Mostrando postagens com marcador Olivier Roy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Olivier Roy. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O terceiro homem ‒ Nota de leitura sobre uma história da Jihad islâmica palestina


24/11/2014, [*] Fausto Giudice, Basta! Journal de Marche Zapatiste Multilangue
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu  



Resenha de: Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €.


No mundo polarizado no qual nos debatemos, o pensamento-único dominante é binário: “ou estão conosco ou estão contra nós”. E no caso da situação na qual se vê presa aquela pobre Palestina, esse pensamento binário é posto a rodar com a artilharia pesada, em sentido literal e em sentido figurado. Também se tornou habitual apresentar os atores palestinos sempre reduzidos à dupla de irmãos-inimigos Fatah-Hamás, os primeiros já tornados apresentáveis e cooptáveis no conjunto dos partidos “de Estado”, porque pressupostos laicos, democráticos e pacíficos; e os segundos deixados encerrados no próprio gueto de Gaza, regularmente atacados por tempestades de ferro, fogo e sangue, e quase hermeticamente lá trancados há oito anos, além de estarem incluídos nas listas – construídas pelas potências do “mundo livre” já lançadas em novas cruzadas – de organizações terroristas.


Ao mesmo tempo, até esse pensamento binário já está sendo posto em causa por Netanyahu e seus acólitos, que tentam convencer seus aliados USA-norte-americanos e europeus de que “tudo isso” – o conjunto dos partidos e movimentos palestinos – não passa de único e o mesmo bando de exterminadores de judeus.

Se se procura nos buscadores de informação por internet mais conhecidos, o que se encontra é o seguinte:


Palavra-chave
Ocorrência nos “buscadores” internet
Em caracteres latinos
Em árabe
Hamás
6.330.000 
16.000.000 
Fatah
42.600.000 
32.400.000 
OLP
23.300.000
1.120.000 
Jihad islâmica palestina
180.000 
1.600.000

Como se vê, nada de fotos: a organização da Jihad islâmica palestina é praticamente uma fantasma midiático. É preciso pois receber com entusiasmo o trabalho de pesquisa feito por três autores que pertencem, dois deles, à nova geração de “islamólogos/orientalistas” franceses; e o terceiro, à diáspora palestina. Esses autores reúnem as três condições mínimas exigidas para uma abordagem racional/científica de um movimento político árabe: conhecem a língua árabe; conhecem pessoalmente os protagonistas; e têm cultura geral suficientemente ampla para poderem realocar em contexto histórico, político, cultural, social, militar e religioso os atos e discursos dos atores estudados.

Para todos e todas que nunca se cansam de meter os movimentos de resistência “islamistas” no grande caldeirão dos “barbudos doidos (a zombar) de Deus”, bons para a geena, o livro de Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €), permitirá um mergulho num mundo e numa história desconhecidos de 99% dos ocidentais, inclusive os pró-Palestina, com doses equilibradas de empatia e de distanciamento crítico. É livro cuja leitura se tem de recomendar, sobretudo aos militantes franceses de esquerda, partidários incondicionais do Fatah, aos quais a simples existência do Hamas e do Hezbollah provoca engulhos, quando não lhes provoca urticárias e comichões: verão que as coisas não são tão simples, e que o Fatah é muito mais “islamista” do que lhes agrada ver.

Messali Hadj
Como foi o caso da Frente de Libertação Nacional da Argélia e, antes dela, da Estrela Africana/MTLD de Messali Hadj, que conseguiu a proeza de ser, simultaneamente, dirigente próximo da Internacional Comunista e de ver-se indicado Califa por um congresso de Islâmico no Cairo, nos anos 1930. Como foi também o caso de Bourguiba, Néo-Destour, apresentado em geral como exemplo máximo de laicismo, mas do qual já se esqueceu completamente que, naqueles mesmos anos 1930, ele distribuía panfletos pelas mesquitas cujos imãs pregavam que a participação numa ou noutra greve, numa ou outra manifestação de rua era dever de todos os muçulmanos.

De volta ao caso dos palestinos, impõe-se uma primeira constatação: todos, seja qual for a ideologia que declarem e ostentem, são palestinos, antes de serem “islamistas”, “esquerdistas”, “nacionalistas árabes” ou outros, e todos, inclusive os cristãos, vivem imersos em cultura ambiente muçulmana. Esse patriotismo “estreito”, comum, de fato, a todos os povos árabes, que foi interiorizado nas fronteiras nacionais herdadas pelos colonialismos e protetorados é, é claro, particularmente exacerbado entre aqueles cuja terra natal esteja ocupada há já quase um século por colonos judeus ou que se dizem judeus.

Corolário desse patriotismo é o anti-imperialismo, que passou por várias fases ao longo dos eventos do mundo e da região.

Ao analisarem muito corretamente o projeto sionista e sua implantação como emanação das potências coloniais – Grã-Bretanha e França – que passaram, na sequência, o bastão aos EUA, os palestinos voltam-se “naturalmente” na direção dos que, naquele mundo, pareciam combater aquelas potências: a URSS, a China, o Vietnã e Cuba.

Yasser Arafat
O entusiasmo pela URSS já esfriara um pouco, quando os soviéticos votaram, na ONU, a favor do plano de partilha da Palestina do dia 29/11/1947; as simpatias e afinidades ideológicas encaminham-se progressivamente na direção de Pequim, Hanói e Havana. Mas dois eventos mudariam tudo: a revolução iraniana de janeiro de 1979; e a “entrada do Exército Vermelho no Afeganistão, dia 25/12/1979, que viria a resolver à tiros de kalachnikov o conflito entre os comunistas afegãos no poder. Aquele mesmo ano de 1979 viu eclodir também uma guerra entre a China, já dirigida pelo “pragmático” herdeiro de Mao, Deng Xiao Ping, homem ao qual pouco importava a cor do gato, desde que apanhasse o camundongo, o Vietnã, ocupado na guerra para eliminar os Khmers vermelhos maoístas do Camboja. Teerã, então, se converteu, repentinamente, em nova Meca dos revolucionários palestinos – com Yasser Arafat incluído. [1]

O impacto da revolução iraniana é enorme no mundo árabe-muçulmano, principalmente nos grupos e movimentos político-militares palestinos e libaneses e, mais amplamente sobre a juventude, em particular sobre os estudantes.

