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segunda-feira, 4 de junho de 2012

OTAN-EUA: Neoconservadores e neoliberais - faces da mesma moeda


1/6/2012, Paul Rosenberg, Al-Jazeera, “Opinion”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Paul Rosemberg
San Pedro, CA – Com a fase de eleições gerais da eleição presidencial nos EUA em andamento, a recente reunião de cúpula da OTAN serve como potente sinal de alerta, para vermos que há bem pouca diferença entre os extremistas conservadores que dominaram a política exterior dos EUA no governo de George W Bush, e os neoliberais que mandam em praticamente todo o governo Obama.

Vejam-se, para começar, e sobretudo, as dúzias de soldados veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, que devolveram as medalhas que receberam em combate [1], numa ação de massa que fez lembrar a Operação Dewey Canyon III, em abril de 1971 [2], quando mais de mil membros da organização Veteranos do Vietnã Contra a Guerra mantiveram-se durante cinco dias, em marchas e manifestações ininterruptas contra a Guerra do Vietnã em Washington-DC, manifestações que incluíram uma cerimônia junto ao Túmulo do Soldado Desconhecido e outra, nos degraus do Capitólio, quando mais de 800 veteranos também devolveram as medalhas de combate.

Milhares de manifestantes foram a Chicago para protestar contra a Cúpula da OTAN

Na abertura do protesto, o sargento Alejandro Villatoro apresentou os demais veteranos:

“Agora, um por um, veteranos das guerras da OTAN subirão ao palco. Eles dirão por que decidiram devolver suas medalhas à OTAN. Não esperam novas homenagens. Querem apenas que ouçam o que eles têm a dizer. Em nenhuma outra cerimônia, vocês verão e ouvirão tantos dos que combateram nessas guerras, e que contam histórias de vida, da jornada entre guerrear guerras e passar a exigir paz. Muitos de nós matamos inocentes. Alguns de nós trabalharam, de casa, para que aquelas guerras continuassem. Alguns de nós vimos amigos morrerem. Alguns de nós não estão aqui, porque entre nós há muitos suicídios. Absolutamente não recebemos a atenção que os governos nos prometeram. Todos nós assistimos ao processo pelo qual políticas fracassadas levaram a um banho de sangue.”



Duas faces da mesma moeda

Como os veteranos da era Vietnã, esses veteranos contra a guerra encontram muito – embora nem sempre divulgado – eco na opinião pública nos EUA. Segundo a mais recente pesquisa divulgada [3], o apoio à Guerra do Afeganistão já está abaixo de 27%, com 66% que se declaram em oposição – nível semelhante ao de 1971, durante a Guerra do Vietnã, e 20% menor que o de há apenas dois anos. Mesmo assim, o presidente Obama assinou acordo de “segurança” por dez anos, com o presidente afegão Hamid Karzai, em recente visita surpresa ao Afeganistão. Não há nem vestígios de ação da al-Qaeda no Afeganistão, mas manter o envolvimento dos EUA com certeza servirá para criar mais e mais inimigos por lá, ainda por décadas.

Nada disso corresponde ao que a maioria dos eleitores esperavam que acontecesse. Em outubro de 2002, afinal de contas, Obama fez discurso antiguerra, não? Por isso, precisamente, muitos ativistas de movimentos populares garantiram a ele vantagem decisiva nas primárias do partido Democrata de 2008. Obama era o candidato em que o povo confiou para por fim às guerras de Bush e levar a nação para novo rumo. Mas bastou assumir o governo, e as políticas de Obama mostraram muito mais semelhanças e continuísmo, que mudanças, comparadas às políticas de Bush – padrão que só se tornou mais acentuado com o passar do tempo, como se viu claramente na reunião de Cúpula da OTAN, em Chicago.

Não implica que não haja diferenças significativas entre neoconservadores e neoliberais. Duas delas se destacam:

Primeiro, que os neoconservadores representam apenas um grupo, no caleidoscópio da ideologia conservadora, com foco e influência limitada, em grande parte, à política externa dos EUA. E os neoliberais, por sua vez, representam quadro muito mais integrado de interesses econômicos, militares, de política externa e de questões sociais, e vivem de aplicar seu tosco evangelho de fé em soluções de ‘livre-mercado’ a qualquer coisa que se mova.

