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domingo, 1 de setembro de 2013

Síria: Putin lança as pombas da paz

1/9/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin durante sua fala de hoje, 1/9/2013 em Vladivostok
O Kremlin acaba de distribuir o texto oficial da fala do presidente Vladimir Putin sobre a crise síria. Chama a atenção que Putin falou mais demoradamente e disse muito mais do que sugerem as matérias que os jornais estão distribuindo no ocidente; e, também, que falou sobre praticamente cada um dos muitos aspectos dessa situação explosiva.

Já não há dúvidas de que Putin soube colocar-se metro e meio acima de qualquer outro governante mundial, ao assumir resolutamente uma posição de princípios morais, dado o envolvimento da Rússia na Síria, dado o vasto conhecimento que os russos têm sobre a Síria e o Oriente Médio e dado o papel que a diplomacia russa assumiu, ao insistir em salvar as conversações de Genebra-2, apesar de todas as improbabilidades.

Barack Obama
Prêmio Nobel da Paz
A questão é saber até que ponto o presidente Obama foi influenciado pelo que disse Putin, no gesto de adiar sua decisão de lançar “ataque limitado” contra a Síria – adiamento que já se vê bem claro, no movimento de requerer aprovação do Congresso dos EUA, antes de atacar.

Fato interessante é que Putin falou de Vladivostok – quase um dia inteiro “antes” do horário de Washington.

Muita coisa depende dessa questão, porque o adiamento dificultou muito, para Obama, lançar o ataque. Antes de o Congresso dos EUA reunir-se, dia 9/9/2013, acontecerá a reunião do G-20, no qual os líderes mundiais discutirão, sem dúvida alguma, a crise síria.

A partir das indicações que se têm, os EUA estão muito isolados na opinião mundial, e Obama perceberá isso pessoalmente, no G-20. De fato, apesar da petulância de Obama ao não consultar Putin, o presidente russo revelou que discutirá a questão síria com Obama, quando se virem, em São Petersburgo, na próxima 5ª-feira [a menos, claro, que Obama se dedique a fugir de Putin, até na hora da fotografia (NTs)].

Vejamos o que Putin disse, nesse pronunciamento histórico, de Vladivostok:

A) Foi colhido de surpresa pela onda de recusa, na Europa, a aceitar tudo e qualquer coisa “de acordo com os desejos e as políticas” dos EUA. “Não esperava. Fui, de fato, colhido de surpresa por aquela reação dos europeus.” Putin observou que até a Grã-Bretanha “aliada geopolítica” dos EUA foi guiada por “interesses nacionais e senso comum” e considerações sobre a própria “soberania”. A Europa, afinal, começou a “analisar os eventos, extrair conclusões e agir de acordo com as próprias conclusões”.

B) Putin rejeitou cabalmente, como “absoluta sandice” a alegação de que o governo sírio seria responsável pelo ataque com armas químicas perto de Damasco, porque os ‘'rebeldes'’ já estavam sob pressão militar e não havia razão concebível pela qual o governo sírio ofereceria “um trunfo a quem está sempre clamando por intervenção militar estrangeira”.

C) Putin diz que a crise inteira é “uma provocação armada pelos que querem arrastar outros países para dentro do conflito sírio e querem o apoio de membros poderosos da comunidade internacional, especialmente o apoio dos EUA”. Deixou implícito que estados da região – Arábia Saudita e Turquia, em particular – tentaram arrastar os EUA para uma intervenção direta na Síria, o que o governo Obama recusou-se a fazer até agora, para grande tristeza dos “interessados”.

D) Putin pôs em dúvida a veracidade do que os EUA têm dito – e questionou a intenção por trás disso – que teriam “provas” da culpa do regime sírio. Desafiou o governo Obama a apresentar “provas”, e a deixar de recorrer ao álibi de que seria informação secreta.

E) Putin destacou que os EUA não têm “qualquer base a partir da qual possam tomar decisão tão fundamental”, de atacar a Síria.

F) Em variação notável, em homem cuja marca registrada é manter a política afastada das emoções, Putin dirigiu-se pessoalmente a Obama, para que corresponda às esperanças do mundo de que ele seja homem da paz – “Antes de tudo e principalmente, dirijo-me ao Sr. Obama não como meu colega, não como presidente e chefe de Estado, mas como homem que recebeu a honra de um Prêmio Nobel da Paz”.

G) Deixando de lado as polêmicas, Putin disse que atacar a Síria não é ato que sirva, sequer, a autointeresses dos EUA, porque esse ataque “agride todo o sistema internacional de segurança e viola os fundamentos da lei internacional”.

H) Putin conclamou Obama a pensar muito “antes de tomar decisões” e a “não ter pressa nessas coisas que podem gerar resultados completamente indesejados”.

