pessoas subjugadas pelas medidas de ajuste estrutural do FMI ou submetidas aos bombardeios da OTAN. Isso não foi tampouco baseado a liberdade de empresa. Estudiosos como Ha-Joon Chang   mostraram em detalhes que, na verdade, todas as nações ocidentais se serviram de um amplo protecionismo para alcançar suas prosperidades.

Mesmo hoje, as mais ponderosas indústrias do Ocidente – do agronegócio estadunidense ao poder financeiro britânico, passando pelas companhias farmacêuticas – são completamente dependentes de subsídios governamentais, o que fica claramente demonstrado pelos US$ 15 trilhões globalmente atribuídos aos banqueiros após o crash financeiro de 2007-2008. Protecionismo e colonialismo, e depois neocolonialismo, são as verdadeiras e contínuas bases da prosperidade ocidental.

Crash financeiro-2007-8
Atribuir essa prosperidade a uma série de “valores” os quais nunca foram levados a sério pelas elites governantes da Grã-Bretanha constitui não apenas uma falsificação da história, mas uma calúnia contra aqueles cuja expoliação e empobrecimento têm sido o reverso dessa prosperidade. Precisamos ser honestos sobre o papel das colônias britânicas nas Américas, na Ásia e na África na criação da prosperidade britânica, bem como sobre o papel dessa mesma prosperidade britânica no surgimento e na perpetuação da pobreza nos territórios colonizados. Só assim poderemos ter esperanças de genuinamente construir uma sociedade inclusiva baseada no respeito mútuo e na compreensão para todos aqueles que só estão aqui, na Grã-Bretanha, porque nós estivemos lá, colonizando seus territórios.

As elites que governam a Grã-Bretanha têm consistentemente minado os valores que elas afirmam abraçar – e ninguém fez mais isso do que o maior dos advogados dessa elite, o próprio David Cameron, cujo discurso nem por isso se vê desprovido de significação. Num certo sentido, o presente artigo passa ao lado do essencial ao tomar à letra os tais princípios sagrados e ao questionar a coerência do governo britânico nesse campo. Isso porque o verdadeiro objetivo do discurso de Cameron não é nunca foi estabelecer um padrão a cujo alcance deveríamos aspirar. Muito pelo contrário.

Seu único objetivo é fornecer um porrete com o qual massacrar o Islã. Não é que nós, os britânicos, devamos realmente praticar os tais “valores britânicos”; a questão é fornecer sólidas fundações para odiar as sociedades islâmicas, que sempre foram mostradas como sendo os grandes transgressores desses valores. Que não haja mal-entendido – e Cameron se empenha constantemente em afirmar – que “a vasta maioria dos muçulmanos britânicos cumpridores da lei compartilha estes valores”. Mas essa linguagem leva-nos a crer que os muçulmanos que compartilham tais valores o fazem graças a seu britanismo e apesar do Islã.

Ódio dos jovens muçulmanos (Egito, 1/2/2013)
O perigo desse discurso é múltiplo. Não apenas ele reforça os preconceitos ignorantes sobre a “aversão” do Islã à democracia, ao primado da lei e à tolerância, mas ele também justifica a rejeição de tais valores por grupos como o Exército Islâmico. Porque este último é o primeiro a acreditar na mensagem de Cameron, segundo a qual tais valores seriam “britânicos” e “ocidentais”. E assim, os povos que odeiam a Grã-Bretanha – o Ocidente e todo o mal que estes têm feito ao mundo – sentem-se no direito de odiar os valores que estas sociedades supostamente abraçam. Esquece-se ainda que a cultura islâmica têm, bem mais que o Ocidente, uma longa e orgulhosa história de prática desses valores democráticos. E por quê esquecem isso?

Porque eles acreditam nas distorções de sua própria história perpetradas por Cameron e outros de sua laia. Assim sendo, quanto mais Cameron proclamar que democracia, tolerância e primado da lei são apanágios britânicos – insinuando por esta mesma via que estes valores são estranhos ao Islã – mais jovens muçulmanos coléricos, que veem suas pátrias sendo destruídas pelos britânicos, cairão na órbita desses grupos que rejeitam estes valores. O que faz o jogo de Cameron. Mais muçulmanos juntando-se ao Exército Islâmico significa mais combatentes em sua guerra por procuração contra  Assad – isso sem um único soldado voltando pra casa dentro de um caixão. Isso, pelo menos, nos ajuda a entender quais são os verdadeiros valores de Cameron.
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[*] Dan Glazebrook é professor de História, articulista político e escritor britânico especializado em relações internacionais e crítico contundente do uso da violência pelo Estado britânico tanto no plano interno como na atuação internacional. Escreve usualmente para o Morning Star, Z magazine, The Independent, The Guardian, Al Ahram e Counterpunch entre outros. É um dos coordenadores, no Reino Unido da União Internacional de Parlamentares pela Palestina.
Recebe e-mails em: danglazebrook2000@yahoo.co.uk

