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segunda-feira, 4 de junho de 2012

OTAN-EUA: Neoconservadores e neoliberais - faces da mesma moeda


1/6/2012, Paul Rosenberg, Al-Jazeera, “Opinion”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Paul Rosemberg
San Pedro, CA – Com a fase de eleições gerais da eleição presidencial nos EUA em andamento, a recente reunião de cúpula da OTAN serve como potente sinal de alerta, para vermos que há bem pouca diferença entre os extremistas conservadores que dominaram a política exterior dos EUA no governo de George W Bush, e os neoliberais que mandam em praticamente todo o governo Obama.

Vejam-se, para começar, e sobretudo, as dúzias de soldados veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, que devolveram as medalhas que receberam em combate [1], numa ação de massa que fez lembrar a Operação Dewey Canyon III, em abril de 1971 [2], quando mais de mil membros da organização Veteranos do Vietnã Contra a Guerra mantiveram-se durante cinco dias, em marchas e manifestações ininterruptas contra a Guerra do Vietnã em Washington-DC, manifestações que incluíram uma cerimônia junto ao Túmulo do Soldado Desconhecido e outra, nos degraus do Capitólio, quando mais de 800 veteranos também devolveram as medalhas de combate.

Milhares de manifestantes foram a Chicago para protestar contra a Cúpula da OTAN

Na abertura do protesto, o sargento Alejandro Villatoro apresentou os demais veteranos:

“Agora, um por um, veteranos das guerras da OTAN subirão ao palco. Eles dirão por que decidiram devolver suas medalhas à OTAN. Não esperam novas homenagens. Querem apenas que ouçam o que eles têm a dizer. Em nenhuma outra cerimônia, vocês verão e ouvirão tantos dos que combateram nessas guerras, e que contam histórias de vida, da jornada entre guerrear guerras e passar a exigir paz. Muitos de nós matamos inocentes. Alguns de nós trabalharam, de casa, para que aquelas guerras continuassem. Alguns de nós vimos amigos morrerem. Alguns de nós não estão aqui, porque entre nós há muitos suicídios. Absolutamente não recebemos a atenção que os governos nos prometeram. Todos nós assistimos ao processo pelo qual políticas fracassadas levaram a um banho de sangue.”



Duas faces da mesma moeda

Como os veteranos da era Vietnã, esses veteranos contra a guerra encontram muito – embora nem sempre divulgado – eco na opinião pública nos EUA. Segundo a mais recente pesquisa divulgada [3], o apoio à Guerra do Afeganistão já está abaixo de 27%, com 66% que se declaram em oposição – nível semelhante ao de 1971, durante a Guerra do Vietnã, e 20% menor que o de há apenas dois anos. Mesmo assim, o presidente Obama assinou acordo de “segurança” por dez anos, com o presidente afegão Hamid Karzai, em recente visita surpresa ao Afeganistão. Não há nem vestígios de ação da al-Qaeda no Afeganistão, mas manter o envolvimento dos EUA com certeza servirá para criar mais e mais inimigos por lá, ainda por décadas.

Nada disso corresponde ao que a maioria dos eleitores esperavam que acontecesse. Em outubro de 2002, afinal de contas, Obama fez discurso antiguerra, não? Por isso, precisamente, muitos ativistas de movimentos populares garantiram a ele vantagem decisiva nas primárias do partido Democrata de 2008. Obama era o candidato em que o povo confiou para por fim às guerras de Bush e levar a nação para novo rumo. Mas bastou assumir o governo, e as políticas de Obama mostraram muito mais semelhanças e continuísmo, que mudanças, comparadas às políticas de Bush – padrão que só se tornou mais acentuado com o passar do tempo, como se viu claramente na reunião de Cúpula da OTAN, em Chicago.

Não implica que não haja diferenças significativas entre neoconservadores e neoliberais. Duas delas se destacam:

Primeiro, que os neoconservadores representam apenas um grupo, no caleidoscópio da ideologia conservadora, com foco e influência limitada, em grande parte, à política externa dos EUA. E os neoliberais, por sua vez, representam quadro muito mais integrado de interesses econômicos, militares, de política externa e de questões sociais, e vivem de aplicar seu tosco evangelho de fé em soluções de ‘livre-mercado’ a qualquer coisa que se mova.

Segundo, que os neoconservadores são gente espantosamente cruel, impulsiva, indisciplinada e perigosa que pode, facilmente, jogar o mundo em incontáveis desastres militares, enquanto os neoliberais são calmos, metódicos e bem educados; e muito mais eficazes na arte de empurrar o mundo para a desgraça e o desastre, em vez de, como os neoconservadores, mergulharem de cabeça. Essas diferenças de temperamento, também levam os neoliberais a serem mais multilateralistas.

Mas, no longo prazo, os resultados são tristemente parecidos. Para os aliados, os neoliberais talvez pareçam mais fáceis de lidar, porque mais agradáveis e menos imprevisíveis, mas, no final, são todos o mesmo império. Nem neoconservadores nem neoliberais têm qualquer intenção de enfrentar, de verdade, nem a evidência de que o império está declinante nem os evidentes danos que o império norte-americano provoca, para começar, à própria democracia nos EUA. E, se não se incomodam com isso, menos ainda se incomodam com danos que os EUA provoquem à democracia em terras longínquas.

