Mostrando postagens com marcador Reunião da OTAN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reunião da OTAN. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de setembro de 2014

É a independência de Putin, não alguma “Ucrânia”, que perturba os EUA

5/9/2014, [*] Finian Cunningham, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido quitanda do Tejesorto, na Vila Vudu: Se eu fosse “o Brasil”, eu abria bem o meu olho. A Ucrânia é importante, ’tá. A Rússia é suuuuper importante, tamém ’tá. Mas o BRASIL é mais importante, cá desse lado do mundo, que eles. A CIA ’tá de olho ni nóiz. Pronto. Falei.

Vladimir Putin
Esqueçam a alegada “agressão” da Rússia, com ocupação na Ucrânia. O verdadeiro problema para os EUA é Vladimir Putin. Mais precisamente: o verdadeiro problema é uma Rússia forte e independente sob a presidência de Putin, uma Rússia que defende os próprios direitos nacionais, respeito à lei internacional e que não dá sinais de disposição para ceder aos interesses hegemonistas autistas dos EUA, como, por exemplo, defender o decadente-fracassante dólar norte-americano.

Com a aliança OTAN/EUA reunida esta semana em Gales, é óbvio que Washington e seus vassalos europeus dão tratos à bola para encontrar novo objetivo para uma organização criada há 65 anos, durante a Guerra Fria. A reunião de cúpula na cidade galesa de Newport está sendo vendida como “a mais importante reunião da OTAN desde o fim da Guerra Fria” – e por que tudo isso?! – há mais de vinte anos.

O presidente Barack Obama dos EUA lá está, além de 60 líderes mundiais , aí contados os dos 28 estados-membros da OTAN. Escândalo dos escândalos e vergonha para o “ocidente”, a coisa ali fervilha com uma retórica super inflada de “defender a Europa contra agressão russa”. O secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen teve a petulância de “declarar”, na abertura da conferência, que “a Rússia está atacando a Ucrânia”.

Assim sendo, continuamos a conclamar a Rússia para que recolha suas tropas de volta para dentro das fronteiras russas e ponha fim ao fluxo de armas e soldados para dentro da Ucrânia – disse deslavadamente Rasmussen, sem nem um fragmento de prova a oferecer.

Um dia antes da abertura da reunião da OTAN, falando ainda da Estônia, o presidente Barack Obama usou a mesma retórica de provocação, acusando a Rússia de agredir a Ucrânia e de violar a lei internacional. O presidente dos EUA não economizou retórica e calúnias, sem qualquer prova, sobre

(...) separatistas na Ucrânia, pagos pela Rússia, armados pela Rússia, treinados pela Rússia, apoiados pela Rússia e com frequência comandados pela Rússia.

Como disse o enviado da Rússia à OTAN, Alexandr Grushko, dessas acusações que vários líderes ocidentais vêm vociferando, “não são fatos, são invenções”. Grushko disse que a OTAN estava escalando as tensões com a Rússia sem qualquer prova de conduta indevida.

Alexandr Grushko
Não houve aumento de tropas nem movimento de armamento militar – disse ele.

É quase inacreditável que todo o furor militarista insuflado em torno da conferência da OTAN, e as declarações bombásticas de segurança coletiva com votos e brados de proteger “nossos membros no Leste da Europa” esteja sendo invocado absolutamente sem qualquer tipo de prova confiável, como imagens de satélite, por exemplo, de tropas russas e movimento de tanques, lançamento de mísseis ou incursões aéreas em território da Ucrânia. É fazer política à base de fantasias e preconceitos.

Isso não implica dizer que não haja aí, em jogo, preocupações muito reais. Com certeza, há. Mas as potências ocidentais e seu aparelho de imprensa-empresa estão tomados de total furor de propaganda, decididos a esconder aquelas preocupações, elas, sim, bem reais.

O que Obama e outras altas figuras dos EUA têm repetido enfaticamente ao longo dos últimos seis meses é a necessidade de os países membros da OTAN “comparecerem no que lhes cabe”, em termos de financiar a OTAN.

Durante quase todos os 65 anos da OTAN, os EUA foram os principais mantenedores e, de longe, o membro mais importante. Há boas razões para essa prodigalidade histórica dos EUA. A OTAN sempre foi veículo mediante o qual os EUA exerceram presença militar, política e econômica dominante sobre a Europa. Sem a OTAN, Washington veria consideravelmente reduzida a sua influência sobre seus “aliados” europeus. De modo especial, Washington veria aumentar uma tendência histórica óbvia de aproximação política e econômica entre a Europa e a Rússia, se não houvesse as garras da “aliança” cravadas no continente.

Atual bandeira da OTAN
É significativo que ao longo das duas últimas décadas, desde o fim da Guerra Fria – e, claro, desde que a OTAN deixou de ter objetivo e razão de ser – o financiamento europeu para a organização tenha caído, de mais de 30%, para quase 20%. Em outras palavras, isso sugere que os estados europeus estão perdendo o interesse que a OTAN lhes inspirava no pós-Guerra-Fria, quando ainda acreditavam que pudesse ter alguma serventia.

