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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

E que fim levaram os “humanitários” que iam salvar os líbios com bombas e drones?!

11/11/2014, [*] Gleen Greenwald e [**] Murtaza Hussain, The Intercept
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

David Cameron (E), Mustafa Abdul Jalil (C) e Nicolas Sarkozy os "herois" de fancaria na Líbia
Apenas três anos depois da intervenção militar pela OTAN contra a Líbia e com a intervenção elogiada pelos interventores como se tivesse sido retumbante sucesso, a Líbia é país em colapso total. A violência e a anarquia são de tal modo disseminadas, que “praticamente nenhum líbio consegue viver vida normal” – escreveu Stephen Kinzer, da Brown University, no Boston Globe, semana passada.

Mês passado, o Parlamento líbio, sem exército funcional que lhe garanta proteção contra milícias fortemente armadas, foi obrigado a fugir de Trípoli e abrigar-se num barco grego.

O New York Times noticiou em setembro que

(...) o governo da Líbia declarou (...) que perdeu o controle de seus ministérios para uma coalizão de milícias que tomou a capital, Trípoli, em mais um sinal claro do esfacelamento do estado.

A luta sectária e atraso nos pagamentos destruíram quaisquer tentativas que EUA e Grã-Bretanha tenham feito para treinar soldados líbios, o que levou os dois países, semana passada, a abandonar completamente programas futuros:

(...) nenhum único soldado foi treinado pelos EUA, porque o governo líbio não compareceu com o dinheiro prometido.

A Agência Associated Press noticia hoje que uma cidade inteira, Derna, rendeu-se e jurou fidelidade ao Estado Islâmico no Iraque e Levante [ing. ISIS],

(...) tornando-se a primeira cidade fora do Iraque e da Síria a unir-se ao ‘califado’ anunciado pelo grupo extremista.

Derna, invadida pelo ISIS, fica entre Benghazi e Tripoli
Relatório distribuído pela ONG Anistia Internacional há duas semanas, documentava que

(...) milícias foras-da-lei e grupos ilegalmente armados de todos os lados do conflito na Líbia ocidental, cometem cada vez mais e maiores crimes de abusos de direitos humanos, inclusive crimes de guerra.

Em suma, é quase impossível exagerar os horrores que os líbios são obrigados a enfrentar diariamente, e a miséria tomou conta do país.

Tudo isso leva a uma pergunta óbvia: que fim levaram todos os “humanitários” que tanto insistiram que seriam movidos por profunda e nobre preocupação pelo bem-estar do povo líbio, quando clamavam a favor da intervenção pela OTAN? Quase sem exceção, os que advogavam a favor de ação militar da OTAN em campo na Líbia sempre disseram que a ação seria motivada, não por objetivos primariamente estratégicos, ou pelos recursos naturais líbios, mas por puro altruísmo.

Nicholas Kristof, do New York Times, escreveu:

(...) a Líbia nos faz lembrar que às vezes é possível usar ferramentas militares para fazer avançar causas humanitárias.

Anne-Marie Slaughter, ex-assessora do governo Obama, clamava que

(...) a intervenção tinha a ver com manter “valores universais” os quais, por sua vez, encaminhariam na direção de alcançar os objetivos estratégicos dos EUA.

ISIS/ISIL chega em Derna, Líbia 
Ao justificar a guerra ante os norte-americanos (mais de uma semana depois de os ataques já terem começado), o presidente Obama decretou:

(...) há nações capazes de fingir que não veem atrocidades em outros países. Os EUA, não. Os Estados Unidos da América são diferentes.

O caso é que “fingir que não veem” as atrocidades atuais – e atualmente ainda muito piores que antes – na Líbia é, precisamente, o que fazem hoje os EUA, seus aliados e a grande maioria dos “humanitários” que tanto pregaram guerras e mais guerras. De fato, depois que o bombardeio foi suspenso, os pró-guerra só se mantiveram interessados na sorte do povo líbio por tempo suficiente para se vangloriarem da própria “clarividência” e para vingar-se dos que haviam discordado deles.

