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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Índia: Modi, Vlad, Xi e os bolsos vazios de Obama

6/2/2015, [*] F. William Engdahl – New Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Depois de anos de descaso, a Washington de Obama resolveu tentar a agressividade, para seduzir a segunda nação mais populosa da Terra, a Índia. Por que agora? Para responder, nem é preciso olhar além de Moscou e Pequim e da dinâmica recente que cerca a cooperação para o desenvolvimento dos países BRICS, que já têm um Banco dos BRICS para a Infraestrutura, que pode rivalizar com o Banco Mundial-FMI controlado pelos EUA. A Índia é a principal peça no Grande Tabuleiro de Xadrez Eurasiano. E o Primeiro-Ministro Modi já fez saber ao mundo, que ele está no jogo.


Narendra Modi e Barack Obama em 27/1/2015
O presidente Barack Obama dos EUA fez uma visita de estado à Índia dia 27 /1/2015 acompanhado de comitiva de empresários norte-americanos, para seduzir o novo Primeiro-Ministro Narendra Modi, homem que, quando não passava de reles governador de estado, foi impedido de entrar nos EUA. Agora, com Modi Primeiro-Ministro, parece que Obama mudou de opinião. Mais provavelmente, não sobre Modi, mas sobre o perigo de que Rússia e China consigam integrar a Índia de Modi àquela esfera eurasiana de prosperidade econômica e à respectiva Organização de Cooperação de Xangai. Desde 2006 e os dias Bush-Cheney, Washington sempre esforçou-se vigorosamente para seduzir a Índia e prendê-la numa aliança militar com os EUA contra a China, mas com sucesso muito limitado.

Modi devolveu o feitiço sobre o Presidente dos EUA, convidando-o para participar do Dia da República, honra jamais oferecida a nenhum presidente norte-americano. A conferência de imprensa da dupla, televisionada, foi festival de “Barack, isso é para você”, amigos chamando-se pelo primeiro nome. Falaram de um “compromisso duradouro”.

Mas ao final, Obama voltou para casa com bem pouco. Modi assinou documento leve repreendendo o governo chinês por provocar conflitos com os vizinhos sobre o Mar do Sul da China; discutiu a possibilidade de reviverem uma rede de segurança com EUA, Japão e Austrália; e mostrou-se interessado em desempenhar maior papel do fórum Econômico Ásia-Pacífico de Cooperação. Por seu lado, apesar dos sorrisos e abraços com o Presidente dos EUA, Modi recusou-se a assinar a prioridade favorita de Obama, um acordo para limitar as emissões de CO2, como a China ano passado. Também não houve qualquer avanço significativo no acordo nuclear EUA-Índia negociado em 2006 com Bush, mas bloqueado por causa da legislação indiana muito rigorosa no campo nuclear. Na sequência, Obama, o pregador moralizante – devo dizer que estou convencido de que é doença norte-americana – sacudiu o dedo no nariz dos indianos por conta de “direitos humanos” e “tolerância religiosa” – acintosa interferência em assuntos internos de estado soberano, coisa que Putin ou Xi jamais nem pensariam em fazer.

Forum Índia-EUA, nada além de promessas
Por fim, na parte concreta dos assuntos e questões, investimentos e projetos conjuntos, Obama estava de bolsos vazios. O máximo que pôde fazer foi uma “promessa” nebulosa de que os bancos norte-americanos podem emprestar até US$ 4 bilhões para projetos não especificados de infraestrutura indiana, pontes e estradas.

Pode bem ser o caso de Modi estar se fazendo de amigo de Obama para obter dele o melhor negócio; indianos são bons nesses jogos. Mas o que Obama tem a oferecer simplesmente desaparece, se comparado ao que Vladimir Putin oferecera apenas poucos dias antes, em visita de estado à Índia.

Rússia renova velhos laços com a Índia

Um mês antes da visita de Obama à Índia o presidente Putin esteve em New Delhi, e com bolsos cheios, o que ninguém esperaria de país atacado furiosamente com sanções econômicas pela União Europeia e por Washington.