Um grupo de estudantes palestinos, originários quase todos de Gaza, bolsistas no Egito, constituem um primeiro núcleo do que virá a ser o Movimento da Jihad islâmica palestina, nascida oficialmente em outubro de 1987, pela primeira ação militar desse grupo contra um acantonamento israelense no quarteirão do Shujaayia em Gaza, prelúcio da 1ª. Intifada, que eclodirá dia 9/12/1987. O mesmo quarteirão no qual, em julho de 2014, os soldados israelenses conheceriam sua primeira grande derrota tática da Operação “Franja de Proteção”.

Anwar el-Sadat em 1981
Entre a “divina surpresa” de 1979, e 1987, dois eventos foram decisivos para recentralizar o combate dos palestinos sobre o território da pátria ocupada: o assassinato do presidente Sadat em 1981, que desencadeia uma caça aos islamistas, sem poupar os palestinos, apesar de nada terem tido a ver com o assassinato; e a ocupação do Líbano, por Israel, em 1982, que obrigou a evacuar combatentes e funcionários palestinos para a Tunísia, Argélia, Iraque ou Iêmen.

Os militantes da Jihad islâmica concentram sua atenção sobre Gaza e prosseguem no trabalho discreto de construir uma vanguarda revolucionária, tentando amalgamar a própria bagagem teórica heteróclita, reagrupando progressivamente militantes vindos da esquerda marxistizante e/ou nacionalista árabe, ao mesmo tempo que preservavam relações complexas ao mesmo tempo com os Irmãos muçulmanos , que haviam frequentado no Egito, e frações islâmicas do Fatah. Os Irmãos da Fraternidade Muçulmana de Gaza só se decidiriam a passar à luta política – e portanto militar – no momento da 1ª. Intifada, quando criaram oficialmente o Hamas, beneficiando-se da rede pacientemente tecida nas mesquitas e nos serviços de atendimento caritativo aos mais necessitados.

27 anos mais tarde, a Jihad islâmica é o terceiro movimento político-militar palestino por ordem de importância. Teve papel importante na resistência contra a mais recente ofensiva de Israel contra Gaza e continua como “um estranho soldado” na paisagem palestina, com exército “de sombras” estimado em 5.000 combatentes, dirigidos por comandantes que, todos eles, leram e discutiram de Antonio Gramsci e Ibn Khaldoun a Mao e Che Guevara, passando por Khomeini e Ali Shariati, o tradutor de Franz Fanon para o persa. Atualmente, com relações complexas de “fraternidade conflitual” com o Fatah e com o Hamas, esse movimento, que se pode qualificar como “islamo-nacionalista revolucionário” goza de grande prestígio entre os palestinos de todos os grupos, primeiro lugar porque por muito tempo cumpriu as funções de mediação e conciliação entre os dois grandes irmãos inimigos.

 Olivier Roy
Para saber mais, só falta ler essa obra da qual Olivier Roy diz, em prefácio, que:

(...) traz contribuição extremamente original: a análise das trajetórias militantes dos fundadores e dos quadros do movimento. Um maoísta ateu pode tornar-se islamista em nome da fusão com as massas; um islamista da Umma pode inscrever sua luta no quadro de um nacionalismo palestino, e acabar por rejeitar o internacionalismo islamista porque vê aí um pretexto para ignorar as lutas nacionais e, e voltar a refugiar-se em um universo panislamista. Os caminhos se cruzam, os militantes evoluem. Com certeza muitos jogaram ao lixo o bebê Marx com a água soviética do banho.

A influência profunda do marxismo em muitos dos fundadores do Movimento da Jihad Islâmica Palestina (MJIP) – e do Hezbollah – explica tanto a originalidade quanto a eficácia na ação, desse(s) movimento(s).

[Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €, p. 9].

Café-debate: Apresentação do livro, com Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, que coordenaram a edição, está marcada para 2ª-feira, 24/11/2014, às 19h, pela Associação UniT (“Union pour la Tunisie”), no Myanis (132 boulevard de Ménilmontant, 75020 Paris).

Nota de rodapé

Aiatolá Khomeini
[1] Khomeyni é nosso Imã, nosso chefe, o dirigente de todos os mujahidins, seremos dois povos em um só, duas revoluções numa só e cada fedai, cada mujahid, cada revolucionário iraniano será o embaixador da Palestina no Irã. Nós libertamos o Irã, nós libertaremos a Palestina. Continuaremos nossos esforços até o momento em que tenhamos derrotado o imperialismo e o sionismo; o combate feito contra o Xá pelos iranianos é idêntico ao combate dos palestinos contra Israel”. (Yasser ARAFAT, jornal Libération, 20/2/1979, citado por Zahra BANISADR, “L’Iran et la question palestinienne” [O Irã e a questão palestina], em Revue d’études palestiniennes, n. 24, Éditions de Minuit, 1987, p. 5, retomado por Nicolas Dot-Pouillard, “De Pékin à Téhéran, en regardant vers Jérusalem : la singulière conversion à l’islamisme des “Maos du Fatah’” [De Pequim a Teerã, com olhos postos em Jerusalém, a singular conversão ao Islamismo, dos “Mãos” do Fatah] (Religioscope, 2008).

De 1972 a 1982, um encontro singular entre jovens militantes maoístas libaneses e quadros palestinos do Fatah levará pouco a pouco a uma experiência simultaneamente intelectual e militante – a Brigada de Estudantes do Fatah – que resultará, aos poucos em nada menos que a passagem definitiva, para o Islã político, na continuidade da Revolução Iraniana de 1979.

