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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Robert Fisk: “E quem, no Oriente Médio, liga para o que Obama diga?”


Robert Fisk
30/5/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Esse mês, o Oriente Médio assistiu ao desmonte do presidente dos EUA. Pior do que isso, se assistiu aqui ao ponto mais baixo do prestígio dos EUA na região, desde que Roosevelt encontrou-se com o rei Abdul Aziz a bordo do USS Quincy, no Grande Lago Salgado [1], em 1945. 

Enquanto Barack Obama e Benjamin Netanyahu representavam sua farsa em dueto em Washington – Obama rastejante como sempre – os árabes meteram mãos à obra, no serviço de mudar seu mundo, em manifestações de rua, lutando e gritando e morrendo para alcançar liberdades que jamais tiveram. E Obama gaguejava sobre mudanças no Oriente Médio – e sobre o novo papel dos EUA na região. Foi patético. 

“E... que conversa é essa de “papel na região”?” perguntou-me um amigo egípcio, no fim de semana. “Será que ainda supõem que alguém aqui tenha algum interesse em saber o que eles pensam?”. 

Verdade. A omissão de Obama, o erro de não ter apoiado as revoluções árabes antes de estarem praticamente decididas, tirou dos EUA o pouco prestígio que ainda tinha no Oriente Médio. Obama calou sobre a derrubada de Ben Ali; só se uniu ao coro de indignação contra Mubarak dois dias depois de Mubarak já ter fugido; condenou o regime sírio – que já matou mais gente do próprio povo que qualquer outro governo nessa “primavera” árabe, exceto o temível Gaddafi –, mas deixou bem claro que gostaria muito de ver sobreviver o regime de Assad; ergueu o punhozinho contra a crueldade gigante do minúsculo Bahrain; mas, inacreditavelmente, ainda não disse uma palavra, uma, que fosse, contra a Arábia Saudita. Frente a Israel, Obama ajoelha-se. Como se surpreender agora, quando os árabes dão as costas aos EUA, não por ódio ou ira, não com ameaças, mas só, exclusivamente, com desprezo profundo? 
Agora, quem toma as decisões são os árabes e seus companheiros muçulmanos do Oriente Médio. 

A Turquia está furiosa com Assad, porque prometeu duas vezes propor reformas e eleições democráticas – e em nenhum dos casos honrou a promessa. O governo turco mandou duas delegações a Damasco e, segundo os turcos, na segunda visita Assad mentiu ao ministro das Relações Exteriores (disse que insistiria para que seu irmão Maher tirasse seus policiais das ruas das cidades sírias). Não insistiu. Os torturadores prosseguiram em sua faina. 

Assistindo à chegada de centenas de refugiados sírios pela fronteira norte do Líbano, o governo turco teme agora que se repita a onda de refugiados do Curdistão Iraquiano que inundou seu território depois da Guerra do Golfo de 1991, e já tem planos secretos para impedir que os curdos sírios cheguem aos milhares às áreas curdas do sudeste da Turquia. Os generais turcos prepararam operação para enviar soldados turcos para a Síria, para criar uma “área segura” para os refugiados sírios no território do califado de Assad. Os turcos estão preparados para avançar bem além da cidade de Al Qamishli, já na Síria – e talvez cheguem à metade do Deir el-Zour (aos velhos campos de matança do deserto, no holocausto de armênios em 1915), mas sem qualquer alarde. O plano é ali criar um “paraíso seguro” para os que fogem do massacre nas cidades sírias. 

Os qataris, simultaneamente, trabalham para impedir que a Argélia forneça mais tanques e veículos blindados a Gaddafi – essa foi uma das razões da visita do emir do Qatar, o pássaro mais esperto do Golfo Árabe, ao presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, semana passada. O Qatar está comprometido com os rebeldes líbios em Benghazi; seus aviões voam para a Líbia a partir de Creta e – o que não se sabia até agora –, há oficiais do Qatar assessorando os rebeldes na cidade de Misrata na Líbia ocidental. Se a Argélia estiver de fato ajudando a blindar Gaddafi e repondo material destruído, estaria explicado o avanço ridiculamente lento da campanha da OTAN contra Gaddafi. 

Claro, tudo depende de saber se Bouteflika realmente controla o próprio exército – ou se o pouvoir argelino, que inclui muitos generais conspiradores e corruptos, está cumprindo ordens e acordos. O equipamento argelino é superior ao de Gaddafi; assim, para cada tanque destruído, é possível que Gaddafi esteja recebendo modelo novo, como item de reposição. Abaixo da Tunísia, Argélia e Líbia partilham 750 milhas de fronteira de deserto, rota de fácil trânsito de armas. 

Mas os qataris também têm atraído a ira de Assad. A cobertura obcecada que a rede Al Jazeera tem dado ao levante sírio – imagens de mortos e feridos sempre muito mais terríveis que qualquer coisa que a soft televisão ocidental jamais se atreveria a mostrar – enfureceu a televisão estatal síria, que se pôs a atacar furiosamente o emir e o estado do Qatar. O governo sírio acaba se suspender projetos de investimentos de empresas do Qatar no valor de 4 bilhões de libras, entre os quais um projeto da estatal de água e eletricidade do Qatar. 

Entre esses eventos épicos – o próprio Iêmen talvez leve a coroa de repressão mais sangrenta de todas; e o número de mártires sírios já ultrapassou o número de mortos pela polícia assassina e esquadrões-da-morte de Mubarak há cinco meses – quem se surpreenderá ao constatar que Netanyahu e Obama já sejam vistos como absolutamente irrelevantes? 

A verdade é que as políticas de Obama para o Oriente Médio – sejam quais forem – são tão obscuras e confusas, que nem recebem qualquer atenção mais aprofundada. Obama apoia, claro, a democracia – e em seguida admite que a democracia pode não servir aos interesses dos EUA. Naquela magnífica democracia chamada Arábia Saudita, os EUA constroem negócio de venda de armas de 40 bilhões de libras, e ajudam os sauditas a desenvolver uma “nova” força de elite para proteger o petróleo e as futuras instalações nucleares do reino. Daí brota o medo de Obama de irritar a Arábia Saudita, onde dois dos três irmãos reinantes estão tão senis que já não tomam decisões lúcidas – e infelizmente um desses dois é o rei Abdullah. E daí brota também a disposição de Obama de assegurar a sobrevivência do regime de atrocidades da família Assad. 

Claro que os israelenses preferem que a ditadura síria continue “estável”: melhor um sombrio califado conhecido, que qualquer governo islâmico que venha a surgir das ruínas. Mas e Obama? Que sentido faz Obama defender esse argumento, quando o povo sírio está morrendo nas ruas em luta para conquistar a democracia que o mesmo Obama diz que quer ver na região? 

Um dos elementos mais ocos da oca política dos EUA para o Oriente Médio é a ideia básica segundo a qual os árabes seriam naturalmente mais estúpidos que “nós”, com certeza são mais estúpidos que os israelenses, ainda mais sem noção da realidade que o “ocidente”, além de os árabes absolutamente não entenderem a própria história. Assim sendo, os árabes têm de ser guiados, instruídos, conversados por La Clinton e sua troupe – exatamente como sempre fizeram e fazem os ditadores, guiando “seus filhos” pela vida.