I) Putin disse que vê o G20 como “uma boa plataforma” para discutir a crise síria, embora o grupo não seja “autoridade formal” ou “plataforma substituta” do Conselho de Segurança da ONU. Disse que espera discutir a Síria “num formato expandido”, com Obama, no G20, na próxima semana.

Reunião preparatória para Genebra-2 entre ONU-EUA-Rússia em 25/6/2013
Bem visivelmente, Putin ignorou todo o contexto do esfriamento nas relações EUA-Rússia e não mostrou ânimo de “aproveitar-se” do momento para “marcar pontos”.

Mas, é claro, Putin tem plena consciência de que é ele quem está em sincronia com a opinião mundial – incluída a opinião ocidental – sobre a questão síria, não Obama.

De fato, esse pronunciamento de Putin marca uma grande iniciativa diplomática do Kremlin, virtualmente às vésperas da reunião do G20, um importante apelo à razão e à contenção ante a situação na Síria. 

Evidentemente, Putin tem esperança de influenciar o cálculo de Obama e de conseguir mudar a tendência de seguir a via militar; e de, talvez, ressuscitar o processo de Genebra-2. É aposta muito ambiciosa, mas se alguém pode conseguir tudo isso, hoje, no cenário mundial, é Putin, e só ele. [1]

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Nota dos tradutores
[1] Leia também a transcrição completa da fala de Putin (em inglês).
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala

terça-feira, 8 de novembro de 2011

EUA: saindo às pressas do Afeganistão


5/11/2011, *MK Bhadakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A reunião do Grupo dos 20 (G-20) em Cannes deixou à vista o quanto todos os líderes ocidentais foram encurralados contra as cordas [1]. 

Ao oferecer-se para sediar a reunião do G-20, o presidente Nicolas Sarkozy da França contava com servir-se do evento para exibir ao mundo seus talentos de liderança. O fracasso da reunião do G-20 pode ter comprometido todas as chances de Sarkozy reeleger-se nas eleições presidenciais marcadas para daqui a seis meses. 

Sarkozy está em boa companhia, todos também encurralados contra as cordas: George Papandreou, Silvio Berlusconi, Jose Luis Rodriguez Zapatero, David Cameron; a crise na zona do euro pode ter custado alto preço político a todos esses. 

U.S. troops in Afghanistan (AFP)
Soldados dos EUA interrompidos em seu lazer por camponês afegão...
Nos EUA, o impacto da situação no Afeganistão também pode ser muito forte. Com a casa pegando fogo, a guerra será a menor das preocupações dos governos ocidentais. Nesse quadro, só restará Barack Obama, condenado ao triste posto de “líder do ocidente”, quando seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reunirem-se em maio, para a Cúpula de Chicago. 

Nesse sentido, nada há de surpreendente na matéria publicada no Wall Street Journal  [2] – sobre o governo Obama já estar considerando apressar a “mudança de função” dos soldados dos EUA no Afeganistão, de soldados combatentes para “funções de aconselhamento”, para viabilizar uma “retirada mais rápida”, antes do final de 2014, prazo limite.  

Muito claramente, trata-se de tirar da linha de combate as tropas dos EUA, para reduzir o número de baixas e, também, os riscos políticos contra Obama, em ano de campanha eleitoral. 

Evidentemente, esse tipo de decisão sempre pode ser explicada em termos das exigências da guerra – quanto antes as forças afegãs assumirem a responsabilidade pela segurança do país, melhor, etc. etc. etc. Mas trata-se, essencialmente, de retirada. 

Mais importante que isso: os guerrilheiros afegãos interpretarão o movimento dos EUA como retirada apressada. Dessa percepção virá a sensação de triunfalismo que reforçará a decisão para uma avançada mais forte até a vitória, que eles já vêem ao alcance da mão. 

A análise da AFP sobre a ideia de apressar a retirada termina numa nota sombria:

“A OTAN supervisionou expansão dramática das forças de segurança [afegãs]; até outubro de 2012, o exército terá aumentado para 195 mil homens, e a polícia, para 157 mil. Mas, dos 173 batalhões afegãos, só um, segundo avaliação pelo Pentágono, foi considerado capaz de operar independentemente da coalizão liderada pelos EUA”. [3]




Notas dos tradutores

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite


Naomi Klein

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques. 

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de “privatizar”, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das “privatizações”, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de “austeridade”. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os “resgates” massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de “direitos adquiridos” pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram.

Presos  longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade – eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua “incitação” levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em: Facebook cases trigger criticism of “disproportionate” riot sentences). Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.



Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado livremente.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mas... isso lá é “declaração”, G-20?!

13/11/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online  -- Word up, G-20? 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

“From the Mao, to the Deng, to the Xeng, to the Ho...”


