Mostrando postagens com marcador Presidente Lula. Vila Vudu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Presidente Lula. Vila Vudu. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite


Naomi Klein

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques. 

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de “privatizar”, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das “privatizações”, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de “austeridade”. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os “resgates” massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de “direitos adquiridos” pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram.

Presos  longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade – eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua “incitação” levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em: Facebook cases trigger criticism of “disproportionate” riot sentences). Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.



Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado livremente.

sábado, 23 de julho de 2011

Pepe Escobar: A verdade sobre o “Af-Pak”

Pepe Escobar

22/7/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu






Resenha de SYED SALEEM SHAHZAD, Inside al-Qaeda and the Taliban: Beyond Bin Laden and 9/11 [Por dentro da al-Qaeda e do Talibã: além de Bin Laden e do 11/9], Pluto Press, California [24/5/2011]. ISBM-13: 978-0745331010. US$26. 272 pp. (Pode ser comprado na Pluto Books). 

Ver também:
Nota
Este blog contém inúmeros artigos de Syed Saleem Shahzad para o Asia Times traduzidos pelo pessoal da Vila Vudu
Digite o nome do autor na barra  PESQUISAR ESTE BLOG que os artigos serão imediatamente litados na parte superior da página.

Syed Saleem Shahzad
Pense em Saleem Shahzad como um avião-robô drone Predator paquistanês, carregado não de bombas, mas de palavras, sobrevoando todo o “Af-Pak”. Em vez de detonar “terroristas” – e uma festa de casamento dos pashtuns – os mísseis Hellfire de Saleem Shahzad detonam, completamente, os muros do labirinto concêntrico, de pressupostos e desinformações, que é tudo que o ocidente sabe sobre o “Af-Pak”. 

A editora Pluto Press – em gesto de compaixão – deveria enviar imediatamente um exemplar do livro ao autoproclamado ás da ‘contrainsurgência’ e atual diretor geral da CIA, general David Petraeus, para nem falar da equipe de sicofantas de coturnos nunca em terra que o cercam, ou dos “terrorism experts” de sofá, variedade “think tanks” –, para que possam pelo menos começar a ter alguma ideia aproveitável sobre o que realmente acontece na vida real, no “Af-Pak”. 

[À parte: Saleem Shahzad foi meu colega e meu amigo. Trabalhamos sincronizados imediatamente depois do 11/9 – ele em Karachi, eu em Islamabad/Peshawar. Depois, nos encontramos várias vezes em Karachi. Infelizmente nunca viajamos juntos às áreas tribais ou ao Afeganistão (habituei-me a usar intérpretes e contatos do Punjab ou pashtuns).]

Foi depois da invasão do Iraque, em 2003, que Saleem – chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão – fixou a reputação de mais empenhado e brilhante jornalista que investigava o labirinto das áreas tribais paquistanesas. Por um desses golpes trágicos da história, seu livro foi lançada apenas três semanas depois do assassinato predefinido [orig. targeted assassination] de Osama bin Laden, no assalto a Abbottabad; e menos de uma semana antes de o próprio Saleem ser sequestrado, torturado e assassinado. Não, Saleem não foi assassinado pela “al-Qaeda”. A investigação sobre seu assassinato no Paquistão insiste em não andar para lugar algum (e assim com certeza permanecerá); mas a melhor aposta até agora, em matéria de culpados, parece ser uma facção da sub-bandidagem dos Inter-Services de Inteligência do Paquistão (ISI), com autorização dos níveis superiores. 

No pain no gain. “Só a luta ensina”. 

Mesmo para quem conheça bem o Paquistão, as áreas tribais e o Afeganistão, esse livro pode ser tão difícil quanto uma trilha no Hindu Kush – sobretudo pelo esforço para não confundir uns com outros, um elenco alucinante de personagens do que o próprio Saleem, em perfeita analogia, chama “uma versão al-Qaeda das Mil e Uma Noites”. 

O que se tem aqui é Saleem, como um Sir Richard Burton paquistanês, traduzindo para o mundo as aventuras hardcore de atores crucialmente decisivos, como o cruel Tahir Yaldochiv, senhor-da-guerra uzbeque e seu exército privado de 2.500 jihadis degoladores; ou o capitão Kurram e seu irmão mais velho, major Haroon – exemplos perfeitos de oficiais de médio escalão das forças armadas do Paquistão que renunciaram aos postos e encontraram os próprios destino e missão no trabalho de reciclar as táticas medievais da guerrilha Talibã, servindo-se, para isso, de lições da Guerra do Vietnã. 