Fato é que os árabes são hoje muito mais amplamente alfabetizados que há uma geração; milhões falam inglês perfeitamente e são perfeitamente capazes de constatar a total fragilidade e a completa irrelevância política das falas de Obama. Quem ouvisse o primeiro discurso de Obama esse mês, 45 minutos – o primeiro discurso de uma sequência de quatro dias de conversa fiada e perfumaria enunciadas pelo homem que parecia disposto a falar ao mundo muçulmano, do Cairo, há dois anos, mas que, a partir dali, nada mais fez –, poderia até imaginar que Obama estaria no comando das revoltas árabes, nunca que se encolheu à margem delas, com medo. 

Houve um muito significativo (co)lapso linguístico na fala de Obama ao longo desses quatro dias críticos. Dia 19/5, 5ª-feira, falou sobre a manutenção dos “assentamentos” israelenses. Dia 20/5, 6ª-feira, Netanyahu aplicou-lhe longo sermão sobre “algumas mudanças demográficas que se observam em campo”. Em seguida, ao falar ao lobby reunido do AIPAC, no domingo, 22/5, Obama já fizera sua a expressão absurda, sem sentido, de mascaramento dos fatos, de Netanyahu. No discurso ao AIPAC, Obama falou de “novas realidades demográficas que se observam em campo”.

Quem o ouvisse, jamais suspeitaria que Obama falasse de colônias ilegais, exclusivas para judeus, construídas ilegalmente em terras que Israel roubou e continua a roubar dos proprietários palestinos, no maior caso de roubo de terras da história da Palestina. 

Obama anunciou que qualquer demora na construção da paz criará riscos para a segurança de Israel. Como se nem desconfiasse que o projeto de Netanyahu é, exatamente, adiar, adiar, adiar, adiar a paz o mais possível, até que já não haja terras palestinas a serem roubadas nem, tampouco, qualquer possibilidade de algum dia haver o estado palestino “viável” que EUA e União Europeia supostamente desejam. 

Depois, foi aquela conversa sobre “as fronteiras de 1967”. Netanyahu declarou que as tais fronteiras seriam “indefensáveis” (apesar de as mesmas fronteiras terem parecido super defensáveis durante os 18 meses que antecederam a Guerra dos Seis Dias). E Obama – sem dar qualquer atenção ao fato de que Israel provavelmente é o único país do planeta que tem fronteiras terrestres a leste... mas não se sabe onde estão – disse que havia sido mal interpretado ao falar das fronteiras de 1967. 

Pouco importa o que diga o presidente dos EUA, o atual ou qualquer outro. George W Bush assinou a rendição há anos, quando entregou a Ariel Sharon uma carta na qual declarou que os EUA aceitam “todos os grandes centros populacionais em Israel” localizados além das linhas de 1967. 

Mesmo para os árabes já preparados para a fala desfibrada, sem espinha dorsal, de Obama, essa parte foi excessiva, além do razoável. Tampouco entenderam a reação ao discurso de Netanyahu ao Congresso. Como é possível que deputados e senadores dos EUA levantem-se 55 vezes para aplaudir Netanyahu – 55 vezes – mais entusiasmo do que se vê nos parlamentos-fantoche de Assad, Saleh e o resto? 

E o quê, diabos, afinal, o Grande Discursador do Ocidente quereria dizer com “todos os países têm direito a autodefesa”... mas a Palestina tem de ser “desmilitarizada”? Ora! Queria dizer que Israel está liberada para continuar a atacar palestinos (como em 2009, por exemplo, quando Obama guardou silêncio covarde, de traição) e os palestinos que aguentem o que os espera, se não se comportarem conforme as regras – porque não terão armas para defender-se. 

Para Netanyahu, os palestinos podem escolher: ou unidade com o Hamás, ou paz com Israel. Conversa muito estranha, essa! Quando não havia unidade, Netanyahu dizia que não tinha interlocutor palestino, porque os palestinos estavam divididos. Quando os palestinos se unem, diz que são desqualificados para conversações de paz. 

Claro, quanto mais tempo você vive no Oriente Médio, mais esperto fica. Lembro, por exemplo, em viagem a Gaza no início dos anos 1980s, quando Yasser Arafat comandava a OLP instalado em Beirute. Ansioso para destruir o prestígio de Arafat nos territórios ocupados, o governo de Israel decidiu apoiar um grupo islâmico em Gaza chamado Hamás. A verdade é simples. Eu vi com meus próprios olhos o comandante do Comando Sul do exército de Israel negociando com os barbudos do Hamás, autorizando-os a construir mais mesquitas. 

É justo lembrar que, naquele momento, americanos e britânicos estavam ocupadíssimos tentando convencer um certo Osama bin Laden a combater contra o exército soviético no Afeganistão. Mas os israelenses não largavam o pé do Hamás. Dias depois, lá estavam outra vez reunidos com a ‘facção’ na Cisjordânia. A história foi matéria de primeira página do Jerusalem Post, no dia seguinte. E os EUA não reclamaram: nem um pio. 

Lembro de outro momento, nesses longos anos. No início dos anos 1990s, membros do Hamás e da Jihad Islâmica foram infiltrados pela fronteira israelense no sul do Líbano, onde permaneceram mais de um ano acampados numa encosta gelada. Visitei-os naquele acampamento algumas vezes. Numa dessas vezes, mencionei que, no dia seguinte, viajaria para Israel. Imediatamente, um dos homens do Hamás correu até a barraca e voltou de lá com um caderno de anotações. Dali extraiu, para me dar, os números dos telefones de casa de três importantes políticos israelenses – dois dos quais continuam importantes até hoje – e eu, chegando a Jerusalém, testei os números: os três, certíssimos. Em outras palavras: no início dos anos 1990s, o governo de Israel mantinha contato pessoal e direto com o Hamás. 

De lá até hoje, a narrativa foi deformada até se tornar irreconhecível. O Hamás passou a ser “super terrorista”, “representante da al-Qaeda no governo unificado da Palestina”, os gênios do mal, para garantir que jamais haja paz entre os palestinos e Israel. Se tal coisa fosse verdade, a verdadeira al-Qa'ida já teria anunciado e assumiria plena responsabilidade pela ‘aliança’, que trataria de divulgar aos quatro ventos. Mas é mentira.

No mesmo contexto, Obama declarou que os palestinos teriam de responder perguntas sobre o Hamás. Mas... por quê? O que Obama e Netanyahu pensem sobre o Hamás absolutamente não interessa aos palestinos. Obama disse aos palestinos de que não se apresentem à ONU em setembro, para exigir o reconhecimento oficial ao seu estado. Mas... por que, diabos, não poderiam ir à ONU? 

Se os povos do Egito, da Tunísia, do Iêmen, da Líbia, da Síria – e continuamos a esperar por outros que hão de vir, talvez, agora, a revolução da Jordânia, uma segunda revolução no Bahrain? O Marrocos?) – podem lutar por dignidade e liberdade, por que os palestinos não poderiam? 

Tendo ouvido décadas de lições a favor de protestos não violentos, os palestinas escolheram a via de ir à ONU e lá fazer ouvir seu clamor por legitimação. Não. Obama acha que não. E ordena que nem tentem. 

Quem leu todos os “Palestine Papers” divulgados por Al-Jazeera sabe, sem sombra de dúvidas, que os negociadores palestinos irão até onde for preciso para criar qualquer tipo de estado. Mas Mahmoud Abbas – que conseguiu escrever livro de 600 páginas sem usar a palavra “ocupação” – é perfeitamente capaz de engavetar o projeto ONU, de medo do que disse Obama – que o movimento seria visto como tentativa para “isolar” Israel e, claro, para “deslegitimar” o estado israelense – “o estado judeu”, como diz, agora, o presidente dos EUA.

