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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Branco Moderado: A Maior Ameaça à Liberdade


21/1/2013, “Dia de Martin Luther King” [1], Corey Robin
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Todos os anos, no Dia de Martin Luther King, relembro essas palavras de King:

Nos últimos anos, tenho tido inúmeras decepções com o branco moderado. Quase chego a lastimável conclusão de que o maior obstáculo que os negros enfrentam em nossa caminhada rumo à liberdade não é o Conselheiro para os Cidadãos Brancos, nem os homens da Ku Klux Klan, mas o branco moderado, mais devotado à “ordem” que a justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, a uma paz positiva, que é a presença de justiça; que vive a repetir: “Concordo com você no objetivo que você busca, mas não posso concordar com seus métodos de ação direta”; que acredita paternalistamente que pode fixar o cronograma para a liberdade de outro homem; que rege a vida dele por um conceito mítico de tempo e só sabe aconselhar o negro a esperar “por momento mais conveniente”. 




Nota dos tradutores
[1] Celebrado anualmente na terceira 2ª-feira de janeiro.

domingo, 21 de outubro de 2012

EUA: Tempo de contrarrevolução


17/10/2012, Corey Robin, Stop NATO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A London Review of Books que acaba de sair, publica resenha do livro Age of Fracture [Tempo de Fratura], de Daniel Rodgers, assinada por mim [1]. Só para assinantes da revista, o que é uma pena, não só porque é minha opinião, mas também porque é minha opinião sobre livro sensacional. Sem meias palavras, é a mais ampla história intelectual do pensamento social norte-americano no pós-guerra que jamais li. Merece muita atenção e discussão. Como já escrevi lá, é, também, uma reflexão falhada. O tema ao qual Rodgers se dedica não é alguma “fratura”: é uma contrarrevolução. Aqui, um aperitivo do que escrevi lá:

Corey Robin
Se se examinam os livros publicados entre 1944 e 1963 – dentre os quais An American Dilemma [2], The Origins of Totalitarianism  [3], The Power Elite  [4], The Organisation Man  [5], The Feminine Mystique  [6] e The Making of the English Working Class  [7] – vê-se que mostram um mundo que estaria em movimento, rumo a uma coesão quase claustrofóbica. As classes consolidam-se, os brancos oprimem os negros, os “colarinhos brancos” oprimem os sem colarinho algum, os ternos caros caminham pelas ruas dos centros financeiros das grandes cidades, onde só se veem bancos e escritórios de grandes empresas.

Auschwitz talvez estivesse a um mundo de distância de Levittown, mas o que Hannah Arendt viu como atos totalitários – “destruir todos os espaços entre os homens e empurrar homens contra homens” – autores do pós-guerra tomaram como boa descrição de toda a vida social.

Quando Betty Friedan recorreu ao campo de concentração como metáfora para o mundo da mulher, refletiu o pensamento de uma geração treinada para pensar em termos de blocos de homens e de mulheres obrigados a viver em espaços limitados, modelados ou constituídos por diferentes vias, por padrões sociais.

As décadas seguintes assistiram à publicação de The Declining Significance of Race  [8], In a Different Voice  [9], Free to Choose  [10], Gender Trouble  [11] e Freakonomics  [12]. A unidade ou foi-se ou está em ponto morto. Nenhuma regra, nenhuma lei conta ou interessa. Fora a lei. Viva o desvario personalista. Tudo que era (supondo-se que algum dia tenha sido) sólido derreteu-se no ar.

Mas onde Marx foi melancólico ou foi ao êxtase ao pensar essa noção, supondo que refletiria uma dissolução genuína do mundo social (burguês), autores e intelectuais veem hoje essa fragmentação não simplesmente como um modo transitório de ser do mundo, mas como a própria condição do conhecimento.

