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terça-feira, 22 de maio de 2012

Pepe Escobar: Guerra e “cheeseburgers”


22/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Um espectro ronda a Europa [1]. Não, não é o comunismo. São as agências norte-americanas de avaliação de risco. A Grécia está quebrada; a Eurozona está a ponto de rachar; o banco JP Morgan comete “erros” de bilhões de dólares; empregos, não há (nem futuro) para as novas gerações. E, mesmo assim, o braço armado do 0,1% das elites ocidentais ocupa Chicago – convertida em cidade-estado policial orweliana – para discutir uma “defesa inteligente” [orig. smart defense].

No Afeganistão, a “inteligente” Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prepara-se, de fato, para uma fuga humilhante. “Defesa inteligente” é palavra em código para “o dinheiro sumiu”. Só cinco, dos 28 estados-membros da OTAN gastam 2% dos respectivos PIBs com os militares – como quer a OTAN. Um desses era – surpresa! – a Grécia. Eis a trilha rumo ao desastre certo, para o neoliberalismo armado. Primeiro, a Grécia foi mais ou menos obrigada a comprar submarinos caríssimos, de franceses e alemães; depois, foi obrigada a fazer cortes no orçamento. É o plano de ajuda da OTAN: “food for subs”, vocês nos dão comida, nós lhes vendemos submarinos.

Os EUA pagam nada menos que 75% das contas da OTAN – mais uma demonstração cabal de que a OTAN é o braço europeu, armado, do Pentágono. Mas, em 2011, os membros da União Europeia (EU) gastaram nada menos que $180 bilhões, em Defesa. Agora, acabou. Ninguém mais tem dinheiro. Quer dizer: doravante, o Pentágono, sozinho, terá de manter a máquina em operação.

E mantê-la-á – com folga. Como esperado, ontem, domingo, na Chicago ocupada, a OTAN aprovou – melhor ainda: o presidente Barack Obama dos EUA e seus aliados “acabam de decidir” – dar prosseguimento à primeira das quatro fases do escudo norte-americano antimísseis para a Europa.

Na prática, significa um navio de guerra dos EUA armado com interceptores ancorado no Mediterrâneo; e um sistema de radar da OTAN, instalado na Turquia e controlado do quartel-general em Ramstein, na Alemanha. A vasta (e crescendo) base militar em Ramstein é comandada por um general norte-americano. Mas, segundo o jornal turco Zaman, haverá um general turco, lá, como subcomandante. É a cenoura que coube à Turquia, por ter feito campanha a favor de mudança de regime na Síria.

Cheeseburger na Russia
Os que acreditam no que a OTAN diz pelos veículos da imprensa-empresa – que o tal escudo nada tem a ver com a Rússia e é defesa contra os mísseis do Irã “do mal” – melhor fariam se se aliassem a Alice no País das Maravilhas. Para todos os objetivos práticos, o comandante do exército russo, general Nikolai Makarov, já disse que a Rússia responderá, com uma base de mísseis Iskander de curto-alcance em Kaliningrad, junto à fronteira com a Polônia. É fácil tirar a OTAN de dentro da Guerra Fria, mas ninguém tira a Guerra Fria de dentro da OTAN.

No ponto, nem mal-passado nem bem-passado, sem ketchup

Sobre o Afeganistão, o que a Casa Branca espalha pelos veículos da mídia-empresa é que Obama recomendou ao presidente afegão Hamid Karzai que “implemente a reforma eleitoral, ponha fim à corrupção e pressione os Talibã para um acordo”. É além de delírio desejante: acreditar que o sistema super corrompido de Karzai se “autorreformará” é como crer que a Casa de Saud seja amante da democracia jeffersoniana. Se houver qualquer coisa semelhante a “reforma eleitoral”, os aliados de Washington perderão, por muito tempo, todas as eleições que se inventem. E é o Talibã quem pode obrigar Karzai a fazer algum acordo, não o contrário.

Assim sendo, o que sobra, para salvar a civilização ocidental? Com batatas fritas à francesa, não à moda “liberdade”.

Dessa nova diplomacia cheeseburger, selada no Salão Oval, entre Obama e o novo presidente da França, François Hollande, espera-se que salve a Grécia, erga a Eurozona e dê nova partida, afinal, na economia dos EUA, bem a tempo para as eleições presidenciais de novembro nos EUA. Como é que os indômitos "Cinco", da cadeia EUA de búrgueres, não pensaram nisso antes?

