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domingo, 4 de dezembro de 2011

Golpe de Estado contra a democracia


Jérome Duval

1/12/2011, Jérome Duval, Comité pour l'annulation de la dette du Tiers Monde, Cadtm
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


A “austeridade” contra a democracia 

Vacilante, a democracia faz triste figura e tende a naufragar, contra o pano de fundo de um bipartidarismo institucionalizado a serviço dos rentistas. Por toda a Europa, todos se dirigem para uma mesma política de ‘austeridade’ desejada pelos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu. A demonstração faz-se não só pelo exemplo grego (não funciona, com certeza, para a população grega), mas toma-se também a precaução, quando alguém se preocupa com eleições, de entronizar os mesmos políticos, seja o eleito quem for. O povo já nada escolhe. A política econômica está prefixada pelos financistas, como na Irlanda ou em Portugal, desde a véspera das eleições. A troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) impõe suas políticas. Ao candidato vencedor nas urnas só cabe aplicá-las, enganando o eleitor sobre alguma inexistente diferença entre os partidos, em matéria de economia.

Na Espanha, Mariano Rajoy, herdeiro de Aznar, não se atreveu a divulgar as futuras medidas de austeridade que o prejudicariam durante a campanha eleitoral. Nem acabou de ser eleito e já está sendo pressionado para revelar os membros de seu governo, antes até de tomar posse (1); e não faz outra coisa além de reunir-se com os grandes banqueiros espanhóis – Isidro Fainé da Caixa, Francisco González do segundo banco espanhol, o BBVA, e Rodrigo de Rato, presidente do Bankia e ex-diretor geral do FMI... Os grandes bancos credores da dívida espanhola comandam as rédeas, Mariano Rajoy gesticula.

Ou se trata de uma ditadura que se vai impondo, como na Grécia, ou a extrema direita fascista (partido Laos) imiscui-se no poder, sem mandato recebido das urnas. Por toda parte, assiste-se a evicção dos responsáveis políticos, os quais, em vez de serem julgados por suas políticas antissociais, as quais jamais mencionaram nos programas eleitorais, são salvos da vingança do povo, apesar do imundo trabalho que fizeram. Aconteceu com Berlusconi, que achou escapatória segura, apesar de muitos, com certeza, preferirem vê-lo atrás das grades pelo muito que fez sofrer o povo, condenado também a reembolsar todo o dinheiro que desviou e roubou do contribuinte italiano.

Banco Central Europeu, Itália, Grécia, a dança das cadeiras dos “ex” Goldman Sachs

Um paladino da privatização, à testa do Banco Central Europeu 

Custe e o que custar, ainda que custem sacrifícios humanos inauditos, a ideologia capitalista ávida de lucros reforça sua dominação em toda a Europa. Durante o mês de novembro de 2011, muitos responsáveis pela débâcle financeira europeia foram empossados, mesmo sem terem sido eleitos. Mario Draghi acaba de ser nomeado para o Banco Central Europeu; Lucas Papadémos caiu de paraquedas na chefia do Estado grego; e Mario Monti substitui formalmente um Berlusconi já excessivamente impopular para dirigir a Itália. Nenhum desses personagens jamais recebeu um voto, nenhum tem qualquer programa que se tenha comprometido a cumprir, nada de campanha eleitoral que permitisse qualquer discussão ou debate. Mas sobre cada um desses pesa uma parte da responsabilidade pela crise que agora se apresentam para resolver, desde quando viviam sob a atmosfera sulfurosa do conglomerado bancário Goldman Sachs, norte-americano, rei de burlas astronômicas. Mario Draghi, quando vice-presidente para a Europa (de Goldman Sachs Internationale); Lucas Papadémos, quando presidente do Banco Central da Grécia; e Mario Monti, quando conselheiro internacional de Goldman Sachs; os três provocaram, em diferentes graus, a crise europeia, ajudando a falsificar as contas da dívida grega e especulando sobre a dívida (falsificada) (2). Carregam pesadas responsabilidades na criação da crise que cresce hoje em toda a Europa e, por isso, têm de ser demitidos dos cargos que ocupam e têm de responder por seus crimes perante a Justiça.

Na Grécia, o falsificador das contas apresenta-se para saneá-las 

Apesar de ter tentado a todo custo manter-se no poder e adiar as eleições gerais, motivo pelo qual propôs um referendo popular, que levou à sua demissão, Georges Papandreou teve de curvar-se sob pressões que vinham de todos os lados, até de dentro de seu próprio governo. Não esqueçamos que um mês apenas, depois de Papandreou ter sido eleito em outubro de 2009, Gary Cohn, número 2 de Goldman Sachs, desembarcou em Atenas, acompanhado de investidores, entre os quais John Paulson, que reaparecerá no centro do que ficou conhecido como “o escândalo Abacus”… (3)

Favorito do mundo dos negócios, dos banqueiros e parceiros internacionais, Lucas Papadémos deixa a vice-presidência do Banco Central Europeu para tornar-se novo primeiro-ministro da Grécia, sem ter sido eleito. Foi presidente do Banco Central Grego entre 1994 e 2002 e, nesse cargo, participou da operação de adulteração das contas perpetrada por Goldman Sachs. A observar que o gestor da dívida grega é um tal Petros Christodoulos, ex-corretor de Goldman Sachs.

Já não cabe duvidar de que a Grécia deixou de ser nação soberana: seguindo as missões regulares da Troika (BCE, CE, FMI) que visitam os ministérios na capital, haverá agora uma missão permanente, domiciliada em Atenas, para implantar, controlar e supervisionar a política econômica do país. O governo que se comporte! Para bem firmar o cabresto, a Troika prevê um novo plano de endividamento, uma vez que o primeiro memorando (cerca de 110 bilhões de euros, em maio de 2010), anticonstitucional, pois não foi aprovado pelo Parlamento, não foi totalmente pago. As garras da dívida ferram-se inexoravelmente à carne do povo grego.

Na Itália, depois de uma década de decadência da democracia, o conselheiro da Coca Cola aplica o golpe de misericórdia.

