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sábado, 20 de agosto de 2011

Slavoj Žižek: Assaltantes de lojinhas do mundo, uni-vos!

Significado das revoltas na Inglaterra, Espanha, etc.

Slavoj Žižek
19/8/2011, Slavoj Žižek, London Review of Books, vol. 33, n, 16
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A repetição, segundo Hegel, tem papel crucial na história: se alguma coisa acontece uma única vez, pode ser descartada como acidente, algo que poderia ter sido evitado se a situação tivesse sido conduzida de modo diferente; mas quando um mesmo evento repete-se, é sinal de que está em curso um processo histórico mais profundo. Quando Napoleão foi derrotado em Leipzig em 1813, pareceu má sorte; quando foi derrotado outra vez em Waterloo, ficou claro que seu tempo acabara. Vale o mesmo para a continuada crise financeira. Setembro de 2008 foi apresentado como anomalia que podia ser corrigida com melhores regulações e controles; hoje se acumulam sinais de quebradeira nas finanças e já é evidente que estamos lidando com fenômeno estrutural.

Dizem e repetem e repetem que atravessamos uma crise da dívida e que todos temos de partilhar a carga e apertar os cintos. Todos, exceto os (muito) ricos. Aumentar impostos sobre muito ricos é tabu: se se fizer isso, diz o mesmo argumento, os ricos não terão incentivo para investir, haverá menos empregos e todos sofreremos mais. A única salvação, nesses tempos duros, é os pobres ficarem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. O que devem fazer os pobres? O que podem fazer?

Embora os tumultos de rua na Grã-Bretanha tenham sido desencadeados pela morte de Mark Duggan, todos concordam que manifestam mal-estar mais profundo – mas que tipo de mal-estar? Como quando se queimaram carros nos subúrbios de Paris em 2005, os agitadores de rua na Grã-Bretanha não tinham mensagem alguma a comunicar. (Há aí claro contraste com as manifestações massivas de estudantes em novembro de 2010, que também geraram violência. Os estudantes deixaram bem claro que rejeitavam as propostas de reformas na educação superior.) Por isso é difícil pensar sobre os agitadores de rua britânicos em termos marxistas, como uma instância da emergência do sujeito revolucionário; encaixam-se muito mais facilmente na noção hegeliana de “ralé”, “escória” [orig. “rabble”], espaços marginais organizados, que manifestam o próprio descontentamento mediante explosões “irracionais” de violência destrutiva – que Hegel chamava de “negatividade abstrata”.

Há uma velha história sobre um operário suspeito de roubo: todas as tardes, ao sair da fábrica, o carrinho-de-mão que ele empurra é cuidadosamente revistado. Os guardas nada encontram; o carrinho está sempre limpo. Até que a ficha cai: o operário roubava um carrinho-de-mão por dia. Os guardas não viam a mais visível verdade, exatamente como os jornalistas e especialistas e autoridades que comentaram os tumultos de rua. Dizem-nos que a desintegração dos regimes comunistas no início dos anos 1990s marcaram o fim da ideologia: o tempo dos projetos ideológicos em grande escala que culminaram em catástrofe totalitária está acabado; teríamos entrado numa nova era de política racional, pragmática. Se o lugar-comum de que vivemos numa era pós-ideológica é correto em algum sentido, pode-se ver nas recentes explosões de violência. Foi protesto de grau-zero, ação violenta sem demandas. Em sua tentativa desesperada para encontrar algum sentido nos tumultos, sociólogos e jornalistas deixaram passar sem qualquer registro o enigma que os tumultos nos impuseram.

Os que protestavam, oprimidos e socialmente excluídos de facto, não vivem risco de morrer de fome. Gente que sobrevive em condições materiais muito piores, sem falar das condições de opressão física e ideológica, tem conseguido organizar-se em forças políticas com agendas políticas claras. O fato de os agitadores não terem programa é, portanto, ele mesmo, fato que exige interpretação: diz muito sobre nossa pregação político-ideológica e sobre o tipo de sociedade em que vivemos – uma sociedade que celebra a escolha, mas na qual a única escolha possível é um consenso democrático obrigatório praticado como repetição sem pensamento [ing. a blind acting out]. 

