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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Michael Hudson: “Operação Abutre” na Ucrânia e protestos trabalhistas


28/5/2015, [*]  Michael Hudson, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Entreouvido no Porãozinho da Macumba na Vila Vudu: O procedimento que aqui se denuncia é/foi padrão em todas as ditaduras implantadas pelos EUA, para “mudar regimes” não subservientes. Aconteceu também no Brasil: o mais importante líder político surgido das lutas históricas da sociedade brasileira contra a ditadura desde os anos 1970, o Ministro José Dirceu, candidato óbvio à presidência do Brasil, agora, por exemplo, na sucessão da presidenta Dilma... foi a primeira vítima do ataque ensandecido do “JUDICIÁRIO”, “jornalistas”, empresas comerciais de “mídia”, políticos etc., a serviço dos interesses norte-americanos.

Ucrânia - Colapso Econômico, Social e Financeiro
O colapso da Ucrânia depois do golpe de fevereiro de 2014 converteu-se num guarda-chuva que protege uma “operação” de “roube-o-que-puder-ização” [1] galopante.
Dano colateral nessa condição de assalto generalizado, tem sido o trabalho. Muitos trabalhadores simplesmente não são pagos, e o que recebem é quase sempre ilegalmente baixo. Os empregadores retiram das contas das empresas o que lá encontrem e transferem tudo – preferencialmente para o ocidente ou, no mínimo para alguma moeda estrangeira.
€Os atrasos salariais são cada dia maiores, porque, com a Ucrânia aproximando-se da véspera de dar calote nos mais de € 10 bilhões que deve a Londres, os cleptocratas e empresários começam a abandonar o navio. Já viram que os empréstimos externos secaram, e que a taxa de câmbio só despencará cada vez mais. O anúncio, pelo Parlamento, semana passada, de que subtraiu € 8 bilhões d da reserva para pagar o serviço da dívida, para usar o dinheiro em mais um ataque militar na região exportadora ocidental do país foi a gota d’água para os credores externos, e até para o FMI. Esses empréstimos ajudaram a sustentar a taxa de câmbio da hryvnia (moeda ucraniana) por tempo suficiente para que banqueiros, empresários e outros “agentes econômicos” tirassem do país a quantidade possível de ativos, o máximo de euros e de US dólares que pudessem, antes do iminente colapso que virá, em junho ou julho.
Nessa situação de pré-bancarrota, esvaziar as prateleiras significa não pagar empregados nem outras contas. Há notícias de que os salários em atraso já alcançariam 2 bilhões de hryvnias, devidas a meio milhão de trabalhadores. Essa situação levou a Federação dos Sindicatos da Ucrânia a organizar um protesto contra o Gabinete de Ministros ontem, 4ª-feira, 27/5/2015. E mais protestos estão marcados para as próximas duas 4ªs-feiras, dias 3 e 10 de junho/2015. Segundo o vice-presidente da Federação Serhiy Kondratiuk,
(...) o atual salário de subsistência de 1.218 hryvnias ucranianas é 60% inferior ao que determina a lei ucraniana, cálculo confirmado também pelo Ministério de Política Social (...). O salário mínimo no país é de 3.500 hryvnias ucranianas mensais. Mas o governo recusa-se a manter diálogo com a sociedade, para revisar os padrões.
O cenário que vem por aí
Esvaziar de vez os bancos comerciais ucranianos deixará prateleiras vazias. Com a economia ucraniana já quebrada, os únicos compradores existentes são milionários europeus e norte-americanos. Vender a estrangeiros é, pois, o único modo de gerentes e proprietários obterem algum retorno significativo – e compras pagas em moeda garantida depositada em contas no exterior, bem longe das futuras taxas e multas ucranianas. Privatização e fuga de capitais andam juntas.
DÍVIDA da Ucrânia - Algum dia tudo isso será de vocês.
E o mesmo se dá no campo do trabalho. Os novos compradores reorganizarão os ativos que compram, declaram a falência das empresas antigas e apagam os salários atrasados, junto com qualquer outra dívida incômoda que os empregados imaginem ter a receber. As empresas reestruturadas declararão que a falência apagou qualquer coisa que os ex-proprietários (ou as empresas públicas) devessem aos empregados. É praticamente o que os fazem nos EUA os compradores da massa falida de empresas, para apagar quaisquer obrigações que haja com pensões ou outras dívidas. Lá como cá, esses abutres declararão que “salvaram” a economia ucraniana e a tornaram “competitiva”.
Operação Abutre