Com quase nove anos na presidência do Conselho, o império Berlusconi, terceira fortuna da Itália (4), marcou profundamente a vida política. Seu reinado marca a decadência e a agonia de uma democracia que morre sufocada. Tornado motivo de zombaria da imprensa internacional por seus casos, soterrado sob histórias infindáveis de corrupção e com a popularidade em queda livres, Berlusconi renuncia à presidência do Conselho, dia 12 de novembro de 2011, para não convocar eleições antecipadas. Dia seguinte, o presidente italiano Giorgio Napolitano nomeia o ex-comissário europeu Mario Monti para que assuma imediatamente. Poucos dias antes, dia 9/11, Napolitano já nomeara Monti senador vitalício. Monti obtém larga maioria na Câmara de Deputados no dia 18/11 (556 votos a 61, de 617 votantes). Sem se intimidar ante o acúmulo de funções, já primeiro-ministro, se autonomeia também ministro da Economia. Mario Monti não tem qualquer legitimidade para impor qualquer política de “austeridade” aos italianos. Houve um putsch!

Conselheiro para negócios internacionais de Goldman Sachs desde  2005 (na qualidade de membro do Research Advisory Council do Goldman Sachs Global Market Institute), Mario Monti foi nomeado comissário europeu para o mercado interno em 1995, depois comissário europeu para a Concorrência em Bruxelas (1999-2004). É presidente da Universidade Bocconi em Milão, membro do comitê diretor do poderoso Clube Bilderberg, do think tank neoliberal Bruegel fundado em 2005, do præsidium Amigos da Europa, outro influente think tank com sede em Bruxelas... e conselheiro da Coca Cola. Em maio de 2010, chegou à presidência do departamento Europa, da Trilateral, um dos mais poderosos cenáculos da elite oligárquica internacional.

Como escreveu Giulietto Chiesa no jornal de esquerda Il Fatto Quotidiano (5), veio para “reeducar” os italianos na religião da dívida. Em seu governo, fez-se cercar de banqueiros e seu ministro de Assuntos Estrangeiros, Giulio Terzi di Sant’agata, foi conselheiro político da OTAN, antes de ser embaixador em Washington. Não bastasse, um novo superministério encarregado do desenvolvimento econômico, da infraestrutura e dos transportes foi entregue a Corrado Passera, PDG do banco Intesa Sanpaolo.

Por todos os lados, os interesses privados da oligarquia financeira ultraconservadora e amiga de Washington estão postos acima e antes dos interesses das populações. Esses governos fantoches obedecem aos diktats da finança, forçando os cidadãos a pagar uma dívida injusta pela qual não são responsáveis e que jamais lhes valeu qualquer benefício. A salvação só poderá vir de baixo. Façamos nossa a palavra de ordem dos gregos: “Não devemos, não vendemos, não pagaremos!” (6)
___________________

Notas dos tradutores
(1) Deve assumir dia 20 de dezembro. Como é uso no reino, o rei deverá ser o primeiro a ser informado sobre o governo.
(2) Goldman Sachs recebe remuneração do governo grego pelo serviço de aconselhamento bancário, ao mesmo tempo em que especula com a dívida do país. O quadro provavelmente é o mesmo, com o banco comercial JP Morgan, que auxilia a Itália a otimizar as contas (Marc Roche, Banque, comment Goldman Sachs dirige le monde, Albin Michel, 2010, p.19).
(3) Ibid, p.23.
(4) 118ª no mundo, a fortuna da família Berlusconi chega a 7,8 bilhões de dólares (Forbes). (5) Giulietto Chiesa, “E’ il governo Napolitano-Monti-Goldman Sachs”, 12/11/2011, Il Fatto Cotidiano . Versão francesa, Courrier International, 14/11/2011, “Super Mario, l’homme qui roule pour la BCE”.
(6) Appel Sol – Syntagma, Madrid - Atenas

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Capitalismo & Crises Econômicas


por Jacques Gouverneur [*] e Marcel Roelandts [**]

 

I- Taxa de lucro, Taxa de mais-valia, Composição orgânica do capital. Estados Unidos, 1951-2010

 

II- Taxa de mais-valia e seus determinantes, Estados Unidos, 1948-2010

 

III- Composição orgânica do capital e seus determinantes, Estados Unidos, 1951-2010

 

IV- Salários e produtividade, Estados Unidos

 

 

I- Taxa de lucro, Taxa de mais-valia, Composição orgânica do capital. Estados Unidos, 1951-2010


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A taxa de lucro mede a rentabilidade do capital total investido. Ela indica como este último se valoriza e exprime assim o grau de cumprimento da finalidade capitalista. De todas as leis do capitalismo é essa a que Marx considerava como a historicamente mais importante [1] . Suas flutuações nos apresentam duas dinâmicas:

1.      Por um lado, as pulsações do curto prazo dos ciclos de acumulação, compostos sucessivamente de um período de alta da taxa de lucro, seguido de uma baixa, e terminando por uma recessão (1954, 1958, 1970, 1974-75, 1980-82, 1991, 2001, 2007-08). São os ciclos econômicos tipicamente estudados por Marx no capital [2] , ciclos que ele chamava de “decenais" [3].

2.      Por outro lado, as evoluções tendenciais da taxa de lucro em médio prazo dão lugar a quatro grandes fases de uma quinzena de anos cada uma: para o alto (1951-66), para baixo (1966-82), de novo para o alto (1982-97), e aparentemente de novo para baixo (1997-...) tendência ainda a se confirmar nos anos vindouros desta última fase.

Entretanto, não é porque a taxa de lucro cai na saída de cada ciclo de acumulação que se está forçosamente na presença de uma baixa tendencial da taxa de lucro, da mesma forma que não é por que o aquecimento climático e a estação de Verão correspondem a uma alta de temperatura que esses dois fenômenos compartilham a mesma causalidade: o primeiro está ligado a atividades humanas [NR], e o segundo à rotação da terra em torno do sol. O mesmo ocorre com a taxa de lucro: nem as flutuações de curto e médio prazo, nem as razões dessas flutuações devem ser confundidas. Assim, as quedas recorrentes da taxa de lucro na saída dos ciclos de acumulação podem ter lugar dentro de uma tendência de médio prazo para a alta ou a baixa desta. É em médio prazo que a baixa tendencial age, como indicava Marx em O Capital, e não a cada ciclo curto [4] .