Eis o cálculo de Obama:

Se o Republicano Mitt Romney for eleito em novembro, estaremos ainda mais ferrados do que estamos hoje. Preciso de empregos. Preciso de economia em recuperação. Preciso que os malditos europeus ponham ordem na casa. Não posso ficar sentado aqui, à espera de que eles resolvam o problema grego: tenho de vencer uma eleição!

Eis o cálculo de Hollande:

Minha eleição está vencida. Prometi empregos e crescimento. Agora, preciso de uma coalizão de vontades só minha – para o crescimento; ou seremos atropelados pela extrema direita, em todas as urnas. Mon Dieu, por que “Onxelá” – codinome, chanceler alemã Angela Merkel – não entende isso?

Para o duo franco-americano, é situação de ganha-ganha. A política econômica de Hollande é, de fato, a economia política do Obama Team. Com certeza já expuseram a (nova) lei a “Onxelá”, no plácido retiro de Camp David, no G-8 – protegidos das agruras do mundo real por um exército suficiente para executar qualquer mudança de qualquer regime em qualquer lugar, em cinco minutos. 


Problema é que, nem Barack, nem François avisaram o Deus do Mercado – nem os bancos europeus e norte-americanos – sobre seus projetos. Os Mestres do Universo não dão bola alguma para a Grécia, berço da democracia; querem é a grana deles, de volta.

Obama tem pressa. O atual Supremo Interventor italiano, Mario Monti – ex-Goldman Sachs – talvez tenha credibilidade de mercado, para convencer Berlim e a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional) de que, ou a Europa cresce, ou não haverá dinheiro para ninguém. Mas Obama também precisa de um aliado estratégico político. E, com certeza, não será “Onxelá”, a dominatrix da austeridade.

Filet mignon à iraniana
Prefiro um bife

O problema é que esses cheeseburgers estão encharcados de óleo. Petróleo iraniano. Obama faz-se de durão contra o Irã, essencialmente por razões eleitorais. Nos próximos cinco meses, bem poderia conseguir redirecionar o debate, não fossem os europeus que – obedecendo ordens suas, de fato – podem fazer valer o boicote contra o petróleo do Irã, a iniciar-se dia 1º de julho p.f.. Obama teme a consequência inevitável do boicote: os preços do petróleo, na estratosfera. Se isso acontecer, bye bye recuperação europeia, a ser seguido, claro, por bye bye reeleição de Obama. 

Isso é que torna ainda mais sumarenta a próxima rodada de conversações em Bagdá, essa semana, entre o Irã e as nações do P5+1. Do ponto de vista do Obama Team, o melhor cenário possível seria... Vamos concordar que temos de conversar um pouco mais.

Com isso, Obama ganharia uma janela pela qual pressionar – com a ajuda de Hollande – a favor da ideia de a Europa esquecer o boicote ao Irã, pelo menos enquanto prosseguirem as conversações entre as partes e, no mínimo, pelos próximos seis meses. Afinal, o pacote de sanções ultra debilitantes lá está e lá continua – e não há dúvidas de que está fazendo sofrer a população iraniana, muito mais do que a liderança em Teerã. 

A única coisa que importa ao Obama Team, acima de tudo no mundo, é garantir a vitória, dia 4/11. Essa diplomacia cheeseburger funcionará? Ou Mitt Romney contra-atacará, prometendo política de “nenhum bife abandonado na retaguarda”, com muito ketchup iraniano?




Nota dos tradutores
[1] É a frase de abertura do Manifesto Comunista  (1848), de Marx e Engels. Acesse o “link”, excelente tradução. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite


Naomi Klein

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques. 

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de “privatizar”, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das “privatizações”, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de “austeridade”. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os “resgates” massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de “direitos adquiridos” pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram.

Presos  longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade – eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua “incitação” levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em: Facebook cases trigger criticism of “disproportionate” riot sentences). Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.



Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado livremente.

terça-feira, 31 de maio de 2011

FMI: França empareda os BRICS

31/5/2011, M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger reclamou certa vez que a Europa não tinha número de telefone. O que o deixava sem saber com quem falar, como autêntica voz europeia. Hoje se pode dizer o mesmo dos BRICS, o grupamento que chegou a personificar as melhores e mais brilhantes potências emergentes na ordem global. BRICS são o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul. 

A sumária demissão de Dominique Strauss-Kahn do emprego de diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), acusado de agressão sexual, deixou tristemente expostos os BRICS como navio fantasma que, vez ou outra, faz muito barulho. 