A morte de um Khalil Akkaoui, em Trípoli, simbolizará as esperanças e os fracassos dos membros de uma geração política hoje dispersa. Adeptos da “linha de massa” maoísta, partidos feitos da implantação popular nos quarteirões pobres de Beirute e nos campos de refugiados palestinos, o grupo que seria conhecido como “os Maos do Fatah” permite compreender melhor, retrospectivamente, os traços de continuidade, de ontem até hoje, entre o Islã político e o terceiro-mundismo marxista ou nacionalista: mística do povo em luta, eventualismo revolucionário messiânico, teologia da libertação em filigrana, centralidade da questão nacional e identitária compõem uma verdadeira “ideologia implícita” comum, em forma “de afinidades eletivas” [Nota acrescida pelos tradutores, para (algum) esclarecimento dos leitores da tradução ao português do Brasil].
____________________________

[*] Fausto Giudice (nascido em Roma-Itália em 1949) é jornalista, escritor, tradutor e editor italiano que escreve habitualmente em francês, italiano, espanhol, alemão, sueco e inglês. Vive hoje na Tunísia onde passou toda sua infância e adolescência. É membro fundador do Coletivo de Tradutores (2005) Tlaxcala, um grupo de tradutores de grande diversidade linguística e cyber-jornalismo. É, também, co-fundador da Alliance Zapatiste de Libération Sociale e em 2003 do Collectif Guantánamo.
Já em 2012 fundou em Túnis a editora Éditions workshop19 – uma oficina Tunisiana de Criação
Publicações:
  • Têtes de Turc en France, enquêtes sur l'apartheid à la française, com Michel Roux, Yann Moulier-Boutang et Denis Ruellan, prefácio de Günter Wallraff, Ed. La Découverte, 1989.
  • Arabicides, une chronique française (1970-1991), Ed. La Découverte, 1992.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Mundo Islâmico: “Uma nova geração de islamistas políticos chega à frente do palco”


20/1/2012, Olivier Roy, Washington Post, WPOpinions
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Olivier Roy
Por toda a parte, a Fraternidade Muçulmana beneficia-se de uma democratização que não foi proposta por ela. Há um vácuo político, porque a vanguarda liberal (não de esquerda, como se entendem essas divisões no ocidente) que iniciou a Primavera Árabe não tentou e não deseja, tomar o poder. Essa é revolução sem revolucionários e sem líderes. Apesar disso, a Fraternidade Muçulmana é a única força política organizada.

Os Irmãos têm raízes sociais profundas nas sociedades árabes e décadas de luta de resistência contra regimes autoritários. A luta deu-lhes experiência, legitimidade e o direito de serem respeitados. Sua agenda conservadora é adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso se converteu à esquerda ou liberalizou-se.

Nessas circunstâncias, já há quem tema o espectro de um estado islamista totalitário, o espectro da Xaria imposta como lei geral e o fechamento de um curto parêntese democrático. Mas nada, na realidade, sugere que as coisas tomem esse rumo.

Para começar, os islamistas mudaram muito: são hoje “burgueses” de classe média, que se beneficiaram da liberalização das economias locais nas últimas décadas do século 20, sobretudo nos países não produtores de petróleo. Os islamistas extraíram proveitosas lições do fracasso dos regimes ideológicos e do sucesso do partido AKP turco. Já não pregam a jihad em todos os contextos e compreendem as limitações geoestratégicas, dentre as quais a necessidade de preservar a paz, mesmo que paz fria, com Israel. E o realismo é o ponto de partida da clareza política.

Os islamistas foram eleitos com agenda clara: estabilidade, bom governo e melhores práticas econômicas. Se atraíram os votos de mais eleitores que os apoiadores linha-dura da Xaria, foi precisamente porque podem combinar uma agenda reformista, sem abrir mão de valores religiosos, identidades e tradições locais.


O Partido Nahda obteve a maioria dos votos depositados na urna instalada no Consulado da Tunísia em San Francisco, EUA. E os expatriados tunisianos que vivem no Vale do Silício não se definem por qualquer espécie de fundamentalismo islâmico.

Essa mistura de modernidade tecnocrática e valores conservadores é marca típica dos candidatos egípcios “religiosos”. Se dessem as costas ao multipartidarismo e ao legalismo, alienariam grande parte de seus eleitores, num momento e num contexto nos quais não têm meios para confiscar o poder. Não têm nem forças militares nem lucros do petróleo que lhes permitam esquecer a importância do voto popular: são obrigados a negociar no mundo político e têm de cumprir o que prometam. Os eleitores egípcios querem estabilidade e paz. Não querem guerra e absolutamente não querem revolução como a entende o ocidente.

A Fraternidade Muçulmana está pondo os pés, pela primeira vez, numa nova paisagem política: em democracia, embora frágil e fugidia. O único modo de preservarem a própria legitimidade democrática é expor-se em eleições. Embora sua cultura política imaculada nunca tenha sido propriamente democrática, todos foram criados em “paisagem” democrática. De fato, o que se vê no Egito hoje é parte de um processo semelhante àquele pelo qual até a Igreja Católica Romana foi obrigada a aceitar as instituições democráticas. Mas é preciso tempo.

Mesquita e Universidade Al-Azhar (fundada em 972 DC)
Outra mudança importante, se se considera o período “revolucionário” dos anos 70s e 80s, é que os Irmãos muçulmanos não monopolizam o Islã, na esfera pública. De fato, o renascimento religioso que engolfou as sociedades árabes levou à diversificação e à individualização do campo religioso. Instituições religiosas do Estado, como a tradicional mesquita (e universidade) Al-Azhar, recentemente desautorizada, estão novamente reconquistando a autonomia que tiveram. O patriarca da mesquita Al-Azhar, Xeique Ahmed Al-Tayyeb, falou abertamente a favor da democracia e de separar as instituições religiosas, do Estado. Fenômeno novo é, também, a decisão dos salafistas, seita sunita ultraconservadora, de constituir partidos políticos. Por um lado, trabalharão a favor de uma agenda mais islamista, tentando ganhar terreno hoje ocupado pela Fraternidade Muçulmana no campo do Islã, mas o movimento dos salafistas também forçará os Irmãos a esclarecer a própria posição e a encontrar meio para distanciar-se da implantação da Xaria ortodoxa.

