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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O terceiro homem ‒ Nota de leitura sobre uma história da Jihad islâmica palestina


24/11/2014, [*] Fausto Giudice, Basta! Journal de Marche Zapatiste Multilangue
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu  



Resenha de: Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €.


No mundo polarizado no qual nos debatemos, o pensamento-único dominante é binário: “ou estão conosco ou estão contra nós”. E no caso da situação na qual se vê presa aquela pobre Palestina, esse pensamento binário é posto a rodar com a artilharia pesada, em sentido literal e em sentido figurado. Também se tornou habitual apresentar os atores palestinos sempre reduzidos à dupla de irmãos-inimigos Fatah-Hamás, os primeiros já tornados apresentáveis e cooptáveis no conjunto dos partidos “de Estado”, porque pressupostos laicos, democráticos e pacíficos; e os segundos deixados encerrados no próprio gueto de Gaza, regularmente atacados por tempestades de ferro, fogo e sangue, e quase hermeticamente lá trancados há oito anos, além de estarem incluídos nas listas – construídas pelas potências do “mundo livre” já lançadas em novas cruzadas – de organizações terroristas.


Ao mesmo tempo, até esse pensamento binário já está sendo posto em causa por Netanyahu e seus acólitos, que tentam convencer seus aliados USA-norte-americanos e europeus de que “tudo isso” – o conjunto dos partidos e movimentos palestinos – não passa de único e o mesmo bando de exterminadores de judeus.

Se se procura nos buscadores de informação por internet mais conhecidos, o que se encontra é o seguinte:


Palavra-chave
Ocorrência nos “buscadores” internet
Em caracteres latinos
Em árabe
Hamás
6.330.000 
16.000.000 
Fatah
42.600.000 
32.400.000 
OLP
23.300.000
1.120.000 
Jihad islâmica palestina
180.000 
1.600.000

Como se vê, nada de fotos: a organização da Jihad islâmica palestina é praticamente uma fantasma midiático. É preciso pois receber com entusiasmo o trabalho de pesquisa feito por três autores que pertencem, dois deles, à nova geração de “islamólogos/orientalistas” franceses; e o terceiro, à diáspora palestina. Esses autores reúnem as três condições mínimas exigidas para uma abordagem racional/científica de um movimento político árabe: conhecem a língua árabe; conhecem pessoalmente os protagonistas; e têm cultura geral suficientemente ampla para poderem realocar em contexto histórico, político, cultural, social, militar e religioso os atos e discursos dos atores estudados.

Para todos e todas que nunca se cansam de meter os movimentos de resistência “islamistas” no grande caldeirão dos “barbudos doidos (a zombar) de Deus”, bons para a geena, o livro de Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €), permitirá um mergulho num mundo e numa história desconhecidos de 99% dos ocidentais, inclusive os pró-Palestina, com doses equilibradas de empatia e de distanciamento crítico. É livro cuja leitura se tem de recomendar, sobretudo aos militantes franceses de esquerda, partidários incondicionais do Fatah, aos quais a simples existência do Hamas e do Hezbollah provoca engulhos, quando não lhes provoca urticárias e comichões: verão que as coisas não são tão simples, e que o Fatah é muito mais “islamista” do que lhes agrada ver.

Messali Hadj
Como foi o caso da Frente de Libertação Nacional da Argélia e, antes dela, da Estrela Africana/MTLD de Messali Hadj, que conseguiu a proeza de ser, simultaneamente, dirigente próximo da Internacional Comunista e de ver-se indicado Califa por um congresso de Islâmico no Cairo, nos anos 1930. Como foi também o caso de Bourguiba, Néo-Destour, apresentado em geral como exemplo máximo de laicismo, mas do qual já se esqueceu completamente que, naqueles mesmos anos 1930, ele distribuía panfletos pelas mesquitas cujos imãs pregavam que a participação numa ou noutra greve, numa ou outra manifestação de rua era dever de todos os muçulmanos.