Tudo sugere também, hoje, correspondentemente, que Washington está decidida a fazer reviver a “importância” da OTAN falando sem parar sobre alguma “ameaça” que a Rússia representaria à segurança europeia. OTAN ressuscitada significa presença ressuscitada dos EUA na Europa, o que é essencial para manter a hegemonia dos EUA sobre o planeta.

Só assim se vê algum sentido real na ação, visivelmente comandada pelos EUA, de fazer aumentar sempre as tensões com a Rússia – usando como pretexto, a Ucrânia. A ação dos EUA gerou um cisma sempre crescente entre Moscou e a Europa, onde até bem pouco tempo havia relações diplomáticas cordiais baseadas em substanciais parcerias econômicas e comerciais.

Claro que o trabalho político de Washington encontrou cúmplices europeus para empurrar o mundo em direção à guerra e fazer aumentar as tensões. O governo britânico obrou como lacaio dedicado a serviço da agenda de guerra dos EUA, como a Junta de Kiev liderada por Arseniy Yatseniuk e, também, os governos pró EUA na Polônia e nos estados bálticos.

É essa agenda oculta, da hegemonia geopolítica dos EUA – não alguma inexistente agressão russa – que se viu bem clara essa semana, na fala de Barack Obama ao lado do presidente Toomas Hendrik Ilves. Quando os dois foram perguntados sobre o que pensam sobre o que dispõe o Ato de Criação da OTAN, de 1997, assinado entre OTAN e Rússia, disseram que o compromisso assumido naquele momento, de que a “aliança” não avançaria na direção das fronteiras russas, já não se aplica(ria) hoje, porque “a paisagem mudou”.

Barack Obama e Toomas Hendrik Ilves
O presidente da Estônia, que estudou nos EUA, disse:

Aquele era o ambiente de segurança de 1997, quando Boris Ieltsin era presidente da Rússia e não havia violações, nem da Carta da ONU nem Acordo de Helsinki de 1975 ou da Carta de Paris de 1990.

Deve-se observar que Ilves só faz repetir assertivas sem nenhuma prova ou reconhecimento legal de que a Rússia tivesse algum dia violado a Carta da ONU ou qualquer tratado. O que o homem faz é repor em cena o personagem Boris Ieltsin. Ieltsin “interessava” a norte-americanos e europeus porque era presidente fraco, servil, que deu rédea solta ao capital ocidental para que avançasse como bem entendesse sobre o território da Rússia, imediatamente depois do colapso da URSS. O tempo de Ielstin também foi tempo de corrupção rampante pelos oligarcas russos, todos intimamente associados ao capital ocidental. Essa cultura corrosiva teve fim com a eleição de Vladimir Putin duas vezes como presidente, entre 2000-2008, e novamente em 2012.

Na sua fala, Obama repetiu que “muita coisa mudou” desde o Tratado OTAN-Rússia de Fundação da OTAN de 1997, que o teria tornado inaplicável. Mas – mentiroso que muito fala sempre acaba dizendo o que não lhe interessava dizer – Obama revelou também parte importante de suas preocupações “de base”:

Já disse várias vezes que preferiríamos sempre uma Rússia forte, produtiva e cooperativa. Mas o caminho para tudo isso é respeitar normas internacionais, melhorar a economia, focar em como eles podem produzir bens e serviços de que outros carecem, e dar oportunidades ao próprio povo e educar a própria população. Infelizmente, não é a via que eles [os russos]vêm seguindo nos últimos vários anos. Não é, com certeza, se se considera a estratégia deles [dos russos] na Ucrânia.

VOCÊ MENTE!
CLARAMENTE, EU ESTOU MENTINDO
Quer dizer... Obama, melhor dizendo, Washington, não está preocupada com a Ucrânia ou alguma suposta “agressão russa”, mas com questões de “produção econômica e cooperação” – e quem diz “cooperação” está falando, aí, de cooperação com o capital ocidental. Além de não estar ‘cooperando”, o governo russo já não “coopera” nos “últimos vários anos”! É o mesmo que dizer que o problema é que o governo do presidente Putin não “coopera” com o capital ocidental... Tudo isso começou antes da atual crise na Ucrânia.

Essas são as preocupações reais que subjazem ao que os EUA estão fazendo, e já transpareciam claramente em coluna publicada em março no New York Times assinada por Michael McFaul, ex-embaixador dos EUA em Moscou.

Michael McFaul
Depois de protestos contra a “anexação” [na verdade, tratou-se de reintegração à Federação Russa, decidida por referendo] da Crimeia, McFaul escreve:

A decisão do presidente Vladimir Putin da Rússia de anexar a Crimeia pôs fim à era do pós-Guerra Fria na Europa. Desde o final dos anos Gorbachev-Reagan, a era definida por ziguezagues de cooperação e disputas entre Rússia e o ocidente, mas sempre preservando a ideia subjacente de que a Rússia ia-se integrando aos poucos à ordem internacional. Agora, isso acabou.

