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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pepe Escobar: "Liberdade duradoura sem fim"

9/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Enduring freedom forever
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Em vão o ocidente busca uma modalidade de agonia final que valha o seu passado.
- E M Cioran

“Operação Liberdade Duradoura” [ing. Enduring Freedom] é o nome que o governo dos EUA deu à sua resposta oficial, militar, ao 11/9. Era para chamar-se “Operação Justiça Infinita”; mas algum apparatchik descobriu que “justiça infinita” é uma das definições de Deus. Dez anos depois do 11/9, os fatos em campo gritam ao mundo chocado e apavorado que, de duradouro, lá, há muita guerra e justiça nenhuma; quando à liberdade, que encolhe sem parar e rapidamente, não passa de outro nome para tudo que lá, está posto a perder.

Osama bin Laden costumava definir o 11/9 como Yaum Niu York (“o dia de New York”). Mal sabia o hoje cadáver decomposto no fundo do Mar da Arábia que dispararia um início de século 21 em formato de terra arrasada que, em matéria de língua, só conheceria o duplifalar militarizado [1].  

O Marco Zero expandiu-se para a guerra global ao terror [ing. global war on terror (GWOT)] nomeada por George Bush, guerra sem sentido contra guerra tática. Um Pentágono mais realista chamou-a “A Longa Guerra”. A segurança nacional dos EUA metamorfoseou-se em “Segurança da Pátria” [ing. Homeland Security]. A hiperpotência ameaçada correu a fabricar um assustado triturador de liberdades civis, a Lei Patriota [ing. Patriot Act], aprovada por Bush em outubro de 2001, e consagrada como lei permanente em março de 2006.

Para Washington, o 11/9 jamais teve algo a ver com retaliação. Aconteceu por culpa de um sistema disfuncional com falha de imaginação. Depois do fato, a opinião pública mundial nunca mais parou de ser massageada por um exército de criadores de mensagens, de especialistas da Defesa a técnicos de segurança. E uma chuva de Códigos Laranja, altas preocupações com segurança e alertas não específicos manteve as massas nos EUA em estado perene de prontidão para debandar.

Em velocidade superior à velocidade da propagação dos boatos, Humint, Sigint, Imint (serviços de inteligência humana, de sinais e de imagens), apoiados por Techint e CI (serviços de inteligência técnica e Contrainteligência), fundiram-se num enxame de psyops (agentes encarregados de táticas psicológicas, quase sempre baseados em péssima humint). Mas para toda essa sapiência técnica reunida e unificada, o governo dos EUA só conseguiu produziu um objetivo impalpável: a Total Consciência de Informação [ing. Total Information Awareness (TIA) – projeto megalômano, ao estilo do Dr. Strangelove [2], parido pela Agência de Projetos Avançados de Pesquisa da Defesa [ing. Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), do Pentágono.

Depois do fim da URSS, uma al-Qaeda praticamente inexistente foi elevada ao status de coringa global. Foi numa referência a uma al-Qa'eda al-Askariyya (“a base militar”), uma fachada obscura cuja existência foi oficialmente reconhecida dia 23/2/1998 como parte de uma Frente Islâmica Mundial [ing. World Islamic Front] para combater judeus e cristão, fundada em reunião em Peshawar, Paquistão.

Bin Laden sempre caracterizou a al-Qaeda como rede maleável de treinamento e combate – e exortava os cavaleiros do Islã a combater. Bin Laden foi essencialmente um wahhabista fundamentalista que sentia como dever combater a jahiliyya (“ignorância”), entendida tanto no sentido do fundamentalista egípcio Sayyid Qutb (“regimes árabes infiéis”), quanto no sentido de “ignorância” predominante antes da chegada do Islã no século 7º.

Em vez de deixar-se bombardear até ser devolvido à Idade da Pedra, o Paquistão, no governo do então presidente Pervez Musharraf (ou “Busharraf”) uniu-se à Guerra ao Terror. Em tela planetária, os jihadis – ou islamo-fascistas – foram universalmente tratados como os bandidos, enquanto os mujahideen foram os mocinhos, promovidos a “combatentes da liberdade” durante a Jihad antissoviética dos anos 1980s.

No Afeganistão, os Talibã foram devidamente bombardeados para fora do governo. Bin Laden e Ayman al-Zawahiri sumiram de Tora Bora e mergulharam num buraco negro. Então, o lado escuro da força foi convertido em nova normalidade.

Ardam, trilhões, ardam
A aventura de Bush no Iraque – vendida ao mundo pelo informante codinome “Folha Seca” [ing. Curveball], também conhecido como desertor iraquiano de araque Rafid Ahmed Alwan – foi a primeira guerra da história integralmente paga por cartão de crédito.

Em 2008, Joseph Stiglitz e Linda Bilmes calcularam que as guerras do Iraque e do Afeganistão já haviam custado mais de $5 trilhões (e aumentando). Só gastos diretos do governo dos EUA foram cerca de $2 trilhões (e aumentando) – $17 mil dólares por família norte-americana.

Antes, em 2002, o poder real em Washington circulava em torno do Escritório de Planos Especiais [ing. Office of Special Plans] – office com nome de unidade soviética, dedicado a provar que havia contato direto entre o Iraque e a al-Qaeda. Quem não fosse conhecido ali, estava por fora – o mesmo destino que tiveram as críticas da guerra depois da tomada de Bagdá em abril de 2003.

Para os neoconservadores – que nada sabiam sobre o Iraque –, o que contava era a teoria positiva do dominó: invadir o Iraque geraria uma onda democrática em todo o mundo árabe. Os árabes, afinal, tornar-se-iam cidadãos-modelo dos EUA.

A junta Bush-Dick Cheney pode bem dita responsável pela sacralização da guerra preventiva [ing. pre-emptive war] (que a legislação internacional só admite em caso de perigo iminente). Essa foi a doutrina Bush, anunciada em janeiro de 2002. Mas, depois da [operação] Choque e Pavor [ing. Shock and Awe], a muqawama (“resistência”) iraquiana já tinha outras ideias.

Os iraquianos sunitas reuniram-se em torno da “resistência”, não em torno da “libertação nacional”, expressão que os EUA preferem para designar guerrilha que dá em nada, e de cujas conotações apagam-se todos os traços de revolta, revolução e guerra civil.

Rapidamente as operações de automartírio – o “suicida-bomba” para o ocidente, conhecido em árabe como amaliyya intihariyya (“missão suicida”) – passaram a ser lei da terra. Todos os noticiários transbordavam de “artefatos explosivos improvisados” [ing. improvised explosive devices (IEDs)] – que logo evoluíram para VBIEDs (quando os IEDS eram montados em veículos); “artefatos para dispersão de produtos radiativos” [ing. radiological dispersal devices], também conhecidos como “bombas sujas”; e “penetradores para ação explosiva” [ing. explosively formed penetrators]. Não haveria paraíso seguro para ninguém (além da tautologia, porque paraíso que não seja seguro não é paraíso).

A superpotência passou então a ser governada por um princípio bomba-relógio – segundo o qual os EUA não se poderiam dar o luxo de jogar como manda a regra. E, sempre, com carência de informação acionável. Daí o tic-tac eterno, ameaçador, das regras de conduta em combate: os Marines dos EUA, por exemplo, seguem a regra do dos 4 Ss: Shout, Show, Shove, Shoot, Shoot [“Grite, tire-o do veículo, empurre, atire”] – na qual “atire” sempre atropela as outras fases. [3]

Repetidos beliscões nas regras inevitavelmente levaram a um conjunto alternativo de procedimentos: técnicas controversas de interrogatório; técnicas ampliadas de interrogatório; técnicas desumanas de interrogatório e até magia negra empregada contra combatentes inimigos (a distinção que havia antes de 11/9, entre inimigo e combatente ilegal, desapareceu completamente).