Nenhuma oposição ao sistema consegue articular-se como alternativa realista, sequer como projeto utópico, e só consegue assumir a forma de explosão sem meta ou significado. O que significaria nossa tão celebrada liberdade para escolher, se a única escolha possível é jogar pelas regras ou a violência (auto) destrutiva?

Alain Badiou argumentou que vivemos num espaço social que cada dia mais é experienciado como “sem mundo” [orig, “worldless”]: nesse espaço, a única forma que o protesto pode assumir é a violência sem sentido. 

Talvez aí esteja um dos principais perigos do capitalismo: embora, porque é global, o capitalismo inclua todo o mundo, ele mantém uma constelação ideológica “sem mundo”, na qual as pessoas são privadas dos meios conhecidos para localizar o significado. A lição principal da globalização é que o capitalismo pode acomodar-se a todas as civilizações, cristã, hindu ou budista, do Ocidente e do Oriente: não há qualquer “visão de mundo capitalista”, nenhuma “civilização capitalista” propriamente dita. A dimensão global do capitalismo manifesta a verdade sem significado.

A primeira conclusão a ser extraída dos tumultos de rua, portanto, é que nenhuma das reações aos tumultos, seja a conservadora seja a liberal, é adequada. 

A reação conservadora era previsível: não há o que justifique tal vandalismo; é preciso usar os meios necessários para restaurar a ordem; para evitar que explosões como aquelas se repitam no futuro, precisamos, não de mais tolerância e ajuda social, mas de mais disciplina, mais trabalho duro e senso de responsabilidade. 

O que há de errado nessa narrativa não é só que ela ignora a situação social de desespero que empurra os jovens para explosões de violência, mas e, talvez mais importante, que ela ignora o modo como essas explosões são eco das próprias premissas ocultas da ideologia conservadora. Quando, nos anos 1990s, os Conservadores lançaram sua campanha de “de volta ao básico”, o complemento obsceno que aí havia foi bem claramente revelado por Norman Tebbitt: “O homem não é só animal social, também é animal territorial; é indispensável incluir em nossa agenda a necessidade de satisfazer esses instintos humanos básicos de tribalismo e de territorialidade”. Porque aquela “volta ao básico” tratava, realmente, disso: de soltar os bárbaros que vegetam por baixo de nossa sociedade burguesa aparentemente civilizada, satisfazendo os “instintos básicos” dos bárbaros. 

Nos anos 1960s, Herbert Marcuse introduziu o conceito de “dessublimação repressiva”, para explicar a “revolução sexual”: os impulsos humanos podem ser dessublimados, ganhar rédea solta, e, mesmo assim, permanecer submetidos aos controles capitalistas – vide a indústria pornográfica [e as novelas e programas humorísticos da televisão brasileira (NTs)]. Nas ruas britânicas, durante os tumultos, o que se viu não foram homens reduzidos a “bestas”, mas a forma nua da “besta” produzida pela ideologia capitalista.

Por sua vez, os liberais de esquerda, não menos previsíveis, agarraram-se ao seu mantra sobre programas sociais e iniciativas de integração, as quais, negligenciadas, teriam privado a segunda e terceira gerações dos imigrantes de suas possibilidades econômicas e sociais: explosões de violência seriam o único meio que ainda têm para articular a insatisfação. Em vez de nos permitir embarcar indulgentemente em fantasias de vingança, devemos nos esforçar para entender as causas profundas dos atos de violência. Saberíamos nós o que significa ser jovem em área pobre racialmente “complexa”, ser considerado suspeito a priori nas batidas policiais, sempre agredido por policiais, não só desempregado, mas muitas vezes, inimpregável, sem esperanças de futuro? A implicação é que as próprias condições em que essas pessoas encontram-se tornariam inevitável que tomassem as ruas. 

O problema dessa narrativa é que só lista as condições objetivas dos tumultos. “Agitar”, “tumultuar” seria fazer uma declaração subjetiva, declarar implicitamente como alguém se relaciona com as próprias condições objetivas de vida.

Vivemos tempos cínicos. Não é difícil imaginar um agitador que, apanhado quando saqueava e incendiava uma loja e interrogado sobre suas razões, responda usando a linguagem dos sociólogos e assistentes sociais: que fale de menor mobilidade social, insegurança crescente, desintegração da autoridade paterna, carência de atenção materna na infância. Ele sabe, portanto o que faz, mas mesmo assim faz.