O ex-embaixador prossegue e lamenta que

(...) o colapso da ordem soviética não tenha levado a uma transição suave para a democracia e aos mercados, dentro da Rússia, nem à integração da Rússia ao ocidente.

Em outras palavras: é uma pena que a Rússia não tenha saído do mundo soviético e cuidado de fazer uma transição suave em alguma direção que satisfizesse os interesses do capital norte-americano...

McFaul atribui a culpa por essa falta de “integração da Rússia ao ocidente” ao presidente Putin, acusado de ser “um autocrata” e de querer voltar aos dias da velha União Soviética. O ataque de McFaul contra Putin é tolice, um amontoado de bobagens. Mas útil, porque deixa ver com clareza que o que atormenta mais agudamente Washington é que os EUA veem que a Rússia de Putin não age como estado-vassalo, como a Rússia dos tempos de Ieltsin, de quando foi assinado o Ato de Fundação entre OTAN e Rússia.

Por isso, exatamente, é que Washington quer agora rasgar o documento assinado em 1997, e empurrar a OTAN para bem junto das fronteiras russas.

McFaul conclui sua coluna no NY Times exigindo que Putin seja “isolado” e que se apliquem sanções punitivas contra a Rússia – política que Obama aplicaria com violenta determinação nos meses seguintes.

BRICS
Há aí mais que simples coincidência: o governo dos EUA escalou na agressão contra a Rússia a partir do momento em que o presidente Putin passou a expor ao mundo as muitas alianças de comércio e desenvolvimento regional que está construindo com países eurasianos, o Irã, a China, outros países BRICS e nações da América Latina. O movimento declarado de Putin, de substituir o dólar norte-americano por moedas bilaterais para as transações do comércio de energia, também o marcaram como ameaça viva contra os interesses hegemonistas dos EUA. E a Rússia de Putin também se posicionou ao lado de seu aliado árabe sírio ao longo de até agora três anos de guerra – resultado da agenda criminosa de EUA-OTAN que tentam “mudar o regime” naquele país.

Esse é o contexto dos motivos pelos quais tenta envolver a OTAN na “crise na Ucrânia”. Não é questão de alguma “agressão” russa. É questão de Putin ser líder mundial independente que não se curva ao diktat imperial dos EUA. 


[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pepe Escobar: Chicago: “My kind of (OTAN) town”*


19/5/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera**
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A Conferência de Cúpula da OTAN em Chicago será crucial para identificar os participantes e suas estratégias de longo prazo.



Representantes de mais de 50 países são esperados na Conferência da OTAN-2012 em Chicago 

Hong Kong, China É cerco. Fechado. Um anel de aço. Um oceano de policiais de Chicago. O Serviço Secreto. A Guarda Nacional. Quarteirões bloqueados. Cercas de arame farpado. Barreiras de concreto. Uniformes de controle de tumultos (e mais). O prefeito Rahm Emanuel – ex-secretário-geral da Casa Branca e confidente do presidente Obama – demarcou “áreas estratégicas” na cidade. E há “equipes de extração” super preparadas para extrair manifestantes-alvos de onde estejam, em ambiente de “conflito de baixa intensidade”. 

E, também, importantíssimo, o LRAD (equipamento acústico de longo alcance) – um canhão de som mais letal que os Metallica em noite ruim, para garantir que “mensagem clara chegue a grandes massas”, segundo o Departamento de Polícia de Chicago. O caminhão LRAD pode ser visto e ouvido no vídeo abaixo:


O que é isso? Bagdá na “avançada” [surge]? Remake de “Os Irmãos Cara de Pau”, estrelando, o fantasma de John Belushi e Obama, de Aretha Franklin (ou James Brown)?

Não. É a OTAN ocupando Chicago para a 25ª Conferência. Como diria o presidente Obama: que ninguém se engane. “Estamos em Missão Divina”.

Impensavelmente pensável

Não imune às extrapolações do “conflito de baixa intensidade”, o governo Obama transferiu a reunião do G-8 – que está acontecendo antes da reunião da OTAN – de Chicago para a isolada Camp David. Mesmo assim, haverá protestos. Talvez haja sangue. Porque há ampla consciência, nos EUA [1], de que o G-8 e a OTAN – duas “cúpulas” jamais eleitas e desobrigadas de dar satisfações aos contribuintes – são instrumentos que servem, essencialmente, aos 0,1%.


A Conferência de Chicago ampliará o “Conceito Estratégico” que a OTAN adotou na reunião de Lisboa, em novembro de 2010.

É importante identificar os atores que operam nas coxias. O “conceito” foi concebido por um seleto grupo de sábios (e uma sábia), co-presidido pela ex-secretária de Estado dos EUA Madeleine Albright e Jeroen van der Veer, presidente da empresa Royal Dutch Shell até junho de 2009.

É a tal simbiose ocidentalocêntrica de empresas/militares/petróleo.

Antes de anunciado esse conceito de OTAN para o Terceiro Milênio, o presidente da empresa Lloyd's de Londres, ex-diretor da gigante francesa de energia, Total, Lord Levene of Portsoken, com o secretário-geral da OTAN Anders Fogh Rasmussen, caracterizaram a coisa toda como “nova abordagem do gerenciamento de risco”.