Netanyahu é quem mais trabalha para deslegitimar Israel. De todos, é o que cada dia mais se parece com os bufões árabes que, até hoje, comandaram o Oriente Médio. Mubarak viu “mão estrangeira” na revolução egípcia (mão iraniana, claro). O príncipe coroado do Bahrain, idem (o Irã, sempre o Irã). E Gaddafi (viu mãos da al-Qaeda, do imperialismo ocidental, várias mãos estrangeiras). Idem Saleh do Iêmen (al-Qaeda, Mossad e EUA). Idem Assad da Síria (mãos do islamismo, talvez do Mossad, e outras). E idem, idem, Netanyahu – que vê, claro, a mão do Irã, além da mão da Síria, do Líbano, de todas as entidades e seres imagináveis... exceto as suas próprias mãos israelenses. 

Contudo, enquanto segue a bufoneria geral, as placas tectônicas vibram e estremecem. 

Duvido muito que os palestinos mantenham-se calados por muito tempo mais. Se há uma “intifada” na Síria, por que não uma Terceira Intifada na Palestina? Não ações de homens-bomba e mulheres-bomba, mas movimento de massas, protestos de milhares, de milhões. Se Israel atirou para matar contra alguns poucos manifestantes que tentaram – e vários conseguiram – furar a fronteira de Israel há duas semanas... o que mais farão se tiverem de enfrentar manifestações de milhares, de milhões? 

Obama resolveu que a ONU não deve reconhecer nenhum estado palestino. Por que não? Mas, sobretudo, quem, no Oriente Médio, liga para o que Obama diga? De fato, nem os israelenses ligam. 

Em breve, a primavera árabe será tórrido verão e virá também um outono árabe. Até lá, é possível que o Oriente Médio já se tenha transformado para sempre. O que os EUA digam não fará diferença alguma.



Nota de tradução
[1] Orig. “Great Bitter Lake”: ver imagens do lago salgado entre a parte norte e sul do Canal de Suez, antes de haver o Canal de Suez. Ao lado, está o Pequeno Mar Salgado. 

domingo, 3 de abril de 2011

A nova estratégia do “lobby” israelense

MJ Rosemberg
15/3/2011, MJ Rosenberg - Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

AIPAC é uma ferramenta útil quando você quer prever o futuro de qualquer negociação de paz entre israelenses e palestinos.


AIPAC é um bom indicador da posição israelense.  PM  Benyamin Netanyahu
[Foto Getty Images]

O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu tem sido pesadamente criticado em Israel pela flagrante exploração da morte de cinco membros de uma família (três crianças) na colônia de Itamar próxima de Nablus. Particularmente lamentável tem sido a campanha de Netanyahu, que continua a exigir que Mahmoud Abbas fale à imprensa palestina para condenar as mortes, mesmo depois de Abbas ter divulgado declaração excepcionalmente forte, no instante em que soube da tragédia.

Esqueçamos por um instante que ninguém sabe quem cometeu o crime e que ninguém crê que os assassinos sejam associados a Abbas. Deixemos de lado também que Netanyahu jamais condenou ou manifestou sequer remorso pelo assassinato de mais de 300 crianças palestinas pelo exército de Israel na guerra de Gaza. (De fato, não há notícia de governo israelense que sequer tenha criticado a morte de crianças palestinas em ações do exército de Israel, apesar de haver centenas de crianças mortas pelo exército de Israel na última década).

Até aí não há novidades. O que é novidade é a decisão de Israel de culpar a Autoridade Palestina (e não exclusivamente, dessa vez, o Hamás), AP que, até há pouco tempo, Israel elogiava como parceira. Essa mudança tornou-se evidente no último mês, quando o lobby israelense nos EUA, reunido no AIPAC, começou a atacar Abbas e a Autoridade Palestina, voltando ao velho estilo dos piores dias, quando o lobby israelense tratava com igual fúria todos os palestinos, vistos homogeneamente como inimigos de Israel.

Há pelo menos três motivos para que se acompanhem de perto os movimentos futuros do American Israel Public Affairs Committee, Comitê EUA-Israel de Negócios Públicos, em inglês AIPAC, com vistas a entender melhor os eventos do Oriente Médio.

Primeiro, porque as posições do governo Netanyahu são manifestação fiel das posições do AIPAC, embora, vez ou outra Netanyahu divulgue as posições antes de o AIPAC tornar públicas suas decisões.

Segundo, porque as políticas do AIPAC permitem antecipar, não por coincidência, as posições vencedoras nas discussões no Congresso dos EUA.

E terceiro, porque o que diga ou faça o AIPAC sempre é indicador seguro dos passos futuros do governo de Obama, que recebe “orientação” tanto do próprio AIPAC quanto de Dennis Ross, ex-presidente do Washington Institute for Near East Policy, think tank do AIPAC e, hoje, principal conselheiro do presidente para assuntos do Oriente Médio.

Os próximos meses são particularmente importantes, porque o AIPAC prepara sua Conferência Anual, que acontecerá nos dias 22-24 de maio. A conferência do AIPAC é evento gigantesco, do qual participam praticamente todos os deputados e senadores dos EUA, o primeiro-ministro de Israel e ou o presidente ou o vice-presidente dos EUA. Também participam da Conferência Anual do AIPAC milhares de delegados de todo o país e candidatos ao Congresso, que ali fazem campanha de arrecadação de dinheiro para suas campanhas eleitorais. Esse ano, os principais aspirantes a candidatos do Partido Republicano à presidência dos EUA também estarão presentes, todos ocupados em vender a qualquer preço sua lealdade eterna à agenda política do AIPAC. 

A conferência começa, de fato, muito antes de convergir e lotar o imenso Washington Convention Centre. Agora mesmo, os principais funcionários do AIPAC decidem que políticas merecem ser apresentadas às centenas de delegados. Essas políticas constituirão a agenda, não só da conferência, mas do próprio AIPAC para os próximos 12 meses (interessados em conhecer o livro publicado das políticas do AIPAC apresentadas para votação na conferência do ano passado encontram-no como PDF: 111th. Congress, Second Session – AIPAC Briefing Book.
   
Nos anos recentes, a principal mensagem do AIPAC têm mirado o Irã e o que o lobby pensa sobre as ameaças trazidas a Israel pelo programa nuclear iraniano. Orador após orador, nas várias conferências anuais do AIPAC ao longo da última década (entre os quais o sempre histriônico primeiro-ministro Benyamin Netanyahu), têm invocado o Holocausto como metáfora preferida, sempre que se referiam à possibilidade de o Irã construir armas atômicas.

Esses oradores pavimentaram o caminho para a aprovação de leis que impuseram “sanções debilitantes” ao Irã – e para a inclusão da “opção militar” que permaneceu “sobre a mesa” para o caso de as sanções não conseguirem dar cabo do programa nuclear iraniano. Praticamente todos os projetos que resultaram em leis de sanção ao Irã aprovadas pelo presidente Obama nasceram no AIPAC.