Segundo, que os neoconservadores são gente espantosamente cruel, impulsiva, indisciplinada e perigosa que pode, facilmente, jogar o mundo em incontáveis desastres militares, enquanto os neoliberais são calmos, metódicos e bem educados; e muito mais eficazes na arte de empurrar o mundo para a desgraça e o desastre, em vez de, como os neoconservadores, mergulharem de cabeça. Essas diferenças de temperamento, também levam os neoliberais a serem mais multilateralistas.

Mas, no longo prazo, os resultados são tristemente parecidos. Para os aliados, os neoliberais talvez pareçam mais fáceis de lidar, porque mais agradáveis e menos imprevisíveis, mas, no final, são todos o mesmo império. Nem neoconservadores nem neoliberais têm qualquer intenção de enfrentar, de verdade, nem a evidência de que o império está declinante nem os evidentes danos que o império norte-americano provoca, para começar, à própria democracia nos EUA. E, se não se incomodam com isso, menos ainda se incomodam com danos que os EUA provoquem à democracia em terras longínquas.

Nem neoconservadores nem neoliberais têm ideia alguma de como construir economia sustentável, com prosperidade para todos.

Obama foi eleito à presidência, sobretudo, pela ilusão que se disseminou de que suas políticas não coincidiriam tão substancialmente com as políticas nas quais tanto confiavam os neoconservadores da era Bush; e de que Obama as repudiaria com firmeza.

Em vez disso, Obama deu jeito de “racionalizar” as políticas de Bush – em termos gerenciais e em termos de propaganda – e com muito mais eficácia do que Bush algum dia sonhou que fosse possível.

OK. Não se fala mais em “guerra global ao terror”, mas o conceito continua vivo e forte, mais inquestionável que antes, porque, agora, nem o nome se pode pronunciar. Sai a palavra “tortura”, e entram em cena o “assassinado predefinido” e o estranho verbo “dronar”, assassinar com aviões-robôs tripulados à distância, os drones. Torturar não pode; assassinar com premeditação, pode.

Mais dissidentes do que nunca foram e continuam a ser processados e condenados (ou só condenados), ou são investigados, com oposição popular muito menor do que a oposição que Bush encontrou.

Criminosos de guerra andam livremente pelo país, protegidos pela ordem de “olhar avante, não para trás”, enquanto suspeitos de vazarem informações confidenciais, como Bradley Manning, são processados por colaboração com o inimigo. Se Obama ainda fosse senador Democrata, talvez até se declarasse moralmente ultrajado.

A volta do Projeto para uma Nova América


Enquanto o foco é alterado, de “coturnos no solo” para “drones no céu” , os progressos da fantasia-delírio do escudo de mísseis de defesa à moda Guerra nas Estrelas da era Reagan mostram um Obama muito mais comprometido com o mesmo delírio, que o próprio Bush. Bush, afinal, só tratou de levar avante a missão neoconservadora de transformar o exército dos EUA em “força ágil, pós-moderna, de cibercombatentes”, o que os neoconservadores chamavam de “transformar as Forças Armadas dos EUA, para explorar a “Revolução nos Assuntos Militares” [orig. “revolution in military affair”, (RMD)] – uma das quatro “missões núcleo” identificadas no Projeto para uma Nova América [orig.Project for a New America] do documento “Reconstruindo as Defesas dos EUA” [orig. “Rebuilding America's Defenses”], de 2000 [4].

Aquele relatório citava dois aspectos definitórios da RMD: “defesas com mísseis globais” e “controle do espaço e do ciberespaço”. Mas a mudança para foco centralizado na tecnologia de informação – com uso da tecnologia de GPS da primeira Guerra do Golfo – teve efeitos dramáticos, que mudaram profundamente os planos de todos os braços das forças militares dos EUA.