Slaughter teve sua “volta da vitória” com uma coluna assinada no Financial Times do dia 24/8/2011, sob o título:“Por que se comprovou que os céticos quanto à ajuda humanitária à Líbia sempre estiveram errados” [orig. Why Líbia sceptics were proved badly wrong]. Nessa coluna ela desqualifica todos que diziam que “ainda é cedo para avaliar” e que:

(...) em um ano, ou numa década, a Líbia corre o risco de desintegrar-se em conflitos tribais ou em insurgências islamistas, ou racha ao meio, ou apenas passa, de um ditador, para outro.

O parlamento líbio se esconde em um "ferry-boat"... grego!
E insiste que nada jamais poderia ser pior que deixar Gaddafi no poder. Assim sendo, então,

(...) a Líbia é a prova de que o ocidente, afinal, é capaz de fazer escolhas com sabedoria.

Assim também Kristof aproveitou seu momento de fama para celebrar o quanto sempre acertara em suas avaliações e previsões e balanços, para visitar Trípoli no mesmo mês de agosto, e de lá anunciou que os norte-americanos eram vistos como heróis pelos líbios agradecidos. Embora toda sua coluna fosse carregada de ressalvas, sobre inúmeras coisas que ainda poderiam acabar terrivelmente mal, o colunista mesmo assim não se envergonhou de escrever que:

(...) essa foi das raras forças de intervenção militar movidas por razões humanitárias, e teve sucesso (...) e que (...) só em raros momentos há forças militares capazes de promover direitos humanos. A Líbia até aqui é modelo para esse tipo de intervenção.

Quando a derrota de Gaddafi já era iminente o blog Think Progress, que apoia a Casa Branca, explorou as emoções resultantes (exatamente como os Republicanos fizeram quando Saddam foi capturado), para provocar os Republicanos: “Será que John Boehner ainda acha que as operações militares dos EUA na Líbia são ilegais?” – Como se assassinar Gaddafi pudesse justificar aquela guerra, mesmo depois de o Congresso ter negado autorização para os ataques, ou, então, como se o assassinato de Gaddafi pudesse, só ele, assegurar resultado que favorecesse os líbios.

Gaddafi assassinado
A mesma cena de patética autocongratulação repetiu-se também em outros países que participam da guerra.

No momento em que o Canadá encenava um espantoso desfile militar comemorativo da vitória na Líbia, com exibição de aviões da Força Aérea sobre o Parlamento em Ottawa, a Líbia mergulhava rapidamente na mais absoluta anarquia, noticiou The Chronicle Herald.

Em setembro de 2011, o Christian Science Monitor narrou como

(...) líderes ocidentais voam paraTrípoli para celebrar a vitória dos rebeldes e oferecer apoio à nova Líbia, cujo sucesso eles veem como modelo para outras revoluções árabes. O presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron (na foto acima) mergulharam com prazer nos agradecimentos dos líderes favoritos da OTAN para a transição líbia, por terem combatido uma guerra “por razões exclusivamente humanitárias”.

Manchete da revista alemã Der Spiegel do dia 15/9/2011, anunciava:

Sarkozy e Cameron na Líbia: Heróis por um Dia.

Finalmente, o ocidente encontrara sua Boa Guerra, após a qual podia sentir-se puro e orgulhoso.

O mais espantoso aqui não é o quanto, ou como, tudo na Líbia saiu tão terrivelmente, tão tragicamente errado. Que sairia muito errado sempre foi dolorosamente previsível: qualquer um que preste atenção superficial que seja, hoje, sabe que matar “O” ditador-do-mal-do-momento (quase sempre algum ditador que os EUA apoiaram com muito empenho durante muito tempo) nada absolutamente gera, de bom, para o povo diretamente envolvido, a menos que, depois do fim da ditadura, venham anos e anos de apoio sustentado, para reconstruir as instituições civis. E mesmo assim, é difícil alcançar os melhores resultados. Esse, é claro, foi um dos principais argumentos de todos que se opuseram à intervenção Líbia: que nada se obteria de bom para o povo líbio, ao mesmo tempo em que a guerra custaria a vida de muitos líbios e geraria caos inenarrável.