Mas em 2011, o Irã terá de dividir as atenções do lobby, com preocupações sobre as revoluções democráticas que agitam o mundo árabe. Aquelas revoluções fizeram de 2011 um annus horribilis para o AIPAC e para Netanyahu, e o ano ainda nem chegou à metade.

Temas

As primeiras indicações sugerem que o principal tema da conferência do AIPAC será que Israel, outra vez, está “sem parceiro” com o qual negociar. É tema velho, mas que volta nos momentos em que a direita israelense deixa de ver a Autoridade Palestina (liderada por Mahmoud Abbas e Salam Fayyad) como parceira e colaboradora na missão de manter o status quo.

Como os “Palestine Paper” de Al Jazeera demonstraram, Abbas e Fayyad raramente dizem “não” ao governo Netanyahu – o que fez deles o único tipo de parceiro aceitável para a troika Netanyahu-Lieberman-Barak.

Mas, temendo que alguma democracia se aproxime, a Autoridade Palestina, ultimamente, começou a dar sinais de ter espinha dorsal. Recusou-se a curvar-se à exigência de EUA e Israel de que engavetasse a resolução do Conselho de Segurança da ONU de condenação às colônias israelenses. Recusa-se absolutamente a negociar com israelenses, antes que Israel desocupe as terras que estariam sendo negociadas. E, o que mais perturba Netanyahu e companhia, diz que planeja declarar unilateralmente o estado da Palestina no verão que se aproxima.

Netanyahu, que precisa da ilusão de movimento, para não deixar ver que não há movimento algum, começa a sentir a pressão. Até Angela Merkel, chanceler alemã e empenhada apoiadora de Israel, apoiou a resolução da ONU que condena as colônias israelenses em território ocupado e comunicou sua decisão a Netanyahu, em telefonema do dia 24/2, que foi muito divulgado. Disse a Netanuahu que os europeus estão fartos, cansados dele. O jornal Haaretz noticiou:

“Netanyahu disse a Merkel que estava desapontado com o voto da Alemanha (...). Merkel enfureceu-se. “Como você se atreve?!” – disse ela. “Você, sim, nos desapontou: até agora não deu um passo sequer em direção à paz.” 

Muito perturbado, Netanyahu imediatamente disse que estava pronto a anunciar seu plano para por fim ao conflito Israel-palestinos. Disse aos aliados políticos que tem de agir rápido, para impedir que cresça a pressão do chamado “Quarteto” (ONU, EUA, União Europeia e Rússia), que se deve reunir ainda esse mês para definir os parâmetros para um acordo definitivo. Preparando essa reunião, o ministro de Relações Exteriores da Grã-Bretanha William Hague disse que a base territorial para qualquer acordo tem de ser as fronteiras de antes de 67 – a última coisa que Netanyahu deseja ouvir.

Notícias de Israel informam que o plano de Netanyahu não inclui as fronteiras de 67 e, em troca, oferece um Estado da Palestina com fronteiras temporárias e congelamento muito restrito de novas construções (em Jerusalém, nada seria congelado).

Sabendo que a Autoridade Palestina já não pode nem considerar tal plano, Netanyahu decidiu rotular preventivamente os ex-amigos de Israel na Autoridade Palestina como terroristas extremistas – na esperança de que, nesses termos, o Congresso dos EUA e o governo Obama apoiarão seu plano. Netanyahu espera que, se assegurar o apoio dos EUA, conseguirá bloquear qualquer iniciativa do Quarteto. Mais uma vez, seu objetivo é deixar tudo como está, o que torna indispensável que os EUA aceitem seus esquemas. Até aqui, a tática tem dado certo.

Guerra suja 

O que, afinal, explica a nova abordagem do AIPAC: enlamear a Autoridade Palestina. Quando a Conferência do AIPAC chegar ao fim, o mantra “Israel não tem parceiros” terá voltado ao primeiro lugar na parada de sucessos – candidato a ‘disco de ouro’.

Vejam-se, por sinal, algumas mensagens que o AIPAC tem distribuído pelo Twitter nos últimos dias (novas tecnologias, para velhas mensagens):

AIPAC: A Autoridade Palestina não quer que organização terrorista seja chamada de organização terrorista: quer que o governo una-se aos terroristas. 

AIPAC: A Autoridade Palestina quer impedir a soberania de Israel. Obama não permitirá o que já chamou de “erro estratégico”. 

AIPAC: Autoridade Palestina disse NÃO a Israel.

Para comparar, eis um tuíte típico do AIPAC, antes de a Autoridade Palestina começar a oferecer resistência a Netanyahu:

AIPAC: Conversações com Abbas levarão a um acordo de paz ainda esse ano? “Sim, tenho certeza que sim” – disse Netanyahu.

Em resumo, trata-se do seguinte: os europeus, a ONU e, pode-se dizer, todo o mundo – exceto os EUA – temem que a Autoridade Palestina esteja à beira do colapso e que arraste, nesse colapso, até a ideia de algum processo de paz. Então, afinal, começaram a empenhar-se seriamente para reabrir as negociações. Para que haja negociações reais, é indispensável que Israel suspenda todas as construções em territórios ocupados, no mínimo. É como se todos estivessem percebendo que uma Autoridade Palestina vista (como realmente é vista) como lacaia de Israel não conseguirá sobreviver. Já ninguém confia em qualquer boa intenção do governo Netanyahu.

Inverter a mão 

O governo de Israel, que também já entendeu tudo isso, decidiu fazer todo o ônus recair sobre os palestinos, para escapar às pressões. Mais importante: Israel está paralisada de medo de que a Autoridade Palestina leve avante o plano de, no próximo verão, declarar unilateralmente o Estado da Palestina – única ideia da Autoridade Palestina, em anos, que realmente pode prosperar.

Israel, pois, precisa que os EUA paralisem a Autoridade Palestina, seja pelo meio que for, inclusive com corte total de qualquer ajuda dos EUA (e, mesmo, de outros países) aos palestinos (e, isso, no momento em que Barak, ministro da Defesa de Israel, está pedindo mais 20 bilhões de ajuda militar aos EUA). O objetivo de curtíssimo prazo, crucialmente importante para Netanyahu é impedir que se declare unilateralmente a independência palestina. E Netanuahu escolheu conseguir isso, obrigando Obama a apoiá-lo (o que, afinal, não será muito difícil, com as eleições de 2012 já se aproximando).

Por isso, deve-se esperar para breve um novo plano de paz de Netanyahu. Por isso, também, a AIPAC está dedicada a denegrir os palestinos. E por isso, ainda, é que logo veremos o AIPAC obrigar o Congresso dos EUA a repetir, em uníssono: “Israel não tem parceiro palestino”. Em seguida, o Congresso exigirá que o governo Obama apóie o plano de Netanyahu, que será declarado o mais generoso da história.

Nesse ritmo, logo veremos o governo de Israel e o lobby ressuscitarem o velho mantra (1948-1977) de que “não existe povo palestino”.

Tudo isso, para manter o sujo, mortífero status quo. Até hoje, essa tática sempre funcionou. É possível que funcione mais uma vez. E mais uma vez, como sempre, a vitória do AIPAC e de Netanyahu será derrota para Israel e para os EUA.

Os palestinos, por seu lado, bem farão se construírem estratégia unificada, de todos os palestinos, e se se mantiverem firmes no projeto de declarar unilateralmente a própria independência. Como diria David Ben-Gurion, a autodeterminação exige, muitas vezes, que se ande sozinho.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os EUA, arrimo de Israel no Oriente Médio

Quem é vassalo de quem?

