Mostrando postagens com marcador MJ Rosemberg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MJ Rosemberg. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de junho de 2011

Como o “lobby” israelense congela o debate sobre o Oriente Médio

MJ Rosemberg

4/6/2011, MJ Rosenberg, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Essa semana, depois da escandalosa recepção ao primeiro-ministro Netanyahu no Congresso dos EUA, quero partilhar uma lembrança pessoal de como o status quo no Oriente Médio é preservado no Capitólio.

Era 1988, e eu trabalhava como assessor para política exterior do senador Carl Levin (Democrata, Michigan). Um dia, em fevereiro, Levin chamou-me a sua sala. Estava muito preocupado com uma declaração que lera no New York Times aquele dia. Um artigo citava o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Shamir, que dissera que rejeitava a ideia de retirar-se de qualquer parte da terra que Israel ocupara na guerra de 1967: “O ministro Shamir disse em entrevista a uma rádio, que ‘é claro que, para mim, nenhuma troca de território por paz será jamais aceitável’” (matéria de arquivo, só acessível para assinantes do jornal).

Levin entendeu perfeitamente o que Shamir estava fazendo: estava repudiando duas Resoluções do Conselho de Segurança da ONU, n. 242 e 338 (de cuja redação Israel participou) e que ordenavam “a retirada das forças armadas de Israel dos territórios ocupados no recente [1967] conflito” em troca de paz e segurança. Aquelas resoluções manifestavam então, como manifestam até hoje, a política oficial dos EUA e da ONU. Mas, em 1988, Shamir as declarara nulas e sem efeito.

Levin pediu-me que redigisse uma carta dirigida ao secretário de Estado George Shultz, declarando que o Senado dos EUA entendia que as resoluções da ONU permaneciam plenamente válidas e manifestavam a política dos EUA, Shamir gostasse ou não. A carta foi escrita, não exatamente nesses termos, é claro: uma carta muito polida. E Levin queria que a carta fosse endereçada a Shultz, não ao próprio Shamir, para evitar arrepiar demais os falcões de Israel.

Escrevi um primeiro rascunho. Levin editou e reeditou. Em seguida, convocou o presidente do AIPAC, Thomas A. Dine, para que examinasse os termos da carta. Tom aprovou: na avaliação dele, a carta estava “ótima”. Levin disse a Dine que manteria em sigilo o fato de que a carta fora aprovada por ele, para evitar-lhe qualquer embaraço.

Levin então pediu-me que entregasse a carta ao secretário de Estado, mas pediu algum tempo porque, antes, queria tentar reunir algumas outras assinaturas de senadores. Em uma hora, a carta estava assinada por 30 senadores. Não fosse sexta-feira, Levin teria facilmente reunido mais uma centena de assinaturas, mas era tarde, e a Casa já estava praticamente vazia.

Entreguei a carta. Levin não queria excessivo alarde sobre a carta e, por isso, o gabinete do senador não informou a imprensa. Na prática, era iniciativa secreta.

Mas um dos senadores passara cópia da carta ao New York Times. E em minutos os telefones começaram a tocar. Repórteres e financiadores do AIPAC (que não sabiam que Dine conhecia e aprovara o texto) estavam furiosos.

Levin foi procurado para entrevistas pelos três principais programas de notícias das manhãs de domingo. Não aceitou. De fato, como previsto há muito tempo, embarcou no sábado para Moscou.

No domingo, a primeira página do New York Times estampava manchete e longa matéria sobre a “Carta dos 30”, de Levin:

“Trinta senadores dos EUA, inclusive muitos dos principais apoiadores de Israel, enviaram carta em que criticam o primeiro-ministro Yitzhak Shamir e seu Partido Likud, sugerindo que estariam obstruindo esforços para um acordo de paz no Oriente Médio.

A extraordinária crítica pública a Israel veio em carta dirigida ao secretário de Estado George P Shultz, que retornou hoje de viagem de vários dias ao Oriente Médio. O secretário Shultz propôs, nessa viagem, as linhas gerais de um acordo provisório entre Israel e os palestinos (...).