Nem neoconservadores nem neoliberais têm ideia alguma de como construir economia sustentável, com prosperidade para todos.

Obama foi eleito à presidência, sobretudo, pela ilusão que se disseminou de que suas políticas não coincidiriam tão substancialmente com as políticas nas quais tanto confiavam os neoconservadores da era Bush; e de que Obama as repudiaria com firmeza.

Em vez disso, Obama deu jeito de “racionalizar” as políticas de Bush – em termos gerenciais e em termos de propaganda – e com muito mais eficácia do que Bush algum dia sonhou que fosse possível.

OK. Não se fala mais em “guerra global ao terror”, mas o conceito continua vivo e forte, mais inquestionável que antes, porque, agora, nem o nome se pode pronunciar. Sai a palavra “tortura”, e entram em cena o “assassinado predefinido” e o estranho verbo “dronar”, assassinar com aviões-robôs tripulados à distância, os drones. Torturar não pode; assassinar com premeditação, pode.

Mais dissidentes do que nunca foram e continuam a ser processados e condenados (ou só condenados), ou são investigados, com oposição popular muito menor do que a oposição que Bush encontrou.

Criminosos de guerra andam livremente pelo país, protegidos pela ordem de “olhar avante, não para trás”, enquanto suspeitos de vazarem informações confidenciais, como Bradley Manning, são processados por colaboração com o inimigo. Se Obama ainda fosse senador Democrata, talvez até se declarasse moralmente ultrajado.

A volta do Projeto para uma Nova América


Enquanto o foco é alterado, de “coturnos no solo” para “drones no céu” , os progressos da fantasia-delírio do escudo de mísseis de defesa à moda Guerra nas Estrelas da era Reagan mostram um Obama muito mais comprometido com o mesmo delírio, que o próprio Bush. Bush, afinal, só tratou de levar avante a missão neoconservadora de transformar o exército dos EUA em “força ágil, pós-moderna, de cibercombatentes”, o que os neoconservadores chamavam de “transformar as Forças Armadas dos EUA, para explorar a “Revolução nos Assuntos Militares” [orig. “revolution in military affair”, (RMD)] – uma das quatro “missões núcleo” identificadas no Projeto para uma Nova América [orig.Project for a New America] do documento “Reconstruindo as Defesas dos EUA” [orig. “Rebuilding America's Defenses”], de 2000 [4].

Aquele relatório citava dois aspectos definitórios da RMD: “defesas com mísseis globais” e “controle do espaço e do ciberespaço”. Mas a mudança para foco centralizado na tecnologia de informação – com uso da tecnologia de GPS da primeira Guerra do Golfo – teve efeitos dramáticos, que mudaram profundamente os planos de todos os braços das forças militares dos EUA.

Apesar de aquele documento ter sido subestimado quando surgiu, e de Bush ter-se revelado espantosamente incapaz de cumprir a primeira “missão núcleo” de “defender a pátria norte-americana”, em vários sentidos o documento “Reconstruindo as Defesas Norte-americanas” foi sinistramente profético do modo como os militares dos EUA responderam ao 11/9, apesar de aquele documento sequer mencionar terroristas, exceto a possibilidade de eles assumirem o controle das comunicações por satélite. A certa altura, o documento registra, com espantosa franqueza:

“Apesar de o conflito não resolvido com o Iraque servir como justificativa imediata, a necessidade de implantar e manter presença militar dos EUA no Golfo transcende a questão do governo de Saddam Hussein.” Adiante, dizia o mesmo documento: “O processo de transformação, ainda que traga mudança revolucionária, será provavelmente longo, se não houver algum evento catastrófico catalisador – como um nova Pearl Harbor.”

O 11/9 foi precisamente esse tal evento catalisador – e mesmo assim, quando tudo já estava dito e feito (e as torres gêmeas estavam derrubadas) para grande entusiasmo e euforia dos mesmos, os neoconservadores simplesmente não tiveram competência para fazer o que era esperado que fizessem.

Vale lembrar que as outras duas “missões núcleo” identificadas eram:

  • combater e vencer em múltiplos e simultâneos grandes teatros de guerra;
  • cumprir os deveres “de autoridade” [orig. constabulary] associados à modelagem do ambiente de segurança em regiões críticas.
Quanto ao primeiro, a impossibilidade de controlar impulsos agressivos, típica dos neoconservadores, não só os inspirou na direção de pensar em vários e simultâneos teatros de guerra, mas, também na prática, a invadirem o Iraque, deixando por acabar o ‘serviço’ no Afeganistão (e não só ‘por acabar’: principalmente, em estado de rápida deterioração) –, mais uma indicação da impotência dos neoconservadores para realizarem as próprias fantasias.

O firme compromisso de Obama com o multilateralismo despertou caretas – e pior que isso – na turba neoconservadora, mas, de fato, é modo mais realista e menos delirante de... combater (embora não de vencer) em vários teatros de guerra simultâneos.