Para fazer isso, a Fraternidade Muçulmana terá de “traduzir” as normas puramente islâmicas em valores conservadores mais universais – como a proibição de venda e consumo de álcool, aproximando-a, por exemplo, de algo mais próximo do que é lei em Utah, EUA, do que das leis vigentes na Arábia Saudita; e promover “valores da família”, em vez de impor a Xaria só às mulheres.

Fraternidade Muçulmana (Logo/Armas em árabe)

Nos próximos meses, a questão candente no Egito, além do status das mulheres, será a liberdade religiosa. Não no sentido de suprimir liberdades de culto, por exemplo, dos cristãos coptas – e, de fato, havia inúmeras limitações de culto implantadas pela ditadura chamada “secular” de Hosni Mubarak - mas na direção de definir a liberdade religiosa não como direito de minorias, mas como direito humano individual, com o corolário de admitir-se o direito de o crente converter-se do Islã ao Cristianismo.

A questão é a institucionalização da democracia, não a promoção de políticas “de esquerda”. A democracia só se implantará se for baseada em valores bem estabelecidos na sociedade. O liberalismo ou alguma política dita “de esquerda” não são etapas que precedam a democracia. Nos EUA, os Pais Fundadores eram conservadores fundamentalistas puritanos europeus. Mas, depois que a democracia deita raízes, baseada em instituições e numa cultura política, então a discussão sobre liberdade, censura, normas sociais e direitos individuais pode ser gerida mediante garantias à liberdade de manifestação e trocas nas maiorias parlamentares. Fato é, porém, que nenhuma democracia se instituicionalizará no Egito, sem a participação da Fraternidade Muçulmana.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A longa guerra entre sunitas e xiitas

Olivier Roy

23/6/2011, Olivier Roy, New Statesman
[or. em francês, trad. Para NS por Jonathan Derbyshire] The long war between Sunni and Shia
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
  
Olivier Roy é professor de Teoria Social e Política no Instituto Universidade Europeia em Florença, Itália.


A leste do rio Jordão, o cisma geopolítico e religioso no Oriente Médio, define o fosso no entendimento entre Arábia Saudita e Irã

Paquistaneses muçulmanos xiitas marcham durante um protesto em Karachi contra o governo Bahrain, em 01 de maio de 2011. Foto: Getty Images

É tal a força dos movimentos pró-democracia no Oriente Médio que, pela primeira vez no mundo árabe, a revolução não se ligou a alguma grande causa supranacional: panarabismo, panislamismo, socialismo, apoio aos palestinos, anticolonialismo, antissionismo ou anti-imperialismo. Os novos movimentos são patrióticos, em vez de nacionalistas; lançam raízes num contexto doméstico; e confrontam as autoridades, sem acusá-las de agir como fantoches de potência estrangeira.

Isso não implica dizer que as grandes fissuras geoestratégicas sumiram, mas que existem, em primeiro lugar, na mente dos líderes que ainda não caíram, os quais, quando não se contentam com lutar exclusivamente pela própria sobrevivência (como no Iêmen), interpretaram as revoltas em termos de suas implicações regionais mais amplas. Vale também para os israelenses, os quais, como o regime saudita em Riad, só fizeram calcular as prováveis consequências da agitação social reinante. Embora as potências ocidentais se congratulem pela onda de democratização que estimularam, aquelas mesmas potências, simultaneamente, são extremamente sensíveis à dimensão geoestratégica – como o comprova o silêncio das potências ocidentais no caso da repressão aos manifestantes no Bahrain.

O que vemos emergir é uma estranha dicotomia, sem precedentes na história contemporânea. Até agora, todos os movimentos revolucionários trabalharam para favorecer, no plano real ou imaginário, ou uma grande potência, ou uma ideologia. Por muito tempo, foi a União Soviética; depois, foi o islamismo – e não se pode esquecer o papel que o ocidente desempenhou nas manifestações que levaram ao desmanche do Muro de Berlim.

Mas, agora, parecem estar ativadas duas lógicas políticas estanques. Não há ilustração mais eloquente dessa desconexão, que imagens que chegaram da Síria dia 5 de junho: de um lado, sírios que arriscam a própria vida para manifestar-se contra o governo de Bashar al-Assad; de outro, refugiados palestinos em marcha, na Síria, encorajados pelas autoridades em Damasco, na direção da própria morte sob fogo do exército de Israel, nas Colinas do Golan. A primeira impressão é que os dois grupos de manifestantes vivem em países diferentes.

É preciso distinguir entre os países nos quais as apostas geoestratégicas são baixas – ou, dito de outro modo, estão controladas –, e os países nos quais a derrubada do regime é interpretada, correta ou erradamente, como prelúdio de levante mais amplo.

No primeiro grupo, estão Tunísia, Líbia e Iêmen. Esses três países são periféricos, em relação às alianças e aos conflitos pan-regionais. A Tunísia, quase certamente, adotará linha em larga medida pró-ocidente e o país olha na direção da Europa. Muammar al-Gaddafi vive isolado, há muito tempo, no mundo árabe. E o Iêmen, embora seja importante para a Arábia Saudita, essa importância advém, sobretudo, de o risco de qualquer instabilidade interna no Iêmen poder atingir a fronteira sul do reino saudita. Paradoxo, aqui, é o Egito.

O Egito é ator central no conflito Israel-palestinos e, para muitos, essa confrontação está no âmago das tensões que convulsionam o mundo árabe. Apesar disso, a derrubada do presidente Hosni Mubarak praticamente não teve nenhum impacto geoestratégico.

