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domingo, 24 de junho de 2012

EUA em guerra também no Iêmen e na Somália: a guerra secreta deixou de ser secreta


15/6/2012, Chris Woods, The Bureau of Investigative Journalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chris Woods
Em movimento que está sendo apresentado como significativo, na direção de maior transparência, o presidente Obama reconheceu oficialmente, pela primeira vez, que estão em curso operações militares de combate dos EUA no Iêmen e na Somália, até agora mantidas em segredo.

Nos dois países, militares dos EUA vêm empreendendo operações de combate crescentemente agressivas, já há alguns anos. Os ataques começaram na Somália, em janeiro de 2007; e no Iêmen, em dezembro de 2009. Este Bureau de Jornalismo Investigativo monitora as operações nos dois países. Nossos dados sugerem que, nos dois países, até agora, houve cerca de 180 assaltos de guerra. Mas, até agora, os EUA jamais admitiram a existência desses assaltos naqueles países.

Agora, aparece uma repentina e inesperada admissão, em carta que o presidente Obama enviou ao Congresso, na noite de 15 de junho – cumprindo dever de informar sobre ações militares no exterior, que é parte dos deveres do presidente, nos termos da Resolução dos Poderes de Guerra, aprovada pelo Congresso em 1973. Na carta, o presidente Obama afinal admite que:

Na Somália, os militares dos EUA trabalharam para conter a ameaça terrorista da al-Qa'ida e elementos associado à al-Qaeda do grupo al-Shabaab. Em número limitado de caos, os militares dos EUA empreenderam ação direta contra membros da al-Qaeda, incluídos aí os que também são membros do grupo al-Shabaab, engajados em esforços para consumar ataques terroristas contra os EUA e nossos interesses. [1]

E sobre no Iêmen, afinal admite que:

Os militares dos EUA também estão trabalhando bem próximos [orig. closely] do governo do Iêmen para desmantelar operacionalmente e eliminar completamente a ameaça terrorista da al-Qaeda na Península Arábica [orig. Al-Qa’ida in the Arabian Peninsula (AQAP)], hoje o mais ativo e perigoso grupo afiliado à al-Qaeda. Nossos esforços conjuntos resultaram em ação direta contra número limitado de agentes da AQAP e altos líderes naquele país que representavam ameaça aos EUA e nossos interesses.

General Martin Dempsey
Antes, detalhes como esses só apareciam no anexo confidencial dos relatórios e os militares recusavam-se a confirmar ou negar que estivessem acontecendo ataques militares nos dois países, posição que já se tornara bizarra, dado o vasto noticiário, em outras partes do mundo, sobre aquelas operações.

O Wall Street Journal comentou que parte do ímpeto para esse reconhecimento parcial é resultado de decisão do general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA.

Porta-voz do general disse ao jornal que:

Quando forças militares dos EUA estão envolvidas em combate em qualquer parte do mundo, e a informação não crie risco de segurança nacional ou para as operações, o general Dempsey entende que a opinião pública deva ser mantida adequadamente informada.

Mas o jornal observa também que “os mesmos oficiais disseram que detalhes dos ataques militares no Iêmen e na Somália permanecerão sob sigilo”.

A confusão persiste

Este Bureau de Jornalismo Investigativo é das raras organizações jornalísticas que monitoram a atividade de guerra dos EUA naqueles dois países. Na Somália, entre 10 e 21 ataques de guerra conduzidos por forças dos EUA já deixaram 169 mortos. E no Iêmen temos, confirmados, mais 106 ataques, com entre 317 e 879 mortos. Não foi possível ainda fixar números mais precisos, porque o Pentágono não esclarece se os ataques são comandados por forças dos EUA ou o Iêmen.

Míssil Cruise disparado de um navio (arte)
Os EUA sempre usaram vários tipos de recursos – ataques aéreos, bombardeio naval e mísseis Cruise nos dois países. Em 2011, começaram a usar aviões-robôs tripulados à distância, os drones. A CIA também opera frota própria de drones no Iêmen – operações que permanecem sob sigilo total, absolutamente sem qualquer informação conhecida.