É perda de tempo ponderar qual dessas duas reações, a conservadora ou a liberal, é a pior: como Stálin diria, as duas são piores, e isso inclui o alerta que os dois lados dão, de que o real perigo dessas explosões está na previsível reação racista da “maioria silenciosa”. 

Uma das formas que essa reação assumiu em Londres foi a atividade “tribal” de comunidades locais (turcos, caribenhos, sikhs), que rapidamente organizaram unidades por “tribos” para vigiar suas propriedades. Os donos de lojas seriam uma pequena burguesia que defende sua propriedade contra um genuíno, embora violento, protesto contra o sistema? Ou seriam representantes da classe trabalhadora combatendo contra forças da desintegração social? Também nesse caso, deve-se rejeitar a ordem para escolher um dos lados. 

A verdade é que o conflito aconteceu entre dois pólos de oprimidos: os que tiveram sucesso e conseguiram operar dentro do sistema versus os frustrados demais para continuar tentando. A violência dos agitadores foi dirigida quase exclusivamente contra seus respectivos grupos. Os carros queimados e as lojas saqueadas não foram queimados e saqueadas em bairros ricos, mas nos próprios bairros onde vivem os incendiadores e saqueadores. Não há conflito entre diferentes partes da sociedade; o conflito é, no seu aspecto mais radical, entre sociedade e sociedade, entre os que têm tudo e os que nada têm, a perder; os que nada apostaram na própria comunidade e os que fizeram as mais altas apostas.

Zygmunt Bauman caracterizou os tumultos como “atos de consumidores defeituosos e não qualificados”: sobretudo, foi manifestação de um desejo consumista atuado [orig. enacted] quando incapaz de realizar-se do modo “certo” – mediante um ato de compra. Nessa medida, os tumultos também contêm um momento de protesto genuíno, sob a forma de resposta irônica à ideologia do consumo: “Vocês nos convocam para consumir e, simultaneamente, nos negam os meios para consumir do jeito “certo”. – Estamos consumindo, do único modo possível para nós!” 

Os tumultos são demonstração da força material da ideologia – excessiva, talvez, em tempos de ‘sociedade pós-ideológica’. De um ponto de vista ideológico, o problema dos tumultos não está na violência como tal, mas no fato de que a violência não é verdadeiramente autoafirmativa. São raiva e desespero impotentes mascarados como exibição de força: é inveja travestida de carnaval triunfante.

Os tumultos devem ser situados também em relação a outro tipo de violência que a maioria liberal percebe hoje como ameaça ao nosso modo de vida: os ataques terroristas e os suicidas-bomba. Nas duas instâncias, violência e contraviolência são apanhadas num círculo vicioso, as duas gerando as mesmas forças que tentam derrotar. Nos dois casos, estamos lidando com passages à l’acte [fr. no original] cegas, nas quais a violência é admissão implícita de impotência. A diferença é que, ao contrário dos tumultos na Grã-Bretanha ou em Paris, os ataques terroristas são postos a serviço de um significado – o Significado absoluto que a religião assegura.

Mas os levantes árabes não foram ato coletivo de resistência que rejeitaram a falsa alternativa entre violência autodestrutiva e fundamentalismo religioso? Infelizmente, o verão egípcio de 2011 será lembrado como o fim da revolução, quando seu potencial emancipatório foi sufocado. Os coveiros são o exército e os islâmicos. Os contornos do pacto entre o exército (que é o exército de Mubarak) e os islâmicos (que foram marginalizados durante os primeiros meses do levante, mas agora estão ganhando terreno) são cada dia mais claros: os islâmicos tolerarão os privilégios materiais do exército e, em troca, garantirão a hegemonia ideológica. Os perdedores serão os liberais pró-ocidente, fracos demais – apesar do dinheiro da CIA – para “promover a democracia”; e os verdadeiros agentes dos levantes da primavera, uma emergente esquerda secular que tentava montar uma rede de organizações da sociedade civil, a partir dos sindicatos e das feministas. 

A situação econômica em rápida deterioração, logo, mais cedo ou mais tarde, levará os pobres, grandes ausentes dos levantes da primavera árabe, às ruas. É bem provável que haja nova explosão, e a pergunta difícil para os sujeitos políticos egípcios é: quem dirigirá, com sucesso, a ira dos pobres? Quem traduzirá essa ira em termos de programa político: a nova esquerda secular ou os islâmicos?