Nunca antes se viu pior “declaração”, dentre todas as horríveis “declarações” do Grupo dos 20 (G-20). Tudo o que se precisa saber sobre o “alívio quantitativo” [ing. quantitative easing (QE)[1] do Federal Reserve aos EUA, as guerras da moeda e o tsunami de lama que ameaça o sistema financeiro global encontra-se no vídeo de RAP distribuído pela Next Media Animation de Taiwan.

Se, pelo menos, tivessem acertado o “making of” da reunião do G-20 essa semana em Seul. A reunião foi divulgada como ampla manifestação de antiprotecionismo, de apoio à recuperação da economia global, com ideias pra diminuir os problemas galopantes dos déficits e das dívidas. A reunião está acontecendo na quinta e na sexta, mas a declaração final já era o principal problema desde a quarta-feira. E que cena de luta vale-tudo na lama saiu-nos a tal declaração! 

Afinal, depois de muito suor, apareceu um rascunho da declaração, declarando que os países devem deixar que o mercado determine o valor da moeda e devem “abster-se de qualquer desvalorização competitiva” (referência velada aos EUA). Mas até o último minuto os assessores-gurus – com fino faro para escolher a rota de fuga mais segura, e cujo trabalho explica por que a conclusão sempre é trivial, nessas reuniões de cúpula – ainda mantinham entre parênteses formulação alternativa: “subvalorização competitiva” (referência velada à China). 

Como prêmio de consolação atirado à opinião pública global, foi emocionante ver os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – e a União Europeia (UE) avançarem para o procênio e manifestarem o desejo (quase unânime) político de que as nações não adotem políticas (como fizeram EUA-FED, na segunda rodada de quantitative easing, ou QE2) que gerem conflitos com outras economias nacionais. 

Há dias, todos os bancos centrais do mundo pediam que o FED falasse com clareza sobre a tal segunda rodada de quantitative easing,QE2. Crer que os países do G-20 aceitariam alegremente o convite do presidente Barack Obama dos EUA, para que todos engolissem um segundo tsunami de papel verde, para os quais os EUA não podem oferecer qualquer garantia, é habitar o país de Oz. Não surpreende que todos os diplomatas tenham repetido, mais ou menos irritadamente, que aquela reunião bem podia chamar-se “reunião do G-19 a 1”. 

Para mostrar como sucesso do G-20, só restou a aterradora promessa de que o muito execrado Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá monitorar o que o G-20 fizer (o FMI delira agora que uma ação coordenada dos países do G-20 para “salvar” a economia mundial pode gerar 52 milhões de empregos no médio prazo). Para não dizer que Washington recusa-se a promover o “ajuste estrutural” que seu queridinho, o FMI, sempre conseguiu impor a todos os seus outros pacientes doentes de déficit orçamentário terminal. 

O novo exército-modelo 

E por que seria diferente? Considere-se a carta que Obama enviou aos líderes do G-20, antes do encontro. Tentou convencer os outros 19 de que os EUA mantêm seu “compromisso de não subvalorizar moedas por interesses competitivos” –, quando todos já praticamente berravam aos quatro ventos que QE1 e QE2 são, exatamente, subvalorizar o dólar. Na carta, Obama praticamente jogou a culpa pela crise financeira de 2008 sobre a China e os mercados emergentes. E, ao defender a ação do Fed, na Índia, na 2ª-feira passada, Obama disse, sim, que o que é bom para os EUA é bom para o mundo. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil foi, certamente, quem achou o tom mais ponderado para responder a Obama. Os bancos centrais europeus, furiosos, já acusavam os EUA de “traição”. Lula sugeriu que os países BRICs poderiam usar menos o dólar no comércio entre eles – o que, precisamente, já estão fazendo. 

É do conhecimento até do reino mineral que, quando os EUA, no governo de Nixon, em 1971, declararam unilateralmente o fim do padrão-ouro para o dólar norte-americano, decretou-se a morte do sistema de Bretton Woods introduzido no final da II Guerra Mundial. Daquele momento até hoje, se assiste ao interminável coma do sistema monetário global. Washington/Wall Street adotou a lei da selva (“nenhum prisioneiro vivo”) –, de infindável manipulação do dólar norte-americano como moeda global de reserva. Para nações emergentes, a única reação possível é coordenar um programa de investimentos em obras públicas para garantir emprego e renda nos respectivos mercados internos e proteger as respectivas indústrias locais. 

Interessante comparar a atual situação e o que houve no tempo de Franklin Delano Roosevelt. Para reverter a Grande Depressão, o Estado assumiu o controle da economia nos EUA. O presidente Roosevelt não recorreu “aos mercados”: construiu e lançou um pacote desenvolvimentista – obras públicas combinadas com assistência social. 