Obama em discurso no Pentágono
A inesperada fala de Obama é o mais recente de vários movimentos de seu governo na direção de maior transparência. A admissão de mais dois cenários de guerra nos quais os EUA já operam veio depois que 26 deputados e senadores dos EUA escreveram ao presidente, manifestando graves preocupações sobre o programa secreto de drones, que, de fato, o Congresso não sabe onde operam hoje, pelo mundo. Os congressistas – entre os quais dois Republicanos – escreveram:

As implicações do uso de aviões-robôs tripulados à distância, drones, para a segurança de nosso país, são profundas. Os drones são embaixadores sem rosto que matam civis e, com frequência, são o único contato direto com os norte-americanos, que as comunidades-alvos algum dia têm. Os drones podem gerar profundo sentimento antiamericano, fácil de implantar-se e difícil de erradicar-se. [2]

Drone
A União Americana pelas Liberdades Civis [orig. The American Civil Liberties Union], embora reconheça a importância de Obama quebrar, pelo menos em parte, o sigilo que cerca as operações de guerra no Iêmen e na Somália, quer saber mais:

A opinião pública tem direito a informação mais completa sobre os padrões adotados e os processos pelos quais a ação dos drones contribui para acrescentar nomes e mais nomes na “lista de pessoas a serem assassinadas” [orig. kill list] e os fatos nos quais se baseiam para justificar os assassinatos predefinidos.

Steve Aftergood, da Federação de Cientistas dos EUA, disse ao New York Times que,

Embora seja bem-vindo qualquer movimento contra a paranoia do segredo, não houve, de fato, qualquer novidade. A era das guerras secretas acabou. Jamais houve qualquer segredo sobre os ataques mortíferos dos drones dos EUA em várias partes do mundo. Basta perguntar aos sobreviventes ou à família dos mortos.



Notas dos tradutores
[1] 15/6/2012, White House - carta pode ser lida na íntegra em: Presidential Letter -- 2012 War Powers Resolution 6-Month Report (em inglês).
[2] 12/6/2012, Congress of the United States na íntegra, em: Letter on drone strikes (assinam vários deputados).

domingo, 3 de julho de 2011

Iêmen: Comitês populares ou “gente diferenciada”?

Shata Al-Harazi

30/6/2011, Shatha Al-Harazi, Yemen Time
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu:
Nada de sensacional -- é matéria jornalística, sem importância --, mas, pelo menos, há aí alguma “notícia”, que os jornais e blogs jornalísticos, no Brasil, não noticiam. Ajuda a ver, pelo menos, que o Iêmen não foi apagado do mapa, depois que os EUA e o Pentágono resolveram esquecê-lo, e a “grande  imprensa-empresa” obedeceu. 

SANAA, 29/6 — Depois que começou a guerra entre o governo de Saleh e as tribos aliadas à família Al-Almar, o medo espalhou-se pelos arredores do distrito de Hassaba, na capital do Iêmen. 

Moradores da região e bairros próximos decidiram proteger-se, as famílias e as propriedades, formando comitês populares. A ideia original era proteger os bairros contra a presença de “gangues” que poderiam tentar aproveitar-se da insegurança, enquanto o estado combatia contra as tribos. 

Mas espalharam-se boatos segundo os quais o Partido GPC [ing. General People's Congress (GPC), partido de Saleh] estaria conclamando o povo a formar comitês populares, dizendo que, naquelas circunstâncias, cada um passaria a ser responsável pela própria segurança. Houve quem dissesse que o partido de Saleh estaria pagando 2.000 YR [ing. Yemen Rials] por dia e dando uma arma aos que se unissem aos comitês populares. Outros boatos sugeriam que os partidos da oposição estariam estimulando também a formação de seus próprios comitês populares. 

Grupos jovens dos bairros reuniram-se e dividiram-se em pequenos grupos, e cada grupo ficou encarregado de proteger uma das entradas do bairro, à noite. Organizaram-se turnos, de modo a que todos participassem nos horários possíveis. 

Dia 3/6, uma explosão feriu o presidente Saleh e vários assessores, quando estavam reunidos para as orações, no momento em que os bombardeios contra o centro da cidade atingiam ponto de intensidade máxima até ali. A área do distrito de Hadda foi muito duramente atingida pelas bombas do exército aliado a Saleh. O combate entre a confederação de tribos Hashid e o exército ficou concentrado principalmente em Hadda e Hassaba. 

Hadda é considerado um dos bairros mais ricos de Sanaa, onde há grandes residências e restaurantes. Os residentes na região fugiram, naquele dia 3/6, mas em quase todas as casas ficou pelo menos um membro da família. Um homem que levou a mulher e os filhos para lugar seguro e voltou para proteger a casa, foi morto ao chegar. 