Tornou-se imperativo mandar magotes de combatentes inimigos ou terroristas suspeitos de alto valor para a Instituição Correcional de Bagdá – também conhecida como Central de Tortura Abu Ghraib, onde biscuits (membros das Behavioral Science Consultation Teams [Equipes de Consultores em Ciências do Comportamento]), treinados na escola do SERE (Survival, Evasion, Resistance and Escape [Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga] do Forte Bragg) conduziria os interrogatórios.

Os biscuits foram introduzidos na famosa prisão de Guantánamo pelo major-general Geoffrey (“Temos de Guantanamizar”) Miller e depois transplantados – com sucesso – para Ghraib. Guantanamizar significa o espetáculo sinistro da nudez forçada, ganchos na pele, homens atados em posições de estresse com dor, ataques com cães e simulação de emparedamento e de afogamento – remix do que, na era Vietnã chamava-se pump and dump [arrancar e descartar] (arrancar a informação e descartar o cadáver).

Os excessos, evidentemente, não são culpa das políticas de George (“Esses detentos têm de ser tratados como cachorro”) Miller; são culpa de umas poucas maçãs pobres. E que se lixe quem lembrar de Convenções de Genebra.

O mundo conheceu também as “entregas extraordinárias” [ing. extraordinary rendition] – ações de sequestro e deportação ilegal cometidas pelo Estado – graças a uma frota de aviões-fantasmas da Agência Central de Inteligência [ing. Central Intelligence Agency (CIA)]. A prática de terceirizar a tortura foi, de fato, assassinato contratado com agências estatais de segurança do Egito, Jordânia, Síria, Líbia, Marrocos, Arábia Saudita, Paquistão e Uzbequistão, todas adeptas de ferver partes do corpo e eletrocutar genitálias.

Com a primeira matança no Iraque, a empresa Blackwater – depois rebatizada Xe – tornou-se o Santo Graal do complexo evangélico-mercenário, além de hordas de empresas contratadas pela Defesa e outros agentes contratados de segurança privada – conhecidos também como “mercenários”.

Apologistas do memorando de tortura de agosto de 2002 elogiaram com selvageria os soldados norte-americanos que se alistaram na legião da tortura, ao som de piadinhas sobre tortura light. Para Dick “Peixe morre pela boca” Cheney, simulação de afogamento era “coisa simples”, “um mergulho na água”.

Mas, aí, então, o Iraque virou areia movediça. A Junta Bush-Cheney decidiu ordenar uma Babel de avaliações da guerra e criar um inferno categoria "de referência", ordenando uma “avançada” [ing. surge], enquanto prosseguia a construção da Fortaleza Bagdá [ing. Fortress Baghdad] – também conhecida como Embaixada dos EUA, a maior do mundo.

E então a guerra no Afeganistão, como morcego dos infernos, saiu do prolongado coma para vingar-se, sob a forma de guerra EUA-Europeia contra os pashtuns – guerreiros de primeira classe que sempre derrotaram impérios que aparecessem por lá. A receita para uma “vitória” ocidental teria de ser mais uma “avançada” [ing. surge].

Do nosso jeito, ou pé na estrada... (Our way or the highway[*])
A Longa Guerra do Pentágono não deu conta; o povo do norte da África, sim. A Primavera Árabe derrotou o 11/9 e derrotou a al-Qaeda. Derrotou até Osama bin Laden antes do ataque a Abbottabad (assassinato de alvo predefinido [ing. targeted assassination], por um comando, depois da invasão do espaço aéreo de estado soberano).

Mas, como a Primavera Árabe também parece ter derrotado a falácia da Santíssima Trindade – islamofobia, choque de civilizações e o fim da história...

... Tudo se tornou “cinético”, mediante a Operação Aurora da Odisseia [ing. Operation Odyssey Dawn]. Washington, Londres e Paris decidiram ignorar a lei internacional vigente desde o Tratado de Westphalia de 1648.

A R2P – “responsabilidade para proteger” civis – passou pelo batismo balístico, perfeita cobertura humanitária para defender os interesses e a economia do Atlântico. Com a vantagem adicional de Barack Obama, agraciado com o Prêmio Nobel da Paz e grande desenvolvedor de guerras, estar presidindo a conversão da OTAN em Robocop global – com ou sem luz verde da ONU. O ocidente ganhou saco novo em folha: uma milícia global.

O Iraque – contornando a ONU – foi assunto de mudança de regime. A Líbia – com a bênção da ONU – foi assunto de mudança de regime, por mais que Obama jure que não.

Dez anos depois de 11/9, a Longa Guerra está metamorfoseada em guerra de quatro gerações – teoricamente, “nova” guerra assimétrica cum contrainsurgência. Bem-vindos à CIA convertida em milícia paramilitar. Bem-vindos ao Drone-istão – MQ-1 Predators marca General Atomics atirando contra militantes, livres para provocar qualquer dano colateral, por mais impressionante que seja – como foi feito para acabar com casamentos de pashtuns.

Bem-vindos também ao Comando das Operações Especiais Conjuntas [ing. Joint Special Operations Command (JSOC)], desenvolvido pelo ex-herói da avançada no Iraque e atual diretor da CIA general David Petraeus, como “máquina de matar terroristas em escala quase industrial”, na definição de John Nagl, fantoche de Petraeus.

O Comando de Operações Especiais Conjuntas, JSOC, é o que, na América Latina nos anos 1970s se conhecia como “esquadrão da morte”, só que agora sob comando direto do Pentágono; mestres em matar/capturar, apoiados em premissa ou legal-por-um-fio ou absolutamente extra-legal, que recebem uma lista de pessoas a serem assassinadas e lista que, eventualmente, também inclui cidadãos norte-americanos.

Esse círculo será rompido? Claro que não. O “modo americano de guerrear” [ing. american way of war] de Obama – que atingiu a perfeição de mortes-zero, como na Líbia – tem exatamente os mesmos objetivos que o de Bush.

O Pentágono deixará o Afeganistão e o Iraque entregue a corpos coletivos mortos. O Pentágono estabelecerá sua base do Africom na Líbia. Sob um dilúvio de sabidos não-sabidos, de não-sabidos não sabidos, essas, sim, são as dores do parto de um novo Oriente Médio. O que realmente conta é a obsessão do Pentágono por controlar todo o arco de instabilidade.

Lembrem a retórica eufórica dos neoconservadores de Washington entre o discurso do eixo do mal no início de 2002 e a invasão do Iraque, em março de 2003: “homens de verdade vão para Teerã”. O reizinho de Playstation da Jordânia e o arquicontrarrevolucionário rei da Arábia Saudita não deixarão de repetir agouros sobre o crescente xiita, como ameaça existencial.

Corações e mentes furiosos e/ou descartados em todo o arco de instabilidade continuarão alienados. Reinarão todas as variantes da retaliação. Por exemplo, pode-se  cronometrar o tempo que falta para que a Líbia seja estuprada pelas potências da OTAN. Retaliação? Tragam o pessoal para tratamento pela CIA/Pentágono. Fácil. Mamão com açúcar.

E então, a besta imunda, quando chegar a hora do parto, curvar-se-á em que direção... Kabul? Bagdá? Trípoli? Riad?