Há real impasse no G-20, e é absoluto nonsense a retórica dos EUA, de reivindicar a posição de coordenador global para derrotar a crise: a única meta que interessa e mobiliza Washington/Wall Street hoje é esmagar qualquer alternativa política ao seu novo ajuste unilateral. Michael Hudson, da University of Missouri, já explicou, numa linha: “O sistema financeiro e os bancos norte-americanos, como novo exército-modelo, lançaram um raid contra todas as moedas estrangeiras.”

Ainda é a “dominação de pleno espectro”, estúpido

Então, o que acontecerá nos EUA depois desse QE2 e desse G-20? Business como sempre – quer dizer, a volta a pleno vapor, sob os auspícios de um Congresso dominado pelos Republicanos nos EUA, da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, menina dos olhos do Pentágono. Os Republicanos tentarão histericamente cortar todos os gastos orçamentários que lhes apareçam pela frente – exceto o orçamento da Guerra Infinita. 

Assim sendo, acabou-se a “lua de mel” com a China. A China, mais do que jamais antes, verá firmada sua posição de No. 1 da lista de inimigos/concorrentes estratégicos do Pentágono. A pergunta incomodamente quantitativa de um trilhão de dólares continua a ser: como, em que termos e até quando Pequim aceitará continuar a financiar, em tempo integral, a construção da aterrorizante máquina de guerra de Washington. 

A plutocracia de Washington/Wall Street estimulada pela Doutrina da Dominação de Pleno Espectro interpretará a viagem de Obama à Ásia como útil, sobretudo, para prevenir a China de que os EUA planejam continuar a ser superpotência também asiática. A Índia – parceira nuclear dos EUA – foi engambelada até o fim dos tempos. E também a Indonésia. Aqueles 40 mil soldados dos EUA no Japão, mais a base de Okinawa, além dos 28 mil soldados dos EUA na Coreia do Sul ficarão exatamente onde estão. 

A situação interna dos EUA – com o que possa haver de pior, da total debacle das camadas médias ao surgimento de tendências fascistas – absolutamente não tira o sono da plutocracia de Washington/Wall Street eletrificada pela Teoria da Dominação de Pleno Espectro. 

Quanto ao G-20, o fundo do poço é mais embaixo: nada conseguirá impedir que o dólar norte-americano continue em queda livre. Os americanos médios viverão com salários e preços de casas igualmente despencados. A China não aprenderá a lição. O yuan de fato já vem sendo valorizado desde 2005: de 8,2 por dólar norte-americano, para 6,6; e se valorizará mais 15% até 2015 – pelo cronograma fixado por Pequim, não por Washington. 

A América do Sul, com sua coorte de governos progressistas, agora com muito melhores capacidades de coordenação, talvez mostre ao mundo como se dança o baião da integração e como escapar da ditadura do dólar norte-americano, negociando em moedas regionais. O ministro das finanças do Brasil, Guido Mantega, tem dito em alto e bom som o que muitos sussurram pelos cantos: acabou-se a era do dólar norte-americano como moeda de reserva. A tendência é constituir-se uma cesta de moedas. Os BRICs operarão de forma cada vez mais coordenada. E, com a China liberando o mercado offshore do yuan, mais cedo ou mais tarde o dólar Hong Kong-EUA será história. 

A França está próxima de abocanhar a presidência do G-20. Não é segredo para ninguém que o megacontestado, megaimpopular, micronapoleão macronarcísico Nicolas Sarkozy detonará todos os obstáculos para chegar ao trono do G-20 da “Bretton Woods II de Sarkozy” em Paris, ano que vem, quando então salvará o planeta e, de quebra, a própria reeleição na França, em 2012. 

Aí está novelão cujo desfecho temos de esperar. Alé lá, só o RAP salva. From the Mao to the Deng to the Jiang to the Hu/ You think you can keep on telling us what to do... 



Nota de tradução

[1] Em Economist Mom encontra-se excelente tradução para “inglês que se entende”, da expressão quantitative easing [literalmente “alívio quantitativo”]: “Para dar um bom empurrão na economia – com uma bombeada na inflação –, decidimos nos permitir um surto de consumo. Primeiro, vamos continuar comprando ações, enquanto nossos investimentos permitirem. Segundo – e essa é a novidade de hoje – vamos inventar 600 bilhões de ar engarrafado e usá-los durante os próximos oito meses para comprar bônus do governo federal. Esperamos que, com isso, as taxas de juro caiam tanto, que as pessoas por-se-ão a tomar empréstimos e a gastar mais dinheiro, e as empresas começarão a contratar. Não esqueçam que estamos tentando; é uma experiência, e ninguém sabe se funcionará. Nos reservamos o direito de mudar tudo, a qualquer momento”.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Enquanto Sarkozy delira pelo planeta... bin Laden organiza-se no Sahel!