Mal se passaram seis semanas desde que a China hospedou a reunião dos BRICS em clima de glória, comandada por ninguém menos que o presidente Hu Jintao. E já hoje os líderes dos BRICS corarão, envergonhados, se lembrarem que o Diário do Povo de Pequim saudou-os naquela reunião como “âncora da economia e da política globais”. 

Strauss-Kahn não virou presidente da França, como se disse que seria seu sonho. Tampouco sua contribuição para a construção da ordem global irá além da do atual presidente Nicolas Sarkozy. Dado o modo como foi defenestrado do emprego no FMI, uma turba ensandecida surgiu, ardendo para ocupar a vaga, processo que, por sua vez, trouxe a nu as linhas muito frágeis do sistema internacional. Mas nem Strauss-Kahn algum dia deu sinais de ouvir os gritos das dores do nascimento do supracitado mundo multipolar. 

Apesar das homilias universais de que é preciso democratizar a ordem mundial, quando chegou a hora da verdade os países ocidentais rapidamente cerraram fileiras e entraram num frenesi jamais visto, para não deixar escapar o FMI como seu território exclusivo. 

Em questão de 72 horas, mais ou menos, a ministra francesa das Finanças Christine Lagarde anunciou-se candidata ao emprego. As nações européias rapidamente se organizaram em torno dela; o Grupo dos 8 (G-8) proclamou seu apoio; e ela partiu em tour global. No domingo, Lagarde postou um tuíte triunfalista no Twitter: “Voando para Brasília: amanhã almoço com colega Guido Mantega, encontro com presidente do BC Alexandre Tombini”. 

Urso (russo) de picadeiro 

Sim, Lagarde almoçou numa capital BRICS, depois de ter assegurado o apoio de outro BRICS, a Rússia, que esteve presente no jantar do G-8 na 5ª-feira na França. 

A ironia é que a Rússia, talvez a mais ardente defensora dos BRICS, no instante em que se viu sentada à mesa do banquete dos G-8 entrou em surto de crise de identidade e, num segundo, resolveu que prefere ser parte do mundo ocidental, a comer mosca no mundo em desenvolvimento. 

Foi exatamente o que todos viram, na posição adotada pela Rússia na reunião do G-8 na 6ª-feira, quando apoiou a candidatura de Lagarde. Na 4ª-feira, a Rússia assinara a declaração dos BRICS, contra a candidatura de Lagarde (e em busca de “um processo transparente, meritocrático e competitivo”, para a seleção do novo chefe do FMI). 

A Rússia sabia, é claro, que o apoio do G-8 praticamente significa que Lagarde já tem novo emprego, porque as nações reunidas no G-8 detêm 42% dos votos. Mas naquele momento a Rússia não tinha candidato próprio suficientemente qualificado para o emprego no FMI. Mais importante: o G-8 é um dos poucos símbolos que ainda fazem a Rússia sentir-se “grande potência” com influência global. 

Por trás de tudo isso, a Rússia pós-soviéticos anseia por ser aceita como “igual” na comunidade euro-atlântica. Ainda não se sabe se a Rússia ter-se-á amarrado em algum acordo faustiano que envolva algum interesse vital. Mas se se amarrou, não será surpresa. 

Fato é que a Rússia, praticamente do dia para a noite, deu as costas aos BRICS, por mais que, todo o tempo, tenha vivido a repetir rompantes do Kremlin, segundo os quais os BRICS seriam o evento mais importante que aconteceu no sistema internacional pós-Guerra Fria. 

O ocidente e o resto 

Tradicionalmente, os EUA presidem o Banco Mundial, e a Europa, o FMI. A corrida para ganhar o emprego no FMI indica claramente que o ocidente não consegue sequer imaginar qualquer outro modo de comandar o sistema financeiro mundial. O plano ocidental de já ter prontas as indicações para o FMI dia 10 de junho, e de decidir toda a agenda e o processo eleitoral unilateralmente, praticamente numa única reunião de fim de semana, e sem nem dar tempo de todos os diretores executivos reunirem-se em Washington, indicam que, sim, não concebem outro modo de fazer as coisas. Espera-se que o FMI anuncie os candidatos ao principal cargo dia 17 de junho, E que dia 30 de junho já se conheça o próximo diretor-executivo. 

Tudo isso está acontecendo apesar do compromisso assumido em 2007, quando Strauss-Kahn foi escolhido pelo grupo Euro. Nos termos daquele compromisso, “o próximo diretor-executivo certamente não será europeu” e “no grupo Euro e entre os ministros das Finanças da União Europeia, todos sabem que é provável que Strauss-Kahn venha a ser o último europeu a dirigir o FMI, no futuro previsível.” 

