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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A economia da polarização

David P.Goldman



1/11/2011, David P Goldman, Spengler, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu






Entreouvido na Vila Vudu:
Esse, que adiante se lê, é o discurso polarizado e polarizante dos economistas da direitona liberal nos EUA. Aí está bem pintado um quadro completamente catastrófico da economia (liberal) norte-americana. 

A mesma catástrofe, os fascistas das empresas-imprensa brasileiras e seus braços teóricos & Consultoria Tendência tentam construir também para o Brasil e impô-la nos discursos da sociedade, pela “mídia”.

Mas qualquer um vê que nada do que abaixo se lê aplica-se ao Brasil – exatamente o que os fascistas das empresas-imprensa e do Instituto Milênio não sabem ver.

Seja como for, pareceu-nos útil constatar que os economistas liberais tem, sim, seus instrumentos e seus discursos. Mas também constatamos que são instrumentos e discursos que só servem para explicar economias capitalistas liberais fracassadas. Essa parte nós já entendemos. OK.

Falta então, para nós, o discurso do sucesso da economia brasileira. Os nossos governos Lula-Dilma aí estão, fazendo o prodigioso sucesso da economia brasileira, que todo mundo vê. Mas nós não temos os discursos que nos permitiriam defender o sucesso da economia brasileira. Tivéssemos os discursos, seria facílimo fazer nossa 'mídia'! Mas não temos os discursos... e sem eles não teremos os jornais & televisão e blogs e tal que nos interessa ter. 

Nós só sabemos amar Lula e votar em quem ele mandar. É muito. Mas é pouco.

Por enquanto, como se lê abaixo, já se sabe que a economia liberal só vê uma saída: “taxar o capital privado, ou expropriá-lo de facto ou de jure – por exemplo, estatizando bancos e orientando-os para financiar projetos considerados politicamente preferenciais, à moda das repúblicas de bananas da América Latina”. Quem disse é o liberal lá. Não fomos nós.

Esse argumento é liberal e apareceu num discurso liberal. Mas, estranhamente, ele NUNCA apareceu na “mídia” brasileira pressuposta liberal. O que só comprovou o que já sabemos a “mídia” brasileira não é liberal: é golpista e fascista. OK. Essa parte nós também já entendemos.

O caso é que mesmo esse argumento liberal é totalmente imprestável, para nós, porque não temos interesse algum em defender os nossos governos Lula-Dilma como “governos (liberais) de república de bananas da América Latina”, que não somos. 

E, ora bolas! Tampouco nos interessa ser república liberal dos drones da América do Norte. Pensando bem, muito melhor, as bananas.

Compete aos nossos partidos (e, porque eles nos faltam, nós temos de ir assim, fazendo tudo sozinhos!) construir os discursos desse sucesso dos governos Lula-Dilma, que se constrói sem taxar ou expropriar o capital privado, e com Belo Monte, doa o que doer nos ongueiros cabeça fraca. 

Cá na Vila Vudu, nós desejamos e do fundo do coração pedimos a Oxalá, todos os dias, que os nossos governos Lula-Dilma não estejam trabalhando para nos converter em república (liberal) de bananas da América Latina, nem em república (liberal) dos drones da América do Norte.

Desejamos e pedimos a Oxalá, que estejam trabalhando para nos converter em China, no que tenha a ver com capitalismo com comunismo, com pelo menos um pouco de “comum” construído, mesmo que mal construído, pra começar. Aos poucos, dá-se jeito.

Ninguém aqui sabe o que significa esse nosso desejo. 

A gente, só, segue desejando e traduzindo, despolarizando, o que o presidente Lula sempre fez, mas o PT nunca se preocupou em ensinar a fazer.

A luta continua. Só a luta ensina.
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Os EUA enlouqueceram? Desde os anos 1930s, a política jamais esteve tão polarizada, do movimento Tea Party, de um lado, e, de outro, o espectro dos protestos do movimento Occupy Wall Street. Por que a direita opõe-se tão veementemente a qualquer gasto do governo? E por que a esquerda ataca o capital privado com paixão equivalente? A resposta não está na psique norte-americana, mas nas estatísticas.