De volta ao caso dos palestinos, impõe-se uma primeira constatação: todos, seja qual for a ideologia que declarem e ostentem, são palestinos, antes de serem “islamistas”, “esquerdistas”, “nacionalistas árabes” ou outros, e todos, inclusive os cristãos, vivem imersos em cultura ambiente muçulmana. Esse patriotismo “estreito”, comum, de fato, a todos os povos árabes, que foi interiorizado nas fronteiras nacionais herdadas pelos colonialismos e protetorados é, é claro, particularmente exacerbado entre aqueles cuja terra natal esteja ocupada há já quase um século por colonos judeus ou que se dizem judeus.

Corolário desse patriotismo é o anti-imperialismo, que passou por várias fases ao longo dos eventos do mundo e da região.

Ao analisarem muito corretamente o projeto sionista e sua implantação como emanação das potências coloniais – Grã-Bretanha e França – que passaram, na sequência, o bastão aos EUA, os palestinos voltam-se “naturalmente” na direção dos que, naquele mundo, pareciam combater aquelas potências: a URSS, a China, o Vietnã e Cuba.

Yasser Arafat
O entusiasmo pela URSS já esfriara um pouco, quando os soviéticos votaram, na ONU, a favor do plano de partilha da Palestina do dia 29/11/1947; as simpatias e afinidades ideológicas encaminham-se progressivamente na direção de Pequim, Hanói e Havana. Mas dois eventos mudariam tudo: a revolução iraniana de janeiro de 1979; e a “entrada do Exército Vermelho no Afeganistão, dia 25/12/1979, que viria a resolver à tiros de kalachnikov o conflito entre os comunistas afegãos no poder. Aquele mesmo ano de 1979 viu eclodir também uma guerra entre a China, já dirigida pelo “pragmático” herdeiro de Mao, Deng Xiao Ping, homem ao qual pouco importava a cor do gato, desde que apanhasse o camundongo, o Vietnã, ocupado na guerra para eliminar os Khmers vermelhos maoístas do Camboja. Teerã, então, se converteu, repentinamente, em nova Meca dos revolucionários palestinos – com Yasser Arafat incluído. [1]

O impacto da revolução iraniana é enorme no mundo árabe-muçulmano, principalmente nos grupos e movimentos político-militares palestinos e libaneses e, mais amplamente sobre a juventude, em particular sobre os estudantes.

Um grupo de estudantes palestinos, originários quase todos de Gaza, bolsistas no Egito, constituem um primeiro núcleo do que virá a ser o Movimento da Jihad islâmica palestina, nascida oficialmente em outubro de 1987, pela primeira ação militar desse grupo contra um acantonamento israelense no quarteirão do Shujaayia em Gaza, prelúcio da 1ª. Intifada, que eclodirá dia 9/12/1987. O mesmo quarteirão no qual, em julho de 2014, os soldados israelenses conheceriam sua primeira grande derrota tática da Operação “Franja de Proteção”.

Anwar el-Sadat em 1981
Entre a “divina surpresa” de 1979, e 1987, dois eventos foram decisivos para recentralizar o combate dos palestinos sobre o território da pátria ocupada: o assassinato do presidente Sadat em 1981, que desencadeia uma caça aos islamistas, sem poupar os palestinos, apesar de nada terem tido a ver com o assassinato; e a ocupação do Líbano, por Israel, em 1982, que obrigou a evacuar combatentes e funcionários palestinos para a Tunísia, Argélia, Iraque ou Iêmen.

