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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sobre “Commonwealth”, Negri & Hart: livro maléfico...



Entreouvido na Vila Vudu
“Toda a imprensa-empresa é a mesma imprensa-empresa, sem tirar nem por (mas sempre tirando o que presta e pondo o que não presta! kkkkkkkkkkkk)”.
“O antimarxismo fundamentalista burro do Wall Street Journal só perde, mesmo, prô antimarxismo fundamentalista burro e golpista do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), no Brasil-2012! \o/ \o/ \o/ \o/”.
“Quem precisa do jornalismo-que-há?! [E o corvo responde: “só a imprensa-empresa... só a imprensa-empresa...”]”

Deu no Wall Street Journal:

Irmãos em Marx

Abaixo os capitalistas, as nações, os patrões, a família, a propriedade, etc.

7/10/2009, Brian C. Anderson, The Wall Street Journal
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Surpreendentemente, dada a ruína associada a seu nome, Karl Marx está novamente em moda. O revés econômico global fez aumentar as vendas de Das Kapital a picos jamais antes vistos. Michael Moore, com seu mais recente filme, rivaliza com o Comunista Original na denúncia dos males do capitalismo; e, ano passado, a mídia parece ter-se deliciado com os obituários dos proprietários dos meios de produção.

Michael Hardt e Antonio Negri, assim, estão bem posicionados para tirar vantagem do revival de Marx, com a publicação de Commonwealth, no qual reimaginam o marxismo para o século 21.

O Sr. Hardt dá aulas de literatura na Duke University e é pós-modernista radical furioso – quer dizer: é professor universitário nos EUA. O Sr. Negri, teórico da política, tem ficha corrida menos comum. Há 30 anos, o governo italiano convenceu-se de que ele era o líder intelectual do grupo terrorista esquerdista “Brigadas Vermelhas” e arquiteto do sequestro e assassinato, em 1978, do líder do Partido da Democracia Cristã italiana, Aldo Moro. Sem meios para provar o envolvimento do Sr. Negri no assassinato – ele sempre rejeitou as acusações – as autoridades italianas o condenaram por “insurreição armada contra o estado”. Ante os 30 anos de gaiola que o esperavam, o Sr. Negri escafedeu-se para a França, onde permaneceu, filósofo no exílio, até 1997, quando voltou à Itália para cumprir o restante da pena, já então reduzida. É desses gurus da esquerda, cujo campo de trabalho aconteceu bem longe das salas de aula de faculdades.

Commonwealth [1] completa uma trilogia iniciada em 2000 com Império [2] e continuada com Multidão [3] em 2004. O livro é uma poção de bruxas, mistura de diferentes ingredientes do radicalismo contemporâneo. O capitalismo merece morrer, creem os srs. Hardt e Negri, porque violentou e corrompeu “o comum”. O comum não é só “os frutos da terra e o que a natureza dá”, dizem eles; é o universo de coisas necessárias à vida social – “conhecimentos, idiomas, códigos, informação, afetos”. Sob o capitalismo, a natureza é saqueada; a sociedade, brutalizada.

Mesmo assim, as condições para a emancipação do povo florescem dentro do capitalismo, creem os autores (exatamente como Marx acreditava, em meados do século 19). Diferente do operário de fábrica de ontem, o operário do conhecimento, hoje, tem cada vez menos necessidade de patrão. As empresas extraem mais do operário, nos dizem, quando o operário é deixado só para criar, conectar-se e cooperar como bem entenda. Vale também para o “trabalho afetivo” que oferece serviços ao público, “mesmo sob condições de máxima limitação e exploração, como os call centers”.

Os srs. Hardt e Negri propõem que todos se livrem dos patrões, é claro, mas também atacam outro bicho-papão da esquerda radical: a propriedade privada. A posse da propriedade serve de base a estruturas de poder injustas – por que a “riqueza comum” [orig. the “common wealth”] dos mundos humano e natural não poderia ser responsabilidade de todos, recurso de todos? Bem-vindos ao Manifesto Comunista 2.0.

Commonwealth atualiza a defesa que Marx fez do proletariado como agente da revolução. Os autores preferem falar de “a multidão”, que inclui trabalhadores de todos os tipos, naturalmente, mas também reúne as principais forças da política identitária: ativistas negros e hispânicos, feministas radicais, transgressores “homo” [orig. “queer"] e outros supostos agredidos pelo capitalismo global. Nem todos esses se entendem muito bem, os srs. Hardt e Negri admitem; por isso, a esquerda tem de persuadir esse exército-de-reserva, para que valorize a importância do “paralelismo revolucionário”. Movimentos do “Poder Negro” que maltratem homossexuais e mulheres, por exemplo, não têm qualquer futuro promissor. Depois da revolução, contam os autores, as políticas identitárias, bem como a luta de classes, dissolver-se-ão.

Para que a revolução seja bem-sucedida, três formas pressupostas corrompidas do comum têm de ser destruídas. Algumas das frases mais duras de Commonwealth atingem a família: mamãe, papai e as crianças talvez não saibam, mas são parte de uma instituição “patética”, uma “máquina” que “devora e esmaga o comum” com “o egoísmo mais cego”. Os srs. Hardt e Negri clamam: “Abaixo a família!” Os dois outros matadores do espírito do mundo são: a empresa e a nação. Quando a multidão assumir “o controle dos meios de produção e reprodução”, eles prometem, o trio maldito será varrido para a lata marxista de lixo da história.

Os autores alertam os senhores do mundo capitalista de que, se quiserem sobreviver um pouco mais, têm de promover reformas, incluindo a cidadania global; renda para todos; e democracia participativa. Mas os srs. Hardt e Negri não esperam que seus avisos sejam ouvidos. A revolução irromperá – e em breve. Pode ser violenta, o que não parece preocupá-los: “Qual a melhor arma contra os poderes reinantes – luta armada, manifestações pacíficas, êxodo, campanhas pela imprensa, greves de trabalhadores, transgredir as regras de gênero, o silêncio, a ironia ou muitas outras – depende da situação”. Piratas, muçulmanos que tumultuam a periferia de Paris e os Panteras Negras, todos são elogiados em Commonwealth como heróis da ruptura.

Os srs. Hardt e Negri pouco se esforçam para construir argumentos que apoiem suas asserções e predições violentas. Escrevem como quem nada sabe do século 20 e de muitas outras coisas, inclusive de economia e ciência social (ainda citam Lênin e Mao, como se fossem fonte de análise política e econômica aproveitável). Como a abolição da propriedade não levará a estados totalitários violentos, como sempre aconteceu no passado? Os autores garantem que, dessa vez, será diferente, sem explicar por quê. E, se se abole a família, como as crianças crescerão até se converter em adultos produtivos? Temos de crer que o mundo da pós-família será ótimo, porque sim (a palavra “criança” é praticamente omitida no livro). Como os autores livram-se das provas de que a globalização capitalista já arrancou da pobreza milhões de seres humanos? Resposta: não se livram.