O golpe do general Pinochet no Chile foi ensaio geral para o que hoje se vê em todo o mundo e também na Ucrânia. No Chile, a junta militar golpista apoiada pelos EUA atacou furiosamente líderes sindicais, jornalistas, acadêmicos e líderes políticos potenciais. No Chile, foram extintos todos os Departamentos de Economia nas universidades, exceto os que recebiam “especialistas” em “livre-mercado” vindos de Chicago, e que se concentraram na Universidade Católica. Ninguém pode ter “livre-mercado” à moda Chicago, sem tomar essas medidas totalitárias.
Os estrategistas norte-americanos gostam de dar nomes de aves míticas a esses seus golpes: Operação Fênix, no Vietnã; Operação Condor, na América Latina. Hoje, está em andamento programa semelhante contra falantes de russo que vivem na Ucrânia. Não sei que nome-código darão a mais esse “golpe padrão”. Sugiro chamá-lo Operação Abutre.
Para os sindicalistas, o problema não é só receber salários atrasados mas, também, conseguir algum salário mínimo necessário que permita sobreviver. Se não saírem às ruas e protestarem, simplesmente não serão pagos. Por isso estão organizando uma manifestação “neo-Maidan” a favor, declaradamente, dos direitos dos trabalhadores da Ucrânia – tentando assim que os pistoleiros-atiradores ocultos que matam a serviço do Setor Direita (Pravy Sektor e os neo-nazis do Svoboda [Nrc]) não os tomem por manifestantes pró-Rússia. Os sindicatos estão tentando proteger-se buscando o apoio da Organização Internacional do Trabalho e da Confederação Internacional de Sindicatos em Bruxelas.
A tática mais efetiva para enfrentar a corrupção que está permitindo o não pagamento de salários e aposentadorias, é focar o ataque sobre o apoio externo que o atual regime na Ucrânia recebe, sobretudo do FMI e da União Europeia.
Usar os sofrimentos dos trabalhadores como manto de proteção, para exigir outras reformas. Essas outras reformas podem incluir advertências bem explícitas de que qualquer venda a estrangeiros, de terras, matérias primas, aparelhos de infraestrutura e outros itens do patrimônio público ucraniano são negócios que serão desfeitos no futuro, quando houver na Ucrânia governos menos corruptos.
A favor dos sindicalistas, está o fato de que o FMI já violou suas próprias “Regras para Acordos de Empréstimos”, ao emprestar dinheiro para finalidades militares. No momento em que esse último empréstimo chegou às mãos de Poroshenko, ele anunciou que estava escalando sua guerra contra o leste do país. Esse movimento põe o empréstimo feito pelo FMI bem próximo do que os teóricos de Direito Comercial chamam de “Dívida Odiosa”: dívidas assumidas por junta que toma o poder à força, saqueia o Tesouro e faz dívidas, que deixa para algum futuro governo pagar pelo que a junta tenha roubado.
Operação Abutre
A luta dos sindicatos por salário digno não visa só a saldar dívidas sociais passadas: visa também a pôr em prática um plano de recuperação que proteja a economia ucraniana de ser tratada como a da Grécia ou da Letônia, à moda dos neoliberais.
Estrategistas norte-americanos vem tentando classificar como “Dívida Odiosa” – para escapar da obrigação de saldá-la – os US$ 3 bilhões que a Ucrânia deve à Rússia, que vencem em dezembro. Tentam também classificar essa dívida como “ajuda externa”, o que a tornaria não cobrável. Por irônico que pareça, o Peterson Institute of International Economics, George Soros e outros Guerreiros da Guerra Fria, têm fornecido aos futuros governos ucranianos um vasto repertório de razões plenamente legais, para safarem-se da dívida externa que sufoca o país – e liberar recursos para pagarem salários e aposentadorias em atraso.
Se não for isso, só resta aos credores internacionais pensarem primeiro no FMI, na União Europeia e nos acionistas externos, e deixarem “prá depois” a defesa de direitos soberanos capaz de impedir a autodestruição da Ucrânia.
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Nota dos tradutores
[1] Orig. Grabitization. “A peça central do programa ocidental de rápida privatização do sistema comunista de produção em pouco tempo passou a ser conhecida na Rússia pelo termo grabitization: a apropriação ilegal de patrimônio do estado e da população soviética, por apparatchiks do partido, que logo se tornaram oligarcas com preciosas conexões dentro do poder”.
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[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends − ISLET) e um membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies − (ISCANEE). 
Seus dois livros mais recentes são: The Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