Os EUA estão em plena guerra de classes, mas não do tipo que se discute na grande imprensa. Os verdadeiros pobres – negros jovens, por exemplo, a maioria dos quais estão hoje desempregados – pouco têm a fazer nessa guerra. A maioria das grandes empresas também se mantêm à margem; negociarão a paz com o lado que vencer. Essa é guerra de vida e morte que se trava entre, de um lado, a classe média que produz e, de outro, os que dependem do estado.

A aversão que o movimento Tea Party manifesta contra qualquer tipo de gasto do governo é pura expressão racional de autointeresse, como já vimos acontecer na história dos EUA. Como qualquer movimento novo, atrai muita gente que nada tem a ver, diretamente, com o movimento. Mas o fato de um movimento liderado por amadores continuar a ter tanto poder prova que há boas razões para que o Tea Party exista.

O Tea Party é movimento de uma classe média mais velha, mais bem educada e mais rica que a média, mas não é movimento que atraia os muito ricos – muito evidentemente ausentes naquelas fileiras. Aquela classe média sabe, por experiência pessoal ou familiar, que os impostos estão destruindo a classe média dos EUA. Aproximam-se do momento da aposentadoria e a maior parte de seu patrimônio está preso na casa onde vivem, como acontece com a grande maioria dos norte-americanos.

GRÁFICO 1: Valor da casa e percentual da renda líquida, por renda (2004)

Fonte: Federal Reserve
A carga tributária nos EUA distanciou-se drasticamente do governo federal, e mudou-se para estados e municípios, nos EUA. E os impostos sobre a propriedade pesam cada vez mais, na carga tributária total. Isso está matando o mercado imobiliário, setor moradias.

A arrecadação federal estacionou em 10% menos que o pico pré-crise, mas as arrecadações estadual e municipal não param de aumentar. Isso acontece, em parte, porque estados e municípios não podem contrair déficits de orçamento, diferentes do governo federal, e são obrigados a arrecadar para cobrir suas despesas, mesmo que cortem despesas. O emprego nos estados e municípios já caiu em mais de meio milhão, desde agosto de 1998, e as demissões continuam.

Mas grande parte dos gastos de estados e municípios são gastos ligados a programas federais, especialmente na área de saúde. Os estados recebem fundos em bloco do governo federal e, em troca, assumem a responsabilidade por garantir assistência médica e outros programas. E gastos não financiados só fazem empurrar os estados, cada vez mais, para problemas fiscais.

Gráfico 2: Arrecadação federal, por arrecadação estadual/local 

Census Bureau
Com a renda e as vendas deprimidas, os governos estaduais e locais dependem, mais que nunca, da arrecadação de impostos sobre a propriedade.

Gráfico 3: Impostos sobre a propriedade. % do total da renda de estados e municípios 

Fonte: Census, Case-Schiller 20 City Índex
A arrecadação de impostos sobre a propriedade continuou a subir, apesar de os preços das casas terem despencado no mercado. A avaliação local das propriedades caiu nos anos da bolha, mas não caiu de modo a refletir a queda de 40% no preço das residências.

Gráfico 4: Arrecadação do imposto sobre a propriedade, por preço das casas

Fonte: Census Bureau
O imposto sobre a propriedade subiu tanto que, hoje, um potencial comprador pagará tanto, em impostos sobre a propriedade, quanto em juros de hipoteca. (O juro de hipoteca é calculado à base da taxa atual de hipotecas, refletindo os custos para compradores potenciais, não para os atuais proprietários).

Gráfico 5: Impostos sobre a propriedade [em vermelho], por juros de hipoteca [em azul], em $US bilhões

Fonte: Census Bureau, Federal Reserve
Essa situação é surpreendente: no passado, os juros de hipoteca sempre foram duas ou três vezes o valor do imposto a pagar. Dito de outro modo, os custos combinados dos juros de hipoteca e dos impostos sobre a propriedade estão hoje próximos de um trilhão de dólares por ano, praticamente no mesmo patamar em que estavam no pico da bolha imobiliária. O aumento nos impostos sobre a propriedade apagou o impacto da redução dos juros e dos menores preços de mercado de moradias. Os dados de impostos sobre a propriedade incluem impostos comerciais e residenciais, sim, mas mais de 2/3 do total da arrecadação de impostos sobre propriedade correspondem à arrecadação de residências.