As flutuações da taxa de lucro resultam da evolução respectiva da taxa de mais-valia como numerador e da composição orgânica do capital como denominador :

  • A taxa de mais-valia reparte o produto social entre os lucros e os salários: “...o poder de consumo da sociedade tem por base as condições de repartição antagônicas que reduzem o consumo da grande massa da sociedade a um mínimo variável dentro de limites mais ou menos estreitos. Isso é de outra forma, restrito pelo desejo de acumular, a tendência a aumentar o capital e a produzir a mais-valia em uma escala cada vez mais estendida” [5] . A dinâmica de investimento e as crises dependem, portanto, grandemente do equilíbrio entre a proporcionalidade desta repartição, como explica Marx no livro II do Capital.
  • A composição orgânica do capital mede a intensidade em capital fixo quando os ganhos de produtividade já não podem compensar os gastos realizados para obter os meios de produção.
O gráfico nos mostra uma fortíssima proximidade entre a evolução da taxa de lucro e a da taxa de mais-valia, e a composição orgânica do capital vindo depois para adicionar ou contrarrestar seus efeitos: tanto em 1966 quanto em 1997, a taxa de lucro volta a cair primeiro como consequência da inversão da taxa de mais-valia, e a composição orgânica do capital vêm acrescentar os seus efeitos somente depois.

Não se pode esquecer que tanto o numerador da taxa de lucro (a taxa de mais-valia), quanto o seu denominador (a composição orgânica do capital), são todos os dois fortemente influenciados pela evolução da produtividade do trabalho. As incidências desta última estão detalhadas nos gráficos abaixo, que explicam as determinantes da taxa de mais-valia e da composição orgânica do capital.

Os resultados desse gráfico sugerem igualmente que em 1997 se encerrou a fase de restabelecimento da taxa de lucro iniciada desde 1982 e que os Estados Unidos entraram de novo em um período tendencial de baixa no médio prazo (tendência ainda a confirmar, entretanto).

Para seguir adiante, o capitalismo tem a necessidade de se apoiar sobre as suas duas pernas: a produção e o consumo. Por vezes se apresenta muito frequentemente uma taxa de lucro reduzida como parte das dificuldades encontradas na produção (a dificuldade em extrair suficiente sobretrabalho para um capital dado).

Na realidade a taxa de lucro é uma variável sintética que exprime simultaneamente as dinâmicas e as contradições relativas à produção e à realização do valor: como a sua evolução depende tanto da eficácia do capital (no denominador) como da repartição do produto total (a taxa de mais-valia, no numerador), ela mede tanto a capacidade do capital para garantir a sua rentabilidade quanto a adequação dos mercados à produção. É, portanto, equivocado privilegiar somente um dos dois aspectos do circuito de acumulação (produção ou venda), ou fazê-los estritamente depender um do outro.

Na realidade Marx desenvolve uma visão integrada do circuito de acumulação em um sistema de variáveis parcialmente independentes. Esta concepção sintética da taxa de lucro constitui um dos maiores aportes metodológicos de Marx.

Nós estamos muito longe de todos os esquemas simplificadores que abreviam a mecânica complexa do Capital e de suas contradições e reduzem tudo a uma explicação monocausal, onde as crises recorrentes tenderiam a cada vez a uma só e mesma causa ao longo da história, que seriam:

  • A contradição entre o caráter social da produção e a sua apropriação privada (Lênin);
  • O esgotamento progressivo dos mercados extra-capitalistas (Luxemburgo);
  • A escassez da mais-valia consecutiva à superacumulação (Grossman-Mattick);
  • A concentração do capital (Hilferding);
  • As trocas desiguais (Samir Amin);
  • A forma valor e a passagem à dominação real do capital (Perspectiva Internacionalista);
  • Etc.
Em conclusão, a taxa de lucro deve ser concebida como um indicador integrado do restabelecimento das condições de produção e realização do produto social total. Ela expressa tanto as contradições ligadas à repartição do valor produto (a luta de classe, ou seja, a taxa de mais-valia no numerador), quanto o mecanismo da intensidade em capital fixo (as forças produtivas, ou seja, a composição do capital no denominador).

Notas do Capítulo I:

[1] “...de todas as leis da economia política moderna, é a mais importante que existe. Essencial para a compreensão dos problemas mais difíceis, ela é também a lei mais importante do ponto de vista histórico, uma lei que, apesar de sua simplicidade, nunca foi compreendida até o momento presente e menos ainda enunciada de maneira consciente” - Marx, Grundrisse, La Pléiade II: 271-272.

[2] “Na medida em que a acumulação diminui, desaparece também a causa de sua diminuição, a saber, a desproporção entre capital e força de trabalho explorável. O mecanismo do processo de produção capitalista elimina por si mesmo os obstáculos que ele cria espontaneamente” Marx, Le Capital, Livre I, quarta edição alemã, Editions Sociales, 1983 : 694. “As crises não são mais do que soluções momentâneas e violentas que restabelecem por um momento o equilíbrio perturbado [...] A estagnação ocorrida na produção teria preparado — nos limites capitalistas — uma expansão subsequente da produção. Assim o ciclo uma vez mais teria sido percorrido. Uma parte do capital depreciado pela estagnação reencontraria o seu antigo valor. De resto, o mesmo ciclo vicioso seria outra vez percorrido, nas condições de produção amplificadas, com um mercado ampliado, e com um potencial produtivo acrescido” Marx, Le Capital, Livre III, La Pléiade II : 1031 & 1037.