Não há fim de jogo à vista. Esse é o verdadeiro significado de “Mission Accomplished” [“Missão Cumprida”]. Dez anos depois do 11/9, continua aberta a estrada que leva à guerra. A missão era essa. É missão para sempre.

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Notas dos tradutores
1. Tiro o chapéu para o falecido Fred Halliday, do Barcelona Institute for International Studies, que compilou Shock and Awed: a dictionary of the war on terror (University of California Press, 2010).

2. Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb  (no Brasil, “Dr. Fantástico”) é filme de 1964, dirigido por Stanley Kubrick.

3. “Quando o veículo se aproxima, o soldado deve aplicar a “regra dos 4 Ss: Shout, Show, Shove, Shoot) [“Grite, tire-o do veículo, empurre, atire”]. (...) Segundo essas regras, o soldado deve esperar até comprovar que o motorista está cometendo ato hostil ou demonstrando atitude hostil, antes de iniciar o procedimento”


[*] Rock punk, pode ser ouvido (com letra).  O título é Our way or the highway to hell [Do nosso jeito ou pé na estrada direto para o inferno].

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A volta do cipó de aroeira

O anunciado colapso do mercado de títulos do Tesouro dos EUA, previsto para ocorrer no segundo semestre, lança mais que sombras, lança rolos de cinzas sobre as perspectivas de futuro imediato para todo o mundo.

A hoje superada solidez econômico-financeira dos EUA, que lhes permitiu tornarem-se a maior economia do planeta, foi alicerçada, entre outros, sobre três pilares: a liderança da produção e da inovação industrial, o dólar como divisa mundial de reserva necessária a operações externas como a compra de petróleo, e os títulos do Tesouro, entesourados pelos bancos centrais e comerciais e por investidores de porte. Papel para comprar bens e serviços: o melhor negócio do mundo desde que um papa passou a vender indulgências plenárias aos aspirantes ao céu católico.

Mas, de uma posição de detentor de 52% da economia mundial após a Segunda Guerra, hoje os EUA respondem por cerca de 20% do PIB mundial, sua produção industrial chega apenas a pouco mais de 10% do seu PIB, e vêem alguns de seus grandes parceiros, quase todos da Europa (Reino Unido, Itália, etc.), naufragar em crises sistêmicas que ameaçam até mesmo construções políticas fundamentais como a União Européia, e o Japão imergir em catástrofes e problemas que o imobilizam. As três crises, do dólar, dos títulos do Tesouro e dos déficits, somadas à ausência de leis do território de ninguém em que operam bancos que mais parecem grupos de crime, asfixiam a economia dos EUA progressivamente.

Além disso, a época assiste à emergência de novos poderes globais em acelerado desenvolvimento, como os nucleares China e Índia, que contam com territórios e vastas populações essenciais para alavancar sua projeção internacional; e de atores menores, mas pródigos em território, fontes de energia e ambientes especiais ricos e diversos, como a nuclear Rússia, e em território, fontes variadas de energia, terras agricultáveis, sol, biodiversidade, recursos minerais, paraísos tropicais de serviços e turismo, muita água e florestas, etc., como o Brasil. Outros países, como África do Sul, México, Coréia do Sul, Turquia, etc., aportam também com expressão no cenário internacional. Prevê-se que a China torne-se a maior economia do planeta entre 2025 e 2030.

As diferenças entre a América Latina das décadas de 1960-70 e a de hoje revela o vasto grau de mudanças em ebulição no mundo contemporâneo. Após ter sido tomada por um colar de ditaduras militares assassinas e repressoras, no contexto da Guerra Fria, apoiadas e/ou instaladas pelos EUA, a emergência e consolidação de novas forças sociais e o enfraquecimento da ação do império possibilitaram o panorama atual, em que as populações de países como Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai, Peru e outros elegem governos voltados à promoção da ascensão social e econômica das camadas mais pobres e ao exercício dos direitos civis.

A solução militar

A recomposição geopolítica derivada desses macrofenômenos tem levado o império – que vive hoje a braços com a maior recessão desde mais de um século, desemprego crônico (há 40 anos não há aumento real para os salários), concentração de renda e aumento da desigualdade social, além da perda de vitalidade econômica –, cada vez mais, a uma posição em que sua única arma são exatamente as armas e seu poderio militar montado sobre o chamado “império de bases”, mais de 1,5 mil instalações (contadas as de Iraque e Afeganistão) em mais de 70 países.

Com orçamento militar maior que a soma de todos os dos outros países reunidos (levados em conta os gastos militares paralelos de vários órgãos associados); indústria de armamentos imbricada com entidades e interesses financeiros, políticos e militares; a conhecida “porta giratória” de lideranças que transitam entre universidades, think tanks, corporações e as estruturas militar e civil de governo; e a constituição de vastíssimas redes de paramilitares, de mercenários, de vigilância e repressão, de controle interno e de assassinatos extrajudiciais; só restou ao império o lucrativo empreendimento das guerras ininterruptas. A rede de assassinatos extrajudiciais, ampliada por BHObama, emprega hoje mais de 60 mil das chamadas “forças especiais”, que operam em cerca de 75 países.

O poder imperial

Mas mesmo esse ambiente de destruição, rapina e conquista, que hoje se espraia por Iraque, Afeganistão, Paquistão, Yemen, Líbia, Somália, Sudão, Colômbia, Costa do Marfim e outros, e desborda para intervenções em regiões como o Oriente Médio, o Sul da Ásia e a Ásia Central, além de desvendar os reais interesses geopolíticos do império, tem contribuído, não para o sucesso, mas para a progressiva ruína imperial. Antes arautos da “democracia” e da “liberdade”, os EUA são o maior poder repressor, torturador e assassino da história contemporânea. Em realidade, o poder real nos EUA acha-se longe de políticos e outros agentes secundários, mas é exercido pelo chamado “Estado Profundo” (Deep State). E conta com agentes de primeira linha, acima dos mecanismos políticos, como o polêmico Bilderberg Group.

É atribuído aos mentores de Osama Bin Laden o pensamento de a melhor estratégia para derrotar o império ser o fomento de muitas guerras assimétricas, em que terroristas, guerrilheiros e forças esparsas atuam contra exércitos pesados e estabelecidos. O objetivo desses mentores vem se realizando com precisão matemática: o império acha-se afundado em déficits crônicos e gigantescos, que tornam as finanças dos EUA caso centenas de vezes mais grave que, por exemplo, o das da Grécia. Repete-se o ocaso do último império desaparecido, o soviético, que encontrou seu fim no Afeganistão, e dissolveu-se logo após a retirada das tropas invasoras derrotadas.

Uma rede de imprensa corporativa concentrada em poucas mãos, dócil e parcial, dedica-se à compra de “corações e mentes” para apoio a essa avalanche de conquista. A dependência do país das fontes de energia do Oriente Médio favoreceu suas alianças com as mais odiosas e longevas ditaduras do planeta, outro campo em que o despertar dos povos árabes coloca sob ameaça as práticas imperiais.

Mas os resultados concretos, se geram lucros fáceis a corporações industriais e de segurança e bancos e rendem empregos régios à elite política e militar, também mostram, no médio prazo, a falência de uma orientação que termina sempre por voltar-se contra seus autores. A vergonhosa retirada do Sudeste asiático e do Vietnã foi apenas um dos véus que se levantaram e vêm sendo levantados, e que expõem, numa palavra sintética, a derrota do império em seu campo de excelência, a guerra.