Os senadores que assinaram a carta declaram-se preocupados ante a continuada resistência, por Israel, à ideia de ceder terras ocupadas em troca de paz, pedra angular dos esforços do secretário Shultz. Embora a carta também critique outros estados árabes, exceto o Egito, auxiliares do senador informaram que a intenção foi, principalmente, mandar recado claro ao primeiro-ministro Shamir e ao bloco do Likud.”

Era tão significativo o fato de que, antes, nenhum senador dos EUA jamais criticara qualquer política de Israel (nem indiretamente), que, no domingo, o Sunday Times insistiu no assunto e publicou a carta na íntegra.

Na segunda-feira, o mundo veio abaixo. Como Levin estava na Rússia, seus assessores tiveram de responder aos telefonemas dos jornais e às ameaças de doadores de campanha, eleitores e organizações ‘pró-Israel’, todos furiosos. E, às tantas, aconteceu algo absolutamente inimaginável.

Um alto funcionário da embaixada de Israel veio ao gabinete, para apresentar pessoalmente mensagem de protesto do primeiro-ministro Shamir. O chefe de gabinete do senador Levin, Gordon C Kerr, disse-lhe que não fazia sentido algum um funcionário de embaixada apresentar qualquer protesto contra carta de senadores norte-americanos dirigida ao próprio governo dos EUA. Disse-o, é claro, em termos absolutamente polidos. O funcionário da embaixada de Israel insultou Levin e fez-lhe graves ameaças. Kerr expulsou-o do gabinete.

Simultaneamente, Levin recebeu mensagem do presidente Ronald Reagan em que o presidente agradecia a contribuição de organizar apoio à posição do seu governo; e Shamir pôs-se a telefonar para os senadores, dizendo-se “atônito” por suas políticas estarem sendo alvo de críticas.

Aconteceu então o momento que, para mim, foi a experiência mais chocante de todos os anos em que trabalhei para o governo dos EUA. William Safire, o colunista mais influente do New York Times, telefonou-me, em fúria. Disse que sabia, de fonte segura, que nem Levin nem eu escrevêramos aquela carta. Disse que sabia que a carta fora escrita por um assessor do líder do Partido Labour de Israel, Shimon Peres.

Disse que aquele assessor, alguém chamado Yossi Beilin, entregara-me um rascunho manuscrito da carta e que eu convencera Levin a assinar e reunir apoios. Disse-me que eu trabalhava para derrubar o governo de Shamir e substituí-lo por governo de Peres. Por pouco não deixei escapar uma gargalhada.

A simples ideia de que um assessor de senador tivesse tanto poder já era, só ela, um absurdo. Mas Safire fez ameaças. Perguntou se eu achava correto que um assessor de um senador dos EUA estivesse a serviço de partido político estrangeiro, e se eu sabia o que aconteceria quando Levin descobrisse sobre mim, na coluna de Safire no New York Times. Assustador. Como assessor de senador, eu jurara fidelidade aos EUA e à Constituição. Tinha passe livre, dado pela segurança. As consequências seriam arrasadoras.

Eu disse a Safire que eu rascunhara a carta e que Levin reescrevera, ele mesmo, longos trechos. Disse que jamais ouvira falar de Beilin (pura verdade). Safire, então, enlouqueceu. Disse que sabia que eu estava mentindo, porque recebera a história “real” de fontes seguras: de Benyamin Netanyahu, então embaixador de Israel na ONU, e de Steve Rosen, número dois do comando do AIPAC (que, mais tarde, foi acusado de espionagem).

Respondi que não me interessava quem lhe tivesse contado. Que era mentira. E que Levin tomara a iniciativa de escrever ao secretário de Estado para ajudar Israel, porque entendia que, se Israel se opusesse à retirada dos territórios palestinos ocupados, o conflito jamais teria fim.

A conclusão da conversa foi que Safire recuou, não antes de me ameaçar mais uma vez: se ele descobrisse que eu mentira, eu estaria “acabado”. Disse que não escreveria a coluna, porque – acredite quem quiser – acreditava mais em mim que em suas fontes.