Professor, historiador da história intelectual, Daniel Rodgers chama a esse tempo “Tempo de Fratura”, percebendo a tendência entre os intelectuais das últimas quatro décadas, de trocar “leituras fortes da sociedade” por “leituras mais fracas”. Entre meados do século 19 e meados do século 20, diz ele, “os pensadores sociais envolveram o ego [orig. self] em círculos cada vez mais e mais amplos de relações, estruturas, contextos e instituições. Os seres humanos nasciam dentro de normas sociais, dizia-se. As chances da vida eram maiores ou menores conforme o lugar que cada um ocupasse na estrutura social; até as características de personalidade ganhavam forma dentro do campo das forças da socialização.” E, então, tudo se quebrou. Não só o mundo externo – tudo se quebrou, afinal de contas, desde o início da modernidade; os últimos 25 anos do século 20 foram só um pouco mais partidos e fraturados que os primeiros 25 anos do século 17 – mas também, e especialmente, “no campo das ideias e da percepção”. “Ouve-se cada vez menos sobre sociedade, história e poder; e cada vez mais sobre indivíduos, transitoriedade, contingência e escolhas”.

Rodgers rastreia essa “desagregação” das categorias sociais em vários discursos: econômicos, do Direito, da Ciência Política, da História, da Antropologia, sobre raças, gêneros e nos discursos filosóficos. E, se algumas das trajetórias que ele retraça são familiares (do patriarcado à performance nos estudos femininos, do pluralismo de grupos de interesse à teoria da escolha racional individualista na Ciência Política), o efeito cumulativo de ler outra vez, mais uma vez a mesma história, em tantos campos, é significativa e sedutora.

Quando Ronald Reagan começa a soar como Judith Butler, e quando a ala evangélica da direita reacionária completa a ‘virada linguística’, não há como não ver que há algo no ar.

...

É possível que Rodgers esteja narrando, em outras palavras, menos a história de uma fratura intelectual ou, mesmo, uma deriva nos modos básicos do capitalismo e, mais, uma contrarrevolução, organizada nos mais altos círculos econômicos e acadêmicos, e que se irradiou pela cultura, não raras vezes envolvendo até os mais convictos opositores da mesma contrarrevolução.

Se Mises acertou ao dizer que “até os opositores do socialismo são dominados por ideias socialistas” – e os governos de Macmillan e Eisenhower sugerem, falando em termos amplos, que assim é – parece plausível que os opositores da contrarrevolução do livre mercado (de tecnocratas de esquerda, a teóricos do feminismo) podem, sim, na via contrária, ter sido dominados pelas ideias do livre mercado.

Não necessariamente por orientação e prescrição política – embora muitos no Partido Democrata tendam a favorecer políticas monetárias mais que políticas fiscais e desenvolvimento, e desenvolveram um reflexo automático de cortar impostos –, mas no nível mais profundo das respectivas imaginações políticas, em particular no modo de ver o mundo em termos de ações não planejadas, espontâneas, não coordenadas, de um bilhão de particulares fraturados e desconectados; além de um correspondente cetismo quanto aos movimentos de massa.

Há precedentes históricos de associação entre fratura e contrarrevolução. Em resposta às insurgências de endividados que se viram na América nos anos 1780s, e que ameaçaram os interesses de credores e proprietários, James Madison observou que, em pequenas sociedades, é possível, para maiorias democráticas, com interesses claros e distintos (usualmente contra a propriedade), unir-se e impor sua vontade à minoria. Mas “amplie a esfera” da sociedade, Madison escreveu, “e você tem maior variedade de partidos e interesses; e você torna menos provável que uma maioria do todo tenha motivo comum para invadir os direitos de outros cidadãos; ou, se tal motivo comum existe, será mais difícil para todos que dele partilhem descobrir a própria força e agir em associação uns com outros””.

Depois da Revolução Francesa, doutrinadores como François Guizot e Pierre Royer-Collard, e um aluno deles, Tocqueville, chegaram a conclusões similares sobre o valor contrarrevolucionário do pluralismo. E no Sul Velho [orig. Old South] [EUA], John Calhoun formulou sua teoria das maiorias co-ocorrentes [orig. theory of concurrent majorities] [13] – uma sociedade já fragmentada fragmentar-se-á cada vez mais, pela quase impossibilidade de o governo nacional empreender qualquer ação concertada a favor da maioria – para contra-arrestar o Norte abolicionista. [14]

Mas nem sempre a fratura é dispositivo contrarrevolucionário. E nem todas as contrarrevoluções seguem a via da fratura. Mas o fato de fratura e contrarrevolução aparecerem tão frequentemente associadas obriga a perguntar por que a fratura tanto ameaça a revolução e a reforma; e por que é tão amigável face à contrarrevolução e ao retrocesso? Por que unidade e coesão são condição necessária, se não suficiente, para qualquer movimento democrático de baixo para cima?