Sim, acrescentou Lord Levene, “temos de estar preparados para pensar o impensável” [2].

O “impensável”, segundo a empresa Lloyd's, foi codificado num programa “360 Risk Insight” [360 insights de riscos] e em “Realistic Disaster Scenarios” [Cenários Realistas de Desastres], enquanto a OTAN inventava um projeto “Multiple Futures” [Múltiplos Futuros].

O mundo, pois, pode suspirar aliviado: finalmente, o “impensável” tornou-se pensável, cortesia da empresa Royal Dutch Shell e porção sortida de gente do Big Oil: gigantes do mercado de seguros, como a Lloyd's; a News Corporation de Rupert Murdoch, notoriamente altruísta; marcas de fantasia do mercenariato como DynCorp e Academi (ex-Blackwater); a menina dos olhos de Dick Cheney, Kellogg Brown & Root (KBR); e Halliburton – e, claro, claro, a OTAN.

Pepe Escobar
Permitam-me bombardeá-los com meus valores

A OTAN veio à luz em 1949, como contragolpe, dos EUA contra a Rússia, no tabuleiro de xadrez europeu. A União Soviética implodiu há 21 anos. Mas a OTAN – como os diamantes de James Bond – é eterna. A secretária de estado dos EUA Hillary Clinton já está pensando sobre o século 22.

Mês passado, num convescote Pentágono/OTAN em Norfolk, Virginia, Hillary destacou que o encontro de Chicago “reconhecerá oficialmente as contribuições operacionais, financeiras e políticas de nossos parceiros, numa vasta gama de esforços para defender nossos valores comuns nos Bálcãs, Afeganistão, Oriente Médio e Norte da África[3].

O currículo da tal “defesa” dos tais “valores comuns” não é lá essas coisas. Depois passar décadas borrando as botas ante o perigo de ser varrido do mapa pelo Exército Vermelho, a OTAN lutou sua primeira guerra na Europa em 1999 – 78 dias de bombardeio unilateral contra a Yugoslávia. Digamos que tenha vencido.

Depois, a OTAN pôs-se a defender o ocidente na intersecção da Ásia Central-Sul da Ásia: no Afeganistão. Passados 11 pantânicos anos, foi indiscutivelmente derrotada por um bando de pashtuns nacionalistas armados com Kalashnikovs e lança-rojões.

Em seguida, lá está a OTAN a bombardear “nossos valores” comuns contra o norte da África, em sua primeira guerra no continente: na Líbia. Não obteve, propriamente dita, vitória alguma: a Líbia está convertida num paraíso para islamistas racistas hardcore, misturado com um inferno de milícias, já devidamente exportado para desgraçados vizinhos, como o Mali.

E a OTAN recusa-se a reconhecer que assassinou muitos milhares de civis na Líbia, naquela missão de R2P – responsabilidade de proteger... civis [4].

Ainda do ponto de vista do Conceito Estratégico, o que interessa é que a OTAN está próxima de fazer do Mar Mediterrâneo um Mare Nostrum remixed, um lago da OTAN (embora ainda haja aquela questão na Síria, a ser resolvida); e está, por toda parte, patrulhando o Mar da Arábia.

Vamos lá, parceiro!

A própria OTAN apresenta Chicago [5] como fórum sobre três principais questões: o “compromisso com o Afeganistão”; “capacidades” para defender a população e o território afegãos” (mesmo que signifique bombardear ou ocupar partes da Ásia Central e da África), tudo isso amarrado sob o título “desafios do século 21”; e a “rede de parceiros em todo o mundo”.

As parcerias da OTAN são como Hidra de muitas cabeças: Parceria pela Paz; Diálogo Mediterrâneo; Iniciativa Istambul de Cooperação; a Força Kosovo; a Operação Escudo Oceânico (no Chifre da África); a Operação Protetor Unificado (na Líbia); a Operação Missão Ativa (no Mediterrâneo), e, até, um gambito no Pacífico: Malásia, Mongólia, Cingapura, Coreia do Sul e Tonga são parceiros da OTAN na “parceria” “Países que fornecem soldados” no Afeganistão.

E há a gargantuesca “Parceria Menu de Cooperação” (com mais de 1.600 possibilidades); o Conselho Rússia-OTAN [Russian-OTAN Council (RNC)]; e algum impulso para arranjar algum tipo de parceria com os países BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – tudo em nome da “segurança num nível global”. Os BRICS não estão exatamente muito entusiasmados.

Elizabeth Sherwood-Randall, diretora de Assuntos Europeus do Conselho Nacional de Segurança [orig. National Security Council (NSC)], e ex-vice-secretária para Rússia, Ucrânia e Eurásia em meados dos anos 1990s, justifica esse emaranhado [6] de “parcerias”, pela necessidade de a OTAN ser “mais mobilizável e deslocável”. Em OTANlíngua: a necessidade de “aumentar a interoperabilidade” da OTAN.