Kathleen Christison
16/2/2011, Kathleen Christison, Counterpunch

Who's Serving Who? The US as Israel's Enabler in the Middle East

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Kathleen Christison é ex-analista política da CIA. 
É co-autora de Palestine in Pieces, com Bill Christison, seu marido.
Recebe e-mails em kb.christison@earthlink.net

Há cerca de dez dias, participei de discussão especialmente interessante sobre Israel e seu relacionamento com a política dos EUA para o Oriente Médio, considerados os atuais acontecimentos no Egito e em outros países do mundo árabe. Meu interlocutor foi um dos mais brilhantes comentaristas de política norte-americana da mídia alternativa, mas disse que, para ele, Israel não teria qualquer importância considerável no que os EUA fazem na região.

Devo dizer que pode ser caso de uma espécie de “ponto cego” no panorama mental sempre que se trata de Israel – fenômeno frequente também entre os pensadores progressistas. E espero que o torvelinho pelo qual passa a região acabará abrindo os olhos também dos que ainda tendem a minimizar o papel central que Israel desempenha na política dos EUA. 

Os recentes eventos no Egito e os “Documentos da Palestina” publicados por WikiLeaks e divulgados pela rede al-Jazeera, com conversações entre palestinos e israelenses, aí estão, como prova escrita, mais contundentes que qualquer outra divulgação, de que os EUA fazem o que fazem no Oriente Médio em vasta medida por causa de Israel – para proteger e salvaguardar Israel contra os vizinhos árabes que se revoltam contra o tratamento que Israel dá aos palestinos; contra muçulmanos, também revoltados pelos mesmos motivos; contra todos os críticos que reclamam das agressões militares dos israelenses contra Estados próximos; contra a ira de outros Estados eternamente ameaçados por Israel; contra governos na região que não aceitam que Israel seja o único Estado nuclear e insistem em desenvolver programas nucleares próprios, que lhes deem meios para conter Israel e defender-se das agressões dos israelenses.

É instrutivo lembrar que o Egito é importante para os EUA quase exclusivamente porque assinou um tratado de paz com Israel em 1979 e ajuda a garantir a segurança de Israel, defendendo a fronteira ocidental; ajudando em ataques militares contra outros países árabes; fechando os túneis que chegam a Gaza, pelos quais o Hamás contrabandeia algumas armas, e a população de Gaza obtém comida e outros artigos essenciais; e, claro, também porque o Egito ajuda a minar o poder do Hamás em Gaza. Os EUA também consideram o Egito como roldana importante em sua máquina de “guerra ao terror” e na guerra contra o radicalismo islâmico – função também intimamente ligada aos interesses de segurança de Israel.

Obviamente, o Egito é importante, de pleno direito, na Região. O tamanho do país e sua localização estratégica garantem que sempre terá influência considerável na política do Oriente Médio, e há séculos é o coração da cultura árabe, para o que não precisa de ajuda dos EUA. 

As três últimas semanas de luta do povo egípcio por democracia aumentou a importância do Egito, capturando a imaginação dos povos do mundo inteiro (exceto de muitos, talvez a maioria, em Israel e da direita linha-dura nos EUA, com destaque para a ala daquela direita que apóia Israel).

Mas a parte fundamental que interessa destacar é que os EUA não teriam o relacionamento militar, político e econômico tão íntimo que têm com o Egito há mais de 30 anos, não fosse o Egito aliado de Israel e o fato de que, nas palavras de Rashid Khalidi, especialista em Oriente Médio, o Egito sempre aceitou “a hegemonia regional de Israel”. O 1,5 bilhão anual de dólares em ajuda militar, e os 28 bilhões em assistência econômica e para o desenvolvimento ao longo dos últimos 35 anos não seriam entregues ao Egito, se o antecessor de Mubarak, Anwar Sadat, não tivesse suplicado por eles e, afinal, não tivesse concordado em assinar um tratado de paz com Israel, que removeu o Egito – o mais poderoso exército do mundo árabe – da lista das ameaças ‘existenciais’ contra Israel, abandonando os palestinos e outros partidos árabes aos seus próprios (poucos) recursos. 

Com o Egito fora do jogo e já, de fato, jogando a favor, Israel ficou livre para lançar vários ataques militares contra países vizinhos, duas vezes contra o Líbano e incontáveis vezes contra Gaza e a Cisjordânia, e livre para expandir as colônias exclusivas para judeus em territórios ocupados, roubar terra dos palestinos e massacrar rotineiramente os palestinos, sem medo de retaliação nem, sequer, de qualquer manifestação mais significativa vinda de qualquer exército árabe.

O comentarista israelense Aluf Benn já destacou, além disso, que, com Mubarak no poder, Israel sempre poderia sentir-se seguro em relação ao flanco ocidental no caso de atacar o Irã. 

Hoje, Israel já não pode atrever-se a atacar o Irã, e assim continuará até que volte (se voltar) a poder confiar que receberá do Egito “apoio tácito a todos os seus atos”. Mas quem quer que substitua Mubarak, seguindo esse raciocínio, também terá de preocupar-se com não despertar a fúria das massas, no caso de mostrar muita disposição para apoiar Israel. “Sem Mubarak, desaparece qualquer possibilidade de Israel atacar o Irã.” 

Para Israel e, portanto, também para os EUA, o investimento de bilhões que os EUA fizeram no Egito sempre valeu cada vintém. O fim da “estabilidade” que o Egito assegurava – ou seja, com Israel já sem poder confiar que se manterá em segurança, como potência regional dominante ­– é o fator de mudou muito dramaticamente todos os cálculos estratégicos dos EUA e de Israel. 

Antes do tratado de paz Egito-Israel, os EUA jamais consideraram que o Egito fosse o item de alta importância estratégica que passou a ser depois de render-se e por toda a sua capacidade militar a serviço dos interesses de Israel. Pode-se dizer o mesmo sobre as relações dos EUA com inúmeros outros estados árabes. O envolvimento dos EUA no Líbano – inclusive os esforços para tirar o exército sírio do Líbano – também se explica quase completamente pela defesa dos interesses de Israel também ali.

O fracasso da invasão de Israel ao Líbano em 1982 ainda reverbera: em resposta àquela invasão, os EUA mandaram um contingente de Marines, que se envolveu em luta direta com facções libanesas, o que levou a um ataque a bomba devastador contra o quartel-general dos Marines que matou 241 militares e agentes dos EUA em 1983. O crescimento do Hezbollah, representando a população xiita sitiada no sul do Líbano, é resultado direto da invasão israelense; o aumento no número de pessoal norte-americano seqüestrado pelo Hezbollah ao longo dos anos 1980s é resultado da hostilidade que cresceu contra os EUA, por causa do apoio a Israel. Israel retirou-se em 2000 do sul do Líbano, depois de vinte anos de ocupação, deixando atrás de si um Hezbollah mais poderoso do que jamais fora. O continuado conflito ao longo da fronteira levou ao brutal ataque de Israel contra o Líbano no verão de 2006. Mas Israel não derrotou a organização islâmica nem fez diminuir sua popularidade. Como resultado disso, os EUA já há anos estão obrigados a trabalhar para minar o poder do Hezbollah e, essencialmente, para manter o Líbano como sinecura israelense.