[3] O ciclo de acumulação mergulha suas raízes na necessidade de crescimento do capital constante em detrimento do capital variável; seu ritmo é então essencialmente ligado aos ciclos mais ou menos decenais de rotação do capital fixo: “À medida que o valor e a duração do capital fixo envolvido se desenvolvem com o modo de produção capitalista, as vidas da indústria e do capital industrial se desenvolvem em cada empresa particular e se prolonga sobre um período, digamos, em média de dez anos [...]. Este ciclo de rotações que se encadeiam e se prolongam por uma série de anos, onde o capital é prisioneiro de seu elemento fixo, constitui uma das bases materiais das crises periódicas”. Marx, Le Capital, Livre II, La Pléiade : 614. Marx fala de um período decenal médio, e não absoluto: “Sem dúvida os períodos de inversão do capital são muito diferentes, mas a crise serve sempre como ponto de partida para um poderoso investimento; ela fornece, por conseguinte — do ponto de vista da sociedade tomada em seu conjunto — uma nova base material para o próximo ciclo de rotação”. Marx, Le Capital, Livre II, Editions Sociales, tomo IV : 171.

[4] “Assim a lei [da baixa tendencial da taxa de lucro] age apenas como uma tendência cuja ação manifesta-se claramente apenas em certas circunstâncias e no curso de longos períodos”  - Livre III, La Pléiade II: 1023. Marx define então dois casos onde 'a ação da lei se manifesta claramente': (1) “em certas circunstâncias” e (2) “no curso de longos períodos”. Mas o que ele quer dizer por período longo? A resposta foi claramente dada no início do mesmo capítulo sobre as influências contrárias: “Se se considera o enorme desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social, ainda que seja apenas dos últimos trinta anos, e se nós comparamos esse período com todos os períodos anteriores, se consideramos mais particularmente a massa enorme de capital fixo que, para além das máquinas como tais, entram no processo social de produção, tomado como um todo, vemos que a dificuldade com que se têm entretido até agora os economistas, a explicar a queda da taxa de lucro, se transmuta na dificuldade inversa, a de explicar por que essa queda não é maior e mais rápida” (idem: 1014). Assim, logo que Marx evoca “longos períodos” nos cursos dos quais se exerce a lei da baixa tendencial da taxa de lucro, ele fala de uma “trintena de anos”. Portanto nós não falamos aqui nem na temporalidade dos ciclos decenais de acumulação, nem naquele espaço de tempo de um século ou mais, como reclamado por certos autores, temporalidade ausente na obra de Marx, posto que ela data do começo da época moderna do capitalismo, a partir de 1825, e ele escreve O Capital na segunda metade do século XIX.

[5] Marx, Le Capital, Livre III, La Pléiade II : 1026-1027.

[NR} A analogia não é feliz pois é contestável que as atividades humanas tenham influência sobre o clima global. Ver A impostura global.



II. Taxa de mais-valia e seus determinantes, Estados Unidos, 1948-2010


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As flutuações da taxa de mais-valia dão lugar às três fases que dão ritmo à evolução do capitalismo desde o pós-guerra: ela aumenta desde 1948 até 1966, diminui até o ano de 1982, e retoma sua curva para o alto desde então.

I. 1948-1966

Contrariamente a uma idéia preconcebida, os salários e os lucros não evoluem necessariamente numa relação inversa um com o outro: eles podem crescer juntos enquanto os ganhos de produtividade forem suficientemente intensos e distribuídos. Foi esse o “milagre” dos Trinta gloriosos durante os quais todas as variáveis econômicas aumentaram conjuntamente, permitindo uma diminuição dos tempos de trabalho!

Isso se traduziu no pleno emprego e os salários reais triplicaram nos países do OCDE (em média). O gráfico indica que os intensos ganhos de produtividade durante esse período:

  • Fizeram baixar o valor médio dos bens de consumo (5).
  • Baixaram também o valor da força de trabalho (4).
  • Permitiram um aumento dos salários reais (2).
  • E uma diminuição dos tempos de trabalho (3).
II. 1966-1982

A taxa de mais-valia diminui durante todo esse período, pois a desaceleração dos ganhos de produtividade (5) já não permitia compensar a diminuição dos tempos de trabalho (3) e a continuação do aumento dos salários reais — sobretudo de 1966 a 1972 (2).

III. 1982-2010

A taxa de mais-valia volta a subir fortemente depois de 1982 por conta da recuperação dos ganhos de produtividade — mas sem retomar ao nível imediato do pós-guerra — (5), enquanto que o tempo de trabalho já não diminuía mais (3), e o aumento dos salários reais diminuía consideravelmente (2).

Essa retomada da taxa de mais-valia, junto com a diminuição da composição orgânica do capital (na sequência da recuperação dos ganhos de produtividade desde 1982), foi a base da retomada da taxa de lucro, como podemos constatar no gráfico “Taxa de lucro – Taxa de mais-valia – Composição orgânica do capital, Estados Unidos (1951-2010)”, o primeiro dos gráficos acima.

A taxa de mais-valia

O valor total criado se decompõe em salários (valor da força de trabalho) e lucros (mais-valia). A taxa de mais-valia relaciona a mais-valia com os salários. Como a mais-valia é igual ao valor total criado menos os salários, a taxa de mais-valia é igual a: mais-valia / salário = (valor total criado – salários) / salários = (valor total criado / salários) – (salários / salários) = valor total criado / salários) – 1 = (valor total criado / valor da força de trabalho) – 1 = [(3) / (4)] – 1, conforme o gráfico acima.

Dito de outra forma, visualmente, a taxa de mais-valia aumenta quando as curvas (3) e (4) se separam, e ela diminui quando as curvas se aproximam.

Além disso, pode-se também mostrar que a taxa de mais-valia depende da evolução respectiva da produtividade do trabalho e do salário real: se a produtividade do trabalho aumenta mais rapidamente do que o salário real, então a taxa de mais-valia aumenta, também valendo o inverso. É o que também nos mostra o gráfico: logo que a curva (5), que representa o inverso da produtividade, decresce mais rapidamente do que o aumento dos salários reais (2), então a taxa de mais-valia aumenta, sendo o inverso verdadeiro.

O salário real

Ele corresponde à quantidade dos meios de consumo (bens e serviços) que um trabalhador pode comprar. Calcula-se relacionando, sob forma de índices, a evolução dos salários nominais com a evolução dos preços ao consumidor.