Derrotas no Irã

Após depor em 1953 o nacionalista iraniano Mohammad Mossadegh,que havia retirado o petróleo&gás das mãos dos britânicos e orientado a aplicação de suas riquezas ao país, os EUA e aliados empossaram e armaram o xá (rei) Reza Pahlevi, para opor-se aos soviéticos em plano internacional e aos insurgentes internos comunistas, anarquistas, republicanos e de muitas outras correntes. A revolução islâmica do aiatolá Ruhollah Khomeini em 1979 herdou o Irã armado e projetou um radical inimigo dos EUA-OTAN com apoio da população, exausta de ser oprimida e assassinada pela polícia política do xá, a sem limites de crueldade Savak. Khomeini comandou a queda do xá de Paris, do exílio, o que mostra o alcance de sua liderança e também da insatisfação geral no país.

De 1980 em diante, armado com armas convencionais e químicas por soviéticos (em reação ao assassinato de partidários comunistas por Khomeini), estadunidenses e britânicos, esses incondicionais e eternos aliados do império (as posições das potências foram fluidas e cambiantes), o ditador do Iraque Saddam Hussein empreendeu guerra contra o Irã dos aiatolás, que durou até 1988 e deixou mais de 1 milhão de mortos.

Batata quente, o Iraque de Saddam tornou-se alvo do império três anos depois, com a primeira guerra de Bush pai contra o país após a invasão do Kuwait, anteriormente ‘posse’ iraquiana numa região em que os territórios e as fronteiras de países e divisas de dezenas de etnias são estabelecidos nos mapas ao sabor das decisões dos poderosos do momento. O amigo de antes havia se transformado na grande ameaça ao equilíbrio precário do conflagrado Oriente Médio. Em 2003, o filhote de Bush “terminou o serviço” e, logo após, enforcou Saddam, antes que a batata pudesse falar e queimar a boca. Com isso, os EUA herdaram mais uma gigantesca derrota, na qual ainda se acham mergulhados com mais de 50 mil tropas, sem poderem sair e com perdas maiores se ficarem.

Derrotas no Afeganistão

Com base em interesses nunca confessados, já que todas as 16 agências de Inteligência do país declararam-se “surpreendidas”, Bush filhote acusou, 1 hora após a segunda explosão, Osama Bin Laden e a Al Qaeda pelos atentados false flag de setembro de 2001 e, logo após, invadiu o Afeganistão, em nome de terminar com o “apoio” do Taleban ao agora ‘inimigo número 1. Ao mesmo tempo, fez o Congresso, em estado de choque, aprovar a legislação mais fascista da história do país, o Patriot Act, que estabeleceu o controle total sobre os cidadãos, rasgou a Constituição, criou o aparato nazista da Homeland Security (orçamento de 65 bilhões de dólares) e acelerou a militarização das polícias e de outros organismos, como a FEMA, antes dedicada a ações de emergência em catástrofes e, a partir daí, também a ações contra “multidões e emergências sociais”.

Dez anos depois, acham-se atolados de novo, e perdem a guerra assimétrica com 100 mil tropas próprias mais 50 mil tropas da subserviente OTAN mais cerca de 100 mil tropas paramilitares e mercenárias, cujos agentes ganham cerca de dez vezes mais que os soldados regulares e são pagos pelos Departamentos de Defesa e de Estado e pelos contratistas, que ganham dezenas de vezes mais que todos juntos. As guerras do império são hoje um conjunto de atividades terceirizadas; sem dúvida, o maior negócio do século.

As estratégias obedecem, não a análises de Inteligência ou a critérios de planejamento de especialistas, mas, antes, a caminhos que podem render mais e mais dinheiros e lucros com juros. O hoje chefe do Departamento de Defesa e do Pentágono, Leon Panetta, saiu da direção da CIA, e o hoje chefe da CIA, general Petraeus, saiu do comando do Centcom, um dos seis braços militares do Pentágono que gere as guerras no Oriente Médio e Ásia Central. Apregoa “sucesso” com suas estratégias de aumento de tropas, assinadas sem chance de mudança pelo refém-presidente BHObama. Os números clamam pela verdade: ataques do inimigo aumentaram mais de 50%, e nunca morreram tantos soldados loiros de toda forma e feição e procedência. O Afeganistão confirma sua milenar marca histórica como “túmulo de impérios”. Mais uma derrota à vista para o acervo imperial.

As operações no Afeganistão contra os invasores soviéticos desde as origens foram realizadas com apoio do Paquistão e de seu serviço de Inteligência, ISI – Inter-Services Intelligence, sob batuta do MI6 e da CIA, cada vez mais uma subsidiária do Pentágono. Um dos primeiros combatentes, milionário e chefe de grupos treinados e armados para luta contra os soviéticos, era o saudita Osama Bin Laden, da mesma nacionalidade da maioria dos acusados pelos atentados de 2001. Osama Bin Laden organizou mais tarde uma rede de combate aos interesses dos aliados e de todos os “infiéis”, configurando mais uma derrota para o império.

Chalmers Johnson

O recém-falecido analista militar e ex-oficial da Marinha Chalmers Johnson cunhou algumas expressões para esses eventos. A mais conhecida é “império de bases”, traço fundador do atual império em definhamento. Outra é “blowback”, algo como ‘choque pra trás’, ou tiro pela culatra, que foca os resultados indesejáveis das ações guerreiras do império. O persistente e contínuo crescimento dos movimentos terroristas e de grupos armados em oposição às ações imperiais é claramente uma demonstração dos equívocos das políticas de guerra e de extermínio levadas à frente pelos sucessivos governos, sempre iguais entre si, que se alternam no poder nos EUA.

O ex-chefe do Centro de Contraterrorismo da CIA em 2005-2006, Robert Grenier, esclarece a questão do blowback de forma clara ao afirmar: “... não é só a questão dos números de militantes que estão operando naquela área [Af-Pak], também pesa a motivação daqueles militantes... Eles se vêem agora como parte de uma ‘guerra santa’ (jihad) global. Eles não estão apenas focados em ajudar muçulmanos oprimidos na Cachemira ou tentando ajudar a combater a OTAN e os estadunidenses no Afeganistão, eles se vêem como parte de uma guerra global, e assim são uma ameaça muito maior do que eram antes. Assim, de certa forma, nós colaboramos para criar a situação que mais temíamos”.

Paquistão, amigo inimigo

Dois exemplos recentes fecham a questão de modo definitivo. Os aliados transformaram o Paquistão em país nuclear e basearam sua guerra afegã na colaboração paquistanesa. A questão é que o atual inimigo Taleban é oriundo dos mais de 20 milhões da etnia pashtun, que vivem há milênios em terras próprias que os britânicos separaram em 1893 com a Linha Durand, consagrada com a separação entre Índia e Paquistão em 1947. A linha separa hoje Afeganistão e Paquistão. Perante o crescimento do Taleban e de forças menores que o apóiam, fez-se necessário ampliar a guerra aos territórios pashtun do Paquistão. Na novilíngua pentagonal, a guerra passou a ser referenciada como Af-Pak. O Paquistão deixou de ser aliado e passou a ser parte do problema.

Diariamente aviões sem pilotos, os “drones”, bombardeiam aldeias e vilas nos dois lados da linha. Os drones são comandados a partir de uma base militar nos EUA, e representam a tendência mais forte da guerra hoje. O problema é que as informações de orientação nem sempre são fidedignas. Assim, as vítimas dos bombardeios são sempre na maioria civis, famílias inteiras muitas vezes. Mais de 80% da população do Paquistão quer que os EUA saiam de vez do país.