Os militantes da Jihad islâmica concentram sua atenção sobre Gaza e prosseguem no trabalho discreto de construir uma vanguarda revolucionária, tentando amalgamar a própria bagagem teórica heteróclita, reagrupando progressivamente militantes vindos da esquerda marxistizante e/ou nacionalista árabe, ao mesmo tempo que preservavam relações complexas ao mesmo tempo com os Irmãos muçulmanos , que haviam frequentado no Egito, e frações islâmicas do Fatah. Os Irmãos da Fraternidade Muçulmana de Gaza só se decidiriam a passar à luta política – e portanto militar – no momento da 1ª. Intifada, quando criaram oficialmente o Hamas, beneficiando-se da rede pacientemente tecida nas mesquitas e nos serviços de atendimento caritativo aos mais necessitados.

27 anos mais tarde, a Jihad islâmica é o terceiro movimento político-militar palestino por ordem de importância. Teve papel importante na resistência contra a mais recente ofensiva de Israel contra Gaza e continua como “um estranho soldado” na paisagem palestina, com exército “de sombras” estimado em 5.000 combatentes, dirigidos por comandantes que, todos eles, leram e discutiram de Antonio Gramsci e Ibn Khaldoun a Mao e Che Guevara, passando por Khomeini e Ali Shariati, o tradutor de Franz Fanon para o persa. Atualmente, com relações complexas de “fraternidade conflitual” com o Fatah e com o Hamas, esse movimento, que se pode qualificar como “islamo-nacionalista revolucionário” goza de grande prestígio entre os palestinos de todos os grupos, primeiro lugar porque por muito tempo cumpriu as funções de mediação e conciliação entre os dois grandes irmãos inimigos.

 Olivier Roy
Para saber mais, só falta ler essa obra da qual Olivier Roy diz, em prefácio, que:

(...) traz contribuição extremamente original: a análise das trajetórias militantes dos fundadores e dos quadros do movimento. Um maoísta ateu pode tornar-se islamista em nome da fusão com as massas; um islamista da Umma pode inscrever sua luta no quadro de um nacionalismo palestino, e acabar por rejeitar o internacionalismo islamista porque vê aí um pretexto para ignorar as lutas nacionais e, e voltar a refugiar-se em um universo panislamista. Os caminhos se cruzam, os militantes evoluem. Com certeza muitos jogaram ao lixo o bebê Marx com a água soviética do banho.

A influência profunda do marxismo em muitos dos fundadores do Movimento da Jihad Islâmica Palestina (MJIP) – e do Hezbollah – explica tanto a originalidade quanto a eficácia na ação, desse(s) movimento(s).

[Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €, p. 9].

Café-debate: Apresentação do livro, com Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, que coordenaram a edição, está marcada para 2ª-feira, 24/11/2014, às 19h, pela Associação UniT (“Union pour la Tunisie”), no Myanis (132 boulevard de Ménilmontant, 75020 Paris).

Nota de rodapé

Aiatolá Khomeini
[1] Khomeyni é nosso Imã, nosso chefe, o dirigente de todos os mujahidins, seremos dois povos em um só, duas revoluções numa só e cada fedai, cada mujahid, cada revolucionário iraniano será o embaixador da Palestina no Irã. Nós libertamos o Irã, nós libertaremos a Palestina. Continuaremos nossos esforços até o momento em que tenhamos derrotado o imperialismo e o sionismo; o combate feito contra o Xá pelos iranianos é idêntico ao combate dos palestinos contra Israel”. (Yasser ARAFAT, jornal Libération, 20/2/1979, citado por Zahra BANISADR, “L’Iran et la question palestinienne” [O Irã e a questão palestina], em Revue d’études palestiniennes, n. 24, Éditions de Minuit, 1987, p. 5, retomado por Nicolas Dot-Pouillard, “De Pékin à Téhéran, en regardant vers Jérusalem : la singulière conversion à l’islamisme des “Maos du Fatah’” [De Pequim a Teerã, com olhos postos em Jerusalém, a singular conversão ao Islamismo, dos “Mãos” do Fatah] (Religioscope, 2008).

De 1972 a 1982, um encontro singular entre jovens militantes maoístas libaneses e quadros palestinos do Fatah levará pouco a pouco a uma experiência simultaneamente intelectual e militante – a Brigada de Estudantes do Fatah – que resultará, aos poucos em nada menos que a passagem definitiva, para o Islã político, na continuidade da Revolução Iraniana de 1979.