domingo, 19 de outubro de 2014

Vietnã, 50 anos: a narrativa inventada (repetida)

18/10/2014, [*] Marjorie CohnTruthout
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Marcha de estudantes universitários anti-Guerra do Vietnã em frente ao Michigan Stadium em Greene Street, Ann Arbor, 20/9/1969. 
Foto wystan
Controlar a narrativa é ferramenta chave para propagandistas que sabem que o modo como a opinião pública compreenda um conflito externo tem efeito direto e decisivo sobre o comportamento de apoio ou de oposição ao governo. Então o governo dos EUA sempre cuidou de sanear a Guerra do Vietnã. Mas essa não é questão do passado histórico: tem efeito direto sobre o presente.

Por muitos anos os norte-americanos, depois da Guerra do Vietnã, nos beneficiamos da “síndrome do Vietnã”, segundo a qual presidentes dos EUA sempre hesitariam muito antes de lançar ataques substanciais contra outros países, porque temiam oposição forte, semelhante ao poderoso movimento que ajudou a pôr fim à guerra no Vietnã. Mas em 1991, no final da Guerra do Golfo, George H.W. Bush declarou “Por Deus! Afinal nos livramos da síndrome do Vietnã, de uma vez por todas!”.

Com as guerras de George W. Bush contra o Iraque e o Afeganistão, e as guerras de drones de Barack Obama contra sete países de maioria muçulmana, e a escalada que ordenou nas guerras contra Iraque e Síria, aparentemente já andamos bem para trás, para antes da síndrome do Vietnã. Plantando desinformação no campo da opinião pública, o governo dos EUA construiu apoios para ele mesmo para suas novas guerras: exatamente como fez antes da Guerra do Vietnã.

Agora, o Pentágono planeja as comemorações do 50º aniversário da Guerra do Vietnã, lançando um programa de US$ 30 milhões para re-escrever e "sanear" a história daquela  guerra. A partir de uma fantasiosa e super interativa página na Internet, o esforço visa a ensinar às crianças de escola uma história inventada daquela guerra. O programa visa a honrar nossos soldados que lutaram no Vietnã. Mas não se vê naquela página [paga com dinheiro público] nem sinal de que houve um potente movimento antiguerra, no coração do qual estava o movimento dos próprios soldados que estavam no Vietnã, o GI movement.

GI movement anti guerra do Vietnã
Milhares de GIs participaram do movimento antiguerra. Muitos se sentiam traídos pelo governo dos EUA. Criaram cafeterias e jornais underground pelos quais distribuíam informação sobre a resistência. Durante a guerra do Vietnã, 500 mil soldados norte-americanos desertaram. A força da rebelião daqueles “coturnos em solo” forçou os militares a recorrer à guerra aérea.

Oficialmente, a guerra custou a vida de 58 mil norte-americanos. Número jamais revelado foram feridos e voltaram mutilados e sofrendo da síndrome da desordem pós-traumática. Na mais aterradora das estatísticas, mais veteranos da guerra do Vietnã morreram por suicídio, que na guerra.

Protesto contra a guerra do Vietnã
NÃO QUEREMOS LUTAR  A GUERRA DOS RICOS!
Milhões de norte-americanos, muitos de nós estudantes nas universidades, marcharam, fizeram manifestações, discursos, cantamos cantos de protesto e nos manifestamos contra a guerra. Milhares foram presos e alguns, na universidade estadual de Kent e na estadual Jackson, foram mortos. O alistamento militar obrigatório e imagens de vietnamitas mortos galvanizaram o movimento.