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A guerra do ocidente contra a África


20/2/2013, Dan Glazebrook, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dan Glazebrook

A destruição, pelos EUA-OTAN, do sistema de segurança do Sahel-Saara beneficiou aqueles que desejam ver a África permanecer no papel de fornecedor subdesenvolvido de matérias-primas baratas, escreve Dan Glazebrook



A imagem clássica da África, difundida pela imprensa-empresa ocidental – um saco gigante, cheio até a boca de guerras infindáveis, fome, crianças abandonadas – cria a ilusão de um continente que dependeria existencialmente do que lhe dê a caridade ocidental.

Soldados tuaregues malianos patrulham as ruas de Gao, norte do Mali, no sábado 
A verdade é exatamente o contrário disso. O ocidente é que depende existencialmente do que extráia da África. O que o ocidente obtém da África é obtido de várias, muitas maneiras. Dentre essas maneiras, os fluxos ilícitos de recursos; os lucros que, invariavelmente, acabam nos cofres dos bancos ocidentais pelas trilhas dos paraísos fiscais, como já está fartamente documentado no livro Poisoned Wells [Poços envenenados], de Nicholas Shaxson. Ou pelo mecanismo de extorsão do sistema das dívidas nacionais, pelo qual bancos ocidentais emprestam dinheiro a governantes militares, quase sempre postos no poder com a ajuda de forças ocidentais, como Mobutu, ex-presidente do Congo; esses governantes apropriam-se do dinheiro emprestado, quase sempre em contas privadas no próprio banco que emprestou ao país, cabendo ao país a missão de pagar juros exorbitantes que crescem exponencialmente.

Pesquisa recente de Leonce Ndikumana e James K. Boyce descobriu que mais de 80 centavos de cada dólar emprestado deixaram o país devedor em “voos do capital”, no período de um ano, sem jamais terem sido investidos no país devedor; e que $20 bilhões são drenados da África, por ano, como pagamento “do serviço da dívida” desses “empréstimos” essencialmente fraudulentos.
Latuff  2013 (Opera Mundi)
Outra via pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário, é o saque de minérios. Países como a República Democrática do Congo são saqueados por milícias armadas que roubam recursos naturais do país e os revendem a preços inferiores aos dos mercados a empresas ocidentais; muitas dessas milícias são controladas de países vizinhos, como Uganda, Ruanda e Burundi, os quais, por sua vez, são patrocinados pelo ocidente – como relatam rotineiramente os relatórios da ONU.

E há também a via, talvez a mais importante, pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário: os preços escandalosamente baixos pagos na compra de matérias primas da África e, sempre, da força de trabalho africana que minera minérios, cultiva o que seja cultivável ou colhe o que tenha de ser colhido. Assim acontece que a África, de fato, subsidia os altos padrões de vida no ocidente e as empresas e corporações ocidentais.

Esse é o papel atribuído à África pelos donos da economia capitalista ocidental: fornecedora de recursos e de mão de obra de baixo preço. Para que o trabalho e os recursos continuem baratos, exige-se, basicamente, que a África continue subdesenvolvida e pobre; se prosperar, os salários crescem; se se desenvolver em termos tecnológicos, os preços dos recursos se somarão ao valor agregado antes da exportação; e valor agregado tem de ser pago.

Assim sendo, a extração de petróleo e de recursos minerais a baixo preço depende de manter os estados africanos frágeis e desunidos. A República Democrática do Congo, por exemplo – cujas minas produzem dezenas de bilhões de dólares de minérios todos os anos – só arrecadou, em recente ano fiscal, miseráveis $32 milhões de impostos sobre material extraído das minas, por causa das guerras por procuração que o ocidente mantêm ativas na região, entre milícias patrocinadas pelo ocidente.

União Africana
A União Africana (UA), criada em 2002, surgiu como ameaça nova contra tudo isso: um continente africano mais integrado e unificado, não seria tão facilmente saqueado. O que mais preocupou os estrategistas ocidentais foram os aspectos financeiros e militares da unificação africana. Num nível financeiro, os planos para a constituição de um Banco Central Africano (que criaria uma moeda africana única, o dinar, com lastro-ouro) ameaçariam gravemente a capacidade de EUA, Grã-Bretanha e França para continuar a saquear o continente. Todo o comércio africano feito mediante o dinar-ouro implicaria, em última instância, que os países ocidentais teriam de pagar em ouro por recursos africanos que comprassem, não mais, como até agora, em libras, francos ou dólares que, bem feitas as contas, sempre podem ser impressos em papel podre.

