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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Hora de “3ª força” na Síria

16/9/2014, [*] China Hand (Peter Lee) − China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Obama: "A al-Qaeda está debandando!"
Desde que o presidente Obama proferiu aquele seu discurso “crISis®” [2] tenho lutado para afastar o que entendo que sejam predições simplistas do fracasso da “guerra” de Obama, que se sirvam de argumentos como “força aérea não ocupa” e “armar rebeldes sírios anti-Assad ostensivamente moderados é sempre exercício no campo da futilidade”.

Dia 12/9/2014, escrevi:

A parte mais deprimente da estratégia dos EUA é que, tanto quanto posso ver, considera-se a campanha anti-Estado-Islâmico como Cavalo de Troia, uma chance para ajudar, fortalecer e promover forças anti-Assad. Quer dizer: em vez de cooperar com, literalmente, o único estado do Oriente Médio disposto a pôr no solo um exército inteiro contra o Estado Islâmico (a Síria!), os EUA recusam-se a trabalhar com a Síria e, em vez disso, vão treinar e equipar uma força anti-Assad e anti-EI, ao que se sabe, na Arábia Saudita, que é menos uma milícia de “insurgentes” venais comprados pelos EUA e mais uma força militar de ataque controlada e disciplinada e usada pela CIA-USA e, diferente do nosso mais conhecido experimento anterior desse tipo – a invasão da Baía dos Porcos – essa força terá muito, muito, muito poder aéreo.

A ideia, presumivelmente, é que o EI é acossado por drones e ataques aéreos (e a frota de superpetroleiros deles que estão transportando cru para a Turquia é destruída) e retrocede; a força apoiada pelos EUA então avança e ocupa o território deixado vazio, antes de que Assad consiga chegar. Com sorte, a força atrairá os espirituais aliados do EI que preferem um cheque em dólares norte-americanos e imunidade contra ataques aéreos, a ser convertido ao estado de átomos dispersos. Assim, os EUA podem orquestrar as demandas de uma oposição síria viável para que Assad “saia”... em nome de preservar a unidade nacional, receber total apoio dos EUA e guerra total, sem mercê contra o Estado Islâmico. VITÓRIA!

Meus saberes assumidamente imperfeitos sobre o processo de tomada de decisões do governo dos EUA dizem-me que alguém tem de ter apresentado ao presidente Obama uma proposta dessas... de vitória dos EUA na Síria... ou, pelo menos, alguém tem de ter aparecido com algum argumento plausível de chance de vitória dos EUA na Síria. Tem de ter sido isso... antes de Obama tomar a decisão politicamente horrível de engolir de re-entrar até o pesçoco na areia movediça do Oriente Médio.

Riad al-Asaad
Claro presságio dessa abordagem já aparecia na declaração do Exército Sírio Livre de que não participará da coalizão anti-Estado-Islâmico. É. Você leu certo: não participará. Ainda que o Exército Sírio Livre já esteja na gaveta do EI, mesmo assim poderia aproveitar-se de alguma ajuda dos EUA.

O fundador do grupo, coronel Riad al-Asaad, disse que a prioridade deles é derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad e não unirão forças com EUA sem garantia de que os EUA estão dedicados a derrubar Assad.

O mais provável é que o coronel al-Asaad tenha justificada desconfiança da nova iniciativa dos EUA, porque era claro que a CIA já vinha negociando diretamente com os comandantes mais viáveis e mais capazes, para tirá-los do Exército Sírio Livre.

Patrick Cockburn expôs essa história dia 9/9/2014, com alguma ajuda de McClatchy:

Patrick Cockburn
O Exército Sírio Livre, elogiado nas capitais ocidentais como provável vitorioso no embate militar contra o presidente Assad, já estava em pleno colapso no final de 2013. O comandante militar do ESL, general Abdul-Ilah al Bashir, que desertou do governo sírio em 2012, disse em entrevista com a agência de notícias McClatchy semana passada que a CIA já assumira o comando dessa nova força moderada. Disse que “o comando do Exército Sírio Livre é norte-americano”; acrescentou que desde dezembro passado o suprimento de equipamentos norte-americanos já atropelara a liderança do ESL na Turquia e estava sendo feito diretamente a mais de 14 comandantes no norte da Síria e a 60 grupos menores no sul do país. O general Bashir disse que todos esses grupos do Exército Sírio Livre reportam-se diretamente àCIA.