Commonwealth é livro sombrio, maléfico. Muito preocupa que tenha sido lançado sob o prestigioso imprimatur da Harvard University Press. Incontáveis milhões de seres humanos foram massacrados por seguidores de Karl Marx no século 20. Deus nos ajude, se o carrasco voltar no século 21.



Notas dos tradutores
[1] Commonwealth, Michael Hardt and Antonio Negri, Harvard University Press, 434 pages, $35 [sem tradução para o português]
[2] Pode ser baixado de Negri, Antonio - Antonio Negri de: FilesTube
[3] Império pode ser baixado de “Cantinho da Educação” (Instituto Veritas) em português. .

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“Anonymous”: Inteligência de enxame


Para ajudar a começar a entender os Anonymous


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


In HARDT, Michael e NEGRI, Antonio, Multidão. Guerra e democracia na era do Império [2004], Rio de Janeiro: Record (trad. Clóvis Marques; rev. técnica Giuseppe Cocco), 2005, pp. 130-133 (Cap. I: “Guerra”). (Excerto)

Quando uma rede disseminada ataca, investe sobre o inimigo como um enxame: inúmeras forças independentes parecem atacar de todas as direções num ponto específico, voltando em seguida a desaparecer no ambiente. [112] De uma perspectiva externa, o ataque em rede é apresentado como um enxame porque parece informe. Como a rede não tem um dentro que determine a ordem, aqueles que só são capazes de pensar em termos de modelos tradicionais podem presumir que ela não tenha qualquer forma de organização – o que eles enxergam é apenas espontaneidade e anarquia. O ataque em rede apresenta-se como algo semelhante a um enxame de pássaros ou insetos num filme de terror, uma multidão de atacantes irracionais, desconhecidos, incertos, invisíveis e inesperados. Se analisarmos o interior de uma rede, no entanto, veremos que é efetivamente organizada, racional e criativa. Tem a inteligência do enxame.

Os atuais pesquisadores de inteligência artificial e métodos de informática empregam a expressão “inteligência de enxame” para se referir a técnicas coletivas e disseminadas de solução de problemas sem um controle centralizado ou o estabelecimento de um modelo global. [113] S egundo eles, um dos problemas de grande parte das anteriores formas de pesquisa sobre inteligência artificial estava m presumir que a inteligência se baseava numa mente individual, ao passo que eles sustentam que a inteligência é fundamentalmente social. Assim é que esses pesquisadores deduzem o conceito de “enxame” do comportamento coletivo dos animais sociais, como as formigas, as abelhas e os cupins, para investigar sistemas de inteligência disseminados com multiplicidade de agentes. Os comportamentos animais comuns permitem uma abordagem inicial dessa ideia. Veja-se, por exemplo, como os cupins tropicais constroem magníficas e complexas estruturas em abóbada, comunicando-se entre eles; os pesquisadores aventam a hipótese de que cada cupim segue a concentração de feromônio deixada por outros cupins no enxame. Embora nenhum dos cupins individualmente tenha inteligência elevada, o enxame de cupins forma um sistema inteligente sem controle central. A inteligência do enxame baseia-se fundamentalmente na comunicação. Para os pesquisadores da inteligência artificial e dos métodos da informática, o entendimento do comportamento dos enxames ajuda a montar algoritmos para otimizar procedimentos de solução de problemas em informática. Os computadores também podem ser concebidos de maneira a processar informações mais depressa utilizando uma arquitetura de enxame, em vez de algum modelo tradicional de processamento organizado.

O modelo do tipo de enxame sugerido pelas sociedades animais e desenvolvido por esses pesquisadores presume que cada um dos agentes ou partículas do enxame é efetivamente o mesmo e não muito criativo em si mesmo. Os enxames que vemos surgir nas novas organizações políticas em rede, em contrapartida, são compostos de uma multidão de diferentes agentes criativos. O que adiciona várias camadas de complexidade ao modelo. Os membros da multidão não precisam tornar-se o mesmo ou abdicar de sua criatividade para se comunicar e cooperar entre eles. Mantêm-se diferentes em termos de raça, sexo, sexualidade e assim por diante. O que precisamos entender, portanto, é a inteligência coletiva que pode surgir da comunicação e da cooperação dentro de uma multiplicidade tão variada.

Talvez, quando nos compenetrarmos do enorme potencial dessa inteligência em enxame possamos finalmente entender por que o poeta Arthur Rimbaud, em seus belos hinos à comuna de Paris de 1871, imaginava constantemente os communards revolucionários como insetos. Não é incomum, como se sabe, imaginar tropas inimigas como insetos. Rememorando os acontecimentos do ano anterior, com efeito, Émile Zola, em seu romance histórico La débâcle, refere-se a “enxames negros” de prussianos atacando as posições francesas em Sedan como formigas invasoras, “un si noir foirmillement de troupes allemandes”. [115] Essas metáforas entomológicas para referir-se aos enxames de inimigos enfatizam a inevitabilidade da derrota, ao mesmo tempo que a inferioridade do inimigo – que não passa de um bando de insetos irracionais.

Rimbaud, no entanto, inverte esse clichê típico de tempos de guerra, e faz o elogio do enxame. Os communards que defendem sua Paris revolucionária contra as forças governamentais provenientes de Versalhes percorrem a cidade como formigas (four Miller) na poesia de Rimbaud, e suas barricadas fervilham de atividade como formigueiros (fourmilières). Por que haveria Rimbaud de se referir aos communards que tanto ama e admira como uma colônia de formigas? Se observarmos mais atentamente, veremos que toda a poesia de Rimbaud está cheia de insetos, especialmente os sons dos insetos, zumbindo, formigando (bourdonner, grouiller). “Versos entomológicos, música do enxame”, comenta um leitor da poesia de Rimbaud. [116] O redespertar e a reinvenção do corpo jovem – ponto focal do mundo poético de Rimbaud – tem lugar no zumbir e pulular da carne. É um novo tipo de inteligência, uma inteligência coletiva, uma inteligência de enxame, antecipada por Rimbaud e os communards.



Notas dos autores
[112] Ver Arquilla e Ronfeldt, Swarming and the Future of Conflicts (Santa Monica: Rand Corporation, 2000).
[113] Ver por exemplo James Kennedy e Russel Eberhart com Yuhai Shi, Swarm Intelligence (San Francisco: Morgan Kaufmann Publishers, 2001).
[115] ZOLA, Émile, La débâcle (Paris: Charpentier, 1899), 210.
[116] Ver Kristin Ross, The emergence of social space: Rimbaud and the Paris Commune (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1988), 105. Ross descreve magnificamente o papel central do enxame na poesia de Rimbaud.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A crise da democracia na era da globalização armada


[Grupo de Leitura] Conceitos úteis para ajudar a ler os jornais (só rindo!) brasileiros (16/1/2012)

 


In HARDT, Michael e NEGRI, Antonio, Multidão. Guerra e democracia na era do Império [2004], Rio de Janeiro: Record (trad. Clóvis Marques; revisão técnica Giuseppe Cocco), 2005, pp. 293-301 (Cap. 3: “Democracia”; 3.1: “A longa marcha da democracia”) e 411. (Excerto)
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Acreditava-se que o fim da guerra fria constituiria a vitória final da democracia, mas hoje o conceito e as práticas da democracia estão em crise por toda parte.