E foi isso. Ninguém mais falou sobre a “Carta dos 30”, exceto para lembrar que, depois dos ataques viciosos contra Levin, poucos senadores dos EUA voltaram a desafiar o governo de Israel e o AIPAC.

E qual é a moral da história?

É a seguinte: criticar Israel é muito perigoso. Não fosse o medo, o que levaria um poderoso colunista do New York Times a telefonar a um assessor de senador e ameaçá-lo nos termos em que Safire ameaçou-me, de destruir minha carreira? Só o medo. E o que faria um colunista do New York Times agir como empregado do governo de Israel? Naquele dia, Safire não foi nem jornalista: trabalhava como agente do governo de Israel.

Quem, sabendo disso, surpreender-se-ia com o circo em que se converteu o senado dos EUA, aos pulos nas cadeiras, levanta e senta, levanta e senta, gritando de amores por Netanyahu? Quem se atreveria a vaiar um gorila de uma tonelada? Com certeza, não os eleitos para o Congresso dos EUA.

A parte boa de toda essa história, é que Levin apoiou-me 100%.

A carta criou-lhe muitos problemas com doadores de campanha, mas ele sempre a defendeu – e de lá até hoje já foi reeleito quatro vezes. De fato, disse-me, há muito tempo, que se orgulha muito de ter redigido aquela carta. Ele redigiu. Não eu.

domingo, 3 de abril de 2011

A nova estratégia do “lobby” israelense

MJ Rosemberg
15/3/2011, MJ Rosenberg - Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

AIPAC é uma ferramenta útil quando você quer prever o futuro de qualquer negociação de paz entre israelenses e palestinos.


AIPAC é um bom indicador da posição israelense.  PM  Benyamin Netanyahu
[Foto Getty Images]

O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu tem sido pesadamente criticado em Israel pela flagrante exploração da morte de cinco membros de uma família (três crianças) na colônia de Itamar próxima de Nablus. Particularmente lamentável tem sido a campanha de Netanyahu, que continua a exigir que Mahmoud Abbas fale à imprensa palestina para condenar as mortes, mesmo depois de Abbas ter divulgado declaração excepcionalmente forte, no instante em que soube da tragédia.

Esqueçamos por um instante que ninguém sabe quem cometeu o crime e que ninguém crê que os assassinos sejam associados a Abbas. Deixemos de lado também que Netanyahu jamais condenou ou manifestou sequer remorso pelo assassinato de mais de 300 crianças palestinas pelo exército de Israel na guerra de Gaza. (De fato, não há notícia de governo israelense que sequer tenha criticado a morte de crianças palestinas em ações do exército de Israel, apesar de haver centenas de crianças mortas pelo exército de Israel na última década).

Até aí não há novidades. O que é novidade é a decisão de Israel de culpar a Autoridade Palestina (e não exclusivamente, dessa vez, o Hamás), AP que, até há pouco tempo, Israel elogiava como parceira. Essa mudança tornou-se evidente no último mês, quando o lobby israelense nos EUA, reunido no AIPAC, começou a atacar Abbas e a Autoridade Palestina, voltando ao velho estilo dos piores dias, quando o lobby israelense tratava com igual fúria todos os palestinos, vistos homogeneamente como inimigos de Israel.

Há pelo menos três motivos para que se acompanhem de perto os movimentos futuros do American Israel Public Affairs Committee, Comitê EUA-Israel de Negócios Públicos, em inglês AIPAC, com vistas a entender melhor os eventos do Oriente Médio.

Primeiro, porque as posições do governo Netanyahu são manifestação fiel das posições do AIPAC, embora, vez ou outra Netanyahu divulgue as posições antes de o AIPAC tornar públicas suas decisões.

Segundo, porque as políticas do AIPAC permitem antecipar, não por coincidência, as posições vencedoras nas discussões no Congresso dos EUA.