A Jordânia foi aliada menor dos EUA durante décadas, até que concluiu um tratado de paz com Israel em 1994 e ganhou status aos olhos dos EUA. Então, o pequeno Estado na fronteira leste de Israel passou a receber gorda ajuda militar e econômica dos EUA. O perfil oficial da Jordânia nos arquivos do Departamento de Estado dos EUA expõe os argumentos que explicam o bom relacionamento com a Jordânia, todos ligados, mais ou menos diretamente, a Israel, mas sem jamais mencionar Israel: “A política dos EUA busca reforçar o comprometimento da Jordânia com a paz, a estabilidade e a moderação. O processo de paz e a oposição da Jordânia ao terrorismo seguem e indiretamente reforçam interesses mais amplos dos EUA. Assim também, mediante assistência militar e econômica e por vias de cooperação política, os EUA têm ajudado a Jordânia a manter-se estável e próspera.” 

As referências a “reforçar” o comprometimento da Jordânia “com a paz, a estabilidade e a moderação” e à manutenção da estabilidade e da prosperidade da Jordânia dizem, de fato, sobre a Jordânia ajudar a manter a área – e, sobretudo, a fronteira com Israel – calma. Assim também, a expressão “indiretamente reforçam interessem mais amplos dos EUA” refere-se ao compromisso de cuidar da segurança de Israel. “Moderação”, no jargão do Departamento de Estado, é palavra-código para defesa dos interesses de Israel; “estabilidade” significa sempre ambiente seguro que atenda, primeiro, aos interesses de Israel.

Pode-se afirmar com segurança que nem o Líbano nem a Jordânia jamais teriam a importância que têm para os EUA, se os EUA não considerassem importante manter calmas as áreas de fronteira desses dois países com Israel, sempre considerada, só, a segurança de Israel. O mesmo não se pode dizer da Arábia Saudita, onde os EUA têm interesses vitais no petróleo, além da preocupação com a segurança de Israel. Mas, ao mesmo tempo, os EUA controlaram todos os impulsos dos sauditas na direção de defender os palestinos ou quaisquer outros árabes sob sítio dos israelenses, e puseram os sauditas bem alinhados, pelo menos implicitamente, ao lado de Israel, em várias questões – seja quando Israel atacou o Líbano em 2006 seja em 2008-2009, quando Israel massacrou Gaza seja, ainda, no que tenha a ver com a suposta “ameaça iraniana”. Vai muito longe o tempo em que os sauditas enfureceram-se por conta do apoio dos EUA a Israel, a ponto de imporem um embargo ao petróleo, como aconteceu em 1973.

Os documentos recentemente divulgados por WikiLeaks de telegramas do Departamento de Estado e, sobretudo, a divulgação pela rede al-Jazeera de minutas de reuniões das negociações entre Israel e palestinos ao longo da última década também mostram com ofuscante clareza o quanto os EUA jogam duro, e que o jogo duro sempre funcionou, para ajudar Israel no processo de negociação com palestinos. 

O apoio dos EUA a Israel jamais foi segredo, e cada vez é menos secreto ao longo dos últimos anos, mas os telegramas vazados fazem ver um quadro muito mais dramático do total desdém dos EUA pelos interesses dos palestinos nas negociações e o quanto os palestinos foram deixados sem qualquer poder de barganha ante a recusa de Israel a qualquer concessão. 

Chama a atenção, naqueles documentos, que os EUA fazem o papel de “advogado de Israel” – descrição cunhada por Aaron David Miller, depois de trabalhar nas negociações durante a era Clinton. E é o mesmo papel sempre, seja nos governos Bill Clinton ou George W. Bush ou Barack Obama: sempre prevalecem os interesses e demandas de Israel.

Fora do mundo árabe, também a política dos EUA para o Irã é ditada praticamente toda, por Israel. A pressão para atacar o Irã – seja ataque direto dos EUA, ou apoio dos EUA a ataque de Israel – que está em pauta há quase oito anos, desde o início da guerra no Iraque, sempre veio toda de Israel e de seus apoiadores nos EUA. É pressão declarada, e é impossível negar o quanto Israel pressionou para que os EUA atacassem o Iraque. 

Se algum dia os EUA se envolverem em ataque militar contra o Irã, diretamente, ou como força de apoio dos israelenses, acontecerá porque Israel decidiu que acontecesse. Se não houver ataque algum contra o Irã, como Aluf Benn prevê que não haverá, foi porque Israel tremeu, agora, depois de iniciada a Revolução Egípcia.

Israel e o desejo de defender a própria hegemonia regional foram fatores substancialmente importantes também para arrastar os EUA à guerra no Iraque – embora haja quem discorde, entre progressistas e conservadores, que entendem que aí haveria em jogo outras forças além das relações EUA-Israel-árabes.

Meu interlocutor progressista, por exemplo – que fez valente oposição ao envolvimento dos EUA na aventura do Iraque e também se opõe fortemente a qualquer ataque ao Irã, e está sem dúvida profundamente perturbado por os EUA não terem pressionado para a imediata partida de Mubarak – não concorda completamente com minha ideia de que Israel e seus apoiadores nos EUA são fator a considerar no envolvimento dos EUA na guerra do Iraque. No início da discussão, ele falou longamente sobre os neoconservadores, seu antigo think tank Project for a New American Century (PNAC)” e o manifesto interesse do PNAC dos neoconservadores em fazer avançar a hegemonia global dos EUA; e defendeu a ideia de que, quando George W. Bush chegou ao poder, todo um completo think tank instalou-se na administração. Mas, embora reconheça os objetivos dos neoconservadores e o sucesso que alcançaram na implantação daqueles objetivos, nem assim concorda com que o PNAC e os neoconservadores também estivessem tão interessados em promover a hegemonia regional de Israel quanto em promover o imperialismo norte-americano.

Quando, contudo, observei que Bush não instalou só um think tank dentro do governo, mas também, simultaneamente, instalou efetivamente o lobby israelense, ou a ala mais ativa daquele lobby, nos mais altos escalões do governo, nos conselhos políticos, meu amigo logo concordou: oh, claro, ele concordou com vigor, eles (os neoconservadores) “são todos Likudniks”. Há aqui alguma espécie de desconexão, que meu interlocutor parece não perceber: além de reconhecer a íntima ligação entre os neoconservadores e Israel, ele também reconhece que os neoconservadores trabalharam, de algum modo, por Israel. Como se tudo se justificasse, porque escreveram suas simpatias pró-Israel nas portas da Casa Branca e do Pentágono, ao assumir os cargos. Como se tudo se justificasse por declararem que abdicavam de todas as suas longas histórias de serviços prestados a Israel e de orientação dada há anos a políticos israelenses – orientação que incluiu conselho muito real, por escrito, em 1996, para que Israel atacasse o Iraque.

Sempre foi muito claro para muitos analistas, durante anos, até décadas, que os EUA favorecem Israel, mas a realidade jamais foi revelada tão explicitamente, até que eventos recentes puseram a nu o relacionamento, e trouxeram à luz o fato de que no centro de praticamente todos os movimentos dos EUA na região sempre está Israel.