Ninguém duvida de que a opinião pública egípcia faz críticas fortes contra o que o governo Mubarak fez a favor de Israel e não aprova a colaboração entre Cairo e Telavive nos ataques contra o Hamás, no cerco à Faixa de Gaza, nem no fornecimento de gás a Israel. Apesar disso, é evidente que a derrubada de Mubarak pouco alterará, de fundamental, no estado de coisas vigente durante a ditadura.

Mesmo que o Egito se abra um pouco mais para o Hamás e os palestinos em geral, a linha vermelha do tratado de paz com Israel dificilmente será rompida. Mais do que isso, essa abertura poderia promover o processo de paz, ao trazer o Hamás de volta ao plano dos contatos políticos e democráticos. O principal obstáculo nessa direção está em Telavive, não no Cairo.

A “neutralidade” dos eventos no Egito revela também algo mais profundo, que vários analistas experientes do mundo árabe ainda relutam em reconhecer. O conflito Israel-palestinos, apesar do impacto emocional que tem em toda a Região, não é fator ativo na atual mobilização no mundo árabe e já não tem papel determinante na modelagem da política externa dos estados árabes – exceto na Síria.

A evolução do conflito dependerá de relações entre israelenses e palestinos dentro das fronteiras históricas da Palestina do Mandato, não das políticas dos estados árabes. O conflito árabes-israelenses cedeu lugar ao conflito entre israelenses e palestinos. Basta ver o desconforto que os movimentos novos, pró-democracia, causam a Israel[1], a irritação que provocam, para ver que a irritação é praticamente a mesma também entre as lideranças palestinas.

Isso não implica dizer que os novos movimentos não terão impacto algum nos rumos do conflito entre israelenses e palestinos. Terão impacto, se por mais não for, porque estão fazendo despertar um gosto por melhor democracia e pela não-violência entre palestinos e também entre israelenses; isso, por sua vez, impede Israel de continuar a apresentar-se como “a única (e perfeita) democracia no Oriente Médio”, único baluarte ocidental contra o terrorismo e o islamismo. A onda de democratização já forçou os partidos Hamás e Fatah a construir um acordo, porque ambos temem ser surpreendidos por movimentos populares (uma IIIa. Intifada anti-Israel); e o governo de Israel começa a enfrentar as primeiras manifestações “da rua[2].

O que ainda não se sabe é se esse desenvolvimento será acompanhado por um governo israelense interessado em mudanças. Não é o caso do governo que está no poder em Israel. A direita israelense não quer retomar um processo que trará de volta à agenda a questão das fronteiras. A disjunção essa direita impermeável a qualquer conciliação, a evolução do quadro regional e a cultura em processo de transformação entre os jovens palestinos fará aumentar o isolamento internacional de Israel (por mais que a direita israelense creia que suportará o isolamento e que, além disso, também conseguirá prosseguir na colonização dos territórios ocupados até que seja irreversível).

Hoje, a principal fratura que divide o mundo árabe – pelo menos a leste do rio Jordão – é a oposição entre, de um lado, um bloco árabe sunita dominado pela Arábia Saudita; e, por outro lado, o Irã.

Nos últimos 30 anos, os sauditas viram o Irã como a principal ameaça regional; e tentaram, com diferentes graus de sucesso, mobilizar o nacionalismo árabe, além de todas as formas da militância dos sunitas, para conter as tentativas do Irã, interessado em converter-se em principal potência regional. Nesse contexto, Riad considera os movimentos democráticos que cresceram no Bahrain como dupla ameaça: uma ameaça interna, porque o movimento mina a legitimidade da monarquia reinante (e, com ela, também a legitimidade da monarquia saudita); e também como ameaça externa, porque põe em risco um equilíbrio estratégico até hoje considerado vital – a oposição entre o Irã e a Arábia Saudita, a partir da fissura que, para Riad seria a fissura que define o Golfo: entre sunitas e xiitas.

Oficialmente, o Irã não explorou essa divisão, porque não tem interesse em confinar-se num ghetto. Em vez disso, os iranianos procuraram ir além do conflito entre sunitas e xiitas, apresentando-se como vanguarda da causa árabe, mediante o apoio que dão aos palestinos e ao Hezbollah.

Nos anos 1980s, o Irã foi o grande perdedor nas divisões sunitas-xiitas que a Revolução Islâmica iraniana tanto fez para fomentar. Só as minorias xiitas no mundo árabe apoiavam o Irã (e mesmo assim, sem unanimidade). Durante a guerra Iraque-Irã, os ba'athistas confiaram numa coalizão baseada no nacionalismo árabe e no panislamismo sunita, o que permitiu que isolassem os iranianos (Saddam Hussein destruiu temerariamente essa coalizão, ao invadir e Kuwait em 1990).

Disso tudo o Irã extraiu a seguinte lição: a Revolução Islâmica não faria avançar sua causa; mas, sim, a militância antiamericana, o apoio aos palestinos e a nova posição do país como potência regional, que daria segurança ao Golfo que nem os sauditas nem os EUA haviam conseguido oferecer. Essa política chegou ao apogeu com a guerra no Líbano em julho de 2006, quando o Hezbollah derrotou Israel, e Hasan Nasrallah surgiu como novo campeão da causa árabe. Mas tudo mudou outra vez com a execução de Saddam Hussein alguns meses depois. A execução foi vista como vingança dos xiistas aprovada por iranianos e EUA.

Os xiitas árabes não são uma 5ª Coluna iraniana: xiitas no Iraque e no Bahrain já entenderam, há muito tempo, os perigos de converterem-se em instrumentos do Irã. São em primeiro lugar e, sobretudo, iraquianos e bahrainis; e lutam para ser reconhecidos como cidadãos plenos nos países nos quais vivem. Mas, como o Hezbollah no Líbano, dependem do apoio iraniano, em ambiente sunita hostil.