Haroon, por exemplo, avalia, corretamente, que o apoio que o exército do Paquistão deu aos Talibã afegãos sempre foi apoio apenas tático –, parte da política oficial de Islamabad para criar “profundidade estratégica” contra a Índia; o mesmo se pode dizer do apoio à milícia do Lashkar-e-Taiba, ferramenta útil para o Paquistão, no caso de guerra contra a Índia. 

Foi Haroon quem recrutou a maioria dos melhores e mais ideologicamente comprometidos jovens guerreiros que integram a já legendária – em termos do “Af-Pak” – Brigada 313 do comandante Ilyas Kashmiri. 

E foi Haroon quem construiu conceitualmente toda a estratégia matadora de cortar as linhas de suprimento da OTAN, impedindo o avanço dos contêineres que chegam ao porto de Karachi, ao sul – essenciais para a sobrevivência da ocupação –, 80% dos quais têm de passar pelo desfiladeiro Khyber; e 20% vão para Kandahar. 

E, se Haroon for opinião na qual se deva confiar, 2012 será o inferno na terra. Harron disse a Saleem, em Karachi, que em 2012 osMahdi reaparecerão “para comandar as forças muçulmanas no Oriente Médio e derrotar os exércitos do ocidente comandados pelo anticristo [Dajjal]”. 

Fica aberta à discussão a questão sobre quem é o Dajjal, nessa cosmologia: o presidente dos EUA, Barack Obama; o Pentágono, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu ou “Valem todas as anteriores”. 

Burning of the midnight lamp [1]
A espantosa quantidade de informação contida nesse livro é dose capaz de manter acordados por muitos anos os interessados em Hindu Kush. Dentre outras preciosidades, Saleem conta:

– como a al-Qaeda conseguiu unir duas tribos, os Mehsud (os “panteras” do Grande Jogo do século 19) e os Wazir (os “lobos”) e, assim, obteve controle completo sobre a área tribal do Waziristão Sul; antes, não havia ali mais que uma espécie de posto avançado dos Talibã da província de Helmand, sob influência do Talibã afegão; e como a al-Qaeda selecionou o Waziristão Norte, “perdedor”, para ali estabelecer seus quartéis-generais internacionais; e

– que esse foi o plano de jogo para reconstruir a al-Qaeda e os Talibã, depois do 11 de setembro. 

Saleem também conta como o legendário Jalaluddin Haqqani – sempre de cabelos e barbas tingidos e sempre em contato próximo com os serviços secretos paquistaneses (ISI) – nunca deixou de ser o principal Talibã senhor-da-guerra no Waziristão Norte; e como, por isso, o ISI cuidou de informá-lo de que os ataques contra ele não passariam de encenação. 

Como Sirajuddin, filho de Haqqani, no Waziristão Norte, e Baitullah Mehsud, no Waziristão Sul, conseguiram ascender à posição de respeitados tenentes do líder Talibã Mullah Omar, que confia neles; e como Sirajuddin Haqqani converteu-se no mais perigoso comandante do Talibã afegão que a OTAN enfrenta hoje. Como um dos principais ideólogos da al-Qaeda, o egípcio Sheikh Essa al-Misri, “vendeu” a estratégia deles aos líderes das áreas tribais. 

Como a principal “reestreia” dos Talibã, na grande ofensiva da primavera de 2006 – quando Washington decidiu que os Talibã já estariam mortos e enterrados – foi também uma história de sucesso da al-Qaeda, turbinada por 4.000 novos combatentes chechenos, uigures, uzbeques e árabes de diversas origens.

Como o Estado Islâmico do Waziristão Norte e o Estado Islâmico do Waziristão Sul conseguiram reunir, no norte, mais de 10 mil jihadis de Karachi, Lahore, Quetta e Peshawar, mais 12 mil das tribos – dos quais 3 mil afegãos e 2 mil de outras nacionalidades; e, no sul, 13 mil das tribos, inclusive algumas centenas de uzbeques e árabes de diversas origens. Assim, o Mulá Omar tem para começar, exército de, no mínimo, 40 mil combatentes. 