A morte de um Khalil Akkaoui, em Trípoli, simbolizará as esperanças e os fracassos dos membros de uma geração política hoje dispersa. Adeptos da “linha de massa” maoísta, partidos feitos da implantação popular nos quarteirões pobres de Beirute e nos campos de refugiados palestinos, o grupo que seria conhecido como “os Maos do Fatah” permite compreender melhor, retrospectivamente, os traços de continuidade, de ontem até hoje, entre o Islã político e o terceiro-mundismo marxista ou nacionalista: mística do povo em luta, eventualismo revolucionário messiânico, teologia da libertação em filigrana, centralidade da questão nacional e identitária compõem uma verdadeira “ideologia implícita” comum, em forma “de afinidades eletivas” [Nota acrescida pelos tradutores, para (algum) esclarecimento dos leitores da tradução ao português do Brasil].
____________________________

[*] Fausto Giudice (nascido em Roma-Itália em 1949) é jornalista, escritor, tradutor e editor italiano que escreve habitualmente em francês, italiano, espanhol, alemão, sueco e inglês. Vive hoje na Tunísia onde passou toda sua infância e adolescência. É membro fundador do Coletivo de Tradutores (2005) Tlaxcala, um grupo de tradutores de grande diversidade linguística e cyber-jornalismo. É, também, co-fundador da Alliance Zapatiste de Libération Sociale e em 2003 do Collectif Guantánamo.
Já em 2012 fundou em Túnis a editora Éditions workshop19 – uma oficina Tunisiana de Criação
Publicações:
  • Têtes de Turc en France, enquêtes sur l'apartheid à la française, com Michel Roux, Yann Moulier-Boutang et Denis Ruellan, prefácio de Günter Wallraff, Ed. La Découverte, 1989.
  • Arabicides, une chronique française (1970-1991), Ed. La Découverte, 1992.


domingo, 9 de março de 2014

A Alemanha e a restauração dos oligarcas na Ucrânia

7/3/2014, German-Foreign-Policy
(Trad. de Fausto Giudice, do alemão ao francês)
Tlaxcala Rede Internacional de Tradutores
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu



Vitali Klitschko: Missão cumprida senhora Merkel, a Ucrânia queima!
KIEV/BERLIN – O governo instalado em Kiev por um golpe de estado encorajado por Berlim amplia sua cooperação com os oligarcas ucranianos.

Dois deles foram nomeados governadores das grandes regiões de Donetsk e de Dnipropetrovsk, e um terceiro, até aqui tido como partidário do presidente deposto Viktor Yanoukovich, manifesta-se agora como aliado do governo, contra as forças pró-Rússia.

O que se vê cada vez mais claramente é uma restauração dos centros de poder contra os quais foi dirigida a rebelião da Praça Maidan, no início do movimento, antes de ser instrumentalizada pela Alemanha e outros estados ocidentais, com o objetivo de levar ao poder em Kiev um governo pró-ocidente – com vistas a integrar a Ucrânia aos seus próprios sistemas de aliança.

A luta pela influência em Kiev trava-se mais uma vez entre a Alemanha e a Rússia: no início da Iª Guerra Mundial, Berlim começou a tentar arrancar a Ucrânia da esfera de influência russa, para enfraquecer o inimigo. Em 1918, Berlim conseguiu por alguns meses ter Kiev sob seu controle. Antes, o reino fizera campanha para libertar a Ucrânia do jugo opressivo do czar; mas os alemães rapidamente levaram ao poder em Kiev um representante dos grandes proprietários de terras ucranianos, o que levou partes da população a novas revoltas.

Petro Porochenko
Oligarcas amigos

O governo putschista de Kiev apoiado por Berlim coopera cada vez mais abertamente com os oligarcas ucranianos detestados pela população. Já durante as manifestações populares na praça Maidan, os dirigentes de oposição foram empossados pelos miliardários.