As duas outras instituições financeiras previstas pela União Africana – o Banco Africano de Investimentos e o Fundo Monetário Africano – também comprometeriam fatalmente a capacidade de instituições como o Fundo Monetário Internacional para manipular as políticas econômicas dos países africanos mediante seu monopólio das finanças. Como o economista Jean-Paul Pougala mostrou, o Fundo Monetário Africano, com capital inicial previsto de $42 bilhões “rapidamente suplantará as atividades africanas do Fundo Monetário Internacional, o qual, com apenas $25 bilhões, conseguiu pôr de joelhos o continente inteiro e obrigou a África a engolir um processo muito questionável de privatizações, forçando os países africanos a converter-se em monopólios privados”.

Além desses desenvolvimentos fiscais potencialmente ameaçadores, houve também movimentos no front militar. A reunião de cúpula da União Africana em 2004 em Sirte, Líbia, decidiu elaborar uma Carta de Defesa e Segurança Comum Africana, que incluía um artigo que estipulava que “qualquer ataque contra um país africano é considerado ataque contra o continente como um todo” – copiada, de fato, da Carta da OTAN. Em seguida, em 2010, foi criada uma Força Reserva Africana (FRA), com delegação para defender e fazer valer as definições da Carta de Defesa. Bem evidentemente, se a OTAN tivesse de desmontar a unidade africana pela força das armas, quanto mais depressa agisse, melhor para a OTAN.

Mas a constituição da Força de Reserva Africana representou, além de uma ameaça, também uma oportunidade. Embora houvesse, sem dúvida, a possibilidade de ela vir a ser força genuína para a independência, para resistir ao colonialismo e para defender a África contra a agressão imperialista, criava-se, simultaneamente, a possibilidade de, adequadamente manobrada e sob a liderança adequada, aquela mesma força converter-se em seu oposto – uma força para promover a subjugação colonial, ligada numa cadeia de comando ocidental. As apostas eram – e são – altíssimas.

Os preparativos militares dos ocidentais na África

O ocidente também já iniciara seus preparativos militares para a África. O declínio econômico do ocidente, além da ascensão da China, indicava que o ocidente já não poderia depender tão essencialmente da chantagem econômica e da manipulação financeira para manter o continente fraco e subjugado. Vendo claramente que isso implicava a necessidade crescente de ação militar para manter a dominação, documento publicado em 2002 pela Iniciativa Grupo de Política para o Petróleo Africano [orig. African Oil Policy Initiative Group] recomendava que “um foco novo e vigoroso sobre a cooperação militar dos EUA na África subsaariana inclua o projeto de uma estrutura de comando militar subunificada que possa produzir dividendos significativos na proteção dos investimentos dos EUA”. Essa estrutura veio à luz em 2008, sob o nome de Comandos dos EUA na África, AFRICOM.

Contudo, os custos – econômicos, militares e políticos – da intervenção direta no Iraque e no Afeganistão (só o custo da guerra do Iraque já ultrapassa os 3 trilhões de dólares) indicavam que o AFRICOM teria de depender basicamente de tropas locais, para o serviço de guerrear e morrer. O AFRICOM teria de ser o corpo que coordenaria (e coordenou) a subordinação de exércitos africanos presos a uma cadeia ocidental de comando. Isso, em outras palavras, converteu exércitos africanos em exércitos ocidentais “por procuração”.

Mapa das riquezas minerais do Sahel/Saara com o Mali ao centro
O maior obstáculo a esse plano era a própria União Africana, que, em 2008, categoricamente rejeitou qualquer presença de militares dos EUA em solo africano, o que forçou o AFRICOM a instalar seu quartel-general em Stuttgart, Alemanha, humilhação para o presidente G. W. Bush, que já anunciara, pessoalmente, sua intenção de implantar o AFRICOM em território africano. O pior viria em 2009, quando o então líder líbio Muammar Gaddafi – o mais empenhado inimigo das políticas imperialistas no continente – foi eleito para presidir a União Africana. Sob o comando de Gaddafi, a Líbia já se convertera em principal mantenedora e financiadora da União Africana. Agora, o mesmo Gaddafi propunha processo rápido de integração africana, que incluía a constituição de exército africano unificado, moeda única e passaporte único.