Como o principal emissário de Omar, Mullah Dadullah – aproveitando-se de contatos íntimos com a resistência sunita no Iraque – divulgou entre as tribos o conceito de suicida-bomba como forma legítima de jihad. 

Mas, sobretudo, como a al-Qaeda “modelou uma entidade paralela, Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP, Talibã Paquistaneses), para reforçar suas posições nas fortalezas naturais em sete agências tribais do Paquistão”. 

Poucos sabem que o TTP foi criado, de fato, como tática diversionista – de modo que a al-Qaeda pudesse promover sua ideologia dejihad global rumo ao califato global, que jamais correspondeu ao que quer Mullah Omar (cujo único interesse é expulsar do Afeganistão os exércitos estrangeiros de ocupação). Mas o Talibã no Afeganistão não podia criticar o TTP, porque estavam ajudando os afegãos a combater as forças da OTAN-EUA. 

A grande franquia tribal 

A tese central do livro é essa – que a al-Qaeda “clonou” os Talibã Afegãos, para criar os Talibã Paquistaneses – dentre aquela miríade de grupos militantes –, para que tivessem como conduzir uma revolução islâmica dentro do Paquistão, como franqueados da al-Qaeda. Nas palavras de Saleem, “É a primeira franquia apoiada pela al-Qaeda, local, popular e absolutamente tribal, em todo o mundo”. É possível que o Pentágono e a CIA, em Langley, tenham conseguido entrever pelo menos uma fresta desse grande quadro – mas um pouco tarde demais, no que tenha a ver com “Af-Pak”. 

A expressão “Af-Pak” foi cunhada pelo ex-enviado especial do governo Obama, Richard Holbrooke, em março de 2008. O problema é que chegou muito atrasada. Al-Qaeda tivera a mesma ideia muito tempo antes, já em 2002. 

Saleem argumenta, a partir de entrevistas que fez com comandantes e estrategistas chaves, que, se a al-Qaeda não tivesse concebido “um plano de combate para enfrentar dois exércitos hostis [a OTAN no Afeganistão; e o exército paquistanês no Paquistão], a guerrilha no Afeganistão teria morrido no final de 2002 e seus militantes em retirada estariam cercados e dizimados já no início de 2003”. 

Foi exatamente a impressão que tive, no Afeganistão, no outono de 2002: que a al-Qaeda estava em ruínas. Mas fato é que, no final de 2008, todas as sete agências tribais paquistanesas já estavam sob seu controle e influência. 

Al-Qaeda apostava em que Washington acabaria por render-se a algum tipo de acomodação com os Talibã históricos com bases no Afeganistão, em conjunção com o exército paquistanês; a situação seria aproximadamente a mesma de meados dos anos 1990s. De diferente que, dessa vez, os Talibã Paquistaneses lá estariam para estragar a festa – e fazer ver aos afegãos que a Jihad não estava confinada ao Afeganistão: que tivera de globalizar-se. 

Mas a al-Qaeda absolutamente não previu que os Talibã, com alguma esperteza, fossem seduzidos por Washington, por alguma espécie de acordo de partilha do poder (estamos hoje mais ou menos nesse ponto). 

Há quem duvide que Mullah Omar prefira a jihad, se puder ter voz no poder em Kabul, para nem falar da possibilidade de caber-lhe gorda fatia das taxas de pedágio, no caso de a saga do óleo-gasoduto TAP (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão) algum dia chegar a bom termo. 

Apesar de a al-Qaeda não ter previsto a massiva guerra de aviões-robôs pilotados à distância contra as áreas tribais, é evidente que vê como produtiva a crise humanitária gerada pelos drones e o bombardeio de terra arrasada que os EUA fazem contra as áreas tribais. Mais de um milhão de pessoas já abandonaram casa e terras em cinco das sete agências tribais: são um milhão de pessoas (e mais, se se consideram as famílias estendidas) que combaterão contra os EUA até o último alento. 

Saleem argumenta que a guerra dos aviões-robôs drones tripulados à distância forçou a al-Qaeda a entrincheirar-se mais fundo no Hindu Kush, onde todas as montanhas se ligam e interconectam; que, se não pode vencer nos desertos do Iêmen ou o Iraque, nem nas selvas da Somália, talvez possa vencer nas áreas tribais, aliada a Talibã Paquistaneses “que se movem livres pelas montanhas, como a águia que luta e sobrevive”. 