Na Líbia os bombardeios “humanitários” pelos EUA-OTAN ocasionaram mais de 150.000 mortes diretas, 285.000 ferimentos incapacitantes e destruição quase completa da infraestrutura do país. Objetivos: ROUBAR o petróleo e a água.
(clique na imagem para aumentar)

O mais espantoso aqui não é o quanto, ou como, tudo na Líbia saiu tão terrivelmente, tão tragicamente errado. Que sairia muito errado sempre foi dolorosamente previsível: qualquer um que preste atenção superficial que seja, hoje, sabe que matar “O” ditador-do-mal-do-momento (quase sempre algum ditador que os EUA apoiaram com muito empenho durante muito tempo) nada absolutamente gera, de bom, para o povo diretamente envolvido, a menos que, depois do fim da ditadura, venham anos e anos de apoio sustentado, para reconstruir as instituições civis. E mesmo assim, é difícil alcançar os melhores resultados. Esse, é claro, foi um dos principais argumentos de todos que se opuseram à intervenção Líbia: que nada se obteria de bom para o povo líbio, ao mesmo tempo em que a guerra custaria a vida de muitos líbios e geraria caos inenarrável.

O mais espantoso é o descaramento, a temeridade desses advogados pró-guerra, que absolutamente apagaram a Líbia do seu horizonte, no instante em que acabaram os mais excitantes bombardeios aéreos e tiveram fim as suas gloriosas danças de vitória na guerra. Com raras notáveis exceções – como Juan Cole, que visitou a Líbia – praticamente todos os destacados advogados pró-intervenção na Líbia, tanto no governo quanto no “colunato-comentariato” midiático, esqueceram completamente a Líbia e o povo líbio – cujo bem-estar tanto os havia emocionado e comovido no plano humanitário: foi como se já não existissem! Com o país mergulhado em caos, violência, as ruas tomadas por milícias armadas, anarquia generalizada, resultado direto da intervenção pela OTAN, passaram a manifestar o mais total desinteresse; não buscaram, sequer, algo a fazer, alguma providência, alguma medida para conter ou para tentar reverter aquele colapso. O que aconteceu ao tal “humanitarismo” tão profundamente sentido?! Onde se meteram todos aqueles “humanitários”?!

O aeroporto de Trípoli é atacado por milícias 
Há todos os tipos de motivos para opor-se às chamadas “intervenções humanitárias”. Para começar, porque virtualmente todas as guerras, até as mais visível e declaradamente agressivas guerras de conquista (como a Guerra do Iraque) sempre são mostradas em embalagem “humanitária”.

Além do mais, seria de esperar que surgissem dúvidas imensas quanto à capacidade do ocidente para usar bombas e força militar – em terras tão distantes, com culturas complexas e radicalmente diferentes – de tal modo que, no fim, o ocidente ainda tivesse meios para manipular os desdobramentos políticos e sociais da guerra (exceto quando o objetivo das bombas é, precisamente, gerar o mais desgraçado caos, caso em que, sim, sempre se pode esperar que o ocidente seja bem-sucedido). Além disso, os custos da devastação e os custos humanos de pôr os poderosos militares norte-americanos a bombardear países distantes são imensos, e jamais seriam ‘compensados’ por supostos “benefícios”.

Mas a razão de mais peso pela qual se opor a essas guerras é que o “humanitarismo” não é o que motiva os EUA ou a maioria dos governos a enviar soldados armados para outros países. Se você duvida, basta ver como aquela suposta preocupação humanitária pelos líbios sumiu instantaneamente, no momento em que acabou a diversão, a sensação de glória, a autossatisfação pelas bombas disparadas.

Se houvesse alguma autenticidade naquele ostentoso humanitarismo, não teríamos visto tanto grande empenho em consumir enormes quantidades de dinheiro para destruir a Líbia. Por que não se viu empenho algum em estabilizar e reconstruir a Líbia, nem antes, nem durante, nem hoje, nem nunca? Por que, afinal, ante todo o horror do sofrimento dos líbios, não se ouve falar de programas de ajuda, e tudo o que se vê e ouve é envio de mais e mais drones, mais prédios e pessoas que voam pelos ares e aquela risadinha pervertida, doentia, sociopática, do “nós” vimos, conquistamos e O Vilão morreu? Vídeo a seguir: 


(...)

No desfile privado da vitória que promoveu para si mesmo, Kristof, do New York Times, escreveu que:

(...) a questão da intervenção humanitária voltará a aparecer aos olhos do mundo e, quando isso acontecer, nos lembremos da lição da Líbia.