Em meados de dezembro, numa viagem que provocou erguimento de mais de uma sobrancelha na Washington de Obama, Putin e Modi assinaram 20 negócios de alta envergadura no valor de US$ 100 bilhões, com US$ 40 bilhões de energia nuclear, US$ 50 bilhões de petróleo cru e gás, e US$ 10 bilhões em vários setores, incluindo defesa, fertilizantes e espaço sideral. Num avanço importante para a indústria de processamento de diamantes da Índia, e revés para o monopólio da Oppenheimer South Africa, a russa Alrosa, maior empresa mineradora de diamantes do mundo, passará a vender diamantes brutos diretamente para a Índia.

Acordo Índia-Rússia sobre comércio de diamantes
Nos termos do pacto nuclear, a Rússia construirá 12 novos reatores nucleares ao longo dos próximos 20 anos em Kudankulam, Tamil Nadu e outro local ainda não decidido. A Rússia, diferente dos EUA, é a primeira nação a aceitar as duras condições da legislação indiana no campo nuclear – apesar de essas leis elevarem em US$ 3 bilhões o custo de construção de cada reator. Também importante para a Índia, o país será autorizado a fabricar equipamento e componentes na própria Índia. A Rússia também reiterou o apoio aos esforços da Índia para obter condições de membro pleno no Grupo de Fornecedores Nucleares e no Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis.

A decisão de produzir helicópteros multitarefa russos de última geração em fábricas indianas também foi ponto importante para a campanha de Modi, de promover mais projetos “Make in Índia” com empresas estrangeiras. A Rússia deu à Índia, também, o direito de exportar aqueles helicópteros para terceiros países. A Rússia pode, também, aceitar o pedido dos indianos que querem fabricar na Índia peças de reposição e componentes para a indústria russa de defesa. E grandes projetos de petróleo e gás foram assinados, incluindo exploração e produção, pelos indianos, em novos campos de petróleo e gás na Federação Russa, bem como em terceiros países. A Índia receberá gás natural liquefeito da Rússia, e está sendo explorada com muita atenção a viabilidade de se construir um gasoduto até a Índia.

A Rússia, mais que a China, que há décadas enfrenta conflitos com a Índia em questões como o Tibete, é o parceiro ideal na Organização de Cooperação de Xangai para construir essa abordagem com a Índia, e fazer avançar o emergente espaço econômico eurasiano. Os dois países mantêm relações positivas e estáveis desde agosto de 1971, quando foi assinado o Tratado Indo-Soviético de Paz, Amizade e Cooperação.


A era Yeltsin foi caótica para a Rússia, para dizer o mínimo, mas a visita de Putin, em dezembro, ao novo Primeiro-Ministro indiano confirma que uma nova arquitetura está sendo formatada pela Rússia de Putin. Inclui apoio ao novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS que envolve Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Inclui também novos acordos-gigantes de petróleo e gás entre Rússia e China em meses recentes, que conectam muito intimamente as duas grandes potências eurasianas.

Ano passado, fontes diplomáticas noticiaram que a China, depois da eleição de Modi, recolhera as objeções que tivera à admissão da Índia como membro da Organização de Cooperação de Xangai. O antecessor de Modi no cargo de Primeiro-Ministro, Manmohan Singh era visto na Índia como notoriamente pró-americano, não como defensor do tradicional status da Índia como estado não alinhado; e Pequim, obviamente, temia deixar entrar um Cavalo de Troia de Washington, na intimidade da Organização de Cooperação de Xangai. Resta saber se o próximo encontro anual da OCX, no verão, incluindo a China, abre a porta para convidar Índia, Paquistão, Irã e Mongólia como novos membros.

Se afinal acontecer bem assim, não apenas será a realização de desejo que a Rússia acalenta há muito tempo, como, também, implicará sobressalto tectônico nas placas da geopolítica eurasiana – e nada que caminhe na direção que privilegiaria Obama e Washington.