“Já falávamos de organizar comitês populares desde antes da 6ª-feira [3/6], porque todos aqui tememos as gangues. Três casas foram saqueadas” – diz Mohammad Abbas, morador de Hadda. Depois do 3/6, decidiram bloquear todas as entradas para o bairro, como medida para impedir que os combatentes das tribos usassem as casas como abrigo, no combate contra os soldados de Saleh. 

Os comitês populares, armados pelo estado, através de contato com os grupos locais organizados, ou não, estavam quase todos armados, com armas pessoais ou Kalashnikovs, alguns com facas e porretes. 

Durante mais de três meses, prosseguiu uma campanha de desarmamento, em todos os postos de controle à volta da cidade, com soldados que revistavam carros e caminhões, para localizar armas. Mas as forças de segurança não impediram que os comitês populares se armassem. 

“Aqui, todos estão armados. Recentemente, alguém atacou o posto de polícia do bairro. Foi quando a segurança passou a revistar os comitês populares por aqui” – disse Abbas. 

Abbas garante que, no bairro onde vive, os comitês populares não são políticos. Mas em outras partes da cidade, moradores dizem que participam de comitês populares políticos. 

“Onde eu moro, só os aliados do partido de Saleh participam dos comitês. A menos de 50m da minha casa há outro comitê só de membros do Partido Islah” – disse Ali Saeed, que mora na rua Taiz. 

Saeed contou que foi convidado a juntar-se ao comitê local, que lhe ofereceram pagamento de 2.000 YR e qat [1]. Disse que não aceitou, porque entende que o povo tem de se autoproteger e a segurança do estado já não pode ajudar ninguém. Que preferia viajar para o interior, para a aldeia onde vivem seus parentes, “onde todos se conhecem”. 

“Os comitês populares não são solução para coisa alguma e nos preocupam ainda mais, porque todas as noites se ouvem tiros próximos. Sabemos que os comitês são políticos. Há comitês de dois partidos diferentes, os mesmos que estão em guerra e, a qualquer momento, põem-se a atirar uns contra os outros” – disse Saeed. 

Na rua Haeel, os comitês apareceram, por pouco tempo, depois do atentado contra a vida do presidente. Nesse caso, em vez de sugerirem que cada um protegesse a própria casa, nos prédios de vários andares a polícia criou um ‘toque de recolher’: todos tinham de estar em casa num horário determinado e, fora desse horário, os portões permaneciam trancados. 

Às segundas-feiras, os postos de abastecimento de carros recebem combustível e a cidade assiste a engarrefamentos gigantes, todos querendo abastecer os carros. Ouvem-se brigas entre motoristas durante toda a noite, às vezes com tiros. Alguns comitês populares bloquearam as ruas que atravessam os bairros, para impedir que as filas avancem por ali e compliquem ainda mais a situação dos moradores. 

Muitos dos que se uniram aos comitês populares são vistos como bandidos, ou jovens que querem aproveitar-se do caos. Um morador, Yaseen Al-Makhlafi, que mora na rua Haeel, disse à nossa reportagem que alguns comitês cobram ‘pedágio’ (500 YR) dos que fazem filas nos postos de gasolina, o que também tem gerado brigas e tiroteios. 

“Por aqui, os comitês populares são formados de bandidos conhecidos” – disse Mahmood Saleh, que mora na região de Al-Sabeen. Mas Mahmood acha que as coisas podem ser diferentes, em outros bairros.



Nota dos tradutores
[1] Uma folha de arbusto (Catha edulis) que se masca e que tem efeitos estimulantes, de uso tradicional no Iêmen e em vários países da região e da África. Nos EUA é considerada droga ilegal. Sobre qat, ver: TED Caser Studies: QAT trade in Africa.


domingo, 17 de abril de 2011

Líbia: a CIA por trás da rebelião

O ataque euro-americano à Líbia nada tem a ver com “proteção de civis”

por John Pilger

Cartoon de Victor Nieto.O ataque euro-americano à Líbia não tem nada a ver com a proteção de ninguém; só os irremediavelmente ingênuos acreditam nesse disparate. É a reação do Ocidente aos motins populares em regiões estratégicas, ricas em recursos e o início de atividades hostis contra o novo rival imperialista, a China.