Nisso, pelo menos, está absolutamente certo...
__________________________

[*] Glenn Greenwald (6 de março de 1967) é advogado um norte-americano, especialista em Direito Constitucional dos EUA, colunista, blogueiro, comentarista político e escritor estadunidense. Atualmente (2014), vive no Rio de Janeiro Brasil. Divulgou, inicialmente através do jornal britânico The Guardian, as informações sobre os programas de Vigilância Global dos Estados Unidos, que vieram as claras através dos documentos fornecidos por Edward Snowden. Foi colunista do sítio Salon.com, do jornal britânico The Guardian e atualmente, desde o início de 2014 lançou o site de notícias The Intercept, uma publicação da First Look Media, criado pelo próprio Glenn Greenwald juntamente com Laura Poitras e Jeremy Scahill.
Greenwald é premiado colunista de política nos Estados Unidos e autor dos best-sellers, How Would a Patriot Act? (2006), A Tragic Legacy (2007), e Great American Hypocrites (2008). Suas análises sobre a vigilância governamental americana e a Teoria da separação dos poderes são usualmente citados nos jornais The New York Times, The Washington Post e em debates no Senado e na Câmara de Representantes dos EUA.


[**] Murtaza Hussain é jornalista e comentarista político. Seu trabalho tem como foco Direitos Humanos, Política Internacional e Assuntos Culturais. Seus artigos são usualmente publicados no The New York Times, The Guardian, The Globe and Mail, Salon e vários outros meios de comunicação.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As raízes do antiamericanismo global


11/12/2012, Murtaza Hussain, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Murtaza Hussain
A incongruência pareceu verdadeira traição. Depois de entrar, dançando, diretamente no coração dos norte-americanos, e de ganhar acesso direto ao mais alto santuário do culto às celebridades, o rapeiro coreano Psy, autor de “Gangam Style” – que rapidamente se tornou o vídeo mais assistido [1] de toda a história do YouTube e fez do autor sensação da cultura pop da hora – foi identificado como militante político muito ativo, em declarada oposição aos principais pontos da visão de mundo norte-americana dominante, com ações em que se opôs fortemente aos mais básicos artigos da fé norte-americanista. [2].

O homem acolhido como performer nada ameaçador, estrangeiro meio ridículo, quase cômico, dançando como cavalinho de brinquedo para diversão dos norte-americanos, foi descoberto como o mesmo que, há poucos anos, criticara furiosamente as políticas norte-americanas; a função global daquelas políticas e o papel do EUA no mundo.

Numa performance em 2004, o rapper – hoje famoso por sua dança “do cavalinho invisível”, denunciou os EUA em canção intitulada “Hey American”:

"Kill those f*cking Yankees who have been torturing Iraqi captives
[Matem aqueles ianques fodidos que torturaram prisioneiros iraquianos]
Kill those f*cking Yankees who ordered them to torture
[Matem aqueles ianques fodidos que os mandaram para a tortura]
Kill their daughters, mothers, daughters-in-law and fathers
[Matem as filhas deles, as mães deles, as enteadas deles e os pais]
Kill them all slowly and painfully”
[Matem todos eles, lenta e dolorosamente].

Para o público norte-americano condicionado a um culto inquestionável dos militares – que se sintetiza na frase “Apóie os Soldados” [“Support the Troops”], os versos de Psy são nada menos que sacrilégio. E “Hey American” não foi a única ofensa.

Em performance anterior, Psy subira ao palco para protestar contra a presença de 37 mil soldados dos EUA na Coréia do Sul, e destruiu uma miniatura de tanque norte-americano, usando como porrete um suporte de microfone, para protestar contra o assassinato de duas meninas sul-coreanas [3], por soldados norte-americanos.

Assim se descobriu que o astro pop asiático, que os norte-americanos tão entusiasticamente (e tão rapidamente) consagraram – e que seria, como houve quem dissesse, o primeiro entertainer a franquear com sucesso a fossa cultural que separa os continentes – carregava com ele, além de um estilo culturalmente exclusivo de cantar e dançar, também toda uma visão de mundo que é ameaçadoramente estranha à maioria dos norte-americanos.