Já a águia norte-americana pensa diferente:o único modo de ‘vencer’ a guerra nas áreas tribais é ‘droná-los’ com bombas disparadas à distância, bombardeá-los sem parar, até que não reste uma alma viva. 

E que fim levou Osama?

É interessante observar o que Saleem não diz sobre Osama bin Laden. Fica implícito que Osama e (hoje líder da al-Qaeda) Ayman al-Zawahiri, com algumas poucas centenas de jihadis, pelo menos depois que escaparam de Tora Bora no final de 2001, estavam amoitados em Shawal, literalmente terra-de-ninguém na encruzilhada entre o leste do Afeganistão, o Waziristão Sul e o Waziristão Norte. 

Então, Osama some da narrativa – afinal, já permanecera “invisível” por anos. Reaparece depois da débâcle de 2007 na Mesquita Vermelha (Lal Masjid) em Islamabad – tentativa da al-Qaeda para abrir um front na própria capital –, quando, segundo Saleem, Osama teria indicado Abu Obaida al-Misri para organizar um levante no Paquistão, para tornar ingovernável o país. 

Se se pode crer na narrativa de Washington sobre Abbottabad – e há aí um imenso “se” –, Osama, naquele momento, já vivia em Abbottabad, mantido perfeitamente informado de tudo que acontecia no Paquistão. 

Saleem acredita na tese da al-Qaeda, segundo a qual o ataque de 11/9 foi organizado para atrair os EUA para uma armadilha no Afeganistão; o Pentágono teria usado o 11/9 como pretexto para implantar-se nas encruzilhadas cruciais da Ásia Central e Sul; e há sempre a possibilidade de que se permitiu que acontecessem os ataques do 11/9, de modo a que o Pentágono pudesse expandir o que, depois, passou a ser conhecido como a doutrina da Dominação de Pleno Espectro. 

Dado que Osama é relativamente ausente na narrativa – o que pode significar que seu papel, nos anos recentes, tenha sido só simbólico –, a verdadeira estrela é, de fato, Ilyas Kashmiri. Saleem foi (e ainda é) o único jornalista que jamais o entrevistou.[2]. Destacando-se dentre uma série de jihadis operacionais substituíveis, cada um com seu modus operandi, Kashmiri impressionou tanto os ideólogos da al-Qaeda, que foi promovido a chefe do Comitê Militar e encarregado de expandir a jihad para a Ásia Central. 

Para ele, o principal teatro de guerra sempre foi o Afeganistão e as áreas tribais paquistanesas, até que a jihad na Ásia Central – e na Índia – ganhou força. O mais extraordinário é que esse foi o plano do serviço secreto do Paquistão há 30 anos: construir um teatro de guerra para derrotar os soviéticos no Afeganistão e deixar que a Caxemira (e os Kashmiris [Caxemireses]) se autogovernassem na Índia. É imensa ironia da história que um Kashmir esteja hoje encarregado do mesmo plano... mas, dessa vez, para servir aos objetivos da Jihad global da al-Qaeda. 

Pode-se discordar de Saleem atribuir poderes imensos à al-Qaeda. No final do livro, escreve que o objetivo da al-Qaeda é exaurir o Ocidente e, então, anunciar sua vitória no Afeganistão. Enquanto os Talibã Afegãos – não a al-Qaeda – não pararem de zunir à volta da OTAN em tempo integral, o ocidente não sairá do Afeganistão: por causa do Óleo-gasodutostão; por causa das suculentas bases militares, ali, ao pé de Rússia e China; por causa dos planos expansionistas da OTAN; por causa da abundância de recursos minerais a serem explorados. 

E quando expõe os objetivos da al-Qaeda, a coisa vai ainda mais longe: “em seguida, a al-Qaeda aspira a ocupar a terra prometida do velho Khurasan, cujas fronteiras vão da Ásia Central ao Khyber Paktoonkhwa atravessando o Afeganistão, e daí expandir o teatro de guerra até a Índia”. 

Nunca acontecerá. Mas é certo que essa “visão” não sumirá sem mais nem menos. Sobretudo, será mantida eternamente viva, enquanto houver norte-americanos e europeus ocupando o Afeganistão, e as áreas tribais paquistanesas continuarem sob o fogo mortal, infernal, dos aviões-robôs drones dos EUA pilotados à distância. 

