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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pepe Escobar: Ucrânia, negócio EUA−Rússia

4/4/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Philip Breedlove, mostra o tamanho da "invasão" da Rússia na Ucrânia
Quando vocês estiverem lendo isso, a Rússia já terá invadido a Ucrânia. Pelo menos, é o que o Supremo Comandante Aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, o general da Força Aérea dos EUA, Philip Breedlove, anda espalhando. Breedlove-Supremo diz que os russos estão “prontos p’ra sair em ataque” e podem facilmente tomar o leste da Ucrânia. A imprensa-empresa ocidental já tirou do armário os coletes à prova de bala.

Anders Fogh mostra...
Mas bem menor...
Mas comparem-se Breedlove-Supremo e um diplomata adulto, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, que pediu à OTAN que por favor desescale essa retórica pró-guerra “irracional”, que também inclui pôr fim oficial a toda a cooperação civil e militar com a Rússia e movimentos militares no Leste da Europa.

Enquanto a OTAN – abreviatura de Divisão Europeia do Pentágono – entra em surto, sobretudo quando fala seu Secretário-Geral, o ridículo Anders Fogh Rasmussen, dinamarquês, que está de partida, vejamos o que realmente se passa, baseados em vazamentos dos dois campos, de Lavrov e do Secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

O coração da matéria – encoberto por uma barreira de histeria – é que nem Washington nem Moscou querem que a Ucrânia apodreça como ferida purulenta. Moscou disse a Washington, oficialmente, que não tem intenção de “invadir” a Ucrânia. E Washington contou a Moscou que, apesar de toda sua retórica demente, não quer expandir a OTAN nem para a Ucrânia, nem para a Geórgia.

Victoria Nuland idem...
Mas muito maior!
Faça Washington o que fizer, não conseguirá convencer o Kremlin de que o putsch em Kiev não foi orquestrado, em grande parte, por bandidos aliados ao Kaghanato dos Nulands – da Secretária-Assistente de Estado dos EUA, Victoria Nuland. Ao mesmo tempo, o Kremlin sabe que o tempo corre a seu favor – e que, assim, até considerar a “invasão” do leste da Ucrânia seria totalmente contraproducente.

Juntem a briga de gatos entre as enlouquecidas facções em Kiev, dos fascistas de “Santa” Yulia “Matem todos os russos” Timoshenko; a Gazprom aumentando o preço do gás natural, em 80%; e o Fundo Monetário Internacional pronto para lançar mais um de seus sujos ajustes estruturais na Ucrânia, que fará a Grécia parecer Cinderela brincando num jardim de rosas, e tudo que Moscou precisa fazer é sentar, relaxar e assistir à carnificina (interna).

Já  a invasão de "Santa" Yulia...
O mesmo se aplica aos países bálticos – que, nos termos da histeria da OTAN, podem ser invadidos semana que vem. Como os países do Báltico são parte da OTAN, é esperável, sim, que os Robocops de Bruxelas enlouqueçam total. Mas só neoconservadores arrogantes/ ignorantes marca-registrada acreditam que Moscou romperia complexas relações políticas/comerciais com a Europa – especialmente com a Alemanha – arriscando uma guerra quente pelos países bálticos. Os alemães não querem guerra nem fria nem quente. Ainda que, em evento extremamente improvável, isso acontecesse, o que faria a OTAN super-macho, sob ordens do Pentágono? Invadir território russo? 

Não se aproveita, nem como piada ruim.

Por falar de piada ruim, difícil superar Olli Rehn, Vice-Presidente da kafkeana Comissão Europeia, a dizer que “no interesse de manter a paz e a estabilidade em nosso continente”, a União Europeia contribuirá para o pacote do FMI/capitalismo-de-desastre de 11 bilhões de euros ($15 bilhões de dólares norte-americanos) para detonar, desculpe, digo “ajudar” a Ucrânia, e, isso, quando cidadãos da União Europeia estão desempregados e/ou lançados à miséria, aos milhões.