Apesar de aquele documento ter sido subestimado quando surgiu, e de Bush ter-se revelado espantosamente incapaz de cumprir a primeira “missão núcleo” de “defender a pátria norte-americana”, em vários sentidos o documento “Reconstruindo as Defesas Norte-americanas” foi sinistramente profético do modo como os militares dos EUA responderam ao 11/9, apesar de aquele documento sequer mencionar terroristas, exceto a possibilidade de eles assumirem o controle das comunicações por satélite. A certa altura, o documento registra, com espantosa franqueza:

“Apesar de o conflito não resolvido com o Iraque servir como justificativa imediata, a necessidade de implantar e manter presença militar dos EUA no Golfo transcende a questão do governo de Saddam Hussein.” Adiante, dizia o mesmo documento: “O processo de transformação, ainda que traga mudança revolucionária, será provavelmente longo, se não houver algum evento catastrófico catalisador – como um nova Pearl Harbor.”

O 11/9 foi precisamente esse tal evento catalisador – e mesmo assim, quando tudo já estava dito e feito (e as torres gêmeas estavam derrubadas) para grande entusiasmo e euforia dos mesmos, os neoconservadores simplesmente não tiveram competência para fazer o que era esperado que fizessem.

Vale lembrar que as outras duas “missões núcleo” identificadas eram:

  • combater e vencer em múltiplos e simultâneos grandes teatros de guerra;
  • cumprir os deveres “de autoridade” [orig. constabulary] associados à modelagem do ambiente de segurança em regiões críticas.
Quanto ao primeiro, a impossibilidade de controlar impulsos agressivos, típica dos neoconservadores, não só os inspirou na direção de pensar em vários e simultâneos teatros de guerra, mas, também na prática, a invadirem o Iraque, deixando por acabar o ‘serviço’ no Afeganistão (e não só ‘por acabar’: principalmente, em estado de rápida deterioração) –, mais uma indicação da impotência dos neoconservadores para realizarem as próprias fantasias.

O firme compromisso de Obama com o multilateralismo despertou caretas – e pior que isso – na turba neoconservadora, mas, de fato, é modo mais realista e menos delirante de... combater (embora não de vencer) em vários teatros de guerra simultâneos.

Quanto ao segundo ponto, a eficiência neoliberal de Obama manifestou-se na maior atenção, mais extensa e mais invasiva, que dedica a cumprir o dever de “combater o terrorismo”, hoje combatido em número muito maior de países do que Bush e os neoconservadores jamais conseguiram. O que nos leva à recente reunião de Cúpula da OTAN e às simultâneas manifestações de “Não à OTAN” [orig. No NATO].

Escalada até a reunião da OTAN

Apesar de ser rotina que a empresa-imprensa nos EUA sempre reduza os números e a qualidade das manifestações de cidadãos, dessa vez as contradições e ‘desmentidos’ foram de fato mais abundantes do que nunca, confusão para a qual contribuíram também as autoridades, ao transferir para Camp David o encontro agendado do G8.

Em Maryland, a Cúpula dos Movimentos Populares Occupy G8 discutiu proposta econômica absolutamente diferente, que reflete a visão que se organiza “de baixo para cima”, dentro dos movimentos Occupy nos EUA, na Grécia, na Espanha, na Grã-Bretanha e no mundo árabe.

A visão dos “de baixo” pode até parecer utópica, mas cada um dos aspectos do moderno estado do bem-estar também teve seus dias de utopia: da educação universal às leis do salário mínimo e ao seguro-aposentadoria– e os mesmos aspectos continuam ainda ameaçados por elites que parecem dedicadas exclusivamente a acabar com aqueles direitos.

Neoliberais como Obama podem até opor-se a medidas extremistas de “austeridade” como as propostas no Orçamento Ryan (até Romney já admitiu que levariam a mais recessão), mas ainda que Obama seja reeleito com diferença estrondosa de votos, ele mesmo assim continuará a preferir alguma multimilionária “grande barganha”, a ter de defender os programas centrais do estado do bem-estar como Medicare, Medicaid e Social Security.