Movimentos das classes subordinadas exigem ação concertada de homens e mulheres os quais, individualmente ou localmente, têm pouco poder; mas os quais, coletivamente e nacionalmente (ou internacionalmente) têm, potencialmente, muito poder. Se esperam exercer o poder que têm, esses movimentos têm de pressionar a favor da unidade e têm de manter a unidade, em inúmeros contextos de desafio e dificuldades; e não têm só de defender a unidade dentro dos movimentos (sempre são movimentos onde não faltam heterogeneidades, de gênero, de raça, de status, de religião, de etnia, de ideologia): têm também de defender o poder dos próprios comandantes. Para movimentos democráticos de baixo para cima, a unidade é a conquista mais precária e mais preciosa, sempre sob ameaça, simultaneamente, de dentro e de fora.

Movimentos contrarrevolucionários, ao contrário, sempre se beneficiam, pelos mais diferentes modos, da ação de forças de fragmentação. Elites políticas e econômicas, porque são independentes umas das outras no controle sobre os recursos, não precisam tanto de unidade e coordenação. Importante, para essas elites, é criar, estimular e preservar a desunião entre seus adversários, na direção absolutamente oposta ao que disse Rosa Luxemburg, para quem “o mais importantedesideratum” em qualquer luta é “a máxima unidade possível da parte social-democrática das massas proletárias”. [15]

É muito fácil, como sempre se acaba por descobrir, construir a desunião. A fragmentação não apenas pulveriza os revolucionários que se opõem às forças contrarrevolucionárias, espalhando-os em vários bandos de gente tão insatisfeita quanto incapaz de qualquer ação produtiva. A fragmentação também torna ainda mais difícil identificar a classe ou a claque governante. A ação de massa já não encontra alvo claro (a Bastilha, o Palácio de Inverno). O que se vê é uma espécie de poder borrifado sobre muitos, sem qualquer ligação com alguém, grupo ou indivíduo, potencialmente acessível para vários, tanto quanto efetivamente acessível para ninguém.

Esse, na minha avaliação, é um dos grandes obstáculos que a esquerda enfrentou nos últimos cerca de 50 anos. Talvez, com o Movimento Occupy – a convocação à unidade, o esforço de unidade com os “proletários de todo mundo” (“somos os 99%”) que já quase parecem pós-estruturais –, estejamos deixando para trás aquele obstáculo.




Notas dos tradutores

[1] ROBIN, Corey. Achieving desunity. Resenha de RODGERS, Daniel, Age of Fracture, Harvard, 360 pp, £14.95, September, ISBN 978 0 674 06436 2, in London Review of Books, vol. 34, n. 20, 25/10/2012, p. 23-25 (só para assinantes).

[2] MYRDAL, Gunnar, An American Dilemma. The Negro Problem and Modern Democracy [1944].

[3] ARENDT, Hannah, Origens do Totalitarismo [1951] (em português do Brasil).

[4]  WRIGHT MILLS, C. A elite do poder [1956], Rio de Janeiro: Zahar, 1968.

[5]  WHYTE, William H, The Organization Man [1956].

[6] FRIEDAN, Betty, A Mística Feminina [1963] (em português do Brasil).

[7] THOMPSON, E. P. [1963; nova ed. revista, 1968] A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 3 vols, 1987. Trad. Denise Bottman e Antônio Augusto Pereira Prates.

[8]  WILSON, J. The Declining Significance of Race: Blacks and Changing American Institutions [1978].

[9] GILLIGAN, Carol. In a Different Voice [1982].

[10] FRIEDMAN, Milton; FRIEDMAN, Rose [1980], Liberdade para escolher, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1980.