O valor por meio de consumo

É o inverso da produtividade do trabalho. É calculado relacionando, sob forma de índices, a evolução dos preços ao consumo com a evolução ao equivalente monetário dos valores (conforme se vê abaixo).

O Equivalente monetário dos valores

É a expressão, em dólares, de uma hora de valor criado. É calculado relacionando o produto interno novo criado no setor mercantil, com o número total de horas de trabalho prestadas nesse setor.



III. Composição orgânica do capital e seus determinantes. Estados Unidos, 1951-2010


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Afirma-se com frequência que a diminuição da taxa de lucro resulta da mecanização crescente da economia: a utilização cada vez maior de máquinas (a composição técnica do capital) faz aumentar a composição orgânica do capital (a relação entre o valor das máquinas e o trabalho).

Ora, isso nos faz esquecer uma contra-tendência essencial assinalada por Marx: os ganhos de produtividade fazem diminuir o valor dos meios de produção permitindo assim compensar o crescimento do seu número [1].

É exatamente o que mostra o gráfico acima: a composição orgânica do capital aumenta somente quando os ganhos de produtividade desaceleram no setor dos meios de produção e não permitem mais compensar o aumento da composição técnica do capital (o número de máquinas compradas).

Não apenas este último (da composição técnica do capital) tem crescido ao longo do tempo, mas a rapidez desse crescimento é cada vez maior: 1,7% ao ano entre 1951-68, 2,5% ao ano entre 1968 a 1995, e 4,6% depois disso. Durante todo esse período, um assalariado utiliza em média cinco vezes mais máquinas atualmente do que no período posterior à segunda guerra.

Como as variações na diminuição do valor da força de trabalho intervêm pouco na explicação das flutuações da composição orgânica do capital, são, sobretudo, as inflexões nos ganhos de produtividade no setor dos meios de produção que fazem baixar o valor desses últimos, e é isso que explica as flutuações da composição orgânica do capital: quando o valor por meio de produção diminui mais rapidamente do que o aumento da composição técnica do capital, então a composição orgânica diminui, e vice-versa.

A composição orgânica do capital

A composição orgânica do capital relaciona o capital constante ao capital variável. É a relação entre os componentes que fazem apenas transmitir o seu valor e aqueles que criam um novo valor, ou entre aqueles que não produzem mais-valia e aqueles que produzem, ou ainda, entre o trabalho passado cristalizado nas máquinas e o trabalho presente representado pelos assalariados. Ela é então calculada relacionando-se o capital fixo investido à massa salarial empregada.

A composição técnica do capital

Em sentido estrito, a composição técnica do capital é o número de meios de produção utilizados por trabalhador, ou o capital per capta. Esta composição técnica é calculada aqui dividindo o índice da evolução do estoque de capital novo (em R$) pelo índice da evolução dos preços dos meios de produção (em R$ por meio de produção). O resultado dessa relação nos dá um índice do aumento do número dos meios de produção.

O valor por meio de produção

É o inverso da produtividade no setor dos meios de produção. É a evolução sob a forma de índices do número médio de horas necessárias para produzir um meio de produção. Esse valor é obtido dividindo o índice do preço médio do capital fixo pelo equivalente monetário dos valores (o equivalente em dólares de uma hora de valor criado: ele é calculado relacionando o produto interno líquido do setor mercantil com o número total de horas de trabalho prestadas nesse setor).

Notas do Capítulo III:

[1] “Em uma palavra, o desenvolvimento que faz crescer a massa do capital constante em relação ao capital variável reduz, como consequência da produtividade acrescida do trabalho, o valor dos seus elementos; ele impede então que o valor do capital constante, aumentando sem cessar, cresça na mesma proporção que a massa material, ou seja, o volume dos meios de produção colocados em movimento pela mesma quantidade de força de trabalho. Pode ocorrer mesmo que, em alguns casos, a massa de elementos do capital constante aumente, enquanto o seu valor permanece constante ou mesmo diminua" Marx, Le Capital, livre III, La Pléiade II : 1019.
“...graças a uma produtividade aumentada, pois, paralelamente ao crescimento do número de máquinas a um preço reduzido, o preço da mercadoria diminui, a taxa de lucro pode permanecer a mesma ... a taxa de lucro poderia mesmo crescer se o aumento da taxa de mais-valia estivesse ligada a uma diminuição sensível do valor dos elementos do capital constante, particularmente do capital fixo [consecutivamente aos ganhos de produtividade]” Marx, Le Capital, livre III, La Pléiade II : 1013.



IV. Salários e produtividade, Estados Unidos


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O período do pós-guerra caracteriza-se por um paralelismo entre o aumento dos ganhos de produtividade e dos salários reais. Isso estabiliza a parte salarial no total da riqueza produzida e possibilita ao capitalismo evitar, por algum tempo, “uma superprodução que provenha justamente do fato da massa do povo não poder nunca consumir mais que a quantidade média de bens de primeira necessidade, que o seu consumo não aumente senão ao ritmo do aumento da produtividade do trabalho” (Marx [1]).

Tal é a explicação de base usada pelos marxistas do pós-guerra para compreender a prosperidade daquele período: “É inegável que na época moderna os salários reais aumentaram. Mas apenas no âmbito da expansão do capital, o qual supõe que a relação dos salários com os lucros permanece constante no geral. A produtividade do trabalho deveria então se elevar com uma rapidez que permitisse ao mesmo tempo o acúmulo do capital e o crescimento do nível de vida dos trabalhadores” (Mattick [2]). Em outras palavras, “salários e lucros podem se elevar se a produtividade cresce de maneira suficiente...” (Mattick [3]). Isso nos mostra que a escola de regulação não inventou nada de fundamentalmente novo : ela apenas prolongou uma análise já bem desenvolvida por Marx e seus sucessores [4].

A defasagem entre a produtividade e os salários se tornará óbvia e crescente a partir dos anos 1980. O desenvolvimento mais rápido da produtividade (curva superior) em relação aos salários (curva inferior) materializa a tendência natural do capitalismo de fazer crescer sua produção para além da demanda. Esta é a explicação fundamental da superprodução elaborada por Marx: “a superprodução tem especialmente como condição a lei geral de produção do capital : produzir à medida das forças produtivas (ou seja segundo a possibilidade que existe de explorar a maior massa possível de trabalho com uma massa dada de capital), sem ter em conta os limites existentes do mercado ou as necessidades solváveis...” [5].