Se o aparentemente mais inócuo cantor pop, oriundo de um país tido e havido como parceiro benigno e confiável, esposa ideias e falas que qualquer norte-americano médio atribuiria aos mais ameaçadores terroristas da al-Qaeda, é preciso começar a perguntar sobre o antiamericanismo que já é global, e sobre do que esse antiamericanismo se alimenta.

Enquanto persistir o militarismo norte-americano sem qualquer
contenção, o fenômeno do antiamericanismo continuará a alastrar-se
 e a minar a capacidade dos EUA para encontrar os aliados de que
necessitam em área estrategicamente tão importante [EPA]
Um legado de violência

Embora a vastíssima maioria dos norte-americanos ignorem ou vivem como se ignorassem completamente a longa história da brutalidade dos norte-americanos [4] em locais como a Coréia, essa história não é, de modo algum nem ignorada nem apagada pelos cidadãos dos países que sofreram e continuam a sofrer atrocidades horrendas nas mãos de soldados norte-americanos.

Durante a Guerra da Coréia, acreditava-se que soldados norte-americanos teriam sido responsáveis por centenas de casos de massacres em massa de civis [5], dentre os quais o infame massacre de No Gun Ri,[6] quando membros do 7º Regimento de Cavalaria dos EUA massacraram centenas de civis coreanos numa passagem ferroviária, durante três dias.
Um filme documentário de 2009, sobre o massacre, registra as palavras de um sobrevivente coreano, que relembra como os soldados norte-americanos mataram indiscriminadamente homens, mulheres e crianças:

“As crianças gritavam de medo e os adultos suplicavam pela própria vida. E eles nunca paravam de atirar”.

Outro sobrevivente da Guerra da Coréia fala da tática sempre utilizada pelos norte-americanos, de atacar as vilas com bombas de napalm, [7] em campanha de terra arrasada que matou número incontável de civis:

“Quando o napalm atingiu nossa vila, a maioria ainda dormia (...). Os que sobreviveram aos incêndios, corriam (...). Tentávamos mostrar aos pilotos norte-americanos que éramos civis. Mas eles matavam sem nem olhar, qualquer um, mulheres, crianças”.

A completa indiferença pela vida dos coreanos durante a campanha global dos EUA contra o comunismo continua até nossos dias, sob a forma de estupro e assassinato, [8] dirigida contra civis coreanos por soldados norte-americanos alocados nas bases distribuídas pelo país.

Em incidente em 2011, caso típico de uma longa prática fartamente documentada dos soldados norte-americanos no país, um soldado de 21 anos, Kevin Flippin, invadiu o quarto de hotel onde estava hospedada uma mulher coreana e violentou-a e torturou-a por várias horas, [9] antes de roubar-lhe o equivalente a apenas 5 dólares e voltar à base.

Assassinato e violência sexual têm acontecido com alta frequência ao longo das décadas de presença militar dos EUA na Coréia, e refletem comportamento que se constata [10] também em incontáveis outros países, em todo o mundo, onde há ocupação militar e bases militares dos EUA.

Rejeição disseminada contra os EUA

Apesar de o virulento antiamericanismo que se vislumbra nas revelações sobre a história da militância política de Psy ter base em incidentes como esses, a Coréia absolutamente não é o país mais antiamericano do mundo.

Pesquisas realizadas na América Latina têm mostrado a presença, também ali, de claro antiamericanismo; [11] um legado do intervencionismo militar norte-americano no continente, bem vivamente manifesto sob a forma de tortura e assassinatos [12] além da subversão e derrubada de regimes e governantes democraticamente eleitos [13] ao longo de muitas da últimas décadas.

Mas, apesar dessas evidências, pesquisa realizada em 2012 pelo Instituto de Pesquisas Pew [14] [No Brasil, segundo essa pesquisa, 61% da população manifesta opinião favorável aos EUA (NTs)] mostrou que é no mundo árabe e no mundo muçulmano onde se encontram as impressões menos favoráveis aos EUA; essas visões negativas foram sensivelmente atenuadas, por curto período, imediatamente depois da primeira eleição de Barack Obama; mas, hoje, já estão novamente ativas, no sentido mais negativo possível, nos níveis que havia na era Bush, quando os índices de rejeição aos norte-americanos explodiram. [15]

Dentre todos os países pesquisados, os países nos quais se manifesta mais alta incidência de antiamericanismo são os de população majoritariamente muçulmana. Mesmo na Turquia e na Jordânia, cujos governos são aliados tradicionais dos EUA, as populações são predominantemente antiamericanas: na Jordânia, apenas 12% da população manifestou opinião favorável aos EUA.

