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sexta-feira, 9 de maio de 2014

EUA, Estado Gângster

Onde foi parar a Democracia dos EUA?

6/5/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por mberublue

EUA - Estado Gângester (há muito tempo)
Alguém que olhasse cuidadosamente por trás do véu de palavras ocas, não vislumbraria a democracia nos EUA. Tenho escrito por anos que o governo dos Estados Unidos deixou a muito de prestar contas à lei e ao povo (veja, por exemplo, meu livro (How America Was Lost – Como os EUA se perderam). Puseram de lado a Constituição e o poder executivo está degenerando em absolutismo.

As agendas que resultam da relação simbiótica entre a ideologia neoconservadora da hegemonia dos Estados Unidos e os interesses econômicos de poderosos grupos privados estão sendo impostas ao governo, tais como as agendas de Wall Street, do complexo segurança/exército, do lobby israelense, agronegócios e indústria extrativa (energia, mineração e madeira). Os meios pelos quais essa hegemonia cresce e se mantém são a imposição imperialista do US$ dólar, ameaças, subornos e guerras. Tais objetivos são perseguidos sem qualquer aprovação ou conhecimento e apesar da eventual desaprovação do povo americano.

Martin Gilens
O professor Martin Gilens, da Universidade Princeton e o professor Benjamin Page da Universidade Northwestern, analisaram a fundo o modo de governo americano e chegaram à conclusão que os Estados Unidos têm um governo oligárquico, dirigido por ricos e poderosos grupos do interesse privado e que os Estados Unidos apenas superficialmente se assemelham a uma democracia. Sua análise foi publicada recentemente no jornal Perspectives on Politics (Perspectivas Políticas).

Suas conclusões são chocantes:

O ponto central que emerge de nossa pesquisa é que os grupos organizados e elites econômicas que representam os interesses empresariais têm seu próprio e substancial impacto na política governamental dos Estados Unidos, enquanto os grupos de interesse da base e de cidadãos comuns têm pouca ou nenhuma influência própria.

Quando há discordância entre a maioria dos cidadãos e as elites e/ou grupos organizados dos interesses empresariais, geralmente os cidadãos levam desvantagem.
Benjamin Page

Descobrimos que nos Estados Unidos, atualmente a maioria não tem a força de determinar – pelo menos como causa – os resultados de nossa política.

Estatisticamente, as prioridades do cidadão americano comum tem somente um reflexo quase nulo, perto de zero, sem importância, sobre as políticas públicas.

Vários fatores contribuíram para a decadência da democracia e da responsabilidade governamental nos Estados Unidos. Um deles foi a concentração, em poucas mãos, da mídia dos EUA. Nos últimos anos do governo Clinton, a antiga mídia era diversificada, com grande independência; hoje concentrou-se em cinco megacorporações. As licenças federais para transmissões constituem a maior parte do valor dessas corporações. Inseguras quanto à renovação dessas licenças, a mídia evita posições frontais ao governo em questões importantes.

Outro fator é a deslocalização (offshoring – busca por mão de obra barata e melhores condições fiscais em outros países [NT]) industrial e de postos de trabalho na indústria de transformação. Essa mórbida evolução causou a destruição dos sindicatos da indústria e de seus trabalhadores, que eram a coluna vertebral dos apoiadores e financiadores do Partido Democrata. Agora, os Democratas têm que buscar os mesmos grupos de interesse que os Republicanos – Wall Street, o complexo segurança/exército, e as indústrias poluidoras que destroem o meio ambiente. Como os partidos políticos são agora financiados pelos mesmos grupos de interesses privados, servem aos mesmos patrões. Não há mais contraponto ao poder. O regime de Obama é uma continuação servil do regime de George W. Bush.

Eleições compradas ou roubadas

Duas decisões recentemente emitidas pela maioria republicana na Suprema Corte dos EUA é outro fator decisivo. A Corte acordou que é mero exercício de livre expressão a compra pelos oligarcas do governo americano (Citizens vs. Federal Election Commission – e – McCutcheon vs. Federal Election Commission). Uma Suprema Corte corrompida inventou um “direito constitucional” para permitir que oligarcas e corporações usem seus imensos recursos financeiros para formar um governo à sua escolha. Os interesses privados nos Estados Unidos são tão poderosos que podem até mesmo comprar imunidade perante a lei. James Kidney, procurador a se aposentar da Securities and Exchange Commission – SEC (comissão de títulos e valores mobiliários), afirmou que os procedimentos contra crimes financeiros do Goldman Sachs e outros bancos gigantescos dos Estados Unidos

James Kidney
(...) foram bloqueados por funcionários nomeados politicamente, que se concentram em obter trabalho muito bem remunerado ao deixar o funcionalismo.

Recentemente, realizou-se um teste para provar a receptividade dos membros do congresso aos interesses financeiros em contraposição aos interesses de seus eleitores. Duas cartas foram enviadas aos gabinetes dos congressistas. Uma carta convidava o representante a reunir-se com grupos comunitários de seu distrito. A outra convidava o representante para uma reunião com ativos doadores de campanhas políticas. A segunda carta recebeu dos membros do congresso muito mais respostas que a primeira.