Por sua vez, os europeus argumentam, sem corar, que ter um europeu na chefia do FMI na atual conjuntura é absolutamente necessário, no momento em que os 17 países da Eurozona lutam para fazer frente aos problemas financeiros de Portugal, Grécia, Espanha e Irlanda. 

Dentro dos BRICS, todos os olhos estão postos em China e Índia. (O Japão mantém-se estranhamente indiferente à disputa, apesar de controlar a segunda maior fatia.) China e Índia podem entender-se, apesar de terem interesses partilhados? Essa deveria ser a grande questão. Mas não é. O que se vê é que China e Índia fizeram mais barulho que o usual, mas nem uma nem outra estão fazendo coisa alguma para desafiar a candidatura Lagarde. 

Nem China nem Índia têm candidatos viáveis a oferecer ao FMI. Assim sendo, os dois países adotaram posição “de princípio”, para constar. Além desse ponto, não se vê nenhum tipo de ação coordenada entre ambas, nem qualquer sinal de que alguma das duas esteja inclinada a trabalhar a favor de um candidato de consenso. 

Interessante, mas nem Pequim nem Delhi marcaram, até agora, data para visita de Lagarde, para propor oficialmente sua candidatura. Pequim manteve silêncio sobre a declaração unilateral de Lagarde de que contaria com o apoio da China à sua candidatura. De fato, é tática esperta. China e Índia parecem estar-se preparando, depois de alguns dias de posar como superiores, para apoiar, sim, a candidatura Lagarde. Nos dois casos, haverá perda de prestígio e posição. Mas, afinal, China e Índia são escolados “realistas”. 

O Dragão chinês recolhe-se sem ruído... 
... e o Elefante indiano bate as patas 
[parágrafos não traduzidos, porque só fazem sentido para quem acompanhe a política interna de China e Índia]

Um coringa no baralho 

Depois da “defecção” da Rússia, que sequer se deu o trabalho de consultar seus BRICS parceiros; com Rússia, China, Índia e Brasil, que sequer se deram o trabalho de anotar que a África do Sul, também BRICS, apresentou, sim, um candidato; e, agora, depois de o Brasil já ter servido almoço à Lagarde, os BRICS cada dia mais parecem coringa no baralho com que o sistema internacional joga. 

Como as coisas chegaram a tão lamentável quadro? Com certeza não se trata de falta de candidatos qualificados. Basta considerar a lista impressionante de candidatos potenciais, das economias emergentes, todos perfeitamente qualificados para dirigir o FMI, tanto quanto Lagarde: 

  • Tharman Shanmugaratnam, ministro das Finanças de Cingapura e vice-primeiro ministro
  • Agustin Carstens, atual presidente do Banco Central do México
  • Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil
  • Sri Mulyani Indrawati, ex-ministro das Finanças da Indonésia
  • Trevor Manuel, ministro das Finanças da África do Sul. 

Assim sendo, qual é o problema? Tudo tem a ver com o que é o grupo BRICS – associação seletiva de alguns dos mais ambiciosos países do planeta, com interesses absolutamente diferentes uns dos outros, unidos por um único interesse comum, de garantir direito de assento à mesa principal da ordem política e econômica mundial. 

Teremos chegado ao fim da linha, para os BRICS? Não há dúvidas de que a luta pelo FMI deixou escoriações nos BRICS e abalou a credibilidade que tivessem. Nada garante que o grupo consiga recuperar a verve a tempo da reunião prevista para 2012, na Índia. Mas é provável que os membros ainda vejam vantagens táticas em manter-se num processo BRICS, mesmo que BRICS passe a ser só entidade de papel. 

De fato, o grupo BRICS continuará a servir como aprisco para a Rússia, enquanto continuar excluída do teto europeu comum. A China terá de usar o BRICS para ostentar simpatia e comunhão com os países em desenvolvimento, enquanto finge que é um deles. Os BRICS jamais foram mais que casa de passagem, onde a Índia abriga-se, vez ou outra, na longa estrada pela qual prossegue, tentando chegar ao clube dos ricos. E os BRICS permitem ao Brasil o conforto de afastar-se, vez ou outra, da sombra dos EUA no hemisfério ocidental. 

Lagarde diria, com sorriso de griffe: “Le Roi est mort, vive le Roi!” – “Morreu o rei, viva o rei”.