BRICS - Fortaleza, 2014
As reuniões de Modi, à margem da cúpula de julho de 2014 dos BRICS em Fortaleza, Brasil, com o Presidente Putin da Rússia e com o Presidente Xi Jinping da China, segundo todos os noticiários, foram notavelmente calorosas e cordiais. Ali, Modi aprovou entusiasticamente a ideia de o Banco de Desenvolvimento dos BRICS terem sede em Xangai, com um indiano na presidência. Modi também se recusou a seguir Washington, nas sanções contra a Rússia; disse que sanções econômicas são assunto que têm de ser decididos no Conselho de Segurança da ONU – ideia que Washington absolutamente não gostou de ouvir. E Modi também melhorou dramaticamente as relações há muito tempo tensas com o Paquistão, aliado muito íntimo da China.

Vão tomando forma material, concreta, os contornos de um genuíno novo ordenamento do velho e muito desordenado “Século Americano” que conhecemos, triunfantemente proclamado por Henry Luce, do grupo Time-Life, em 1941 [“O homem que inspirou a Abril e a Globo” (NTs)]. E a nova forma, hoje, lá está, na Eurásia, de Moscou a Pequim e, talvez, dali adiante, com Teerã e New Delhi. Faz perfeito sentido. Afinal, aí vivem mais de quatro bilhões dos seres humanos que povoam a Terra.


[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência naPrinceton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

BRICS são a vanguarda do novo mundo: Não diluam os BRICS!

15-17/8/2014, [*] Andre VltchekCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O G7
Os BRICS
Há crescente perigo de que os BRICS – o clube das nações que se organizam na vanguarda, nas trincheiras, para encarar o imperialismo ocidental global – possam ser diluídos e enfraquecidos, caso alguns dos aliados ocidentais de direita, como Indonésia e Turquia, venham a ser admitidos ao grupo.

BRICS são o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e o grupo foi pensado originalmente como simples bloco econômico, mas, em anos recentes, os ataques do ocidente contra países com sistemas político e econômico independentes, empurraram a maioria das nações BRICS para uma poderosa aliança política, talvez, mesmo, um abraço.

Exceto o notório aliado dos EUA e capitalista fundamentalista – a Índia – todos os demais países membros estão-se posicionando desafiadoramente e orgulhosamente contra a mais recente onda de massacre neocolonialista ocidental. Podem até ter sistemas políticos e econômicos diversos, mas o anti-imperialismo é o denominador comum essencial entre eles.

Eles todos, mais uma vez com exceção da Índia, estão sob severo ataque de propaganda pela imprensa-empresa de massas ocidental.

Nos últimos poucos anos, China e Rússia estão sendo militarmente cercadas, e sempre sob ataques de declarada provocação. A África do Sul é demonizada e ridicularizada, enquanto a América Latina é alvo de incontáveis ataques e furiosa interferência em seus assuntos internos: governos progressistas em Honduras e no Paraguai foram derrubados, e inúmeros “movimentos de oposição” têm sido persistentemente fabricados e financiados pelo norte.

Mas o bloco, que abraça quase 40% da população do planeta continua a andar à frente, criando a tão necessária diversidade e, vale sempre repetir, um mundo bipolar.


Dia 15/7/2014, Pepe Escobar escreveu do Brasil, para Asia Times. Os presidentes dos países BRICS lá estavam reunidos, incorporando na reunião outros países latino-americanos. Definiram-se grandes planos e mais uma vez ficou bem claro o quão importantes são China e Rússia para as nações progressistas da América Latina; o quanto todos eles estão andando depressa uns em direção aos outros, politicamente, estrategicamente e economicamente:

A notícia do dia é que a partir de hoje, 3ª-feira (15/7/2014), em Fortaleza, nordeste do Brasil, o grupo dos BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) começa a combater a (Des)Ordem (neoliberal) Mundial, com um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reserva criado para contrabalançar crises financeiras.