Há nos Estados Unidos e na Europa uma constante propaganda sobre a “Rússia, Estado gângster”. Segundo esta propaganda, o presidente Putin é apenas um instrumento dos oligarcas russos que o usam para governar ao seu talante e explorar o povo. Esta propaganda, em minha opinião, se origina nas ONGs (TODAS as ONGs internacionais são quintas-colunas a favor dos interesses de países hegemônicos − leia-se EUA e União Europeia, principalmente [Nrc]) fundadas por Washington e que constituem uma quinta-coluna infiltrada na Rússia. O objetivo da propaganda é destruir a legitimidade de Putin e de seu governo, na esperança de emplacar no poder um governo moscovita submisso a Washington (como os governos Gorbachev e Yeltsin, p. ex. [Nrc]).

Vladimir Putin na imprensa-empresa dos EUA
Minha impressão é que o governo russo restringiu as atividades de alguns oligarcas que se aproveitaram da era das privatizações para assumir o controle dos recursos russos, mas que as ações governamentais tomadas nesse sentido obedeceram aos imperativos legais. Em oposição, temos que nos Estados Unidos os oligarcas controlam a lei e a usam para adquirir imunidade legal.

O verdadeiro Estado gângster são os EUA. Todas as suas instituições são corruptas. Funcionários de agências reguladoras vendem proteção em troca de posteriores empregos regiamente pagos nas indústrias que deveriam supostamente fiscalizar. A Suprema Corte não apenas permite que o poder econômico compre o governo, mas também se vende, colocando para escanteio a Constituição Federal em favor do Estado policial. A Suprema Corte acaba de se recusar a examinar o caso contra a detenção indefinida de cidadãos dos Estados Unidos sem o devido processo legal. Indubitavelmente é uma legislação inconstitucional, mas a Suprema Corte se recusa a examinar o caso, enquanto garante poderes policiais incontrolados ao Estado gângster.

Criminalizar a dissensão e quem fala a verdade é outra característica que define o Estado gângster. Washington está fazendo tudo o que pode para criminalizar Julian Assange e Edward Snowden por terem revelado as ações inconstitucionais, ilegais e criminosas do governo dos Estados Unidos. O mau cheiro da hipocrisia tresanda de Washington. Em 26 de abril o Departamento de Estado anunciou sua terceira campanha de imprensa livre, um exercício de propaganda dirigida aos Estados estrangeiros que ainda não são marionetes dos Estados Unidos. No mesmo dia, o Departamento de Justiça propôs à Suprema Corte que retire a proteção aos jornalistas dos Estados Unidos que, ao abrigo da Constituição, se recusam a revelar suas fontes, e por causa disso James Risen pode vir a ser preso por ter revelado delitos governamentais

 Torturas em Guantánamo, típico de Estado Gângster
No século 21, Washington desperdiçou trilhões de dólares em guerras que destruíram países e mataram, mutilaram e deslocaram milhões de pessoas em sete ou oito países. Declarando que tais crimes de guerra são a “guerra ao terror”; os EUA usam o estado de guerra permanente que criou para destruir as liberdades civis nos próprios EUA...

É muito difícil encontrar no decorrer do século 21, uma declaração importante de Washington que não seja uma mentira. 
  • O Obamacare é uma mentira. 
  • Armas de destruição em massa supostamente na posse de Saddam Hussein é uma mentira. 
  • O uso por Assad de armas químicas é uma mentira. 
  • As bombas iranianas: mentira. 
  • A suposta invasão e anexação da Criméia pela Rússia é uma mentira. 
  • Zonas de exclusão aérea são grossas mentiras. 
  • A agressão russa à Geórgia é uma mentira. 
  • Até o próprio atentado de 9/11, a base através da qual Washington justifica a destruição dos direitos civis e ataques militares ilegais, também é uma mentira. A história da carochinha de que alguns árabes sauditas sem o apoio de nenhum governo ou agência de inteligência enganou espetacularmente todo o fantástico aparato de segurança nacional do mundo ocidental é inacreditável. Simplesmente não é crível que todas as instituições da segurança nacional falharam ao mesmo tempo. 

A ousadia dos EUA em contar esse amontoado de mentiras mostra que não tem o menor respeito pela inteligência do povo americano, assim como pela integridade da imprensa-empresa dos Estados Unidos. Mostra também que os EUA também não respeitam a inteligência e integridade de seus aliados na Europa e na Ásia.

O crescimento de Barack Obama
Em comparação, sequer nas pequenas coisas os EUA dizem a verdade: trabalho, desemprego, inflação, crescimento do PIB, recuperação econômica. Washington manipula o mercado para encobrir o sacrifício da economia do país para beneficiar alguns interesses especiais. Em nome da “privatização” Washington abre mão de interesse público e responsabilidade governamental, para favorecer a rapina de interesses privados.