Isso explica por que a classe média compara a própria revolta à dos revolucionários norte-americanos que atacaram a empresa exportadora de chá East India Company no porto de Boston. A modesta riqueza que pouparam na casa em que vivem e como aposentadoria futura está em risco. Os ativistas do Tea Party parecem amadores, porque são recém-chegados ao mundo da política. Na maior parte, é gente que vivia calmamente, sem alarde, até que a crise chegou à porta de casa. Muitos fatores contribuíram para radicalizar a ação dessa parte do espectro político, mas os impostos os empurraram porta a fora.

No outro ponto extremo, temos os que dependem do estado. Nem todos são pobres. Como mostrou um estudo de 2011 da Heritage Foundation[1], o governo federal está pagando salários muito mais altos para trabalhadores da construção em projetos financiados pelo pacote de estímulos à economia de 2009, que os salários do mercado. A lei Davis-Bacon estipulou um piso arbitrário inferior ao piso do sindicato, e o governo Obama pagou de 30 a 60% acima dos valores de mercado, como favor aos sindicatos que o apoiavam.

Gráfico 6: Governo federal paga 30-60% acima dos salários de mercado da construção civil 

Fonte: Heritage Foundation 
À custa de inchar os orçamentos estaduais e municipais, criou-se uma nova espécie de pseudo classe média, dos trabalhadores que ganham mais de $100 mil dólares ao ano com algumas horas extras. A generosidade das pensões pagas pelo estado tornou-se escandalosa; a California Foundation for Fiscal Responsibility [Fundação California de Responsabilidade Fiscal] denunciou que mais de 6 mil funcionários aposentados do estado da Califórnia recebem pensões que ultrapassam os $100 mil dólares ao ano; cerca de metade são policiais, bombeiros e guardas penitenciários. Os estados não podem pagar por essa prodigalidade. O American Enterprise Institute calculou que os processos por não pagamento das pensões abusivas que estados norte-americanos podem vir a ter de pagar chegaria a $2,8 trilhões, considerado o atual estado de retorno dos investimentos.

Os sindicatos de funcionários públicos rodaram na onda do fim da bolha imobiliária, como outros proprietários, e governos locais os recompensaram com concessões insustentáveis, na forma de salários, pensões e benefícios de saúde. O poder político desses sindicatos cresceu muito, paralelamente ao poder de gasto dos estados e municípios. Hoje, os sindicatos de funcionários públicos são a espinha dorsal do Partido Democrata. Controlam os bancos de telefones das campanhas eleitorais, enchem os comitês de pesquisa eleitoral e vivem de convencer os eleitores a votar.

O risco de calote nas dívidas dos estados aumentou os custos dos empréstimos para muitos estados. Na Europa, o problema é Grécia, Irlanda, Portugal. Nos EUA, há 11 estados nos quais os déficits orçamentários ultrapassam 16% do orçamento total.

Gráfico 7: Estados dos EUA, com maiores déficits orçamentários 

Fonte: Center on Budget and Policy Priorities 

Bônus emitidos por estados e municípios dos EUA aproximam-se do ponto mais alto de risco de toda a história. O rendimento desses bônus não é taxado pelo governo federal, por isso o rendimento ajustado é usualmente 28% inferior ao de bônus comparáveis do Tesouro. Depois do ajuste, o Bond Buyer Index mostrou que os bônus municipais de 20 anos nos EUA pagavam apenas 35 pontos básicos (0,35%) acima dos bônus de 20 anos do Tesouro dos EUA. Hoje, pagam 230 pontos básicos, a mais. 

Gráfico 8: Rendimento de bônus municipais de 20 anos, por bônus municipais de 20 anos do Tesouro 
Yeld = rendimento / Spread = taxa de risco [linha preta]

Fonte: Bond Buyer, Federal Reserve

No pico da crise da dívida no início de 2009, a taxa de risco (ajustada conforme os impostos) estava em cerca de 400 pontos básicos – praticamente a diferença que há hoje entre as dívidas dos governos alemão e italiano. Os estados norte-americanos têm de reduzir seus déficits, ou o mercado se recusará a financiá-los.

Mas os governos estaduais e municipais, nos EUA, já exauriram sua base fiscal, e o aumento continuado dos impostos sobre a propriedade, com a queda vertiginosa dos preços das propriedades, manteve o mercado imobiliário em depressão muito maior do que as condições econômicas poderiam indicar. Aumentar ainda mais os impostos levará a menor arrecadação. 