Nada menos que 50 nação são interoperáveis-enredadas no Afeganistão. O Iraque será inevitavelmente anexado à Iniciativa Istambul de Cooperação. A Líbia cairá dentro do Diálogo Mediterrâneo. E o mesmo acontecerá à Síria (mas só depois de o regime sofrer “mudança”).

É o Conceito Estratégico na prática: a expansão da OTAN inflada ao infinito. O plano é construir uma “teia de relacionamentos em volta do mundo”.

Sem surpreender ninguém, esse foi o coração da matéria num grande encontro mês passado, no cavernoso quartel-general da OTAN em Mons, perto de Bruxelas. Imaginem os chefes militares dos 28 estados-membros da OTAN, plus os chefes dos departamentos de Defesa de 22 países não membros da OTAN que mantêm soldados no Afeganistão – o que inclui todo mundo, de Armênia, Bahrain e Geórgia, a Jordânia, Mongólia e Emirados Árabes Unidos.

Bem-vindos à OTAN-Globocop. Esqueçam a ONU. E se você for um dos muitos pequenos parceiros da OTAN, cuidado com o que pedem em troca da parceria. Mais cedo ou mais tarde, o Pentágono e a OTAN – afinal, a OTAN é o braço europeu do Pentágono – vai querer pôr uma base militar em seu país. E o complexo industrial-militar ocidental fará qualquer matança para vender a você todo o tipo de armamento complicado, caro e inútil. 

Defesa? Qual o quê! ‘Tava só brincando!

Rasmussen já disse que, em Chicago, a OTAN anunciará que o sistema europeu conjunto EUA-OTAN de interceptação de mísseis já tem “capacidade operacional inicial”. Negócio fabuloso, aliás, para Boeing, Lockheed Martin e Raytheon.

Sherwood-Randall acrescentou que se trata de mísseis de defesa da OTAN “baseado na habilidade para empregar elementos dos EUA sob comando da OTAN”. Tradução: se alguém precisasse disso. Nada significaria, não fosse a pegada do Pentágono (sobretudo, na África, onde o AFRICOM já combateu sua primeira guerra, na Líbia, com um fogo de barragem de Tomahawks, antes de o comando ter passado para a OTAN).

A OTAN distribuiu pela mídia a ideia de que se trataria de “sistema de defesa” da Europa contra os mísseis balísticos transcontinentais da Coreia do Norte ou do Irã. Nada disso. O sistema será incorporado à capacidade do Pentágono para “primeiro ataque”. A inteligência russa sabe muito bem quem está no olho do alvo real.

O tenente-general da reserva Evgeny Buzhinsky, citado por Voice of Russia, pergunta: “Por que gastar centenas de bilhões de dólares, só para interceptar três ou quatro mísseis iranianos? E por que o Irã atacaria a Europa, se 70% de seu comércio externo depende da União Europeia?”

Mas nem todos os alvos da OTAN são definidos com vistas a construir um cerco estratégico em volta da Rússia [7]. Trata-se também de entrar, de corpo inteiro, na Guerra dos Drones. Já flertam com mais uma intervenção “humanitária” – na Síria ou, muito mais fácil, no Mali. O Pentágono gastará apenas $4 bilhões, para modernizar o arsenal nuclear tático instalado na Europa. E há também a batalha, crucial, para controlar o Ártico.

Globocop avança, em alta rotação. Hoje Chicago, amanhã as estrelas. Não há blues de Buddy Guy que dê conta. A canção-tema da OTAN é Over the Rainbow  [8].



Notas dos tradutores

*My Kind of Town é canção de Jimmy Van Heusen/Sammy Cahn, para a trilha sonora de um filme musical, Robin and the 7 Hoods, de 1964. Foi indicado ao Oscar de melhor canção original naquele ano (perdeu para Chim Chim Cher-ee, de Mary Poppins). Pode-se ouvir, a seguir, numa das muitas gravações de Frank Sinatra:

**Versão mais curta e traduzida deste artigo, sem as Notas de rodapé, foi publicada em Asia Times Online, 20/5/2012, em: Pepe Escobar: “OTAN ocupa ‘sweet home’ Chicago*

______________________________________

Notas de rodapé:





[5] Ver em: NATO’s 25th summit meeting



[8] 1939, de Harold Arlen/E.Y. Harburg, cantada por Judy Garland no filme “O mágico de Oz”. Em 2003, cantada por Luiza Possi, foi incorporada à trilha da novela “Chocolate com Pimenta”, da Globo, Br. A seguir uma versão caseira dos Beatles, de 1963. E por aí vai.

domingo, 20 de maio de 2012

Carta aberta aos nossos camaradas de Chicago


De: OccupyWallSt e 3 anonymousOWSOccupiers (em Chicago)
Data: 20/5/2012, COMMUNIQUÉ #246 An Open Letter to Our Comrades
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Polícia de Chicago ataca manifestantes contra 2012 NATO Summit
Na véspera do início desse festim dos hipócritas cabais, também citado como “2012 NATO Summit” [Conferência OTAN 2012], o povo de Chicago sofreu grave injustiça nas mãos da polícia do estado.