O presidente Barack Obama já assegurou o seu lugar na História. É o primeiro presidente negro da América a invadir a África. O ataque à Líbia é chefiado pelo Comando África dos EUA (US Africa Command), instituído em 2007 para assegurar os lucrativos recursos naturais do continente, roubando-os às populações empobrecidas e à influência comercial da China, em crescimento rápido. A Líbia, juntamente com Angola e a Nigéria, é a principal fonte de petróleo da China. Enquanto os aviões americanos, britânicos e franceses vão incinerando líbios “maus” e “bons”, assiste-se à evacuação de 30 mil trabalhadores chineses, provavelmente de forma permanente. As afirmações de entidades ocidentais e dos meios de comunicação de que “um coronel Kadafi criminoso e enlouquecido” está a planejar o “genocídio” contra o seu próprio povo, continuam a carecer de provas. Isto faz recordar as afirmações fraudulentas que exigiram a “intervenção humanitária” no Kosovo, o desmembramento final da Jugoslávia e a instalação da maior base militar americana na Europa.

Os pormenores também são conhecidos. Segundo se diz, os “rebeldes pró-democracia” líbios são comandados pelo coronel Khalifa Haftar que, segundo um estudo da Fundação Jamestown americana, montou o Exército Nacional Líbio em 1988 “com forte apoio da CIA”. Nos últimos 20 anos, o coronel Haftar tem vivido não muito longe de Langley, Virginia, o lar da CIA, que também lhe fornece um campo de treino. Os mujihadeen, que deram origem à al-Qaida, e o Congresso Nacional Iraquiano, que forjaram as mentiras de Bush/Blair sobre o Iraque, foram patrocinados por Langley, da mesma forma aceite por todo o mundo.

Os outros líderes “rebeldes” incluem Mustafa Abdul Jalil, ministro da Justiça de Kadafi até Fevereiro, e o general Abdel-Fattah Younes, que chefiou o ministério do Interior de Kadafi: ambos com estrondosas reputações de repressão brutal de dissidentes. Há uma guerra civil e tribal na Líbia, que inclui a rejeição popular contra a atuação de Kadafi em relação aos direitos humanos. Mas o que é intolerável para o ocidente não é a natureza do seu regime, é a independência da Líbia, numa região de vassalos; e esta hostilidade pouco mudou em 42 anos, desde que Kadafi derrubou o rei feudal Idris, um dos tiranos mais odiosos apoiados pelo ocidente. Kadafi, com os seus modos beduínos, hiperbólicos e bizarros, há muito que personaliza o “lobo feroz” ideal (Daily Mirror), exigindo agora que os heróicos pilotos americanos, franceses e britânicos bombardeiem áreas urbanas em Tripoli, incluindo uma maternidade e um centro de cardiologia. O último bombardeioo americano em 1986 conseguiu matar a sua filha adotiva.

O que os americanos, os britânicos e os franceses têm esperança de conseguir é o oposto da libertação de um povo. Ao sabotar os esforços dos genuínos democratas e nacionalistas da Líbia para libertarem o seu país de um ditador e dos corrompidos pelas exigências estrangeiras, o som e a fúria de Washington, de Londres e de Paris conseguiram turvar a memória dos dias de esperança de Janeiro em Tunis e no Cairo e desviar muitos dos que tinham criado esperanças da tarefa de assegurar que as suas conquistas não fossem roubadas furtivamente. A 23 de Março, as forças militares egípcias, apoiadas pelos EUA, emitiram um decreto proibindo todas as greves e manifestações. Isto praticamente não foi notícia no ocidente. E agora, com Kadafi identificado com o demônio, Israel, o verdadeiro cancro, pode continuar a sua espoliação de terras e expulsões. O Facebook, sob pressão sionista, removeu uma página apelando a um levantamento em grande escala na Palestina – uma “Terceira Intifada” – a 15 de Maio.

Nada disto nos deve surpreender. A história exibe o tipo de maquinação revelado por dois diplomatas seniores nas Nações Unidas, que falaram ao Asia Times. Quando pretenderam saber por que é que as Nações Unidas nunca ordenaram uma missão de avaliação dos fatos à Líbia, em vez de um ataque, disseram-lhes que já muita coisa tinha sido feita entre a Casa Branca e a Arábia Saudita. Uma “coligação” dos EUA iria “eliminar” o recalcitrante Kadafi se os sauditas abafassem o levantamento popular no Bahrein. Este último já foi concretizado e o sangrento rei do Bahrein vai ser um dos convidados às bodas reais em Londres.