A reação predominante na opinião pública ocidental ao pacto entre islâmicos e o exército no Egito será, sem dúvida, um show de cinismo: nos dirão que, como o caso do Irã (não árabe) mostrou claramente, levantes populares em países árabes sempre terminam em islamismo militante. Mubarak aparecerá como diabo muito menos perigoso – melhor ficar com diabo conhecido que lidar com forças de emancipação. Contra tal cinismo, é preciso permanecer incondicionalmente aliado ao núcleo radical-emancipatório do levante egípcio.

Mas é preciso evitar também o narcisismo da causa perdida: é muito fácil admirar a beleza sublime dos levantes condenados ao fracasso. 

Hoje, a esquerda enfrenta o problema da “negação determinada” [orig. “determinate negation”]: que nova ordem deve substituir a velha ordem, depois do levante, quando houver passado o sublime entusiasmo do primeiro momento? Nesse contexto, o manifesto dos Indignados da Espanha, lançado depois das manifestações em maio, é revelador. O primeiro traço que chama a atenção é o decidido tom apolítico: “Uns de nós consideram-se progressistas, outros conservadores. Uns são religiosos crentes, outros não. Uns têm ideologias claramente definidas, outros são apolíticos, mas todos estamos preocupados e zangados com o quadro político, econômico e social que vemos à nossa volta: corrupção de políticos, empresários, banqueiros, que nos deixam indefesos, sem voz.” Protestam em nome de “verdades inalienáveis que não vemos respeitadas em nossa sociedade: o direito a moradia, emprego, cultura, saúde, participação política, livre desenvolvimento pessoal, direitos do consumidor e a uma vida saudável e feliz”. Rejeitando a violência, clamam por uma “revolução ética”. “Em vez de pôr o dinheiro acima dos seres humanos, devemos pô-lo a nosso serviço. Somos pessoas, não produtos. Não sou o que compro, porque compro ou de quem compro.” 

Quem serão os agentes dessa revolução? Os Indignados espanhóis descartam todos os políticos, à esquerda e à direita, como corruptos e controlados pela ganância e pela sede de poder. Mesmo assim, o manifesto apresenta várias demandas, mas... dirigidas a quem? Não a eles mesmos: os Indignados (ainda) não declaram que ninguém mais fará por eles, que eles mesmos têm de ser a mudança que querem ver. 

E aí está a fragilidade fatal dos recentes protestos: manifestam uma raiva autêntica que não consegue transformar-se em programa de ação positiva para mudança sociopolítica. Manifestam um espírito de revolta, sem revolução.

A situação na Grécia parece mais promissora, provavelmente devido a uma tradição mais persistente de auto-organização progressista (que desapareceu na Espanha depois da queda do regime de Franco). Mas mesmo na Grécia o movimento de protesto padece das limitações da auto-organização: os que protestam estão mantendo um espaço de liberdade igualitária sem autoridade central, um espaço público no qual todos têm o mesmo tempo para falar etc.

Quando os manifestantes começaram a discutir o passo seguinte, como avançar além dos simples protestos, a maioria concluiu que não se precisava de novo partido e que não era o caso de tentar tomar o poder do estado; que o movimento faria pressão sobre os partidos políticos. Evidentemente, é muito pouco para forçar uma reorganização de toda a vida social. Para chegar lá, é indispensável um corpo forte, competente para tomar decisões rápidas e implementá-las com todo o rigor necessário.


Vídeo enviado por: Rédaction Tlaxcala via Vila Vudu em 30/ago/2011
Shoplifters Of The World Unite é título de uma canção do grupo The Smiths


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

 

Publicado em 17/08/2011 por Mair  Pena Neto

No início da semana, um cidadão tomou o ônibus errado em Niterói, e ao perceber o equívoco, já em plena ponte para o Rio, saltou no ponto da ilha de Mocanguê, o único nos 13 km da via expressa, para tentar voltar. Ao buscar recuperar o tempo perdido, tentou atravessar a pista de altíssima velocidade, foi atropelado e morto. Os jornais do dia seguinte destacaram os 30 km e quase sete horas de engarrafamentos provocados pelo acidente. Sobre o homem morto, não identificado, nenhuma linha.