A Arábia Saudita está por trás da elaboração de uma grande narrativa que joga os xiitas persas contra os sunitas árabes e na qual os xiitas árabes são vistos como persas que falam árabe (ou como hereges, segundo a doutrina wahhabista). Esse é um dos poucos casos em que a política externa do reino saudita serve-se de justificação religiosa – o que explica a ambivalência que Riad sempre manifestou contra os movimentos sunitas de linha-dura, dos Talibã aos novos jihadistas em Fallujah. Já há algum tempo, a questão palestina passou a ser marginal para os sauditas; só se têm manifestado a favor dos palestinos nos casos em que tenha surgido oposição popular entre povos árabes.

O verdadeiro problema para os sauditas, como para Israel, é a “ameaça iraniana”. Mas aqui a profecia se realiza: ao negar plena cidadania aos xiitas do Bahrain, a Arábia Saudita, de fato, aparece como uma 5ª Coluna iraniana.

E há a questão nevrálgica da Síria. Os sírios são os principais aliados dos iranianos na Região; e todos, dos sauditas aos israelenses, festejariam o fim do governo de Damasco. Mas a ansiedade reina, porque as consequências da mudança de regime, nesse caso, são imprevisíveis. A ideia de que haveria interesse nacional estável e facilmente identificável, que persistiria mesmo que o poder mude de mãos é aplicável nos casos de Tunísia e Egito. Mas aplicar-se-ia à Síria? Qual poderia ser a política externa de uma Síria pós-ba'athistas? Difícil dizer, porque a estratégia regional da família Assad sempre foi intimamente conectada a considerações de política interna.

Durante 40 anos, Damasco seguiu estratégia de permanente tensão com Israel, apresentando-se como defensora do nacionalismo árabe. Mas, simultaneamente, seguiu uma modalidade diplomática de realpolitik: jamais cruzou linhas ‘intransponíveis’ e, simultaneamente, manteve intactas várias alianças. Derrubar o regime sírio hoje implicaria pôr fim a esse jogo sutil e complexo, mas estável; e ninguém sabe a que poderia levar algum outro (qualquer outro) governo sírio.

Um medo do desconhecido paralisa todos os estados em volta da Síria – exceto, talvez, a Turquia, que parece ser o único país vizinho que se prepara para uma era pós-Assad. É bem possível que, quando a poeira afinal baixar, que a Turquia apareça como grande vitoriosa nas convulsões atuais na Região; e que se fixe como um novo pólo de estabilidade no Oriente Médio (evidentemente, se conseguir resolver a eterna questão dos curdos).



Notas dos tradutores
[1] Ver “Israel tenta pegar carona na Primavera Árabe”, M K Bhadrakumar, 28/7/2011 (em português).
[2] Ver “Boycotting Israel fascism?”, Mark LeVine, 26/7/2011, Al-Jazeera (em tradução).

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Irã: a geração pós-islamista*

Pepe Escobar

17/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu  

O que aconteceu no Irã?

Não há dúvida de que a ditadura militar do mulariato – que reúne a facção do presidente Mahmud Ahmadinejad, o Supremo Líder aiatolá Ali Khamenei e seu círculo de clérigos e o complexo militar/business comandado pelo Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – seguiu minuto a minuto a extraordinária cadeia de eventos no Egito. 

E então, de repente, veem-se confrontados por um remix potencial da Praça Tahrir, bem ali, no quintal deles (Praça Azadi, em Teerã). 

O que fazer? Absolutamente impossível afrouxar a mão de ferro sobre as regras do próprio jogo deles; então, para lidar com protestos em casa, recorreram ao pacote usual de táticas – repressão e prisão preventiva, parando a um passo do banho de sangue. 

Isso significa que desde o início da semana passada, pelo menos 30 ativistas e jornalistas iranianos ouviram aquelas batidas sinistras na porta na calada da noite e, em seguida, “desapareceram”. Uma onda de mensagens de texto ameaçadoras alertou todos para que não participassem de manifestações de rua. A velocidade da internet foi reduzida e os programas de busca bloquearam as palavras “25 Bahman”, a data de 14 de fevereiro pelo calendário iraniano. 

Nessa 2ª-feira, hordas de policiais dos batalhões antitumulto e a milícia Bassiji em motocicletas, cada uma com dois motoqueiros armados de porretes, tomaram as ruas; uma orgia de gás lacrimogêneo e de balas recobertas com borracha; a imprensa estatal chamando os jovens manifestantes de “sedicionistas”, “espiões”, e “contrarrevolucionários” a serem esmagados; e pelo menos 1.500 presos mentidos na sinistra prisão de Evin, além de dois mortos já confirmados. Alguém sentiu a sombra do mubarakismo? 

O ex-Primeiro Ministro Hossein Mousavi é parte do establishment à moda antiga. Seu ramo de oposição quer reformas de dentro para fora – não revolução. Nesse aspecto, o Irã absolutamente não é o Egito. Mousavi foi esperto. Marcou uma marcha de solidariedade à Tunísia e Egito, para o mesmo dia em que o presidente da Turquia Abdullah Gul estava em visita a Teerã. 

Repressão linha dura comprometeria gravemente a reputação regional de Teerã com a rua árabe, o que beneficiaria a Turquia – sobretudo com Khamenei declarando que a Revolução Islâmica de 1979 foi fonte chave de inspiração para a Praça Tahrir. 

Com o que chegamos à questão chave de autorizar a manifestação a prosseguir. O governo declarou a manifestação ilegal. Mas então começaram rumores insistentes de que Gul pedira ao governo que emitisse uma autorização de última hora, permitindo a manifestação – pedido concedido. A agência central estatal de notícias confirmou. Mas em seguida o ministro do Interior Mahmoud Abbaszadeh Meshkini negou tudo. 