Petro Porochenko, conhecido como “rei do chocolate”, porque é proprietário de uma rede de lojas que vale bilhões de dólares, declarou-se abertamente ao lado de Vitali Klitschko. Os órgãos da imprensa-empresa pertencentes ao oligarca Victor Pinchuk sempre informaram com simpatia, sobre as manifestações. Klitschko confirmou que mantinha contato também com outros oligarcas. [1]

Arseniy Yatseniouk , atual primeiro-ministro, já pertencia, de fato, ao partido da oligarca Yulia Timoshenko. Entrementes, o governo putschista também começou a empossar outros oligarcas em altos cargos do estado: Sergueï Taruta e Ihor Kolomoisky, por exemplo, apareceram com destaque.

Rinat Akhmetow (E) e Sergueï Taruta (D)
A unidade da Ucrânia

A questão é que parte considerável da população falante de russo rejeita firmemente o governo putschista de Kiev; teme-se que, depois dos eventos na Crimeia, outras secessões virão, ou dificuldades duradouras, para os ucranianos falantes de russo.

A maior parte dos oligarcas são vistos como uma espécie de garantia contra esses perigos, porque eles têm massivo interesse em manter o estado ucraniano: não querem que o país seja integrado mais estreitamente à Rússia, porque temem ser engolidos pelos oligarcas russos, mais poderosos.

É o que explica que o magnata do aço, Taruta, tenha sido nomeado governador da região de Donetsk, onde Kiev enfrenta a reivindicação de secessão, pela população falante de russo, majoritária, que deseja separar-se da Ucrânia.

Logo depois de nomeado, Taruta falou aos habitantes de Donetsk: [2].

Caros compatriotas. Dirijo-me a vocês, como presidente da Associação Industrial da Bacia [do rio] Donetz e como cidadão falante de russo, com sangue ucraniano [sic]. Convoco todos aqueles para quem a Ucrânia e seu futuro são importantes, a unir esforços para preservar a integridade territorial de nosso país.

Declaração semelhante fez Rinat Akhmetov, aliado de longa data de Viktor Yanoukovitch , mas que também teme influência mais forte da Rússia. O fato de que a União Europeia não impôs qualquer sanção contra ele, faz sentido: como defensor do estado ucraniano, Akhmetov tem vantagens notáveis, aos olhos do ocidente.

Ihor Kolomoisky
Por meios duvidosos

Deve-se dar atenção especial também à nomeação de Ihor Kolomoisky como governador de Dnipropetrovsk. Os motivos da nomeação são os mesmos que levaram à nomeação de Taruta: os interesses comerciais de Kolomoisky excluem qualquer aproximação entre Ucrânia e Rússia e qualquer aproximação com a esfera de influência direta de oligarcas russos, seus concorrentes.

Além disso, Kolomoisky, uma das maiores fortunas da Ucrânia, desentendeu-se com seu ex-amigo Yanukovich e mudou-se para a Suíça, onde é sensível à pressão ocidental. Sua popularidade na Ucrânia não aumentou pelo fato de ele, cujo banco controla quase 1/5 de todas as transações do país, ter assumido, por meios duvidosos, o controle da maior refinaria da Ucrânia nos anos 2008-2010 – quando, em Kiev, reinava a “coalizão laranja”, pró-ocidente. Depois da vitória eleitoral de Viktor Yanukovich em 2010, Kolomoisky, mesmo assim, conseguiu estabelecer boas relações com o novo governo.

Sua nomeação, agora, como governador de  Dnipropetrovsk, é uma nova etapa na direção da restauração dos círculos de poder contra os quais se fez a rebelião da Praça Maidan, antes que Berlim a capturasse para sua própria luta contra a influência de Moscou.