Até mesmo nos EUA, o autoproclamado paradigma global da democracia, instituições tão centrais quanto os sistemas eleitorais têm sido seriamente questionadas, e em muitas partes do mundo mal se chega a encontrar um simulacro de sistemas democráticos de governo. E o constante estado de guerra global solapa as débeis formas de democracia existentes.

Ao longo de grande parte do século 20, o conceito de democracia foi ao mesmo tempo limitado e promovido pela ideologia da guerra fria. De um lado da linha divisória da guerra fria, o conceito de democracia tendia a ser definido estritamente em termos de anticomunismo, de tal forma que se tornava sinônimo de “mundo livre”.

Desse modo, a palavra democracia pouco tinha a ver com a natureza do governo: qualquer Estado que fizesse parte da muralha de defesa contra aquilo que era encarado como o totalitarismo comunista podia ser considerado “democrático”, independente de seu efetivo grau de democracia. 

Do outro lado da linha divisória da guerra fria, os países socialistas também se diziam “repúblicas democráticas”. Também essa alegação pouco tinha a ver com a natureza do governo, remetendo primordialmente, em vez disso, à oposição ao controle capitalista: qualquer país que fizesse parte da muralha de defesa contra aquilo que era considerado como dominação capitalista podia apresentar-se como uma república democrática.

Em nosso mundo posterior à guerra fria, o conceito de democracia foi desvinculado de suas rígidas amarras da guerra fria e passou a navegar sem rumo. Talvez por esse motivo, há alguma esperança de que recobre sua antiga importância.

A crise da democracia hoje tem a ver não só com a corrupção e a insuficiência de suas instituições e práticas, mas também com o próprio conceito. Parte da crise está no fato de que não está claro o que significa democracia num mundo globalizado.

Certamente, a democracia global terá de significar algo diferente do que significava democracia no contexto nacional ao longo de toda a era moderna. Podemos ter uma ideia dessa crise da democracia pela quantidade de estudos acadêmicos recentes sobre a natureza da globalização e a guerra global em relação à democracia.

Os estudiosos continuam partindo do princípio de que há apoio para a democracia, mas divergem muito quando se trata de saber se a atual forma de globalização aumenta ou diminui os poderes e possibilidades da democracia através do mundo.

Além disso, desde o 11/9 o aumento das pressões de guerra polarizou as posições e, aos olhos de alguns, subordinou a necessidade de democracia às preocupações de segurança e estabilidade. 

A bem da clareza, vamos separar essas posições de acordo com sua atitude em relação aos benefícios da globalização para a democracia e a sua orientação política geral.

Temos assim quatro categorias lógicas que dividem os que acham que a globalização promove a democracia e os que consideram que ela é um obstáculo, à esquerda e à direita.

Devemos ter em mente, é claro, que nesses vários debates existem grandes zonas de superposição quanto ao que significa globalização, além do que significa democracia. As designações de direita e esquerda são apenas aproximações, mas ainda assim úteis para separar as diferentes posições.

À esquerda:

(a) Os argumentos social-democratas

Examinemos primeiro os argumentos social-democratas, segundo os quais a democracia é debilitada ou ameaçada pela globalização, em geral definindo a globalização em termos estritamente econômicos.

Tais argumentos sustentam que, a bem da democracia, os Estados-nação deviam retirar-se das forças de globalização.

Certos argumentos que se encaixam nessa categoria afirmam que a globalização econômica é na realidade um mito, mas um mito poderoso, com efeitos antidemocráticos.

Muitas dessas argumentações sustentam, por exemplo, que a economia internacionalizada de hoje não tem caráter inédito (há muito tempo a economia é internacionalizada); que as corporações autenticamente transnacionais (em contraste com as corporações multinacionais) ainda são raras; e que a vasta maioria do comércio que hoje acontece não é efetivamente global, ocorrendo apenas entre a América do Norte, a Europa e o Japão.

Apesar de a globalização ser um mito, prosseguem, sua ideologia serve para paralisar as estratégias políticas nacionais democráticas: o mito da globalização e de sua inexorabilidade é usado para atacar as tentativas nacionais de controlar a economia e facilita os programas neoliberais de privatização, a destruição do Estado de bem-estar social e assim por diante.

Esses social-democratas sustentam, em vez disso, que os Estados-Nação podem e devem afirmar sua soberania e assumir maior controle da economia nos níveis nacionais e supranacional. Com isso, seria possível restabelecer as funções democráticas do Estado que vêm sendo desgastadas, sobretudo suas funções representativas e suas estruturas previdenciárias.

Essa posição social-democrata é a que se viu mais seriamente solapada pelos acontecimentos que se sucederam aos atentados de 11/9 até a guerra do Iraque.

O estado de guerra global parece ter tornado inevitável a globalização (especialmente em termos de segurança e questões militares), sendo, portanto, insustentável qualquer posição antiglobalização dessa natureza.

No contexto do estado de guerra, na realidade, a maioria das posições social-democratas tendem a migrar para uma das duas posições pró-globalização adiante enunciadas.

As políticas de Schröder na Alemanha são bom exemplo da maneira como a defesa social-democrata dos interesses nacionais passou a depender fundamentalmente de alianças cosmopolitas multilaterais; e a Grã-Bretanha de Blair constitui a principal ilustração da maneira como se considera que os interesses nacionais são mais bem atendidos pelo alinhamento com os EUA e o apoio a sua hegemonia global.

(b) Os argumentos cosmopolitas liberais

Em oposição às críticas social-democratas da globalização, mas ainda mantendo uma posição política de esquerda, temos os argumentos cosmopolitas liberais que consideram que a globalização propicia a democracia.

Não estamos afirmando que esses autores não têm uma crítica das formas contemporâneas de globalização, pois na realidade têm, especialmente no que diz respeito às atividades, mas desregulamentadas do capital global.

Não encontramos, contudo, argumentos contra a globalização capitalista como tal, e sim argumentos por uma melhor regulamentação institucional e política da economia.

Tais argumentos geralmente enfatizam que a globalização traz efeitos positivos em temos econômicos e políticos, assim como formas de enfrentar o estado de guerra global. Além de maior desenvolvimento econômico, eles consideram que a globalização apresenta maior potencial democrático, basicamente em decorrência de uma relativa nova liberdade em relação aos governos dos Estados-nação – e neste sentido é evidente seu contraste com as posições social-democratas.