O destino de Gaddafi já é de conhecimento público. Depois de montar a invasão da Líbia a partir de um pacote de mentiras ainda maior do que o que servira de pretexto para a invasão do Iraque, a OTAN destruiu a Líbia, reduziu o país à condição de mais um estado africano falhado e facilitou a tortura e o assassinato de Gaddafi. Assim se viu livre de seu principal opositor.

Naquele momento, tudo levava a crer que a União Africana teria sido domada. Três de seus membros – Nigéria, Gabão e África do Sul – votaram a favor da intervenção militar na Líbia, no Conselho de Segurança da ONU; e o novo presidente, Jean Ping, apressou-se a reconhecer o novo governo que a OTAN impôs na Líbia e pôs-se a denegrir as realizações de Gaddafi. Fez mais: proibiu a assembleia da União Africana de fazer um minuto de silêncio, depois do assassinato de Gaddafi.

Sahel/Saara - Região objeto da cobiça dos EUA-OTAN
Mas esse quadro não durou. Os sul-africanos foram os primeiros a arrepender-se do apoio à intervenção; nos meses seguintes, o presidente Zuma e o ex-presidente Thabo Mbeki fizeram sérias críticas à OTAN. Zuma disse – com razão – que a OTAN agira ilegalmente ao impedir o cessar fogo e as negociações que a Resolução da ONU exigia, já intermediados pela União Africana e com os quais Gaddafi já concordara. Mbeki foi além: disse que o Conselho de Segurança da ONU, ao ignorar as propostas da União Africana, estava tratando “os povos da África com absoluto desprezo”, o que fez aumentar “a sanha das potências ocidentais para intervir em nosso continente, inclusive com força armada, para proteger os próprios interesses, sem considerar a posição dos próprios africanos”.

Experiente diplomata sul-africano, do Departamento de Relações Internacionais do Ministério de Relações Exteriores da África do Sul, disse que “muitos estados da Comunidade Sul Africana de Desenvolvimento [orig. Southern African Development Community, SADC], sobretudo África do Sul, Zimbábue, Angola, Tanzânia, Namíbia e Zâmbia, que tiveram papel chave nas lutas de libertação sul-africanas, não estavam satisfeitos com o modo como Ping conduziu a questão do bombardeio da Líbia pelos jatos da OTAN”. Em julho de 2012, Ping foi forçado a deixar a presidência da União Africana e foi substituído – com apoio de 37 estados africanos – por Nkosazana Dlamini-Zuma, ex-ministra de Relações Exteriores da África do Sul, braço direito de Mbeki e, bem claramente, militante do campo oposto ao dos capitulacionistas de Ping. Mais uma vez, a União Africana estava sob comando de forças comprometidas com genuína independência.

O assassinato de Gaddafi, porém, não tirou de campo apenas um poderoso membro da União Africana; removeu também o eixo em torno do qual girava todo o sistema de segurança regional na região do Sahel-Sahara. Usando cuidadosa e complexa mistura de força, projeto e desafio ideológico e negociação, a Líbia de Gaddafi sempre foi a cabeça de um sistema de segurança transnacional que conseguira impedir que milícias salafistas se implantassem na região – como reconheceu, em 2008, o embaixador Christopher Stevens, dos EUA:

Christopher Stevens
O governo da Líbia empreendeu operações agressivas para interromper o fluxo de combatentes estrangeiros, inclusive com monitoramento cerrado dos portos e aeroportos de entrada, e rechaçou o apelo ideológico do Islã radical (...). A Líbia coopera com estados vizinhos no Saara e Sahel, para conter o fluxo de combatentes extremistas e terroristas transnacionais. Muammar Gaddafi negociou recentemente um muito divulgado acordo com líderes tribais tuaregues da Líbia, Chade, Niger, Mali e Argélia, conseguindo que desistissem de suas aspirações separatistas e das práticas de contrabando (de armas e de extremistas transnacionais) em troca de assistência para o desenvolvimento dos seus países e apoio financeiro (...) Nossa avaliação é que o fluxo de combatentes estrangeiros da Líbia para o Iraque e o fluxo reverso de veteranos do Iraque para a Líbia diminuiu por causa da cooperação entre a Líbia e outros estados – disse Stevens.

Essa “cooperação entre a Líbia e outros estados” refere-se à CEN-SAD (Community of Sahel-Saharan States / Comunidade de Estados Sahel-Saarianos), organização lançada por Gaddafi em 1998 visando ao livre comércio, livre movimentação de pessoas e desenvolvimento regional de seus 23 estados-membros, mas com foco principal na segurança mútua e na paz. Além de conter a influência das milícias salafistas, a CEN-SAD desempenhou papel chave mediando conflitos entre Etiópia e Eritreia e na região do rio Mano; e negociou solução duradoura e sustentável para a rebelião no Chade. A CEN-SAD tinha sede em Trípoli e a Líbia, sem dúvida, era a principal força do grupo. De fato, o apoio da CEN-SAD foi fator determinante para a eleição de Gaddafi à presidência da União Africana em 2009.