Dia 19/5, as forças da Polícia de Chicago atacaram com violência, com brutalidade, nossos corpos e nossos direitos. Uma força policial absurdamente gigantesca foi empregada para intimidar e provocar uma assembleia pacífica, em ataque militar descabido, contra ativistas que se manifestavam contra a OTAN, do qual resultaram vários feridos graves – narizes quebrados, olhos feridos, e um incidente particularmente inadmissível e nauseante, no qual um camarada e militante dedicado foi violentamente atropelado por um dos carros de guerra da polícia.

Condenamos indignados esses ataques covardes inaceitáveis. Sabemos que as pessoas começam a acordar do sonho de liberdade falsificada, numa nação que se mostra hoje nas ruas, encarnada num novo estado policial que esmaga qualquer voz discordante e defende as máquinas de guerra da violência internacional e do capitlaismo global, em vez dos seres humanos que finge representar e defender.

Mas já não é tão fácil enganar. Cada dia, menos norte-americanos deixam-se ludibriar por essas táticas.

As ações do Departamento de Polícia de Chicago, ontem à noite, foram executadas segundo um plano deliberado de provocação, para gerar medo entre os manifestantes do nosso coletivo, nos intimidando para nos fazer recuar. É tática policial usada para nos afastar no nosso foco e nos prender numa espiral de violência, recuo e negativismo.

Temos de resistir a essas emoções, porque perdemos nossa autonomia se agirmos por reação à ação deles, seguindo o roteiro que eles conceberam para nós, fazendo o que o braço armado da repressão do estado nos empurre a fazer.

É importante nos mantermos sérios e organizados, para não cairmos na armadilha deles. O que eles querem é nos forçar a responder à violência deles.

Todos sabemos que o ataque militar contra a população de Chicago nada é além de tentativa alucinada para que, depois, tenham o que dizer, tentando justificar a quantia astronômica de dinheiro público que foi desperdiçada para por nas ruas esse número exorbitante de policiais, todo o aparato de supervigilância e a invasão ilegal e imoral das nossas casas e casas de nossos familiares; para isso serve também o medo orwelliano que a mídia-empresa-fantoche trabalha para disseminar.

Não nos deixaremos arrastar para um estado de fúria desorganizada, porque já entendemos que isso, exatamente, é o que mais interessa à polícia que ocupa as ruas, e que deseja nos manipular. Nada temos a ganhar – e temos muito a perder – se cairmos na arapuca barata e previsível que armaram para nós. Se não mais obedecemos, subjugados, às ordens da autoridade, não conseguirão nos fazer agir como eles agem.

Essa convergência nacional é oportunidade muito, muito rara, para unir todos os ativistas de todos os grupos, numa grande frente unificada de resistência, diferente de tudo que esse país já viu, há mais de uma década.

Amanhã, voltamos às ruas com o coração altivo, engrandecidos como sobreviventes da terrível violência e da injustiça que sofremos, nós e nossos camaradas, nas ruas dessa cidade que é nossa. Não nos deixaremos tomar por emoções que toldam nossa capacidade de pensar e de nos organizar.

Reconhecemos a tentativa de coerção como mais uma manifestação de uma violência sistêmica, e nos manteremos autônomos, como indivíduos que não obedecem ordens do poder violento, explícitas ou implícitas. Sabemos canalizar nossa ira, nossa dor, nossa compaixão, nosso desespero, nossa paixão, na luta por um mundo melhor, em que possamos falar e agir sem sermos oprimidos.

Camaradas,

é hora de respirar juntos, bem fundo. Cuidar dos feridos e das feridas e, depois, voltar aos nossos postos, para tomar decisões táticas que resultem de escolhas livres e autônomas, não ditadas pela Polícia.

Cuidem todos cada um da própria segurança e da segurança dos próximos, organizem grupos pequenos, todos em contatos entre si, por afinidade ou por grupos de conhecidos.

Mantenham a calma. Lembrem todos de por que decidimos viajar a Chicago – para resistir contra uma máquina de guerra que age nas sombras, sem transparência, sem prestar contas a ninguém, como se o povo que dizem defender e representar não existisse. E para dizer aos canhões que queremos um mundo sem guerra, sem opressão e sem desigualdade.

Solidarity forever.

Anonymous
#OCCUPYWALLSTREET
#NONATO
#NATOSOLIDARITY
#NATO3

Pepe Escobar: “OTAN ocupa ‘sweet home’ Chicago*”


18/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Hoje, o hino diz mais ou menos o seguinte: “Baby, você não quer / voltar àquele antigo lugar / doce lar [cinturão de aço], Chicago?”. [1]

Robert Johnson deve estar cuspindo fogo em seu túmulo bluezado, porque a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em sua 25ª conferência, ocupa hoje Chicago como se fosse Kabul – com os norte-americanos tratados como se fossem círculos concêntricos de Talibãs. O Departamento de Segurança Nacional classificou o evento como “Evento de Segurança Nacional Especial”; significa que o Serviço Secreto, na prática, invadiu e ocupou Chicago.