O nó que o acidente causou no trânsito era, sem dúvida, fato jornalístico, e dá para imaginar quantos motoristas praguejaram contra as autoridades pelas horas perdidas no trânsito paralisado. Muitos, possivelmente, condenaram a vítima pela irresponsabilidade de atravessar as pistas da ponte, o que é proibido. Mas ninguém procurou saber da vida daquele homem. Como vivia, se tinha mulher e filhos, se estava desempregado, infeliz. Uma vida humana representa muito pouco na pressa e ansiedade das grandes metrópoles urbanas. Se fosse alguém famoso, ainda vá lá. Mas um zé ninguém, nem estatística é.

Corte para as ruas de Londres na semana passada. Lojas são saqueadas em bairros pobres da cidade e um jovem estudante malaio ferido é roubado por outros dois homens que simulam ajudá-lo. É o horror, a pura delinquência, disparam os comentaristas mais apressados, olhando a situação apenas em sua superfície, sem refletir sobre as causas profundas. Dois acontecimentos diferentes e distantes fisicamente têm uma coisa em comum: uma desintegração social e moral, que nos transforma em animais irracionais, predadores de nossa própria espécie.

Nas grandes cidades, não temos tempo a perder. Todos se apressam para seus trabalhos, numa corrida desenfreada, que atropela valores. O outro se torna um obstáculo. Seja no ambiente profissional ou na figura de um corpo estendido no chão atrapalhando o tráfego. A busca do "progresso" movido a consumo nos desumaniza. E isso se reflete na falta de solidariedade, no pouco tempo para causas comuns e no egoísmo crescente.

A publicidade seduz, especialmente as crianças e os jovens, e a sociedade se divide entre os que têm e os que não têm as marcas da moda. Sem elas, você não pertence aos grupos e torna-se um pária. Tênis, agasalhos e eletrônicos foram os produtos mais visados nos saques de Londres. Assim como um jovem foi morto não faz muito tempo no Rio apenas para que lhe fossem roubados os tênis e a mochila.

A crise social está presente em todo o mundo. Se nos países mais pobres e em desenvolvimento ela pode explodir em protestos mais consequentes por educação e emprego, no mundo rico ela gera revoltas e destruição, como em Los Angeles, em 1992; Paris, 2005, e Londres, agora. Basta um estopim que a pólvora está pronta a explodir. Principalmente quando envolve os responsáveis pela defesa do sistema injusto e excludente e populações marginalizadas. O julgamento dos policiais que espancaram Rodney King em Los Angeles, os dois adolescentes de origem africana mortos quando fugiam da polícia em um subúrbio da capital francesa e o assassinato pela polícia inglesa de Mark Duggan, em Tottenham, bairro pobre de Londres, no início do mês.

O sociólogo polonês Zygmun Bauman descreveu o que aconteceu em Londres como um motim de consumidores excluídos e frustrados, que não tentavam alterar seu modo de vida, e, sim, reproduzir a elite. E advertiu que enquanto não repensarmos a maneira como medimos o bem-estar, balizado por riqueza material, os conflitos continuarão a ocorrer.

A democracia burguesa liberal e neoliberal não coroou o fim da história como defenderam certos historiadores. Ela está soçobrando em crises de diferentes matizes pelo mundo, que precisam ser entendidas como um só fenômeno, com suas particularidades. Resta a esperança que isso se torne a oportunidade de uma transformação para uma sociedade mais justa e solidária, fundada em novos valores, que priorizem o ser humano acima dos valores materiais.

 Mair Pena Neto é um jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.

Enviado por Direto da Redação

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite


Naomi Klein

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques. 

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de “privatizar”, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das “privatizações”, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de “austeridade”. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os “resgates” massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de “direitos adquiridos” pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram.

Presos  longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade – eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua “incitação” levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em: Facebook cases trigger criticism of “disproportionate” riot sentences). Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.



Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado livremente.

domingo, 14 de agosto de 2011

Londres: Demos o troco!

12-14/8/2011, Jeff Sparrow, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

“O capitalismo”, Mark Fisher explicou há alguns anos, “é o que sobra, quando todas as crenças já não passam de rituais ou elaboração simbólica, e só restou o consumidor-telespectador, rastejando entre ruínas e relíquias”. 