A própria eficácia desse sistema de segurança local foi um duplo golpe contra a hegemonia do ocidente na África: não apenas aproximou a África de uma condição de paz, na qual a prosperidade local tornava-se possível, como, também, simultaneamente, esvaziava o pretexto chave para todas as intervenções militares do ocidente no continente. Os EUA haviam criado uma sua “Parceria de Contraterrorismo Trans-Saara” [orig. “Trans-Sahara Counter-Terrorism Partnership” (TSCTP)], mas, como Mutassim Gaddafi (conselheiro de Segurança Nacional da Líbia) explicou à ex-secretária de Estado Hillary Clinton em Washington em 2009, a “Comunidade de Estados Sahel-saarianos (CEN-SAD) e a Força de Reserva tornam dispensável qualquer TSCTP”.

Enquanto Gaddafi esteve no poder e comandou um efetivo e poderoso sistema de segurança regional, as milícias salafistas no Norte da África não podiam ser usadas como “terrível ameaça” para justificar invasões e ocupação pelo ocidente, para salvar os nativos desamparados. Ao conseguir fazer o que o ocidente diz desejar (mas, em todos os pontos, fracassa sempre) – neutralizar o “terrorismo islamista”– a Líbia tirou dos imperialistas um pretexto chave para todas as guerras que fizeram contra a África. Ao mesmo tempo, impediram que as milícias continuassem a desempenhar outra função histórica que sempre tiveram, servindo ao ocidente como força “alugada”, que agia por procuração, para desestabilizar estados seculares independentes, como Mark Curtis documentou em seu excelente Secret Affairs. O ocidente apoiou esquadrões da morte salafistas em campanhas para desestabilizar a URSS e a Iugoslávia, com grande sucesso; e planejava fazer o mesmo contra a Líbia e a Síria.

A África depois de Gaddafi

Com a OTAN trabalhando para fazer da Líbia estado falhado, esse sistema local foi destroçado. As milícias salafistas não receberam só equipamento militar ultra moderno, cortesia da OTAN; receberam também carta branca para saquear os arsenais do governo líbio e um paraíso seguro a partir do qual organizar ataques por toda a região. As fronteiras entraram em colapso, com a aparente conivência do novo governo líbio e de seus patrocinadores na OTAN – como registra um trágico relatório da empresa de segurança global Jamestown Foundation.

Segundo esse relatório, “Al-Wigh era importante base estratégica do regime Gaddafi, localizada em região próxima das fronteiras com Niger, Chade e Argélia. Depois da queda de Gaddafi, a base passou a ser controlada por combatentes da tribo Tubu, sob comando nominal do Exército Líbio, mas sob comando local de um comandante tubu, Sharafeddine Barka Azaiy, que reclamou que “durante a revolução, controlar essa base era assunto de máxima importância estratégica. Conseguimos ocupar a base. Agora nos sentimos abandonados. Não temos equipamento suficiente, nem viaturas nem armas para proteger a fronteira. Embora sejamos parte do exército nacional, ninguém nos paga soldo”.

O relatório conclui que “o Conselho de Governo Nacional Líbio (GNC) e o que havia antes dele, Conselho Nacional de Transição (TNC), falharam na segurança de importantes instalações militares no sul e permitiram que a segurança de vastas porções de fronteira no sul fossem, de fato, “privatizadas” nas mãos de grupos tribais, conhecidos há muito tempo pela prática, ali tradicional, de contrabando. Isso, por sua vez, põe em risco a segurança da infraestrutura do petróleo líbio e a segurança das regiões vizinhas. Com a venda e o transporte de armas líbias já convertidos em mini-indústria na era pós-Gaddafi, as imensas quantidades de dinheiro com que conta a Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM) conseguem abrir muitas portas, em região empobrecida e subdesenvolvida. Ainda que a invasão francesa no norte do Mali consiga desalojar os militantes islamistas, nem assim haverá o que impeça os mesmos grupos de estabelecer novas bases nas áreas mal controladas do deserto selvagem no sul da Líbia. Enquanto não houver estruturas de segurança controladas por autoridade central na Líbia, o interior desse país continuará a ser ameaça de segurança para todas as demais nações na região”.