E quanto ao Irã? 

O livro tem alguns pequenos problemas – como Saleem dizer que em meados dos anos 1990s o então presidente do Afeganistão Burhanuddin Rabbani e seu ministro de Defesa, o “Leão do Panjshir” Ahmad Shah Massoud, “permitiram que Osama bin Laden se movesse do Sudão para o Afeganistão”. A verdade é que Osama chegou quando os Talibã já estavam no poder e os tadjiques de Massoud eram a única oposição. 

E há um grande problema: o que Saleem chama de ‘normalização’ das relações entre al-Qaeda e o Irã (discutimos muito furiosamente essa questão, por e-mail). Saleem argumenta que quando um diplomata iraniano foi sequestrado em Peshawar em 2008, a complexa rede tribal era comandada por Sirajuddin Haqqani. Muitos meses depois de negociações mediadas por Sirajuddin, Teerã recebeu seu diplomata, em troca da liberdade de agentes altamente qualificados da al-Qaeda que estavam presos no Irã – entre os quais Abu Hafs al-Mauritani, Suleiman Abu Gaith, Iman bin Laden – uma das filhas de Osama – e o egípcio Saif al-Adil. 

Nunca se obteve qualquer confirmação, de Teerã; mas é difícil crer que, ainda que Teerã autorizasse passe livre para os jihadis da al-Qaeda rumo ao Iraque, Ásia Central ou Turquia, poder-se-ia dizer que Teerã e a al-Qaeda ter-se-iam tornado por isso, digamos, “íntimos”. Antes de qualquer outra coisa, porque a al-Qaeda tinha e continua a ter relações muito próximas com os sunitas linha-dura do grupo Jundallah – especializado em “assassinatos predeterminados” na província iraniana do Sistão-Baloquistão. 

Esse é o caderno de notas de um jornalista apaixonante, às vezes intrigante, às vezes irritante, mas sempre magnífico jornalista, caderno que muitos lerão como um ‘diário’ do coração das trevas. Mas essa parte do mundo sobre a qual Saleem escreve é, de fato, das mais fascinantes, em termos sociais, antropológicos e até geológicos, de todo o planeta. O livro, sim, ganharia, se passasse por edição mais cuidadosa, que aparasse as redundâncias e deixasse ver mais claramente o contexto essencial. 

Saleem pensava em urdu – e depois traduzia para o inglês. O Saleem em inglês que os leitores de Asia Times Online e de vários outros jornais conhecem é resultado de horas e horas de doloroso trabalho de edição do editor Tony Allison. 

No final, o que realmente conta é que Saleem foi nosso ponto de fuga [orig. vanishing point [3]] naquela paisagem. Não é livro sobre “o terror”. É a narrativa empenhada de um homem só, numa imensa terra de tribos, armado com sua forte bússola moral, à procura da verdade. Por isso Saleem foi assassinado por um estado que há dentro do estado do Paquistão. Não foi assassinado pelos pashtuns.




Notas dos tradutores
[1] Literalmente “queimando [o querosene?] da lâmpada da meia-noite”. É título de canção gravada por Jimmi Hendrix (1967). Letra no Terraletras.  
[2] Entrevista exclusiva que Kashimiri deu ao jornalista Syed Saleem Shahzad: “Al-Qaeda's guerrilla chief lays out strategy”, Asia Times Online, 15/10/2009. Sobre o mesmo assunto, ver “Duas Estratégias Islamitas que se Opõem: A Al-Qaeda contra os talibãs”, Syed Saleem Shahzad, Le Monde Diplomatique, 6/7/2007.
[3] “Vanishing Point” [em port. “Corrida contra o Destino”] é filme “de estrada”, cult, de 1971.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pepe Escobar: Invada, ocupe, assalte! Viva o “marketing”!


Pepe Escobar

6/7/2011, Pepe Escobar - Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Interrompemos o capítulo de hoje do psicodrama global-fascination da hora – “DSK (Dominique Strauss-Kahn) é pervertido”? “Gosta mesmo da coisa?” “Foi vítima de conspiração?” –, para informar os distintos telespectadores sobre como vencer uma “ação militar cinética” moderna, no campo do “marketing político”, das “Relações Públicas” (e da “mídia”). Claro. E onde mais poderia ser?!