Bem, perdoem-me uns passinhos de dança da vitória. Garantido que a dama gorda pôs os bofes para fora de tanto que cantou esse canto.

Do depoimento de Dempsey, comandante dos chefes do Estado-Maior dos EUA, ao Congresso, segundo o Guardian:

Martin Dempsey
Na Síria, os EUA buscam treinar rebeldes sírios “selecionados” para capturar território sírio tomado pelo ISIS. Hagel e Dempsey reconheceram que uma coorte inicial de 5 mil homens das forças de oposição síria não estará preparada antes de, no mínimo, oito meses.

“5 mil não bastarão para virar a maré, reconhecemos isso” – disse Hagel. Nem ele nem Dempsey descartaram pedir mais poderes e mais dinheiro para construir uma “versão” de exército sírio no futuro.

Quanto ao presidente Assad, acho que ele está cansado de saber que a estratégia é “primeiro-ISIL”, “Assad-segundo”:

[Dempsey] e Hagel negou [negaram], quando perguntado[s] pelo Senador John McCain (…) se os novos aliados dos EUA receberiam cobertura aérea se atacados pelo “ditador sírio Bashar al-Assad”.

Chuck Hagel
“Ainda não chegamos lá, mas nosso foco é o ISIL”, outro nome do mesmo ISIS, disse Hagel.

Dempsey – cuja renúncia McCain havia exigido, dada a relutância do general em usar soldados dos EUA contra Assad – concedeu que “se tivéssemos de descartar [lutar contra] Assad, teríamos “ainda maiores dificuldades” para persuadir os sírios a unir-se à coalizão; mas disse que o governo, sim, tem uma estratégia de “primeiro o ISIL”.

Guardian, como eu, também enfrentou alguma dificuldade para encontrar o nome certo para essa força. Não acho que “exército por procuração” [orig. “proxy army”] resolva o caso, porque o tal “exército”, embora constituído de soldados sírios, não de unidades militares norte-americanas, estará sob o comando diário da CIA e não lhe será permitido afastar-se um passo que seja nem trabalhar por agendas políticas, estratégicas e táticas próprias deles, como acontecia com o desmoralizado Exército Sírio Livre.

“3ª Força” me parece nome adequado nesse caso.

Não penso necessariamente que a tal estratégia dará resultados, e com certeza tem menos chances de funcionar que alguma aliança que una os três atores que hoje já estão com os afamados “coturnos em solo” e já estão dando combate determinado ao Estado Islâmico: os governos sírio e iraniano e os curdos sírios. Basicamente, os EUA acalentam esperanças de que dinheiro, ataques aéreos, o comando da CIA e muito pó-de-pirlimpimpim conseguirão fazer sumir o Estado Islâmico, o suficiente para que os EUA possam dedicar-se integralmente a derrubar o regime de Assad – escondidos por trás de algum discurso sobre “governo de unidade nacional” como no Iraque – como um espécie de preço pelo esforço adicional dos EUA contra o Estado Islâmico.

Jihadistas do ISIS-ISIL preparam contramedidas
Os EUA já tentaram antes a própria sorte com essas estratégias de “3ª Força”, mas o apoio dos EUA, embora tenha obtido sucesso de curto-prazo, praticamente sempre se converteu em beijo-da-morte para a legitimidade da força local e, afinal, de sua própria viabilidade. Assad, ISIS, Irã e Rússia estão afanosamente preparando contramedidas para assegurar que a estratégia de evolução lenta dos EUA não acabe por queimá-los.

Mas eu acho que aí está importante lembrete de como o presidente Obama e burocracias governamentais, de fato, todas as burocracias, funcionam.