Sobre “a mídia”, o único “fato” absolutamente garantido é que “a mídia” e o tal de “fato” fazem, sim, algum sentido e têm alguma importância e podem, talvez, ser úteis e interessantes à democratização da democracia, se e somente se os leitores consumidores de jornais e jornalismos puderem LER E OUVIR PELO MENOS DUAS VOZES RADICALMENTE DIFERENTES E OPOSTAS sobre qualquer “evento”.

Por acaso, hoje, a internet oferece interessante exemplo de o quanto é indispensável que haja mesmo DUAS VOZES opostas, antagônicas, a se manifestar sobre QUALQUER “fato”, para que o tal “fato” informe, pelo menos um pouco, sobre o mundo real, histórico, o mundo que existe no mundo, não só na cabeça dos jornalistas empregados das corporações de jornalismo e comunicações. 

Vale lembrar, é claro, que D. Dora Kramer e Ana Maria Brega NÃO SÃO VOZES OPOSTAS: são vozes absolutamente gêmeas, mesmo lado e mesma voz. Tampouco D. Danuza e Fernando Henrique Cardoso são vozes opostas. Não são: são a mesmíssima voz, mesmíssimo lado, idênticos saberes e ambições e desvarios & coisa e tal.

Vozes opostas, opostas meeeeesmo, são, por exemplo, o Sêo Clóvis Rossi e o Zé do Ki, cá da Vila Vudu. Ou, por exemplo, Sarkozy e Osama bin Laden. 

No Brasil, embora zilhões de jornais tenham repetido o besteirol de promoção internacional de Sarkozy, o hiperativo, que Le Monde espalha hoje para o planeta inteiro, NENHUM JORNAL – absolutamente NENHUM, do Oiapoque ao Chuí – mostrou, no Brasil, o outro lado do frenesi “internacional” de Sarkozy. 

Parece até bobagem, simplificação, delírio, de tanto estamos todos totalmente cegados e desensibilizados pelo “jornalismo” de fascistização que há no Brasil, mas... o outro lado da Cúpula de Seul é... o Sahel.

Não deu na Globo!
Enquanto Sarkozy delira pelo planeta...
...bin Laden organiza-se no Sahel.
Nicolas Sarkozy sonha em ser presidente de crise
11/11/2010, Arnaud Leparmentier, Le MondeNicolas Sarkozy se rêve en président de crise du G20
repetido em UOL News p/ assinantes

  
Sarkozy afirma que não permitirá que terroristas decidam sua política

A cúpula de Seul nem começou e Nicolas Sarkozy já está no pós-Seul. O presidente da República não achou necessário estar presente ao jantar inaugural, na quinta-feira (11), e será representado pela ministra da Economia, Christine Lagarde. Sarkozy chegará na sexta-feira pela manhã, a bordo de seu novo Airbus 330, e apresentará suas prioridades para o ano de 2011.

Após um jantar de gala, na noite de sexta-feira em Seul, o chefe do Estado francês assumirá a presidência do G20, que reúne as principais potências do planeta. Ele também presidirá, em 2011, o G8, que reúne as principais economias do Norte. Sarkozy deve esse “presente” ao ex-premiê britânico Gordon Brown, que lhe deu uma mãozinha para obter essa dupla presidência durante a cúpula de Londres, em abril de 2009. Justamente antes das eleições presidenciais de 2012.

Sarkozy tem uma ambição internacional e segundas intenções políticas. Ele sonha em renovar a proeza de sua presidência da União Europeia (UE), no final de 2008, que lhe havia permitido restaurar sua imagem no cenário interno. Ele espera voltar a se tornar o capitão na tempestade que foi gerir a guerra na Geórgia e a crise financeira de 2008. Ele também quer encarnar o presidente de uma França unida e neutralizar seu potencial adversário, o socialista Dominique Strauss-Kahn, atual diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). Sarkozy pretende aplicar minuciosamente as recomendações do FMI para conter melhor as críticas que Strauss-Kahn poderia formular sobre seu balanço econômico e orçamentário.

Sarkozy sabe que o G20 corre o risco de se atolar na rotina. Então ele estabeleceu prioridades ambiciosas, até demais, segundo alguns: reformar o sistema monetário mundial (resolver o duplo problema do dólar e do yuan), limitar a volatilidade dos preços das matérias-primas e dos produtos agrícolas, e modernizar a governança mundial. Sarkozy aposta em uma crise importante em um desses domínios, que lhe permitirá garantir que ele tenha adivinhado antes dos outros. Será fácil para ele se apresentar como arquiteto da solução que deverá ser encontrada. O palácio do Eliseu acredita que as tensões nos mercados de câmbio “validam” as prioridades anunciadas em agosto.