A personificação desta reação é David Cameron [NT], cuja única verdadeira tarefa tem sido como homem de relações públicas de Michael Green, o oportunista da indústria da televisão. Cameron esteve no Golfo para vender armas aos tiranos inventados pelos britânicos quando a população se levantou contra Abdullah Saleh do Iêmen; a 18 de Março, o regime de Saleh assassinou 52 manifestantes. Cameron não disse nada contra. O Iêmen é “um dos nossos”, conforme o Foreign Office britânico gosta de dizer. Em Fevereiro, Cameron desmascarou-se num ataque ao que ele chamou de “estado de multi-culturalismo” – um código para muçulmanos. Disse, “Precisamos de muito menos tolerância do que nos últimos anos!” Foi aplaudido por Marine Le Pen, líder da Frente Nacional fascista de França. “É exatamente este tipo de declarações que nos isolou da vida pública durante 30 anos", disse ela ao Financial Times. “Só posso felicitá-lo”.

Num dos seus momentos mais exploradores, o império britânico produziu davids camerons aos montes. Contrariamente a muitos dos “civilizadores” vitorianos, os atuais guerreiros sedentários de Westminster – através de William Hague [NT], Liam Fox [NT]e do traidor Nick Clegg [NT]– nunca foram atingidos pelo sofrimento e banho de sangue que, à custa das diferenças culturais, são as consequências dos seus discursos e ações. Com o seu ar mais ou menos informal, sempre altivos, são uns covardes no estrangeiro, visto que ficam sempre em casa. As suas prendas são a guerra e o racismo e a destruição da democracia social duramente conquistada da Grã-Bretanha. Lembrem-se disso quando forem para a rua às centenas de milhares, conforme é vosso dever.

Nota de Tradução:
David Cameron: primeiro-ministro do Reino Unido, líder do Partido Conservador
William Hague: politico britânico conservador; secretário dos Estrangeiros e primeiro secretário de David Cameron.
Liam Fox: politico do Partido Conservador britânico; secretário da Defesa do Reino Unido
Nick Clegg: Líder do Partido Liberal Democrata; vice-primeiro-ministro do Reino Unido, na coligação com o Partido Conservador e presidente do Conselho.

O artigo original, em inglês, encontra-se em: David Cameron’s gifts of war and racism, to them and us

Esta tradução de Margarida Ferreira foi extraída de: Resistir

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sayyed Nasrallah aos árabes: “A primavera do povo começou”

Mohammed Shmaysani

19/3/2011, M.Shmaysani, Al-Manar TV, Líbano
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


O secretário geral do Hezbollah Sayyed Hasan Nasrallah manifestou apoio às revoluções e levantes do povo árabe, na Tunísia, Egito, Bahrain, Líbia, Iêmen.

Sayyed Nasrallah falou sábado à noite, em evento organizado pelo Hezbollah, de apoio às revoluções dos povos árabes, no complexo Sayed Shouhada no subúrbio sul de Beirute.

Sayyed Hasan Nasrallah
“Esse movimento de solidariedade tem grande valor moral, porque o que vemos acontecer hoje mostra perseverança e capacidade de resistir desses povos, apoiados na fé e em espírito de coragem. Lembremos os terríveis dias da guerra de julho de 2006. A guerra que se arrasta até os escândalos que afinal vêm à tona, para todos, através de WikiLeaks. Lembremos como tudo que seja dito em qualquer lugar do mundo tem impacto favorável para a resistência e os resistentes e os que nos apoiam; é o que vemos acontecer com os povos revolucionários hoje. Aqui declaramos: os povos revolucionários árabes têm nosso apoio. Nos alegramos quando vocês se alegram. Rezamos pela vitória de vocês. Estamos prontos a ajudar no que precisem, em qualquer campo que promova os interesses de vocês e os dos libaneses” – disse Sayyed Nasrallah.

Principais pontos do discurso de Sayyed Nasrallah

1 – Revoluções são feitas pelo povo, não pelos EUA.
2 – Enquanto os EUA apoiarem Israel, os EUA serão vistos como mentirosos hipócritas.
3 – Os canais de transmissão por satélite, que foram bloqueados durante o discurso do secretário-geral. Nasrallah riu e comentou.
4 – É preciso manter a unidade na Tunísia e no Egito.
5 – Os combatentes da Resistência no Líbano saúdam os combatentes da resistência na Líbia.
6 – Saudamos com alegria e orgulho o movimento pacífico de resistência no Iêmen.
7 – Ao povo resistente do Bahrain: a luta de vocês derrotará os tiranos.
8 – Homenagem aos intelectuais e movimentos muçulmanos sunitas no Líbano e em todo o mundo árabe e, de modo especial, ao primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyib Erdogan.
9 – Aos ditadores da Líbia, do Iêmen e do Bahrain: “as armas da resistência estão apontadas para o inimigo. Mantenham-se longe de nós.” 
10 – “Onde estão os mediadores árabes?”