A conclusão da qual não se escapa é que os EUA são um Estado gângster. Na realidade, os EUA não são apenas um Estado gângster. São uma vergonhosa e exploradora tirania.
______________


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics.Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado emCounterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Comunicação: o cerne da questão

Durante os últimos anos, jornais, revistas e TVs resgataram e aperfeiçoaram as técnicas de manipulação e partidarismo político dos tempos que antecederam e sustentaram a ditadura militar entre 64 a 85, causando a morte e o desaparecimento de milhares de brasileiros. São truques e procedimentos conhecidos por muitos de nós:

O truque campeão é o factóide – jogada ensaiada pelos membros do PIG: um faz o lançamento, o outro recebe, tabela como o terceiro, recebe e parte livre em direção ao gol. Falha ou Estadão faziam o lançamento do boato durante a semana. O Jornal Nacional matava no peito mencionando a Falha ou Estadão como “fonte” e tabelava com eles durante a semana. A Veja recebia o passe “redondinho” e finalmente, aos sábados, publicava o “golaço” na matéria de capa. Durante a semana seguinte, o PIG comentava, entrevistava, reprisava a jogada por todos os ângulos etc. Até o surgimento da Internet, era como se o time da “verdade” não tivesse goleiro. Agora tem. A defesa – que tem mídia alternativa, blogues, Youtube, comunidades virtuais e outros espaços – bate de frente com o PIG, instantaneamente. Mas só na Web.

Outro método usado pelo PIG para atacar pessoas, grupos ou governos inteiros é o ponto de vista que veicula. Existem o fato e sua leitura. O golpismo está na pior maneira (neste caso contra o governo) de noticiar o fato. Em vez de dizer que 27 milhões saíram da miséria, diz que o Brasil ainda tem 23 milhões de miseráveis. Em vez de dizer que o povo compra mais, dizem que se endivida mais. Em vez de dizer que Dilma foi eleita porque recebeu 12 milhões de votos a mais que Serra, dizem que só 56 dos 190 milhões de brasileiros votou na candidata de Lula. Em vez de informar que parentes diretos de todos os políticos usam passaportes especiais, se limitam a citar os filhos de Lula.

Uma das maneiras de desqualificar o governo é a omissão: nenhum órgão de imprensa é obrigado a publicar coisa alguma. Liberdade de expressão também significa liberdade de omissão. Não fossem o IBGE e outros institutos nacionais e internacionais medirem todos os avanços feitos no Brasil, nos últimos 8 anos, a imprensa brasileira elegeria Serra que, por sua vez, roubaria todos os créditos de Lula.

Outro recurso muito usado é compor a manchete com as expressões “suposto” ou “segundo fulano”. Expressões poderosas, pois permitem mentir e caluniar à vontade, sem culpa. Se alguém diz que “desconfia” que seu telefone foi grampeado, não precisa investigar o grampo. Basta compor a matéria usando uma destas expressões, lavando as mãos. “Segundo Gilmar Mendes, houve um suposto grampo ao seu telefone durante a operação Satiagraha”; “Dossiê Serra foi supostamente encomendado pelo PT”; “Suposta ficha policial sobre a captura de Dilma Rousseff mostra que a candidata do PT foi assaltante de banco”. “Segundo Roberto Jefferson, o mensalão…”. O que importa mesmo é o que fica no subconsciente do público.

Mais um recurso: o PIG organiza as matérias em blocos, como se fossem “assuntos do mesmo saco”. Principalmente na TV. Exemplo: as conversas que Lula manteve com Ahmadinejad sobre o programa nuclear iraniano eram noticiadas em meio a bobagens irrelevantes sobre Fidel Castro, Cuba, Hugo Chávez etc. É como se dissessem: “Agora vamos falar de ditaduras: Ahmadinejad, blá blá blá, Hugo Chávez blá blá blá, Lula, blá blá blá, Fidel Castro, blá blá blá… Assim forçam a caracterização de Lula como “da turma” dos que admitem a idéia da ditadura.
Semana passada a Falha publicou uma “pérola” com um título algo como: “O governo Lula “contemplou” 8 mil veículos de propaganda em seu mandato – um “aumento” de 1500%. Foram gastos R$ 2,5 bi/ano”. O título da matéria está correto, mas induz a uma interpretação errada. Dá a entender que Lula gastou MUITO mais do que FHC ou qualquer outro presidente com propaganda institucional – o que é absolutamente falso.

O fato: Lula não aumentou a verba. Aumentou sim, o número de órgãos que recebem aquela verba. Deixou de destinar tudo ao PIG (como faziam FHC e os outros), para dividir entre 8 mil órgãos de mídia espalhados de norte a sul do país. Quem lê a matéria entende que Lula democratizou a distribuição da verba. Mas e quem lê o título, de passagem pela banca de jornal ou pelo UOL? O truque é induzir o leitor a se achar esperto: “por isso tem 87% de aprovação! Lula aumentou a publicidade em 1500%!” – “Lavagem cerebral, tá tudo dominado!” – diria o extinto comediante do extinto Casseta & Planeta, Marcelo Madureira. “Pura propaganda, nunca saiu do papel, é só imagem! -  diriam Reinaldo Azevedo, Miriam Leitão e Josias de Souza. “O homem nunca pisou na lua!” – diriam os mais “bem informados”…