Fato é que o combate entre o macho branco poderoso versus a mulher africana pobre numa suíte de hotel em Manhattan hotel já não conseguirá tão facilmente roubar audiência de outro combate: a guerra da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra a Líbia. Seja lá o que tenha acontecido ou venha a acontecer, vencerá quem contratar a melhor equipe de “Public Relation”(que, no Brasil, chama-se “marketing político”). 

Assim se prova também que os muito incensados “rebeldes” líbios – gangue de desertores oportunistas, assalariados da CIA, clérigos salafistas ligados à jihad e líderes tribais gananciosos – não são tão puros e inocentes quanto a massiva barreira de propaganda ocidental insiste em repetir que seriam. 

E assim se explica também por que os “rebeldes” rejeitaram um bom plano de paz proposto pela União Africana na semana passada – cessar-fogo imediato; deslocamento para a Líbia, de uma força de pacificação da ONU; o coronel Muammar Gaddafi afastado das negociações para a transição. – E disseram que o plano da União Africana seria “anti-introdução” a qualquer acerto. 

Em vez de iniciar conversações, os “rebeldes” iniciaram outro ataque “massivo” contra Trípoli, com armas fornecidas – ilegalmente – pelo neonapoleônico Nicolas Sarkozy da França, e os inevitáveis bombardeios aéreos da OTAN. 

Pode-se apostar que a tal “ofensiva” – nada além de rapazes cheios de energia, armados com AK-47s e montados em caminhonetes, contra os mísseis soviéticos Grad de Gaddafi com alcance de 40 quilômetros – não alterará um centímetro da fronteira de fato no Golfo de Sirte entre a Tripolitania (controlada pelo regime de Gaddafi) e a Cyrenaica. 

Passem a grana! 

O governo “rebelde” – agora chamado, depois de várias mudanças de griffe e permutas, de Conselho Nacional Interino de Transição da Líbia [ing. Interim Transitional National Council of Libya] – acaba de contratar Patton Boggs, uma das empresas líderes em Washington (e das mais rentáveis) de marketing político, para “aconselhá-los e orientá-los” no serviço de... Ora... de vencer a guerra! Ou, não sendo isso ou viável ou possível, para inventar a ilusão “midiática” de que os “rebeldes” estariam vencendo a guerra (há aí sombras da campanha de marketação que a OTAN contratou no Afeganistão). 

Patton Boggs já estálobbyando” furiosamente todos os jornais e jornalistas a favor dos “rebeldes”, para que sejam engolidos como “governo legítimo da nação líbia soberana”.

O contrato foi firmado entre Patton Boggs e o ex-embaixador líbio Ali Suleiman Aujali, cão alfa dos ‘rebeldes’ nos EUA. O encarregado da ‘conta’ será o principal sócio da empresa Thomas Hale Boggs Jr. 

Itália, Grã-Bretanha, França, Qatar e agora a Turquia já reconheceram o Conselho Nacional Interino de Transição da Líbia; o governo Barack Obama já autorizou que abram uma representação em Washington. 

Inevitavelmente, se trata exclusivamente de dinheiro: o “Conselho” não vê a hora de pôr as mãos nos bilhões de dólares do regime de Gaddafi, que estão congelados nos EUA. 

Patton Boggs, segundo alguns jornais, embolsará um máximo de 50 mil dólares por mês – calculados por hora. Os ‘rebeldes’ só pagarão quando puderem (hoje, estão virtualmente na miséria). Nos três últimos meses, outra empresa de ‘marketing político’ de Washington, “The Harbour Group”, trabalhou pro-bono (gratuitamente), também para implantar a versão ‘rebelde’ dos fatos na mídia do ocidente – com especial atenção ao item “descongelem aquele dinheiro!”. 

É importante observar que um dos lobbyistas-marketeiros de Patton Boggs já envolvidos com os “rebeldes” é Vincent Frillici – ex-diretor de operações na OTAN, onde trabalhou no Comitê de Recepção da Comemoração do 50º Aniversário da Aliança. Que lindo! Um marketeiro ligado à OTAN, vendendo à imprensa e à opinião pública um “levante popular espontâneo”, só que inventado. 