De fato, o governo teria de taxar o capital privado, ou expropriá-lo, de facto ou de jure – por exemplo, estatizando bancos e orientando-os para financiar projetos considerados politicamente preferenciais, à moda das repúblicas de bananas da América Latina. 

Não sendo essa a solução, só resta renegociar as pensões e benefícios de saúde já prometidos aos sindicatos de funcionários públicos. 

Nos dois casos, as famílias que se sentiam confortavelmente instaladas na classe média e anteviam futuro confortável e seguro, veem-se, elas mesmas, à beira da calamidade. 

Durante os anos da bolha 1998-2007, quando os EUA importaram $6 trilhões de capital de fora, foi fácil. Quando todo o mundo mandou suas poupanças para os EUA, gente sem qualquer competência ou formação ou treinamento e com péssimos hábitos de trabalho podia pagar para morar em belas casas, gastar a rodo em férias caras, e receber (à custa do contribuinte) gordas aposentadorias. Por que os norte-americanos contavam com viver bem para toda a eternidade, contando com a prodigalidade de investidores estrangeiros, não é problema para economistas: é problema para psiquiatras. 

A crise trouxe à tona, em movimento político, a classe média exasperada – o movimento Tea Party. Apagou do quadro a imagem dos sindicatos de funcionários públicos como defensores de causas progressistas, e os expôs como “a aristocracia do trabalho” (expressão de Marx), parasitando as rendas públicas. 

Tudo isso favorece inerentemente o Partido Republicano. A dívida – nome de fantasia para a insuportável carga tributária – tornou-se assunto batata-quente para muitos Democratas. Mas as próximas eleições serão disputadas muito mais desesperadamente, muito mais imundamente, que qualquer outra em que se possa pensar, no século passado. Será guerra para não morrer, guerra de sobrevivência política para a classe média norte-americana. Se os sindicatos do governo caírem durante o combate, o Partido Democrata de Barack Obama deixará de existir na forma que existe hoje. Isso, sim, pode ser bom resultado para os EUA.

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Nota dos tradutores

sábado, 20 de agosto de 2011

Contra impostos? “Austeridade”? Por quê?!


Corey Robin

12/8/2011, Corey Robin, London Review of Books, vol. 33, n. 16
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:

“Pêqmepê! De tanto os panacas petistas falarem em “tucanos”, “tucanos”, porque os jornais e a televisão só dizem “tucanos”, “tucanos” – justamente para fazer esquecer que o PSDB é o Partido da Social Democracia Brasileira – até já tinha mesquecido! Pêqmepê! O PSDB é o partido da social democracia brasileira! Comé que eu fui mesquecê?!

Nenhum partido social democrata jamais prestou, no mundo, nunca! 

Em 2004 o Mangabeira Unger já ensinava em SOCIAL DEMOCRACIA: “O discurso político dominante no Brasil hoje é o da social-democracia européia. Na Europa, porém, fica cada vez mais patente a insuficiência da fórmula social-democrata para lidar com os problemas atuais. Mais razão para concluir que está errado o subtexto da política brasileira. 
O que definiu a formação da social-democracia no curso do século 20 foi o abandono da tentativa de reorganizar o Estado e o mercado em favor da adoção de políticas de redistribuição econômica e proteção social. Políticas que humanizariam as instituições que os social-democratas deixaram de criticar”

A crise da dívida pela qual passa o governo Obama é resultado da guerra e dos impostos. Não se discute que a crise vem de antes da eleição de Obama. Quando George W. Bush tomou posse em 2001, os EUA tinham excedente de $2 trilhões. Muitos acreditavam que, se o país simplesmente seguisse o rumo traçado por Bill Clinton, a dívida nacional, então de $5,7 trilhões, estaria zerada ao final da década. Bush escolheu outra via. Cortou impostos e reduziu a arrecadação em cerca de $1,8 trilhão. Declarou guerra geral ao terror e fez duas guerras específicas. Financiadas inteiramente por empréstimos – fato inédito na história dos EUA – as guerras e os gastos extras da Defesa acrescentaram $1,5 trilhão à dívida. A crise financeira e a recessão que a seguiu fizeram encolher ainda mais a arrecadação. Quando deixou o governo, Bush já havia consumido o excedente e praticamente dobrara o tamanho da dívida – foi o presidente que mais aumentou a dívida pública, em toda a história dos EUA.