Dito de outra forma: “a razão última de todas as crises reais é sempre a pobreza e o consumo restrito das massas, face a tendência da economia capitalista em desenvolver as forças produtivas como se elas não tivessem por limite o poder de consumo absoluto da sociedade” [6].

É isso também o que Engels sintetizava em uma de suas fórmulas: “Enquanto as forças produtivas crescem em progressão geométrica, a expansão dos mercados prossegue, na melhor das hipóteses, em progressão aritmética” [7].

Notas do CapítuloIV:

[1] Teorias sobre a mais-valia, Décimo sexto capítulo: A teoria do lucro de Ricardo, § 3 : A lei da baixa da taxa de lucro, Editions sociales, tomo 2 : 559-560.

[2] Paul Mattick, Intégration capitaliste et rupture ouvrière, 1969, édition EDI : 151.

[3] Paul Mattick, Le capital aujourd'hui, publicado por Maximilien Rubel em Etudes de marxologie, n°11, juin 1967.

[4] Notadamente por Socialisme ou Barbarie (1949-67), uma revista marxista bem conhecida à época e que inspirou largamente a escola de regulação (Aglietta, Souyri, Lipietz, etc.) como podemos dar-nos conta por esta longa citação:

“...o capitalismo pode realizar um compromisso com respeito à distribuição do produto social, porque precisamente um ritmo do aumento dos salários que seja da mesma ordem que o crescimento da produtividade do trabalho deixa grandemente intacta a repartição existente. (...). A idéia clássica era a de que o capitalismo era incapaz de suportar aumentos de salários porque eles significavam automaticamente a diminuição dos lucros, por conseguinte, a redução do fundo de acumulação indispensável às empresas para sobreviver à concorrência. Mas esta imagem estática está fora da realidade. Se a produtividade dos operários aumenta em um ano em 4% e os salários igualmente, os lucros aumentam necessariamente também em 4%, pois que todas as coisas são iguais nessa proporção (...). A partir do momento que o aumento dos salários não excede substancialmente e de maneira sustentada os aumentos da produtividade, e são generalizados, os aumentos dos salários são perfeitamente compatíveis com a expansão do capital. Eles são mesmo indispensáveis no plano estritamente econômico.
Numa economia que cresce a uma taxa média de 3% ao ano, e onde os salários correspondem a 50% da demanda final, qualquer desvio mesmo que pouco substancial entre a taxa de crescimento dos salários e a taxa de expansão da produção conduziria ao final de um tempo relativamente curto a desequilíbrios formidáveis, e a uma incapacidade de escoar a produção que não poderia ser corrigida par nenhuma 'depressão' mesmo sendo esta bastante profunda”
(Socialisme ou Barbarie n°31, artigo escrito em 1959 e publicado em 1960).

[5] Teorias sobre a mais-valia, Décimo sétimo capítulo: Teoria da acumulação de Ricardo, § 14 : Contradição entre o desenvolvimento irresistível das forças produtivas e a limitação do consumo como base da superprodução, Editions Sociales, tomo II : 637.

[6] Le Capital, Livre III, ch. XXX : Capital dinheiro e capital real, La Pléiade, Economie II : 1206.

[7] Prefácio à edição inglesa (1886) do livro I de O Capital, La Pléiade, Economie II : 1802.

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De Jacques Gouverneur ver também:
Crescimento e crises e Compreender a Economia, Edições Avante!, 2010.

O artigo original, em português, encontra-se em Capitalismo & Crises Econômicas
Este texto e os gráficos foram extraídos de: Resistir.info

terça-feira, 8 de novembro de 2011

EUA: saindo às pressas do Afeganistão


5/11/2011, *MK Bhadakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A reunião do Grupo dos 20 (G-20) em Cannes deixou à vista o quanto todos os líderes ocidentais foram encurralados contra as cordas [1]. 

Ao oferecer-se para sediar a reunião do G-20, o presidente Nicolas Sarkozy da França contava com servir-se do evento para exibir ao mundo seus talentos de liderança. O fracasso da reunião do G-20 pode ter comprometido todas as chances de Sarkozy reeleger-se nas eleições presidenciais marcadas para daqui a seis meses. 

Sarkozy está em boa companhia, todos também encurralados contra as cordas: George Papandreou, Silvio Berlusconi, Jose Luis Rodriguez Zapatero, David Cameron; a crise na zona do euro pode ter custado alto preço político a todos esses. 

U.S. troops in Afghanistan (AFP)
Soldados dos EUA interrompidos em seu lazer por camponês afegão...
Nos EUA, o impacto da situação no Afeganistão também pode ser muito forte. Com a casa pegando fogo, a guerra será a menor das preocupações dos governos ocidentais. Nesse quadro, só restará Barack Obama, condenado ao triste posto de “líder do ocidente”, quando seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reunirem-se em maio, para a Cúpula de Chicago. 

Nesse sentido, nada há de surpreendente na matéria publicada no Wall Street Journal  [2] – sobre o governo Obama já estar considerando apressar a “mudança de função” dos soldados dos EUA no Afeganistão, de soldados combatentes para “funções de aconselhamento”, para viabilizar uma “retirada mais rápida”, antes do final de 2014, prazo limite.  

Muito claramente, trata-se de tirar da linha de combate as tropas dos EUA, para reduzir o número de baixas e, também, os riscos políticos contra Obama, em ano de campanha eleitoral. 

Evidentemente, esse tipo de decisão sempre pode ser explicada em termos das exigências da guerra – quanto antes as forças afegãs assumirem a responsabilidade pela segurança do país, melhor, etc. etc. etc. Mas trata-se, essencialmente, de retirada. 

Mais importante que isso: os guerrilheiros afegãos interpretarão o movimento dos EUA como retirada apressada. Dessa percepção virá a sensação de triunfalismo que reforçará a decisão para uma avançada mais forte até a vitória, que eles já vêem ao alcance da mão. 