Chicago assistiu a uma muito ampla série de atividades que duraram a semana toda, [5] com especial destaque para uma manifestação liderada pelo Sindicato Nacional das Enfermeiras [orig. National Nurses Union, NNU] [6] que exige a criação de um imposto de 0,5% sobre transações financeiras, chamado “imposto Robin Hood”; e as já mencionadas marcha e manifestação contra a guerra liderada por membros da IVAW [orig. Iraq Veterans Against the War/Veteranos do Iraque contra a Guerra] [7] e Afegãos pela Paz [orig. Afghans for Peace]. Muitos membros do Sindicato Nacional das Enfermeiras foram às ruas vestindo calções vermelhos e chapéus verdes à Robin Hood.

Karen Higgins, co-presidenta do NNU, disse que as enfermeiras preferem que seu dinheiro de contribuintes seja usado para manter a assistência pública à Saúde, não ao aparelho de guerra. “Pagamos impostos sobre o que compramos. É hora de Wall Street começar a pagar o que devem ao resto do país. Por que não pagariam impostos sobre o que eles compram?” É imposto que há em vários países – e que existiu nos EUA de 1914 até 1966. Poderia arrecadar $350 bilhões por ano, segundo o Sindicato das Enfermeiras.

Medidas como essa poderiam, pelo menos, começar a nos repor de volta na trilha da estrutura de tributos que ajudou a gerar as décadas de robusto sucesso econômico dos primeiros anos do pós II Guerra Mundial, de 1946 até 1968.

Claro que não foram anos perfeitos, longe disso. As mulheres e as minorias tinham status limitado de cidadãos de segunda classe, no melhor dos casos. Mas aquela promessa de prosperidade partilhada entre todos não é fácil de esquecer, depois que se a antevê, mesmo que de longe. E se foi possível para praticamente todos o norte-americanos machos e brancos, por que não seria possível para todos?

Esse é o espectro que ronda os EUA – e o mundo – hoje. É problema ao qual nem os neoconservadores nem os neoliberais podem oferecer solução. E por isso, precisamente, as duas ideologias, a neoconservadora e a neoliberal, são ideologias fanadas e têm de ser derrotadas.





Notas de rodapé

[1] 21/5/2012, Democracy Now em: “No NATO, No War”: U.S. Veterans of Iraq and Afghanistan Return War Medals at NATO Summit (em inglês). Vídeo a seguir:


[2] Ver em:Vietnam Veterans Against the War(Wikipédia) (em inglês).

[3] 9/5/2012, Huffington Post, em: Support For War In Afghanistan Falls To New Low, Poll Shows(em inglês).
[4] 9/2000, New American Century; documento em: REBUILDING AMERICA’S DEFENSE (em inglês).
[5] 20/5/2012, Occupy Wall Street em: “#NoNATO So Far: Thousands Protest War and Austerity”.

[6] 19/5/2012, In These Times: Nurses Lead NATO Protest for “Robin Hood Tax” .

[7] 21/5/2012, Democracy Now, em: “U.S. Army Vets Join with Afghans for Peace to Lead Antiwar March at Chicago NATO Summit” (em inglês). Vídeo a seguir:



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quem é quem no banquete da OTAN


17/5/2012, M K Bhadrakumar*,  Asia Times Online
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu



Nota do pessoal da Vila Vudu e da redecastorphoto

Hoje, 17/5/2012, um influente blog de soldados veteranos norte-americanos sobreviventes das guerras da OTAN-EUA, publica editorial intitulado Veterans For Peace exigem o fim da OTAN, onde se lê:

“Depois de fazer guerras de agressão na Yugoslávia, no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, a OTAN permanece no Afeganistão, ilegalmente e imoralmente, para nenhum objetivo conhecido. O povo dos EUA, das demais nações que fornecem soldados à OTAN e do próprio Afeganistão, exige a saída da OTAN do Afeganistão, enquanto os presidentes Obama e Karzai, contra o desejo manifesto dos povos, trabalham para manter soldados dos EUA-OTAN no Afeganistão por, no mínimo, os próximos 12 anos e meio. (...)

A matança e a destruição da Líbia, pela qual EUA-OTAN são responsáveis, foram ilegais, imorais e contraproducentes, tanto quanto o é a agressão da OTAN ao Afeganistão. As guerras da OTAN não levaram democracia, paz ou direitos humanos a lugar algum do planeta. (...) A Líbia tampouco é modelo para futuras ações da OTAN.