Assim, graças a Washington, paraíso dos lobbyistas-marketeiros, pode acontecer de o governo dos EUA vir a reconhecer um dos lados que lutam numa guerra civil no norte da África, “representado” por um “conselho” sem qualquer legitimidade... e permitir que os tais “conselheiros” passem a mão nos bilhões de dólares congelados para, como diz a propaganda do lobby-marketing, “ajudar o povo líbio”. 

Ferrem o tal barco dos americanos!
(ing. Screw that American boat)  [1]

Análise rápida do que realmente acontece em campo mostraria, em vez desses ‘slogans & marketings”, a mesma velha agenda neocolonial de subornar mercenários para derrubar o governo – por sem graça que pareça – de país rico em fontes de energia que nunca deu conversa para o Fundo Monetário Internacional; que constituiu uma união de países africanos; e que não vendeu suas riquezas naturais a preço de banana (mas, sim, aceitou ouro, em pagamento). 

Enquanto isso, o mesmo governo dos EUA amigo dos “rebeldes” recusa-se a admitira que o bloqueio de Israel contra Gaza é ilegal. Como escreveu em Commondreams.org o sempre irrepreensível ex-analista da CIA Ray McGovern – que viaja a bordo do barco “Audacity of Hope” tentando chegar a Gaza:

“Antes de deixar os EUA, fui avisado, por fonte que tem acesso a altos funcionários do Conselho de Segurança Nacional, de que, não só a Casa Branca não tem qualquer plano de fazer coisa alguma para proteger nosso barco contra o risco de ser abordado ilegalmente por israelenses, como, também, muita gente na Casa Branca ficará muito contente se alguma coisa nos acontecer”. 

A Casa Branca, como McGovern foi informado, “gostará muitíssimo de ver cadáveres de ativistas norte-americanos anti-israelenses exibidos pela televisão dos EUA” – ao mesmo tempo em que tanto elogia um “conselho” fantoche que mal consegue esperar a hora de assaltar a riqueza da Líbia. 

Tibetanos, uigures, burmeses, uzbeques, chechenos e incontáveis outros podem começar a ver como é o negócio. Querem fazer revolução? Só se for revolução em inglês, não em seus idiomas locais. Não entenderam bem a ideia? Basta invocar a “R2P” (“Responsabilidade de Proteger”), e as potências ocidentais logo estarão aí, batendo à porta de vocês, com uma Resolução da ONU fresquinha, e OTAN-Robocop pronto para entrar em ação. Está faltando dinheiro para comprar armas? Façam à moda dos “rebeldes” líbios: contratem uma poderosa empresa de “marketing político” e lobby, com acesso garantido aos donos, editores e jornalistas dos grandes jornais e redes de televisão, e logo vocês estarão sendo oferecidos no mercado político como produto legítimo. Isso feito, vocês conseguirão rapidamente assaltar, praticamente “legalmente”, os recursos de seus respectivos países. 

Mas... Atenção: Essa receita só funciona no caso de o local que alguém deseje “libertar” (ou “proteger”) ser terra encharcada de petróleo. 


Nota dos tradutores
[1]  Trocadilho intraduzível entre screw bolt (um tipo de parafuso) e screw [that] boat. Em screw já há subentendidos complicados, porque screw é expressão de gíria equivalente a “ferrar [alguém]”, no sentido de “detonar” alguém, também, no sentido de contato sexual [Ver em: Free Dictionary].

domingo, 13 de março de 2011

Líbia: o que Obama e a OTAN temem?

Marwan Bishara

Three questions to Marwan Bishara – Entrevista, 12/3/2011, Al-Jazeera, Qatar
“Três perguntas para Marwan Bishara”
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Al-Jazeera: Os ministros da Defesa dos países da OTAN reuniram-se na 5ª-feira, mas não decidiram ainda o que fazer sobre a Líbia. O senhor entrevistou Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN. O que dizem por lá?

Marwan Bishara: O secretário-geral da OTAN dedicou-se aplicadamente a nada dizer e nada desmentir. Foi extremamente cauteloso e não se comprometeu. De fato, não disse coisa alguma. 

A OTAN está dividida entre os que, como a Grã-Bretanha, querem ação imediata; e os que, como a Itália, temem que qualquer envolvimento da OTAN na região comprometa ainda mais o já complicado relacionamento nacional de cada um, com a Líbia. E há outras divisões como, por exemplo, a que separa Turquia e EUA, sobre a natureza e o papel da OTAN no Oriente Médio, com ou sem intervenção na Líbia.