Não há mais descrição mais perfeita dos recentes acontecimentos na Inglaterra.

As agitações em Londres não são prova de “sociedade falida”. São, isso sim, com os pobres e oprimidos retomando a própria cidade, prova de sucesso, não de fracasso: conseguiram mostrar ao mundo inteiro a internalização do neoliberalismo e no que deu.

No século 21, nada há de anômalo em alguém passar a mão no que possa, nem em saquear o próprio bairro, para encher a sacola com bugigangas de consumo. Ao contrário: é exatamente assim que o sistema opera. É o que se deve prever que aconteça. É um dado, não é um vírus.

Atrás, nos anos 1970s, os pioneiros do neoliberalismo sabiam perfeitamente que estavam impondo uma doutrina insurgente, agressiva, para destruir identidades coletivas, fossem associadas à esquerda (o sindicalismo é o exemplo mais óbvio) fossem as mais antigas tradições precapitalistas.

“A economia é o método”, disse Thatcher, há muito tempo, “mas nosso objetivo é mudar a alma”. 

As invocações dos Conservadores, que clamam por um “espírito da Blitz”, as baboseiras sobre a Grã-Bretanha do críquete e dos pubs aos domingos e das festas do interior são, portanto, tão hipócritas quanto reacionárias. Esse passado foi sistematicamente demolido pelo compromisso, nos dois partidos, de promoverem as forças do mercado como única forma possível de interação humana. Foi-se para sempre e não voltará.

Em 2011, os cidadãos neoliberais não se definem por classe ou etnia ou localidade ou crença religiosa. Ele ou ela é alguém que compra ou vende commodities: nem mais nem menos.

Assim, quando os vários moralistas de araque clamam para que nos unamos na indignação de 30 segundos contra um menino que a câmera surpreendeu quando assaltava passantes, podemos usar um dito de que Marx gostava muito: “Mude os nomes, e é o seu retrato”. O mais odioso ato dos ‘vândalos’ foi, sem tirar nem pôr, idêntico ao que fazem os que os condenam.

Considerem as imagens, infinitamente repetidas pela televisão, em que se veem alguns jovens que se aproximam de um menino visivelmente machucado e então, a pretexto de socorrê-lo, põem-se a mexer em sua mochila.

Não é o que se viu recentemente? Essas imagens são, sem tirar nem pôr, em microescala, o que fizeram os jornalistas empregados dos jornais de Murdoch.

Lembram-se de como jornalistas e editores de News of the World mostravam imagens de Sara Payne, a desesperada mãe à procura da filha Sarah já assassinada – ao mesmo tempo em que usavam o número de telefone que a mãe lhes dera, para ouvir, clandestinamente, o que a mãe dizia pelo mesmo telefone e apagar antigas mensagens da filha?

Os adolescentes que invadiram as ruas de Londres não estavam imitando Rebekah Brooks. Em vez disso, mostraram que pensam exatamente como ela sobre como funciona o mundo. Em sociedade em que todos procuram maximizar seus lucros individuais, sem qualquer simpatia pelos que sofrem, quem aja de modo diferente é otário, galinha morta.

“[O capital]” – já disse alguém – “Afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquistadas com tanto esforço, pela única e implacável liberdade de comércio. Em uma palavra, em lugar da exploração velada por ilusões religiosas e políticas, a burguesia pôs a exploração aberta, cínica, direta e brutal”. [1]

O que o escândalo dos jornalistas que grampeiam telefones mostrou é que, para boa parte do establishment britânico, esse parágrafo poderia servir como manual operacional [serviria também perfeitamente como manual operacional para as Organizações Globo, em substituição ao patético “Manual de Conduta”, mentiroso do início ao fim, distribuído semana passada, ninguém sabe por que. Taí! Quem as Organizações Globo estão tentando enganar outra vez?! (NTs)].

Por um lado, Brooks e sua gangue de jornalistas só fazem falar de sobreviventes de atos terroristas, de veteranos mutilados e vítimas de crimes; pelo outro lado, vivem de violar sistematicamente todos os mais mínimos direitos das pessoas – a começar pelo direito civil básico de receber informação confiável – sem nem piedade nem vergonha.