Sempre foi tabu falar dessas realidades, tabu que amordaçou gente como o meu interlocutor. Ninguém fala contra Israel, porque quem fale sempre poderá ser dito antissemita, acusado de “selecionar” Israel como alvo preferencial de críticas. A imprensa não discute Israel nem noticia o que Israel faz no Oriente Médio e, nunca, o que Israel faz mais diretamente aos palestinos que vivem sob ocupação militar, porque o tema sempre dispara cartas de leitores indignados e cancelamento de assinaturas de jornais e revistas, dos apoiadores de Israel que militam nos EUA. Candidatos a deputado e senador poriam em risco as gordas doações de campanha, se dissessem a verdade sobre Israel. E assim aconteceu que Israel sumiu do radar da opinião pública. Muitos progressistas até mencionam Israel “de passagem”, como meu amigo, mas nada além disso. E a crítica não avança. 

Ultimamente, porque já não se fala sobre Israel, já ninguém nem pensa sobre Israel. Assim, já ninguém nem vê que Israel é o fator determinante de praticamente todas as políticas e ações dos EUA no Oriente Médio.

É tempo de começar a falar de Israel. Todos, no Oriente Médio, já começam a ver o que há para ver, como a Revolução Egípcia deixou tão claro. É provável que muitos outros, em todo o mundo, também estejam vendo. Temos de começar a ouvir a voz do povo – não dos políticos e líderes, que vivem de dizer o que supõem que nos interesse ouvir.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os “Documentos da PALESTINA” 3 [Palestina Papers]

Saeb Erakat (Fatah, Autoridade Palestina) & David Hale (EUA) em 17/9/2009, 9h
Al-Jazeera, Qatar, “Transparency Unit”[1]
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

PARTICIPANTES:

Autoridade Palestina: Dr Saeb Erakat (SE), Issa Kassissieh, Rami Dajani

EUA: David Hale (DH), Daniel Rubenstein (DR), Dan Shapiro (DS), Mara Rudman (MR), Jonathan Schwartz

[SE, DH e DR encontraram-se antes. Depois chegaram IK e RD]

DH: O senador Mitchell se reunirá conosco amanhã, às 9h45.

Saeb Erakat (SE): Do ponto de vista de Israel, é o que Netanyahu (BN) disse no Parlamento: 2.500 unidades de moradia estão sendo construídas – atenção: unidades de moradia, não prédios; 450 despejos [orig. tenders]; não se discutirá Jerusalém; não se discutirão prédios públicos.

David Hale (DH): É compreensível que, por motivos políticos, Netanyahu tenha falado só de parte do pacote, não de tudo. O que ele disse não é a totalidade e é o que lhe interessa dizer. O ponto, do pacote, é que nenhuma construção será iniciada; não se começará a construir nenhum prédio.

SE: Isso não é verdade. Não foi o que Netanyahu disse.

DH: A construção parará – todas as novas atividades.

SE: Sei que vc fez o melhor que pôde, e esse não é o resultado que você queria. Nas últimas décadas, vocês sempre negociaram com os israelenses considerando o que é possível – o que Israel aceitará. Tenho dito várias vezes que, agora, temos de buscar o que é necessário, o que nos interessa. Em vez disso, você conseguiu o melhor possível. 

Com esse negócio, Bibi dirá que as construções prosseguem, e elas prosseguirão – e haverá mais colônias em 2010 do que em 2009 e 2008. Além disso, não há limites: vocês não reconhecerão a fronteira de 1967, nem o reinício das negociações, do ponto em que ficaram. Em vez disso, você me dá Shalit, os túneis e o Estado judeu. Se se exclui Jerusalém, nenhum muçulmano, nenhum árabe se interessará por nenhum acordo.

DH: Quem disse que Jerusalém será excluída [das declarações]? 

SE: Netanyahu disse. 

DH: Ainda há questões em negociação. A duração – e os prédios públicos serão limitados.

SE: Sei que Bibi prepara-se para anunciar um pacote de construções – Pisgat Zeev, Har Homa…

DH: Sei que ele queria mais, mas há impedimentos políticos. Restringir as construções é melhor que crescimento sem controle por todos os lados.

SE: No que me diga respeito, as colônias continuarão a ser construídas por todos os lados. Agora, há uma diferença em relação ao passado. Tivemos o general Dayton, a EU COPPS e outros. Tivemos de matar palestinos para estabelecer a regra de “uma arma para cada autoridade” [orig. one authority one gun] e a ordem legal. Continuamos a cumprir nossas obrigações. Organizamos o Congresso do Fatah – nosso país continua dividido. Com isso em mente, Netanyahu iniciou o processo de destruir AM e SF e as instituições palestinas. Voltamos a 1996-1999, outra vez. 

E se o governo dos EUA agora adapta suas políticas aos desejos de Netanyahu, tudo virá abaixo, não só os palestinos, mas toda a região.

DR: O pacote não inclui qualquer nova autorização, nenhum novo confisco de propriedade...

SE: Eu não estou chegando de Marte! 40% da Cisjordânia já foi confiscada. Podem continuar construindo casas exclusivas para judeus durante anos e anos, sem precisar fazer nenhum novo despejo!

[MR, DS e JS juntam-se à reunião]

DH: Quanto à declaração, se incluir uma referência a Jerusalém – se conseguirmos que inclua – será concessão substancial dos israelenses. Quanto à referência a 67, tivemos longa discussão com os israelenses ontem. Estamos trabalhando nos termos, para incluir, de alguma forma que tenha a ver com território, uma referência a 67. Se conseguirmos isso, com outros elementos do pacote, vocês terão meios para superar as imperfeições do pacote – com o fim de novas construções nas colônias – e o início de um processo político?

SE: Tenho de ver um texto escrito – e teria de trabalhar com vocês nesse texto. Nada nos interessará se não fizer referência a dois estados e à fronteira de 1967. Já conhecemos essas fórmulas de linguagem, há muito tempo, em Oslo, no Mapa do Caminho. Agora, depois das últimas negociações com Olmert, os EUA têm  de declarar sua posição sobre as fronteiras. Nesses termos, podemos trabalhar num texto de declaração…

DH: Vamos repassar isso. Há dois níveis de texto: primeiro, o que o presidente Obama dirá, as metas e os princípios. Segundo, Mitchell falará e dará mais detalhes à imprensa, como release geral, e explica o pacote e os compromissos que cada lado, Israel, os palestinos e os árabes, assumiram. Quanto à declaração do presidente, queremos ter certeza de que não haverá surpresas para nenhum dos lados.

DS: Estamos desenvolvendo módulos de construção para o discurso. Tomara que consigamos abarcar os conceitos, na amplidão e na compreensão. Então, a máquina de produzir discursos da Casa Branca trabalhará sobre os módulos e os converterá em palavras finais. Quero dizer, não podemos redigir tudo, mas temos de assegurar que não haverá surpresas.

DH: A declaração será geral. Teremos tempo depois do 22 para trabalhar sobre os detalhes até a próxima reunião, esperamos que em outubro. Também queremos garantir que nós não fecharemos nenhuma porta.

SE: Quando falaram com os israelenses, perguntaram se estão dispostos a retomar negociações das quais nós já saímos?

DH: Preferimos falar em “relançar” [orig. “relaunch”] e declarar o objetivo do relançamento. Essa é nossa posição sobre o assunto.

SE: Digamos então que façamos isso. Vamos à reunião trilateral, depois a Sharm e depois sentamos numa sala com os israelenses e Mitchell. Eu trago um mapa de Jerusalém. Como os israelenses reagirão?

DH: Vamos examinar essas questões – sequências etc., mas mencionaremos Jerusalém na declaração.