Olli Rehn mostra
pequena invasão
Quanto à prioridade de Berlin, é pelo menos tentar afastar a União Europeia de um crash monumental, que implica manter a bordo o Clube Med e a Europa Central igualmente devastados economicamente, ao mesmo tempo em que combate contra o crescimento de um imundo neofascismo “normalizado”. “Massivo erro de avaliação”, aos olhos dos alemães, não dá nem para o começo. Por que acrescentar um confronto com Moscou a essa bouillabaise indigerível?

Novo eixo em casa

Epifanias de alta arrogância, como o editorial doThe Guardian de 31/3[1] (“ele ganhou uma península, mas perdeu um país”) são sem sentido. O mesmo vale para a servil Polônia, em surto, pedindo mais “proteção” à máfia de Bruxelas.

Como esperado, a imprensa-empresa ocidental está espalhando que Putin teria “piscado”, quando telefonou ao presidente Obama dos EUA para tentar acertar um pacote-solução – que inclui, crucialmente importante, a federalização da Ucrânia. O governo Obama, apesar de congregar a mais espantosa seleção de mediocridades, sabe que essa é a única via racional à frente. E não há “pressão” que dobre Moscou. Vão longe os dias a go-go de impor qualquer coisa a Boris Yeltsin, beberrão serial. Ao mesmo tempo, Moscou é negociador realista – e sabe perfeitamente que a única solução possível para a Ucrânia tem de ser construída com Washington.

A Ucrânia assim é, na essência, um detalhe – a “Europa” não passa de assistidor fraco e dependente. Com quem contar, na “Europa”? Com aquela não−entidade estilo Magritte, sem cara, Presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy? Quem já esteve em Bruxelas sabe que “Europa” permanece como grupamento de principados que se bicam em incontáveis línguas. Maquiavel facilmente a definiria nesses termos.

Presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, a não-entidade
Além do mais, o governo Obama não tem nem ideia do que quer na Ucrânia. Uma “democracia constitucional”? Moscou pode até concordar com isso, embora sabendo, baseada em montes e montes de razões históricas/culturais, que o plano está condenado ao fracasso. Mas a linha vermelha dos russos já foi demarcada por eles, alto e claro, várias e várias vezes: nada de bases da OTAN na Ucrânia.

Negociadores racionais em Washington – minoria comprovada – com certeza já perceberam que se não se joga bola com Moscou, a Rússia jogará muito duro no contexto das negociações no P5+1 (membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha) sobre o dossiê nuclear iraniano.

Só cegos não verão que Moscou e Teerã caminham na direção de uma parceria estratégica mais próxima, como Moscou e Pequim. Já há em casa um eixo geopolítico estratégico real – Moscou-Pequim-Teerã – e todo o mundo em desenvolvimento já percebeu que é aí que está a ação verdadeira. Mas no que tenha a ver com a Ucrânia, o fato mais flagrante é que, aí, se trata, completamente, de EUA e Rússia.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:

− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Enquanto isso, no “front ucraniano”

1/2/2014, The Saker, Blog The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
Segundo a BBC os líderes ocidentais divertem-se à larga, em Munique: lá estão, reacendendo a Guerra Fria, sob o pretexto – e o que mais seria?! – de “apoiar a democracia” na Ucrânia:

Herman Van Rompuy
Herman Van Rompuy, Presidente do Conselho Europeu disse que “o futuro da Ucrânia pertence à União Europeia”. E o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry disse que os EUA apoiavam a “luta pela democracia” na Ucrânia. (...)

Na abertura de seu discurso, Van Rompuy referiu-se à oferta, pela União Europeia, de associação estreita com a Ucrânia. “A oferta continua aí, e nós sabemos que o tempo está do nosso lado. O futuro da Ucrânia pertence à União Europeia”, disse ele.

Kerry lançou amplo ataque contra “uma tendência perturbadora em muitas partes da Europa Central e do Leste e nos Bálcãs”. Disse que: “As aspirações dos cidadãos estão sendo, mais uma vez, atropeladas por interesses corruptos e oligárquicos – interesses que usam o dinheiro para mobilizar a oposição política e a dissidência, para comprar políticos e veículos de imprensa, e para minar a independência do Judiciário.