Isso é particularmente verdadeiro, por exemplo, nos debates centrados na questão dos direitos humanos, que sob muitos aspectos assumiu um papel mais importante, contra o poder dos Estados-nação ou apesar dele.

As noções de uma nova democracia cosmopolita ou de uma governança global também têm como condição de possibilidade o relativo declínio da soberania dos Estados-nação.

O estado de guerra global transformou o cosmopolitismo liberal numa importante posição política, aparentemente a única alternativa viável ao controle global americano.

Contra a realidade das ações unilaterais norte-americanas, o multilateralismo é o método básico da política cosmopolita, e a ONU, seu mais poderoso instrumento. Também poderíamos incluir no limite dessa categoria aqueles que argumentam simplesmente que os EUA não podem “agir sozinhos”, devendo compartilhar seus poderes e responsabilidades de domínio global com outras grandes potências, numa espécie de acordo multilateral destinado a preservar a ordem global.

À direita

(a) Pró hegemonia global dos EUA

Os vários argumentos da direita centrados nos benefícios e na necessidade da hegemonia global americana convergem com os cosmopolitas liberais no sentido de que a globalização nutre a democracia, mas o fazem por razões muito diferentes.

Esses argumentos, hoje em dia onipresentes nos principais veículos de comunicação, afirmam geralmente que a globalização propicia a democracia porque a hegemonia americana e a expansão do domínio do capital por si mesmas implicam necessariamente a expansão da democracia.

Há quem argumente que o domínio do capital é inerentemente democrático, e que, portanto, a globalização do capital é a globalização da democracia; outros sustentam que o sistema político americano e o “American way of life” são sinônimos de democracia, sendo, portanto, a expansão da hegemonia dos EUA uma expansão da democracia, mas em geral estes revelam-se dois lados da mesma moeda.

O estado de guerra global tem proporcionado a essa posição uma plataforma política de nova proeminência.

A ideologia que veio a ser conhecida como ideologia neoconservadora, que foi forte esteio do governo Bush, pretende que os EUA refaçam ativamente o mapa político do mundo, derrubando regimes párias potencialmente ameaçadores e criando bons regimes.

O governo americano enfatiza que suas intervenções globais não se baseiam apenas em interesses nacionais, e sim nos desejos globais e universais de liberdade e prosperidade.

Para o bem do mundo os EUA devem agir unilateralmente, livres das amarras dos acordos multilaterais ou do direito internacional.

Entre esses conservadores pró-globalização, verifica-se um debate secundário entre aqueles – geralmente autores britânicos – que consideram a hegemonia global americana como legítima herdeira dos projetos imperialistas europeus benevolentes e os que – autores norte-americanos, como se poderia esperar – que encaram o domínio global norte-americano como situação histórica radicalmente nova e excepcional.

Um autor norte-americano, por exemplo, está convencido de que o excepcionalismo dos EUA apresenta benefícios inéditos para todo o planeta: “Apesar de todas as nossas trapalhadas, o papel desempenhado pelos EUA é a maior bênção recebida pelo mundo em muitos e muitos séculos, e talvez mesmo em toda a história registrada”. 

(b) Conservadores, a partir de valores tradicionais

Finalmente, os argumentos conservadores calcados em valores tradicionais contestam o ponto de vista direitista dominante de que o capitalismo desregulamentado e a hegemonia americana necessariamente trazem a democracia.

Em vez disso, concordam com o ponto de vista social-democrata de que a globalização cria obstáculos para a democracia, mas por razões muito diferentes – primordialmente, porque ameaça os valores conservadores tradicionais.

Essa posição assume formas muito diferentes no interior dos EUA e fora deles.

Os pensadores conservadores de fora dos EUA que encarnam a globalização como uma expansão radical da hegemonia americana argumentam, nisso convergindo com os sociais-democratas, que os mercados econômicos precisam de regulamentação estatal e que a estabilidade dos mercados é ameaçada pela anarquia das forças econômicas globais.

A força básica desses argumentos, no entanto, está centrada nos aspectos culturais e não nos econômicos.

Os críticos conservadores de fora dos EUA sustentam, por exemplo, que a sociedade norte-americana é tão corrompida – com sua débil coesão social, o declínio das estruturas familiares, os altos índices de criminalidade e encarceramento e assim por diante – que não tem força política ou fortaleza moral para dominar outros países.

No interior dos EUA, os argumentos conservadores escorados em valores tradicionais consideram o crescente envolvimento americano em questões globais e o domínio cada vez menos regulado do capital, prejudiciais à vida moral e aos valores tradicionais dos próprios EUA.

Em todos esses casos, os valores ou instituições sociais tradicionais (ou aquilo que alguns chamam de civilização) precisam ser protegidos, preservando-se o interesse nacional contra as ameaças da globalização.

O estado global de guerra e suas pressões pela aceitação da globalização como fato consumado diminuíram, mas não eliminaram as expressões dessa posição.

O conservadorismo ligado aos valores tradicionais geralmente assume hoje a forma de um ceticismo em relação à globalização e de um pessimismo quanto aos benefícios que a hegemonia norte-americana afirma proporcionar ao próprio país e ao mundo.

Mas nenhum desses argumentos, contudo, parece suficiente para enfrentar a questão da democracia e da globalização.

O que está claro, isso sim, a partir de todos eles – de direita e de esquerda, pró-globalização e antiglobalização – é que a globalização e a guerra global põem a democracia em questão.

Como se sabe, muitas vezes nos últimos séculos a democracia tem sido declarada “em crise”, geralmente por aristocratas liberais temerosos da anarquia do poder popular ou de tecnocratas incomodados com a desordem dos sistemas parlamentares. 

Nosso problema da democracia, contudo, é diferente.

Em primeiro lugar, a democracia é enfrentada hoje como um salto em escala, do Estado-nação para todo o planeta, sendo com isso desvinculada de seus tradicionais significados e práticas modernos.

Como tentaremos demonstrar adiante, a democracia deve ser entendida e praticada de maneira diferente nesse novo contexto e nessa nova escala. Por isso, todas as quatro categorias de argumentos acima delineados são insuficientes: por não encarar de maneira adequada a escala da crise contemporânea da democracia. 

Uma segunda razão, substancial e mais complexa, pela qual esses argumentos são insuficientes está no fato de que, mesmo quando falam de democracia, sempre a limitam ou a adiam.

Hoje, a posição aristocrática liberal consiste em insistir primeiro na liberdade, deixando a democracia talvez para algum momento posterior.

Em termos vulgares, o projeto de liberdade primeiro e democracia depois frequentemente se traduz no domínio absoluto da propriedade privada, minando a vontade geral.

O que os aristocratas liberais não entendem é que, na era da produção biopolítica, o liberalismo e a liberdade baseados na virtude de poucos ou mesmo de muitos vão-se tornando impossíveis (até mesmo a lógica da propriedade privada vem sendo ameaçada pela natureza social da produção biopolítica).