Quanto ao segundo ponto, a eficiência neoliberal de Obama manifestou-se na maior atenção, mais extensa e mais invasiva, que dedica a cumprir o dever de “combater o terrorismo”, hoje combatido em número muito maior de países do que Bush e os neoconservadores jamais conseguiram. O que nos leva à recente reunião de Cúpula da OTAN e às simultâneas manifestações de “Não à OTAN” [orig. No NATO].

Escalada até a reunião da OTAN

Apesar de ser rotina que a empresa-imprensa nos EUA sempre reduza os números e a qualidade das manifestações de cidadãos, dessa vez as contradições e ‘desmentidos’ foram de fato mais abundantes do que nunca, confusão para a qual contribuíram também as autoridades, ao transferir para Camp David o encontro agendado do G8.

Em Maryland, a Cúpula dos Movimentos Populares Occupy G8 discutiu proposta econômica absolutamente diferente, que reflete a visão que se organiza “de baixo para cima”, dentro dos movimentos Occupy nos EUA, na Grécia, na Espanha, na Grã-Bretanha e no mundo árabe.

A visão dos “de baixo” pode até parecer utópica, mas cada um dos aspectos do moderno estado do bem-estar também teve seus dias de utopia: da educação universal às leis do salário mínimo e ao seguro-aposentadoria– e os mesmos aspectos continuam ainda ameaçados por elites que parecem dedicadas exclusivamente a acabar com aqueles direitos.

Neoliberais como Obama podem até opor-se a medidas extremistas de “austeridade” como as propostas no Orçamento Ryan (até Romney já admitiu que levariam a mais recessão), mas ainda que Obama seja reeleito com diferença estrondosa de votos, ele mesmo assim continuará a preferir alguma multimilionária “grande barganha”, a ter de defender os programas centrais do estado do bem-estar como Medicare, Medicaid e Social Security.


Chicago assistiu a uma muito ampla série de atividades que duraram a semana toda, [5] com especial destaque para uma manifestação liderada pelo Sindicato Nacional das Enfermeiras [orig. National Nurses Union, NNU] [6] que exige a criação de um imposto de 0,5% sobre transações financeiras, chamado “imposto Robin Hood”; e as já mencionadas marcha e manifestação contra a guerra liderada por membros da IVAW [orig. Iraq Veterans Against the War/Veteranos do Iraque contra a Guerra] [7] e Afegãos pela Paz [orig. Afghans for Peace]. Muitos membros do Sindicato Nacional das Enfermeiras foram às ruas vestindo calções vermelhos e chapéus verdes à Robin Hood.

Karen Higgins, co-presidenta do NNU, disse que as enfermeiras preferem que seu dinheiro de contribuintes seja usado para manter a assistência pública à Saúde, não ao aparelho de guerra. “Pagamos impostos sobre o que compramos. É hora de Wall Street começar a pagar o que devem ao resto do país. Por que não pagariam impostos sobre o que eles compram?” É imposto que há em vários países – e que existiu nos EUA de 1914 até 1966. Poderia arrecadar $350 bilhões por ano, segundo o Sindicato das Enfermeiras.

Medidas como essa poderiam, pelo menos, começar a nos repor de volta na trilha da estrutura de tributos que ajudou a gerar as décadas de robusto sucesso econômico dos primeiros anos do pós II Guerra Mundial, de 1946 até 1968.

Claro que não foram anos perfeitos, longe disso. As mulheres e as minorias tinham status limitado de cidadãos de segunda classe, no melhor dos casos. Mas aquela promessa de prosperidade partilhada entre todos não é fácil de esquecer, depois que se a antevê, mesmo que de longe. E se foi possível para praticamente todos o norte-americanos machos e brancos, por que não seria possível para todos?

Esse é o espectro que ronda os EUA – e o mundo – hoje. É problema ao qual nem os neoconservadores nem os neoliberais podem oferecer solução. E por isso, precisamente, as duas ideologias, a neoconservadora e a neoliberal, são ideologias fanadas e têm de ser derrotadas.





Notas de rodapé

[1] 21/5/2012, Democracy Now em: “No NATO, No War”: U.S. Veterans of Iraq and Afghanistan Return War Medals at NATO Summit (em inglês). Vídeo a seguir:


[2] Ver em:Vietnam Veterans Against the War(Wikipédia) (em inglês).

[3] 9/5/2012, Huffington Post, em: Support For War In Afghanistan Falls To New Low, Poll Shows(em inglês).
[4] 9/2000, New American Century; documento em: REBUILDING AMERICA’S DEFENSE (em inglês).
[5] 20/5/2012, Occupy Wall Street em: “#NoNATO So Far: Thousands Protest War and Austerity”.

[6] 19/5/2012, In These Times: Nurses Lead NATO Protest for “Robin Hood Tax” .