Não há nem pode haver modelo para futuras ações da OTAN. A OTAN perdeu sua razão de ser.

Os Veterans For Peace unem-se aos nossos irmãos e irmãs na Europa e em todo o mundo, que se mobilizam em manifestações pacíficas para exigir o imediato desmonte da OTAN.”

No mesmo dia, o jornal O Estado de S.Paulo publica, requentado do New York Times, artigo do secretário-geral da OTAN, É imperativo armar a OTAN, no qual o muito sinistro Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN, pede dinheiro ao mundo para armar ainda mais a OTAN.

Em linguajar cifrado-sinistro, para engambelamento da opinião pública – que o sinistro O Estado de S.Paulo endossa e subscreve, ao requentar e repetir o que escreve aquele (mais um!) sinistro colunista do sinistro Estadão – Rasmussen fala da necessidade de “equipar adequadamente a OTAN”.

Assim se veem, bem claramente, os dois lados: de um lado, a OTAN-EUA e seus veículos de jornalismo de repetição pelo planeta, a pregar guerras e mais guerras. De outro lado, os cidadãos, sobreviventes precários de todas as guerras, que se organizam para resistir à fúria desse aparelho bélico-jornalístico.

Como tradutores militantes, nos alinhamos firmemente ao lado dos Veterans for Peace, contra a OTAN, contra as guerras dos EUA em todo o mundo e contra o jornalismo obsceno que desgraça o Brasil-2012.

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A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ainda está imprimindo os cartões de identificação para sua Conferência em Chicago no próximo domingo. Imprimiram um cartão para o presidente do Paquistão Asif Zardari na 4ª-feira. O Paquistão tornou-se “elegível”, depois de dar sinais de que baixará a crista e reabrirá as rotas de passagem para os comboios militares que seguem para o Afeganistão – apesar de os EUA continuarem obcecadamente a recusar-se a pedir desculpas formais pelo massacre de soldados paquistaneses em novembro e a suspender os ataques mortais, com aviões-robôs, os drones, contra aldeias paquistanesas.

O Paquistão receberá da OTAN US$1 milhão/dia, à guisa de taxa de pedágio. E é bom negócio? Um convite para o banquete da OTAN em Chicago, em troca de reabria as rotas de passagem? Os principais partidos da oposição paquistaneses entendem que não. Mas... O partido governante é sempre quem decide onde está o melhor negócio. Além do mais, os militares paquistaneses querem que assim se faça. E assim será feito.

Zardari ainda não confirmou presença, mas só para fazer-se mais esperado. Mostrar-se numa festança daquelas é questão de prestígio nacional. A OTAN não convida Zé ninguéns: nem o presidente da China nem o presidente da Índia foram convidados àquele congresso de bruxas em Chicago. (A Rússia foi sondada, mas respondeu niet [em russo ‘Não!”], mas essa é outra história complicada; e OTAN-EUA sonharam com convidar Israel, mas a Turquia bateu pé e disse haver [em turco: ‘Não e não!”]).

A lista de convidados da OTAN mostra a ingenuidade (ou a arrogância) do ocidente e é como um mapa do caminho das estratégias globais ocidentais para o século 21. Que cara tem a tal lista de convidados? O mais espantoso é que, mais ou menos como no Inferno de Dante, há “círculos”, “estações”.

No núcleo mais hardcore, estão os 28 países-membros da OTAN. O círculo seguinte é dos 13 países considerados “parceiros globais” da OTAN – Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, do Pacífico Asiático; Qatar, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, do Oriente Médio; a Geórgia, da Eurásia; e Áustria, Suíça, Suécia e Finlândia, do velho bom quintal europeu.

Esse é o crème de la creme dos aliados da OTAN. As mais luminosas omissões são a Indonésia e as Filipinas (essa última, apesar de “estado-de-frente” no Pacífico Asiático e desejosa de espetar o dragão chinês), a Arábia Saudita (apesar de ser a bomba de gasolina n.1 das economias ocidentais há bem mais de meio século), o Egito, a África do Sul, o México, o Brasil e a Argentina (que são prima-donas nas respectivas regiões). No geral, parece que a OTAN sente-se meio desconfortável com o Grupo dos 20, que luta para constituir-se.