[11] BUTLER, Judith. Gender trouble: feminism and the subversion of identity [1990].

[12] DUBNER, Stephen J.; LEVITT, Steven D., Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta, Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

[13] CALHOUN, John Caldwell [1782-1850], Dissertação sobre o governo (Estudos introdutórios de Viriato Soromenho-Marques e Diogo Pires Aurélio. Trad. João C.S. Duarte, Lisboa: Círculo de Leitores, imp. 2010, 175 p., Coleção: Clássicos da política.

[14] Para Calhoun “A imposição dos interesses protecionistas do Norte a todo o país poderia acontecer, mediante o fortalecimento do poder central criado pela Constituição, entendida como compromisso pré-constituído e esgotado. A defesa dos interesses dos Estados sulistas fez com que Calhoun afirmasse uma abertura da Constituição ao poder constituinte, fundado na construção da política com base no antagonismo social e que não deveria ser amarrado nos ditames do poder constituído”. [Nota de esclarecimento, de: A Constituição de 1787 e a Limitação da Participação Popular]

[15] LUXEMBURG, Rosa. Greve de massas, partidos e sindicatos. São Paulo: Kairós, 1979 [ing. The Mass Strike, the Political Party and the Trade Unions [1906], Cap. 8: “Need for United Action of Trade Unions and Social Democracy.  

sábado, 20 de agosto de 2011

Contra impostos? “Austeridade”? Por quê?!


Corey Robin

12/8/2011, Corey Robin, London Review of Books, vol. 33, n. 16
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:

“Pêqmepê! De tanto os panacas petistas falarem em “tucanos”, “tucanos”, porque os jornais e a televisão só dizem “tucanos”, “tucanos” – justamente para fazer esquecer que o PSDB é o Partido da Social Democracia Brasileira – até já tinha mesquecido! Pêqmepê! O PSDB é o partido da social democracia brasileira! Comé que eu fui mesquecê?!

Nenhum partido social democrata jamais prestou, no mundo, nunca! 

Em 2004 o Mangabeira Unger já ensinava em SOCIAL DEMOCRACIA: “O discurso político dominante no Brasil hoje é o da social-democracia européia. Na Europa, porém, fica cada vez mais patente a insuficiência da fórmula social-democrata para lidar com os problemas atuais. Mais razão para concluir que está errado o subtexto da política brasileira. 
O que definiu a formação da social-democracia no curso do século 20 foi o abandono da tentativa de reorganizar o Estado e o mercado em favor da adoção de políticas de redistribuição econômica e proteção social. Políticas que humanizariam as instituições que os social-democratas deixaram de criticar”

A crise da dívida pela qual passa o governo Obama é resultado da guerra e dos impostos. Não se discute que a crise vem de antes da eleição de Obama. Quando George W. Bush tomou posse em 2001, os EUA tinham excedente de $2 trilhões. Muitos acreditavam que, se o país simplesmente seguisse o rumo traçado por Bill Clinton, a dívida nacional, então de $5,7 trilhões, estaria zerada ao final da década. Bush escolheu outra via. Cortou impostos e reduziu a arrecadação em cerca de $1,8 trilhão. Declarou guerra geral ao terror e fez duas guerras específicas. Financiadas inteiramente por empréstimos – fato inédito na história dos EUA – as guerras e os gastos extras da Defesa acrescentaram $1,5 trilhão à dívida. A crise financeira e a recessão que a seguiu fizeram encolher ainda mais a arrecadação. Quando deixou o governo, Bush já havia consumido o excedente e praticamente dobrara o tamanho da dívida – foi o presidente que mais aumentou a dívida pública, em toda a história dos EUA.