Mali e fronteiras. O trecho hachurado em vermelho é a área  tomada pelos salafistas
A vítima mais óbvia dessa desestabilização foi o Mali. Não há analista sério que não saiba que a tomada do Mali pelos salafistas é consequência direta da ação da OTAN na Líbia. Um dos resultados do avanço da desestabilização promovida pela OTAN no Mali é que a Argélia – que perdeu 200 mil cidadãos numa guerra civil contra os islamistas nos anos 1990s – está hoje cercada por milícias salafistas pesadamente armadas em duas fronteiras: ao leste (fronteira com a Líbia) e ao sul (fronteira com o Mali). Depois da destruição da Líbia e da derrubada de Hosni Mubarak no Egito, a Argélia é hoje o único estado do norte da África ainda governado pelo partido anticolonialista que conquistou a independência contra a tirania das forças coloniais europeias.

Esse postura de independência ainda está bem evidente na atitude da Argélia em relação à África e à Europa. No front africano, a Argélia é forte apoiadora da União Africana, contribuindo com 15% do orçamento da organização; e tem 16 bilhões de dólares empenhados na constituição do Fundo Monetário Africano, o que faz dela o maior contribuinte do FMA. E nas relações com a Europa, a Argélia tem-se recusado repetidamente a fazer o papel de nação subordinada que a Europa espera dela. Argélia e Síria foram os dois únicos países da Liga Árabe que votaram contra o bombardeio da OTAN contra a Líbia e a Síria. E, como se sabe, a Argélia deu abrigo a membros da família Gaddafi que fugiam de ser massacrados pela OTAN.

Mas, do ponto de vista dos estrategistas europeus, muito mais preocupante que tudo isso é, provavelmente, que a Argélia – com o Irã e a Venezuela – constituem o que eles chamam de uma “[Organização dos Países Produtores de Petróleo] OPEC linha dura”, empenhados em vender caro o acesso aos seus recursos nacionais. Como se lia recentemente em furibundo artigo publicado no London Financial Times, “o nacionalismo dos recursos” impera. Resultado disso, “as Grandes do Petróleo padecem muitas dificuldades na Argélia; as empresas reclamam da burocracia que as esmaga, dos controles fiscais duríssimos e do comportamento abusivo da Sonatrach, a empresa estatal de energia, que participa de quase todos os contratos de petróleo e gás”. Na sequência, o artigo observa que a Argélia implementou “um controverso imposto monstro” em 2006, e cita um executivo de petroleira ocidental em Argel, que disse que “as empresas [de petróleo] estão fartas da Argélia”.

É instrutivo observar que o mesmo jornal também acusou a Líbia de “nacionalismo dos recursos” – ao que parece, o crime mais hediondo, na avaliação daqueles leitores – apenas um ano antes da invasão da OTAN.

Evidentemente, “nacionalismo dos recursos” significa precisamente que os recursos de uma nação sejam usados, em primeiro lugar, para promover o desenvolvimento em benefício da própria nação, não em benefício de empresas estrangeiras e, nesse sentido, a Argélia bem merece a “acusação”. A Argélia exporta mais de cerca de $70 bilhões em petróleo por ano, e muito desse dinheiro tem sido usado em investimentos massivos em moradia e saúde pública, além de um financiamento recente de $23 bilhões, num programa de estímulo para pequenos comerciantes. De fato, esses altos níveis de investimentos sociais são considerados por muitos como a principal razão pela qual não se viram levantes da “Primavera Árabe” na Argélia, em anos recentes.

A mesma tendência de “nacionalismo dos recursos” também aparece anotada em recente material distribuído por STRATFOR, empresa de inteligência global, que escreveu que “a participação estrangeira na Argélia sofreu, em larga medida, por causa de políticas protecionistas aplicadas pelo governo militar fortemente nacionalista”. Seria evento particularmente preocupante, diz STRATFOR, em momento em que a Europa aproxima-se de situação em que se tornará muito mais dependente do gás argelino, com as reservas no Mar do Norte em processo de esgotamento. “Desenvolver a Argélia como grande exportador de gás natural é imperativo econômico e estratégico para os países da União Europeia, em momento em que a produção da commodity entra em declínio terminal na próxima década. A Argélia já é importante fornecedor de energia para o continente, mas a Europa precisará de acesso expandido àquele gás natural, para suprir o declínio de suas reservas indígenas” – diz STRATFOR.