E terceiro, porque o que diga ou faça o AIPAC sempre é indicador seguro dos passos futuros do governo de Obama, que recebe “orientação” tanto do próprio AIPAC quanto de Dennis Ross, ex-presidente do Washington Institute for Near East Policy, think tank do AIPAC e, hoje, principal conselheiro do presidente para assuntos do Oriente Médio.

Os próximos meses são particularmente importantes, porque o AIPAC prepara sua Conferência Anual, que acontecerá nos dias 22-24 de maio. A conferência do AIPAC é evento gigantesco, do qual participam praticamente todos os deputados e senadores dos EUA, o primeiro-ministro de Israel e ou o presidente ou o vice-presidente dos EUA. Também participam da Conferência Anual do AIPAC milhares de delegados de todo o país e candidatos ao Congresso, que ali fazem campanha de arrecadação de dinheiro para suas campanhas eleitorais. Esse ano, os principais aspirantes a candidatos do Partido Republicano à presidência dos EUA também estarão presentes, todos ocupados em vender a qualquer preço sua lealdade eterna à agenda política do AIPAC. 

A conferência começa, de fato, muito antes de convergir e lotar o imenso Washington Convention Centre. Agora mesmo, os principais funcionários do AIPAC decidem que políticas merecem ser apresentadas às centenas de delegados. Essas políticas constituirão a agenda, não só da conferência, mas do próprio AIPAC para os próximos 12 meses (interessados em conhecer o livro publicado das políticas do AIPAC apresentadas para votação na conferência do ano passado encontram-no como PDF: 111th. Congress, Second Session – AIPAC Briefing Book.
   
Nos anos recentes, a principal mensagem do AIPAC têm mirado o Irã e o que o lobby pensa sobre as ameaças trazidas a Israel pelo programa nuclear iraniano. Orador após orador, nas várias conferências anuais do AIPAC ao longo da última década (entre os quais o sempre histriônico primeiro-ministro Benyamin Netanyahu), têm invocado o Holocausto como metáfora preferida, sempre que se referiam à possibilidade de o Irã construir armas atômicas.

Esses oradores pavimentaram o caminho para a aprovação de leis que impuseram “sanções debilitantes” ao Irã – e para a inclusão da “opção militar” que permaneceu “sobre a mesa” para o caso de as sanções não conseguirem dar cabo do programa nuclear iraniano. Praticamente todos os projetos que resultaram em leis de sanção ao Irã aprovadas pelo presidente Obama nasceram no AIPAC.

Mas em 2011, o Irã terá de dividir as atenções do lobby, com preocupações sobre as revoluções democráticas que agitam o mundo árabe. Aquelas revoluções fizeram de 2011 um annus horribilis para o AIPAC e para Netanyahu, e o ano ainda nem chegou à metade.

Temas

As primeiras indicações sugerem que o principal tema da conferência do AIPAC será que Israel, outra vez, está “sem parceiro” com o qual negociar. É tema velho, mas que volta nos momentos em que a direita israelense deixa de ver a Autoridade Palestina (liderada por Mahmoud Abbas e Salam Fayyad) como parceira e colaboradora na missão de manter o status quo.

Como os “Palestine Paper” de Al Jazeera demonstraram, Abbas e Fayyad raramente dizem “não” ao governo Netanyahu – o que fez deles o único tipo de parceiro aceitável para a troika Netanyahu-Lieberman-Barak.

Mas, temendo que alguma democracia se aproxime, a Autoridade Palestina, ultimamente, começou a dar sinais de ter espinha dorsal. Recusou-se a curvar-se à exigência de EUA e Israel de que engavetasse a resolução do Conselho de Segurança da ONU de condenação às colônias israelenses. Recusa-se absolutamente a negociar com israelenses, antes que Israel desocupe as terras que estariam sendo negociadas. E, o que mais perturba Netanyahu e companhia, diz que planeja declarar unilateralmente o estado da Palestina no verão que se aproxima.