O sucesso não é garantido, como foi provado, no fim de 2009, pelo fracasso da cúpula de Copenhague sobre o clima. O presidente havia percorrido o mundo, coletando promessas de apoio. Mas quando foi preciso tomar uma decisão, nem o presidente brasileiro Lula da Silva, nem os primeiros-ministros etíope, Meles Zenawi, e indiano, Mahmohan Singh, deram o apoio decisivo.

Mais uma vez, Sarkozy decidiu fazer uma viagem pelas grandes potências mundiais: começou com o presidente russo Dimitri Medvedev e a chanceler alemã Angela Merkel, em Deauville, depois o presidente chinês Hu Jintao, durante sua vista oficial à França. No início de dezembro, ele fará uma visita à Índia e irá à Etiópia em janeiro para a cúpula da Organização da União Africana.

Mas o método foi aperfeiçoado: para forçar seus colegas a se empenharem, Sarkozy pretende organizar seminários de reflexão, confiados a diferentes líderes e organizados em diferentes países. A questão do câmbio poderia ser confiada a Merkel, e um primeiro seminário organizado pela China. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, será encarregado da reforma da governança (ONU e G20, que a França quer munir de um secretariado), a Indonésia se ocuparia da corrupção.

Resta melhorar a relação com Barack Obama. Nessa questão, Sarkozy faz dos Estados Unidos o principal responsável pelas desordens monetárias. A manobra é arriscada: a Alemanha e o Banco Central europeu não querem um choque desestabilizador com Washington. Acima de tudo, Obama se mostra pouco cooperativo. O palácio do Eliseu atribui essa distância às eleições legislativas que estariam monopolizando o presidente democrata. No entanto,  este último reluta em atravessar o Atlântico para participar do G8 de 2011.

Para acabar com os desacordos, Sarkozy pretende ir a Washington no dia 20 de dezembro. Curiosamente, Sarkozy, que havia defendido ampliar o G8 até os países do Sul, está redescobrindo as virtudes desse formato, onde os europeus (Alemanha, França, Reino Unido, Itália, União Europeia) são majoritários. “Obama não deixará os outros se reunirem sem ele”, garante um aliado de Sarkozy.

A reunião acontecerá no início do verão em Deauville, enquanto o G20 será em Cannes, certamente em 3 e 4 de novembro. Duas cidades que Sarkozy, no começo, considerava espalhafatosas demais. O caminho de Bordeaux e até mesmo de Le Havre havia sido sondado. Mas a capacidade hoteleira e as exigências de segurança prevaleceram na decisão 
[Tradução: Lana Lim, UOL, 11/10/2010]

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Osama bin Laden e “a crise da França” no Sahel 
3/11/2010, Jeremy Keenan*Al-Jazeera, Qatar - Osama bin Laden and the Sahel

 
Com uma única mensagem gravada, bin Laden pôs a pouco conhecida crise do Sahel em todas as manchetes do mundo.

À parte a polêmica que cerca todas as ocasionais manifestações públicas de Osama bin Laden – se está vivo, se as gravações e os vídeos são autênticos –, a importância desses pronunciamentos varia conforme mais pessoas acreditem no que ouvem e passem a tomam medidas e atitudes a partir do que ouvem.

Dessa vez, trata-se de um gravação de áudio entregue à Rede Al Jazeera dia 27/10, na qual bin Laden critica a França pelo tratamento dado aos muçulmanos, o papel da França no Afeganistão e a intervenção nos negócios de muçulmanos no norte da África e na África Ocidental. Poucas manifestações de bin Laden ou da Al-Qaeda tiveram mais ampla ressonância. 

Evidentemente, o impacto foi maior na França, no norte da África, na África Ocidental e, provavelmente, também em países da União Europeia. É manifestação destinada a ter eco profundo também na guerra contra a al-Qaeda, no Sahara e no Sahel, e nas políticas francesas e europeias para a região.

Sobre a fala de bin Laden deve-se dizer, de início, que a publicidade que recebeu em toda a mídia ocidental [exceto no Brasil INTEIRINHO, onde não se noticiou coisa alguma, de consistente e informativo sobre a tal fala!] serviu para dar destaque mundial à pouco conhecida situação do Sahel, praticamente ignorada na opinião pública europeia – apesar de o Sahel ter sido primeiro item na pauta do Conselho de Ministros de Relações Exteriores da União Europeia que se reuniu dia 25/10 em Luxembourg. A fita gravada com o que se crê que seja fala de bin Laden foi enviada à rede Al-Jazeera menos de 48 horas depois daquela reunião, não, é claro, por simples coincidência. 

Em outras palavras, apesar de a crise do Sahel – ou, dito mais corretamente, a crise da França – já estar sendo amplamente discutida nos muito discretos salões do Conselho Europeu, foi bin Laden quem conseguiu atrair para a mesma questão as atenções de todo o planeta.