1 – Revoluções são feitas pelo povo, não pelos EUA
Sua Eminência destacou que as revoluções em curso são revoluções dos povos contra regimes pró-EUA que não desafiam as políticas dos EUA e defendem Israel. “Os EUA não apoiam revoluções em andamento contra os regimes árabes submissos aos EUA”. 

Acrescentou que é irracional dizer que essas revoluções teriam sido cozidas nas cozinhas dos EUA e que haveria alguma possibilidade de os EUA irem contra Israel. “Também é absurdo pretender que a Al-Qaeda e o Irã estariam por trás dessas revoluções”. 

“Todos vimos o sacrifício daqueles jovens, que foram assassinados com tiros no peito desarmado. Aqueles regimes não devem ignorar esse sacrifício. A verdade é que quando esse povo a postos, firme e determinado levanta-se, ninguém poderá derrotá-los. Essa é uma lei divina. O sacrifício exigido pode ser gigantesco, mas com perseverança e coragem, a vitória é destino. Os movimentos de resistentes o comprovam ao longo do tempo. Quanto aos governos, deveriam ter iniciado diálogo e reformas, sem hipocrisia. Em vez disso, recorreram a falsas acusações, humilhação e assassinato”. 

“Os povos do Egito e da Tunísia já alcançaram grandes vitórias e, depois delas, o regime líbio iniciou violenta guerra interna, e os regimes do Iêmen e do Bahrain levam o país hoje à beira da guerra civil. Não fosse a determinação do povo, que resiste em defesa da paz, em movimentos pacíficos, já haveria guerra civil no Iêmen e no Bahrain, efeito do desempenho daqueles governos e do que fazem” – disse Sayyed Nasrallah.

Aos revolucionários árabes:

“A primavera dos povos árabes apenas começou. Nada a deterá. Só os povos árabes saberão conduzir-se, eles mesmos, rumo à próxima primavera. Vocês vencerão. O povo líbio também vencerá, se Deus quiser.

2 – Enquanto os EUA apoiarem Israel, os EUA serão vistos como mentirosos hipócritas.

O secretário-geral do Hezbollah alertou contra a hipocrisia da atitude de Washington, Disse que o governo dos EUA quer ser visto como defensor de mudanças e reformas. “Mas a nossa mensagem hoje é de que ninguém pode mentir aos povos. Que os povos não se deixarão enganar, porque sabem que seus governos são, há décadas, apoiados pelos EUA e a favor do que interessa aos EUA, não do que interessa ao povo. O governo dos EUA é cúmplice de todos os crimes cometidos por seus governos-fantoches. 

Toda a retórica norte-americana sobre direitos humanos e combate ao terror é vazia e oca – porque, por mais que falem, os EUA jamais alteram suas políticas para o povo palestino.

Há poucos dias, os EUA vetaram resolução da ONU que faria parar a construção de prédios nos territórios palestinos ocupados. Na Palestina, há um povo diariamente bombardeado, assassinado, arrancado de sua própria terra, das casas em que as famílias vivem. Locais sagrados para muçulmanos e cristãos em Al-Quds [Jerusalém] são ameaçados de destruição. Ali, o governo dos EUA apoia os agressores e o governo de assassinos, de Israel”. 

Sayyed Nasrallah disse também que o governo dos EUA teve outro motivo para promover a intervenção na Líbia. “Os EUA temem que os campos de petróleo caiam em mãos de nações não hipócritas. Por isso, sobretudo, promoveram a intervenção na Líbia. Não tirem jamais os olhos da Palestina. Enquanto os EUA apoiarem Israel, tudo o que digam sobre direitos humanos é e será sempre mentira”. 

3 – Canais de transmissão por satélite bloqueados durante o discurso do secretário-geral. Nasrallah riu e comentou.

Durante o discurso, alguém entregou um papel ao secretário-geral. Ele leu, riu e comentou: “Informam-me que vários canais de transmissão por satélite foram bloqueados. Temer palavras é prova de fraqueza.” 

4 – É preciso manter a unidade na Tunísia e no Egito.