Laranja russa

Mais uma vez, a luta por maior influência em Kiev, trava-se entre Alemanha e Rússia: Berlim engajou-se na luta aberta pela primeira vez, há 100 anos, no início da Iª Guerra Mundial.

O objetivo, então, do plano alemão, era enfraquecer o adversário russo, atiçando questões internas, até a secessão de algumas áreas. Uma das figuras mais influentes na política da Alemanha para a Ucrânia, o jornalista Paul Rohrbach, depois funcionário do ministério de Negócios Exteriores, muitas vezes recorreu a uma imagem depreciativa, comparando a Rússia a uma laranja:

Como a laranja é composta de gomos destacáveis, assim também o Império russo e seus diferentes territórios, as províncias do Báltico, a Ucrânia, a Polônia, etc..

Rohrbach estava convencido de que bastaria [3].

(...) destacar essas partes do território (...) umas das outras e dar-lhes certo grau de autonomia, para “pôr fim ao Império russo.

Essas suas ideias foram muitas vezes designadas como “teoria da decomposição”.

A arma da insurreição

O plano formulado concisamente por Rohrbach entrou na fase operacional nas primeiras semanas da Iª Guerra Mundial. Em documento datado de 11/8/1914, o chanceler Theobald von Bethmann-Hollweg declarava o desejo de recorrer, como “arma contra a Rússia”, à insurreição (Insurgierung), dentre outras “partes”, da Ucrânia. Pouco mais tarde, o ministro de Negócios Estrangeiros do Império dos Habsburgos confirmava que: [4]

(...) nosso principal objetivo, como o da Alemanha, é o maior enfraquecimento possível da Rússia. Esperamos portanto obter a libertação da Ucrânia e dos demais povos que a Rússia oprime nas nossas fronteiras.

Tropas alemãs em Kiev (Março 1918)
O projeto de dividir a Rússia oferecia, principalmente, oportunidades políticas internas. De um lado, permitia alimentar ressentimentos tradicionais anti-Rússia, no seio da população alemã; de outro lado, permitira rotular a agressão militar como luta contra o despotismo do império czarista e, assim, ganhar, para os combates, os círculos que mais resistiam contra a aventura militar.

“O efeito anti-czar da social-democracia” foi “elemento essencial para facilitar a tomada de posição a favor da guerra” – constatava em 1961 o historiador Fritz Fischer, em seu estudo pioneiro Griff nach der Weltmacht [Aposta na potência mundial] [5].

General Wilhelm Groener
Libertados e controlados

Nas memórias e manifestos, selecionaram-se algumas formulações adequadas, para falar sobre os objetivos alemães naquela guerra. Assim, por exemplo, Matthias Erzberger, do Partido do Centro, falava, em setembro de 1914, a favor de combater para a “libertação” dos povos não russos, submetidos ao “jugo moscovita” e pela criação de uma “autonomia” “no interior de cada vila”. Mas não esquecia de destacar que “tudo isso” tinha de ser feito “sob a supremacia militar da Alemanha”.

Erzberger não escondia que a “libertação” e a “autonomia” sob controle armado alemão não visavam apenas a penetrar economicamente na Ucrânia; também serviam a um objetivo geoestratégico claramente definido: tratava-se, escreveu ele, “de separar a Rússia, ao mesmo tempo, do Mar Báltico e do Mar Negro”. [6]

A valsa das marionetes

No início de 1918, Berlim conseguiu pela primeira vez alcançar seu objetivo estratégico. Dia 9/2/1918, o Reich [império] alemão assina acordo com o Parlamento Central [Rada] ucraniano, que acabava de proclamar a soberania da Ucrânia e rapidamente pedira ajuda a Berlim, contra a Rússia. O Império alemão então assumiu o controle de facto em Kiev: mas se “manteria a ficção” de que o Parlamento continuava a governar, como anunciou o general Wilhelm Groener, verdadeiro detentor do poder na Ucrânia de fins de março a fins de outubro de 1918 [7].