Foi estrada longa e sinuosa desde Yekaterinburg em 2009, na primeira reunião de cúpula do mesmo grupo, até o contragolpe longamente aguardado, dos BRICS contra o Consenso de Bretton Woods – do FMI e do Banco Mundial – e do Banco Asiático de Desenvolvimento [orig. Asian Development Bank (ADB)] dominado pelo Japão, mas sempre respondendo às prioridades dos EUA.

São grandes tempos, sem dúvida alguma.

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Narendra Modi, recém eleito
 Primeiro Ministro da Índia
Onde fica a Índia ainda não está claro. Visitei recentemente o país, o segundo mais populoso do mundo, e depois de muito viajar por lá, intensivamente, cheguei à conclusão de que aquelas elites, os quadros militares e religiosos que governam o que o ocidente chama cinicamente de “a maior democracia do mundo”, vivem, com certeza absoluta, muito mais perto de Washington e dos “boys da Escola de Economia de Chicago” do que de Moscou, Brasília, Pretoria ou Pequim.

Aprendi também, sem dúvida possível, que a imensa maioria do povo indiano é ensinada a nada saber dos desenvolvimentos na América Latina, China e Rússia, e que absolutamente eles não têm influência alguma nos rumos do desenvolvimento do próprio país.

Em breve distribuirei meu trabalho sobre a Índia no contexto dos BRICS, mas posso dizer desde já que é óbvio que esse complexo país não é, não, de modo algum, força motriz daquela aliança.

É também claro que esse novo, poderoso e importante (para a sobrevivência da humanidade) bloco não precisa incluir em suas fileiras mais países “clientes”, dos que o ocidente manobra à vontade. Por essa razão, o que mais deseja o mundo corporativo e neocolonial, que muito trabalho para obtê-la, é a “diluição” dos países BRICS e da determinação do grupo.

Há um grupo de candidatos letais, prontos a se unirem aos BRICS a qualquer momento, com o único objetivo de torpedear o movimento. E há vários pacotes de ampliação sob análise, desde uma “pequena ampliação”, com acréscimo de Indonésia e Turquia, até pacote muito maior, com acréscimo de todo um grupo chamado abreviadamente MINT –México, Indonésia, Nigéria e Turquia.

Se essa expansão acontecer, com certeza destruirá toda a direção política na qual os BRICS estão andando. É expansão a ser evitada a qualquer custo.

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Países MINT
México - Indonésia - Nigéria - Turquia
Esses países MINT vão, de países simplesmente à direita, até países abertamente fascistas. Todos são declaradamente pró-ocidente; todos são governados pelas elites e as populações têm mínima influência no destino de seus países. O México é, desses, o mais razoável e mais benigno.

Sukarno
(1901 - 1970)
A Indonésia é o “mais mortal” deles, e não é simples país, mas todo um conceito. Em 1965, o ocidente associou-se às muito corruptas elites indonésias, quadros militares ("comandados" por Hadji Mohamed Suharto) e religiosos, e derrubaram o presidente Sukarno, progressista, criador do Movimento dos Não Alinhados.

Pelo menos um milhão de indonésios, comunistas, intelectuais, líderes sindicais, professores e membros da minoria chinesa, foram assassinados, mas o total de mortos pode ser muito maior, pode chegar a 3 milhões. Estupros “punitivos” em massa, e a destruição da cultura indonésia aconteceram simultaneamente. Queimaram-se livros. Praticamente tudo foi privatizado e entregue para ser explorado por estrangeiros.

Seguiram-se dois brutais genocídios: um contra o povo de Timor Leste e outro, ainda em andamento, contra Papua, que é tribal e vive na miséria, mas é riquíssima em recursos naturais. No primeiro, um terço da população local foi dizimada; no outro, em números calculados por grupos ocidentais de direitos humanos, morreram, pelo menos, 120 mil pessoas. Muitos mais continuam a ser mortos, no momento em que escrevo. Nada se discute, não há “conversações” nem protestos contra o massacre.