Os planos das Grandes do Petróleo para a África

Prevê-se que as reservas britânicas e holandesas de gás no Mar do Norte estarão esgotadas no final dessa década; e que as da Noruega entrarão em acentuado declínio a partir de 2015. Com a Europa temerosa de tornar-se superdependente do gás da Rússia e da Ásia, o relatório anota que a Argélia – com reservas de gás natural estimadas em 4,5 trilhões de metros cúbicos, e reservas de gás de xisto de 17 trilhões de metros cúbicos – tornar-se-á fornecedora essencial. Mas o maior obstáculo para que a Europa controle esses recursos ainda é o governo da Argélia – com suas “políticas protecionistas” e seu “nacionalismo dos recursos”.

Mapa legendado da Argélia  elaborado pelo Repsol (petróleo & gás) 
Sem dizê-lo abertamente, o relatório conclui sugerindo que uma Argélia desestabilizada e convertida em “estado falido” seria sempre preferível a uma Argélia sob governo “protecionista”. E sugere que “o envolvimento que se vê hoje das majors de energia da União Europeia em países de alto risco, como Nigéria, Líbia, Iêmen e Iraque, indica saudável tolerância à instabilidade e a problemas de segurança”.

Em outras palavras: em tempos de segurança privada, o Big Oil já não carece de estabilidade ou da proteção do estado para seus investimentos. Zonas de desastre são toleráveis. Intoleráveis, só estados fortes e independentes.

Já aparece, portanto, no radar dos interesses estratégicos da segurança energética do ocidente, uma Argélia reduzida a estado falhado, exatamente como o Iraque, o Afeganistão e a Líbia um dia apareceram no mesmo radar.

Com isso em mente, é fácil ver como a política aparentemente contraditória de armar milícias salafistas num primeiro momento (na Líbia) e imediatamente depois passar a bombardeá-las (no Mali) faz, de fato, perfeito sentido. A missão francesa de bombardeio visa, nas próprias palavras dos franceses, à “total reconquista” do Mali. Na prática, implica empurrar os rebeldes gradualmente para o norte do país. Quer dizer: diretamente para a Argélia.

Vê-se afinal que a deliberada destruição do sistema de segurança que a Líbia coordenava em toda a região do Sahel-Saara trouxe vastos benefícios para os que contam com que a África permaneça presa no papel de fornecedora subdesenvolvida de matéria prima barata. O processo já armou, treinou e assegurou território para milícias que, em seguida, serão usadas na destruição da Argélia – o único grande estado rico em recursos naturais do norte da África ainda empenhado numa genuína unidade africana, com independência. A operação também persuadiu alguns africanos de que – diferente da rejeição unânime contra o AFRICOM, há pouco tempo – eles realmente precisam, hoje, de que o ocidente os “proteja” daquelas milícias.

Como a clássica venda de proteção à moda das máfias, o ocidente cuida de tornar sua proteção “necessária”: arma e atiça ele mesmo as forças contra as quais, adiante, as pessoas terão de ser protegidas.

Agora, a França está ocupando o Mali; os EUA estão montando uma nova base de drones no Niger; e o primeiro-ministro britânico David Cameron fala de seu compromisso com uma nova “guerra ao terror” que se alastrou sobre seis países e durará décadas.

Mas nem tudo caminha bem, no front imperialista. Longe disso, porque o ocidente, sem dúvida alguma, contava com não ter de mobilizar seus próprios soldados. O objetivo inicial era sugar a Argélia e colhê-la exatamente na mesma armadilha já usada com sucesso contra a União Soviética nos anos 1980s – exemplo anterior de Grã-Bretanha e EUA, patrocinando violenta insurgência sectária nas fronteiras do território inimigo, para atrair o inimigo-alvo para guerra destrutiva de retaliação. A guerra da URSS no Afeganistão, no final, não apenas fracassou: ela também, no processo, destruiu a moral e a economia do país e foi fator chave por trás da autodestruição do estado soviético em 1991.

Mas a armadilha para pegar a Argélia não funcionou. A jogada de Clinton e François Hollande, fazendo a cena do “policial bonzinho” e “policial durão” – uma “pressionando para a ação” em Argel, em outubro; e as ameaças dos franceses, dois meses depois – deu em nada.

Simultaneamente, em vez de se manterem fiéis ao roteiro, os imprevisíveis salafistas, na função de simulacros locais do ocidente, optaram por expandir sua base no norte do Mali, não na direção da Argélia, como previsto, mas para o sul, rumo a Bamako, ameaçando desestabilizar um regime aliado do ocidente, ali instalado, por golpe, menos de um ano antes. Os franceses foram obrigados a intervir, para mandar os salafistas de volta para o norte, de volta contra o estado que, desde o início, deveria ter sido seu alvo real.