No Afeganistão, sem pesquisas, talvez os números sejam maiores. Os EUA tentam adquirir a colaboração do Pak com dólares: já foram entregues mais de 7 bi aos militares ao longo de anos para garantir seu empenho na “guerra ao terror”. Mas, blowbackianamente, a maior parte do armamento do país é de origem chinesa, e isso inclui até mesmo aviões e tanques.

A China opera uma instalação portuária no Pak, na cidade de Gwadar, próxima ao Golfo Pérsico. Imediatamente após o “assassinato” de Osama Bin Laden em Abbotabad (não houve até agora evidências conclusivas do ocorrido), numa invasão do território do país por “forças especiais” dos EUA, o primeiro-ministro pak Raza Gilani visitou Pequim. Foi recebido por quatro dias, por todos os altos dirigentes, e saudado como grande parceiro, amigo de todas as horas, unidos para sempre. Uma sinalização clara: podemos independer de sua ajuda, mr. BHObama! Nada mau para o império, cuja política assassina entrega seu colaborador essencial nos braços do arquiinimigo principal, a China.

Líbia, equívoco imperial

O outro exemplo é a Líbia. Invadida pela Itália nos anos 1910, na guerra entre a Itália e o império otomano, e bombardeada por aviões pela primeira vez na história humana, a Líbia perdeu quase um terço de sua população na resistência aos fascistas herdeiros do império romano. A Itália arrebatou do império otomano as regiões de Fezzan, Tripolitânia e Cirenaica, que hoje formam a Líbia, e dominou até os anos 1930, com grande resistência dos locais.

Num golpe militar em 1969, o coronel Muammar Gaddafi, admirador do egípcio Gamal Abdel Nasser, e que havia estudado em Londres, expulsou um reizinho de curto reinado, Idris, inventado pelos britânicos, e reorientou lentamente o país numa direção socialista, apoiado nas rendas de petróleo&gás abundantes no desértico território. A partir de 2002, o governo Gaddafi abandonou sua posição de “inimigo do império e aliado de terroristas” e abriu as portas da indústria de petróleo&gás às corporações ocidentais.

Gaddafi vem reinando como ditador por 42 anos, e ninguém consegue essa proeza no mundo capitalista sem eliminar adversários e cometer atrocidades. Mas, ao mesmo tempo, com sua vertente social, o longo governo Gaddafi redimiu a população líbia e transformou o país, da posição de um dos países mais miseráveis do mundo, para a invejável posição de mais desenvolvido do continente africano. O IDH da Líbia é o maior da África, e superior, por exemplo, ao do Brasil. A assistência médica gratuita em todo o país apresenta níveis de excelência de países europeus desenvolvidos. O ensino gratuito das origens até a universidade promoveu a população a níveis de formação e informação incomuns no continente. Outras políticas sociais, como a mais cara operação de irrigação do mundo, de 42 bi de dólares, levaram a população líbia, à exceção dos ligados a perseguidos e assassinados, ao apoio incondicional a Gaddafi.

Mas essa situação é intolerável aos olhos dos novos colonialistas: seus ditadores apoiados, como os do Bahrain e do Yemen, e o anterior Mubarak, do Egito, ocupam-se em vender suas riquezas aos invasores e manter contas em paraísos suiçamente próprios, e não em promover seus povos a condições de alta dignidade, aliás apregoadas pelos arautos da democracia e da liberdade, o que, se ocorressem, fatalmente levariam esses povos a expulsar os invasores e estabelecer governos como o de Gaddafi.

Valendo-se do despertar de povos árabes, a máquina de guerra dos EUA-OTAN vislumbrou oportunidade de expulsar Gaddafi do poder pela fabricação de “revolta popular” contra a tirania, o que poderia lhe valer acesso livre às riquezas do país. Para tanto, o império valeu-se de adversários alojados na cidade de Benghazi, na região da Cirenaica, rica em petróleo&gás, que havia sido capital sob o reizinho fugaz e reduzida em importância por Gaddafi, originário de tribo da Tripolitânia, região mais pobre. Recrutaram-se, entre outros “revoltosos, inimigos políticos do ditador, traficantes de drogas, armas e pessoas, desocupados e vigaristas de variados matizes, jovens desempregados; enfim, um exército Brancaleone, armado, treinado e financiado pela CIA e o MI6 britânico. A imprensa dócil e a serviço propagou imagens ridículas do ditador e enalteceu os “combatentes da liberdade”.

Mas algo não funcionou bem. As “tropas” de “revoltosos” demonstraram-se sem a mínima condição de combate, e passaram a ser conduzidas por “assessores” aliados. Além disso, as forças leais a Gaddafi deram mostras de força e união. Gaddafi sempre privilegiou armar a população em detrimento de grandes forças armadas. Perante esse impasse, os aliados arrancaram da desmoralizada ONU uma “resolução” que, na prática, abria a possibilidade de “intervenção humanitária”, que foi estendida, sob o silêncio conivente de Ban Ki-moon, para bombardeios. Mas de novo algo não funcionou bem. Após destruir as defesas antiaéreas do país, a OTAN passou a bombardear covardemente instalações militares, de infra-estrutura, de comunicações; enfim, até mesmo hospitais e universidades foram atingidos. Neste momento em que escrevo, a OTAN desistiu de sua campanha de assassinato de civis e, afinal, rendeu-se à realidade do inevitável “diálogo”.

Os eternos inimigos

Por detrás de todos esses movimentos, enxerga-se um velho teórico britânico que fundamentou a ciência da geopolítica, mas cujo pensamento talvez tenha sido tensionado demais sem consideração às dinâmicas de um mundo em revolução, com ampla circulação de informações e despertares precoces de povos e etnias. Para Halford MacKinder, o objetivo central do império ocidental (no início do século XX, o inglês, e, após a Segunda Guerra, o estadunidense) devia ser o controle militar e político, o Great Game, da imensa massa de terra que une a Europa aos extremos da Ásia, hoje em mãos basicamente de Rússia, China e aliados, com a Índia e vizinhos na posição de fiel da balança.

O império enfrenta hoje três grandes inimigos: China, Rússia e Irã. Rússia e Irã são ricos em fontes de energia, e a China usa seu poderio financeiro e diplomático, pacífico e de cooperação, para investir em países fornecedores e garantir os insumos necessários ao mais vertiginoso crescimento da história recente. O objetivo central do império passa então a definir-se em torno de dois eixos: cerco militar, redução do poder e aniquilamento dos grandes inimigos, e ocupação de territórios e aliança com governos da hinterlândia eurasiática.

Outra vertente, derivada por discípulo, do pensamento de MacKinder seguido pela sinistra figura do conselheiro de ação internacional de BHObama Zbigniew Brzezinski, seria a “ampliação do arco de crises” e a “divisão de países e territórios entre forças em choque”, o que renderia ao império eventuais aliados para lutar contra os seus adversários. O Iraque, por exemplo, foi seccionado em três, com o norte curdo, o sul xiita e o restante, ou sunita, ou sem dono, numa situação de divisão que só tende a se agravar. O povo baluche, que ocupa metade do território do Pak e o sul do Irã, vem sendo armado e estimulado à secessão, para a futura criação do país Baluchistão. O Sudão acaba de ver sua porção sul tornar-se um “país independente”, o Sudão do Sul, que nasce com o título de “o mais pobre do mundo”, imediatamente reconhecido pelos aliados e festejado pela imprensa grande: afinal, aloja quatro quintos das suas reservas de petróleo.