A ‘bênção’ de Bin Laden

A fala de bin Laden tem vários diferentes significados e conteúdos. Em primeiro lugar, será entendida como uma ‘bênção’ aos que dia 16/9 sequestraram e desde então mantêm sete reféns – cinco cidadãos franceses, um togolês e um cidadão de Madagascar – em Arlit, na região de mineração de urânio no Niger. “O sequestro dos seus técnicos no Niger”, disse bin Laden, “é resposta-retaliação contra a tirania das suas práticas contra nossa nação muçulmana”.

Em segundo lugar, é ‘bênção’ que parece ter implicações importantes. O crescimento da Al-Qaeda no Maghreb Islâmico [ing. al-Qaeda in the Islamic Maghreb] na região do Sahara-Sahel é reação à ação da polícia e das forças de segurança da Argélia [fr. DRS (Direction du Renseignement et la Sécurité)] na região, e de haver fortes suspeitas de que três importantes emires no Sahara-Sahel – Abdelhamid abou Zaïd, Yahia Djouadi e Mokhtar ben Mokhtar (cada um deles com sua coorte de aliados) – sejam agentes do DRS.

Entre o final de 2008 e 2010, a força estimada da Al-Qaeda aumentou, passando de cerca de 200 para 300-400 militantes; e a composição do grupo também mudou. Jovens muçulmanos da Mauritânia então sendo cada vez mais fortemente atraídos para o “Emirado do Sahara” – como o chamam –, a ponto de já ultrapassarem, em número, os argelinos; com isso, diminuiu muito a influência e a capacidade de controle da Polícia argelina sobre o grupo.

Há indicações de que a AL-QAEDA-NO-MAGREB está recrutando entre os ‘jihadistas’ mais jovens e mais ‘islâmicos’ na região, a partir dos desastrosos raids dos militares franco-mauritânios no Mali em 22/7 ostensivamente para libertar um refém francês, Michel Germaneau, e outra vez em 16/9, quando a Mauritânia aliada da França, e que acompanhou a França quando ‘declarou guerra’ contra a AL-QAEDA-NO-MAGREB, sofreu duro revés dos combatentes da AL-QAEDA-NO-MAGREB em Ras el Ma (a oeste de Timbuktu).

Resultado desse maior recrutamento, e pelo qual a França é mais diretamente responsável, é que haverá mudanças na organização interna da AL-QAEDA-NO-MAGREB, com possibilidade de que os islâmicos – não mais a Polícia argelina – passem a ter mais influência e controle sobre a estratégia geral e as atividades operacionais.

A ‘bênção’ de Bin Laden com certeza conseguiu acelerar essa transformação, como forte estímulo, ao mesmo tempo, aos elementos mais jihadistas e islâmicos e ao recrutamento cada vez maior nessas áreas. Essa é hoje a questão que mais preocupa a União Europeia.

Uma crise francesa 

Em terceiro lugar, a mensagem de bin Laden pode conter indicações sobre a natureza das demandas que a AL-QAEDA-NO-MAGREB pode vir a apresentar à França, em troca da libertação dos sete reféns e de como essas demandas poderão vir a ser negociadas. 

O plano francês de proibir o uso do véu de rosto inteiro em público pode vir a ter vida curtíssima, mas a retirada de 3.500-4.000 soldados franceses do Afeganistão, ou o fim da mineração de urânio no Niger, na medida em que são interpretados como “roubar nossas riquezas, em negociatas suspeitas”, dificilmente serão negociáveis.

Sendo assim, a mensagem de bin Laden pode ser interpretada como alerta de que ou os reféns serão executados, ou haverá longas negociações planejadas para humilhar a França. Esses dois resultados possíveis parecem refletir a existência de objetivos diferentes, dos aliados da Polícia argelina e dos elementos islâmicos dentro da AL-QAEDA-NO-MAGREB.


A reação francesa à gravação da fala de bin Laden é sinal de o quão pouco controle se tem sobre o rumo que a crise poderá tomar. Na França (e em toda a Europa), a mensagem de bin Laden fez subir ainda mais o nível dos alarmes de segurança. De um lado, Brice Hortefeux, ministro do interior, declarou que a França enfrenta ameaça “real” de ataque terrorista que impõe estado de “atenção máxima”; e Bernard Kouchner, ministro do Exterior (sobre o qual correm boatos de que estaria às vésperas de renunciar) tenta reduzir a ameaça e o significado da fala de bin Laden: disse que as novas ameaças eram esperadas e que bin Laden tem pouca ascendência sobre a AL-QAEDA-NO-MAGREB.