DS: Se o presidente falar claramente de Jerusalém, então, sim, há alguma coisa

SE: Há sim! Claro, mas não podemos falar sobre isso agora... Há problemas com a coalizão, Shas, Lieberman … Sei como isso funciona.

DS: Claramente, não podemos dar-lhes garantias sobre o que Israel negociará – só podemos falar sobre nossa posição.

MR: A sequência [da discussão] é sempre problema.

SE: Então, o que eu discutirei com eles – um estado com fronteiras provisórias? Dê-me licença para ser bem sincero: vocês fizeram grande esforço para conseguir o congelamento das construções e nada conseguiram. Vocês não conseguiram o que Netanyahu teria de ter concedido, para que fosse possível relançar as negociações. Israel, portanto, responderá que: nada de Jerusalém, milhares de novas unidades construídas, prédios públicos, nove meses – por falar nisso, ele concordarão com os nove meses – que é o limite deles. Depois, Israel negociará com vocês esse limite. Quero dizer: nenhum congelamento nas construções, nenhum, nem uma hora, que fosse de congelamento nas construções! Mais construções em território ocupado, em 2010, que em 2009. [Fala para Daniel Rubenstein, DR] Você sabe disso. Sua equipe tem todos os números.

Em resumo, no primeiro dia, Netanyahu disse: Jerusalem, capital eterna e indivisa de Israel; estado desmilitarizado na Palestina, que não controlará nem as próprias fronteiras, nem o espaço aéreo. Nada de retorno dos refugiados. Se concordarem com isso, aceitamos negociar um pedaço de papel inútil e um hino.

Nós investimos tempo e esforço e chegamos a matar palestinos, nosso povo, para manter a ordem e a lei. O primeiro-ministro está fazendo todo o possível para construir instituições. Ainda não somos um país, mas somos os únicos, no mundo árabe que controlamos o Zakat [um ‘dízimo’, espécie de imposto que os muçulmanos pagam] e os sermões nas mesquitas. Estamos fazendo a nossa parte. 

Agora, Netanyahu voltou, como em 96. Mas naquele momento, as relações entre israelenses e palestinos estavam no melhor ponto. Nada de ataques nem violência. Netanyahu trabalhou incansavelmente para destruir aquilo que havia – e minha opinião é que, agora, está reiniciando o mesmo processo, outra vez. Vocês sabem que tentei organizar vários encontros com os israelenses – com Arad e Molho. Sempre se recusaram a qualquer contato. Marcavam reuniões e, depois, cancelavam. Arad cancelou três vezes.

Então, restam três opções: 1. vamos a NY para a trilateral, com essa fórmula. É o mesmo que nada. Não servirá para iniciar coisa alguma. Não é opção para nós. 2. Não vamos e declaramos o fracasso das negociações – fracasso e frustração. Tudo isso levará a uma explosão de frustração que fortalecerá o Hamás e outros. 3. Fazemos encontros bilaterais e continuamos a falar sobre um pacote, mas com mais clareza. Talvez vocês consigam reconhecer um estado palestino, nas fronteiras de 67. Não subestimem a opinião pública palestina e suas expectativas, nem o que vocês ajudaram a construir. Quando Netanyahu fala sobre excluir Jerusalém [das negociações], ele o faz exclusivamente para que nós não possamos participar, porque ele não quer que haja nenhuma reunião e nenhuma negociação.

DS: Mas, ao se recusar a ir, vocês não estão jogando o jogo dele?

SE: São vocês que me metem nessa posição! Me obrigam a negociar com uma pistola apontada para a minha cabeça: se fizer, você se dana, se não fizer, também se dana. Pessoalmente, imaginei que vocês nos trariam, no mínimo, uma moratória. E me aparecem com nada! 

DR: Deixe de lado, por um momento, o que Netanyahu diz. O que vocês conquistaram existe, é real – o futuro estado da Palestina está em processo de criação, e os EUA continuaremos a apoiá-lo. Mas não é possível transformar o plano em realidade, sem um processo de negociação. Esse ponto é uma transição – uma transição crucial.

SE: Faço exatamente a mesma coisa há 16 anos. Essa é a última vez. Só entrarei nesse jogo se houver o que ganhar. Há preparações a fazer. Enquanto isso continuamos a construir condições de cooperação, nos interessassem ou não. Dessa vez, é preciso preparar melhor as condições de negociação política.

DH: E o que vocês fariam, diferente do que estamos propondo?

SE: Eu sentaria com os israelenses e procuraria descobrir se há algo que se possa discutir. Se eles querem um estado com fronteiras provisórias, podemos discutir, em vez disso, uma 3ª realocação. Temos de saber o que eles têm a oferecer.

O que não é possível é vermos os EUA aceitarem mais construções nas colônias e nos arrastarem pela estrada, nessa viagem que não nos interessa. Nós não precisamos reinventar a roda e começar tudo do zero, desde a primeira mordida na maçã – conhecemos os mínimos detalhes dessas discussões com Israel – inclusive os arranjos, por exemplo, para por o cemitério ao lado do hotel dos 7 Arches, planejado para ser a embaixada de Israel. Nós podemos perguntar diretamente aos israelenses: o que podem fazer conosco? E lembrem: Israel não é Bibi e Molho e Arad. Há  muita gente em Israel cujo único sonho não é ser rei de Israel para reinar até o fim dos tempos. Há muita gente em Israel que só pensa em derrubar Netanyahu. É um jogo político – aqui se faz, aqui se paga.

Hoje, todos os palestinos falamos numa só voz sobre esses temas. Aprendemos muitos de erros passados. Somos nação jovem, inexperiente. Mas aprendemos muito, negociando com outros governos.

DS: O presidente Obama tem demonstrado compromisso pessoal e verdadeiro com os palestinos. O que você diz indica que vocês tendem a não valorizar o compromisso do presidente. Acho estranho que esse compromisso do presidente não pareça ter grande valor para vocês.

SE: Não se trata de personalidades, pessoas ou consciência. Bush não acordou, uma manhã, e sua consciência lhe disse “solução dois Estados”. Aqui se discutem interesses. Estamos há 17 longos, dolorosos anos nesse processo, e só agora começamos a tomar o nosso destino em nossas mãos. Não podemos deixar que se destrua tudo, outra vez.

DH: Estará sendo destruído se vocês não insistirem em buscar o resultado de dois estados.

SE: Netanyahu jamais concordará com dois estados. Se os EUA, que tentam há meses, ainda não conseguiram que Israel aceite o que o próprio senador Mitchell escreveu – antes do Mapa do Caminho, no “Relatório Mitchell” …

DH: Ninguém pode obrigar um governo soberano. Só podemos usar a persuasão, negociar, e usar o peso de interesses partilhados.

SE: Claro que poderiam obrigar Israel, se quisessem. Como supõem que esse fiasco se refletirá na credibilidade dos EUA... se não conseguem nem isso, de Israel?

DS: Nossa credibilidade não está em discussão. [DH pede reunião a dois, com SE]

NOTA
[1] A “Transparency Unit” [Unidade Transparência] da rede Al Jazeera [ing. Al Jazeera Transparency Unit (AJTU)] foi constituída para mobilizar o público leitor e telespectador – no mundo árabe e em todo o planeta – a enviar todos os tipos de conteúdos (documentos, e-mail, imagens, áudios e vídeos, além de sugestões de pauta), para que sejam analisados por nossa equipe editorial para possível divulgação.