A análise da AFP sobre a ideia de apressar a retirada termina numa nota sombria:

“A OTAN supervisionou expansão dramática das forças de segurança [afegãs]; até outubro de 2012, o exército terá aumentado para 195 mil homens, e a polícia, para 157 mil. Mas, dos 173 batalhões afegãos, só um, segundo avaliação pelo Pentágono, foi considerado capaz de operar independentemente da coalizão liderada pelos EUA”. [3]




Notas dos tradutores

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

“É a economia POLÍTICA, estúpido!”

 Slavoj Žižek

10/10/2008, Slavoj Žižek, London Review of Books 
(só na edição online)
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Um dos traços mais impressionantes da reação ao atual derretimento do mercado de ações [atenção: o artigo é de 2008!] é que, como disse um dos atores: “Ninguém, de fato, sabe o que fazer.” Isso, porque expectativas são parte do jogo: como o mercado reage a uma determinada intervenção depende não só de o quanto banqueiros e corretores confiam na intervenção, mas, e mais, de o quanto eles creem que os outros confiarão neles. Keynes comparou o mercado de ações a uma competição na qual os participantes têm de escolher várias lindas garotas de uma centena de fotos: “Não se trata de escolher as que, pelo juízo de cada um, são as mais bonitas, nem, sequer, de escolher as que sejam tidas como mais bonitas, de fato, pela opinião média. Alcançamos já o terceiro estágio, no qual devotamos nossa inteligência a tentar antecipar o que a opinião média esperará que seja a opinião média. Somos forçados a escolher sem ter o conhecimento que nos capacitaria a escolher. Ou, como disse John Gray: ‘Somos forçados a viver como se fôssemos livres’.”[1]

Joseph Stiglitz escreveu recentemente que, embora haja crescente consenso entre os economistas de que nenhum resgate baseado no plano de Henry Paulson funcionará, “é impossível, para os políticos, nada fazer numa crise como essa. Assim sendo, temos de rezar para que um acordo construído da mistura tóxica de interesses especiais, economias viciadas e ideologias de direita que gerou a crise consiga, sabe-se lá como, produzir plano de resgate que funcione – ou cujo fracasso não cause excessivo dano” [2] Está correto: uma vez que os mercados são, sim, baseados em crenças (inclusive em crenças sobre crenças de outras pessoas), o modo como mercados reagem ao resgate depende não só das consequências reais, mas de os mercados crerem na eficiência do plano. O resgate pode funcionar, ainda que seja economicamente errado.

Há íntima semelhança entre os discursos de George W. Bush desde o início da crise e os discursos que fez ao povo norte-americano depois do 11/9. Nas duas oportunidades evocou a ameaça ao American way of life e a necessidade de ação rápida e decisiva para enfrentar o perigo. Nas duas, pediu a suspensão parcial de valores dos EUA (das garantias de liberdade individual, num caso; do capitalismo de mercado, no outro), para salvar os mesmos valores que queria suspender.

Postas diante de desastre sobre o qual não temos influência efetiva, é comum que as pessoas digam, estupidamente, que “Não basta falar, é preciso fazer algo!” Parece que, nos últimos tempos, temos feito demais. Talvez seja hora de dar um passo atrás, pensar e, afinal, dizer coisa com coisa. É verdade que, em geral, falamos sobre fazer, mais do que fazemos – mas às vezes fazemos coisas para evitar falar e pensar sobre o que fazemos. Como enfiar $700 bilhões num problema, em vez de pensar sobre o que fez surgir o problema.

Dia 23/9 [2008], o senador Republicano Jim Bunning acusou o plano do Tesouro dos EUA para o maior resgate financeiro desde a Grande Depressão de ser “antiamericano”: “Alguém tem de assumir essas perdas. Podemos deixar que os que tomaram decisões erradas sofram as consequências de suas escolhas, ou podemos transferir as dores para outros. Isso, exatamente, é o que o Secretário propõe que se faça: peguem as dores de Wall Street e transfiram para os contribuintes (...) Esse resgate massivo não é a solução, é socialismo financeiro e é antiamericano.” 

Bunning foi o primeiro a expor o substrato da revolta dos Republicanos contra o plano de resgate, que alcançou o clímax quando o plano foi rejeitado, dia 29/9 [2008]. A resistência foi formulada em termos de “luta de classes”, Wall Street contra a Rua Principal: por que deveríamos ajudar os responsáveis pelos erros (‘Wall Street’) e deixar que os tomadores comuns (da Rua Principal) paguem por eles? Não é perfeitamente o caso do que os economistas chamam de “risco (a)moral” [ing. moral hazard]. É o risco de que alguém aja imoralmente, porque um seguro, a lei ou outros agentes o protegem contra qualquer eventual perda que o comportamento imoral ou criminoso possa causar: se tenho seguro contra incêndio, por exemplo, pode acontecer de eu me tornar descuidado ou, mesmo, de por fogo à casa que me custa manter. Vale o mesmo para grandes bancos, que são protegidos contra grandes perdas e, sempre, podem preservar seus lucros.

Que a crítica do plano de resgatar grandes financeiras tenha vindo, simultaneamente, tanto dos Republicanos quando da esquerda deve nos faz pensar melhor. Nesse caso, esquerda e direita partilham o mesmo desprezo por grandes especuladores e gerentes de grandes corporações que lucram com decisões arriscadas, mas são protegidos contra a falência por “paraquedas de ouro”. Sobre isso, o escândalo da Enron em janeiro de 2002 pode ser interpretado como comentário irônico à noção de sociedade de risco. Milhares de empregados que perderam os empregos e todas as economias estavam, sem dúvidas, expostos ao risco, e pouco podiam fazer ou opinar sobre os negócios da empresa. Mas os altos diretores e gerentes, que sabiam dos riscos e tinham meios para agir, minimizaram os próprios riscos, vendendo ações e opções antes da bancarrota. Portanto, embora seja verdade que vivemos em sociedade que nos impõe escolhas arriscadas, é sociedade na qual os poderosos fazem as escolhas, e os outros correm os riscos.