Não por acaso, a Jordânia é, também, país onde vive grande população de refugiados da invasão dos EUA ao Iraque [16], vítimas civis de uma guerra que já não preocupa os cidadãos dos EUA, mas que ainda é causa de desespero e miséria em muitos países em todo o Oriente Médio.

Apesar da quantidade inacreditável de pesquisa que resultou em várias complexas teorias [17] para explicar o desprezo que os EUA inspiram a tantos, o princípio da “Navalha de Ocam” – princípio lógico que determina que a explicação mais simples é quase sempre a mais acertada – sugere que a causa da antipatia crescente é o militarismo norte-americano que deixou pegadas muito fundas na Coréia e que, hoje, devasta o mundo muçulmano.

No Paquistão, onde apenas 9% da população manifestou opinião favorável aos EUA, segundo pesquisa feita pela BBC em 2010, [18] houve vibrante simpatia pelos EUA, em tempos em que Jacqueline Kennedy era recebida por multidões em festa e guirlandas de flores pelas ruas, em visita oficial que fez ao país;[19]e onde a cultura pop norte-americana foi muito ativamente difundida.[20]

Mas tudo isso mudou nas décadas recentes. O que os paquistaneses veem hoje é o custo descomunal da guerra, em termos de vidas ceifadas no vizinho Afeganistão e milhões de refugiados [21] que o conflito faz jorrar sobre o Paquistão.

Os próprios paquistaneses já se veem, cada dia mais, como alvo direto da violência dos EUA; são mortos a tiros nas ruas, [22] por agentes da CIA; são assassinados por aviões-robôs, os drones, operados à distância [23] e são sequestrados e entregues para serem torturados em “buracos negros” clandestinos da CIA [24] espalhados pelo mundo.

Ao fazer guerra massiva contra o Afeganistão e ao ocupar o país, o que desestabilizou e gerou caos social no Paquistão, país cuja população tem profundos laços étnicos e religiosos com o Afeganistão, os EUA contribuíram para converter um relacionamento estável em confronto cada dia mais perigoso, que incendiou os mais ferozes sentimentos antiamericanos, inclusive, hoje, também entre os paquistaneses liberais e seculares. [25]

A degeneração da popularidade dos EUA no Paquistão, contudo, é só uma ilustração de tendência muito mais ampla, de percepção geral extremamente negativa contra os EUA, em vasta região do planeta, reforçada pelo militarismo rampante.

Arrogância e atrocidade

A população dos EUA, que ouve incansavelmente a propaganda interna que promove a versão segundo a qual o país teria papel benevolente no mundo, talvez se surpreenda com a informação de que mais da metade de todos os refugiados que há hoje no planeta fogem, em 2012-3, de guerras feitas pelos EUA.[26]

A guerra em escala rampante, guerra em ritmo industrial, que os EUA movem contra civis em países como o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão, o Iêmen e a Somália gerou nesses países, como consequência imediata, uma onda de sentimentos negativos, ainda ignorados por grande parte dos norte-americanos.

Episódios como o estupro de uma menina iraquiana de 14 anos, seguido do assassinato de toda a família, por uma gangue de soldados norte-americanos [27] são atos emblemáticos do sadismo sempre presente nos contatos entre militares e policiais norte-americanos e os povos locais. Mas, num espécie de comédia bizarra de humor negro, os políticos eleitos nos EUA ainda falam sobre “a ingratidão” [28] das populações locais, contra as quais as tropas dos EUA atiçam todos os cães da violência e do horror.

Parece haver aí, além de ignorância e do egoísmo mais cego, que se manifestam nas políticas principais dos governos dos EUA, também uma espécie de miopia. Ao mesmo tempo em que os EUA lançam guerra total, invadem e ocupam nações soberanas empurrados pelos mais falsos pretextos [29], assassinam centenas de milhares de civis [30] e geram milhões de refugiados,[31] ainda há, nos EUA, quem pergunte “Por que nos odeiam tanto?”.