Políticas falhadas como o golpe de “terceirizar” o golpe para derrubar Assad transferindo-o para rebeldes dominados por jihadistas não são só políticas velhas re-embaladas. Não só porque o presidente Obama é sujeito cerebral, avesso a fracassos. As coisas são como são, também porque há toda uma rede de apoio de governo, militares e especialistas e planejadores de think tanks, cujo trabalho é aparecer com algum plano plausível, com alguma chance de sucesso – mesmo que sua única chance para existir seja que a inexequibilidade do tal plano ainda não esteja claramente demonstrada por fracasso prévio.

Assim sendo, critiquem o quanto queiram o plano do presidente Obama. Mas ninguém jamais ouvirá a crítica de que “tudo isso já falhou antes”. Porque o que realmente interessa na repetição é que, se os EUA falharem, falharão de modos novos, jamais vistos.

Não há de ter escapado à análise que o presidente Obama certamente fez, o fato de que o processo está agendado para arrastar-se por pelo menos três anos – caso em que o fracasso, se ocorrer, será entregue em pacote sanguinolento deixado à porta da presumível próxima presidente, Hillary Clinton. [Pano rápido]

Obama e o ISIS/ISIL (discurso de 10/9/2014)
À guisa de Post-Scriptum, e uma vez que a bola de cristal desse nosso blog China Matters parece estar em magníficas condições de funcionamento, começo a achar que já se esgotou o prazo de validade da aliança entre os EUA e o Reino da Arábia Saudita.

Indicador chave será se o presidente Obama cumprir aquela promessa de campanha do candidato Obama e mandar revelar o conteúdo das 28 páginas excluídas do Relatório da Comissão do 11/9.

As linhas gerais do que lá está escrito são bastante bem conhecidas e comprovam a culpa de indivíduos e do que parecem ser funcionários do governo do Reino Saudita nos ataques do 11/9/2001. Mas esse material é considerado altamente embaraçoso para o governo Bush, por causa de seus contatos íntimos com a Arábia Saudita e disposição para permitir que figuras sauditas chaves fugissem dos EUA em avião que decolou secretamente para evitar questionamentos do FBI; tudo isso considerado, a pouca disposição do atual governo para ordenar a divulgação desses documentos; e o motivo pelo qual Obama enfrentou sem revidar as críticas cínicas e irresponsáveis de Dick Cheney contra as políticas antiterror do atual governo já são, há algum tempo, uma espécie de mistério.

Minha opinião, porém, é que a chave de todos esses mistérios é que a Arábia Saudita assinou aliança de autoproteção com Israel, cuja capacidade para fazer-acontecer o que deseje em Washington supera em muito a capacidade d’ “O Reino”.

Netanyahu, PM de Israel, firmou acordo militar com o Rei Abdullah da Arábia Saudita
Pelo modo como vejo as coisas, a cooperação entre Israel e a Arábia Saudita é fundada num desejo conjunto de manter o Irã sempre sob o status de pária, e bem afastado de qualquer relação normal com os EUA, evento que empurraria Israel e Arábia Saudita na direção da periferia das políticas dos EUA para o Oriente Médio.

A Arábia Saudita, por sua vez, atiça determinadamente o fogo da crise na Síria, porque a necessidade do Irã, de apoiar Assad, põe o Irã em oposição aos EUA. Israel bate o tambor de alarme contra “a ameaça” nuclear do Irã e, suspeito eu, diz ao governo Obama que tanta atenção aos wahhabistas e excessos anti-EUA do governo saudita – como as páginas arrancadas do relatório da Comissão do 11/9 – desestabilizariam a Arábia Saudita e dariam ajuda e conforto ao Irã.

Mas... agora o Exército Islâmico é escorregão em mais um sangrento incômodo contra a campanha brutal, mal feita, de subversão regional, comandada pela Arábia Saudita; o boomdo gás de xisto convenceu os EUA de que a segurança energética do país já não é refém de “O Reino”; que os EUA já não dependem de rapapés ostensivos a favor de um regime de degola gente por “feitiçaria”; o presidente Obama gostaria de ver a aproximação com o Irã, como seu legado; e é possível que Obama também se sinta enojado pelo oportunismo basal que foi forçado a exibir na questão dos mais recentes massacres contra Gaza, por israelenses. E sabe-se, claro, que Barry & Bibi detestam-se.