[7] 21/5/2012, Democracy Now, em: “U.S. Army Vets Join with Afghans for Peace to Lead Antiwar March at Chicago NATO Summit” (em inglês). Vídeo a seguir:



terça-feira, 22 de maio de 2012

Pepe Escobar: Guerra e “cheeseburgers”


22/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Um espectro ronda a Europa [1]. Não, não é o comunismo. São as agências norte-americanas de avaliação de risco. A Grécia está quebrada; a Eurozona está a ponto de rachar; o banco JP Morgan comete “erros” de bilhões de dólares; empregos, não há (nem futuro) para as novas gerações. E, mesmo assim, o braço armado do 0,1% das elites ocidentais ocupa Chicago – convertida em cidade-estado policial orweliana – para discutir uma “defesa inteligente” [orig. smart defense].

No Afeganistão, a “inteligente” Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prepara-se, de fato, para uma fuga humilhante. “Defesa inteligente” é palavra em código para “o dinheiro sumiu”. Só cinco, dos 28 estados-membros da OTAN gastam 2% dos respectivos PIBs com os militares – como quer a OTAN. Um desses era – surpresa! – a Grécia. Eis a trilha rumo ao desastre certo, para o neoliberalismo armado. Primeiro, a Grécia foi mais ou menos obrigada a comprar submarinos caríssimos, de franceses e alemães; depois, foi obrigada a fazer cortes no orçamento. É o plano de ajuda da OTAN: “food for subs”, vocês nos dão comida, nós lhes vendemos submarinos.

Os EUA pagam nada menos que 75% das contas da OTAN – mais uma demonstração cabal de que a OTAN é o braço europeu, armado, do Pentágono. Mas, em 2011, os membros da União Europeia (EU) gastaram nada menos que $180 bilhões, em Defesa. Agora, acabou. Ninguém mais tem dinheiro. Quer dizer: doravante, o Pentágono, sozinho, terá de manter a máquina em operação.

E mantê-la-á – com folga. Como esperado, ontem, domingo, na Chicago ocupada, a OTAN aprovou – melhor ainda: o presidente Barack Obama dos EUA e seus aliados “acabam de decidir” – dar prosseguimento à primeira das quatro fases do escudo norte-americano antimísseis para a Europa.

Na prática, significa um navio de guerra dos EUA armado com interceptores ancorado no Mediterrâneo; e um sistema de radar da OTAN, instalado na Turquia e controlado do quartel-general em Ramstein, na Alemanha. A vasta (e crescendo) base militar em Ramstein é comandada por um general norte-americano. Mas, segundo o jornal turco Zaman, haverá um general turco, lá, como subcomandante. É a cenoura que coube à Turquia, por ter feito campanha a favor de mudança de regime na Síria.

Cheeseburger na Russia
Os que acreditam no que a OTAN diz pelos veículos da imprensa-empresa – que o tal escudo nada tem a ver com a Rússia e é defesa contra os mísseis do Irã “do mal” – melhor fariam se se aliassem a Alice no País das Maravilhas. Para todos os objetivos práticos, o comandante do exército russo, general Nikolai Makarov, já disse que a Rússia responderá, com uma base de mísseis Iskander de curto-alcance em Kaliningrad, junto à fronteira com a Polônia. É fácil tirar a OTAN de dentro da Guerra Fria, mas ninguém tira a Guerra Fria de dentro da OTAN.

No ponto, nem mal-passado nem bem-passado, sem ketchup

Sobre o Afeganistão, o que a Casa Branca espalha pelos veículos da mídia-empresa é que Obama recomendou ao presidente afegão Hamid Karzai que “implemente a reforma eleitoral, ponha fim à corrupção e pressione os Talibã para um acordo”. É além de delírio desejante: acreditar que o sistema super corrompido de Karzai se “autorreformará” é como crer que a Casa de Saud seja amante da democracia jeffersoniana. Se houver qualquer coisa semelhante a “reforma eleitoral”, os aliados de Washington perderão, por muito tempo, todas as eleições que se inventem. E é o Talibã quem pode obrigar Karzai a fazer algum acordo, não o contrário.

Assim sendo, o que sobra, para salvar a civilização ocidental? Com batatas fritas à francesa, não à moda “liberdade”.

Dessa nova diplomacia cheeseburger, selada no Salão Oval, entre Obama e o novo presidente da França, François Hollande, espera-se que salve a Grécia, erga a Eurozona e dê nova partida, afinal, na economia dos EUA, bem a tempo para as eleições presidenciais de novembro nos EUA. Como é que os indômitos "Cinco", da cadeia EUA de búrgueres, não pensaram nisso antes?

Eis o cálculo de Obama:

Se o Republicano Mitt Romney for eleito em novembro, estaremos ainda mais ferrados do que estamos hoje. Preciso de empregos. Preciso de economia em recuperação. Preciso que os malditos europeus ponham ordem na casa. Não posso ficar sentado aqui, à espera de que eles resolvam o problema grego: tenho de vencer uma eleição!

Eis o cálculo de Hollande:

Minha eleição está vencida. Prometi empregos e crescimento. Agora, preciso de uma coalizão de vontades só minha – para o crescimento; ou seremos atropelados pela extrema direita, em todas as urnas. Mon Dieu, por que “Onxelá” – codinome, chanceler alemã Angela Merkel – não entende isso?