“Na Tunísia e no Egito, os tiranos já foram expulsos – e por vários fatores: a perseverança dos povos, apesar dos sacrifícios exigidos deles; o fato de as forças armadas não se terem envolvido nos confrontos, dentre outros. Houve quem cresse que aqueles povos ter-se-iam dado por satisfeitos se os ditadores e famílias tivessem partido. De fato, os EUA tentam negociar essa solução, no trabalho para diminuir as perdas. E surpreendem-se hoje, ao ver que os povos continuam insistindo nas suas demandas – e todas as nossas maiores esperanças estão depositadas nessa resistência.

Conclamamos os povos do Egito e da Tunísia a unir-se. Qualquer divisão entre os povos árabes pode levar à ressurreição das ditaduras. Sobretudo no Egito, a união é indispensável, dado o papel efetivo que o Egito desempenha no mundo árabe. Nossos irmãos egípcios são nossa esperança.”

5 – Os combatentes da Resistência no Líbano saúdam os combatentes da resistência na Líbia 

Sayyed Nasrallah disse que o povo revolucionário da Líbia seguiu por trilha que a resistência libanesa inaugurou. “Um grupo de jovens, homens e mulheres, levantaram-se contra o tirano e foram recebidos à bala. Uma revolução popular teve de enfrentar guerra. O que se vê acontecer na Líbia é uma guerra imposta pelo regime contra o povo que, pacificamente, exigia mudanças. O povo líbio foi forçado a defender-se, o que levou à guerra entre a parte leste e a parte oeste do país, com aviões, lança-mísseis e artilharia, que nos fez lembrar 1982, quando o Líbano foi atacado por Israel e enfrentou guerra contra Israel. 

Todas essas agressões e crimes têm de ser condenados e o povo revolucionário da Líbia tem de ser ajudado e perseverar. 

Mas também vimos bem claramente que os EUA e o Ocidente deram ao governo líbio muito tempo para que, ele mesmo esmagasse a revolução. Mas o povo resistiu por mais tempo do que EUA previa – o que criou grave problema para o ocidente. Sem a resistência do povo líbio, o governo de Gaddafi já estaria outra vez no poder, pronto para vingar-se dos cúmplices ocidentais que não o ajudaram durante o levante popular. 

Digo aos revolucionários líbios: Os combatentes da Resistência que suportaram violenta agressão de Israel por 33 dias, saúdam os companheiros combatentes em Mesrata, Benghazi, Ajdabya e em todas as cidades e vilas da Líbia. 

O mais grave dos crimes que Gaddafi cometeu contra o Líbano foi o sequestro do Imam Moussa Sadr. Tudo o que Gaddafi disse e diz sobre esse assunto é mentira e não altera os fatos.” 

6 – Saudamos com alegria e orgulho o movimento pacífico de resistência no Iêmen.

Sua Eminência destacou que a situação no Iêmen é muito complicada. “Mas é impossível não falar sobre a violência contra os manifestantes no Iêmen. Saudamos com orgulho a resistência do povo do Iêmen e o compromisso que mantêm com preservar sua manifestação pacífica, tão mais significativo quanto mais se sabe que o Iêmen é país no qual circulam muitas armas.” 

7 – Ao povo resistente do Bahrain: a luta de vocês derrotará os tiranos.

Ao povo do Bahrain, digo: “Não se sintam desamparados. Muitos sunitas os apoiam e apoiam seu movimento. A luta e o sacrifício de vocês derrotarão os tiranos”.

O secretário geral falou demoradamente sobre o Bahrain. Disse que o povo do Bahrain é pacífico.

“O povo do Bahrain apresentou demandas legítimas e o regime responde com violência, para matar os manifestantes. O regime poderia ter absorvido as manifestações, sem necessidade de usar armas de fogo e munição viva contra os manifestantes. Depois, falou de diálogo, sem diminuir o fogo contra os manifestantes, mas o povo do Bahrain manteve seu movimento pacífico e patriótico, distante de qualquer enquadramento sectário. 

O governo enviou exércitos contra o povo e criou um paradoxo: Enquanto os líbios estão sendo mortos, metralhados e bombardeados por tanques, a Liga Árabe mantém-se em silêncio. A Liga Árabe não mandou exércitos para defender as cidades líbias. Mas, para o Bahrain, mandaram exércitos para defender um regime que, de fato, não corria qualquer risco de ser derrubado. A oposição no Bahrain é pacífica, mas as forças de segurança atacaram hospitais, atacaram pessoas já feridas e demoliram as casas de vários líderes da oposição. É o método de Israel. A brutalidade é a natureza dos tiranos. Sacrifício é a natureza dos oprimidos, cujo sangue agora o sectarismo disputa”. 