Até aqui, essa invasão parece contar com certo nível de apoio entre os africanos que temem os salafistas simulacros do Ocidente, ainda mais do que temem os próprios soldados ocidentais. Mas, à medida que a ocupação se aprofunde, desconstruindo a credibilidade dos salafistas e ultrapassando-os em número de soldados ocupantes, ao mesmo tempo em que se for conhecendo a brutalidade dos ocupantes e de seus aliados... então, veremos.

Veremos quanto tempo durará tudo isso. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

A primavera do povo: o futuro da revolução árabe


6/1/2013, Dan Glazebrook [resenha], Morning Star Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sobre: AMIN, Samir. The People's Spring: The Future Of The Arab Revolution, 2012, Fahamu Books & Pambazuka Press, £16.95



Dan Glazebrook
O livro de Samir Amin é exposição crucialmente importante de como o Islã político apoia a agenda imperialista no mundo árabe. O lançamento não poderia ser mais oportuno. Samir Amin estava escrevendo sobre o uso do Islã político como ferramenta do imperialismo para minar regimes seculares, durante anos. Mas, na década que se seguiu à 2ª. Intifada de 2000, quando a jihad armada devastava exércitos ocidentais, de Basra a Helmand, sua tese não poderia ser mais contraintuitiva, para dizer o mínimo.

Os eventos dos dois últimos anos, com os islamistas outra vez atuando como tropa de choque do imperialismo na Líbia e na Síria, ao mesmo tempo em que promovem a globalização neoliberal em áreas do Egito as quais nem Mubarak conseguira alcançar, estão mostrando que o “Islã político” continua tão útil ao imperialismo como sempre foi.

O livro mapeia o desenvolvimento do Oriente Médio e do Egito, ao longo dos últimos 2000 anos, das origens à queda como articulador dos sistemas comerciais mundiais, mediante as tentativas sempre interrompidas e retomadas de modernização, durante os séculos 19 e 20, até o declínio que se seguiu à derrota de Nasser na Guerra dos Seis Dias. Mas as partes mais interessantes do livro são aquelas em que se rastreiam os desenvolvimentos dos últimos 50 anos.

Interessante: cerca de 80% do livro já estava escrito antes das explosões sociais do início de 2011. Delineando as crescentes pressões e conflitos sociais que precederam os levantes, Amin mostra que pouco havia ali de surpreendente ou inesperado. Mas mostra também que, embora a captura dos levantes populares pela Fraternidade Muçulmana não fosse absolutamente inevitável, também foi altamente previsível.

Desde o tempo de Sadat, argumenta Amin, o estado egípcio já era cúmplice no crescimento do poder da Fraternidade Muçulmana. A derrota de Nasser em 1967, e sua morte, em 1970, resultaram numa capitulação ao imperialismo e a um correspondente declínio nos padrões de vida e na legitimidade do regime.

Para compensar, o estado buscou ganhar legitimidade religiosa, entregando sistematicamente ao controle de islamistas várias instituições poderosas – os meios de comunicação, a educação, as cortes de justiça. Todo esse processo aprofundou-se depois do colapso da União Soviética, o que levou a uma nova onda de neoliberalismo e de empobrecimento, acompanhada de tentativas renovadas para canalizar a oposição em direção puramente religiosa.

Para Amin, a aparente “contradição” entre o estado de Sadat-Mubarak e o da Fraternidade não passa de encenação. O Egito vem sendo governado por uma espécie de aliança entre essas duas forças, já há muito tempo.

Fraternidade Muçulmana
O imperialismo sempre foi cúmplice no processo, permitindo aos seus amigos sauditas que fizessem jorrar dinheiro sobre a Fraternidade Muçulmana, que era, assim, capaz de continuar a prover serviços essenciais, como assistência médica, onde o Estado era forçado, pelo FMI, a fazer cortes e mais cortes.

Hoje, as forças ocidentais apoiam completamente que a Fraternidade ocupe e passe a controlar o país. Como Amin explica:

...o único objetivo de Washington e seus aliados, Israel e a Arábia Saudita, é fazer abortar o movimento egípcio democrático; para isso, querem, mesmo, impor ali um regime islâmico sob a direção da Fraternidade Muçulmana – o único meio que há para que consigam perpetuar a submissão do Egito.

A Fraternidade, mediante o pleno apoio à política imperial de “mudança de regime” na região, e a redução da economia egípcia a um sistema de mercado informal, de bazaar, é aliada perfeita para o imperialismo, no serviço de “conter” a emergência do Egito como estado forte e independente.

O programa da Fraternidade implica capitulação ante o capital globalizado e os militares norte-americanos, ao mesmo tempo em que se mantém o status quo. Não surpreende que Cameron e Hague se mostrem apoiadores tão empenhados dos Irmãos.