Netanyahu, que precisa da ilusão de movimento, para não deixar ver que não há movimento algum, começa a sentir a pressão. Até Angela Merkel, chanceler alemã e empenhada apoiadora de Israel, apoiou a resolução da ONU que condena as colônias israelenses em território ocupado e comunicou sua decisão a Netanyahu, em telefonema do dia 24/2, que foi muito divulgado. Disse a Netanuahu que os europeus estão fartos, cansados dele. O jornal Haaretz noticiou:

“Netanyahu disse a Merkel que estava desapontado com o voto da Alemanha (...). Merkel enfureceu-se. “Como você se atreve?!” – disse ela. “Você, sim, nos desapontou: até agora não deu um passo sequer em direção à paz.” 

Muito perturbado, Netanyahu imediatamente disse que estava pronto a anunciar seu plano para por fim ao conflito Israel-palestinos. Disse aos aliados políticos que tem de agir rápido, para impedir que cresça a pressão do chamado “Quarteto” (ONU, EUA, União Europeia e Rússia), que se deve reunir ainda esse mês para definir os parâmetros para um acordo definitivo. Preparando essa reunião, o ministro de Relações Exteriores da Grã-Bretanha William Hague disse que a base territorial para qualquer acordo tem de ser as fronteiras de antes de 67 – a última coisa que Netanyahu deseja ouvir.

Notícias de Israel informam que o plano de Netanyahu não inclui as fronteiras de 67 e, em troca, oferece um Estado da Palestina com fronteiras temporárias e congelamento muito restrito de novas construções (em Jerusalém, nada seria congelado).

Sabendo que a Autoridade Palestina já não pode nem considerar tal plano, Netanyahu decidiu rotular preventivamente os ex-amigos de Israel na Autoridade Palestina como terroristas extremistas – na esperança de que, nesses termos, o Congresso dos EUA e o governo Obama apoiarão seu plano. Netanyahu espera que, se assegurar o apoio dos EUA, conseguirá bloquear qualquer iniciativa do Quarteto. Mais uma vez, seu objetivo é deixar tudo como está, o que torna indispensável que os EUA aceitem seus esquemas. Até aqui, a tática tem dado certo.

Guerra suja 

O que, afinal, explica a nova abordagem do AIPAC: enlamear a Autoridade Palestina. Quando a Conferência do AIPAC chegar ao fim, o mantra “Israel não tem parceiros” terá voltado ao primeiro lugar na parada de sucessos – candidato a ‘disco de ouro’.

Vejam-se, por sinal, algumas mensagens que o AIPAC tem distribuído pelo Twitter nos últimos dias (novas tecnologias, para velhas mensagens):

AIPAC: A Autoridade Palestina não quer que organização terrorista seja chamada de organização terrorista: quer que o governo una-se aos terroristas. 

AIPAC: A Autoridade Palestina quer impedir a soberania de Israel. Obama não permitirá o que já chamou de “erro estratégico”. 

AIPAC: Autoridade Palestina disse NÃO a Israel.

Para comparar, eis um tuíte típico do AIPAC, antes de a Autoridade Palestina começar a oferecer resistência a Netanyahu:

AIPAC: Conversações com Abbas levarão a um acordo de paz ainda esse ano? “Sim, tenho certeza que sim” – disse Netanyahu.

Em resumo, trata-se do seguinte: os europeus, a ONU e, pode-se dizer, todo o mundo – exceto os EUA – temem que a Autoridade Palestina esteja à beira do colapso e que arraste, nesse colapso, até a ideia de algum processo de paz. Então, afinal, começaram a empenhar-se seriamente para reabrir as negociações. Para que haja negociações reais, é indispensável que Israel suspenda todas as construções em territórios ocupados, no mínimo. É como se todos estivessem percebendo que uma Autoridade Palestina vista (como realmente é vista) como lacaia de Israel não conseguirá sobreviver. Já ninguém confia em qualquer boa intenção do governo Netanyahu.

Inverter a mão 

O governo de Israel, que também já entendeu tudo isso, decidiu fazer todo o ônus recair sobre os palestinos, para escapar às pressões. Mais importante: Israel está paralisada de medo de que a Autoridade Palestina leve avante o plano de, no próximo verão, declarar unilateralmente o Estado da Palestina – única ideia da Autoridade Palestina, em anos, que realmente pode prosperar.