Dia 15/11/1969, no que foi a maior manifestação de protesto daquela época em Washington, DC, 250 mil pessoas marcharam para a capital do país, exigindo o fim da guerra. Tudo isso, na página do Pentágono cabe em duas palavras: “protestos massivos”.

Mas não estavam morrendo só norte-americanos. Foram mortos número estimado entre 2 e 3 milhões de indochineses – no Vietnã, Laos e Camboja. Crimes de guerra – como o massacre de My Lai – eram frequentes. Em 1968, soldados norte-americanos massacraram 500 velhos, homens e mulheres, e crianças, na aldeia vietnamita de My Lai. A isso a página do Pentágono chama de “o incidente em My Lai” – apesar de a palavra consagrada para aquela monstruosidade já ser “massacre”.

My Lai, onde "heróicos" soldados dos EUA massacraram cerca de 500 homens mulheres e crianças vietnamitas
Um dos mais vergonhosos legados da Guerra do Vietnã foi o uso, pelos militares norte-americanos, de uma arma química de destruição em massa, o mortal agente desfolhante “Agente Laranja”, dioxina. Os militares norte-americanos borrifaram toneladas daquele agente químico mortal sobre grande parte da terra agricultável do Vietnã. Estimados 3 milhões de vietnamitas sofrem até hoje o efeito daqueles desfolhantes químicos. Dezenas de milhares de soldados dos EUA também foram afetados. A dioxina causou má formações fetais e em nascituros em centenas de milhares de crianças, no Vietnã e nos EUA. Hoje, ainda segue afetando a segunda e terceira gerações nascidas de pessoas que foram expostas ao Agente Laranja há décadas.

Casos de cânceres, diabetes, spina bífida e outros defeitos congênitos podem ser rastreados até a exposição direta ao Agente Laranja. E as armas químicas de destruição em massa destruíram grandes áreas do meio ambiente natural do Vietnã. O solo em vários “pontos quentes” próximos a ex-bases militares dos EUA continua contaminado até hoje.

Nos Acordos de Paz de Paris, assinados em 1973, o governo Nixon prometeu contribuir com US$ 3 bilhões para curar as feridas da guerra e para reconstruir o Vietnã pós-guerra. Até hoje, os EUA ainda não cumpriram esse compromisso.

Apesar de o dano provocado pelo Agente Laranja continuar até hoje, a página do Pentágono só faz uma rápida referência à “Operação Mão no Rancho” [orig. Operation Ranch Hand]. Diz que entre 1961 e 1971, os EUA borrifaram 70 milhões de litros de produtos químicos sobre 20% das selvas naturais do Vietnã do Sul e 36% de suas áreas de mangue. Mas a página do Pentágono nada diz sobre os efeitos devastadores do uso dessa arma química.

Um dos muitos "efeitos" causados pelo AGENTE LARANJA jogados pelos EUA contra o Vietnã
A história incompleta e mal contada que se lê na página Internet do Pentágono levou mais de 500 veteranos do movimento pela paz nos EUA contra a Guerra do Vietnã a assinar uma petição, dirigida ao tenente-general Claude M. “Mick” Kicklighter. Pedem que a página oficial “inclua pontos de vistas, depoimentos e materiais educativos que representem reflexo real, justo e completo das questões que dividiram os EUA durante a Guerra no Vietnã, Laos e Camboja”.  

O documento lembra “os muitos milhares de veteranos” que se opuseram à guerra; “os que resistiram ao recrutamento obrigatório, muitos milhares de jovens norte-americanos”, os “milhões que exerceram seus direitos de cidadãos norte-americanos e marcharam, rezaram, organizaram paralisações, escreveram cartas ao Congresso” e “todos que foram acusados e processados pelo governo dos EUA por desobediência civil ou morreram nos protestos”.  

E, prossegue o documento, “muito importante, não podemos esquecer tampouco os milhões de vítimas da guerra, militares e civis, que morreram no Vietnã, Laos e Camboja, nem os que morreram ou foram feridos depois da guerra, em explosões de minas, munição não explodida, Agente Laranja ou na fuga de refugiados”.  

