Mostrando postagens com marcador Embaixada dos EUA em Brasília. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Embaixada dos EUA em Brasília. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de agosto de 2011

Amorim e os EUA


Celso Amorim, Ministro da Defesa

Marina Amaral e Natalia Viana em 13 de agosto de 2011 às 9:26h

Aos olhos do serviço diplomático dos Estados Unidos, em especial durante a era Bush, a posição independente do Ministério das Relações Exteriores, capitaneado por Celso Amorim, hoje ministro da Defesa, parecia uma constante provocação. Nos telegramas vazados pelo WikiLeaks, o MRE é acusado de dificultar as relações bilaterais por suas “inclinações antiamericanas”, definidas por um ministro “nacionalista” e um secretário-geral “antiamericano virulento” (Samuel Pinheiro Guimarães), e secundado por um “acadêmico esquerdista” (Marco Aurélio Garcia), conselheiro de política externa do presidente Lula.

“Manter a relação político-militar com o Brasil requer atenção permanente e, talvez, mais esforço do que qualquer outra relação bilateral no hemisfério”, desabafava o embaixador John Danilovich, em novembro de 2004.

Foi ele que, numa reunião em março de 2005, tentou convencer Amorim da ameaça “cada vez maior” que a Venezuela representava à região. A resposta “clara” e “seca” do chanceler desapontou o americano: 

“Nós não vemos Chávez como uma ameaça. Não queremos fazer nada que prejudique nossa relação com ele”. E cortou o assunto.


O sucessor de Danilovich, Clifford Sobel, teve mais sorte. O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim era interlocutor contumaz do embaixador, a ponto de confidenciar sua irritação com o MRE, em especial com Pinheiro Guimarães. Tornou-se peça vital em uma estratégia diplomática americana que explorava a divisão dentro do governo em proveito próprio, como revelam os telegramas.

Em fevereiro de 2009, já com Obama na Presidência dos Estados Unidos, Sobel enviou uma série de três informes, sugerindo formas de contornar o triunvirato “esquerdista” da política externa brasileira. O jeito, afirma, seria fazer aliança com o setor privado, que tem “habilidade para conseguir aprovar iniciativas junto ao governo” e tentar uma aproximação direta com Lula e outros ministros que poderiam defender a causa americana.

Uma “estratégia testada”, afirma Sobel, citando entre outros exemplos o caso da transferência para o Brasil dos 30 agentes da DEA, a agência americana de combate às drogas, expulsos da Bolívia por Evo Morales no fim de 2008. “Apesar da recusa do MRE de conceder vistos aos agentes, conseguimos realizar a transferência com a ajuda da Polícia Federal, da Presidência da República e de nossas excelentes relações com o ministro da Justiça (Tarso Genro)”, gaba-se.

O segundo telegrama foca os minguados recursos humanos e financeiros do Itamaraty, apresentando-os como oportunidade para os Estados Unidos. Muitos cargos diplomáticos estavam sendo preenchidos por “trainees e terceiros-secretários” por falta de pessoal para as novas embaixadas brasileiras, observa o embaixador americano, acrescentando que seria “crucial influenciar essa nova geração”.

Rafale
“Os franceses instituíram um programa de intercâmbio diplomático com o Itamaraty em 2008, semelhante ao nosso Transatlantic Diplomatic Fellowship, e agora têm um diplomata trabalhando no Departamento Europeu do Itamaraty. Uma proposta similar seria válida para conseguir um posto que nos permita observar de dentro esse ministério-chave e mostrar como os Estados Unidos executam sua política externa”, sugere.

No terceiro telegrama, Sobel afirma que, embora o MRE continuasse a ser o líder incontestável da política externa brasileira, o crescimento internacional tendia a erodir seu controle. Apesar da falta de hábito das instituições brasileiras em lidar diretamente com governos estrangeiros, alguns ministérios como o do Meio Ambiente e, principalmente, o da Defesa estabeleceram relações diretas com a embaixada norte-americana em Brasília, relata.

Saab JAS 39 Gripen
Um telegrama enviado em 31 de março de 2009, depois da visita do presidente Obama ao Brasil, dá um exemplo prático da eficiência dessa estratégia. Pedindo sigilo absoluto de fonte, o embaixador conta que Jobim pretendia contribuir com o combate ao narcotráfico na região, possivelmente através do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) criado pela União Sul-Americana de Nações (Unasul). “Ele disse que o CDS poderia ser o canal perfeito para conseguir o engajamento dos militares dos outros países sem passar pelo MRE”, escreve, acrescentando que o então ministro da Defesa estaria disposto a envolver os militares no combate ao tráfico nas fronteiras brasileiras. “O plano de Jobim sinaliza um grande passo, uma vez que o assunto é altamente sensível internamente, no governo, e para o público brasileiro”, comenta.

Também durante as tratativas frustradas de compra dos caças, Jobim e os líderes militares agiram longe do Itamaraty, como mostram os cerca de 50 telegramas sobre o tema. Em um deles, Sobel relata a visita da comitiva presidencial à França e comenta, com ironia, as reportagens da imprensa brasileira que afirmam o apoio de Lula, Amorim e Jobim à aquisição dos caças Rafale: “Talvez isso seja mais um marriage blanc do que amour veritable”, diz. E explica: “Nos encontros privados com o embaixador, Jobim minimizou a relação com a França e manifestou um claro desejo de ter acesso à tecnologia americana. O obstáculo é o Ministério das Relações Exteriores”.

F-18 Super Hornet
Sobel também se reuniu com os comandantes das Forças Armadas para pedir “conselhos” sobre as chances de os caças da Boeing vencerem a concorrência de quase 10 bilhões de reais. Ficou entusiasmado com o resultado: “Os apoiadores mais fortes do Super Hornet (o F-18 americano) são as lideranças militares, em particular o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito”, relata em telegrama de janeiro de 2009.

O embaixador também obteve “uma cópia não oficial” de uma Requisição de Informações da Aeronáutica (passada eletronicamente para Washington), que “permite planejar os próximos passos para os Estados Unidos vencerem a negociação”. Além de garantir que o preço não seria o principal critério da escolha, o documento informa que a Embraer, “principal beneficiária de qualquer transferência de tecnologia”, consideraria “desejável a oportunidade de estabelecer uma parceria com a Boeing”, principalmente se houvesse “a intenção de oferecer uma cooperação adicional na área da aviação comercial”.

À luz dos telegramas do WikiLeaks, o relatório apresentado em janeiro de 2010 pela FAB ao ministro Jobim, colocando a aeronave sueca (Saab JAS 39 Gripen) como melhor opção, exatamente por causa dos custos, traz novas indagações. O Rafale francês foi classificado em terceiro lugar, atrás dos caças americanos, esse sim apontado como o de melhor tecnologia. Mas não era o preço que importava, não é?


Extraído de CartaCapital

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Espiões dos EUA entraram no Brasil sem permissão


07.07.2011  
Por ANTONIO CARLOS LACERDA

O golpe militar que depôs o presidente João Goulart, usando tanques de guerra, jornais, emissoras de rádio e tevê e procissões de beatas, foi articulado com muita antecedência. Os movimentos golpistas começaram mesmo antes de Goulart sentar-se na poltrona presidencial, em 7 de setembro de 1961.

Os conspiradores foram assessorados por fontes altamente qualificadas. No apoio logístico, contaram com a vasta experiência da espionagem ianque: sabotagem, tortura física e psicológica, propaganda, mercado, apoio financeiro, colonialismo, imperialismo, enfim, tudo que houvesse necessidade para conter o avanço do comunismo na América, que já contava com um péssimo exemplo: Cuba.

O apoio recebeu o nome de “Operação Brother Sam”. Em 64, no comando da operação, estava o embaixador Lincoln Gordon. Em atividade, os agentes, que chegavam travestidos de padre, pastor, jornalista, executivo, ou mesmo de simples turista.

(Fernando Soares CamposCabo Anselmo e os neogolpistas”,
La Insignia, diário espanhol, julho de 2005)

SÃO PAULO/BRASIL - Segundo o Wikileaks, em novembro de 2008, o presidente boliviano Evo Morales suspendeu as atividades da DEA, a agência norte-americana de combate às drogas, alegando que alguns agentes haviam participado de ações de espionagem e financiado grupos de oposição violenta ao governo. Na época, um massacre havia ocorrido no estado de Pando, deixando dezenas de apoiadores do governo feridos. Agora, documentos obtidos pela Pública revelam que a diplomacia norte-americana manteve reuniões com o governo brasileiro para que esses oficiais da DEA viessem trabalhar no Brasil a partir de 2009 - mas deu um “jeitinho” para evitar pedir permissão ao Itamaraty, que se opunha à medida. Em vez de requerer um aumento do número de escritórios da DEA - que precisaria da permissão do Ministério de Relações Exteriores - a embaixada preferiu inchar os escritórios existentes em São Paulo e em Brasília.

Ambos são subordinados à NAS, o departamento antidrogas de cada embaixada dos EUA. Segundo afirmou em 2010 a chefe interina da DEA Michele Leonhart durante a 27ª Conferência Anual Internacional Antidrogas, o órgão pretende expandir no país, abrindo escritórios em outras localidades. No fim, os EUA conseguiram transferir o pessoal da DEA da Bolívia para o Brasil - com o apoio da PF, do Ministério da Justiça e até do governo bolivianos, segundo um documento diplomático.

Em 18 de novembro, duas semanas depois da expulsão da DEA por Morales, o então embaixador Clifford Sobel reuniu-se com o subsecretário para temas políticos do Ministério de Relações Exteriores Everton Vargas para “informá-lo sobre a nossa intenção de aumentar o pessoal da DEA nos nossos escritórios em Brasília e São Paulo, à luz da decisão do governo boliviano de expulsar a DEA”.

Segundo o documento, Vargas aceitou uma nota diplomática informando sobre o assunto e comentou que o Ministro do Interior boliviano Alfredo Rada havia visitado o Brasil para discutir a cooperação contra as drogas.

“Vargas também disse que oficiais do Ministério foram claros com Rada ao dizer que o Brasil não pode substituir a DEA. O Brasil não tem a expertise, os recursos, ou o pessoal para fazer isso”, disse Vargas aos norte-americanos, admitindo que, se aumentasse o narcotráfico na Bolívia, “nós seremos as principais vítimas”.

O documento, enviado a Washington em 4 de dezembro, conclui:

“Vargas não deu um 'sim' ou 'não' claro sobre o tema de aumentar o pessoal da DEA, mas o tom e o conteúdo da sua discussão foram incomumente abertos e sugeriram compreensão do potencial problema para o Brasil criado pela saída da DEA da Bolívia e do papel insubstituível que a DEA tem em lutar contra o narcotráfico na região”.

Vargas teria sugerido à diretora de crimes transnacionais do Itamaraty, Virginia Toniatti, como um contato para dialogar sobre a demanda, mas o embaixador observa que ela “é geralmente resistente à cooperação com os EUA” e que o governo brasileiro havia “negado vistos para a DEA no passado”. O documento conclui que “a polícia federal tem expressado repetidamente apoio ao aumento do pessoal da DEA no Brasil”.

No final de dezembro, outro documento confidencial retomou o assunto. É um relatório escrito pela conselheira da embaixada Lisa Kubiske sobre os procedimentos a serem adotados para a transferência dos oficias da DEA. Ele mostra que Sobel chegou a discutir o aumento do pessoal da DEA com o então Ministro da Justiça Tarso Genro e com o ministro das Relações Institucionais, general Jorge Felix - além de debater de maneira “extensiva” com a PF, que apoiava “completamente” o aumento do pessoal da DEA.

“A embaixada evitou propositalmente pedir permissão formal para aumentar (o número) de escritórios (da DEA), já que (um pedido) não é estritamente necessário para aumentar a equipe em escritórios já existentes, e somente o MRE poderia garantir isso (a abertura de novos escritórios)”, escreve Kubiske.

“Esse tipo de requerimento teria que passar por uma nota diplomática através da diretora de crimes transacionais (COCIT) Virginia Toniatti e o secretário-geral das Relações Exteriores do Ministério das Relações Samuel Pinheiro Guimarães, ambos os quais provavelmente atrasariam o pedido. Tendo notificado o alto escalão do MRE sobre nossos planos, a embaixada se sente confortável em prosseguir”.

A diplomata solicita então que os oficiais da DEA peçam visto para o Brasil, pois a sua simples emissão serviria como um endosso formal do governo brasileiro. Segundo o documento, os oficiais da DEA poderiam começar a trabalhar no Brasil antes de janeiro de 2009.

Outro documento, de fevereiro de 2009, é ainda mais revelador. Trata-se da terceira parte de uma análise sobre a atuação do Ministério das Relações Exteriores brasileiro. Intitulado "Competição entre as agências", o documento mostra os conflitos entre o Itamaraty e diferentes ministérios.

No item 7, o documento assinado por Sobel relata:

“Da mesma maneira, serviços de segurança norte-americanos frequentemente são questionados pelo Itamaraty pela sua cooperação com as forças brasileiras - em Janeiro, o Itamaraty quase conseguiu evitar a mudança do pessoal da DEA da Bolívia para o Brasil, apesar da Polícia Federal, o Ministério da Justiça, e até o governo boliviano apoiarem fortemente a transferência”.

Os documentos não especificam quantos oficias da agência teriam vindo trabalhar no Brasil. O governo dos EUA não revela o número de oficiais da DEA trabalhando em outros países, mas estima-se que cerca de 36 oficiais tenham sido expulsos da Bolívia.

Em entrevista à Pública, o agente aposentado da DEA, Mike Levine, que mantém laços com a comunidade policial que atua no exterior afirma que a transferência de oficiais da DEA para outros países é apenas “a repetição da história”.

“Eles não podem realizar sua missão ignorando a Bolívia, então, como fizeram em 1980, transferiram suas bases para países vizinhos”, conta Levine, que tornou-se chefe da operação da DEA na Argentina depois do “golpe de cocaína” em 1980, quando pessoas ligadas ao narcotráfico tomaram o poder na Bolívia. “Então eu trabalhei muito proximamente com as polícias do Brasil, Uruguai e Chile”.

Procurada pela Pública, a embaixada norte-americana no Brasil não respondeu ao pedido de explicações sobre a atuação da DEA no país e o aumento de oficiais nos últimos anos. Documentos já revelados pelo Wikileaks mostram que a diplomacia tem trabalhado para aumentar o número de oficiais do serviço de segurança norte-americanos no Brasil na contagem regressiva para as Olimpíadas.

Dois outros documentos revelam que, ao mesmo tempo em que buscou ampliar presença no Brasil, o governo norte-americano pediu aos governos do Chile e da Argentina que aceitassem oficiais de DEA expulsos da Bolívia. Um documento confidencial de 15 de dezembro de 2008 mostra que o embaixador em Buenos Aires, E. Anthony Wayne pediu ao ministro da Justiça, Anibal Fernandez, que a embaixada recebesse 3 agentes da DEA expulsos de La Paz.

“O Ministro Fernandez não fez nenhuma objeção”, diz o documento, que especifica que a embaixada de Buenos Aires aceitaria um supervisor e dois agentes especiais da DEA.

Outro despacho enviado a Washington da embaixada de Santiago um dia depois relata conversa do embaixador norte-americano com o Ministro do Interior (e presidente interino) Edmundo Perez Yoma sobre receber dois oficias da DEA na capital chilena. “Perez Yoma respondeu duas vezes que ele “não via problemas”, com o pedido”.

Em todos os despachos, como no caso do Brasil, os pedidos são feitos de maneira informal - e isso basta para que as embaixadas prossigam com a realocação dos oficias da DEA. Além disso, os documentos mostram que todas as embaixadas esperavam a chegada desses oficiais até janeiro de 2009.

Oficias da DEA lotados nas embaixadas geralmente treinam a polícia local, coordenam e articulam troca de informações e operações com a polícia e os serviços de inteligência locais. Como a Pública já havia revelado, documentos do Wikileaks apontam que agentes atuaram, por exemplo, no desmantelamento da organização criminosa do narcotraficante Fernandinho Beira-Mar.

“O maior propósito da DEA no exterior é apoiar as investigações domésticas que ocorrem nos EUA. Outra grande parte do trabalho é reunir inteligência relativa a drogas e trabalhar em conjunto com as policias nacionais”, informa um agente da DEA ouvido pela Pública, que pediu anonimato.

Segundo ele, “os agentes da DEA podem estabelecer informantes e reunir inteligência relativa à questão das drogas, esse tipo de coisa, mas se não nos damos bem com oficiais locais, então estamos perdidos”. O mesmo agente diz que a DEA viu a expulsão da Bolívia como “uma oportunidade para expandir seus escritórios na Argentina e no Chile”, já que era preciso manter a quantidade de postos da agência no exterior.

No entanto, de acordo com fontes internas ouvidas pela Pública, nem sempre o trabalho desenvolvido pelos agentes da DEA é feito de maneira tão clara e legal. Desde 1998, segundo uma fonte da DEA, empregados da CIA podem receber treinamento para se tornar agentes.

“Em essência, a DEA tem sido infiltrada por agentes da CIA há muitos anos. E isso não tem ajudado a nossa missão”, diz ele.

A linha que separa agentes da DEA de simples espiões é ainda mais tênue, porque desde 2006 (durante o governo Bush), a agência antidrogas se tornou um membro oficial da Comunidade de Informações americana, que inclui a CIA. Isso aconteceu apenas dois anos antes de Morales expulsar o pessoal da DEA.

Um ex-agente da DEA com extensa experiência operacional no exterior diz que isso foi um grande erro “Ela era vista historicamente como uma agência de aplicação da lei, e era por isso que éramos bem-sucedidos. Mas a Tandy (Karen Tandy, ex-diretora da agência) colocou a DEA na comunidade de inteligência. Isso significa que o diretor da CIA pode dar tarefas a eles (agentes da DEA no exterior)”.

“Se um governo estrangeiro quiser usar isso contra nós, eles podem. Podem argumentar que a DEA é parte da comunidade de Inteligência, e dizer que metade dos nossos agentes são operativos de inteligência”.

Um ex-agente da CIA ouvido pela Pública confirmou que “algumas vezes agentes que trabalham contra narcóticos também podem fazer coisas que são de interesse da CIA em termos de coletar inteligência”, diz ele. “Em trabalho de campo (no exterior), a CIA sempre triunfa”.

Apesar da expulsão da DEA, o governo norte-americano continua forte na Bolívia: segundo relatório do Departamento de Estado, os EUA treinaram 9.012 policiais, promotores e oficias do governo boliviano em 2010. A NAS da embaixada em La Paz tem, para este ano, um orçamento de 16 milhões de dólares.

Além disso, um acordo antidrogas está para ser assinado entre Brasil, Bolívia e EUA para a erradicação dos cultivos de coca com imagens via satélite.

Segundo a agência de notícias boliviana Erbol, o acordo já está pronto há mais de um mês, mas tem encontrado resistência porque prevê envio de equipamentos e treinamento dos EUA para as forças bolivianas, e poderia permitir a volta de oficiais americanos ao país. Ainda segundo a Erbol, o Brasil estaria pressionando pela assinatura do acordo.

ANTONIO CARLOS LACERDA é correspondente internacional do PRAVDA.RU

domingo, 3 de abril de 2011

WikiLeaks: Estratégia dos EUA para engajar o Brasil na difamação de religiões


Reference ID
Created
Released
Classification
Origin
[cabeçalho aqui omitido]

Excerto do item CONFIDENCIAL do telegrama 09BRASILIA1435 
A íntegra do telegrama não está disponível.
Tradução de trabalho da Vila Vudu, não oficial, para finalidades didáticas.



ASSUNTO:
Estratégia para Engajar o Brasil na “Difamação de Religiões”
[1]
1. (C) RESUMO: A posição do Brasil na questão da “difamação de religiões” na comissão de Direitos Humanos da ONU reflete a conciliação entre as objeções do país à ideia (objeções baseadas num conceito do que sejam Direitos Humanos) e o desejo de não antagonizar os países da Organisation of the Islamic Conference (OIC) com os quais tenta construir relações e que o Brasil vê como importante conjunto de votos a favor de o Brasil conseguir assento permanente no CSONU. À luz da argumentação a favor da abstenção do Brasil, proponho abordagem de quatro braços, envolvendo aproximação com os altos escalões do Ministério de Relações Exteriores; uma visita a Brasília, para pesquisar meios de trabalhar com o governo do Brasil, nessa e noutras questões de direitos humanos; outros governos que possam conversar com o governo do Brasil; e uma campanha mais intensa pela mídia e mobilizando comunidades religiosas a favor de não se punir quem difame religiões . FIM DO RESUMO.

Contexto: “Quando Direitos Humanos e ambição de chegar ao Conselho de Segurança entram em choque”.

2. (SBU) Essa embaixada levantou várias vezes a questão dos votos do Brasil no Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores. A última vez foi com a chefe do Departamento Ministra Glaucia Gauch. O Brasil nunca discordou de um único argumento dos que apresentamos em outros encontros.

A resposta sempre foi a mesma: o conceito de difamar religiões é repugnante. Repugna aos valores e princípios do Brasil e é inconsistente com a legislação brasileira e a legislação internacional. Por isso o Brasil não pode aprovar e não votará a favor de resolução que proíbe que se puna quem difama religiões. O Brasil abstém-se de votar.

3. (C) Perguntada sobre por que o Brasil não vota contra a resolução, dado que a considera absolutamente inadmissível, Gauch respondeu que o país entende que a abstenção é suficiente. Na opinião do Governo do Brasil, o país assume posição baseada em princípios, mas também prática, porque não interessa ao país ofender os países da Organização da Comunidade Islâmica, sobretudo os mais poderosos como Iran, Egito, Turquia e Arábia Saudita, países com os quais o Brasil tenta aprofundar relações.

É opinião dessa embaixada que o que mais interessa à política externa do Brasil é conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Como resultado, o Governo do Brasil prefere não antagonizar países e grupos de países cujos votos podem ser valiosos numa futura eleição.
Abordagem de quatro braços 
4. (SBU) À luz dessa realidade complicada, proponho abordagem de quatro braços no caso do Brasil, sobre essa questão. Antes de qualquer das etapas e movimentos, deve-se declarar o compromisso dos EUA com o diálogo e a cooperação, e nosso empenhado esforço para manter o Brasil como um líder e um parceiro nessa questão.

Encontros de alto nível: Ao abordar os mais altos níveis do Ministério de Relações Exteriores, é essencial persuadir o Brasil a mudar seu voto e a trabalhar conosco a favor da “Difamação de Religiões”, até chegarmos a uma solução de conciliação. Telefonema da Secretária de Estado dos EUA ao Ministro Amorim das Relações Exteriores, logo depois da recente carta enviada por ela, demonstraria a importância que os EUA damos a essa questão. Também se deve abordar o vice secretário-geral do MRE ministro Antonio Patriota; e o subsecretário Burns deve abordar a subsecretária para assuntos políticos, embaixadora Vera Machado (que supervisiona questões de direitos humanos e política das organizações internacionais), o que muito ajudaria a aumentar a importância do tema na cabeça dos brasileiros (sic).

Só as abordagens nos níveis inferiores dificilmente conseguirão modificar a abordagem “em cima do muro” [orig. Brazilbs hands-off approach] dos brasileiros sobre o assunto.

Um Diálogo sobre Direitos Humanos: Uma visita dedicada exclusivamente a essa questão, seria, na minha opinião, de pouco efeito, porque o Brasil aceita as premissas de nossa objeção. Ao mesmo tempo, uma discussão mais detalhada dos nossos pontos de vista e de nosso plano de ação, com níveis operacionais e político do MRE seria valiosa.

A abordagem mais efetiva (e, no longo prazo, mais valiosa para os interesses mais amplos do Governo dos EUA) poderia incluir a questão atual na pauta de um novo diálogo regular sobre direitos humanos, ideia que o próprio MRE (pelo emb. Patriota) propôs recentemente. O contexto mais amplo de um esforço para trocar ideias e para encontrar vias pra trabalharmos mais próximos do Governo do Brasil no campo dos direitos humanos nas organizações internacionais (tratando também, talvez, de outras das preocupações dos países chaves, incluindo o Irã e a Coreia do Norte, questões sobre as quais o Brasil sempre se abstém) criariam um fórum ideal para discussões e para conseguir que o governo do Brasil apóie o plano de ação proposto pelos EUA. Essa abordagem ampla seria atraente para os brasileiros, interessados em construir parcerias com os EUA, que ajudarão a validar o desejo de que o Brasil passe a ser visto como líder internacional. Essa abordagem seria mais bem recebida que abordagem focada, dirigida só à questão da difamação de religiões.

Abordagem por outros países: Desde que chegou ao cenário internacional, o atual governo do Brasil tem tido grande cuidado para não alinhar suas políticas às políticas dos EUA. O Brasil tem em alta conta o que considera como sua posição “de ponte” entre países em desenvolvimento e países desenvolvidos, por causa de sua disposição de falar com todos os países. Minha opinião é que essa posição tende a limitar o peso das opiniões dos EUA dentro do Governo do Brasil. Porque o Brasil vê-se ele mesmo como se fosse líder no bloco dos países latinoamericanos, esses países pouco conseguirão influenciar as ideias do governo do Brasil. O mais provável é que ouçam outros países que consideram ‘independentes’ [aspas no orig.] dos EUA, como África do Sul, Rússia, China, Índia e França.

Ganhar o apoio para nossa posição de alguns membros da Organização da Conferência Islâmica, especialmente do Egito, Turquia e outros ‘independentes’[aspas no orig.] influentes seria muito importante para que consigamos influenciar o voto do Brasil a favor da difamação das religiões. Em geral, abordagens feitas por qualquer outro país que apóie ação proposta pelos EUA servem como prova da natureza colaborativa de nossos esforços e podem ser úteis.

Aumentar a atividade pela mídia e o alcance das comunidades religiosas parceiras: Até agora, nenhum grupo religioso no Brasil assumiu a defesa da difamação de religiões. Mas o Brasil é sociedade multirreligiosa e multiétnica, que valoriza a liberdade de religião. Um esforço para difundir a consciência sobre os danos que podem advir de se proibir a difamação das religiões pode render bons dividendos. Grandes veículos de imprensa, como O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de punir-se quem difame religiões, sobretudo entre a elite do país.

Essa embaixada tem obtido significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados. Visitas ao Brasil, de altos funcionários do governo dos EUA seriam excelente oportunidade para pautar a questão para a imprensa brasileira. Outra vez, especialistas e funcionários de outros governos e países que apóiem nossa posição a favor de não se punir quem difame religiões garantiriam importante ímpeto aos nossos esforços.

Essa campanha também deve ser orientada às comunidades religiosas que parecem ter influência sobre o governo do Brasil, quando se opuseram à visita ao Brasil do presidente Ahmadinejad do Irã, em novembro. Particularmente os Bahab e a comunidade judaica, expandidos para incluir católicos e evangélicos e até grupos indígenas e muçulmanos moderados interessados em proteger quem difame religiões [sic]. [assina] KUBISKE


Nota de tradução
[1] Há matéria da Reuters sobre o assunto, de seis meses antes desse telegrama, em U. N. body adopts resolution on religious defamation, em que se lê: “Um fórum da ONU aprovou ontem resolução que condena a “difamação de religiões” como violação de direitos humanos, apesar das muitas preocupações de que a condenação possa ajudar a defesa da livre expressão em países muçulmanos (sic)” [NTs].