Limites imperiais

Mas a realização dessas tarefas geopolíticas de grande envergadura esbarra hoje em muitos obstáculos. A lista é extensa e de fortes cores básicas: a decadência do dólar como moeda de reserva; o fim do poder dos títulos do Tesouro dos EUA como aplicação garantida (os déficits astronômicos dos EUA desautorizam sua capacidade de pagar); a impossibilidade de manter várias guerras em andamento sem recursos e sem os apoios generalizados de antes; a situação gravíssima interna de insolvência que atinge o governo federal, os estaduais e praticamente todos os municípios do país e sua coorte de serviços em redução, como seguridade social, escolas, infra-estrutura, etc.; o aumento da pobreza e a conseqüente queda do poder do mercado numa economia em que 71% do PIB acham-se vinculados ao consumo; a presença de 45 milhões de pessoas, 1 em cada 7 cidadãos, dependentes de vales-alimentação; a deterioração dos problemas ambientais; a opção por agricultura e produção de alimentos industriais que produzem resultados como um terço de população obesa até mesmo entre crianças.

Politicamente, anotam-se a ascensão de forças de extrema-direita, características dessas épocas de crise, que lembram com suas doutrinas fascistas casos anteriores como o do nazismo; a tendência tanto de democratas quanto de republicanos pelo corte nas rendas e serviços sociais; a impunidade e a crescente desfaçatez das grandes e poucas forças financeiras; a vigência do mais gigantesco aparato de repressão e assassinato da história; a definitiva orientação do país como dependente de guerras e de sua economia como parte de uma permanente guerra.

Mais que falência do grande Estado democrático do século XVIII, que antecedeu a Europa na transição às adaptações dos Estados ao novo mundo capitalista que se afirmava, o naufrágio do império desenha-se na perspectiva de tragédia. A conjugação de enfraquecimento econômico e político com a permanência da mais poderosa força de destruição da história humana não vem gerando e não deve gerar bons frutos. Sombrios horizontes do futuro imperial.

Como diz a música popular, é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

Em tempo: os bombardeios de todos os territórios que sofrem agressões dos EUA-OTAN são feitos com bombas que portam DU – urânio empobrecido. As conseqüências a longo prazo serão trágicas para os povos agredidos e todos os habitantes do planeta.

Por Chico Villela2011-07-15 10:41:00

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quem é El-Zawahri, novo cabeça da Al-Qaeda

Abdel-Rahim Ali

Abdel-Rahim Ali, Al-Ahram Weekly, Cairo, 23-29/6/2011, n. 1.053
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


El-Zawahri ligou-se à Al-Qaeda, ao assinar um documento. Era então representante da Jihad Egípcia e, com os representantes de seis outras organizações militantes islâmicas assinou a declaração de fundação da Frente Internacional de Luta contra Judeus e Norte-Americanos [ing. International Front to Fight Jews and Americans] que o falecido líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, proclamou em fevereiro de 1998. Além de El-Zawahri e Bin Laden, o documento teve outros quatro signatários: Mounir Hamza, como secretário-geral da Sociedade de Ulema [ing. Society of Ulema] no Paquistão; Fadl Al-Rahman Khalil, como emir do Movimento Ansar no Paquistão; Sheikh Abdel-Salam Mohamed Khan, como emir do grupo Al-Jihad de Bangladesh; e Rifaai Ahmed Taha, como presidente do Conselho Egípcio Al-Gamaa Al-Islamiya's Shura [ing. Egyptian Al-Gamaa Al-Islamiya's Shura Council] para o exterior. 

Imediatamente depois de constituída, a frente desentendeu-se. Poucos dias depois do anúncio por Bin Laden, Rifaai retirou sua assinatura em nome do grupo Al-Gamaa Al-Islamiya. Antes do fim do ano, o grupo já estava reduzido à Al-Qaeda e à Jihad Egípcia, e tornou-se alvo de vasto ataque organizado por agências de inteligência dos EUA, com considerável ajuda de várias agências de inteligência árabes e ocidentais. A Jihad Egípcia foi o grupo mais duramente atingido pela caçada. A maioria de seus líderes foram presos e vários foram entregues ao Egito, onde foram julgados em tribunais militares. Vários foram condenados à morte, no caso que ficou conhecido como “dos Retornados da Albânia”, embora, de fato, fossem retornados do Azerbaijão, da África do Sul e de outros locais.

Nesse ponto, ao final de 1999, a Al-Qaeda e a Jihad Egípcia decidiram fundir-se e formar a Qaeda Al-Jihad, com Bin Laden/El-Zawahri encarregados de todas as declarações e exposições de suas posições para a imprensa. Um Jihadistade alta estatura, Abdallah bin Mohamed Ali Bin Hussein Al-Fadel Al-Qamari (Abul-Fadl Al-Qamari) foi a única exceção, autorizado a escrever sobre a organização. 

Em The Al-Qaeda Generation, publicado em 2005, lê-se, escrito pelo primeiro no comando da Qaeda Al-Jihad no leste da África e Somália:

“A palavra “Al-Qaeda” tem intrigado muitos. Há a Al-Qaeda organização-mãe, há colaboradores e há os árabes afegãos que participam da Jihad no Afeganistão. Todos esses, hoje, são classificados como Al-Qaeda, como a Jihad Egípcia liderada por Ayman El-Zawahri é Al-Qaeda e Ayman El-Zawahri, ele próprio, é o segundo em comando da Al-Qaeda. Mas eu jamais, nem uma única vez, recebi qualquer ordem do Xeique Ayman El-Zawahri ou de qualquer outra pessoa. Sigo a linha de comando da Al-Qaeda organização-mãe e o segundo em comando nessa hierarquia é o irmão Seif Al-Adl, que substituiu o falecido Xeique Abu Hafs, ‘o Comandante’. Al-Jihad e Al-Qaedapodem ter sido unificadas depois das operações do 11 de setembro, mas jamais recebemos ordens que não fossem emitidas por nossa liderança histórica.”

Os comentários de Al-Qamari parecem confirmar os muitos rumores sobre uma luta pelo poder dentro da Al-Qaeda, acontecida muitos anos antes, quando a doença despertara especulações sobre a morte iminente de bin Laden. Seja como for, esses comentários permitem observar como a primeira geração da Al-Qaeda via a questão da hierarquia e a posição de El-Zawahri depois que a Jihad Egípcia uniu-se à Al-Qaeda em fevereiro de 1998.

El-Zawahri (e) e bin Laden (d) - Foto Al Jazeera
A LINHA DE COMANDO DA AL-QAEDA: Nessa discussão sobre a linha de comando da Al-Qaeda no momento em que El-Zawahri alistou-se, Al-Qamari diz, bem claramente, que o segundo em comando, depois de Osama bin Laden era Abu Hafs Al-Masri (ou Atef Abu Sitta). Abu Sitta sucedeu Abu Obeida Al-Banshiri, que morreu afogado no Lago Vitória em 1996. Abu Sitta, por sua vez, morreu nos ataques da OTAN contra as montanhas em Tora Bora, em outubro de 2001. Abaixo dele, estava Abu Islam Al-Masri, seguido de Mohamed Shaaban Al-Ikhwani, que deixou o Egito em 1987 para unir-se à Al-Qaeda, e recebeu o posto de comandante das operações contra os russos no Afeganistão, em Khost e Jihadval. Mais recentemente, chefiou as operações no Daguestão; e morreu em fevereiro de 2010, em confronto armado com forças de segurança russas. 