Obama preparando acordo nuclear com o Irã
Por tudo isso, se o presidente Obama pensa que pode enfiar a agulha, concluir as negociações nucleares com o Irã e talvez até convencer o Irã a jogar Assad debaixo do ônibus tudo num mesmo negócio... é de supor que venha a arrancar da tomada o fio que mantém ativo um relacionamento colossalmente tóxico com a Arábia Saudita – doença-perversão mortal, marcada pelos ataques do 11/9 e que já consumiu 15 anos, mais de dois trilhões de dólares e milhões de vidas ceifadas, e ainda sem falar de dar a conhecer ao mundo o conteúdo amaldiçoado daquelas 28 páginas.
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Notas dos tradutores

[1] Orig. 3rd Force. Foi expressão usada por líderes do Congresso Nacional Africano no final dos anos 1980s e começo dos 1990s, em referência a uma força clandestina a cujas atividades o CNA atribuía os surtos de violência em KwaZulu-Natal e cidades em torno e ao sul do Witwatersrand (ou “Rand”). A Comissão de Verdade e Reconciliação descobriu que:

Embora haja poucas provas de qualquer “3ª força” com comando central, coerente e formalmente constituída, uma rede de ex-agentes de segurança e de forças de repressão, quase sempre atuando em conjunção com elementos de direita e/ou setores do Inkatha Freedom Party (IFP), formado pela nobreza zulu e fortemente nacionalista, apareceuenvolvida em ações que podem ter sido concebidas exclusivamente para fomentar a violência e que resultaram em graves violações de direitos humanos, incluindo assassinatos em massa e pontuais premeditados.

[2] Aí se reúnem: o verbo cry [chorar/choramingar] + IS [Estado Islâmico, ing.], para compor a palavrascrisis [crise] e – o melhor de tudo: criando um adjetivo-comentário que se aplica ao discurso de Obama sobre o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS, ing.). Sensacional “achado” (que justifica o signo de “todos os direitos autorais reservados”, muito merecido), mas que nos pareceu intraduzível. Sugestões são bem-vindas.
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[*] China Hand (Peter Lee) é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Parece que os EUA jogaram duro (e sujo) na Ucrânia

(e contra a União “Foda-se” Europeia)

24/1/2014, [*] Peter Lee, China Matters blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Catherine Ashton cumprimenta Yulia Timishenko ao final da reunião entre a
"nova cúpula" ucraniana e representantes da União Europeia, ontem, 25/2/2014.
Quando se falou de um acordo mediado pela União Europeia entre a oposição e o governo na Ucrânia, achei que Yanukovich conseguira escapar do tiro.

Nada disso.

Ao analisar as circunstâncias da queda de Yanukovich, é interessante examinar as maquinações de Victoria Nuland, neoconservadora do Departamento de Estado (casada com Robert Kagan), a qual, pelo que se vê, recebeu carta branca, de Obama, para fazer na Ucrânia o que lhe desse na telha.

Considere-se o seguinte:

Por trás do já famoso áudio de “Foda-se a União Europeia” vê-se o sentimento, nela, de que a União Europeia não estava suficientemente confrontacional, contra o governo ucraniano; sobretudo na questão das sanções.

Para saber o que seria considerado “suficientemente confrontacional”, considere-se a matéria da AFP de janeiro passado, exibida no canal Yahoo! Sports – porque o personagem, Rinat Akhmetov, é proprietário do mais bem-sucedido time de futebol da Ucrânia:

O homem mais rico da Ucrânia, Rinat Akhmetov, dono do clube de futebol Shakhtar Donetsk, está tendo influência, possivelmente decisiva, no impasse na Ucrânia entre forças de segurança e manifestantes.

Akhmetov é, há muito tempo, considerado o principal aliado do presidente Viktor Yanukovych. Financiou o Partido das Regiões, atualmente no governo, e que Akhmetov também representou como deputado, no Parlamento; e vem da mesma região a leste do (rio) Donetsk, a mesma base eleitoral do presidente.