Não importa o caminho pelo qual chegamos ao ponto onde estamos: a atual crise é política, não financeira. Os EUA não estão ante a perspectiva de não mais poder tomar empréstimos por ninguém querer emprestar; as convulsões são resultado de contingências inteiramente políticas: uma lei de 1917, que exige que o Congresso autorize aumentos no teto da dívida; uma Câmara de Deputados controlada pelos Republicanos que parece sinceramente querer – também pela primeira vez na história dos EUA – impedir qualquer aumento; e um presidente Democrata que – por convicção, astúcia ou necessidade – prefere cooperar, a confrontar a oposição. Dessa convergência nasceu a ideia de que, se o Congresso não autorizasse o aumento do teto de endividamento no dia 2/8, os EUA quebrariam. Isso jamais aconteceria, em nenhum caso: os EUA tinham reservas para pagar as dívidas (e tinham arrecadação futura), e Obama antes cortaria outros gastos, e em nenhum caso o país quebraria. Mesmo assim, com a histeria e o desvario de que só Washington é capaz, fixou-se o consenso de que era preciso fazer alguma coisa, imediatamente.

Se a política não tivesse intervindo e se Obama desse ouvidos aos economistas de centro-esquerda, eis o que deveria ter feito. Primeiro, nada fazer, coisa alguma, em relação à dívida, pelo menos por hora. A dívida pode ser significativamente reduzida, bastando, para tanto, que a economia melhore. A melhor maneira de obter isso é o governo gastar, o que aumentará a dívida no curto prazo, mas a fará diminuir no longo prazo, com a arrecadação gerada pelo crescimento. Segundo, estando a economia saudável, aumentar impostos, sobretudo para os mais ricos. Como parte do PIB, a arrecadação está no nível mais baixo desde 1950. Exceto durante um curto período no final dos anos 1980s e início dos 1990s, os principais impostos marginais chegaram ao nível mais baixo, desde 1931. Impostos cobrados a empresas nos EUA são os mais baixos dentre todos os países da OECD. A ideia de que não se poderiam aumentar impostos, não só para financiar gastos necessários e desejados, mas também para reduzir o déficit, é contraintuitiva. Finalmente, reduzir os gastos militares. 

Como o jornalista de economia Doug Henwood observou, se os EUA simplesmente voltassem aos níveis de gastos de 2000 – 3,7% do PIB, bem diferentes dos atuais 5,4% –, já poderia economizar $3,6 trilhões, na próxima década, 72% a mais que economizará nos termos do acordo sobre endividamento que Obama negociou com o Congresso.

Nada disso. Obama e o Congresso tomaram o caminho inverso, pavimentado há 40 anos pela filosofia “contra impostos” da direita norte-americana. Em fevereiro de 2010, Obama nomeou uma comissão bipartidária para equilibrar o orçamento até 2015, e fazendo da redução da dívida prioridade absoluta. Depois das eleições de meio de mandato, em novembro, quando os Republicanos reconquistaram a maioria da Câmara com a ajuda do Tea Party, Obama congelou os salários dos trabalhadores federais e endossou um programa de “austeridade” ainda mais agressivo. Só cortes e nenhum aumento de impostos: não uma vez (quando, em dezembro, Obama prorrogou a validade dos cortes de impostos feitos por Bush), mas duas vezes (na primeira fase do acordo da dívida, que elimina $900 bilhões da dívida exclusivamente cortando gastos) e, agora, já quase três vezes (com a segunda fase do acordo, que eliminará mais $1,2 trilhões só em gastos... se uma comissão do Congresso não conseguir produzir pacote de aumentos de impostos e cortes de gastos até novembro). O acordo não fala de cortar gastos da Defesa – e não se sabe se os cortes são cortes ou simples taxas de crescimento mais lento, nem se e como acontecerão – mas recentes comentários de Obama e de seu secretário da Defesa sugerem que o acordo final teria sido o melhor possível, para evitar cortar benefícios.