Jogo de “amor-bandido”

Marchando avante, há outro círculo mais externo formado dos países que são partícipes ou colaboradores na guerra da OTAN no Afeganistão. São os verdadeiros “VIPs” (ou “heróis”, dependendo do ponto de vista de cada um sobre a sangrenta guerra afegã), porque põe a cara a tapa e atraíram a atenção da al-Qaeda para resgatar a OTAN do atoleiro afegão. São (em ordem alfabética, não em termos das respectivas quotas de suor e lágrimas): o Azerbaijão, a Armênia, o Bahrain, El Salvador, a Irlanda, Montenegro, a Malásia, a Mongólia, Cingapura, a Ucrânia e Tonga.

Detalhe sensacional nisso tudo é que, se algum dia alguém vencer a guerra do Afeganistão, o mérito pode ser todo de Tonga e sua contribuição, mas fato é fato.

A lista está incompleta. Esse círculo tem um subcírculo, em cujo centro está o Afeganistão (principal tópico de discussão da Conferência da OTAN), cercado por seus vizinhos da Ásia Central. Parece que a Rússia foi acomodada sob essa subchefia. Zardari, certamente, encaixa-se nesse nicho.

A Rússia designou um simples chefe do comitê afegão do Ministério de Relações Exteriores em Moscou para declarar alto e claro que está ressentida por ter sido excluída das reuniões chaves da OTAN sobre a condução da guerra afegã, que acontecem regularmente, faça chuva faça sol, em Bruxelas. Mas também é ressentimento “nuançado”. A Rússia não tem qualquer objeção à guerra da OTAN no Afeganistão e é, até, ardorosamente favorável. Mas a Rússia ressente-se, sim, de a OTAN monopolizar a guerra; a guerra deveria ser “democratizada”.

Os estados da Ásia Central designaram os ministros de Relações Exteriores, porque, tecnicamente, são membros também da aliança rival, chamada “a OTAN do Leste” – a Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)].

Essa CSTO está atada num jogo de “amor-bandido” com a OTAN: é rival da OTAN na disputa pelo título de principal aliança militar no espaço pós-soviético, mas também sonha com que a OTAN a reconheça como igual, para que, assim, a própria CSTO possa convencer-se de que, sim, existe (reconhecimento o qual, como se pode bem imaginar, a OTAN lhe recusa, obediente aos desígnios de Washington, porque os EUA preferem tratar com as ex-repúblicas soviéticas individualmente, não como parceiras ‘júnior’ de Moscou). 

As dificuldades da aliança CSTO são quase imagem especular das da Rússia – anseia por teto e cama quente no lar europeu comum, mas é insistentemente mantida à chuva, condenada a espiar de longe, enquanto os EUA continuam a engajar-se seletivamente nas áreas que interessam às estratégias norte-americanas. (É bem possível que a OTAN também, algum dia, engaje seletivamente a CSTO, para, por exemplo, caçar traficantes de drogas na Ásia Central, que muito atrapalham a economia afegã). A aliança CSTO é formada de Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão.

Mas, também é verdade que Moscou sente-se pouco segura por a OTAN ter convidado líderes da Ásia Central ao banquete em Chicago. Desconfia das intenções da OTAN na Ásia Central, sobretudo no contexto do possível estabelecimento, ali, de bases militares dos EUA.

Afinal, um dos objetivos da conferência de Chicago é avançar na construção da “estratégia inteligente” [ing. “smart strategy”] da aliança, aprovada na Conferência de Lisboa, em 2010, para projetar a OTAN como a única verdadeira organização de segurança global que poderia eventualmente operar mesmo sem mandado da ONU nos “pontos quentes” [orig.“hot spots”] do mundo.

Moscou preocupa-se, ante a evidência de que a OTAN já está pegando o gosto por forçar “mudança de regime” em terras estrangeiras, como o comprova a guerra contra a Líbia – e também no caso de as tendências perversas que se veem na Síria levarem a idêntico resultado.