Não importa o caminho pelo qual chegamos ao ponto onde estamos: a atual crise é política, não financeira. Os EUA não estão ante a perspectiva de não mais poder tomar empréstimos por ninguém querer emprestar; as convulsões são resultado de contingências inteiramente políticas: uma lei de 1917, que exige que o Congresso autorize aumentos no teto da dívida; uma Câmara de Deputados controlada pelos Republicanos que parece sinceramente querer – também pela primeira vez na história dos EUA – impedir qualquer aumento; e um presidente Democrata que – por convicção, astúcia ou necessidade – prefere cooperar, a confrontar a oposição. Dessa convergência nasceu a ideia de que, se o Congresso não autorizasse o aumento do teto de endividamento no dia 2/8, os EUA quebrariam. Isso jamais aconteceria, em nenhum caso: os EUA tinham reservas para pagar as dívidas (e tinham arrecadação futura), e Obama antes cortaria outros gastos, e em nenhum caso o país quebraria. Mesmo assim, com a histeria e o desvario de que só Washington é capaz, fixou-se o consenso de que era preciso fazer alguma coisa, imediatamente.

Se a política não tivesse intervindo e se Obama desse ouvidos aos economistas de centro-esquerda, eis o que deveria ter feito. Primeiro, nada fazer, coisa alguma, em relação à dívida, pelo menos por hora. A dívida pode ser significativamente reduzida, bastando, para tanto, que a economia melhore. A melhor maneira de obter isso é o governo gastar, o que aumentará a dívida no curto prazo, mas a fará diminuir no longo prazo, com a arrecadação gerada pelo crescimento. Segundo, estando a economia saudável, aumentar impostos, sobretudo para os mais ricos. Como parte do PIB, a arrecadação está no nível mais baixo desde 1950. Exceto durante um curto período no final dos anos 1980s e início dos 1990s, os principais impostos marginais chegaram ao nível mais baixo, desde 1931. Impostos cobrados a empresas nos EUA são os mais baixos dentre todos os países da OECD. A ideia de que não se poderiam aumentar impostos, não só para financiar gastos necessários e desejados, mas também para reduzir o déficit, é contraintuitiva. Finalmente, reduzir os gastos militares. 

Como o jornalista de economia Doug Henwood observou, se os EUA simplesmente voltassem aos níveis de gastos de 2000 – 3,7% do PIB, bem diferentes dos atuais 5,4% –, já poderia economizar $3,6 trilhões, na próxima década, 72% a mais que economizará nos termos do acordo sobre endividamento que Obama negociou com o Congresso.

Nada disso. Obama e o Congresso tomaram o caminho inverso, pavimentado há 40 anos pela filosofia “contra impostos” da direita norte-americana. Em fevereiro de 2010, Obama nomeou uma comissão bipartidária para equilibrar o orçamento até 2015, e fazendo da redução da dívida prioridade absoluta. Depois das eleições de meio de mandato, em novembro, quando os Republicanos reconquistaram a maioria da Câmara com a ajuda do Tea Party, Obama congelou os salários dos trabalhadores federais e endossou um programa de “austeridade” ainda mais agressivo. Só cortes e nenhum aumento de impostos: não uma vez (quando, em dezembro, Obama prorrogou a validade dos cortes de impostos feitos por Bush), mas duas vezes (na primeira fase do acordo da dívida, que elimina $900 bilhões da dívida exclusivamente cortando gastos) e, agora, já quase três vezes (com a segunda fase do acordo, que eliminará mais $1,2 trilhões só em gastos... se uma comissão do Congresso não conseguir produzir pacote de aumentos de impostos e cortes de gastos até novembro). O acordo não fala de cortar gastos da Defesa – e não se sabe se os cortes são cortes ou simples taxas de crescimento mais lento, nem se e como acontecerão – mas recentes comentários de Obama e de seu secretário da Defesa sugerem que o acordo final teria sido o melhor possível, para evitar cortar benefícios.

Por definição, o acordo a que chegaram seria politicamente viável. Por que seria viável – e outras soluções não seriam viáveis – é assunto muito discutível e ferozmente discutido. Muitos culpam os Republicanos, que quereriam encurralar o governo, para prosseguir em sua agenda de baixar impostos e minimizar gastos. Outros culpam Obama: sua sobrenatural aversão a conflitos e crença absurda na boa fé dos Republicanos e no valor do bipartidarismo. Há quem fale também das limitações que constrangem o poder do presidente nos EUA: diferente do que ocorre em sistema parlamentarista, o presidente tem de negociar com deputados da situação e da oposição cujos destinos eleitorais não estão atrelados aos do presidente. 