A seguir, na linha de comando, vinha Abu Mohamed Al-Masri, representante do Abu Islam, que deixou a Al-Qaeda depois dos ataques de 11 de setembro, para dedicar-se ao trabalho de propaganda e recrutamento, no que foi seguido por Seif Al-Adl o qual, naquele momento, era responsável pelo campo Al-Farouq. Sobre Seif, Al-Qamari escreve:

“É soldado pára-quedista do exército egípcio. Trabalhou muito, com grande proveito, em treinamento e táticas e desenvolveu novos métodos de combate para infantaria. Ocupou vários postos de alta responsabilidade na Al-Qaeda, inclusive serviços de segurança. Atualmente, é o segundo-em-comando na Al-Qaeda, posto ao qual foi promovido depois da morte de Abu Hafs Al-Masri. É casado com uma filha do jornalista Abul-Walid Al-Masri [Mustafa Hamed, ex-correspondente da rede Al-Jazeera no Afeganistão]; o casal tem filhos.” 

Essa era a hierarquia de comando que El-Zawahri encontrou quando uniu forças com a Al-Qaeda em 1998, momento a partir do qual se tornaria cada vez mais próximo de Bin Laden e dos principais líderes da organização. Essa hierarquia também explica por que, depois da morte de Bin Laden, Seif Al-Adl foi designado líder temporário, até que se fizessem as reuniões ordenadas pelo princípio da shura [assembleias de consulta] e outro “emir” fosse escolhido pelo processo de mubayaa [livre juramento de fidelidade] pelos membros do conselho da shura da Al-Qaeda e pelos emires dos ramos da organização. Mas por que o escolhido foi El-Zawahri? Por que Seif Al-Adl não foi confirmado no posto que ocupava interinamente?

El-Zawahri - Foto Al Jazeera
POR QUE O ESCOLHIDO FOI EL-ZAWAHRI ou, em termos mais corretos, as razões por que Seif Al-Adl foi preterido. A principal razão é a fusão, que completa agora 13 anos, entre Al-Qaeda e a Jihad Egípcia, da qual, como se lê acima, nasceu a Qaeda Al-Jihad. O modo como os dois grupos se interconectaram e entreteceram as respectivas estruturas organizacionais não poderia deixar de afetar o processo de seleção que, nas atuais circunstâncias, favoreceu El-Zawahri, não só porque foi porta-voz oficial de Bin Laden durante vários anos, mas, também, porque hoje há maioria de membros da Jihad Egípcia, na Qaeda Al-Jihad.

A segunda razão tem a ver com proximidade, ou falta dela, no caso de Seif Al-Adl, que passou nove anos, de outubro de 2001 a outubro de 2010, como hóspede da Guarda Revolucionária Iraniana. Durante esse período, foi responsável pelas relações Irã- Qaeda, o que lhe valeu o codinome de “o homem do Irã dentro da Qaeda Al-Jihad”. Se fosse indicado como líder da Al-Qaeda, seria como declarar que a organização estaria agora sob pleno comando do Irã. 

A terceira razão tem a ver com as qualificações dos dois ‘candidatos’, à luz das exigências para a próxima fase. El-Zawahri é mais líder intelectual e organizacional, que comandante militar e de inteligência – exatamente do que a Al-Qaeda precisa agora, depois do sucesso das revoluções árabes, no início de uma nova era, quando ideias e competências organizacionais serão mais instrumentais que armas e ação militar, campo de especialidade de Seif Al-Adl.

Ayman El-Zawahri nasceu em 1951 [15/6], em família rica e proeminente, em Maadi, Egito. É sobrinho, pelo lado paterno, do renomado dermatologista Mohamed El-Zawahri; seu pai foi diplomata, embaixador do Egito na Arábia Saudita, no Iêmen e na Turquia. Há vários médicos na família, o que explica, pelo menos parcialmente, que El-Zawahri tenha-se encaminhado à Faculdade de Medicina, onde obteve o grau de Bacharel em Ciências Médicas em 1974 e em 1979 completou a especialização em cirurgia. Mas a base do enorme prestígio da família El-Zawahri no Egito é o avô de Ayman, Rabie El-Zawahri, que foi Grande Imã de Al-Azhar. A mãe, Omayma Azzam, também descende de família muito respeitada. Um tio de Omayma, Abdel-Rahman Azzam Pasha, foi o primeiro secretário-geral da Liga Árabe; seu pai, Abdel-Wahab Azzam, foi catedrático de Literatura Oriental na Universidade do Cairo, conhecido por sua tradução seminal, de Shahnamah, do persa para o árabe [1].

Ayman El-Zawahri foi atraído pela militância islâmica quando ainda bem jovem. Leu Signposts on the Road [2] [Sinais à beira da estrada], de Sayed Qotb, pouco depois de fugir da prisão em 1962. Naquela época, cópias do livro circulavam entre os estudantes, que formavam “círculos de estudo” para discuti-lo. Em seu livro A Knight beneath the Banner of the Prophet [2001, Cavaleiro à sombra do estandarte do Profeta [3]], El-Zawahri recorda esse período: 

“As últimas palavras de Sayed Qotb depois de recusar-se a pedir clemência ao presidente Abdel-Nasser foram “O dedo que ensina a unidade de Deus em todas as orações, nunca escreverá pedido de clemência”. Essas palavras converteram-se em lei e metodologia para os fundamentalistas, para que nunca cedam nesse fundamento.” 

Em tom do mais profundo respeito e de reverência em tudo que diz de Qotb, El-Zawahri continua:

“Ele destacou a importância da unificação do Islã e repetiu que a batalha entre o Islã e seus inimigos é, no fundo, batalha ideológica centrada na questão da unificação. É a questão de quem deve mandar e ter poder: o domínio de Deus e Sua Lei, versus métodos mundanos e princípios materiais ou a chamada ‘mediação entre o Criador e sua criação’. Essa ênfase ajudou o movimento islâmico a definir seus inimigos e a perceber que o inimigo interno pode ser tão perigoso quanto o inimigo externo; de fato, que o inimigo interno é a ferramenta de que o inimigo externo se serve, a cortina atrás da qual se esconde, em sua guerra contra o Islã.” 

Nessa época, El-Zawahri começou a desenvolver suas intuições sobre estratégia e táticas:

“O grupo que se reunia em torno de Sayed Qotb decidiu atacar o governo que havia [no Egito], porque era hostil ao Islã, desviara-se do caminho de Deus e resistia à autoridade da Sharia. Mas o planejamento era simplório e ninguém cogitava de mudar o regime ou criar um vácuo dentro dele. Só se cogitava de golpes preventivos, defensivos ou de retaliação, no caso de o regime desencadear nova campanha de perseguição aos muçulmanos.” 

Mesmo assim, por pior que fosse o planejamento dos Qotbistas, o movimento deles, em si, foi muito significativo: 

“Aquele primeiro movimento mostrou claramente que o movimento islâmico declarara guerra ao regime que governava [o Egito], por ser inimigo do Islã. Até então, toda a literatura e todos os princípios, ensinavam que o inimigo do Islã vivia no ocidente, e só.” 