Por definição, o acordo a que chegaram seria politicamente viável. Por que seria viável – e outras soluções não seriam viáveis – é assunto muito discutível e ferozmente discutido. Muitos culpam os Republicanos, que quereriam encurralar o governo, para prosseguir em sua agenda de baixar impostos e minimizar gastos. Outros culpam Obama: sua sobrenatural aversão a conflitos e crença absurda na boa fé dos Republicanos e no valor do bipartidarismo. Há quem fale também das limitações que constrangem o poder do presidente nos EUA: diferente do que ocorre em sistema parlamentarista, o presidente tem de negociar com deputados da situação e da oposição cujos destinos eleitorais não estão atrelados aos do presidente. 

Há quem diga que não se pode assumir que Obama desejasse resultado substancialmente diferente do que obteve. Pode ser verdade: Obama sempre declarou seu desejo de cortar gastos do governo; talvez porque suponha que assim melhorariam suas chances de ser reeleito, ou porque embarcou nas ortodoxias neoliberais da moda ou, simplesmente, porque conviveu por tempo demais com os friedmanistas da Universidade de Chicago, Obama não é o progressista que muitos imaginaram que fosse. Obteve o acordo que obteve simplesmente porque era o acordo que desejava obter; ou, então, porque não desejava com o indispensável empenho qualquer outro tipo de acordo.

Todos esses argumentos dão a impressão de ter algo de substancial, mas se os deixamos esfriar e voltamos a eles na manhã seguinte, vê-se que, em todos, falta uma dinâmica mais profunda. 

Historicamente, crises de dívidas resultantes de guerras sempre catalisaram avanços políticos progressistas e, algumas, até precipitaram revoluções. Charles I e Louis XVI viram-se metidos em conflitos militares que seus sistemas tributários não podiam financiar. Acabaram, os dois envolvidos em confrontações fatais: Charles com o Parlamento em 1640; e Louis com os Estados Gerais em 1789. Além da motivação financeira, as revoluções que derrubaram esses soberanos alimentaram-se também das disputas que os reis tiveram de fazer para aumentar impostos e financiar suas guerras. 

Como Richard Tuck sugeriu, é possível que o próprio Charles tenha aberto a porta para a democracia na Inglaterra. Para reimplantar um antigo imposto sobre cidades costeiras (“ship money”) e com esse dinheiro financiar uma expedição naval contra os holandeses, a Coroa argumentou que a segurança da população seria o mais intocável fundamento da ação política – axioma de todos os republicanos de todos os tempos –, superior a qualquer lei ou constituição. Embora usado para justificar o absolutismo, a retórica de Charles sobre “interesses do povo” carregava importante implicação democrática subversiva: essas guerras não são minhas, são suas, de vocês, do povo, e vocês têm de fazer o possível e o impossível para que sejam guerras vitoriosas. Forças parlamentares poderiam ter contra-argumentado que, se o padrão ouro da política são os interesses e a segurança do povo, melhor seria que representantes eleitos do povo determinassem de que interesses e segurança se tratava e como preferiam vê-los defendidos.

Logo depois do 11/9, muitos liberais esperavam que a guerra ao terror inaugurasse novo capítulo na história da social democracia nos EUA, porque a conclamação ao sacrifício patriótico geraria uma ética da solidariedade social. O que se viu foi Bush capando impostos, endividar o país até o pescoço e converter a guerra ao terror em esporte nacional pela televisão, não em guerra do povo. Soberanos modernos tardios, parece, afastam suas políticas de qualquer democracia, criando exércitos mercenários e mergulhando no pântano dos mercados de crédito fácil. Como resultado, ninguém nos EUA precisa reclamar a propriedade de qualquer valor comum ou coletivo: nem de guerras nem de dívidas; nem o governo nem, com certeza, os cidadãos, cada dia mais empobrecidos e precários.

Por isso, a atual crise foi tomada pela esquerda como oportunidade para retirada e encolhimento, não como fagulha que poderia desencadear uma revolta democrática. Nessa medida, faz lembrar crises semelhantes no Terceiro Mundo ao longo dos últimos 30 anos, sempre usadas pelas elites para justificar cortes drásticos nos gastos do governo e a reestruturação de economias social-democratas. Por exemplo, também, a crise fiscal da cidade de New York em 1975, quando Wall Street pôs-se a impor políticas de “austeridade” e disciplina à social democracia nos EUA, em movimento que, para muitos, deu origem a experimentos posteriores, sempre de crescente “austeridade”, na América Latina e pelo mundo. 