Se for mesmo medida “socialista”, o plano de resgate é socialista de modo bem estranho: medida ‘socialista’ para ajudar não os pobres, mas os ricos, não os que tomam empréstimos, mas os emprestadores. Parece que ninguém tem nada contra o ‘socialismo’, desde que sirva para salvar o capitalismo. Mas... e se houver um “risco (a)moral, um moral hazard”, inscrito na estrutura fundamental do capitalismo? O problema é que não há como separar o bem-estar da Rua Principal e o bem-estar de Wall Street. A relação entre as duas é não transitiva: o que é bom para Wall Street nem sempre é bom para a Rua Principal, mas a Rua Principal não pode prosperar se Wall Street andar mal das pernas – e essa assimetria assegura uma vantagem a priori para Wall Street.

O argumento “torto” contra a redistribuição (mediante taxação regressiva, etc.) é que, em vez de tornar os pobres mais ricos, ela torna os ricos mais pobres. Contudo, essa atitude só aparentemente anti-intervencionista esconde um argumento a favor da atual intervenção estatal: embora todos desejemos que os pobres melhorem de vida, é contraproducente ajudá-los diretamente, porque os pobres não são o elemento dinâmico e produtivo. A única ‘boa’ intervenção será ajudar os ricos a ficar mais ricos, e, então, automaticamente, os lucros espalhar-se-ão e chegarão aos pobres. Jogue muito dinheiro em Wall Street, que ele, eventualmente, escorrerá até a Rua Principal. Se você quer que o povo tenha dinheiro para construir, não dê o dinheiro diretamente ao povo, mas ajude os que vivem de emprestar dinheiro ao povo. Só assim se cria prosperidade genuína – a alternativa será o estado meramente distribuindo dinheiro para os mais necessitados à custa dos que realmente criam riqueza.

É fácil demais descartar esse raciocínio como defesa hipócrita dos ricos. O problema é que, enquanto vivermos presos ao capitalismo, temos de encarar que há alguma verdade naquele argumento: o colapso de Wall Street realmente atingiu os trabalhadores comuns. Por isso os Democratas que apoiaram o resgate não tiveram atitude inconsistente com suas tendências de esquerda. Teriam sido inconsistentes, sim, se aceitassem a premissa dos Republicanos populistas para os quais o capitalismo e a economia de livre mercado seriam assunto sobre o qual devessem ouvir a classe trabalhadora, e que intervenções estatais seriam estratégia da classe ‘alta’, para explorar os trabalhadores.

Nada há, de novidade, em intervenções estatais fortes no sistema bancário e na economia em geral. O “crack”, ele mesmo, é efeito dessa intervenção: quando, em 2001, explodiu a “bolha” das empresas pontocom, resolveu-se facilitar o crédito para redirecionar o crescimento na direção de construírem-se mais residências. A verdade é que as decisões responsáveis pelas relações econômicas internacionais são sempre decisões políticas. 

Há alguns anos, uma matéria da CNN sobre o Mali expôs claramente a realidade do “livre mercado” internacional. Os dois pilares da economia do Mali são o algodão no sul e o gado no norte, e as duas regiões estavam em crise por causa do modo como as potências ocidentais violam as regras que elas mesmas impõem tão brutalmente às nações do Terceiro Mundo. O Mali produz algodão de altíssima qualidade, mas o estado, nos EUA, gasta mais dinheiro em subsídios aos produtores norte-americanos de algodão que o orçamento nacional do Mali. Não é surpresa para ninguém que o Mali não consiga competir no mercado. No norte, a culpa é da União Europeia: a EU subsidia cada vaca europeia, com quinhentos euros por ano. O ministro da economia do Mali disse: não precisamos de ajuda nem de assessoria nem de conselhos nem de aulas sobre os efeitos benéficos de abolirem-se regulações estatais excessivas. Basta, por favor, que vocês respeitem as regras que vocês mesmos inventaram, para o “livre mercado”, e acabam-se os problemas. Por onde andavam, então, os republicanos que defendem o “livre mercado”? Sumiram de cena, porque o colapso do Mali é resultado do que significa os EUA porem “nosso país em primeiro lugar”.

O que tudo isso indica é que o mercado jamais é neutro: todas as suas operações são sempre reguladas por decisões políticas. O real dilema jamais é “intervenção estatal ou não?”, mas “que tipo de intervenção estatal?” E esse é um dilema político: a luta para definir as condições que governam nossa vida. O debate sobre os negócios do resgate dos bancos, com decisões sobre traços fundamentais de nossa vida social e econômica, mobilizando, até, o fantasma da luta de classes. Como acontece em muitas verdadeiras questões políticas, essa questão é suprapartidária. Não há opinião “objetiva” de especialista que possa ser apenas aplicada: é indispensável enfrentar a decisão política.

Dia 24/9[2008], John McCain suspendeu a campanha eleitoral e foi para Washington, dizendo que seria hora de pôr de lado as diferenças partidárias. Foi gesto que realmente sinalizava que estaria disposto a pôr fim à política partidária, para enfrentar os reais problemas que nos dizem respeito a todos? Definitivamente, não: foi um momento “McCain parte para Washington”, mais nada. Política é, precisamente, a luta para definir o terreno “neutro”, razão pela qual a proposta de McCain, de que se apagassem as linhas partidárias era puro jogo de cena política, política de partido, mascarada como não partidária, tentativa desesperada para impor sua posição como se fosse universal-apolítica. Pior ainda que política partidária, é política partidária que tenta mascarar-se como não partidária: que visa a impor-se, ela mesma, como se fosse alguma voz do Todo. Essa política reduz os oponentes, porque os põe como agentes de interesses particulares. (...) Nas eleições de 1992, Clinton venceu com o mote “É a economia, estúpido!” Os Democratas precisam incorporar outra mensagem: “É a economia POLÍTICA, estúpido!” Os EUA não precisam de menos política. Precisam de mais.



Notas dos tradutores

[1] John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money, cap. 12: “The State of Long-Term Expectation”, em inglês. 
[2]  Joseph Stiglitz, Bail-out blues”, The Guardian, UK, 30/9/2008.