Para o duo franco-americano, é situação de ganha-ganha. A política econômica de Hollande é, de fato, a economia política do Obama Team. Com certeza já expuseram a (nova) lei a “Onxelá”, no plácido retiro de Camp David, no G-8 – protegidos das agruras do mundo real por um exército suficiente para executar qualquer mudança de qualquer regime em qualquer lugar, em cinco minutos. 


Problema é que, nem Barack, nem François avisaram o Deus do Mercado – nem os bancos europeus e norte-americanos – sobre seus projetos. Os Mestres do Universo não dão bola alguma para a Grécia, berço da democracia; querem é a grana deles, de volta.

Obama tem pressa. O atual Supremo Interventor italiano, Mario Monti – ex-Goldman Sachs – talvez tenha credibilidade de mercado, para convencer Berlim e a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional) de que, ou a Europa cresce, ou não haverá dinheiro para ninguém. Mas Obama também precisa de um aliado estratégico político. E, com certeza, não será “Onxelá”, a dominatrix da austeridade.

Filet mignon à iraniana
Prefiro um bife

O problema é que esses cheeseburgers estão encharcados de óleo. Petróleo iraniano. Obama faz-se de durão contra o Irã, essencialmente por razões eleitorais. Nos próximos cinco meses, bem poderia conseguir redirecionar o debate, não fossem os europeus que – obedecendo ordens suas, de fato – podem fazer valer o boicote contra o petróleo do Irã, a iniciar-se dia 1º de julho p.f.. Obama teme a consequência inevitável do boicote: os preços do petróleo, na estratosfera. Se isso acontecer, bye bye recuperação europeia, a ser seguido, claro, por bye bye reeleição de Obama. 

Isso é que torna ainda mais sumarenta a próxima rodada de conversações em Bagdá, essa semana, entre o Irã e as nações do P5+1. Do ponto de vista do Obama Team, o melhor cenário possível seria... Vamos concordar que temos de conversar um pouco mais.

Com isso, Obama ganharia uma janela pela qual pressionar – com a ajuda de Hollande – a favor da ideia de a Europa esquecer o boicote ao Irã, pelo menos enquanto prosseguirem as conversações entre as partes e, no mínimo, pelos próximos seis meses. Afinal, o pacote de sanções ultra debilitantes lá está e lá continua – e não há dúvidas de que está fazendo sofrer a população iraniana, muito mais do que a liderança em Teerã. 

A única coisa que importa ao Obama Team, acima de tudo no mundo, é garantir a vitória, dia 4/11. Essa diplomacia cheeseburger funcionará? Ou Mitt Romney contra-atacará, prometendo política de “nenhum bife abandonado na retaguarda”, com muito ketchup iraniano?




Nota dos tradutores
[1] É a frase de abertura do Manifesto Comunista  (1848), de Marx e Engels. Acesse o “link”, excelente tradução. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pepe Escobar: Chicago: “My kind of (OTAN) town”*


19/5/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera**
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A Conferência de Cúpula da OTAN em Chicago será crucial para identificar os participantes e suas estratégias de longo prazo.



Representantes de mais de 50 países são esperados na Conferência da OTAN-2012 em Chicago 

Hong Kong, China É cerco. Fechado. Um anel de aço. Um oceano de policiais de Chicago. O Serviço Secreto. A Guarda Nacional. Quarteirões bloqueados. Cercas de arame farpado. Barreiras de concreto. Uniformes de controle de tumultos (e mais). O prefeito Rahm Emanuel – ex-secretário-geral da Casa Branca e confidente do presidente Obama – demarcou “áreas estratégicas” na cidade. E há “equipes de extração” super preparadas para extrair manifestantes-alvos de onde estejam, em ambiente de “conflito de baixa intensidade”. 

E, também, importantíssimo, o LRAD (equipamento acústico de longo alcance) – um canhão de som mais letal que os Metallica em noite ruim, para garantir que “mensagem clara chegue a grandes massas”, segundo o Departamento de Polícia de Chicago. O caminhão LRAD pode ser visto e ouvido no vídeo abaixo:


O que é isso? Bagdá na “avançada” [surge]? Remake de “Os Irmãos Cara de Pau”, estrelando, o fantasma de John Belushi e Obama, de Aretha Franklin (ou James Brown)?

Não. É a OTAN ocupando Chicago para a 25ª Conferência. Como diria o presidente Obama: que ninguém se engane. “Estamos em Missão Divina”.

Impensavelmente pensável

Não imune às extrapolações do “conflito de baixa intensidade”, o governo Obama transferiu a reunião do G-8 – que está acontecendo antes da reunião da OTAN – de Chicago para a isolada Camp David. Mesmo assim, haverá protestos. Talvez haja sangue. Porque há ampla consciência, nos EUA [1], de que o G-8 e a OTAN – duas “cúpulas” jamais eleitas e desobrigadas de dar satisfações aos contribuintes – são instrumentos que servem, essencialmente, aos 0,1%.