Entre os ativistas antiguerra que assinaram aquela petição estão Tom Hayden e o homem que revelou os “Pentagon Papers”, Daniel Ellsberg. “Todos nós lembramos que o Pentágono nos empurrou para aquela guerra por causa daquela sua versão da verdade” – disse Hayden numa entrevista ao New York Times. “Não se pode admitir que os mesmos que fazem a guerra sejam encarregados de narrá-la” – completou.

Os Veteranos pela Paz [orig. Veterans for Peace (VFP)] estão organizando um evento alternativo para fazer lembrar a Guerra do Vietnã. “Uma das nossas principais preocupações” – disse ao Times Michael McPhearson, diretor dos VFP – “é que, se não conseguirmos fazer lembrar uma narrativa completa, o governo usará a sua própria narrativa inventada para continuar a inventar guerras pelo mundo: como ferramenta de propaganda”.

A farsa dos EUA no Golfo de Tonkin
É verdade. Assim como Lyndon B. Johnson usou o incidente inventado do Golfo de Tonkin como pretexto para escalar a Guerra do Vietnã, George W. Bush usou armas de destruição em massa perfeitamente inexistentes para justificar sua guerra contra o Iraque, e a “guerra ao terror” para justificar a invasão contra o Afeganistão. E Obama justifica sua guerra de drones repetindo considerações de segurança nacional, embora Obama esteja criando mais inimigos para os EUA, quanto mais milhares de civis ele mate e mande matar.

ISIS e Corassão (do qual ninguém na Síria jamais ouvira falar até há três semanas) são os novos inimigos que Obama está usando para justificar suas guerras contra o Iraque e a Síria, por mais que já tenha tido de admitir que nenhum desses seja ameaça aos EUA. A síndrome do Vietnã foi substituída pela “Guerra Permanente”.

Não é clichê que os que ignorem o passado estão condenados a repeti-lo. A menos que alguém trate de construir relato honesto da desgraçada história da guerra dos EUA contra o Vietnã, estaremos cada dia mais mal equipados para protestar contra guerras atuais e futuras que são feitas em nosso nome.


[*] Marjorie Cohn é professora da Faculdade de Direito Thomas Jefferson e ex-presidente da Ordem Nacional dos Advogados dos EUA [orig. National Lawyers Guild]. É co-coordenadora da Vietnam Agent Orange Relief & Responsibility Campaign (trad. Campanha de Assistência & Responsabilidade sobre o Agente Laranja no Vietnã).
Seu livro mais recente, Drones and Targeted Killing: Legal, Moral and Geopolitical Issues [Drones e Assassinatos premeditados: questões legais, morais e geopolíticas] será lançado ainda em outubro/2014.

sábado, 6 de setembro de 2014

Pepe Escobar: — OTAN, libertadora do “Jihadistão”?

5/9/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Empurra teu carro e teu arado
Por cima dos ossos dos mortos …
William Blake (1757-1827), 


Abu Bakr al-Baghdadi (Califa Ibrahim)
O Califa Ibrahim, codinome Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico, ex-Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL, ing.) realmente não tem veia de marketing & Relações Públicas que preste! Quando o show estava pronto e agendado, para que a OTAN salvasse a Ucrânia e a civilização ocidental – pelo menos no plano retórico – das garras daquele Império do Mal remixed, a Rússia... Vem o Califa e, tendo acessado seu caríssimo relógio mágico, intromete-se na programação, com mais um daqueles seus especiais de “cortem a cabeça deles!”.

Muito adequadamente, houve desconfianças e sobrancelhas arqueadas, que duraram até que toda a sopa-de-letrinhas das agências de inteligência dos EUA solenemente confirmaram que o EI, sim, realmente degolara mais um jornalista norte-americano em vídeo (de Barack Obama, presidente dos EUA: “Ato de violência horrífico”).

E então, sem mais nem menos, vem O Califa, repica e proclama ao mundo que seu próximo alvo será ninguém menos que o presidente russo Vladimir Putin. Estaria falando pelo recentemente posto em ostracismo príncipe Bandar bin Sultan da Arábia Saudita, codinome Bandar Bush?