É cerco, sítio. Sítio total, completo – com barreiras de concreto estilo Iraque; batalhões inteiros, em uniforme de contenção de tumultos urbanos; equipes “de extração”, para localizar, deter e arrastar manifestantes, em ambiente de “conflito de baixa intensidade”; e um convidado-estrela, orwelliano, o LRAD (Long-Range Acoustic Device / equipamento acústico de longo alcance) – um canhão de som projetado para “garantir que mensagem clara chegue a grandes massas”, segundo o Departamento de Polícia de Chicago.

Soa como remake pirado do imortal Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers, 1980) de John Landis. E que papel, diabos, desempenhará o presidente dos EUA, Barack Obama? O Poderoso Chefão dos drones? Aretha Franklin cantando Think [2]? Ou o pai&mãe do soul, James Brown comandando o coro gospel de “ver a luz” [3]? Obama, afinal de contas, está em Missão Divina – é o mestre de cerimônias da militarização de Chicago, imagem especular da militarização do planeta, pela OTAN.


Quanto às multidões de norte-americanos que se recusam a deixar-se ocupar pela OTAN, ou que decidiram transformar o Occupy Chicago em Occupy a OTAN, o suplício das multidões soa mais como Albert King: “Nasci sob um signo ruim / estou por baixo desde que comecei a engatinhar / não fosse a má sorte / não teria sorte alguma”. [4]

De caso com a Máfia [5]

A conferência de cúpula da OTAN em Chicago é essencialmente uma celebração do “Conceito Estratégico”[6]adotado na conferência de Lisboa, em novembro de 2010 – que é uma espécie de versão mais palatável da doutrina de “dominação de pleno espectro” do Pentágono.

Prova crucial disso, mês passado, em convescote do Pentágono/OTAN em Norfolk, Virginia, a secretária de Estado dos EUS, Hillary Clinton [7] salientou que a conferência de Chicago será “o reconhecimento das contribuições operacionais, financeiras e políticas de nossos parceiros, num gama de esforços para defender nossos valores comuns nos Bálcãs, Afeganistão, Oriente Médio e Norte da África.”

E fica-se a cogitar, que diabo de “valores comuns” estariam incorporados num combate às cegas contra o fantasma de uma “al-Qaeda” no Afeganistão – que nada tem sido além de repetidos ponta-pés no traseiro da OTAN, durante 11 intermináveis anos, aplicado sempre por hordas de nacionalistas pashtuns enfurecidos e armados com Kalashnikovs e lança-rojões.

E que diabo de “valores comuns” estão incorporados no bombardeio “humanitário” contra a Líbia pelo combo OTAN/AFRICOM – se o produto final, uma Líbia controlada por “rebeldes” da OTAN, é hoje um inferno de milícias islamistas racistas hardcore, já exportado atualmente para países vizinhos, como o Mali?

Isso, para nem dizer que a OTAN recusa-se obcecadamente a reconhecer que assassinou legiões de civis na Líbia, como parte de sua missão de R2P (responsabilidade de proteger)... civis.

Ah, sim! Em matéria de “parceiros” da OTAN, as coisas são doces feito baba-de-moça.

Ser convertido em “parceiro” da OTAN, sobretudo para os países menores, não é muito diferente de ser obrigada a casar com toda a gangue. 

Aplicam-se as mais sofisticadas técnicas de extorsão. Por que não se alia à nossa coalizão [a da hora] pela liberdade? Por que não contribui com alguns soldados? Por que não compra algumas doces armas para nós? Ou seja lá o diabo que for...

Você sabe o que é amar um avião-robô, um drone?

A própria OTAN diz que Chicago [8] discutirá três principais tópicos:

  1. O “envolvimento no Afeganistão”. Tradução: ocupar para sempre, pelo menos com três grandes bases (Bagram, Shindand e Kandahar), mas temos de encontrar um jeito de dourar a pílula. Depois, temos de fazer aqueles “-stões” da Ásia Central nos darem mais bases.
  1. As “capacidades” para “defender população e território afegãos” – como defendem a América do Norte e a Europa mediante bombardeio e/ou ocupação de partes da Ásia Central ou da África. Tudo isso reunido num ramalhete que leva o nome de “desafios para o século 21”
  1. A “rede de parceiros da OTAN pelo planeta”.
O emaranhado das parcerias da OTAN é das mais bem-sucedidas distribuições de caixas vazias de bombons da história.

Dentre as tais “parcerias” há: a Parceria pela Paz; pelo Diálogo Mediterrâneo; a Iniciativa Istambul de Cooperação; a Força Kosovo; a Operação Escudo Oceânico (no Chifre da África); a Operação Protetor Unificado (na Líbia); a Operação Missão Ativa (no Mediterrâneo); a Países Fornecedores de Tropas no Afeganistão, “parceria” na qual se reúnem nações do Pacífico Asiático, Malásia, Mongólia, Cingapura, Coreia do Sul e Tonga; e a monstruosa Parceria de Cooperação Menu (com mais de 1.600 pratos e guarnições). [9]

Há também o Conselho Rússia-OTAN [ing. Russian-NATO Council (RNC)]; e jamais houve parceria mais rachada em toda a humanidade, sobretudo por causa da obsessão dos EUA com o escudo de mísseis de defesa.