Esse “conceito Indonésia” (mate indiscriminadamente, espalhe o medo, paralise a nação inteira e, na sequência, deixe que o “setor privado” passe a mão em tudo) tem sido, na sequência, implementado noutros países, com diferentes graus de sucesso, inclusive no Chile (o pessoal de Allende ouviu “avisos” repetidas vezes, antes do golpe de 1973: “Tomem cuidado, camaradas, Jacarta vem aí!”); na Rússia de Ieltsin; na República Democrática do Congo, só para citar alguns casos.

Suharto
(1921 - 2008)
A “mudança de regime” que derrubou Sukarno, e o “retorno à democracia”, não passaram de manobra cosmética. O capitalismo mais selvagem já metera as garras ali, e sobreviveu. Na Indonésia, virtualmente não resta absolutamente nenhuma instituição pública. Não há praças públicas, não há instituições culturais públicas nem serviço público de limpeza e esgotos. Se as estatísticas internacionais prestam, sabe-se que mais da metade da população vive na miséria. Criatividade, praticamente apagada: a quarta mais populosa nação da Terra não tem nada a mostrar ao mundo, nenhum cientista, nenhum artista, praticamente nenhum pesquisador ou pesquisa. A economia cresce, porque a exploração é severa e ainda há restos de recursos naturais que ainda alcançam bons preços no mercado global de commodities.

Dois candidatos disputaram o cargo voto a voto, nas recentes eleições presidenciais: um general aposentado, acusado de ser criminoso de guerra, com um bando de asseclas; e um populista, também com seu bando de asseclas militares a apoiá-lo.

Com toda da imprensa-empresa local controlada por interesses empresariais, e com virtualmente todos os partidos políticos a serviço de oligarcas locais, “democracia”, por ali, é apenas uma palavra com a qual o ocidente tenta encobrir todos os horrores passados e presentes de um de seus mais brutais, mais grotescos, estados-clientes.

Deve-se mencionar também que nessa “democrática” Indonésia há leis que proíbem o comunismo e o ateísmo; que reuniões organizadas para discutir a reintrodução de um mínimo de serviços “públicos” são brutalmente interrompidas por fanáticos religiosos e por gangues que servem aos interesses de grandes empresas.

Fácil imaginar o impacto que todo o grupo sofreria, se a Indonésia viesse a ser “convidada” para participar dos BRICS!

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Países MINT - localização geográfica
Seria ingenuidade pensar que um país como a Indonésia seria aliado natural, por exemplo, da América Latina, só porque está localizado no “Sul”, e porque não é geograficamente próxima do Ocidente. O rumo do “desenvolvimento” por ali e a mentalidade dos governantes é o exato oposto do que se vê que Venezuela, Cuba, Bolívia, mas também Brasil ou China, defendem e, hoje, lutam para conseguir.

Países como a Indonésia não ouvem o povo, mas só a sempre mesma elite empresarial corrupta e seus patrões ocidentais.

A Turquia é melhor, em certo sentido, mas também está implementando um sistema de capitalismo selvagem, e se deixa usar como principal aliado do ocidente no Oriente Médio, com bases das Forças Aéreas britânica e norte-americana, com “campos de refugiados” nos quais são treinados os milicianos que lutam contra o governo do presidente Bashar al-Assad, da Síria.

A Turquia é importante membro da OTAN, e muitos “intelectuais da oposição” por ali (inclusive muitos que se apresentam como de esquerda), sobretudo em Istambul, ainda veem a participação do próprio país em alianças ocidentais (e na própria União Europeia) como principal objetivo nacional.

A Nigéria é, em muitos sentidos, como a Indonésia: país que devora seus próprios cidadãos. Parece não haver qualquer ideologia ali, só o mais cru fundamentalismo de mercado, ego-trips das elites, fundamentalismo religioso (e o Islã absolutamente não é a única religião de excessos), obsessão por servir a interesses estrangeiros.

E, como na Indonésia, também na Nigéria há desprezo endêmico absoluto contra os pobres – a ampla maioria da população.