Mas, numa virada possivelmente crucial, numa crise que gerava temores de um conflito civil prolongado, Akhmetov distribuiu, no sábado, uma declaração, em termos fortes, alertando que o uso da força contra manifestantes era inaceitável e que a única saída possível seriam negociações.

Rinat Akhmetov 
Poréééééém… 

... os motivos de Akhmetov para opor-se tão furiosamente à implantação de estado de emergência para pôr fim aos protestos podem não ter sido completa e perfeitamente altruístas.

Segundo o influente site de notícias Ukrainska Pravda, a secretária-assistente de Estado dos EUA Victoria Nuland, em dezembro, em visita à Ucrânia, manteve encontro secreto com Akhmetov em Kiev, no qual lhe disse que ele e outros ricos apoiadores do Partido das Regiões enfrentariam sanções da União Europeia e dos EUA, se a Polícia usasse força contra os “manifestantes”.

Para um empresário de reputação internacional e propriedades fora da Ucrânia, inclusive uma casa luxuosa em Londres, a ideia soou, com certeza, bem pouco interessante.

E há ainda muuuuuuuuuuuuuuuuuito mais, por favor:

Akhmetov controlava um grupo de pelo menos 40 deputados do Partido das Regiões, governante, no parlamento Verkhovna Rada.

Mas... O que aconteceu depois que a União Europeia negociara um acordo transicional, de partilha de poder, com o governo da Ucrânia?

Foi o fim da trégua. Acabou-se o cessar-fogo. O fogo recomeçou.

E como a trégua acabou e o fogo recomeçou? (Veja como, em No mínimo 70 manifestantes mortos em Kiev hoje:

Sem apoiar a trégua, “manifestantes” usaram coquetéis molotov e avançaram contra os policiais na 5ª-feira (20/2/2014) na capital da Ucrânia. Atiradores do governo revidaram os tiros e seguiu-se tumulto quase medieval que fez pelo menos 70 mortos e centenas de feridos, segundo um médico que participava do protesto..


A trégua anunciada no final da 4ª-feira (19/2/2014) pareceu não merecer confiança dos “manifestantes” linha dura. Um comandante de campo, Oleh Mykhnyuk, disse à AP que, mesmo depois da chamada “trégua”, os “manifestantes” continuaram a lançar coquetéis molotov contra os policiais antitumultos na praça. Ao raiar do dia a polícia recuou, os “manifestantes” perseguiram os policiais e os policiais atiram contra os “manifestantes”, segundo Mykhnyuk.

Deputados comemoram a "mudança de lado" de 15 colegas que se bandearam
Mas... e no Parlamento? O que aconteceu no Parlamento? Veja em: Thirteen more Party of Regions’ members leave parliamentary faction (trad. Mais 13 deputados das Regiões abandonam a coalizão parlamentar):

O vice-presidente do Parlamento ucraniano, Ruslan Koshulynsky anunciou que mais deputados haviam deixado o Partido das Regiões.

Citou Oleksandr Volkov, Yuriy Polyachenko, Vitaliy Hrushevsky, Volodymyr Dudka, Yaroslav Sukhy, Artem Scherban e mais um deputado, cujo nome Koshulynsky pronunciou de modo ininteligível; todos eles haviam deixado o Partido das Regiões.

Mais tarde, Koshulynsky anunciou os nomes de mais quatro deputados que haviam deixado o Partido das Regiões – Viktor Zherebniuk, Ivan Myrny, Hennadiy Vasylyev e Nver Mkhitarian. Mais tarde, acrescentou àquela lista os nomes de Larysa Melnychuk e Serhiy Katsuba.

O Partido das Regiões, pois, perdera 42 deputados, 28 na 6ª-feira (21/2/2014) e outros 14 no sábado (22/2/2014) .

Não sei se algum deles seria gente de Akhmetov. Seria interessante investigar. Seja como for, saíram deputados do Partido das Regiões em número suficiente para dar a maioria às forças pró-União Europeia e carta branca ao Parlamento para tomar outras iniciativas de “limpar” o campo, como impor o impeachment do presidente sem o devido processo legal, repudiar todas as revisões constitucionais (e reimpor a Constituição de 2004), e livrar Yulia Timoshenko da cadeia.