8 – O Hezbollah homenageia os intelectuais e os movimentos muçulmanos sunitas no Líbano e em todo o mundo árabe e, de modo especial, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyib Erdogan.

“Homenageamos os intelectuais e os movimentos muçulmanos sunitas no Líbano e em todo o mundo árabe e, de modo especial, o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyib Erdogan, pela posição que assumiu nos eventos do Bahrain.”

Sayyed Nasrallah perguntou “quanto aos que se mantiveram em silêncio, sobre os eventos do Bahrain, por que se mantiveram em silêncio? Por que o movimento popular do Bahrein foi condenado, acusado e injuriado? Por serem xiitas? 

O fato de a maioria do povo e a oposição no Bahrain serem xiitas, por acaso os converteria em proscritos, faria deles alvos de fatwas?

Os xiitas sempre estivemos ao lado do povo palestino, e a seita dos palestinos jamais foi problema para nós. Ninguém perguntou sobre a religião ou a confissão ou seita dos tunisianos e dos egípcios. O Irã sempre esteve ao lado do povo palestino, do povo da Tunísia, do Egito e da Líbia. Nosso dever é lutar ao lado dos oprimidos. 

Soa-me sempre muito estranho ver alguns conclamando os egípcios a ocupar as ruas, os líbios a matar Gaddafi. Mas quando se trata do Bahrain, a escrita seca, as vozes se calam. 

Que diferença haveria entre o regime Al-Khalifa e os regimes de Mubarak e Gaddafi? 

Digo ao povo do Bahrain: Não se sintam abandonados ou desamparados, por ameaças e fatwas sectárias: muitos sunitas apoiam vocês, estão com vocês. Defendam seus direitos. Há líderes sábios, experientes e valorosos no Bahrein. Ouçam-nos. O sangue e o sacrifício de vocês derrotarão os tiranos. O que vocês buscam hoje são valores pelos quais vale morrer, mesmo que a luta talvez seja longa, até que alcancem seus objetivos”.

9 – Aos ditadores da Líbia, Iêmen e Bahrain: “as armas da resistência estão apontadas para o inimigo. Mantenham-se longe de nós”.

Sua Eminência dirigiu-se aos ditadores da Líbia, Iêmen e Bahrain: “Que futuro imaginam que tenham? Por mais que se recusem a ver, estão condenados à derrota. Respondam, portanto, às demandas do povo, antes de que seja tarde demais. Há um fosso de desconfiança entre a oposição e o governo nesses países. Faz falta, nesses países, a mediação árabe.

10 – “Onde estão os mediadores árabes?”

Os países mandaram exércitos, quando deveriam ter mandado embaixadores e ministros de relações exteriores para iniciar uma mediação verdadeira, com vistas à paz entre os árabes. Onde estão os mediadores árabes?

Nenhum noticiário de provocação afetará a resistência. Não nos deixaremos nem enganar nem provocar por alguma ideia de divisão sectária entre xiitas e sunitas, nem no Líbano nem no mundo árabe. 

A questão da resistência não pode ser tratada como objeto de provocações. Não temos nenhum tipo de medo ou receio do diálogo, porque em toda nossa história defendemos os mesmos ideais de justiça e igualdade. O que aprendemos até hoje aprendemos no cenário da mais difícil luta que se trava hoje no mundo. Nossos saberes militares nós os aprendemos nas melhores escolas militares do mundo. Nada do que se diga contra a resistência, no Líbano ou fora do Líbano afetará a resistência. Prosseguiremos com o treinamento de nossos resistentes, continuaremos a comprar armas, continuaremos a nos organizar e, sempre, seguindo o nosso primeiro e único projeto: exército-povo-resistência, como uma só entidade. (...)

Em nenhum caso a resistência se deixará envolvem em falsas oposições entre sunitas e xiitas, repropostas, sempre, como provocação no Líbano. As armas da resistência estão apontadas para o inimigo. Mantenham-se longe de nós. 

Os que insistem em fazer guerra têm as mãos sujas de sangue. Eles, não a Resistência, devem ser processados e condenados.

Sayyed Nasrallah concluiu o discurso do sábado com uma homenagem aos mártires dos levantes populares no mundo árabe e à resistência dos povos contra os tiranos: “A primavera do povo começou. Nada a deterá. Nada e ninguém impedirá que os povos árabes cheguem à próxima primavera. Vocês triunfarão, se Deus quiser”.