O caso é que, dessa vez, os manifestantes manifestaram-se diretamente contra o próprio Khamenei, não contra Ahmadinejad. O canto que mais se ouvia era “Mubarak, Ben Ali! Nobateh Seyyed Ali!” (“Mubarak, Ben Ali [da Tunísia]! Chegou a vez de Seyed Ali [Khamenei]!”) O segundo verso dizia “Khamenei haya kon! Mubarak ro negah kon!] (“Khamenei, envergonhe-se! Veja o que aconteceu a Mubarak!”) 

Estimativas do tamanho da multidão variam muito, de apenas algumas poucas centenas, que bem se pode caracterizar com rebelião de estudantes ricos do setor norte de Teerã, a não menos de 350 mil pessoas de todos as classes – nas palavras de um correspondente em Teerã de uma afiliada da rede de Rádio e Televisão Públicos dos EUA, Public Broadcasting Service, PBS-USA) –, que cobriria “um raio de cerca de meio 500-400m, dos lados da avenida Enghelab.” 

O que parece muito importante é que, pela primeira vez, setores dos bairros operários de Teerã participaram do protesto. O governo Ahmadinejad lançou vários subsídios – e os preços básicos estão subindo; o preço do tíquete de metrô em Teerã, por exemplo, está sendo quadruplicado. Muitos dos que votaram em Ahmadinejad em 2009 estão agora seriamente zangados. 

Sabendo perfeitamente o que acontecia na Praça Tahrir, o regime impediu que a mídia ocidental cobrisse os eventos. Muitos vídeos filmados por cidadãos, contudo, acabaram no YouTube. Quando não ignorou solenemente os protestos, a mídia iraniana carregou nos adjetivos, como a agência Fars, ligada aos guardas da IRGC, que descreveu os manifestantes como “monarquistas, hipócritas, rufiões e sedicionistas” que sequer se manifestaram claramente a favor dos levantes na Tunísia e Egito. 

Ora, quanto aos “sedicionistas”, só ocupar as ruas já foi uma vitória – considerando-se a repressão violenta que conheceram no verão de 2009. O problema é que ninguém sabia para onde ir, nem o que fazer, nem como coordenar os passos seguintes. 

Entra em cena o novo movimento Verde

Queiram ou não os ex-legalistas Mousavi, Mehdi Karrubi e o ex-presidente Mohammad Khatami qualquer mudança de regime, fato é que o que se conheceu como “movimento Verde” no Irã está agora dividido: há uma ala jovem, radical, que prega abertamente o fim da Velayat-e Faqih (governo pela jurisprudência). Isso pode significar revolução total – mais ou menos como os grupos jovens tinham em mente, nas três últimas semanas, na Praça Tahrir. 

O movimento Verde agora renascido não tem liderança – como no Egito. Ninguém sabe quanta gente o movimento reúne. Talvez o25 Bahman possa ser considerado o marco zero de algum verdadeiro movimento verde. Essencial é o que acontecer a seguir – porque ou os moderados ou os mais radicais podem ter chance de mostrar ao Oriente Médio e à opinião pública mundial o blefe do regime: como pode censurar, espancar e prender os filhos da terra, ao mesmo tempo em tanto louva a juventude revolucionária no Egito? 

Cabe ao novo movimento Verde provar que não é movimento de uma elite sectária à moda ocidental – ou influenciada pelo ocidente –, em luta contra uma República Islâmica que se autodescreve como manifestação da classe trabalhadora e dos pobres, na luta contra o imperialismo norte-americano/sionista. O novo movimento verde terá de mostrar que opera um corte muito amplo, que atravessa todas as diferenças de classe, de gênero, de religião, de campo e cidade, apoiada pelo interior do país e orientada – mesmo que sem liderança – sobretudo pelas mulheres, pelos estudantes e pelas classes trabalhadoras. 

Bancos iranianos, como Meli, Saderat e Melat Sepah estão com o caixa muito baixo. Uma corrida aos bancos apressaria o sucesso do novo movimento Verde. Ao mesmo tempo, devem mostrar como o segundo governo de Ahmadinejad, apoiado pelo Supremo Líder, atacou muito duramente os sindicatos, prendeu sindicalistas e reprimiu protestos de vários tipos, de motoristas de ônibus a cortadores de cana, a trabalhadores da indústria do petróleo e professores. 

Alterou leis trabalhistas contra o trabalho, e embarcou numa onda de privatizações que só serviu para redistribuir a riqueza iraniana para o establishment militar/de inteligência, e o Estado controlado pelo IRGC que há dentro do Estado. 

Nada menos do que isso bastará. Porque, agora, para o novo movimento Verde, o slogan, como no Egito, passou a ser “Queremos por abaixo o regime”. 

A geração pós-islamista 

Sempre útil, em situações críticas como essa, voltar-se para um dos principais especialistas ocidentais em Islã político: Olivier Roy, diretor do Programa Mediterrâneo do Instituto Universidade Europeia em Florença. 

Roy, escrevendo no Le Monde, é um dos raros especialistas que propõe que esteja em curso no Oriente Médio uma revolução pós-islamista. Essencialmente, pode ser tomada como uma refutação da fala de Khamenei: os jovens, analisando as conquistas da revolução islâmica no Irã, concluíram que não resolve os problemas objetivos de pobreza, corrupção, mentiras do poder e crescimento econômico medíocre. 

A geração pós-islamista é secular (separação entre política e religião); é pragmática; é não-ideológica; e é nacionalista (sem nacionalistas fanáticos). É pluralista e individualista. Rejeita ditaduras corruptas – e rejeita o islã como ideologia política – e anseia por democracia. Para eles, nem o panarabismo parece sedutor. Cultivam valores universais. 

São mais bem educados que os pais; têm acesso melhor à informação; ainda vivem em famílias nucleares; têm menor número de filhos; mas vastas legiões deles estão desempregados, ou vivem à margem da sociedade. O fato de que sejam conectados pela internet às redes sociais (“wired and networked”) permite que se organizem sem partidos políticos (que, aliás, são proibidos tanto no Egito quanto no Irã). 