Há quem diga que não se pode assumir que Obama desejasse resultado substancialmente diferente do que obteve. Pode ser verdade: Obama sempre declarou seu desejo de cortar gastos do governo; talvez porque suponha que assim melhorariam suas chances de ser reeleito, ou porque embarcou nas ortodoxias neoliberais da moda ou, simplesmente, porque conviveu por tempo demais com os friedmanistas da Universidade de Chicago, Obama não é o progressista que muitos imaginaram que fosse. Obteve o acordo que obteve simplesmente porque era o acordo que desejava obter; ou, então, porque não desejava com o indispensável empenho qualquer outro tipo de acordo.

Todos esses argumentos dão a impressão de ter algo de substancial, mas se os deixamos esfriar e voltamos a eles na manhã seguinte, vê-se que, em todos, falta uma dinâmica mais profunda. 

Historicamente, crises de dívidas resultantes de guerras sempre catalisaram avanços políticos progressistas e, algumas, até precipitaram revoluções. Charles I e Louis XVI viram-se metidos em conflitos militares que seus sistemas tributários não podiam financiar. Acabaram, os dois envolvidos em confrontações fatais: Charles com o Parlamento em 1640; e Louis com os Estados Gerais em 1789. Além da motivação financeira, as revoluções que derrubaram esses soberanos alimentaram-se também das disputas que os reis tiveram de fazer para aumentar impostos e financiar suas guerras. 

Como Richard Tuck sugeriu, é possível que o próprio Charles tenha aberto a porta para a democracia na Inglaterra. Para reimplantar um antigo imposto sobre cidades costeiras (“ship money”) e com esse dinheiro financiar uma expedição naval contra os holandeses, a Coroa argumentou que a segurança da população seria o mais intocável fundamento da ação política – axioma de todos os republicanos de todos os tempos –, superior a qualquer lei ou constituição. Embora usado para justificar o absolutismo, a retórica de Charles sobre “interesses do povo” carregava importante implicação democrática subversiva: essas guerras não são minhas, são suas, de vocês, do povo, e vocês têm de fazer o possível e o impossível para que sejam guerras vitoriosas. Forças parlamentares poderiam ter contra-argumentado que, se o padrão ouro da política são os interesses e a segurança do povo, melhor seria que representantes eleitos do povo determinassem de que interesses e segurança se tratava e como preferiam vê-los defendidos.

Logo depois do 11/9, muitos liberais esperavam que a guerra ao terror inaugurasse novo capítulo na história da social democracia nos EUA, porque a conclamação ao sacrifício patriótico geraria uma ética da solidariedade social. O que se viu foi Bush capando impostos, endividar o país até o pescoço e converter a guerra ao terror em esporte nacional pela televisão, não em guerra do povo. Soberanos modernos tardios, parece, afastam suas políticas de qualquer democracia, criando exércitos mercenários e mergulhando no pântano dos mercados de crédito fácil. Como resultado, ninguém nos EUA precisa reclamar a propriedade de qualquer valor comum ou coletivo: nem de guerras nem de dívidas; nem o governo nem, com certeza, os cidadãos, cada dia mais empobrecidos e precários.

Por isso, a atual crise foi tomada pela esquerda como oportunidade para retirada e encolhimento, não como fagulha que poderia desencadear uma revolta democrática. Nessa medida, faz lembrar crises semelhantes no Terceiro Mundo ao longo dos últimos 30 anos, sempre usadas pelas elites para justificar cortes drásticos nos gastos do governo e a reestruturação de economias social-democratas. Por exemplo, também, a crise fiscal da cidade de New York em 1975, quando Wall Street pôs-se a impor políticas de “austeridade” e disciplina à social democracia nos EUA, em movimento que, para muitos, deu origem a experimentos posteriores, sempre de crescente “austeridade”, na América Latina e pelo mundo. 