Yulia Timoshenko
Com olhos menos generosos, pode-se, sim, suspeitar que os EUA estimularam as manifestações e incentivaram os grupos a romper a trégua, apostando em que

(a) haveria violência e

(b) os gatos gordos que ainda apoiavam Yanukovich, como Akhmetov, logo abandonariam o barco, porque os EUA já os haviam informado de que o dinheiro deles depositado no ocidente seria congelado (sob sanções que os EUA imporiam imediatamente).

Se isso tiver acontecido bem assim, a União Europeia tem razões extras para sentir-se traída pelos EUA. Ao romper a trégua e o acordo de transição, Nuland demoliu Yanukovich e pôs na roda o preferido dos EUA, “Yats” – Arseniy Yatsenyuk. Mas ao custo de alienar definitivamente o segmento pró-Rússia da Ucrânia, segmento, deve-se lembrar, que realmente conseguira eleger Yanukovich em eleições livres e justas, há pouco tempo.

Em todos os casos, graças a uma interpretação “criativa” da Constituição ucraniana, o Parlamento, agora a favor do ocidente, autoconstituiu-se, ele sozinho, como o órgão primário e legítimo de governo, já nomeou novo primeiro-ministro e já marcou eleições para dezembro.

Dado que esse novo governo já nasce quebrado e precisando de cerca de $30 bilhões de novos empréstimos para chegar ao fim do ano, pode-se conjecturar que o ocidente não fez negócio, afinal, muito lucrativo. Mas parece que todos no novo governo estão alegremente dispostos a aceitar um pacote completo do FMI, graças ao qual, pelas minhas contas, a Ucrânia se autoacorrentará em posição de vassalagem, presa ao ocidente pela dívida, por muitos e muitos anos, incapaz de voltar aos sempre acolhedores braços da Rússia.

Se o leste e o sul da Ucrânia – fortalezas onde persistem os sentimentos pró-Rússia – conseguirão enfrentar a catástrofe da “restruturação” à moda do FMI que seus vizinhos ocidentais parecem tão ansiosos para aceitar, já é outro problema.

Que ninguém se surpreenda, se, desse miraculoso novo broto nascido da arrogância obamiana e da super arrogância dos neoliberais neoconservadores, nascer mais um grande triunfo no processo da “construção de nações” assemelhado ao que fizeram na Líbia e no Sudão do Sul, só que, dessa vez, com o fiasco bem à vista e depositado no colo dos vizinhos da Ucrânia, bem ali, na União Europeia.

Será também interessante ver se a Rússia cede aos seus mais baixos instintos e suspende a entrega dos $15 bilhões que prometeu originalmente para ajudar Yanukovich. (Pensamento interessante: será que esse golpe estimulado pelos EUA foi “cronometrado” para coincidir com os Jogos Olímpicos de Sochi, sob a hipótese de que Putin não interviria, com certeza, enquanto estivessem em andamento os seus preciosos jogos? Hmmm).

Mas me parece que, ao apoiar abertamente a insurreição e pôr-se ao lado de um grupo de militantes, com o objetivo de impor tal nível de estresse ao governo ucraniano que ele – e especialmente o aparentemente incapaz e incompetente presidente, Yanukovich – não conseguiu aguentar, os EUA, me parece, atravessaram uma espécie de Rubicão.

Os EUA apoiaram abertamente e entusiasticamente um violento putsch contra governo democraticamente eleito do qual os EUA não gostavam.

“Jornalistas” fãs entusiastas neoliberais, não se pode deixar de anotar, flanaram por sobre toda essa lama, sem nem molhar os sapatos... Nada, exceto a tediosa babação rotineira dos “correspondentes” ocidentais, aparentemente hipnotizados pela ostensiva queima de pneus e pelos coquetéis molotov da narrativa dos “combatentes da liberdade” organizados para ocultar a luta política.

Fazem-me lembrar de como a imprensa-empresa deixou-se enganar durante a Guerra do Iraque, período histórico que sou suficientemente velho para lembrar, mas jornalistas mais jovens não lembram... ou decidiram esquecer.