Durante a semana passada, vimos os mercados em queda livre, fazendo sumir bilhões de dólares, com impactos catastróficos na vida real de pessoas reais. Alguém será processado e julgado? A simples sugestão gera editoriais e colunas jornalísticas indignados, como se alguém estivesse querendo processar o oceano pelos tsunamis ou que o planeta se retratasse publicamente por uma irupção vulcânica.

Ante esse autismo moral sistêmico, por que alguém espera que os adolescentes dos guetos apareçam e se confessem culpados? Como disse Paul Foot, nada corrompe tanto quanto o poder e esse corrompe completamente. Ninguém poderia culpar os pobres de Londres se fossem tão depravados quanto os mais ricos. Mas aqui está o xis da questão: os pobres de Londres não são tão depravados quanto os mais ricos.

Ah, sim, aconteceram coisas terríveis durante os tumultos. Mas não se pode esquecer que tudo começou em reação ao assassinato de Mark Duggan pela polícia.

Ao longo da última década, só fazem noticiar e noticiar que gente inocente morre todos os dias, a são mortes que não perturbam ninguém. E a invasão do Iraque, aventura criminosa que resultou em centenas de milhares de mortes? Algum dos responsáveis por aquelas mortes foi acusado e julgado? Nenhum deles. Não foram nem jamais serão acusados, julgados ou condenados.

O mesmo acontece com o governo da gangue de torturadores de Bush Filho. Se Barack Obama, o homem mais poderoso da terra, diz que olha para o futuro, não para o passado, automaticamente perdoando os torturadores, como se perdoar torturadores fosse normal, até recomendável, por que esperar que os pobres de Londres buscassem os tribunais, em vez das ruas, para fazer justiça a um deles, vítima da Polícia?

Nos últimos 30 anos, mais de 300 pessoas foram mortas por policiais na Inglaterra, sem que nenhum dos assassinos tenha sido condenado. Que diferença faria uma vítima a mais? Mas o povo de Tottenham protestou e, graças ao seu protesto, ficamos sabendo que a história oficial sobre a morte de Duggan era falsa.

Em outras palavras, o que distinguiu os agitadores não foi a amoralidade que se manifestou em alguns casos. Não há o que louvar nesses casos. Neles se vê o modelo padrão de conduta do capitalismo.

O que distinguiu o movimento dos jovens pobres nas ruas de Londres foi que, apesar de tudo e contra tudo, eles ainda exigem algum tipo de justiça.

A rebelião que se viu nas ruas de Londres foi confusa e contraditória por todos os ângulos que se a examine. E como poderia ser diferente?

“A crise”, ensinou Gramsci, “consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não conseguiu nascer; nesse intervalo aparece enorme varidade de sintomas mórbidos”. 

Agora que caminhamos para outra recessão profunda, vivemos, é óbvio, tempos mórbidos. As ruas de Londres mostraram isso. Mas também mostraram lampejos de movimento muito saudável: a disposição para dar o troco.



Nota de tradução
[1]  Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels, 1848.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

David Harvey: “O capitalismo bestial ataca nas ruas”


David Harvey

 12-14/8/2011, David Harvey, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


David Harvey é Professor Emérito do Graduate Center da City University of New York.
Pode ser encontrado através de sua página.

“Adolescentes niilistas e bestiais”. Foi como o Daily Mail apresentou-os: os jovens enlouquecidos, vindos de todas as vias da vida, que correram pelas ruas sem pensar,  desesperadamente atirando tijolos, pedras e garrafas contra os policiais, saqueando aqui, incendiando ali, levando as autoridades a uma também enlouquecida caçada de salve-se quem puder/agarre o que conseguir, enquanto os jovens iam alterando seus alvos estratégicos, saltando de um para outro.

A palavra “bestial” saltou-me à vista. Lembrou-me que os communards em Paris em 1871 foram mostrados como animais selvagens, como hienas, que mereciam ser (como foram, em vários casos) sumariamente executados, em nome da santidade da propriedade privada, da moralidade, da religião e da família. Mas em seguida a palavra trouxe-me outra associação: Tony Blair atacando a “mídia bestial”, depois de ter vivido por tanto tempo confortavelmente alojado no bolso esquerdo de Rupert Murdoch, até que Murdoch meteu a mão no bolso direito e de lá tirou David Cameron.