O persistente discurso de Obama a clamar por “austeridade” atualiza para 2011 o que diziam os Democratas de Wall Street durante a crise de 1975. Depois daquela crise, o partido Democrata foi reconfigurado à imagem de Wall Street [no Brasil, criou-se o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira, à moda FMI e Wall Street. BINGO!]

Mas há duas diferenças cruciais, hoje. Não há qualquer ameaça de os emprestadores fecharem as torneiras; emprestadores internacionais parecem perfeitamente desejosos de continuar a financiar o endividamento dos EUA. De fato, quando a Bolsa de Valores desabou depois que Standard and Poor’s rebaixou a avaliação dos EUA, dia 5 de agosto, os investidores correram a pôr seu dinheiro em bônus do Tesouro dos EUA. E onde crises anteriores provocaram resistência popular, dessa vez – por mais que a crise seja simulacro – exceto em Wisconsin e alguns outros estados, o único sinal de mobilização que se viu na esquerda, foi para rápida retirada.

Se há texto de leitura indispensável nesse momento, é O 18 Brumário de Luis Bonaparte, de Marx [1]. Não pela super repetida frase da primeira vez como tragédia, depois como farsa, mas, isso sim, pela impressionante análise, de retrovisão e previsão, do comportamento reacionário dos camponeses franceses ao longo das monarquias Bourbon e de Julho. Embora a revolução de 1789 e Napoleão tivessem libertados os camponeses da servidão, a geração que veio em seguida foi entregue, sem qualquer atenção, à dura disputa dentro do mercado da produção agrícola, contra pequenos proprietários que não lhes podiam oferecer emprego e salário. Sim, já não tinham de pagar impostos feudais aos donos da terra, mas tinham de pagar hipotecas e impostos que nenhum benefício lhes traziam. Com Napoleão III, o estado só lhes ofereceu o espetáculo imperial. Não era pouco, como Marx observou, porque, no exército, os camponeses foram “transformados em heróis, defendendo suas novas posses contra o mundo externo, glorificando a nacionalidade recém adquirida, pilhando e revolucionando o mundo. A farda era seu manto de poder estatal; a guerra, sua poesia”. A isso Marx chamou “o império do campesinato”. 

Na análise de Marx vê-se o baixo ventre da crise da dívida – de fato, das últimas quatro décadas da revolta da direita contra impostos, da Proposição 13 de Howard Jarvis em 1978, que destruiu as finanças da California ao impor estritos limites a qualquer aumento de impostos, ao Tea Party. Os liberais sempre têm dificuldade para entender esses movimentos – impostos não servem para nada que preste? – porque não veem como é pouco o que o estado, nos EUA, oferece diretamente aos cidadãos, em relação às circunstâncias econômicas em que vivam.

Desde o início dos anos 1970s, com curtos períodos de exceção, os salários dos trabalhadores estão estagnados. O que o estado ofereceu em resposta? Transporte público praticamente não existe. Nem com a “reforma” de Obama o estado oferece assistência médica ou seguro-saúde à maioria da população. Exceto nos bairros ricos, só muito raramente se encontra educação pública de boa qualidade. Nessas circunstâncias, não surpreende que os cidadãos queiram pagar menos impostos. Aí está um tipo de mudança na qual conseguem crer.

Nesse ponto, Democratas como Obama e os que o defendem, que tanto reclamam de o Tea Party ter sitiado a política norte-americana, são os únicos culpados. Durante décadas, os Democratas ajudaram a depauperar o estado norte-americano [no Brasil, a social democracia brasileira, o PSDB, fez o mesmo serviço sujo (NTs)] sempre na vã esperança de que o mercado operaria sua mágica. Por algum tempo, até que operou, enquanto o estado endividava-se sem parar. E os trabalhadores encontraram compensação para os salários estagnados, no crédito fácil e nas hipotecas a juros baixos. Na hora de pagar as dívidas, os salários – no caso dos felizardos que ainda tivessem emprego e salário – não era suficiente para pagar coisa alguma. Só restou aos assalariados clamar por menos impostos e ‘austeridade’. E o império do campesinato.



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl. [dez.1851-mar.1852] O 18 de Brumário de Louis Bonaparte