John Kerry
Kerry acrescentou: “Em nenhum outro lugar a luta por um futuro democrático para a Europa é hoje mais importante que na Ucrânia. Os EUA e a União Europeia estão ao lado do povo da Ucrânia nessa luta.

Kerry disse também que “a vasta maioria dos ucranianos quer  viver em liberdade, num país seguro e próspero – estão lutando pelo direito de associar-se a parceiros que os ajudarão a realizar suas aspirações”.

Em ataque claramente dirigido a Moscou, Kerry acrescentou  que “o futuro deles não está em ligar-se a um único país e não, com certeza, sob coerção”. (...)

A Casa Branca confirmou que está discutindo com o Congresso dos EUA possíveis sanções contra a Ucrânia. Antes de chegar a Munique, Kerry disse que concessões até agora feitas pelo presidente Viktor Yanukovych “ainda não alcançaram um nível adequado de reformas

Os protestos contra o governo Yanukocich continuam (1/2/2014)
Não é espantoso?! Quando Yanokovich faz exatamente *NADA* para deter os “manifestantes” neonazistas que estão incendiando policiais, tomando prédios públicos, ameaçando partir “para o ataque”, conclamando a população a derrubar o governo, e abertamente”‘exigindo” intervenção de exércitos estrangeiros, o “ocidente” diz que isso seria “luta pela democracia”.

Mas quando Ieltsin mandou seus tanques bombardearem o Parlamento Russo e matar milhares de civis, o “ocidente” deu-lhe apoio integral. Vejam só... A democracia é negócio difícil de entender...

Viktor Yanukovich
Enquanto isso, Yanukovich manda avisar que está gripado e precisa de um tempo para recobrar as forças. É sério. Aconteceu. A Ucrânia à beira de uma guerra civil, e aquele palhaço gordo tira uma folga, “em licença médica”.

O que faz surgir uma questão cá na minha cabeça: quem é o presidente mais patético – Ieltsin & vodka, ou Yanukovich & gripe?

Mas... há boas notícias vindas da Península da Crimeia: o governo da Crimeia e autoridades da cidade de Sebastopol firmaram um acordo amplo. Decidiram conjuntamente criar e mobilizar uma “milícia cidadã” que agirá em apoio às forças policiais da Península. Em outras palavras, as autoridades da Crimeia já se preparam para separar-se da Ucrânia, se o regime de Kiev cair.

Mais ainda: estão-se preparando para defender a Crimeia contra qualquer tentativa, dos fascistas nacionalistas, para tomar a península pela força. De fato, não têm escolha nesse assunto, porque os fascistas nacionalistas querem expulsar de Sebastopol a Frota do Mar Negro; [1] revogar o status especial da Península da Crimeia, e “ucranificar” a península. Para o povo da Crimeia, um golpe nacionalista em Kiev é, completamente, ameaça existencial.

Quanto à Rússia, só posso repetir o que já escrevi: a Rússia não intervirá diretamente nesse conflito. A única exceção a esse princípio seria alguma tentativa, pelos fascistas nacionalistas, de tomarem a Crimeia pela força. Nesse caso, não tenho, pessoalmente, nenhuma dúvida de que a Rússia intervirá militarmente, mesmo que isso implique confronto com a OTAN.

Pessoalmente, acho que o “ocidente” ordenará que os fascistas nacionalistas nem tentem tomar a Crimeia à força. Se aqueles psicopatas obedecerão, isso, já ninguém sabe.

The Saker



[1] A Frota do Mar Negro é uma grande unidade estratégico-operacional da Marinha russa (antes, da Marinha soviética), que opera no Mar Negro e no Mediterrâneo desde o final do século 18. As naves têm base em vários portos do Mar Negro e do Mar de Azov; e a aviação e infraestrutura correspondentes de Marinha estão instaladas em vários pontos da Crimeia, Ucrânia e em Krasnodar Krai, Rússia.