O problema não é o PIG. Eles que tenham a liberdade de expressão para afirmar que o céu é amarelo. Pouco importa. O que importa mesmo, é que fontes de informação alternativas ao PIG sejam amplificadas para terem o mesmo peso e abrangência. Até mesmo a blogosfera. Para que a informação não venha em via única, definitiva, como foi até pouco tempo. Que se possa dizer que o céu é azul com a mesma intensidade com que o PIG diz que é amarelo. E deixar o leitor/telespectador decidir o que ver e no que acreditar. Como foi o caso da “bolinha de papel”. Isso é LIBERDADE DE IMPRENSA! É este o cerne da questão. Não precisamos e não nos faria bem algum censurar Globo, Falha, Estadão e Veja. São um PIG necessário. Pode-se dizer vital, até. Muito melhor é detectar seus movimentos golpistas e suas mentiras. Muito melhor promover o debate e denunciar suas intenções em cada mentira. Pior seria o silêncio dos conspiradores invisíveis.

Na semana que antecedeu a posse de Dilma – mesmo com os índices de 87% de aprovação em todas as camadas sociais do povo brasileiro – a Falha tratou de desmerecer o governo e o presidente diariamente. Como se fossem os últimos cartuchos. Suas manchetes pareciam àquelas sobras de rojão do dia seguinte. Queima antes de perder a validade!

Ao mesmo tempo é um prelúdio: o PIG pretende desmoralizar, desqualificar, minimizar e tirar todos os créditos do presidente Lula. Fará isso incansavelmente, para todo o sempre. Pretende reescrever a história. Não é à toa que o governo registrou em cartório 6 volumes descrevendo tudo o que foi feito nos últimos 8 anos e mais o que está em andamento. Calejado por 3 décadas de golpes baixos por parte do PIG, Lula sempre esteve um passo à frente deles.

Extraído do blog “Que será que me dá”

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Caça ao Wikileaks e à liberdade de imprensa

 
Publicado em 08/12/2010 por Mair Pena Neto no Direto da Redação

Imaginem se o New York Times ou o Washington Post, para citar dois dos mais importantes jornais norte-americanos, tivessem tido acesso aos documentos diplomáticos americanos e os divulgado para o mundo? Estariam sendo perseguidos como o WikiLeaks? Seriam acusados de espionagem? Teriam suas contas bancárias congeladas? A tentativa de inviabilizar o WikiLeaks e o cerco a seu fundador, Julian Assange, que se entregou às autoridades britânicas, são uma ameaça concreta à liberdade de imprensa, que muitos dizem prezar, mas que agora não movem uma palha para defender.
Na verdade, o New York Times foi um dos responsáveis pela divulgação dos documentos, que recebeu do WikiLeaks, assim como o inglês The Guardian, o alemão Der Spiegel, o francês Le Monde e o espanhol El Pais. Mas ninguém os ameaça com as sanções que estão sendo impostas ao site pela obtenção do material. O WikiLeaks já divulgou material muito mais consistente e incriminador do que a correspondência diplomática, que chegou a ser tratada como simples fofoca. Mas por que, então, a reação tomou tamanha proporção? No que o WikiLeaks, como ferramenta jornalística, se difere dos jornais que publicaram os dados que obteve? Os que verdadeiramente defendem a liberdade de imprensa deveriam estar preocupados. Hoje é o WikiLeaks, amanhã pode ser qualquer outro veículo de comunicação.
É escandoloso como toda a engrenagem do sistema se movimenta para atacar o site com argumentos que não possuem o mínimo de sustentação. O site de pagamentos online americano, PayPal, suspendeu a conta pela qual o WikiLeaks arrecadava doações, alegando que sua política não permite atividades ou estímulo a atividades ilegais. E qual seria a atividade ilegal do WikiLeaks? Divulgar documentos que recebe de pessoas inconformadas com ilegalidades do poder? Será que o PayPal fará o mesmo com as transações eletrônicas dos jornais que publicaram as informações?
A decisão do PayPal segue a da Amazon, que tornou indisponíveis seus servidores ao WikiLeaks, obrigando-o a encontrar outros hospedeiros para divulgar seu conteúdo, e é acompanhada por um banco suíço que recebia doações para o site.
Fica a cada dia mais clara a pressão sobre o site por ter se tornado um incômodo.
O WikiLeaks prestou serviços relevantes à comunidade mundial com suas informações. Foi o site que revelou o vídeo, feito a partir de um helicóptero Apache das tropas americanas no Iraque, de uma operação de ataque injustificado a simples suspeitos em Bagdá, que resultou na morte de um fotógrafo e de um motorista da Reuters em julho de 2007. O Exército alegava que as mortes tinham acontecido em um confronto contra insurgentes, o que o vídeo provou ser inverídico. A Reuters, que exigiu a reabertura das investigações, tentava sem sucesso obter o vídeo através da Lei de Liberdade de Informação desde a época do ataque.
Foi também através do WikiLeaks que o mundo ficou sabendo de atrocidades cometidas pelas tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. Os quase 400 mil documentos sobre o Iraque divulgados em outubro desse ano provaram a tortura praticada contra homens, mulheres e até crianças e a morte de 66 mil civis entre as 120 mil vítimas da guerra entre 2004 e 2009, configurando um massacre de proporções dantescas.
Os principais dados revelados pelo WikiLeaks também levantam um debate ético importante sobre o limite da informação. Se um jornal tivesse acesso ao plano do desembarque dos aliados na Normandia deveria divulgá-lo antes frustrando uma ação determinante para o futuro da guerra contra o nazi-fascismo? Acredito que não. Mas as informações mais relevantes divulgadas pelo WikiLeaks até hoje contribuíram muito mais para a verdade do que para ameaçar a segurança de qualquer pessoa.
O vazamento das informações abriu várias frentes de discussão e a liberdade de imprensa tem que ser uma delas. Na página principal do WikiLeaks há uma frase da Time considerando que o site pode se tornar uma ferramenta jornalística tão importante quanto a Lei de Liberdade de Informação, uma emenda da Constituição norte-americana que permite acesso integral ou parcial a documentos do governo. Parece que nem uma coisa nem outra está sendo respeitada na terra que se proclama a da liberdade.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O MEDO DO FUTURO...