Evidentemente haverá o debate histérico de sempre entre os sempre prontos a ver a agitação das ruas como questão de pura, simples e imperdoável criminalidade, e os ansiosos por contextualizar eventos em termos de polícia incompetente; de eterno racismo e injustificada perseguição aos jovens e às minorias; de desemprego em massa entre os jovens; de pauperização incontrolável da sociedade; de uma política autista de austeridade que nada tem a ver com a economia e tudo tem a ver com a perpetuação e a consolidação da riqueza e do poder individuais. Haverá até quem condene o sem sentido e a alienação de tantos trabalhos e empregos e tal desperdício da vida de todos os dias, de tão imenso, mas desigualmente distribuído, potencial para o florescimento humano.

Se tivermos sorte, haverá comissões e relatórios que dirão tudo, outra vez, que já foi dito sobre Brixton e Toxteth nos anos Thatcher. Digo “sorte”, porque os instintos bestiais do atual primeiro-ministro parecem tender mais a mandar usar canhões d’água, a convocar a brigada do gás lacrimogêneo e a usar balas revestidas de borracha, ao mesmo tempo em que ele untuosamente pontifica sobre a perda da bússola moral, o declínio da civilidade e a triste deterioração dos valores da família e da disciplina entre os jovens sem lar.

Mas o problema é que vivemos em sociedade na qual o próprio capitalismo se tornou besta fera rampante. Políticos-feras mentem nos gastos, banqueiros-feras assaltam a bolsa pública até o último vintém, altos executivos, operadores de hedge funds e gênios do lucro privado saqueiam o mundo dos ricos, empresas de telefonia e cartões de crédito cobram misteriosas tarifas nas contas de todos, varejistas aumentam preços, por baixo do chapéu artistas vigaristas e golpistas aplicam seus golpes até entre os mais altos escalões do mundo corporativo e político.

Uma economia política de saqueio das massas, de práticas predatórias que chegam ao assalto à luz do dia, sempre contra os mais pobres e vulneráveis, os simples e desprotegidos pela lei – isso é hoje a ordem do dia. Alguém ainda crê que seja possível encontrar um capitalista honesto, um banqueiro honesto, um político honesto, um comerciante honesto ou um delegado de polícia honesto? Sim, existem. Mas só como minoria, que todos os demais consideram idiotas. Seja esperto. Passe a mão no lucro fácil. Fraude, roube! A probabilidade de ser apanhado é baixa. E em qualquer caso, há muitos meios para proteger a fortuna pessoal e impedir que seja tocada pelos golpes das corporações.

Tudo isso, dito assim, talvez choque. Muitos de nós não veem, porque não queremos ver. Claro que nenhum político atreve-se a dizer essas coisas e a imprensa só publicaria, se algum dia publicasse, para escarnecer de quem dissesse. Mas acho que todos os que correm pelas ruas agitando a cidade sabem exatamente a que me refiro. Estão fazendo o que todos fazem, embora de modo diferente – mais flagrante, mais visível, nas ruas. O thatcherismo despertou os instintos bestiais do capitalismo (o “espírito animal” do empreendedor, como o chamam timidamente) e, desde então, nada surgiu que os domasse. Destruir e queimar é hoje a palavra de ordem das classes dominantes, de fato, em todo o mundo.

Essa é a nova normalidade sob a qual vivemos. Isso deveria preocupar o presidente do inquérito que logo será nomeado. Todos, não só os jovens agitadores, devem ser chamados à falas. O capitalismo bestial deve ser levado a julgamento por crimes contra a humanidade, tanto quanto por crimes contra a natureza.

Infelizmente, isso é o que os agitadores nem veem nem exigem. Tudo conspira para nos impedir de ver ou exigir exatamente isso. Por isso o poder político tão facilmente se traveste na roupagem da moralidade e de uma razão repugnante, de modo que ninguém veja a corrupção nua e a irracional estupidez.

Mas há réstias de esperança e luz em todo o mundo. O movimento dos indignados na Espanha e na Grécia, os impulsos revolucionários na América Latina, os movimentos camponeses na Ásia, todos esses começam a ver através da imundície que o capitalismo global, predatório, bestial lançou sobre o mundo. O que ainda falta para que todos vejamos e comecemos a agir? Como se poderá começar tudo outra vez? Que rumo tomar? As respostas não são fáceis. Mas uma coisa já se sabe: só chegaremos às respostas certas, se fizermos as perguntas certas.