A Conferência de Chicago ampliará o “Conceito Estratégico” que a OTAN adotou na reunião de Lisboa, em novembro de 2010.

É importante identificar os atores que operam nas coxias. O “conceito” foi concebido por um seleto grupo de sábios (e uma sábia), co-presidido pela ex-secretária de Estado dos EUA Madeleine Albright e Jeroen van der Veer, presidente da empresa Royal Dutch Shell até junho de 2009.

É a tal simbiose ocidentalocêntrica de empresas/militares/petróleo.

Antes de anunciado esse conceito de OTAN para o Terceiro Milênio, o presidente da empresa Lloyd's de Londres, ex-diretor da gigante francesa de energia, Total, Lord Levene of Portsoken, com o secretário-geral da OTAN Anders Fogh Rasmussen, caracterizaram a coisa toda como “nova abordagem do gerenciamento de risco”.

Sim, acrescentou Lord Levene, “temos de estar preparados para pensar o impensável” [2].

O “impensável”, segundo a empresa Lloyd's, foi codificado num programa “360 Risk Insight” [360 insights de riscos] e em “Realistic Disaster Scenarios” [Cenários Realistas de Desastres], enquanto a OTAN inventava um projeto “Multiple Futures” [Múltiplos Futuros].

O mundo, pois, pode suspirar aliviado: finalmente, o “impensável” tornou-se pensável, cortesia da empresa Royal Dutch Shell e porção sortida de gente do Big Oil: gigantes do mercado de seguros, como a Lloyd's; a News Corporation de Rupert Murdoch, notoriamente altruísta; marcas de fantasia do mercenariato como DynCorp e Academi (ex-Blackwater); a menina dos olhos de Dick Cheney, Kellogg Brown & Root (KBR); e Halliburton – e, claro, claro, a OTAN.

Pepe Escobar
Permitam-me bombardeá-los com meus valores

A OTAN veio à luz em 1949, como contragolpe, dos EUA contra a Rússia, no tabuleiro de xadrez europeu. A União Soviética implodiu há 21 anos. Mas a OTAN – como os diamantes de James Bond – é eterna. A secretária de estado dos EUA Hillary Clinton já está pensando sobre o século 22.

Mês passado, num convescote Pentágono/OTAN em Norfolk, Virginia, Hillary destacou que o encontro de Chicago “reconhecerá oficialmente as contribuições operacionais, financeiras e políticas de nossos parceiros, numa vasta gama de esforços para defender nossos valores comuns nos Bálcãs, Afeganistão, Oriente Médio e Norte da África[3].

O currículo da tal “defesa” dos tais “valores comuns” não é lá essas coisas. Depois passar décadas borrando as botas ante o perigo de ser varrido do mapa pelo Exército Vermelho, a OTAN lutou sua primeira guerra na Europa em 1999 – 78 dias de bombardeio unilateral contra a Yugoslávia. Digamos que tenha vencido.

Depois, a OTAN pôs-se a defender o ocidente na intersecção da Ásia Central-Sul da Ásia: no Afeganistão. Passados 11 pantânicos anos, foi indiscutivelmente derrotada por um bando de pashtuns nacionalistas armados com Kalashnikovs e lança-rojões.

Em seguida, lá está a OTAN a bombardear “nossos valores” comuns contra o norte da África, em sua primeira guerra no continente: na Líbia. Não obteve, propriamente dita, vitória alguma: a Líbia está convertida num paraíso para islamistas racistas hardcore, misturado com um inferno de milícias, já devidamente exportado para desgraçados vizinhos, como o Mali.

E a OTAN recusa-se a reconhecer que assassinou muitos milhares de civis na Líbia, naquela missão de R2P – responsabilidade de proteger... civis [4].

Ainda do ponto de vista do Conceito Estratégico, o que interessa é que a OTAN está próxima de fazer do Mar Mediterrâneo um Mare Nostrum remixed, um lago da OTAN (embora ainda haja aquela questão na Síria, a ser resolvida); e está, por toda parte, patrulhando o Mar da Arábia.

Vamos lá, parceiro!

A própria OTAN apresenta Chicago [5] como fórum sobre três principais questões: o “compromisso com o Afeganistão”; “capacidades” para defender a população e o território afegãos” (mesmo que signifique bombardear ou ocupar partes da Ásia Central e da África), tudo isso amarrado sob o título “desafios do século 21”; e a “rede de parceiros em todo o mundo”.

As parcerias da OTAN são como Hidra de muitas cabeças: Parceria pela Paz; Diálogo Mediterrâneo; Iniciativa Istambul de Cooperação; a Força Kosovo; a Operação Escudo Oceânico (no Chifre da África); a Operação Protetor Unificado (na Líbia); a Operação Missão Ativa (no Mediterrâneo), e, até, um gambito no Pacífico: Malásia, Mongólia, Cingapura, Coreia do Sul e Tonga são parceiros da OTAN na “parceria” “Países que fornecem soldados” no Afeganistão.