 
Sabe quando você quer financiar um carro e tem medo de não conseguir pagar as prestações? Sabe quando você assumiu uma dívida e tem medo de perder o emprego?

Este é o medo mais atual de uma boa parcela dos asseclas da direita, presentes na imprensa brasileira.

O medo do futuro.

Reizinho Azevedo, contorcendo-se de ódio e espumando pela boca, tem batido com sua lustra cabeça na parede tentando bolar uma maneira mais fácil de providenciar que seus mecenas voltem ao poder. Reizinho tem medo do que acontecerá se as coisas continuarem como estão. Uma imprensa escrita em franco declínio porque pouca gente ainda aguenta ler o jornalismo de esgoto publicado a cada dia, jornalismo que não mede esforços para mentir, distorcer ou simplesmente, criar uma notícia do nada. Inventar alguma coisa que lhes favoreça.

Quando é libertado de sua camisa de força, ele escreve textos onde acredita que o PT, o senhor de todos os males, pretende capar a imprensa "livre" do país. 

Como se existisse imprensa livre no Brasil.

A preocupação é a seguinte, com a direita perdendo cada vez mais espaço nos palanques eleitorais e ficando, pelo menos, mais quatro anos fora do poder federal, existe o sério risco de um bom pedaço da imprensa de aluguel no Brasil, simplesmente ir à bancarrota.

Ou alguém imagina que os jornalecos e revistecas circulantes no país se sustentam com as verbas da venda em banca, das assinaturas e da publicidade?  Santa ingenuidade, Batman.

Não, cara pálida. São os cofres públicos os responsáveis por uma parte substancial e essencial da sobrevivência desta classe de parasitas que permeia o fornecimento de (des)informações em nossa amada nação.

Por uma estranha coincidência, governo que não lhes destina verba, leva paulada todo santo dia.

São os mesmos parasitas que reclamam da presença do Estado em tudo. Mas que se retroalimentam do dinheiro dos impostos do incauto cidadão, através de anúncios de estatais, de propagandas oficiais obrigatórias ou simplesmente, do mero suborno.

Reizinho tem medo. 

Quem não teria?

Surrupiado dos Anais Políticos

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sen. Rockefeller ataca diretamente a MSNBC, Fox

17/11/2010, Politico, em: Sen. Rockefeller slams MSNBC, Fox

Traduzido pelo pessoal de Vila Vudu


O Sen. Jay Rockefeller (D-Wa.) parece ter-se engajado na campanha iniciada por Jon Stewart/Ted Koppel, contra os noticiários das TVs a cabo.

O presidente da Comissão de Comércio do Senado interveio na retransmissão de uma audiência presidida por John Kerry (D-Mass.), presidente de uma subcomissão, em boa parte para extravasar sua irritação contra a mídia.

Falou diretamente aos principais executivos da comunidade de redes de televisão, a cabo e abertas – inclusive ao presidente da News Corp. Chase Carey, cuja empresa controla o canal Fox News.

"Precisamos de novos catalisadores na programação de noticiários e programas de entretenimento", disse o senador. "Sinto muita falta de noticiários de melhor qualidade. Estou farto de situação e oposição, de direita e esquerda. Há um bicho dentro de mim que deseja que a Agência Federal de Controle das Comunicações (ing. Federal Communications Commission (FCC)] diga às redes Fox e à MSNBC "Fora! Chega! Acabou, p'rá vocês. Adeus! Sumam daqui!".

A Agência estaria prestando inestimável serviço, para melhorar a qualidade das discussões políticas, o discurso político, até a nós, aqui no Congresso, que poderíamos fazer melhor trabalho, e ao povo americano, para que aprendêssemos a discutir política, a acreditar, por pouco que fosse no governo que os próprios americanos elegemos e, sobretudo, a trabalhar melhor por um melhor futuro para todos."

Nota de tradução:

Ah! Que falta faz por aqui, um desses Rockefeller! Grande Rockefeller, sô! Dá-le Rockefeller! 

Te cuida, Ali Kamel! [risos, risos] Abre o olho, Friazinho!

domingo, 7 de novembro de 2010

Um debate necessário

Publicado em 07/11/2010 por Mário Augusto Jakobskind

Terminada a eleição presidencial em que o povo optou por Dilma Rousseff, provocando um fenômeno cultural relevante, qual seja a escolha da primeira mulher Presidenta na história brasileira, antes de voltar à rotina é necessário refletir sobre o significado da vitória e o que nos espera daqui para frente. 

Em essência. Dilma continuará a executar o projeto atual de governo, possivelmente com alguns ajustes ou correções de rota, como preferem alguns, visando à melhoria de qualidade de vida do povo brasileiro. A principal promessa, que deve ser cobrada, é retirar da miséria cerca de 30 milhões de brasileiros, bem como preservar para o povo o “bilhete premiado" do pré-sal avaliado em 30 trilhões de dólares ou mais. 

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado, integrada por tucanos e democratas(?) aprovou parecer determinando a realização de eleição caso em dois anos de mandato o Presidente eleito deixe o governo por algum motivo. Nos dois anos restantes a eleição seria indireta. E o vice, para que serve então? Pois é, isso tem cara de golpismo parlamentar, já que golpes ao estilo clássico, como o de 64, estão descartados politicamente. Mas a natureza da proposta dos senadores derrotados em 3 e 31 de outubro é a mesma.

Os jornais e a oposição derrotada começaram a gritar contra o possível retorno do CPMF. Só que tanto os jornais como os parlamentares do DEM e PSDB estão omitindo um fato importante. Além de ser um imposto a ser destinado à área da saúde, em estado de calamidade, o CPMF serve também para controlar a movimentação financeira de muita gente que tem por hábito sonegar impostos e fazer lavagem de dinheiro.

Os assalariados e brasileiros que não sonegam e sabem que benefícios para qualquer área só podem ser colocados em prática através do pagamento de impostos, que geralmente os muitos ricos são os que mais protestam, aproveitando inclusive a ingenuidade de alguns bem intencionados, mas manipulados, não devem embarcar nessa canoa furada que esconde verdades. Se a CPMF ou outro imposto não foi bem aplicado é necessário fiscalização e cobrança. Mas de que adianta apenas resmungar que a área da saúde está calamitosa e não fazer nada? 

A Presidenta terá muitos desafios pela frente, como, por exemplo, nas áreas de saúde e segurança. Um ponto que provavelmente vai dar muito pano para manga, que, aliás, já está, é a questão midiática.

Como hoje é consenso que a informação é um direito humano, torna-se absolutamente necessário colocar como tema de discussão prioritária a questão da mídia.

Nas últimas semanas, o setor conservador tem manipulado bastante a informação sobre o tema comunicação. Os barões da mídia têm misturado as bolas, como volta e meia assinalamos neste espaço democrático do Direto da Redação, ao utilizarem o conceito de liberdade de imprensa.

Estes senhores, que tentam evitar de todas as formas o debate com bases corretas de informações, confundem, possivelmente de forma deliberada, a liberdade de imprensa com liberdade de empresa.  Eles estão preocupados com a ampliação do debate, que se for colocado em bases corretas os desmoralizará e poderá até afetar os lucros fáceis que conseguem. 

Agora mesmo já podemos observar uma gritaria nervosa, utilizada inclusive na campanha eleitoral pelos apoiadores de José Serra, contra a formação de Conselhos Estaduais de Comunicação. É mentira dos barões e seus seguidores que isso resultará em restrições à liberdade de imprensa. Muito pelo contrário.

Como lembra o Juiz Federal em Mato Grosso, Fabio Henrique Fiorenza, a própria Constituição, em seu artigo 224, prevê a criação de um Conselho de Comunicação Social junto ao Congresso. Tal Conselho foi instituído em 2002 pela Lei 8.389/91, mas simplesmente não funcionou até hoje.

Agora, alguns Estados começam a propor a instalação do Conselho. E onde está a ilegalidade, a não ser na cabeça dos barões midiáticos e seus apoiadores incondicionais? Que história é essa de ilegalidade quando se quer a criação em âmbito estadual do que já existe em âmbito federal, mas está desativado?

O que se deseja com isso é exatamente o contrário do que dizem os defensores do status quo midiático que contempla algumas poucas famílias em um verdadeiro latifúndio do setor, ou seja, o aprofundamento da democracia no país com a participação de representantes da sociedade. Não está em questão o controle do conteúdo, como alegam os críticos à criação dos Conselhos Estaduais.

Vale mais uma vez apresentar um dos argumentos do Juiz Federal Fiorenza, a de que com os Conselhos Estaduais, a imprensa estaria inevitavelmente sujeita à crítica nos debates, pesquisas e conferências organizadas pelos conselhos. Então, por que se voltar de forma apoplética contra o Conselho, que poderá inclusive ampliar o espaço à cultura nacional e regional, de preferência a conteúdos educativos e culturais, por exemplo?

E tem mais: quem disse que abrir espaço nos Conselhos para que grupos representativos de diversos segmentos da sociedade e de variadas matizes ideológicos possam expor suas ideias é restringir a liberdade de imprensa?

Curioso, quando na ditadura autoridades censuravam diretamente os hoje muito ardorosos defensores da liberdade de imprensa eles acatavam passivamente as regras autoritárias do jogo, inclusive chegando até a instituir a autocensura, poucos foram os barões midiáticos que denunciavam as arbitrariedades.

É por aí que a banda toca. Ou seja, é absolutamente relevante aprofundar o debate da mídia no sentido exatamente do Brasil aprofundar a democracia. Não vale mentir ou manipular como fazem atualmente os barões detentores do controle da mídia.

O resto é conversa fiada de quem não quer perder privilégios acumulados de forma indevida e, aí sim, pouco democrática.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"Desinformação não serve à democracia", diz Marilena Chauí

Marilena Chauí pensa que a velha mídia está nos seus estertores. A filósofa e professora da Universidade de São Paulo (USP) entende que o surgimento da internet, o crescimento das alternativas e as atuais eleições delineiam o fim de um modelo.

Veja abaixo vídeo ato de pró-Dilma Rousseff (PT), na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro da capital paulista, no qual Marilena Chauí afirma que a eleição não pode ser pautada pela velha mídia e nem ser transformada em um plebiscito sobre o aborto. Ela também destaca o mapa da votação de José Serra no primeiro turno e concluiu que o tucano teve o apoio do latifúndio, que ataca o meio ambiente e impede a reforma agrária.



A professora, que deixou de escrever e de falar para a velha mídia por não concordar com a postura de vários desses veículos, entende que a imprensa tem papel fundamental para a ausência de debate de temas-chave nas atuais eleições, alimentando questões que favorecem à candidatura de José Serra (PSDB).

Ela considera que não é possível falar de democracia quando se tem o poder da comunicação concentrado em poucas famílias, sem que a sociedade tenha a possibilidade de contestação. Após ato pró-Dilma Rousseff (PT), na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro da capital paulista, a filósofa manifestou à Rede Brasil Atual que os ruralistas e a classe média urbana são os setores que alimentam o ódio a Lula.

Marilena Chauí aponta, sempre em meio a muitos gestos e a uma fala enfática, que o presidente jamais será perdoado. O motivo? Combateu a desigualdade no país.

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.

Rede Brasil Atual: O único ponto aparente de consenso entre os institutos de pesquisa é quanto à aprovação do governo Lula. Que grupos estão entre os 4% da população que consideram ruim ou péssimo o desempenho do presidente?

Marilena Chauí: É um mistério para mim. Tudo que tenho ouvido, sobretudo no rádio, em entrevistas sobre os mais diversos temas, vai tudo muito bem. Os setores que eu imaginaria que diriam que o governo ruim não são. Surpreendentemente.

Mas há dois setores que são "pega pra capar". Um é evidentemente a agroindústria, mas é assim desde o primeiro governo Lula. Eles formam esse mundo ruralista que o DEM representa. Não são nem adversários, são inimigos. Inimigos de classe.

O segundo setor é a classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora.

Rede Brasil Atual: Os trabalhadores têm reconquistado direitos e, com isso, setores do empresariado reclamam que há risco de perda de competitividade pelo mercado brasileiro.

Marilena Chauí: Isso é uma conversa para a campanha eleitoral. É coisa da Folha, do Estadão, do Globo, da Veja, não é para levar a sério. E se você for lá e pedir para provar (que perderia competitividade), vão dizer que não falaram, que foi fruto das circunstâncias. Eles sabem que é uma piada isso que estão dizendo, não tem qualquer consistência.

Rede Brasil Atual: A senhora passou por uma situação parecida à da psicanalista Maria Rita Kehl, agora dispensada pelo Estadão por ter elogiado o governo Lula...

Marilena Chauí: Não foi parecida porque não fui demitida. Eu disse a eles que me recusava a escrever lá. Tanto no Estado quanto na Folha. Tomei a iniciativa de dizer a eles que não teriam minha colaboração.

Quando li o artigo da Maria Rita Kehl, pensei mesmo que poderia dar algum problema. Como é que o Estadão deixou o artigo sair? Era de se esperar que houvesse uma censura prévia.

Agora, se você tomar o que aconteceu nos últimos oito ou nove anos, vai ver que houve uma peneirada e uma parte das pessoas de esquerda simplesmente desistiu de qualquer relação com a mídia. Outras tiveram relação esporádica em momentos muito pontuais em que era preciso se expressar publicamente.

Houve, em um primeiro momento, um deslocamento das pessoas de esquerda para o Estadão, mas um deslocamento que não tinha como durar porque o jornal não tinha como abrigar esse tipo de pensamento.

Desapareceu para valer qualquer pretensão da mídia até mesmo de se oferecer sob uma perspectiva liberal. E sob uma perspectiva democrática. É formidável que no momento em que dizem que nós, do PT, ameaçamos a liberdade de imprensa, eles demitam a Maria Rita.

O que acho, com o segundo turno das eleições de Lula e as eleições da Dilma, é que há um estilo de mídia que está nos seus estertores. O fato de que haja internet e mídia alternativa que se espalha pelo Brasil inteiro muda completamente o padrão.

Passa-se de jornais que tinham função de noticiar para jornais que têm a função de opinar, o que é um contrassenso. A busca pela notícia faz com que não se vá mais em direção ao jornal, vá se buscar em outros lugares.

Rede Brasil Atual: Em períodos eleitorais, tem sido recorrente a associação entre mídia e partidos políticos. Qual a implicação disso na tentativa de consolidação da democracia?

Marilena Chauí: Isso é o que atrapalha a democracia do ponto de vista da liberdade do pensamento e de expressão. O que caracteriza uma sociedade democrática é o direito de produzir informação e de receber informação, de modo que possa circular, ser transformada. O que se tem é a ausência da informação, a manipulação da opinião e a mentira.

Acabo de ver em um site a resposta do Marco Aurélio Garcia (um dos coordenadores de campanha de Dilma) à manchete da Folha. Como é que a Folha dá manchete falando que Dilma vai tirar a questão do aborto do programa de governo se essa questão não está no programa? É dito qualquer coisa.

Desapareceu o compromisso mínimo com a verdade, o compromisso mínimo com a informação. É uma coisa de partido, puramente ideológica, perversa, de produção da mentira. Isso me lembra muito um ensaio que Hannah Arendt escreveu na época da Guerra do Vietnã. Ela comentava as mentiras que a TV, o rádio e os jornais apresentavam. Apresentavam a vitória no Vietnã, até o instante em que a mentira encontrou um limite tal nos próprios fatos que a verdade teve que aparecer. Ela chamou isso de crise da República, que é quando tem a mentira no lugar da informação. Ou seja, a desinformação. Isso não serve para a democracia.

Rede Brasil Atual: O governo Lula teve, internamente, a convivência de polos opostos. Talvez tenha sido o primeiro a ter, por exemplo, Ministério de Desenvolvimento Agrário voltado a agricultura familiar e dialogando com o MST e o Ministério da Agricultura, voltado para o agronegócio. O governo e o presidente se saíram bem na tarefa de fazer opostos conviverem?

Marilena Chauí: Sim. E isso é um talento peculiar que o presidente Lula tem, de ser um negociador nato. Como uma boa parte do trabalho do governo foi feita pela Casa Civil, podemos dizer que Dilma Rousseff tem a capacidade de fazer esse trânsito e essa negociação.

Rede Brasil Atual : Mas como explicar as reações provocadas?

Marilena Chauí: Duas coisas são muito importantes com relação ao atual governo. A primeira é que o governo Lula jamais será perdoado por ter enfrentado a questão da desigualdade social. Lula enfrentou a partir da própria figura dele. O fato de você ter um presidente operário, que tem o curso primário (Lula tem o ensino médio completo), significou a ruína da ideologia burguesa.

Todos os critérios da ideologia burguesa para ocupar este posto (Presidência da República), que é ser da elite financeira, ter formação universitária, falar línguas estrangeiras, ter desempenho de gourmet... Enfim, foi descomposta uma série de atrativos que compõem a figura que a burguesia compôs para ocupar a Presidência. Ponto por ponto.

A burguesia brasileira e a classe média protofascista nunca vão perdoar isso ter acontecido. Imagine como eles se sentem. Houve (Nelson) Mandela, Lula, (Barack) Obama, (Hugo) Chávez. É muita coisa para a cabeça deles. É insuportável. É a sensação de fim de mundo.

Tudo que fosse possível fazer para destruir esse governo foi feito. Por que não caiu? Não caiu porque foi capaz de operar a negociação entre os polos contrários. Isso é uma novidade no caso do Brasil porque, normalmente, opera-se por exclusão. O que o governo fez foi operar por entendimento. E a possibilidade de corrigir uma coisa pela outra.

Agora, há milhares de problemas que o próximo governo vai ter de enfrentar. Não podemos cobrar de nós mesmos que façamos em oito ou em 16 anos o que não foi feito em 500. Mas quando se olha o que já foi feito, leva-se um susto. A redução da desigualdade, a inclusão no campo dos direitos de milhões de pessoas, o Luz para Todos, a casa (Minha Casa, Minha Vida), o Bolsa-Família, a (geração de empregos com) carteira assinada... É uma coisa nunca feita no Brasil.

Rede Brasil Atual: A sra. faz uma avaliação muito positiva do governo. Por que essas medidas não ocorreram antes?

Marilena Chauí: Alguém tinha de vir das classes trabalhadoras para dizer o que precisa fazer no Brasil. Os governos anteriores sequer levavam em conta que isso existia. O máximo que existia era o incômodo de ver essa gente pela rua, embaixo da ponte, fazendo greve, no ponto de ônibus, caindo pelas tabelas na condução pública. Era uma coisa assim que incomodava - (diziam:) "é meio feio, né? É antiestético". O máximo de reação que a presença de classes populares causava era por serem antiestéticos. É a primeira vez que essa classe foi levada a sério.

Eles vão estrebuchar, vão gritar, vão xingar. Vão pintar a saracura, como diria minha mãe. Mas é isso aí. Deixa pintar a saracura que nós ficamos em pé.

Extraída do Vermelho
Enviada por Maria Lucila da Silva Telles