Os regimes islamistas são ditaduras de facto; por isso, os jovens do novo movimento verde não são atraídos nem pelo Irã nem pela Arábia Saudita. Assim, os que protestam no Egito são muito semelhantes aos que protestaram contra Ahmadinejad em 2009, e contra o líder supremo na 2ª-feira passada. 

Para Roy, “uma revolta não faz revolução. O movimento não tem líderes, nem plataforma nem partidos políticos, o que faz sentido com a natureza do movimento, mas cria o problema de como institucionalizar a democracia.” 

Avalia como “não muito provável” que o fim de uma ditadura leve diretamente a alguma democracia liberal, “como Washington sonhou para o Iraque”. Poderia ter destacado também a diferença entre uma revolução pacífica, não-violenta (no Egito) e a ideia de que o cano de uma metralhadora a pudesse ser parteiro da democracia (como o ex-presidente George W Bush sonhava trazer à luz o Grande Oriente Médio). 

Além disso, também seria interessante comparar o fim da humilhação coletiva que os árabes sofrem há quase um século – sobretudo depois da invasão e estupro do Iraque, pelos EUA de Bush em 2003 –, em oposição aos orgulhosos persas que desafiam o império há três décadas e que, hoje, começam a sonhar com uma democracia de estilo ocidental. 

Roy observa que a Fraternidade Muçulmana não manifesta a busca, pela jovem geração pós-islamista, de outro modelo social e econômico: são conservadores em termos morais e praticamente neoliberais na economia. Os islamistas tornaram-se marginais aos movimentos sociais no Delta do Nilo. 

A esquerda – sindicatos militantes – está de volta. A Fraternidade Muçulmana pode ser importante, doravante, como vaca madrinha para tentar empurrar a direção das mudanças. Sobretudo porque as classes médias nas sociedades árabes são conservadoras – a maioria quer estabilidade política. E pode acontecer de uma Revolta Generacional, no fim, recusar-se a estruturar-se politicamente – mantendo-se para sempre ancorada nos protestos, sem querer assumir o trabalho pesado de conceber um novo regime, desde a primeira célula. 

O velho tesão da mudança à moda antiga 

O que nos leva de volta à reação de Washington ao que aconteceu no Irã – e está acontecendo em todo o arco Maghreb-Oriente Médio. 

Para Washington, é sempre aquela obsessão iraniana – e jamais se trata de legiões de Estados-clientes dos EUA, do Maghreb ao Oriente Médio. 

Houve repressão brutal de protestos também no Bahrain, monarquia absoluta – ninho que hospeda a 5ª Frota da Marinha dos EUA, com seus $580 milhões de gastos locais, sem contar as propriedades imobiliárias; no Iêmen – Estado fracassado, onde 40% dos 23 milhões de habitantes vivem com menos de 2 dólares por dia, e 35% sofrem de fome e desnutrição severas; e na Argélia, ditadura militar brutal. Para não falar do alegre rei Abdullah da Jordânia e sua Rainha “Youtube” Rania, monarquia absoluta com polícia secreta brutal, que vive de torturar líderes tribais e massas de palestinos que residem em território jordaniano. 

O Bahrain é absolutamente crucial. A teocracia xiita em Teerã obviamente encoraja os xiitas contra uma monarquia sunita, enquanto os sauditas estão literalmente pirados, temendo por suas províncias de maioria xiita, lá, lá, onde mora o petróleo. Tropas sauditas podem já ter sido estacionadas na estrada, 20 minutos de distância, que liga os dois países. E o Bahrain não é o Catar nem os Emirados Árabes Unidos – que podem fazer chover petrodólares para comprar qualquer silêncio, de qualquer um com veleidades políticas (seja como for, já começou a tentar). 

Para lidar com tudo isso, Washington – que não está absolutamente à vontade ante esse Egito revolucionário – parece ter desenvolvido uma nova narrativa. O regime do Irã é “o mal” total; Mubarak era “estável” e relativamente OK. 

A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton imediatamente acusou o “horrível” governo iraniano de “hipocrisia”; e imediatamente enunciou que deseja que “o movimento Verde e o bravo povo que ocupa as ruas das cidades do Irã colham a mesma oportunidade que viram seus contrapartes egípcios colherem, semana passada”. 

É a mesma Clinton que apoiou inicialmente o “estável” Mubarak contra a rua egípcia? E já que está tão empenhada, por que não aproveita e deseja também que os bravos povos do Bahrain, Arábia Saudita, Marrocos, Argélia, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar e Líbia “colham a mesma oportunidade que viram seus contrapartes egípcios colherem, semana passada”?! 

Alguém deve levar Olivier Roy imediatamente a Washington, para que Washington aprenda uma ou duas coisinhas sobre a geração pós-islamista. 

Observação de tradução


*A palavra “islamista” , várias vezes mencionada no texto, não aparece ainda nos dicionários brasileiros, mas já é usada em todo o mundo, em várias línguas, sempre que é preciso demarcar a diferença que há entre “apoiar movimentos políticos inspirados na religião islâmica” e “praticar ou seguir ou pregar a própria religião islâmica”. Em inglês, diz-se “islamist”, no primeiro caso; e “islamic”, no segundo. Em francês, diz-se “islamiste” e “islamique”, na mesma oposição. O fato de a palavra “islamista” não estar ainda dicionarizada em português do Brasil não tem importância alguma para nenhum efeito de “correção” ou de revisão; a palavra deve ser mantida quando for usada nas nossas traduções, mesmo sem estar “oficializada” nos dicionários. Edição nova que se faça dos dicionários de língua portuguesa do Brasil, das duas uma: ou incluirá a nova palavra, ou repetirá os erros de repetição conservadora dos dicionaristas e gramáticos conservadores autoritários.