A França enfrenta crise para a qual não há soluções simples e óbvias. Passam-se semanas, e a Al-Qaeda no Maghreb ainda não apresentou as exigências para libertar os reféns. Evidentemente, há opções realistas e que permitirão saída honrosa à França. Mas ninguém fala delas, porque todos pensam no “elefante na sala” – a Argélia.

Explico-me melhor: se, como muitos creem, a Polícia da Argélia (DRS) exerce tão forte influência sobre a AL-QAEDA NO MAGREB no Sahel, pode-se supor que consiga negociar a libertação dos reféns, sob argumentos religiosos ou humanitários, em troca de alguns atos que não chegarão a custar caro demais para a França.

A Argélia cobrará caro essa intermediação, e exigirá provavelmente maior liberdade para as operações da polícia e da segurança argelina na França, ajuda francesa na União Europeia para enfraquecer o Marrocos etc. Podem ser custos politicamente aceitáveis para Nicolas Sarkozy – o presidente francês que é o principal responsável por a França ter-se metido nesse atoleiro –, dado que são exigências que poderão ser mantidas longe da opinião pública ou só divulgadas parcialmente e não serão muito claramente compreendidas pela opinião pública.

A Argélia sairá perdendo?

O cenário que se pode prever como resultado na Argélia, não na França, é bem menos positivo para a Argélia, que pode acabar por perder tudo. A maioria dos vizinhos já começa a acusar o país de ter ‘criado’ a ameaça terrorista da AL-QAEDA-NO-MAGREB no Sahel.

Cheikh El Moctar Ould Horma, ministro da Saúde da Mauritânia, sugeriu recentemente que a Argélia seria “porta-voz” da AL-QAEDA NO MAGREB; várias vozes, na mídia marroquina acusaram Washington de estimular a atitude da Argélia, de divulgar a AL-QAEDA-NO-MAGREB como “organização terrorista”; alto membro das forças de segurança do Mali acusou a Polícia argelina de cumplicidade (“é o coração da AL-QAEDA-NO-MAGREB”); a Nigéria já se manifestou contra o papel da Polícia argelina na desestabilização política do norte da África; e Muammar Gaddafi da Líbia tem sugerido que o principal problema da região é a polícia argelina.

A crescente oposição regional à Argélia evidenciou-se claramente na conferência regional de segurança em Bamako, 13-14/10/2010. A conferência, proposta pela França, enfureceu a Argélia, único Estado regional com capacidade militar para enfrentar a AL-QAEDA-NO-MAGREB no Sahel.

A Argélia, de fato, com amplo apoio (que o Marrocos chama de “encorajamento”) dos EUA, tem usado a presença da AL-QAEDA-NO-MAGREB no Sahel para ampliar a própria influência na região. Tem-se oposto portanto fortemente a qualquer intervenção externa e impôs – meio caricata ou teatralmente – alguns procedimentos ditos “de segurança/inteligência” que só se aplicam na Argélia e em seus três vizinhos mais fracos – Mauritania, Mali e Niger. Assim, a Argélia trabalha para manter o (precário) controle que tem hoje sobe a região.

A temeridade do Mali, que sugeriu que o Marrocos – que a Argélia tenta excluir de qquer participação na segurança do Sahel – fosse convidado àquela conferência de segurança foi como sacudir pano vermelho à frente do touro. 

Resultado disso, a Argélia boicotou a conferência – da qual participaram especialistas em antiterrorismo de todos os países do G8 (Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia e EUA) e de Burkina Faso, Mali, Morocco, Nigeria e Senegal, além de representantes da Espanha, Suíça, Austrália, União Europeia, União Africana e Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental [ing. Economic Community of West African States (ECOWAS).

O número e a representatividade dos que participaram da conferência de Bamako podem ser interpretados como expressão de repúdio de várias nações da região e com interesses na região ao papel que a Argélia tem tido na ‘fabricação’, na amplificação e, inclusive, no management do ‘terrorismo’ na região, desde que a polícia argelina envolveu-se no sequestro de 32 europeus que foram feitos reféns no Sahara argelino em 2003.

Se as forças regionais continuarem como até agora, a se manifestar cada vez mais claramente contra a Argélia, talvez a França consiga encontrar espaço e oportunidade para restabelecer e talvez até ampliar sua influência na região. Embora esse cenário não colabore necessariamente para a sobrevivência dos reféns, pode-se conjecturar, pelo menos que, por essa via, o maior perdedor venha a ser a Argélia, não a França.

Seja como for, só uma consequência da atual situação no Sahel parece definitiva: todos os países da região – Mali, Mauritânia e Niger – trabalham para conseguir substancial aumento na ajuda “para ampliar os serviços de segurança e o desenvolvimento da região” que lhes virá da União Europeia, em 2011. 
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 *Jeremy Keenan é pesquisador associado da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. É autor de The Dark Sahara: America's War on Terror in Africa.