E há a gargantuesca “Parceria Menu de Cooperação” (com mais de 1.600 possibilidades); o Conselho Rússia-OTAN [Russian-OTAN Council (RNC)]; e algum impulso para arranjar algum tipo de parceria com os países BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – tudo em nome da “segurança num nível global”. Os BRICS não estão exatamente muito entusiasmados.

Elizabeth Sherwood-Randall, diretora de Assuntos Europeus do Conselho Nacional de Segurança [orig. National Security Council (NSC)], e ex-vice-secretária para Rússia, Ucrânia e Eurásia em meados dos anos 1990s, justifica esse emaranhado [6] de “parcerias”, pela necessidade de a OTAN ser “mais mobilizável e deslocável”. Em OTANlíngua: a necessidade de “aumentar a interoperabilidade” da OTAN.

Nada menos que 50 nação são interoperáveis-enredadas no Afeganistão. O Iraque será inevitavelmente anexado à Iniciativa Istambul de Cooperação. A Líbia cairá dentro do Diálogo Mediterrâneo. E o mesmo acontecerá à Síria (mas só depois de o regime sofrer “mudança”).

É o Conceito Estratégico na prática: a expansão da OTAN inflada ao infinito. O plano é construir uma “teia de relacionamentos em volta do mundo”.

Sem surpreender ninguém, esse foi o coração da matéria num grande encontro mês passado, no cavernoso quartel-general da OTAN em Mons, perto de Bruxelas. Imaginem os chefes militares dos 28 estados-membros da OTAN, plus os chefes dos departamentos de Defesa de 22 países não membros da OTAN que mantêm soldados no Afeganistão – o que inclui todo mundo, de Armênia, Bahrain e Geórgia, a Jordânia, Mongólia e Emirados Árabes Unidos.

Bem-vindos à OTAN-Globocop. Esqueçam a ONU. E se você for um dos muitos pequenos parceiros da OTAN, cuidado com o que pedem em troca da parceria. Mais cedo ou mais tarde, o Pentágono e a OTAN – afinal, a OTAN é o braço europeu do Pentágono – vai querer pôr uma base militar em seu país. E o complexo industrial-militar ocidental fará qualquer matança para vender a você todo o tipo de armamento complicado, caro e inútil. 

Defesa? Qual o quê! ‘Tava só brincando!

Rasmussen já disse que, em Chicago, a OTAN anunciará que o sistema europeu conjunto EUA-OTAN de interceptação de mísseis já tem “capacidade operacional inicial”. Negócio fabuloso, aliás, para Boeing, Lockheed Martin e Raytheon.

Sherwood-Randall acrescentou que se trata de mísseis de defesa da OTAN “baseado na habilidade para empregar elementos dos EUA sob comando da OTAN”. Tradução: se alguém precisasse disso. Nada significaria, não fosse a pegada do Pentágono (sobretudo, na África, onde o AFRICOM já combateu sua primeira guerra, na Líbia, com um fogo de barragem de Tomahawks, antes de o comando ter passado para a OTAN).

A OTAN distribuiu pela mídia a ideia de que se trataria de “sistema de defesa” da Europa contra os mísseis balísticos transcontinentais da Coreia do Norte ou do Irã. Nada disso. O sistema será incorporado à capacidade do Pentágono para “primeiro ataque”. A inteligência russa sabe muito bem quem está no olho do alvo real.

O tenente-general da reserva Evgeny Buzhinsky, citado por Voice of Russia, pergunta: “Por que gastar centenas de bilhões de dólares, só para interceptar três ou quatro mísseis iranianos? E por que o Irã atacaria a Europa, se 70% de seu comércio externo depende da União Europeia?”

Mas nem todos os alvos da OTAN são definidos com vistas a construir um cerco estratégico em volta da Rússia [7]. Trata-se também de entrar, de corpo inteiro, na Guerra dos Drones. Já flertam com mais uma intervenção “humanitária” – na Síria ou, muito mais fácil, no Mali. O Pentágono gastará apenas $4 bilhões, para modernizar o arsenal nuclear tático instalado na Europa. E há também a batalha, crucial, para controlar o Ártico.

Globocop avança, em alta rotação. Hoje Chicago, amanhã as estrelas. Não há blues de Buddy Guy que dê conta. A canção-tema da OTAN é Over the Rainbow  [8].



Notas dos tradutores

*My Kind of Town é canção de Jimmy Van Heusen/Sammy Cahn, para a trilha sonora de um filme musical, Robin and the 7 Hoods, de 1964. Foi indicado ao Oscar de melhor canção original naquele ano (perdeu para Chim Chim Cher-ee, de Mary Poppins). Pode-se ouvir, a seguir, numa das muitas gravações de Frank Sinatra:

**Versão mais curta e traduzida deste artigo, sem as Notas de rodapé, foi publicada em Asia Times Online, 20/5/2012, em: Pepe Escobar: “OTAN ocupa ‘sweet home’ Chicago*

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Notas de rodapé:





[5] Ver em: NATO’s 25th summit meeting



[8] 1939, de Harold Arlen/E.Y. Harburg, cantada por Judy Garland no filme “O mágico de Oz”. Em 2003, cantada por Luiza Possi, foi incorporada à trilha da novela “Chocolate com Pimenta”, da Globo, Br. A seguir uma versão caseira dos Beatles, de 1963. E por aí vai.

domingo, 20 de maio de 2012

Carta aberta aos nossos camaradas de Chicago


De: OccupyWallSt e 3 anonymousOWSOccupiers (em Chicago)
Data: 20/5/2012, COMMUNIQUÉ #246 An Open Letter to Our Comrades
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Polícia de Chicago ataca manifestantes contra 2012 NATO Summit
Na véspera do início desse festim dos hipócritas cabais, também citado como “2012 NATO Summit” [Conferência OTAN 2012], o povo de Chicago sofreu grave injustiça nas mãos da polícia do estado.