Seja como for, todos concordam que (1) em nenhum caso, por hora, a ação da OTAN deve ser maior que a implantação de uma zona aérea de exclusão [NFZ, No-Fly Zone] e que (2) a NFZ só será possível se se cumprirem três exigências: (a) aprova-se outra Resolução do Conselho de Segurança, que amplie a Resolução 1.970; (b) a OTAN obtém apoio dos países da região para qualquer ação; e (c) a ação só será considerada se houver escalada muito forte da violência contra a população civil líbia. 

Antes da reunião da OTAN marcada para a próxima 3ª-feira para discutir a situação da Líbia, EUA e Europa já pediram a renúncia de Gaddafi, enquanto todos esperam os acontecimentos em três frentes: na ONU, na Liga Árabe e na União Africana.
A OTAN está monitorando a situação na Líbia, mas quais são as opções?
Al-Jazeera: Uma zona aérea de exclusão imposta pela OTAN pode levar a reação ainda mais violenta?

Marwan Bishara: Há riscos em qualquer campanha militar de longo termo, expansiva, coordenada pela OTAN contra país árabe. A OTAN perdeu toda a credibilidade e está muito fortemente desmoralizada aos olhos da rua árabe. Há determinados riscos em qualquer campanha militar de longo prazo, sempre dispendiosas, contra país árabe; e há riscos específicos, se a campanha militar for conduzido pela OTAN, que perdeu credibilidade aos olhos dos árabes, depois das guerras do Iraque e Afeganistão. As potências ocidentais sabem que estão numa posição precária: se invadirem ficam mal, se não invadirem, também ficam mal.

Além do mais, as três últimas zonas aéreas de exclusão implantadas sob comando da OTAN – no Iraque em 1991-1993, na Bósnia em 1993 e no Kosovo em 1999 – foram campanhas militares gigantescas, massivas, complexas, de alto custo, e que, bem feitas as contas, não alcançaram os objetivos declarados nem evitaram qualquer escalada da violência contra civis. A zona aérea de exclusão da OTAN, operação militar liderada pelos EUA no Kosovo, exigiu 38 mil ações militares, ao longo de 78 dias. 

Simultaneamente, ainda não se sabe se Rússia e China, membros com poder de veto, aprovarão nova Resolução da ONU, nas atuais circunstâncias, sobretudo agora, que as forças leais a Gaddafi recuperaram posições no oeste do país. 

Sem Resolução do Conselho de Segurança da ONU, alguma nova “coalizão de vontades” – quer dizer, campanha militar de exércitos do ocidente não autorizada pela ONU – pode implicar escalada ainda maior na guerra e erros muito graves, que podem levar a manifestações populares ainda maiores no Oriente Médio, sobretudo na Líbia. 

Al-Jazeera: Isso explica a hesitação na OTAN?

Marwan Bishara: Em boa medida, sim. As potências reunidas na OTAN temem que qualquer envolvimento militar amplo resulte em desastre ainda maior para o ocidente. 

Eles não estão muito seguros quando à escala e os riscos de uma zona aérea de exclusão, em termos gerais. Além disso, os países reunidos na OTAN têm diferentes prioridades nacionais em relação à Líbia, e ideias diferentes sobre o uso direto da força na região árabe.

Os EUA falaram em termos genéricos sobre uma zona aérea de exclusão, a qual, segundo o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, seria operação complexa, que implicaria manter sob bombardeio cerrado as defesas aéreas e o comando das comunicações. Tudo isso gera altos riscos e abre a possibilidade de escalada no plano militar. E Gates não é o único que está muito preocupado. 

Todo o governo Obama teme tomar decisões que, adiante, empurrem os exércitos norte-americanos ainda mais para o fundo da areia movediça que é o mundo árabe. A Casa Branca parece ter concluído que é mais interessante, do ponto de vista dos interesses dos EUA, não se aproximar muito das revoltas árabes. Estão analisando as coisas caso a caso, em termos de custos/benefícios diretos. Apoiar o rei-ditador no Bahrain, congratular-se com os revoltosos no Egito e na Tunísia e ganhar tempo no caso da Líbia são movimentos ‘normais’, do ponto de vista da nova abordagem “pragmática” que o governo Obama tenta adotar para a Região.