Na Ucrânia... como na Venezuela

A recém descoberta paixão do governo Obama por agitação de rua para derrubar governos eleitos não cúmplices de Washington passa agora pelo seu segundo teste em campo, na Venezuela.

Caracas começa a aparecer nas imagens “jornalísticas” como cidade gêmea de Kiev.

A juventude neoliberal conservadora das universidades privadas já está nas ruas procurando briga e pretextos para treinamento pró violência direitista e golpista, como viram fazerem os seus irmãos fascistas ultranacionalistas na Ucrânia.

Estudantes bolivarianos exigiram o desame de seus colegas terroristas em
manifestação de 16/2/2014
Se o artigo de Carl Gibson em Reader Supported News cita corretamente documento autêntico, a USAID, com a ajuda de consultores e da Colômbia, já tinha mapeados planos para desestabilizar a Venezuela mediante sabotagem econômica no final de 2013; e, pelo relato de Gibson, também para incitar os tumultos e confrontações de rua:

Sempre que possível, a violência deve causar mortos e feridos. Encorajar greves de fome de vários dias, mobilizações massivas, problemas nas universidades e em outros setores da sociedade que atualmente estão identificados com instituições do governo [de Nicolás Maduro].

Não tenho dúvida alguma de que Leopoldo Lopez, o líder da oposição na Venezuela, é o homem dos EUA em Caracas. O artigo de Gibson também acrescenta, como detalhe, que há um telegrama distribuído por Wikileaks que parece ligá-lo ao Centre for Applied NonViolent Action and Strategies, CANVAS, a ONG de fachada, mantida com dinheiro norte-americano, para promover democracia cum golpe de mudança de regime, que o presidente Yanukovich expulsou de Kiev pouco antes de ser deposto.

A Venezuela parece ser fraturável por linhas de classe (não por linhas étnicas, de russos vs ucranianos; nem regionais/ tribais, de cirenaicos vs tripolitanos, como a Líbia; nem confessionais, de sunitas vs xiitas, como a Síria). Assim sendo, o trabalho de catapultar para o poder um grupo pró-elites norte-americanas pode ser mais sangrento e mais prolongado que a aventura ucraniana.

Mas não há dúvidas de que os EUA têm dinheiro e paciência para luta prolongada, sobretudo porque os povos sacrificados estão a mais de mil quilômetros de distância de Washington.

Na China

Acho que, no caso da República Popular da China, os EUA planejam a seguinte jogada de intercepção:

(1) os EUA promoverão ativamente a subversão política de todos os inimigos dos EUA (promover a subversão política dos inimigos dos EUA não é “mito” nem é “teoria conspiratória” com os quais os governos alvos ou se consolam ou se autoaterrorizam!);

(2) os chineses não deixarão que se constitua nenhum partido de oposição (na China), muito menos que chegue às urnas; e não permitirão nenhuma aglomeração na praça central da cidade; e

(3) a China ameaçará preventivamente todos os ativistas que tenham laços com os EUA ou o ocidente, como sendo subversivos de facto e contrarrevolucionários.

Xi Jinping e Barack Obama em 11/6/2013
Nada garante que a vigilância ampliada na República Popular da China se traduza em algo próximo da liberalização democrática pela qual o ocidente tanto anseia, para os estúpidos cidadãos chineses. Em vez disso, o plano prevê que o regime chinês atire-se com unhas e dentes sobre os dissidentes, bem rapidamente e como uma tonelada de tijolos.

É terrível ironia que Barack Obama, exemplo glorioso e premiado de progressista, tenha dado tapa rápido no cachimbão da mudança-de-regime de Dick Cheney... e, agora, já parece que não vive sem ele.

É provável que Obama esteja tentando só passar a mão em uma ou duas vitórias bem baratinhas de política exterior e fodam-se as consequências, porque daqui a dois anos ele cai fora e a presidenta Clinton dará jeito em tudo.

Aquele Alfred Nobel que se vê na medalha do Prêmio da Paz que deram ao presidente Obama já deve estar chorando lágrimas de sangue.




[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.