El-Zawahri continua: 

“Embora o grupo Sayed Qotb e seus membros fossem oprimidos e perseguidos pelo governo Nasser, não foi possível impedir que sua influência continuasse a crescer entre os jovens muçulmanos (...). O chamamento de Sayed Qotb à dedicação à unidade de Deus,  à total submissão ao poder de Deus e à soberania da via divina ainda faz arder o fogo da revolução islâmica contra os inimigos do Islã em casa e no ocidente, história cujos capítulos sangrentos continuam a desenrolar-se dia após dia (...) O governo acreditava que, com a morte de Sayed Qotb e seus companheiros em meados dos anos 1960s, o movimento fundamentalista teria sido afinal eliminado para sempre. Mas a aparente calma da superfície escondia a intensa ebulição profunda que as ideias de Qotb haviam catalisado e que viriam a gerar o núcleo do movimento Jihadista no Egito.”

Como nos informa, El-Zawahri pertenceu à primeira célula da Jihad Egípcia, formada depois da execução de Sayed Qotb. Certamente o principal ponto de mudança foi a derrota do Egito na guerra de 1967. El-Zawahri observa que essa derrota desencadeou uma “virada de consciência” na sociedade egípcia, cujo povo resistia a abraçar o Islã. Escreve que, nesse ponto, 

“o movimento Jihadista fortaleceu sua decisão, ao perceber que o arco inimigo era ídolo inventado pela máquina de propaganda e pela campanha para atormentar e perseguir islâmicos.”

ESTRATÉGIA: Em sua análise, El-Zawahri reuniu as sementes do pensamento que o levaria ao centro estratégico da Al-Qaeda, onde pode desenvolver uma significativa evolução, baseada do conceito de “coalizão inimiga”. 

Em A Knight beneath the Banner of the Prophet, El-Zawahiri relembra que, em 1999, já completara todos os andaimes de sua teoria. Independente do simbolismo da data, a teoria o elevara ao status de principal ideólogo da Al-Qaeda já no início de 2001, no que se pode ver mais uma razão que fez dele competidor de peso na disputa com Seif Al-Adl pela liderança da organização, depois da morte de Bin Laden. 

Um dos pontos centrais da teoria de El-Zawahiri era que a batalha tinha de ser levada para território inimigo. 

“O movimento islâmico e a vanguarda Jihadista e, de fato, toda a nação islâmica, têm de engajar na batalha os principais criminosos – os EUA, a Rússia e Israel. Não podemos continuar a aceitar que eles controlem a batalha entre o movimento Jihadista e nossos governos, lá de fora, de longe, de onde se sentem seguros. Eles têm de pagar e pagar caro.” 

E explica:

“Os líderes em Washington e Telavive usam os regimes [árabes/muçulmanos] para proteger seus interesses e combater suas batalhas contra os muçulmanos. Se os estilhaços da batalha chegam às suas carnes e casas, eles primeiro trocam acusações entre seus iguais sobre qual deles foi incompetente. Assim, terão de escolher entre duas alternativas igualmente impalatáveis: ou cada um terá de combater suas próprias batalhas contra os muçulmanos, o que rapidamente gerará uma Jihad contra os hereges, ou terão de revisar seus próprios pensamentos, depois de admitir que fracassararm no projeto de atacar com violência e injustamente o povo muçulmano. Por isso temos de levar a batalha para o território do inimigo. Só assim as mãos dos que incendeiam nossos países serão incendiadas.”

Mas a teoria tinha outro fundamento: 

“A luta para estabelecer um estado muçulmano não pode ser feita como luta regional. É claro que a coalizão de judeus-cruzados liderada pelos EUA jamais admitirá que qualquer força muçulmana assuma o poder em qualquer país muçulmano e que mobilizará todas as suas energias para atacar e derrubar aquela força, se algum dia chegar ao poder. Com vistas a esse objetivo, aquela coalizão abrirá um teatro de batalha que cobrirá todo o planeta e imporá sanções – se abertamente não declarar guerra – contra quem quer que ajude um governo muçulmano. Assim sendo, e para responder a essa nova situação, temos de nos preparar para uma batalha que não estará confinada numa única região, na qual teremos de enfentar o inimigo herege interno e o inimigo judeu-cruzado externo."

Com isso, El-Zawahri separou-se publicamente do mandamento central de todos os movimentos Jihadistas no Egito e no mundo árabe até então, dentre os quais a própria Organização Jihad Egípcia que ele mesmo liderava desde 1992. Esse mandamento ordenava confrontar primeiro o inimigo mais próximo (ou seja, os governos árabes), para estabelecer uma base a partir da qual alavancar a guerra santa contra todos os países e governos hereges, estivessem onde estivessem. Para Al-Zawahiri,

“Não podemos adiar o conflito com o inimigo externo, porque a aliança judeu-cruzados não nos dará tempo de derrotar o inimigo interno e só depois declarar-lhe guerra santa. De fato, EUA e judeus e seus aliados já estão presentes, com seus exércitos, bem aqui, no coração de nossa região; e preparam-se para nos agredir.” 

O FUTURO DA AL-QAEDA: Nem a onda de revoluções árabes parece ter alterado o pensamento de El-Zawahri. Em sua primeira declaração oficial depois da morte de bin Laden, disse que

“Se as revoluções árabes não levarem islâmicos ao poder, recorreremos às armas”.

Curiosamente, poucos analistas consideraram essa declaração, nas discussões sobre o impacto das revoluções árabes, o futuro e a influência da Al-Qaeda.

Nada autoriza supor que a chegada de El-Zawahri ao posto máximo no comando da Al-Qaeda venha a desencadear mudanças profundas em seu modo de pensar e em sua estratégia. A única modificação é que, agora, El-Zawahri acrescenta um caso sobre o qual antes não pensara. E diz que, mesmo governos revolucionários que substituam ditaduras, mas não levem ao poder governos islâmicos e não apliquem a Sharia islâmica, serão listados como inimigos da Al-Qaeda, ao lado dos americanos, judeus cruzados e seus colaboradores, mesmo estados, que os apoiem economicamente ou moralmente. Isso no plano estratégico.

No plano tático, o objetivo imediato mais provável da Al-Qaeda, nessa fase de transição pós-bin Laden, se se pode dizer assim, será alcançar o poder num único país – que será usado como plataforma para a expansão. O que permite conjecturar que reduzirão os ataques “ao inimigo distante” (EUA e Europa); e que tomarão como alvo o Iêmen, nas atuais circunstâncias. 

O Iêmen é alvo possível, se o governo de Abdallah Saleh for derrubado e criar-se um vácuo de poder – porque não se pode antever hoje qualquer possibilidade de criar-se ali qualquer outro governo apoiado pelos estados árabes e pela comunidade internacional. Um Iêmen em anarquia permitirá que o Irã amplie sua assistência à Al-Qaeda (pela conexão com Seif Al-Adl), usando para isso os houthis, que controlam grandes porções de território no norte do Iêmen. Então, o Irã somará um nascente Emirado Islâmico do Iêmen às suas forças, no jogo de grandes mestres de xadrez que o Irã disputa contra os EUA e o Ocidente.



Notas dos tradutores

[1] Mais, sobre o livro, Shahnamah em português. 
[2]  O lívro, publicado em 1964, é mais conhecido em inglês como Milestones Along the Way (The Mother Mosque Foundation, 1981). O autor foi preso, acusado de conspirar contra o estado egípcio, condenado à morte e enforcado em 1966, durante o governo de Nasser. Com o autor convertido em mártir, o livro passou a ser buscado em todo o mundo islâmico.
[3] Ayman al-Zawahiri, Knights Under the Prophet's Banner, publicado em capítulos no jornal Al-Sharq al Awsat, Londres, em árabe, 2-10/12/2001, trad. Foreign Broadcast Information Service, document FBIS-NES-2001-1202, oferecido online pela Federation of American Scientists, e resenhado, em inglês, na página do Exército dos EUA.