Dia 19/5, as forças da Polícia de Chicago atacaram com violência, com brutalidade, nossos corpos e nossos direitos. Uma força policial absurdamente gigantesca foi empregada para intimidar e provocar uma assembleia pacífica, em ataque militar descabido, contra ativistas que se manifestavam contra a OTAN, do qual resultaram vários feridos graves – narizes quebrados, olhos feridos, e um incidente particularmente inadmissível e nauseante, no qual um camarada e militante dedicado foi violentamente atropelado por um dos carros de guerra da polícia.

Condenamos indignados esses ataques covardes inaceitáveis. Sabemos que as pessoas começam a acordar do sonho de liberdade falsificada, numa nação que se mostra hoje nas ruas, encarnada num novo estado policial que esmaga qualquer voz discordante e defende as máquinas de guerra da violência internacional e do capitlaismo global, em vez dos seres humanos que finge representar e defender.

Mas já não é tão fácil enganar. Cada dia, menos norte-americanos deixam-se ludibriar por essas táticas.

As ações do Departamento de Polícia de Chicago, ontem à noite, foram executadas segundo um plano deliberado de provocação, para gerar medo entre os manifestantes do nosso coletivo, nos intimidando para nos fazer recuar. É tática policial usada para nos afastar no nosso foco e nos prender numa espiral de violência, recuo e negativismo.

Temos de resistir a essas emoções, porque perdemos nossa autonomia se agirmos por reação à ação deles, seguindo o roteiro que eles conceberam para nós, fazendo o que o braço armado da repressão do estado nos empurre a fazer.

É importante nos mantermos sérios e organizados, para não cairmos na armadilha deles. O que eles querem é nos forçar a responder à violência deles.

Todos sabemos que o ataque militar contra a população de Chicago nada é além de tentativa alucinada para que, depois, tenham o que dizer, tentando justificar a quantia astronômica de dinheiro público que foi desperdiçada para por nas ruas esse número exorbitante de policiais, todo o aparato de supervigilância e a invasão ilegal e imoral das nossas casas e casas de nossos familiares; para isso serve também o medo orwelliano que a mídia-empresa-fantoche trabalha para disseminar.

Não nos deixaremos arrastar para um estado de fúria desorganizada, porque já entendemos que isso, exatamente, é o que mais interessa à polícia que ocupa as ruas, e que deseja nos manipular. Nada temos a ganhar – e temos muito a perder – se cairmos na arapuca barata e previsível que armaram para nós. Se não mais obedecemos, subjugados, às ordens da autoridade, não conseguirão nos fazer agir como eles agem.

Essa convergência nacional é oportunidade muito, muito rara, para unir todos os ativistas de todos os grupos, numa grande frente unificada de resistência, diferente de tudo que esse país já viu, há mais de uma década.

Amanhã, voltamos às ruas com o coração altivo, engrandecidos como sobreviventes da terrível violência e da injustiça que sofremos, nós e nossos camaradas, nas ruas dessa cidade que é nossa. Não nos deixaremos tomar por emoções que toldam nossa capacidade de pensar e de nos organizar.

Reconhecemos a tentativa de coerção como mais uma manifestação de uma violência sistêmica, e nos manteremos autônomos, como indivíduos que não obedecem ordens do poder violento, explícitas ou implícitas. Sabemos canalizar nossa ira, nossa dor, nossa compaixão, nosso desespero, nossa paixão, na luta por um mundo melhor, em que possamos falar e agir sem sermos oprimidos.

Camaradas,

é hora de respirar juntos, bem fundo. Cuidar dos feridos e das feridas e, depois, voltar aos nossos postos, para tomar decisões táticas que resultem de escolhas livres e autônomas, não ditadas pela Polícia.

Cuidem todos cada um da própria segurança e da segurança dos próximos, organizem grupos pequenos, todos em contatos entre si, por afinidade ou por grupos de conhecidos.

Mantenham a calma. Lembrem todos de por que decidimos viajar a Chicago – para resistir contra uma máquina de guerra que age nas sombras, sem transparência, sem prestar contas a ninguém, como se o povo que dizem defender e representar não existisse. E para dizer aos canhões que queremos um mundo sem guerra, sem opressão e sem desigualdade.

Solidarity forever.

Anonymous
#OCCUPYWALLSTREET
#NONATO
#NATOSOLIDARITY
#NATO3