Além do mais, a OTAN está lançando iscas na direção de estados da Ásia Central, sob a forma de ofertas cada dia mais irresistíveis. A dura realidade é que os regimes da Ásia Central têm visto aumentar seus interesses na guerra afegã, com a OTAN gerando generosamente contratos lucrativos para fornecimento de bens e serviços, que chegam, abundantes, a empresas de propriedade das elites regionais.

Os EUA pagam quantia interessante ao Quirguistão, pelo aluguel da base aérea Manas. Agora, fala-se que parte das armas e equipamentos usados no Afeganistão podem ser doados a países da Ásia Central, ao longo da retirada, até 2014.

Não há dúvida de que grossas mamatas, sob direção da OTAN, alastram-se pelas estepes da Ásia Central e muito incomodam a Rússia. Seja como for, é interessante: os estados da Ásia Central decidiram, coletivamente, que seus presidentes manter-se-ão bem longe da Conferência da OTAN e da deliciosa Chicago, cidade dos ventos. Mas também se pode supor que não passe de supremo ato de autonegação, nos líderes da Ásia Central, em deferência à sensibilidade de Moscou.

Pergunta ao chef

Verdade é que um país chave, vizinho do Afeganistão, foi escrupulosamente mantido longe da conferência da OTAN, embora ainda mantenha considerável capacidade para influenciar a maré da guerra afegã: o Irã. 

Desperdiçou-se grande oportunidade ao não engajar construtivamente o Irã. Mas o presidente Barack Obama, dos EUA, decidiu que a hora não está para jogadas de risco.

O presidente Mahmud Ahmadinejad é personalidade mercurial, muitíssimo carismático e poderia acabar roubando o show que Obama cuidadosamente, dolorosamente coreografou para proclamar ao mundo que é líder de estatura planetária. Seria arriscado demais, para Obama, sim, num ano eleitoral carregado de percalços. E o Republicano Mitt Romney ajudado por todo o lobby israelense lhe criariam terríveis dificuldades, obrigando-o a explicar tanta “softnessem relação ao Irã.

Outro dos círculos em que se divide a relação de convidados da OTAN é o dos quatro candidatos que esperam na antessala, pela inclusão como membros da aliança – a Bósnia-Herzegovina, a Geórgia, Montenegro e Macedônia.

A Geórgia ostenta a medalha de ser o único estado que figura em três círculos: é aliado global da OTAN, é parceiro na guerra afegã e é elegível ao posto de membro pleno. A mensagem cifrada na atenção extraordinária dedicada à Geórgia não passaria despercebida em Moscou. Não por acaso, os primeiros governantes “estrangeiros” que o presidente Vladimir Putin recebeu depois de eleito vinham de Abecásia e Ossétia do Sul, regiões da Geórgia.

Não implica dizer que Moscou tenha qualquer apreensão quanto à Geórgia ser admitida como membro pleno da OTAN. Putin tem parceiros europeus importantes, como Alemanha, França e Itália, para garantir que a OTAN não entre em confronto direto com a Rússia. Putin está satisfeito com a saída de Nicolas Sarkozy e a emergência do governo socialista em Paris.

E Obama também já sabe que a prioridade de seu segundo período de trabalho no Salão Oval – se chegar lá – terá de ser reiniciar o reinício das relações entre EUA e Rússia, e conseguir que fazer da parceria Rússia-EUA instrumento previsível e maximamente útil para as estratégias globais dos EUA – sobretudo ante o desafio muito complexo que vem da China.

Não há dúvidas de que a lista de convidados da OTAN oferece bom quadro do que os marxistas-leninistas chamariam “a correlação de forças” na política internacional hoje. O que aqui se lê não é o quadro completo da política global, mas é mais da metade do cenário num panorama muito fluido.

Permitam-me concluir com um raro toque de húbris, e perguntar: o que é uma conferência da OTAN, quando China e Índia estão ambas cuidando da própria vida e arando as próprias searas independentes?

No mínimo, Bruxelas deveria ter incluído uma categoria de convidados chamados “OTAN + BRICS”. Os países BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – com certeza não são menos importantes que a União Europeia, para a configuração do mundo de amanhã. Por que não foram convidados, é pergunta que o grand chef do banquete de Chicago – Obama – terá de responder. 

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.