Hetman Pavlo Skoropadsky e oficiais
Mas, no instante em que perceberam que o Parlamente Central ucraniano – dominado por liberais e sociais-democratas – não tinha condições para pôr em prática os planos de Berlim para a Ucrânia, os alemães instalaram no poder, pela força, um grande proprietário de terras, muito impopular entre a população camponesa empobrecida, Pavlo Skoropadsky, representante dos meios mais ricos. Houve revoltas imediatas, como antes já houvera, contra o regime czarista. Berlim reprimiu todas, com extrema brutalidade.

Quer dizer: antes, os alemães já demonstraram amplamente sua total indiferença às condições internas da Ucrânia, como se diz, “a ser libertada”; antes de perderem a Iª Guerra Mundial e, com ela, o controle sobre Kiev.
____________________

Notas

[1] Cf. Oligarchen-Schach.
[2] Kiew ruft die Oligarchen. www.n-tv.de 05.03.2014.
[3] Walter Mogk: Paul Rohrbach und das "Größere Deutschland". Ethischer Imperialismus im Wilhelminischen Zeitalter. München 1972.
[4] Apud Fritz Fischer: Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18. Düsseldorf 1961.
[5] Fritz Fischer: Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18. Düsseldorf 1961.
[6] Apud Fritz Fischer: Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18. Düsseldorf 1961.
[7] Winfried Baumgart: General Groener und die deutsche Besatzungspolitik in der Ucrânia 1918. In: Geschichte 6/1970, S. 325-340.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

A diferença entre os idiomas ucraniano e russo

19/1/2013, [*] Vasylyna Golovnya, Journal Francophone d’Ukraine 
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu


Este artigo é excerto traduzido para o francês por Vasylyna Golovnya de um ensaio publicado em ucraniano por Yuri Shevelov (enviado por Fausto Giudice – Tlaxcala)

Ucrânia e principais cidades
Perguntam-me frequentemente em que consiste a diferença entre os idiomas russo e ucraniano. É questão ao mesmo tempo simples e complicada. É verdade que, se se está na Ucrânia, falam-se as duas línguas e ninguém se detém para pensar por que se é bilíngue e qual a diferença linguística entre essas duas línguas eslavas. Quase sempre, respondo que são línguas da mesma família linguística, mas que há diferenças gramaticais, fonéticas, alfabéticas. Outras vezes, respondo também que a diferença está em que os ucranianos compreendem o russo, e os russos nem sempre compreendem o ucraniano. Mas nada disso é resposta muito séria, para a qual é preciso pesquisa mais avançada.

Russo e ucraniano são línguas que se parecem muito. Têm na base a mesma língua – o ruteno antigo, uma das línguas eslavas orientais, como o russo, o ucraniano, o bielorrusso. Foi falada no Rus’ de Kiev, e hoje é língua extinta.

A partir dos séculos IXº − Xº, essas línguas separaram-se e começaram a desenvolver-se de modo autônomo, em função do próprio desenvolvimento das sociedades ucraniana e russa.

A nação russa foi constituída em torno do principado de Moscou que invadiu terras vizinhas (principalmente terras de populações turcas e fino-úgricas) e impôs-lhe sua cultura e, notadamente, a língua russa. Por causa desses contatos há, hoje, na língua russa tantas palavras de origem não eslava. A nação ucraniana, por sua vez, formou-se da união de populações eslavas provenientes do sul da Ucrânia. Diferente do russo, o ucraniano conservou mais radicais da língua antiga e, quantos aos empréstimos, vêm principalmente de outras línguas eslavas. Nesse sentido pode-se dizer que o ucraniano é mais “eslavo” que o russo.