Ao mesmo tempo em que militares norte-americanos – que a opinião pública nos EUA é adestrada para ver como heróis inquestionáveis e como orgulhosos símbolos do melhor que a sociedade norte-americana produz – descobrem em inventam novos modos de impor violência sempre crescente contra civis em países árabes e muçulmanos – incluídos aí os ilegais “assassinatos de alvos predefinidos”[32] e, como se viu recentemente, também o assassinato de “crianças hostis” [33] no Afeganistão, a reputação dos EUA, como país, despenca em todas as pesquisas de opinião pública que se façam no Oriente Médio e por todo o mundo.

O Afeganistão é exemplo ilustrativo da arrogância essencialmente autodestrutiva das políticas norte-americanas na região. Em 2001, os EUA recusaram-se categoricamente a negociar com os Talibã [34] que haviam manifestado desejo de cooperar para que os EUA alcançassem todos os seus objetivos; ofereceram-se, inclusive, para entregar Osama bin Laden aos norte-americanos. Os EUA recusaram a oferta, sob o argumento puramente retórico segundo o qual os EUA recusar-se-iam a “negociar com o mal”.

Avance o filme para hoje, 11 anos adiante daquele momento. Hoje, depois de dezenas de milhares de mortos e trilhões de dólares desperdiçados, os EUA estão fazendo exatamente isso: estão negociando com os Talibã, exatamente como já poderiam ter feito há uma década [35] – não fossem as políticas de Estado flagrantemente irracionais, construídas por uma mistura de arrogância e sede de sangue.

Se se vê a autoproclamada potência global dominante agir como age, de modo chocantemente estúpido e destrutivo, e ainda surpreender-se por tantos manifestarem tão firme rejeição ao país e suas políticas, a conclusão é clara: os EUA cultivam uma consciência nacional delirante, que compromete gravemente qualquer projeto que o país ainda cultive de vir, algum dia, a conseguir operar com sucesso qualquer política exterior efetiva.

Relação cada dia mais envenenada

Mesmo dentro dos mundos árabe e muçulmano, como além deles, para os que admiram valores apresentados como se fossem norte-americanos, como o secularismo, o direito à livre manifestação de ideias e o direito ao livre empreendimento, a década que passou, de violência sem contenção ou limites, já comprometeu permanentemente a reputação de uma nação que, antes, gozou da mais alta estima entre as elites sociais. [36]

As políticas norte-americanas para o Oriente Médio já são vistas pelas massas e, também, cada vez mais, por porções consideráveis das elites locais, como manifestação de visão de mundo cruel, arrogante e fundamentalmente racista, [37] segundo a qual as populações-alvo de agressão e guerras são consideradas inferiores, gente cujo sofrimento não passa de externalidade desprezível, se se consideram os objetivos das políticas de implantação do poder.

O tipo de brutalidade que os norte-americanos impuseram à Coréia, há décadas, ainda se manifesta num veio de fúria subterrânea que, volta e meia, aflora nos discursos sociais de muitos coreanos. Se se considera essa evidência, vale a pena perguntar quanto tempo ainda falta, até que se disperse a percepção negativa a respeito dos EUA que se vê hoje no mundo muçulmano.

Enquanto perdurar em toda a Região o militarismo norte-americano sem contenção ou limites, a percepção negativa sobre os EUA só aumentará; e o sentimento de antiamericanismo continuará a crescer, minando a capacidade dos EUA para encontrar os aliados que tanto lhes faltam nessa parte tão estrategicamente importante do mundo.

Nada muda, ainda que todas as provas que saltam aos olhos de tantos em todo o mundo sejam sublimadas ou “apagadas” em nome de algum pragmatismo. Nem por isso as provas somem. Quando tiverem de escrever a própria história, os EUA terão de enfrentar o legado do desprezo global, da desconfiança, do ressentimento, frutos amargos do tempo em que o país tanto fez para se autopromover como única superpotência mundial. 

Façam o que fizerem, a história dos EUA não poupará a imagem fictícia que tantos americanos ainda cultivam deles mesmos e de seu país.


REFERÊNCIAS