A virtude de todos vai-se tornando hoje a única base para a liberdade e a democracia, que já não podem ser separadas.

Os gigantescos protestos contra aspectos políticos e econômicos do sistema global, entre eles o atual estado de guerra, que examinaremos detalhadamente adiante, devem ser encarados como fortes sintomas da crise da democracia.

O que esses diferentes protestos deixam claro é que a democracia não pode ser feita ou imposta de cima.

Os manifestantes recusam as noções de democracia vinda de cima promovidas por ambos os lados da guerra fria: a democracia não é simplesmente a face política do capitalismo nem o domínio de elites burocráticas.

E a democracia não resulta de intervenções militares e mudanças de regime, nem dos vários modelos atuais de “transição para a democracia”, que geralmente se baseiam em algum tipo de caudilhismo latino-americano e se revelaram mais eficazes para criar novas oligarquias do que para criar qualquer sistema democrático. 

Todos os movimentos sociais radicais desde 1968 se têm insurgido contra essa corrupção do conceito de democracia, que a transforma numa forma de domínio imposto e controlado de cima.

Em vez disso, insistem, a democracia só pode surgir de baixo. Talvez a atual crise do conceito de democracia decorrente de sua nova escala global sirva de oportunidade para que retornemos a seu significado mais antigo, como governo de todos por todos, uma democracia sem “se” e sem “mas” [“A democracia da multidão”, objeto do cap. seguinte 3.3, p. 411].

[pág. 411] Os movimentos que expressam queixas contra as injustiças de nosso atual sistema global e as propostas práticas de reforma, que enumeramos na sessão anterior, constituem poderosas forças de transformação democrática, mas além disso precisamos repensar o conceito de democracia à luz dos novos desafio e possibilidades apresentados por nosso mundo.

Essa reelaboração conceitual é a tarefa primordial de nosso livro. Não pretendemos apresentar um programa concreto de ação para a multidão, e sim tentar elaborar as bases conceituais sobre as quais se poderá firmar-se um novo projeto de democracia. [Fim do excerto.]

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

“Inventando lutas em rede”


Interessante “genalogia da resistência” (coisa rara)
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu
Excerto do item 1.3 “A Resistência”, do Cap. I “A Guerra”, in HARDT, Michael e NEGRI, Antonio, Multidão, Guerra e democracia na era do Império [2004], Rio de Janeiro: Record
(trad. Clóvis Marques; rev. Técnica Giuseppe Cocco), 2005, pp. 116-126.

Voltando a examinar a genealogia das revoluções e dos movimentos de resistência da era moderna, vemos que a ideia de “povo” tem desempenhado papel fundamental, tanto no modelo de exército popular quanto no da guerrilha, no estabelecimento da autoridade da organização e na legitimação do seu uso da violência.

O “povo” é uma forma de soberania que pretende substituir a autoridade vigente de Estado e tomar o poder. Essa moderna legitimação da soberania, mesmo no caso dos movimentos revolucionários, é na realidade produto de uma usurpação.

O povo muitas vezes serve como meio termo entre o consentimento dado pela população e o comando exercido pelo poder soberano, mas de maneira geral a expressão serve apenas como tentativa de validar uma autoridade estabelecida.

A moderna legitimação do poder e da soberania, mesmo em casos de resistência e rebelião está sempre assentada num elemento transcendente, seja essa autoridade (segundo as expressões de Max Weber) tradicional, racional ou carismática.

A ambiguidade do conceito de povo soberano revela-se uma espécie de duplicidade, já que a relação legitimadora tende sempre a privilegiar a autoridade, e não a população como um todo. Essa relação ambígua entre o povo e a soberania explica a permanente insatisfação que vimos observando com o caráter não democrático das formas modernas de organização revolucionária, o reconhecimento de que as formas de dominação e autoridade contra as quais lutamos permanentemente reaparecem nos próprios movimentos de resistência.

Além da violência exercida pelo povo passam pela mesma crise a que nos referimos anteriormente em termos de legitimação da violência de Estado. Também aqui já não têm vigência os tradicionais argumentos jurídicos e morais.

  • Seria hoje possível imaginar um novo processo de legitimação que não se escore na soberania do povo, baseando-se, isso sim, na produtividade [p. 117] biopolítica da multidão?
  • Poderão novas formas organizacionais de resistência e revolta finalmente satisfazer o desejo de democracia implícito em toda a moderna genealogia de lutas?
  • Existiria um mecanismo imanente, que não recorra a qualquer autoridade transcendente, capaz de legitimar o uso da força na luta da multidão para criar uma nova sociedade baseada na democracia, na igualdade e na liberdade?
  • Podemos sequer considerar que faça sentido falar de uma guerra da multidão?

Um modelo de legitimação que encontramos na modernidade e que poderia nos ajudar a atacar essas questões é o que anima a luta de classes.

Não estamos pensando aqui tanto nos projetos dos Estados e partidos socialistas, que certamente construíram suas formas modernas de soberania, mas nas lutas cotidianas dos próprios trabalhadores, seus atos coordenados de resistência, insubordinação e subversão das relações de dominação no mercado de trabalho e na sociedade de maneira geral.

As classes subordinadas organizadas em revolta nunca alimentaram qualquer ilusão sobre a legitimidade da violência de Estado, mesmo quando adotavam estratégias reformistas que as levavam a tratar com o Estado, forçando-o a providenciar mecanismos de previdência social e solicitando-lhe sanção legal, como no caso do direito de greve. Elas nunca esqueceram que as leis que legitimam a violência de Estado são normas transcendentais que mantêm os privilégios da classe dominante (especialmente os direitos dos proprietários) e a subordinação do resto da população. Sabiam que enquanto a violência do capital e do Estado repousa na autoridade transcendente, a legitimação de sua luta de classes baseava-se apenas em seus próprios interesses e desejos.[96]Desse modo, a luta de classes constituía um modelo moderno da base imanente de legitimação, no sentido de que não recorria a qualquer autoridade soberana para justificar-se.

Não consideramos, todavia, que a questão da legitimação das lutas da multidão possa ser resolvida simplesmente estudando-se a arqueologia da guerra de classes ou tentando estabelecer alguma continuidade fixa [p. 118] em relação ao passado.

As lutas do passado podem fornecer exemplos importantes, mas as novas dimensões do poder requerem novas dimensões de resistência. Além disso, essas questões não podem ser resolvidas só mediante a reflexão teórica, devendo também ser atacadas na prática. Devemos retomar nossa genealogia onde a deixamos e ver como as próprias lutas reagiram.

Depois de 1968, o ano em que um longo ciclo de lutas culminou simultaneamente nas regiões dominante e subordinada do mundo, a forma dos movimentos de resistência e libertação começou a mudar radicalmente – uma mudança que correspondia às mudanças na força de trabalho e nas formas da produção social.