Uso da língua russa nas macro regiões da Ucrânia
Estudantes estrangeiros que vêm estudar na Ucrânia, dizem que o ucraniano é muito mais próximo das línguas europeias. Embora não haja graus comparativos de ‘europeização’ de língua alguma, pode-se, sim, encontrar no ucraniano grande número de palavras emprestadas de línguas indo-europeias, que se consideram empréstimos linguísticos ocultos. Por que ocultos? Simplesmente porque os ucranianos consideram essas palavras como ‘puramente’ ucranianas e desconhecem as origens delas. Por exemplo, a palavra ucraniana “ліжко” (pronuncia-se /lijko/ e significa “cama”) vem da palavra francesa “lit”. Os intérpretes dizem que é mais fácil a tradução francês-ucraniano ou inglês-ucraniano, que francês-russo ou inglês-russo.

Em praticamente todos os casos, é fácil explicar de fato a diferença entre o ucraniano e o russo. Às vezes, nem os ucranianos se apercebem da mistura das duas línguas, a tal ponto que já se vê o nascimento de uma nova “língua”, chamada “Surjik” (uma mistura intermediária entre o russo e o ucraniano).

Embora todos os ucranianos sejam bilíngues, há um problema real não só entre o russo e o ucraniano, mas com o próprio idioma ucraniano. Em diferentes regiões da Ucrânia, e principalmente no oeste do país, há diferentes dialetos e falares. Para os habitantes do leste da Ucrânia, é difícil compreender o que dizem os moradores de pequenas vilas dos Cárpatos. Por sua vez, os habitantes do leste do país (a região de Donetsk) e da Crimeia consideram o russo sua língua materna, porque é a língua da vida diária e, na maior parte dos casos, também na escola.

Seja como for, o problema das línguas na Ucrânia é agravado pela situação política e econômica. Apesar de a língua ucraniana ter permanecido proibida pelo Império Russo durante vários séculos, mesmo assim conservou sua originalidade e riqueza vocabular.

Hoje, o ucraniano é a língua oficial do país. É ensinada na escola, os documentos são redigidos em ucraniano, 95% dos jornais são publicados em ucraniano.

Mapa  étnico-linguístico da Ucrânia
A opinião difundida, segundo a qual o russo e o ucraniano seriam quase línguas similares não foi confirmada pela maioria de linguistas e filólogos. Entre o russo e o ucraniano, há só 62% de palavras comuns (diferença de 38%). O russo está na 5ª posição por critérios de semelhança linguística, depois do polonês, do tcheco, do eslovaco e do bielorrusso. Para dar uma ideia mais precisa dessa diferença, sabe-se que, entre o inglês e o holandês há 37% de diferença e entre o sueco e o norueguês, 16%. A diferença de vocabulário entre a língua provençal e o catalão é de 5%, entre o eslovaco e o tcheco, 15%, e entre o ucraniano e o bielorrusso, 16%. Detalhe interessante é que o ucraniano e o polonês têm entre elas 30% de diferença; a mesma diferença que há, no nível vocabular, entre o francês e o italiano.

Se se faz pesquisa rigorosa e precisa, veem-se muita outras coisas interessantes nas diferenças percentuais entre essas línguas. O mais importante a reter é que o ucraniano e o russo são línguas diferentes no plano do vocabulário, da gramática, da construção das frases e, sobretudo, no plano da pronúncia. Sim, o ucraniano e o russo são línguas fortemente aparentadas, mas são, ainda assim, muito diferentes. O fato de que os ucranianos compreendam as duas línguas e vivam em duas línguas tem história complexa, a partir do século 17, quando a Ucrânia dependia de vários países, o que impediu que a língua e a cultura se desenvolvessem exclusivamente dentro delas mesmas.



[*] Vasylyna Golovnya é fluente nos idiomas: russo, ucraniano e francês; conhecimentos e alguma fluência em inglês e alemão. É tradutora de diversos artigos e ensaios notadamente para o Journal Francophone d’Ukraine. Formada em Linguística pela Université de Poitiers, Bretanha, França. Especializada em tradução e composição de textos para websites e gerenciamento de conteúdo em páginas científicas.