O persistente discurso de Obama a clamar por “austeridade” atualiza para 2011 o que diziam os Democratas de Wall Street durante a crise de 1975. Depois daquela crise, o partido Democrata foi reconfigurado à imagem de Wall Street [no Brasil, criou-se o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira, à moda FMI e Wall Street. BINGO!]

Mas há duas diferenças cruciais, hoje. Não há qualquer ameaça de os emprestadores fecharem as torneiras; emprestadores internacionais parecem perfeitamente desejosos de continuar a financiar o endividamento dos EUA. De fato, quando a Bolsa de Valores desabou depois que Standard and Poor’s rebaixou a avaliação dos EUA, dia 5 de agosto, os investidores correram a pôr seu dinheiro em bônus do Tesouro dos EUA. E onde crises anteriores provocaram resistência popular, dessa vez – por mais que a crise seja simulacro – exceto em Wisconsin e alguns outros estados, o único sinal de mobilização que se viu na esquerda, foi para rápida retirada.

Se há texto de leitura indispensável nesse momento, é O 18 Brumário de Luis Bonaparte, de Marx [1]. Não pela super repetida frase da primeira vez como tragédia, depois como farsa, mas, isso sim, pela impressionante análise, de retrovisão e previsão, do comportamento reacionário dos camponeses franceses ao longo das monarquias Bourbon e de Julho. Embora a revolução de 1789 e Napoleão tivessem libertados os camponeses da servidão, a geração que veio em seguida foi entregue, sem qualquer atenção, à dura disputa dentro do mercado da produção agrícola, contra pequenos proprietários que não lhes podiam oferecer emprego e salário. Sim, já não tinham de pagar impostos feudais aos donos da terra, mas tinham de pagar hipotecas e impostos que nenhum benefício lhes traziam. Com Napoleão III, o estado só lhes ofereceu o espetáculo imperial. Não era pouco, como Marx observou, porque, no exército, os camponeses foram “transformados em heróis, defendendo suas novas posses contra o mundo externo, glorificando a nacionalidade recém adquirida, pilhando e revolucionando o mundo. A farda era seu manto de poder estatal; a guerra, sua poesia”. A isso Marx chamou “o império do campesinato”. 

Na análise de Marx vê-se o baixo ventre da crise da dívida – de fato, das últimas quatro décadas da revolta da direita contra impostos, da Proposição 13 de Howard Jarvis em 1978, que destruiu as finanças da California ao impor estritos limites a qualquer aumento de impostos, ao Tea Party. Os liberais sempre têm dificuldade para entender esses movimentos – impostos não servem para nada que preste? – porque não veem como é pouco o que o estado, nos EUA, oferece diretamente aos cidadãos, em relação às circunstâncias econômicas em que vivam.

Desde o início dos anos 1970s, com curtos períodos de exceção, os salários dos trabalhadores estão estagnados. O que o estado ofereceu em resposta? Transporte público praticamente não existe. Nem com a “reforma” de Obama o estado oferece assistência médica ou seguro-saúde à maioria da população. Exceto nos bairros ricos, só muito raramente se encontra educação pública de boa qualidade. Nessas circunstâncias, não surpreende que os cidadãos queiram pagar menos impostos. Aí está um tipo de mudança na qual conseguem crer.

Nesse ponto, Democratas como Obama e os que o defendem, que tanto reclamam de o Tea Party ter sitiado a política norte-americana, são os únicos culpados. Durante décadas, os Democratas ajudaram a depauperar o estado norte-americano [no Brasil, a social democracia brasileira, o PSDB, fez o mesmo serviço sujo (NTs)] sempre na vã esperança de que o mercado operaria sua mágica. Por algum tempo, até que operou, enquanto o estado endividava-se sem parar. E os trabalhadores encontraram compensação para os salários estagnados, no crédito fácil e nas hipotecas a juros baixos. Na hora de pagar as dívidas, os salários – no caso dos felizardos que ainda tivessem emprego e salário – não era suficiente para pagar coisa alguma. Só restou aos assalariados clamar por menos impostos e ‘austeridade’. E o império do campesinato.



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl. [dez.1851-mar.1852] O 18 de Brumário de Louis Bonaparte