Podemos reconhecer essa mudança primeiro que tudo nas transformações da natureza da guerra de guerrilha.

A mudança mais óbvia foi que os movimentos de guerrilha começaram a transferir-se do campo para a cidade, dos espaços abertos para os espaços fechados. As técnicas de guerra de guerrilha passaram a ser adaptadas às novas condições de produção pós-fordista, de acordo com os sistemas de informação e as estruturas em rede.

Finalmente, à medida que cada vez mais adotava as características da produção biopolítica, disseminando-se por todo o tecido social, a guerra de guerrilha colocava mais diretamente como sua meta a produção de subjetividade – subjetividade econômica e cultural, tanto material quanto imaterial. Em outras palavras, não era apenas uma questão de conquistar “corações e mentes” e sim de criar novos corações e mentes mediante a construção de novos circuitos de comunicação, novas formas de colaboração social e novos modos de interação. Nesse processo, podemos distinguir uma tendência para ir além do modelo da moderna guerrilha, em direção a formas mais democráticas de organização em rede.

Uma das máximas da guerra de guerrilha, compartilhada pelos modelos maoísta e cubano, consistia em privilegiar o rural sobre o urbano.

No fim da década de 1960 e ao longo da década seguinte, as lutas de guerrilha tornaram-se cada vez mais metropolitanas, especialmente nas Américas e na Europa. [97]  (p. 119) As revoltas nos guetos dos americanos de origem africana na década de 1960 terão talvez constituído o prólogo à urbanização da luta política e do conflito armado na década de 1970.

Naturalmente, muito dos movimentos urbanos desse período não adotaram o modelo organizacional policêntrico típico dos movimentos de guerrilha, seguindo em grande parte o velho modelo hierárquico e centralizado das estruturas militares tradicionais.

O Partido dos Panteras Negras e a Frente de Libertação do Quebec na América do Norte; os tupamaros uruguaios; e a Ação Libertadora Nacional brasileira, na América do Sul, assim como a Facção do Exército Vermelho alemão e as Brigadas Vermelhas italianas na Europa foram exemplos dessa estrutura militar centralizada e passadista.

Nesse período, surgiram também movimentos urbanos descentrados ou policêntricos cujas organizações se assemelhavam ao modelo da guerrilha moderna. Em certa medida, nesses casos, as táticas de guerra de guerrilha eram simplesmente transpostas do campo para a cidade. A cidade é uma selva. Os guerrilheiros urbanos conhecem capilarmente o seu terreno, de modo que podem a qualquer momento unir-se para atacar e em seguida dispersar-se, desaparecendo em seus esconderijos.

Cada vez mais, no entanto, o foco não estava em atacar os poderes dominantes, mas em transformar a própria cidade.

Nas lutas metropolitanas, tornou-se cada vez mais intensa a estreita relação entre desobediência e resistência, entre sabotagem e deserção, contrapoder e projetos constituintes.

As grandes lutas da Autonomia na Itália na década de 1970, por exemplo, conseguiram temporariamente redesenhar a paisagem das grandes cidades, liberando zonas inteiras nas quais novas culturas e novas formas de vida vieram a ser criadas. [98]

A verdadeira transformação dos movimentos guerrilheiros nesse período, no entanto, pouco tem a ver com o terreno urbano ou rural – ou, antes, a aparente mudança para espaços urbanos é um sintoma de uma transformação mais importante.

A transformação mais profunda ocorre na relação entre a organização dos movimentos e a organização [p. 120] da produção econômica e social. [99]

Como já vimos, os exércitos de operários industriais organizados nas fábricas correspondem às formações militares centralizadas no exército popular, ao passo que as formas guerrilheiras de rebelião estão ligadas à produção camponesa, dispersada pelo campo em seu relativo isolamento.

A partir da década de 1970, contudo, as técnicas e as formas organizacionais da produção industrial transferiram-se para unidades de trabalho menores e mais móveis, assim como para estruturas de produção mais flexíveis, mudança frequentemente vista como uma transição da produção fordista para a produção pós-fordista.

As pequenas unidades móveis e as estruturas flexíveis da produção pós-fordista correspondem em certa medida ao modelo policêntrico da guerrilha, mas o modelo guerrilheiro é imediatamente transformado pelas tecnologias do pós-fordismo.

As redes de informação, comunicação e cooperação – os eixos fundamentais da produção pós-fordista – começam a definir os novos movimentos guerrilheiros. Não só esses movimentos utilizam tecnologias como a internet como ferramentas de organização, como também começam a adotar tais tecnologias como modelos para suas próprias estruturas organizacionais.

Em certa medida, esses movimentos pós-fordistas pós-modernos completam e solidificam a tendência policêntrica dos anteriores modelos de guerrilha. De acordo com a clássica formulação cubana do foquismo ou guevarismo, as forças guerrilheiras são policêntricas, compostas de numerosos focos relativamente independentes, mas essa pluralidade deve em algum momento ser reduzida a uma unidade, tornando-se as forças guerrilheiras um exército.

A ordenação em rede, em contrapartida, baseia-se na pluralidade contínua de seus elementos e redes de comunicação, de tal maneira que a redução a uma estrutura de comando centralizada e unificada é impossível.

A forma policêntrica do modelo guerrilheiro evolui assim para uma forma em rede na qual não existe um centro, apenas uma pluralidade irredutível de nodos em comunicação uns com os outros. [pág. 121]

Como no caso da produção econômica pós-fordista, uma característica da luta em rede da multidão é que ocorre no terreno biopolítico – em outras palavras, ela produz diretamente novas subjetividades e novas formas de vida. É verdade que as organizações militares sempre envolveram a produção de subjetividade.

O exército moderno produziu o soldado disciplinado capaz de cumprir ordens, como o operário disciplinado da fábrica fordista, e a produção do sujeito disciplinado nas modernas forças guerrilheiras era muito semelhante.

Mais uma vez, a luta em rede, como a produção pós-fordista, não recorre da mesma maneira à disciplina: seus valores fundamentais são a criatividade, a comunicação e a cooperação auto-organizada.

Naturalmente, esse novo tipo de força resiste e ataca o inimigo como sempre fizeram as forças militares, mas cada vez mais o seu foco é interno – produzir novas subjetividades e novas formas expansivas de vida dentro da própria organização. Já não se toma o “povo” como base, e a meta deixou de ser tomar o poder da estrutura do Estado soberano.

Os elementos democráticos da estrutura guerrilheira são levados mais longe na forma em rede, tornando-se, a organização, menos um meio, e mais um fim em si mesma.

Dentre os numerosos exemplos de guerra civil nas últimas décadas do século 20, a vasta maioria ainda era organizada de acordo com modelos ultrapassados; fosse o velho modelo moderno de guerrilha ou a tradicional estrutura militar centralizada, entre outros casos no Khmer Vermelho cambojano, entre os mujahedin do Afeganistão, nos casos do Hamás no Líbano e na Palestina, do Novo Exército Popular das Filipinas, do Sendero Luminoso peruano e das guerrilhas das FARC e do ELN na Colômbia.

Muitos desses movimentos, sobretudo quando são derrotados, começam a se transformar, assumindo características das organizações em rede.

Uma das rebeliões que olham para frente, ilustrando a transição da organização guerrilheira tradicional para formas em rede, é a Intifada palestina, que começou pela primeira vez em 1987 e voltou a manifestar-se em 2000.

São escassas as informações dignas [pág. 122] de crédito sobre a Intifada, mas dois modelos parecem coexistir nessa sublevação. [100]

Por um lado, a revolta é organizada internamente por homens pobres em nível extremamente local, em torno de líderes de vizinhança e comitês populares. Os apedrejamentos e conflitos diretos com policiais e autoridades israelenses que deram início à primeira intifada rapidamente se disseminaram por grande parte de Gaza e da Cisjordânia.

Por outro lado, a revolta é organizada externamente pelas diferentes organizações políticas palestinas a maioria das quais estava no exílio no início da primeira intifada, sob controle de homens de uma geração mais velha. Ao longo de suas diferentes fases, a intifada parece ter-se definido por diferentes proporções dessas duas formas organizacionais, uma interna e a outra externa; uma horizontal, autônoma e disseminada e a outra vertical e centralizada. Desse modo, a intifada é uma organização ambivalente, que aponta para trás, em direção a formas centralizadas mais antigas, e também aponta para frente, para novas formas disseminadas de organização.

As lutas contra o apartheid na África do Sul também exemplificam essa transição e a presença simultânea de duas formas organizacionais básicas, mas por um período muito mais longo.

A composição interna das forças que desafiaram e acabaram derrubando o regime do apartheid era extremamente complexa e mudava com o tempo, mas é possível identificar claramente, pelo menos a partir de meados da década de 1970, com a revolta de Soweto, e ao longo da década de 1980, uma vasta proliferação de lutas horizontais.

O ódio negro contra a dominação branca certamente era comum aos vários movimentos, mas eles se organizavam de forma relativamente autônomas em diferentes setores da sociedade.

Os grupos estudantis foram protagonistas importantes, e os sindicatos, com uma longa história de militância na África do Sul, desempenharam um papel central. Ao longo desse período, essas lutas horizontais também mantinham uma relação dinâmica com os eixos verticais das organizações tradicionais e mais antigas de lideranças como o Congresso Nacional Africano (CNA), que se manteve [pág. 123] clandestino e no exílio até 1990.

Podemos encarar esse contraste entre a organização autônoma e horizontal e a liderança centralizada como uma tensão entre as lutas organizadas (de trabalhadores, estudantes e outros) e o CNA, mas talvez seja mais esclarecedor reconhecer que também se trata de uma tensão no interior do CNA; uma tensão que em certos sentidos se manteve e ampliou-se desde a chegada do CNA ao poder mediante eleições, em 1994. Como a intifada, portanto, as lutas contra o apartheid assumiram duas formas organizacionais diferentes, assinalando um ponto de transição nessa nossa genealogia.

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que surgiu em Chiapas na década de 1990, representa um exemplo ainda mais claro dessa transformação: os zapatistas são o pivô entre o velho modelo guerrilheiro e o novo modelo de estruturas biopolíticas em rede.

Também demonstram esplendidamente como a transição econômica do pós-fordismo pode funcionar igualmente em territórios urbanos e rurais, ligando experiências locais a lutas globais. [103]

Os zapatistas, que surgiram como um movimento camponês e nativo, e basicamente continuam a sê-lo, usam a internet e as tecnologias de comunicação não apenas para distribuir seus comunicados para o mundo exterior como também, pelo menos em certa medida, como elemento estrutural dentro de sua organização, especialmente na medida em que ela se estende para fora do sul mexicano, alcançando os níveis nacional e global.

A comunicação é elemento central da concepção de revolução dos zapatistas, e eles enfatizam repetidas vezes a necessidade de criar organizações horizontais em rede, em vez de estruturas verticais centralizadas. [104]

Cabe observar, naturalmente, que esse modelo organizacional descentralizado vai de encontro à nomenclatura militar tradicional do EZLN. Afinal, os zapatistas se consideram um exército, organizando-se de acordo com uma série de títulos e patentes militares.

Observando-se mais de perto, contudo, é possível ver que embora adotem uma versão tradicional do modelo guerrilheiro latino-americano, inclusive com suas tendências para a hierarquia militar centralizada [pág. 124], os zapatistas constantemente minam essas hierarquias na prática, descentrando a autoridade com as elegantes inversões e a ironia típica de sua retórica. (Na verdade, eles transformam a própria ironia em estratégia política [105] O paradoxal lema zapatista do “comandar obedecendo”, por exemplo, objetiva inverter as relações tradicionais de hierarquia dentro da organização.

As posições de liderança são rotativas, e parece haver um vazio de autoridade no centro. Marcos, o porta-voz principal e ícone quase mítico dos zapatistas, tem a patente de subcomandante para enfatizar sua relativa subordinação. Além disso, o objetivo do movimento nunca foi derrotar o Estado e invocar autoridade soberana, e sim mudar o mundo sem tomar o poder. [106] Em outras palavras, os zapatistas adotam todos os elementos da estrutura tradicional e os transformam, demonstrando da maneira mais clara possível a natureza e a direção da transição pós-moderna das formas organizacionais.

Nas últimas décadas do século 20 também surgiram, especialmente nos EUA, numerosos movimentos que costumam ser agrupados sob a rubrica “políticas de identidade”, nascidos basicamente das lutas feministas, das lutas de lésbicas e gays e das lutas de fundo racial.

A característica organizacional mais importante desses diferentes movimentos é a insistência na autonomia e a recusa de qualquer hierarquia centralizada, de líderes ou porta-vozes.

De sua perspectiva, o partido, o exército popular e a moderna força guerrilheira parecem igualmente falidos, por causa da tendência dessas estruturas para impor a unidade, negar as diferenças e subordiná-los aos interesses de outros.

Se não é possível uma maneira democrática de agregação política que nos permita preservar nossa autonomia e afirmar nossas diferenças, proclamam eles, haveremos de nos manter separados, por nossa própria conta.

Essa ênfase na organização democrática e na independência também se manifesta nas estruturas internas dos movimentos, nas quais encontramos uma série de importantes experiências em matéria de processos decisórios colaborativos [pág. 126], coordenação de grupos de afinidade e assim por diante. A esse respeito, o ressurgimento dos movimentos anarquistas, especialmente na América do Norte e na Europa, tem sido muito importante, por sua ênfase na necessidade de liberdade e organização democrática. [108]

Todas essas experiências de democracia e autonomia, até mesmo nos menores níveis, representam uma enorme riqueza para o futuro desenvolvimento dos movimentos.

Finalmente, os movimentos de globalização que se estenderam de Seattle a Gênova e aos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre e Mumbai, mobilizando os movimentos contra a guerra, constituem o exemplo até hoje mais claro de organizações disseminadas em rede.

Um dos elementos mais surpreendentes dos acontecimentos de Seattle em novembro de 1999 e em cada uma das grandes manifestações ocorridas desde então é o fato de que grupos que até então considerávamos diferentes e até contraditórios em seus interesses agiam em comum – ambientalistas com sindicalistas, anarquistas com grupos religiosos, gays e lésbicas com os que protestavam contra o complexo carcerário-industrial.

Os grupos não se apresentam unidos sob qualquer autoridade única; antes, se relacionando numa estrutura em rede.

Os fóruns sociais, os grupos de afinidades e outras formas de processos decisórios democráticos constituem a base desses movimentos, que conseguem agir conjuntamente de acordo com o que têm em comum. Por isso se denominam “movimento dos movimentos”.

A plena expressão da autonomia e da diferença de cada um coincide aqui com a poderosa articulação de todos.

A democracia define tanto a meta dos movimentos quanto sua constante atividade.

Esses movimentos de protesto da globalização com toda a evidência se mostram limitados sob muitos aspectos. Para começar, embora sua visão e suas metas tenham alcance global, até o momento só têm mobilizado quantidades significativas de pessoas na América do Norte e na Europa. Depois, na medida em que continuarem a ser apenas movimentos de protesto, passando de uma reunião de cúpula a outra, não serão capazes de se transformar numa luta fundadora nem de articular uma organização social alternativa.

Tais limitações podem ser apenas obstáculos temporários, e esses movimentos podem descobrir maneiras de superá-los. O que é mais importante para nossa exposição aqui, todavia, é a forma dos movimentos. Esses movimentos são o exemplo mais avançado até hoje de organização em rede.

Concluímos assim nossa genealogia das formas modernas de resistência e guerra civil, que evoluiu inicialmente de revoltas e rebeliões disparatadas de guerrilha para um modelo unificado de exército popular; posteriormente, de uma estrutura militar centralizada para o exército policêntrico de guerrilha; e finalmente, do modelo policêntrico para a estrutura de rede disseminada. Essa é a história que ficou para trás. É, sob muitos aspectos, uma história trágica, cheia de derrotas brutais, mas também é um legado extraordinariamente rico que propulsiona para o futuro o desejo de libertação e influencia de maneira crucial as maneiras de concretizá-lo.

(...) A estrutura disseminada em rede constitui o modelo de uma organização absolutamente democrática que corresponde às formas dominantes de produção econômica e social e também vem a ser a mais poderosa arma contra a estrutura vigente de poder. (...)

Acreditamos que a multidão coloca o problema da resistência social e a questão da legitimação de seu próprio poder e violência em termos completamente diferentes (pág. 129).

Efetivamente já sabemos algumas coisas que podem ajudar a orientar nossa paixão pela resistência (pág. 130).

Em primeiro lugar, sabemos que hoje a legitimação da ordem global baseia-se fundamentalmente na guerra. Resistir à guerra e, portanto, resistir à legitimação dessa ordem global, torna-se assim uma tarefa ética comum.

Em segundo lugar, sabemos que a produção capitalista e a vida (e a produção) da multidão estão associadas de maneira cada vez mais íntima e se determinam reciprocamente.

O capital depende da multidão e, no entanto, está constantemente sendo lançado em crises porque a multidão resiste à autoridade do capital e ao comando do capital. (Esse é um dos temas centrais da Parte 2, adiante.)

No corpo-a-corpo que une a multidão e o Império no campo biopolítico, quando o Império recorre à guerra para se legitimar, a multidão recorre à democracia e a sua fundamentação política.

A democracia que se opõe à guerra é uma “democracia absoluta”.

Também podemos nos referir a esse movimento democrático como um processo de “êxodo”, na medida em que envolve o rompimento, pela multidão, dos elos que unem a autoridade soberana imperial ao consentimento dos subordinados. (A democracia absoluta e o êxodo serão os temas centrais do capítulo 3.)



Notas dos autores

[96] O “jovem Marx” elabora uma crítica da transcendência que liga a violência do capital à violência do Estado. Ver por exemplo, Karl Marx, “Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844” ....
[97] Para um breve apanhado da transição para os movimentos de guerrilha urbana em todo o mundo nesse período, ver Ian Beckett, Modern Insurgencies e Counter-insurgencies (Londres: Routledge, 2001), 151-82.
[98] Para relatos e análises em língua inglesa sobre a Autonomia na Itália na década de 1970, ver Steve Wright,Storming Heaven: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist Marxism (Londres: Pluto, 2002; e Sylvere Lotinger e Christian Marazzi (orgs.) “Italy: Autonomia”, Semio-text(e) 3, n. 3 (2980). Ver também as longas entrevistas com muitos dos protagonistas encontradas em Guido Borio, Francesca Pozzi e Gigi Roggero (orgs.)Futuro Anteriore (Roma: Derive/Approdi, 2002).
[99] Ver Nick Dyer-Witherford, Cyber-Marx (Urbana: University of Illinois Press, 1999).
[100] Sobre a primeira intifada ver Robert Hunter, The Palestinian Uprising (Londres: Tauris, 1991). Sobre a segunda intifada ver Roane Carey (org.), The New Intifada (Londres: Verso, 2001).
[103] Lynn Stephen explica como os zapatistas misturam a mitologia Tzeltal local com ícones nacionais, como Zapata, em Zapata Lives! Histories and Cultural Politics in Southern Mexico (Berkeley: University of California Press, 2002), p. 158-75.
[104] Sobre a organização em rede da estrutura dos zapatistas, ver Roger Burbach, Globalization and postmodern politics (Londres: Pluto: 2001), 116-28; Fiona Jeffries, “Zapatismo and the Intergalactic Age”, em Roger Burbach,Globalization and postmodern politics, 129-44; e Harry Cleaver, “The Zapatistas and the Electronic Fabric of Struggle”, em John Holloway e Eloína Paláez (orgs.) Zapatista! (Londres: Pluto, 1998), 81-103.
[105] O estilo dos textos do subcomandante Marcos – ao mesmo tempo militantes e bem-humorados – é o melhor exemplo da maneira como os zapatistas transformaram a ironia numa estratégia política. Ver subcomandante Marcos, Our World is Our Weapon (Nova York, Seven Histories, 2001).
[106] Ver John Halloway, Change the world withou taking power, (Londres: Pluto, 2002).
[108] Sobre o ressurgimento de grupos anarquistas, ver David Graeber, “For a New Anarchism”, New Left Review, 2ª. série, n. 13 [jan.-fev. 2002], 61-73.