Em tese, tudo estaria resolvido. O Califa passa a ser prestador contratado de serviços para a OTAN (ele já trabalha no ramo, praticamente...). O Califa degola Putin. O Califa liberta a Chechênia – serviço rápido, não aquela coisa terrivelmente embaraçosa, confusão sem fim, no Afeganistão. O Califa, de enfiada, já ataca logo os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Califa vira Secretário−Geral−Sombra da OTAN. E Obama finalmente para de reclamar que seus telefonemas para Putin só caem na caixa postal.

Ah, se geopolítica fosse simples como filme tranca−quarteirões da Marvel Comics.

Ora! O Califa deveria saber – dado que, em grande medida, é produto Made-in-the-Ocidente, com substancial input de petrodólares do Conselho de Cooperação do Golfo – que a OTAN jamais lhe prometeu um jardim de rosas.

David Cameron e Barack Obama
Assim aconteceu, previsivelmente, que aqueles ingratos, Obama e David Cameron, primeiro-ministro britânico – oh yes, porque o “relacionamento especial” é tudo que importa na OTAN, os demais são figurantes – juraram sair à caça do Califa com uma ampla (quer dizer... Não é assim tãããão ampla) “coalizão de vontades”, com os suspeitos de sempre do Conselho de Cooperação do Golfo plus Turquia e Jordânia, bombardeando o Curdistão Iraquiano, partes do Iraque sunita e até a Síria.

Afinal de contas, o presidente da Síria “Bashar al-Assad-tem-de-sair”, não mais “a brutalidade de Assad” na formulação de Cameron, é o verdadeiro culpado pelas ações de O Califa. E tudo em nome da Guerra Global ao Terror à moda da Operação Liberdade Duradoura Forever.

Agora, me tragam aquele Califa Eslavo

Entrou água, pode-se dizer, na festa do secretário-geral (em final de mandato) da OTAN Anders “Fog(h) da Guerra” Rasmussen. Afinal, estava combinado que aquele seria o “momento crucial”, na cúpula da OTAN em Gales, quando a OTAN alcançaria o píncaro de sua Guerra Fria 2.0, resgatando “os aliados”, todos os 28, das profundas tenebrosas da insegurança.

Basta ver a réplica de um glorioso Magnata Eurocombatente plantada lá, em frente ao hotel onde acontece a reunião da OTAN na cidade de Newport, sul de Gales.

Putin expôs um plano de paz para a Ucrânia
E, cúmulo dos cúmulos, aquele maldito Califa Eslavo do Mal, Vlad Putin em pessoa, construiu um plano de paz de sete itens, para resolver o sorvedouro ucraniano – bem quando o imponente exército de Kiev foi reduzido a estrogonofe pelos federalistas e/ou separatistas no Donbass. O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko – que até praticamente ontem ainda berrava “Invasão!” a plenos pulmões – soltou longos suspiros de alívio. E até revelou, detalhe, que Kiev estava recebendo armamento de alta precisão de país sem nome, que só pode ser EUA, Reino Unido ou Polônia.

A coisa toda gerou grave problema, porém. Contra quem/o quê a OTAN defenderá a Civilização Ocidental, se tudo que se disse até hoje sob o rótulo “agressão russa” aparece agora sobre o palco identificado como mapa do caminho para a paz?

Donald Rumsfeld
Não surpreende que os 60 chefes de estado e de governo com respectivos Ministros da Defesa e de Relações Exteriores – que brindaram o mundo com invasão “soft”/furo consentido do “anel de aço” que cerca Newport impedindo que se aproximem as hordas de manifestantes protestantes – tenham ficado confusos, com cara de zonzos.

Mais de 11 anos depois de “Choque e Pavor”, ainda vivemos em mundo rumsfeldiano. Foi o ex-chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, quem, no governo de George “Dábliu” Bush, conceptualizou a “Velha Europa” e a “Nova Europa”. “Velha”, a das bonecas venusianas. “Nova”, dos marcianos muito machos.

A “Nova” apoiou totalmente a operação Choque e Pavor e a subsequente invasão/ ocupação do Iraque. Hoje, apoia – de fato implora, suplica – que a OTAN encare a Rússia.