O untuoso, pegajoso, arrogante, dissimulado, bajulador secretário-geral da OTAN, Dane Anders Fogh Rasmussen, já disse que, em Chicago, a OTAN anunciará “capacidade operacional inicial” para o sistema interceptador conjunto de mísseis EUA-OTAN na Europa. Tradução: fenomenal negócio para as empresas Boeing, Lockheed Martin e Raytheon.

A OTAN fala dele como um “sistema de defesa” da OTAN para a Europa, contra mísseis balísticos intercontinentais da Coreia do Norte ou do Irã. É absoluto non sense. Esse “sistema de defesa” será integrado à capacidade do Pentágono para “atacar primeiro”. A inteligência russa sabe muito bem quem está previsto como alvo real.

Não surpreende que a Rússia esteja ausente do convescote em Chicago. Também está ausente a China. E o Irã.

O Paquistão – atraído por quantidade não revelada de cenouras de metal polido – lá está, chegado no último instante. Nada detém a OTAN. Há movimento interno para que se invente algum tipo de parceria com os BRICS, grupo das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) –, tudo em nome da “segurança em nível global”. Os BRICS não estão interessados.

O Iraque “libertado” será inevitavelmente anexado à Iniciativa Istambul de Cooperação. A Líbia “libertada” será inserida no Diálogo Mediterrâneo. O mesmo acontecerá à Síria (desde que a Iniciativa Divina consiga mudança de regime). O Irã “do Mal”, por sua vez, será sempre excluído. A menos que uma Missão Super Divina consiga, lá, mudança de regime.

Em termos da OTANlíngua, essa parceira só-entra-com-convite explica-se pela necessidade de “melhorar a interoperabilidade”, parte do plano geral para construir “uma teia de relacionamentos em torno do mundo.” É o Conceito Estratégico de Lisboa 2010 em prática: a OTAN-Globocop expandindo-se – literalmente – até as estrelas.

Chicago, portanto, é só um teste – estágio avançado de produção, comparado a Gaza ou Sadr City em Bagdá, ou ao que a RAND Corporation chamava de Operação Militar em Terreno Urbano [ing. MOUT (Military Operations in Urban Terrain)]. A OTAN, afinal, viu o futuro – e está imergindo, corpo e alma, na “guerra dos aviões-robôs, os drones”. Se você não pode derrotá-los no Pashtunistão, você, pelo menos, pode encurralá-los na terra do blues.

Acordei de manhã / e encontrei minha menina, dronada [10].



Nota do título

*Lit. “Doce lar, Chicago”. É verso de Chicago, um clássico do blues do delta do Mississipi. Ouça com Robert Johnson:

E com Barack Obama, na Casa Branca...
________________________________

Notas dos tradutores

[1] Orig. C'mon, baby don't you wanna go / back to that same old place / sweet home [ring of steel] Chicago. A expressão entre colchetes é uma intervenção.

[2]  Think, de Aretha Franklin e Ted White, 1968. Pode ser ouvida a seguir. E a letra, em tradução ruim, mas que ajuda a ler.

[3] É cena de “Os irmãos cara de pau”, com James Brown no púlpito (esculhamba a Internet) e os “irmãos”, ao fundo, vendo a luz (tendo um insight de que devem reunir a banda, novamente). Assista, imperdível, a seguir:

[4] Orig. 1978: Born under a bad sign / I've been down since I began to crawl / if it wasn't for bad luck / I wouldn't have no luck at all. Ouve-se em gravação de 1982 a seguir:

[5] Orig. Married to the mob. É filme de 1988, dir. Jonathan Demme.


[7] 3/4/12, “Remarks to the World Affairs Council 2012 NATO Conference US State Department”.

[8] 25ª Conferência da OTAN, website da OTAN.

[9] Orig. the Partnership for Peace; the Mediterranean Dialogue; the Istanbul Cooperation Initiative; the Kosovo Force; Operation Ocean Shield (off the Horn of Africa); Operation Unified Protector (in Libya); Operation Active Endeavor (across the Mediterranean); the Troop Contributing Countries in Afghanistan, which feature Asia-Pacific nations such as Malaysia, Mongolia, Singapore, South Korea and Tonga; and the monstrous Partnership Cooperation Menu (with over 1,600 main dishes and side dishes).

[10] Orig. Woke up this morning/and I found my baby gone [droned]. Sem a palavra entre parênteses (mais uma intervenção), é verso de outro clássico, do blues dito “rural”, de Leadbelly, de 1936. Em outra variação, é título de uma peça (1968) e de um álbum póstumo (1980) de Jimmy Hendrix: "Woke Up This Morning and Found Myself Dead" - ouve-se a seguir com Jim Morrison: