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sábado, 4 de julho de 2015

Grécia: Só o “NÃO” salva o euro


1/7/2015, [*] James Galbraith, The American Prospect
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Com a Grécia a preparar-se para um referendum sobre as demandas dos credores, que querem mais arrocho, o futuro da Europa oscila na balança.

Campanha pelo voto "NÃO"

No domingo (5/7/2015) a Grécia fará um referendum de cujo resultado dependerá o futuro do país e de seu governo eleito, e com o destino do euro e da União Europeia também na balança. Pela escrita de hoje, a Grécia não pagou ao FMI parcela já vencida; as negociações foram interrompidas, e os grandes e bons estão dando por descartado o governo grego e pregando um voto “Sim”, que aceite os termos dos credores para o que seja “reforma”, para “salvar o euro”. Em todos esses juízos, eles estão – e não é a primeira vez – errados.
Para compreender essa luta amarga, ajuda se, antes, nos dermos conta de que os líderes europeus hoje são gente rasa, enclausurados, preocupados com a política local de cada um e mal preparados moralmente ou intelectualmente, para lidar com um problema continental. É verdade sobre Angela Merkel na Alemanha, sobre François Hollande na França, e é verdade também sobre Christine Lagarde no FMI. Especialmente no Norte da Europa, os líderes não sentiram a crise e nada sabem de economia, e nesses dois campos são o perfeito oposto dos gregos.
Para os norte-europeus, os profissionais nas “instituições” definem os termos, e só há um efeito pensável: aceitar. A negociação que houve foi sempre do mesmo tipo: mais e mais concessões do lado grego. Qualquer adiamento, qualquer objeção, só podia ser interpretado como má intenção. As intenções adversas são normais, é claro: os políticos esperam que haja. Mas aos seus pares ministros das Finanças jamais ocorreu a ideia de que o Ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, não é movido por nenhuma intenção inconfessável. Quando Varoufakis não parou nem cedeu, a resposta dos grandes e bons foram ofensas e assassinato de reputação.
Ao contrário do que pretendem comentários mal informados, o governo grego sempre soube, desde o início, que enfrentava furiosa hostilidade de Espanha, Portugal e Irlanda; desconfiança profunda da esquerda mainstream na França e na Itália; obstrução implacável da Alemanha e do FMI; e disposição para desestabilizá-lo, do Banco Central Europeu. Mas por muito tempo, esses pontos não foram visíveis internamente. Havia gente influente, muito próximos de Tsipras que não acreditavam nisso. Há outros que sentiam que, no final, a Grécia teria de se conformar com o que conseguisse arrancar. Então, Tsipras adotou uma política de ceder terreno. Deixou que os intermediários negociadores negociassem. E quando voltaram com concessão e mais concessão, ele acedeu e concordou.
Abaixo o EURO!

Em resumo, o governo grego descobriu que tinha de ceder às demandas dos credores por superávit primário grande e permanente. Foi um golpe duro; significava aceitar o arrocho que o governo havia sido eleito para rejeitar. Mas os gregos insistiram no direito de determinar a modalidade do arrocho, e essa modalidade seria principalmente aumentar impostos sobre os gregos mais ricos e sobre lucros das empresas. Pelo menos, a proposta protegia os aposentados mais pobres contra cortes ainda mais devastadores. E não cederam em direitos trabalhistas fundamentais.
Os credores rejeitaram também isso. Insistiram no arrocho e também em determinar a precisa forma desse arrocho. Foi quando deixaram claro que não tratariam a Grécia como haviam tratado qualquer outro país europeu. Os credores lançaram sobre a mesa uma proposta tipo “pegar ou largar”, que sabiam que Tsipras não poderia aceitar. De um modo ou de outro Tsipras estava sobre a linha de alvo. Decidiu correr seus riscos, num referendum.
A reação furiosa e destemperada dos líderes europeus não foi, provavelmente, inteiramente falsa. Talvez ainda não se tivessem dado conta de que enfrentavam coisa que não se vê na Europa já há alguns anos: um líder político.
Alexis Tsipras está no cenário internacional há apenas poucos meses. Não é refinado, mas é sedutor. Seria fácil para gente tão limitada em círculos estreitos como são os atuais líderes europeus não perceber que Tsipras, como Varoufakis, queria dizer e dizia, sem simulação, exatamente o que todos ouviam.
Diante da decisão de Tsipras de convocar um referendum, Merkel e seu vice-chanceler Sigmar Gabriel, Hollande da França e David Cameron da Grã-Bretanha – e, para vergonha dele, também Matteo Renzi da Itália – todos enviaram mensagens ao povo grego, dizendo que estariam decidindo sobre a permanência da Grécia na Eurozona. O Presidente da Comissão Europeia foi ainda mais longe, disse que seria votação para decidir a permanência como membro da União Europeia. Foi ameaça orquestrada: rendam-se ou vocês estão acabados.



A verdade é que nem o euro nem a Eurozona estão em questão, no referendum e o que o que estará em votação é o que responder aos credores. A ameaça de expulsar a Grécia é blefe óbvio. Não há meio legal para alguém ejetar a Grécia para fora da Eurozona ou da União Europeia. O referendum é , de fato, e obviamente, sobre o governo eleito na Grécia. Os líderes europeus sabem disso. E estão tentando assegurar que Tsipras caia.
O que Tsipras ganha com a vitória do voto “NÃO”? Além de sobrevida política, só uma coisa: esse é o meio que ele tem para provar, de uma vez por todas, que absolutamente não pode ceder as condições que estão sendo impostas. O ônus, pois, volta a recair sobre os credores. Se escolherem destruir um país europeu, terão cometido um crime, e todos verão.
Isso posto, não há garantia alguma de que Tsipras vença no domingo. Nas eleições de janeiro, seu partido obteve apenas 40% dos votos; agora, precisa alcançar a maioria. Há medo e confusão por todos os lados. Os gregos estão votando, de fato, para escolher entre dois desconhecidos, o que não pode oferecer garantia para ninguém, de lado algum.
Se os gregos votam “NÃO”, há óbvia incerteza sobre o futuro econômico. Talvez os bancos continuem fechados, os depósitos estarão perdidos e os credores levarão adiante suas ameaças. A incerteza é amplificada, inevitavelmente, pelo fato de que o governo não pode fazer campanha a favor de permanecer no euro e ao mesmo tempo explicar como enfrentará o trauma de ser forçado a sair. Se há providências preparadas, é segredo até agora muito bem guardado.
Por outro lado, se os gregos votam “SIM”, a incerteza é política. A coalizão SYRIZA pode rachar e seu governo, cair. Então, o que acontecerá? Não há governo alternativo com credibilidade na Grécia. Acima de tudo, é difícil acreditar que algum governo (no sentido de qualquer governo, seja qual for) formado para aceitar a rendição e aprofundar a depressão durará muito tempo.
Syriza e os EURORRATOS

Parece certo que depois de um “SIM”, uma rendição, e depressão ainda mais profunda, a Oposição oficial deixará de ser feita pela esquerda pró-Europa que está hoje no governo da Grécia. Essa oposição terá sido destruída pela Europa. A nova Oposição, e algum dia o governo, será ou um partido de esquerda ou um partido de direita que se oporá ao euro e à União Monetária. Pode ser a Aurora Dourada, o partido neonazista. A lição da Grécia ecoará sobre oposições em outros pontos do mundo, inclusive na extrema direita em ascensão na França.
A ironia do caso é que a verdadeira esperança – a única esperança – para a Europa está numa vitória do “NÃO” no domingo, seguida de novas negociações e melhor acordo. O “SIM” é vitória do medo, contra a dignidade e a independência. O medo é força poderosa – mas dignidade e independência podem voltar, prestigiadas, ao centro do palco.
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[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).




sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cavalo (fúnebre) de Troia: Syriza e a fantasia do euro sem arrocho

12/1/2015, [*] Greg PalastΔιάλογος [Diálogo], Atenas
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou o FMI passear – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de “austeridade”] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, ferramenta para massiva transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil de Lula e Dilma jamais cedeu o controle sobre sua moeda.


Troika - Cavalo de Troia: Syriza fará a Grécia capitular? 
SYRIZA quer curar a lepra da Grécia, mas quer que a Grécia continue a viver hospedada no leprosário. Quero dizer: SYRIZA quer livrar a Grécia das dores do arrocho [“austeridade”], mas insiste em continuar na zona do euro.

O problema é que o arrocho é só um sintoma da doença: a doença é o próprio euro.

Nos últimos cinco anos, os gregos ouviram dizer que, se curarem a doença de vocês – quer dizer, se abandonarem o euro –, o céu desabará sobre a cabeça de vocês. Acho que ninguém percebeu, mas o céu já desabou. Com desemprego acima de 25%, não há mais o que desabar.

Em 2010, quando o desemprego estava em terríveis 10%, a TROIKA prometeu que medidas de arrocho [austeridade] duro restaurariam, já em 2012, a economia grega. Olhem em volta e perguntem a vocês mesmos: a TROIKA acertou?

Há um dito nos EUA:

Me engane uma vez, a vergonha é sua. Me engane duas vezes, a vergonha é minha.

Se a Grécia pode sobreviver sem o euro? Mas vocês já estão mortos. Não passam de fantasmas. Disseram aos gregos que se deixarem o euro e não honrarem as dívidas, não terão acesso aos mercados mundiais de capitais. A realidade é que vocês já não têm acesso aos mercados mundiais: ninguém empresta a zumbis.

Muitas nações dão-se muito bem sem o euro: Suécia, Dinamarca e Bangladesh vivem excelentemente sem o euro – e também a Turquia, que teve a sorte de ser excluída da Eurozona. Enquanto os turcos se mantiverem agarrados à lira, nem mesmo um islamo-fascista com dano cerebral grave como Recep Tayyip Erdoğan conseguirá destruir a economia turca.

Se os gregos podem abandonar o euro? Há os mais felizes precedentes a seguir. A moeda argentina foi, antes, ligada ao dólar dos EUA, como a Grécia é hoje ligada ao euro.* Em 2000, os argentinos famintos e irados, revoltaram-se. A Argentina derrubou a ditadura do dólar, todos os diktats do FMI e as ameaças dos credores, e aplicou um calote, rindo, nos seus papéis em dólar. Desde então a economia argentina só cresce. Se a Argentina está hoje sob ataque dos abutres financeiros, é, exclusivamente, porque o país tornou-se tentadoramente muito rico.

Merkel, Euro e o ARROCHO!
Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou passear o FMI – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de ‘austeridade’] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, meio massivo de transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil jamais cedeu o controle sobre sua moeda.

“Arrocho”: É religião, não é economia

Wolfgang Schäuble
O euro é simplesmente o marco alemão com estrelinhas em volta. Não se pode adotar a moeda alemã, sem adotar o ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble, como ministro.

E Schäuble determinou que a Grécia tem de ser punida. Não há, é claro, teoria econômica crível que diga que o arrocho – quer dizer, cortar gastos do governo, cortar salários, cortar demanda de consumo – poderia de algum modo ajudar país em recessão, em deflação.

Mas o arrocho, também chamado de “austeridade”, nada tem a ver com economia. É religião: a crença, entre os duros luteranos alemães, de que os gregos já se divertiram demais, já gastaram dinheiro demais, já passaram tempo demais espreguiçando-se ao sol – e agora têm de pagar um preço pelos seus pecados.

Estranhamente, ouço essas bobagens de autoflagelamento também dos próprios gregos: somos vagabundos, preguiçosos. Merecemos o castigo. Estupidez e mais estupidez. Em média, o trabalhador grego trabalha mais horas que qualquer outro trabalhador nas 34 nações da OECD; o alemão é o que trabalha menos.

Alexis Tsipras gostaria de poder fingir que o arrocho e o euro seriam coisas diferentes, que se pode casar com a bonitinha e não convidar para a festa a cunhada feia. Aparentemente, o chefe do SYRIZA vive abençoadamente ignorante da história do euro. O horror do arrocho não é consequência da prodigalidade da Grécia: ele está projetado e previsto no plano do euro, desde o início.

Foi exatamente o que me explicou o próprio pai do euro, o economista Robert Mundell da Universidade de Columbia. (Estudei economia com o parceiro de Mundell, Milton Friedman.) Mundell não inventou só o euro: inventou também as políticas-máquinas de-produzir miséria de Thatcher e Reagan, chamadas “economia de oferta” [orig. “supply-side economics”] – ou, como a chamava George Bush Pai, “economia vudu”. Vudu de oferta é a crença há muito tempo desmascarada, segundo a qual se o país desmonta o poder dos sindicatos, corta impostos para empresas, elimina regulações que o governo impunha e a propriedade pública em geral... “disso” advirá a prosperidade econômica.

A Tragédia Grega imposta pela União Europeia
O euro é simplesmente o outro lado da moeda “da oferta”. Como diz Mundell, o euro é o modo como Congressos e Parlamentos podem perder o máximo poder nas políticas monetária e fiscal. A democracia, sempre com potencial para incomodar, é extraída do sistema econômico.

Sem política fiscal, Mundell me disse, o único modo pelo qual as nações podem manter empregos é promovendo a redução competitiva das leis que legislam sobre o business.

A Grécia, para sobreviver numa economia do euro, só conseguirá reviver o emprego se reduzir salários. De fato, a recente mínima redução no desemprego é o sinal de que os gregos já estão aceitando, aos poucos, um futuro permanente de baixos salários, servindo piña colada a alemães em cruzeiros turísticos.

Há quem diga que devemos à Alemanha, ao FMI e ao Banco Central Europeu pelo “resgate” da Grécia. Estupidez. Nenhum dos bilhões dos fundos de “resgate” foram para os bolsos dos gregos. Todos eles fora para o caixa do Deutsche Bank e de outros credores estrangeiros. O Tesouro da União Europeia engoliu 90% de seus papeis de bancos privados. A Alemanha resgatou a Alemanha, não a Grécia.

E agora a Grécia tem de pagar à Alemanha, Sr. Tsipras, quer dizer: se o senhor ainda quer usar a moeda alemã.

Robert Mundell
Ironicamente, é Robert Mundell, o pai do euro, cuja famosa Teoria das Áreas Monetárias Ótimas (pela qual ganhou o Prêmio Nobel), quem explica claramente por que Alemanha e Grécia de modo algum podem partilhar uma mesma moeda. Uma nação baseada em turismo, pesca e agricultura não pode cimentar os próprios termos de comércio como uma nação industrial. As consequências logo se veem: mediante o euro, a Alemanha mantém a moeda grega ridiculamente supervalorizada, de modo que Grécia, como Itália, Espanha e Portugal, não possam fazer concorrência às exportações alemãs.

Desculpe, Sr. Tsipras, mas permanecer no erro é decisão de maluco. Não pode ser – não honestamente. Não há meio possível pelo qual a Grécia consiga satisfazer a exigência do euro de limitar o déficit grego a 3% do PIB, sem eliminar as pensões e aposentadorias pagas pelo estado, sem arrochar salários. E não é ‘'austeridade'’ temporária; é arrocho que perdurará por todo o século XXI.

E não há meio honesto para derrubar a dívida nacional pelo “critério de convergência” do euro de 60% do PIB, sem liquidação em massa de propriedade do estado. Mas o problema com essas privatizações é que, quando você vende uma empresa de água, nem por isso você deixa de precisar beber água. A única diferença é que, depois da privatização, o preço da água sobe, e só alguns insiders [gíria: PDL – Por Dentro do Lance (Nrc)] e seus parceiros estrangeiros conseguem ao mesmo tempo beber água e enriquecer.

Yanis Varoufakis e Alexis Tsipras (20/11/2015)
A razão pela qual a Grécia está hoje presa por dívidas são as fraudes criminosas cometidas por governos anteriores para satisfazer os “critérios de convergência” do euro. A ruína da nação começou com swaps de moedas secretos, fraudulentos, concebidos há uma década por Goldman Sachs, para esconder os déficits gregos que excediam o limite de 3%-do-PIB da Zona do Euro. Quando se descobriu a verdade, os detentores da dívida grega viram que haviam sido tungados. Esses compradores da dívida, então, exigiram níveis de juros de usurário (ou, se alguém preferir: spread altíssimo), para protegerem-se contra fraudes futuras. Os juros sobre juros cobrados desses papeis puseram de joelhos a nação grega.

Em outras palavras: a causa da crise são os crimes cometidos para unir-se ao e permanecer no euro, não alguma prodigalidade grega. Isso permitiu que o euro – essa máquina de Mundell à prova de qualquer remorso – fizesse seu trabalho, até forçar a Grécia a ceder todo o poder e todos os fundos que pertenceram à classe trabalhadora. Sem poder sobre a própria oferta de dinheiro e taxa de câmbio, a Grécia desabou de joelhos, implorando a mercê da Alemanha.

Mas não há mercê. Como o Schäube alemão não se cansa de repetir, os votos de vocês valem nada.

Novas eleições nada mudam nos acordos firmados com o governo grego –como diz ele. – Os gregos não têm alternativa.

Ah, ministro Schäuble, mas, sim, os gregos têm saída. Os gregos podem dizer ao senhor e sua gangue, que peguem o seu euro de vocês e... engulam.
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Nota dos tradutores
[1] O peso argentino era ligado ao dólar norte-americano à razão de 1:1 [em 1996, nos governos da tucanaria privateira no Brasil, também o era a moeda brasileira.
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[*] Greg Palast (nascido em 26/6/1952) é um jornalista investigativo  estadunidense que reside na Inglaterra. Trabalha para o New York Times, BBC, The Observer, The Guardian e outras publicações. Seu trabalho centra-se frequentemente em prevaricação corporativa, mas também tem sido conhecido por trabalhar com sindicatos e grupos de defesa do consumidor. Notabilizou-se por descobrir a fraude de Jeb Bush e sua quadrilha composta da secretária Katherine Harris e o Chefe da Unidade Eleitoral, Clay Roberts, em composição com a corporação ChoicePoint (uma espécie de PROCONSULT da Flórida) na manipulação da contagem das cédulas dos votantes, na Flórida, durante a eleição presidencial de 2000 e novamente em 2004, quando a apuração da roubalheira nas urnas mostrou que o candidato John Kerry, na verdade, venceu a disputa, sendo derrotado não fosse o “desproporcional” roubo dos votos do Partido Democrata.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Yanis Varoufakis: “Grécia não quer deixar o euro nem ameaçará deixá-lo”

(Ainda em campanha, antes do Syriza ser eleito)

1/1/2015, Entrevista de Yanis Varoufakis - blog Truman Factor
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Obs.: Este excerto da entrevista, visa apresentar o trabalho teórico de Varoufakis

Ver também: 29/1/2015, Portal Popular, em: Yanis Varoufakis: “Vamos desmantelar a cleptocracia grega”

Yanis Varoufakis
Professor de Economia da Universidade de Atenas, Yanis Varoufakis, é amplamente conhecido e reconhecido como dos mais respeitados defensores de mudanças na política econômica europeia.

Desde o início da crise do euro, Varoufakis tirou suas competências pedagógicas de dentro das salas de aula e levou-as para os principais veículos da imprensa-empresa mundial e think tanks, empenhado em promover um modo diferente de a Europa enfrentar seus inimigos. Desde criticar veementemente os programas de “resgate” na Grécia – que descreve como “tentativas cínicas de tirar os prejuízos dos ombros dos bancos privados, e jogá-los sobre os ombros dos mais pobres pagadores de impostos em toda a Europa” – até a coautoria de A Modest Proposal [Uma modesta proposta], “caixa de ferramentas” de orientação econômica para superar a crise do euro.

“A Europa precisa de uma sacudida” – disse Varoufakis quando começou a apoiar a candidatura de Alexis Tsipras à presidência da Comissão Europeia, na primavera de 2014. Semana passada, o destacado professor anunciou que, afinal, chegara a hora de unir-se à equipe que trabalha para forçar aquela sacudida: assumiu oficialmente a candidatura a um lugar no Parlamento Grego, pelo Partido da Coalizão da Esquerda Radical, SYRIZA, “com a firme decisão de participar na negociação da Grécia com Berlim, Frankfurt e Bruxelas”.  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Pepe Escobar: “E o Prêmio Nobel da Guerra? Para a OTAN?”


13/12/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido e musicado pelo pessoal da Vila Vudu

Para ler ao som de “It’s only rock’roll, but I like it” [É só rock’n roll, mas eu gosto],
dos Rolling Stones [com Tina Turner – por que não? – em 23/3/1988, (NTs)]


Pepe Escobar
Nessa 2ª-feira, a União Europeia (EU) recebeu, em Oslo, o Prêmio Nobel da Paz, por promover a paz, a reconciliação, a democracia e os direitos humanos.

Que emocionante. Observem o elenco selecionado para receber a honraria: o espetacularmente inútil Herman van Rompuy (presidente do Conselho Europeu); o espetacularmente medíocre Jose Manuel Barroso (presidente da Comissão Europeia); e Martin Schulz, essa não entidade, presidente do Parlamento Europeu. Os Rolling Stones podem estar geriátricos, mas, pelo menos, sabem comandar a massa.

Barroso falou feito pudim de vinho do Douro; disse que a União Europeia é “poderosa inspiração para muitos em todo o mundo”. Ora bolas! O caso de amor que as massas chinesas vivem hoje com Audi e Prada não é inspirado exatamente pela União Europeia. Disse também que a União Europeia é produto “do livre consenso dos estados para partilhar a soberania”. Ora bolas! Os britânicos estão tão entusiasmados com a tal partilha, que a vasta maioria da população quer pular fora.

José Manuel Barroso
Mas Barroso argumentou bem, ao defender o euro: “Vamos defender o euro”.

O que os noruegueses – os quais, espertamente, não se deixaram arrastar para a União Europeia – fizeram foi entregar um Prêmio Nobel ao (desvalorizado, detonado) Euro. Movimento de Relações Públicas. Afinal, não há dois membros da União Europeia que concordem, numa linha, que seja, sobre impostos, regulação para o turbocapitalismo, ou sobre o que fazer de uma Grécia falida, nem de todos os países do “Clube Med” que logo também estarão falidos; ou sobre o que estão fazendo, de verdade, aqueles soturnos sujeitos do Banco Central Europeu.

Verdade é que poucos, exceto a legião de burocratas de Bruxelas, com gordos cartões para despesas, sabe para que serve, diabos, a União Europeia, além de servir para almoçar em Paris e jantar em Parma sem precisar carregar o passaporte (oh, sim, o que salva a União Europeia é a gastronomia fabulosa, pelo menos para os que possam pagar).

A União Europeia existe, basicamente, por causa do artigo 3º do Tratado de Lisboa; espera-se que seja “economia social de mercado altamente competitiva”, negociando em euros. Sim, você tem todo o direito de continuar intrigado – porque qualquer exame das manchetes recentes revela que esse esquema não está funcionando. O esquema é comandado por uma casta de tecnocratas viciados em “ajustes estruturais” que condenam dúzias de milhões ao fundo do poço da austeridade. Como se aqueles burocratas de Bruxelas dissessem “Vocês estão ou conosco – com o euro – ou contra nós (e, nesse caso, é guerra). O caso é que a guerra econômica – contra cidadãos europeus – já ruge.

It's only rock'n war... / É só gritaria e guerra...

A política externa da União Europeia também pode não passar de piada, 27 galinhas degoladas atirando a esmo (e umas contra as outras) contra tudo, da Palestina à admissão da Turquia. Mas se há coisa que a União Europeia faz bem feito é produzir, pôr no mercado e vender armas a todos os envolvidos no business da guerra.

O jornal Asia Times Online confirmou, de fonte independente (dois diplomatas com base na EU) que os EUA – pelo seu braço armado dominado pelos EUA, a OTAN – estão prontos para mais uma guerra, na Síria. Confirma-se assim matéria recente, nessa linha, publicada no diário alemão Suddeutsche Zeitung (Moon of Alabama oferece boa tradução ao inglês).

Anders Fogh Rasmussen
Os diplomatas confirmaram ao jornal ATol, que o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – o espetacularmente medíocre Anders Fogh Rasmussen – comicha, de tanto que quer guerra na Síria, envolto na retórica de “a OTAN não deve enterrar a cabeça na areia”.

Para recitar suas linhas diretamente de Washington, Rasmussen conta com forte apoio da Turquia, Grã-Bretanha e França, com a Alemanha apanhada em posição extremamente ambivalente: o ministro alemão de Relações Exteriores, Guido Westerwelle descartou a guerra, em favor de uma solução política.

Uma coisa é um ataque de comichão a favor da guerra; acertar o negócio é outra. Até a diretiva geral para que a OTAN comece o espetáculo na Síria tem de ser aprovada por todos os 28 países da OTAN. Seja como for, o esqueleto do negócio é o seguinte: Washington mantém a ordem dada ao seu fantoche dinamarquês Rasmussen para que prossiga no serviço de preparar o caminho da guerra, por todos os meios necessários.

Bem-vindos à Síria, nova Líbia 2.0 – apesar de não haver jeito de Washington usar mais uma vez a conversa fiada da Responsabilidade para Proteger [orig. Responsibility to Protect (R2P) no Conselho de Segurança da ONU.

Angela Merkel
É, Bruxelas, temos um problema. Tudo acontece no momento em que mísseis Patriots são deslocados para a fronteira turca, com 400 soldados alemães. A opinião pública alemã não quer outra guerra no mundo muçulmano. Em 2013, haverá eleições na Alemanha. Nem Angela Merkel nem Westerwelle são suicidas.

A conversa sobre os mísseis Patriots – que “protegerão” a Turquia contra mísseis a serem lançados da Síria – saiu, sem tirar nem pôr, do Manual de Uso de Armas de Enganação em Massa. Frederick Ben Hodges, chefe do recém inventado Comando dos Aliados em Terra da OTAN [orig. Allied Land Command], com base em Izmir, Turquia, contou à agência de notícias da Anatolia que os Patriots lá estarão para conter os mísseis químicos da Síria.

Como se Bashar al-Assad, tanto quanto Frau Merkel, fosse doido suicida. Os únicos que realmente acreditam na invenção de propaganda instigada pela inteligência em Washington – segundo a qual Damasco “pode” usar armas químicas como último recurso é o cãozinho-de-madame, Rasmussen, e o clube britânico-franco-turco de mediocridades políticas. Nada faz crer que a propaganda da OTAN assuste o governo sírio.

Recep Tayyip Erdogan
Quanto ao espetacularmente errático primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, fez pleno sentido em, pelo menos, uma coisa: é como uma febre, uma doença; o homem só pensa em zona aérea de exclusão. Mesmo que a opinião pública turca não queira guerra, nada cura Erdogan da tal doença. A máquina de propaganda de EUA/OTAN tentou de tudo: de suborno a hordas de funcionários em Damasco, até culpar Assad por mini-holocaustos semanais. Nada funcionou.

Os chamados “rebeldes” – infestados de jihadistas-salafistas – só “controlam” áreas rurais; pequenos enclaves de maioria sunita ou favelas em torno das grandes cidades. Há cerca de 40 mil combatentes nos subúrbios de Damasco; podem estar caminhando para cair diretamente numa monstruosa armadilha montada pelo Exército Sírio.

Deve-se, portanto, esperar que o dito “fator decisivo” tenha de fazer hora extra. Até que o medo das tais armas químicas leve – como tantos querem? – à zona aérea de exclusão, buscada como se fosse o Santo Graal.

...But I like it /... Mas eu gosto

Esqueçam o sempre propagandeado Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)] “pró-democracia”. Não passa de gangue financiada e logisticamente apoiada e organizada por EUA, OTAN e as petromonarquias do Golfo Pérsico, exemplares de boa democracia; totalmente infiltrado por jihadistas linha duríssima, sírios, líbios e iraquianos, que matam civis indiscriminadamente, em nome da União Europeia, laureada com o Prêmio Nobel da Paz e ardente defensora de direitos humanos.

Mas não desistem. Sob o olhar vigilante dos EUA e do Clube CCGOTAN (Conselho de Cooperação do Golfo e OTAN), rebeldes de alto escalão reuniram-se na Turquia na 6ª-feira passada, para eleger um “comando unificado de 30 membros”. Como é fácil adivinhar, todos os 30 membros são ligados ou aos salafistas ou à Fraternidade Muçulmana (FM); dos comandantes islamistas Jamal Marouf e Ahmad al-Issa, ao ícone salafista coronel Abdelbasset al-Tawil. Os dois cabeças de Aleppo são – claro! – salafistas. Tradução: exatamente os mesmos que o Departamento de Estado (ainda) não redefiniu como “terroristas”.

O modus operandi genérico deve ser expandido: mais armas financiadas por europeus para as gangues de jihadis-salafistas assassinos. A França está fazendo chover euros sobre eles, a partir da fronteira turca. Na quarta-feira, 12/12, os “Amigos da Síria” reúnem-se novamente em Marrakesh, Marrocos, já pesadamente tendentes a votar com o núcleo “queremos guerra” do Clube CCGOTAN.

Noruegueses, vocês nada têm a perder, senão o senso do ridículo – se já não se foi, de vez, também ele.

Afinal, se uma União Europeia em ruínas, moeda em ruínas e tudo, pode meter na mala o Prêmio Nobel da Paz de vocês... é hora, já, de entregar um Prêmio Nobel da Guerra à OTAN, que nada faz além de guerra.

Rasmussen não é nenhum Mick Jagger, mas já baba de vontade de guerra. É só gritaria e guerra, mas ele gosta.