A “Velha”, por sua vez, tenta pelo menos salvar um espaço de negociação com Putin. E no final a amada prudência [orig. dear prudence (NTs)], exercida especialmente por Berlin, foi recompensada pelo plano de paz de Putin.

Pelo sim pelo não, para não frustrar demais o Império do Caos, Paris anunciou que não entregará a Moscou no prazo agendado os primeiros dois navios porta-helicópteros militares Classe Mistral comprado pelos russos. Claro que a OTAN condenou fortemente a Rússia na questão Ucrânia, e a União Europeia seguiu-a com ainda mais sanções.

Quanto a Fog(h) da Guerra, continua a repetir sua retórica de Marte Ataca! (ver OTAN Ataca!, redecastorphoto, 4/9/2014). Tudo culpa de Moscou. A OTAN é só inocente força só de apaziguamento – sólida e poderosa. Ao mesmo tempo, a OTAN não seria doida de pôr-se a começar a apontar a Rússia como inimiga direta.

Protestos anti-OTAN começaram em agosto
E a polícia galesa filmou tudo e todos...
Protestos anti-OTAN também em Newport
Assim sendo, como Asia Times Online noticiou, a OTAN no máximo ajudará a treinar forças de Kiev; o desempenho delas no Donbass mostrou que precisam muito de treino. Mas não haverá “integração” da Ucrânia – apesar de toda a histeria que se ouviu vinda de Kiev e bem com Polônia e os estados Bálticos clamando por bases permanentes. O novo elemento será a Força de Resposta OTAN-remixed (NRF) a qual, por falar dela, jamais antes foi usada.

A NRF já vem até com slogan “marketado”: “Viaje leve e ataque pesado”. Um batalhão de 800 homens capaz de atacar em dois dias e uma brigada de 5 mil, para ataque em de 5 a 7 dias. Bem... Se seguirem o padrão “viaje leve”, dificilmente conseguirão impedir que O Califa anexe vastas fatias do Jihadistão, com seu comboio de flamantes Toyotas brancos. Sobre “ataque pesado”, informem-se com os pashtuns no Hindu Kush, para saberem do que se trata.

Assim foi que Gales gerou a NRF; “rotação” permanente e permanentes bases avançadas para “proteger” a Europa Central e Oriental; e todo mundo soltando dinheiro (nada menos que 2% do PIB de cada um dos 28 países-membros, de agora até 2025). E isso no meio da terceira recessão europeia em cinco anos.

Agora comparem o atordoante orçamento militar conjunto da OTAN, de 900 bilhões de dólares norte-americanos (75% de todas as despesas monopolizadas pelos EUA), com o orçamento da Rússia, de apenas $80 bilhões. Depois, a “ameaça” é Moscou!

Desnecessário acrescentar, mesmo sob todo esse som e fúria, Gales não conseguiu pôr a OTAN num sofá freudiano – para analisar em monólogo sem fim o fracasso abjeto da “aliança” nos dois pontos, no Afeganistão e na Líbia.

Líbia - antes (E) e depois (D) da OTAN
(clique na imagem para aumentar)
No Afeganistão, o Talibã basicamente controla anéis que cercam as bases da OTAN e movimentos de “ataca pesado”, que desmoralizam completamente a “aliança”. Foi a OTAN em modo GGT (Guerra Global ao Terror).

E na Líbia, a OTAN criou um estado falido devastado por milicianos e chamou a coisa de “paz”. Foi a OTAN em modo R2P (Responsabilidade para Proteger).

OTAN libertadora do Jihadistão? O Pentágono não dá a mínima. O Pentágono quer GGT eterna. A think-tankelândia dos EUA está em êxtase, agora que a OTAN encontrou “renovado propósito” e a sobrevivência de longo prazo da aliança está assegurada por uma “ameaça unificada”. Tradução: Rússia.

Assim sendo, O Califa não está exatamente tremendo em suas botas de deserto Made-in-USA. Até sonha em pôr as mãos no Califa Eslavo em pessoa. Como é que Marvel Comics nunca pensou nisso?!
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.