Arthur Tewungwa, figura da oposição de esquerda, em Uganda, comentou a situação na Nigéria, para esse artigo:

Há um verniz de competência, para mascarar práticas como se fossem de negócios normais, mas só há a mais absoluta, completa corrupção. Se o atual governo da Nigéria é pró-EUA? Pró-ocidente? É, sim. Muito! O atual ministro das Finanças, por exemplo, foi alto executivo do Banco Mundial. Os BRICS que tomem muito cuidado! Há muitos “quintas-colunas”!

Enrique Peña Nieto
O México foi país revolucionário e ainda é nação de grande cultura e coração enorme. Mas ainda não se vê que direção o país tomará, sob o governo de um jovem presidente, do PRI, Enrique Peña Nieto. Mas, de todos os países MINT, o México é o que tem o sistema social mais humano, e é certo que, se for integrado aos BRICS, não se empenhará para afastar os demais países membros do atual rumo que escolheram para sua política exterior.

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Os BRICS estão andando avante, e o que interessa é muito mais a qualidade dos seus projetos que o número de membros.  O grupo não é nem deverá jamais funcionar como clube comercial, que tenta constituir ampla base de membros e sócios.

Os BRICS desenvolveram-se, evoluíram, a partir de um grupo econômico, até serem hoje o “clube” dos países líderes de um mundo verdadeiramente livre; e sempre junto com seus grandes aliados – Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia.

Como já se disse várias vezes: não são perfeitos, mas são o que temos, e estão sempre tentando melhorar.

No grupo dos BRICS, não há lugar para países que se aliem às potências colonialistas, como não há lugar para países que sacrificam o próprio povo. Por hora, a sigla é só abreviatura dos nomes dos países-membros. 

Em breve, sabe-se lá, talvez a mesma sigla possa ser interpretada como Broad Revolutionary Internationalist Causeway towards Socialism  [Larga Trilha Internacionalista Revolucionária Rumo ao Socialismo]. 

Os BRICS têm de ser muito cuidadosos, muito seletivos, com quem convidam e com quem acolhem em suas fileiras. Os países BRICS são a vanguarda do novo mundo. E são o que o “Velho Mundo” (ou chamem de “regime mundial”) mais quer destruir, a todo custo.

Os BRICS têm o dever, têm a obrigação, de viver, de sobreviver.

Cada país que se queira juntar a eles terá de provar que existe exclusivamente para servir ao próprio povo e, sempre, à nossa grande humanidade comum!




[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também deIndonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

sábado, 16 de agosto de 2014

Modi e Gandhi, em 14/8/2014: de merda e latrinas

15/8/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Tenda do Pinico na Vila Vudu: Se há coisa que se vê igualmente distribuída por todos os países BRICS é essa tal MEEEEERDA de “elites” que há por aqui [pano rápido].

Narandra Modi - Primeiro-Ministro da Índia
As elites que vivem em Delhi muito provavelmente viraram o nariz ante o primeiro discurso de Narendra Modi, como primeiro-ministro da Índia, no Dia da Independência, hoje, no Forte Vermelho. Com certeza não gostaram que o líder de uma superpotência emergente aclamado como o Homem de Ferro, se tenha rebaixado ao plano de qualquer “homem comum”, para falar sobre merda e latrinas, em ocasião tão solene.

Lembro do primeiro encontro de Mahatma Gandhi com o Congresso Nacional Indiano na sessão em Calcutá, pouco depois de ele ter retornado da África do Sul, e o problema da merda, naquela ocasião histórica.

Mahatma Ghandi
Havia só umas poucas latrinas, e a lembrança daquele fedor ainda me oprime até hoje – como Ghandi escreveu em sua Autobiografia. E continua: Chamei a atenção dos voluntários. Responderam-me com todas as letras: Não é trabalho nosso. É trabalho para urubuPedi um esfregão. O homem arregalou os olhos. Procurei eu mesmo o esfregão e limpei a latrina. (...)Alguns delegados [ao Congresso] não se acanhavam de usar as varandas do lado de fora dos respectivos dormitórios, para as urgências da natureza durante a noite (...) Ninguém dava sinal de ser capaz de limpar coisa alguma, e não encontrei ninguém com quem partilhar a honra de ter feito aquele trabalho.

Gandhi acrescentou que, se aquela sessão do Congresso durasse um pouco além do que durou, as condições eram propícias à eclosão de uma epidemia.

Não me surpreende que Modi tenha encontrado essa via até o pensamento de Gandhi, noite passada, quando organizava as ideias para o discurso de hoje. Com certeza lhe ocorreu que se Gandhi “conectou-se” às massas indianas, foi, em larga medida, por causa de sua prontidão para fazer trabalho de urubu nas latrinas de Calcutá, ao ponto de ter feito desse serviço uma de suas principais causas.

A multidão de “especialistas” de TV, a “prever” ontem à noite os temas sobre os quais Modi falaria hoje, das muralhas do Forte Vermelho, comprovaram-se horrivelmente erradas. Modi provavelmente decidiu, deliberadamente, pôr as elites de Delhi no devido lugar delas, e trocou-as, da grande cidade que elas tanto amam, pelas vilas do interior da Índia mergulhadas na escuridão.

O discurso foi dirigido à Índia “real”. A questão é que, para um indiano comum, é muitíssimo importante não ter de curvar a cabeça, envergonhado, cada vez que acorda num trem de longa distância que atravessa a Índia de Thiruvananthapuram a Hazrat Nizamuddin em Delhi, para ver centenas de indianos seus compatriotas defecando a céu aberto, alguns com uma garrafa plástica de água, a maioria sem nem isso.

Trens na Índia

Essa emoção de vergonha é desconhecida das elites de Delhi. Assim também, faz enorme diferença que as centenas de milhões de condenados da terra que vivem na Índia tenham qualquer segurança social, mínima que seja, para proteção de suas famílias. Pouco me importa que Modi nada tenha dito em seu discurso sobre o mundo multipolar ou o FDI ou a Comissão de Planejamento. A miséria é a vergonha da Índia. Modi acertou, ao escolher começar pelo mais básico.

Em postado recente, comparei Modi e Recep Erdogan da Turquia. Nenhum dos dois nasceu exatamente em berço de ouro. Ambos foram criados na periferia de grandes cidades. Ambos andaram o caminho mais difícil, com todas as probabilidades pesando contra eles, e são essencialmente self-made men, com integral direito ao orgulho, limítrofe da arrogância, que sempre acompanha esse tipo de gente. Mas hoje, quando chegaram ao pico do poder e do prestígio em suas respectivas capitais, ambos também se mostram agudamente conscientes de que, com poder ou sem, ainda são e sempre serão “marginais”.

Recep Tayyip Erdoğan – Primeiro-Ministro da Turquia
As elites que enchem bares da moda, que bebem uísque, dirigem Porsches e habitam luxuosas villas (‘kotis’) no Bósforo em Istambul não “aceitaram” Erdogan — mesmo depois de uma década em que governou como Sultão da Turquia. E ele sabe que jamais o aceitarão como “um deles”. O mesmo acontece com Modi. Os punhais já estão desembainhados contra ele, não estão?

O que mais me chamou a atenção no discurso de ontem foi Modi admitir claramente para ele próprio, que, sim, é “marginal”; segundo, que tenha tão assumidamente evocado Gandhi — é movimento muito estranho, num “pracharakdo RSS; terceiro, como Erdogan já fez inúmeras vezes e continua a fazer, Modi ignorou a feira de vaidades em Delhi e falou sobre o que preocupa as massas indianas – com atenção dirigida ao “básico”.

Por que fez isso? Político sensível, Modi compreende por que a metáfora do esfregão e das latrinas ainda é, hoje, perfeita síntese da crise da Índia. Há muita merda acumulada depois de tantas sessões do Partido do Congresso [Nacional Indiano] por toda a Índia, e já não temos nem Gandhi para limpar as latrinas.

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quaisThe Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blogIndian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.