Israel, pois, precisa que os EUA paralisem a Autoridade Palestina, seja pelo meio que for, inclusive com corte total de qualquer ajuda dos EUA (e, mesmo, de outros países) aos palestinos (e, isso, no momento em que Barak, ministro da Defesa de Israel, está pedindo mais 20 bilhões de ajuda militar aos EUA). O objetivo de curtíssimo prazo, crucialmente importante para Netanyahu é impedir que se declare unilateralmente a independência palestina. E Netanuahu escolheu conseguir isso, obrigando Obama a apoiá-lo (o que, afinal, não será muito difícil, com as eleições de 2012 já se aproximando).

Por isso, deve-se esperar para breve um novo plano de paz de Netanyahu. Por isso, também, a AIPAC está dedicada a denegrir os palestinos. E por isso, ainda, é que logo veremos o AIPAC obrigar o Congresso dos EUA a repetir, em uníssono: “Israel não tem parceiro palestino”. Em seguida, o Congresso exigirá que o governo Obama apóie o plano de Netanyahu, que será declarado o mais generoso da história.

Nesse ritmo, logo veremos o governo de Israel e o lobby ressuscitarem o velho mantra (1948-1977) de que “não existe povo palestino”.

Tudo isso, para manter o sujo, mortífero status quo. Até hoje, essa tática sempre funcionou. É possível que funcione mais uma vez. E mais uma vez, como sempre, a vitória do AIPAC e de Netanyahu será derrota para Israel e para os EUA.

Os palestinos, por seu lado, bem farão se construírem estratégia unificada, de todos os palestinos, e se se mantiverem firmes no projeto de declarar unilateralmente a própria independência. Como diria David Ben-Gurion, a autodeterminação exige, muitas vezes, que se ande sozinho.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

“Sou leal a Israel, não a Obama”

Comentários entreouvidos, dentre muitos, aqui na Vila Vudu
O ridículo dessa direitona sionista fascista universal não tem limites
“Perigas de o senador Álvaro Dias perder o título de “Sarah Pallin Tropical!"
 “Te cuida, William Waack! Abre o olho Ali Kamel!”
“D. Eliane Cantanhêde, olhaíssó! Perigas de esse Eric Cantor tirar seu emprego!”

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Declaração do próximo líder da maioria, Eric Cantor (Republicano de Virginia) na Câmara de Deputados dos EUA, jurando lealdade a Israel
MJ Rosenberg, 18/11/2010, Al-Jazeera, Qatar - Republican Cantor recants on Israel


Deputado recém eleito e próximo líder da maioria na Câmara de Deputados dos EUA, Eric Cantor (R-VA) tenta, agora, desesperadamente explicar que não disse o que disse ao primeiro-ministro de Israel Binyamin Netanyahu, na 4ª-feira.

Cantor esteve com Netanyahu pouco antes de o primeiro-ministro israelense encontrar-se com a secretária de Estado Hillary Clinton. Na reunião, esperava-se que Clinton reafirmasse o compromisso dos EUA com o prosseguimento das conversações de paz entre israelenses e palestinos e de oposição aos planos de Israel de construir novas casas exclusivas para judeus nos territórios palestinos ocupados.

Cantor então quis que Netanyahu soubesse que, dissessem os Democratas o que dissessem, ele e os Republicanos sempre apoiariam Israel.

O gabinete de Cantor já distribuiu nota sobre o juramento de fidelidade de Cantor a Israel: “O deputado Eric chamou a atenção do primeiro-ministro de Israel para o fato de que a nova maioria Republicana trabalhará para vigiar o governo e contra a noção de que Washington governa como se não houvesse oposição” – diz a nota.

“Declarou que a maioria Republicana entende o relacionamento muito especial que há entre os EUA e Israel, e que a segurança de cada nação depende da segurança da outra.”

À primeira sandice, Cantor acrescentou, portanto, uma segunda sandice: que a segurança dos EUA dependeria da segurança de Israel e vice-versa.

Não. A segurança de Israel depende dos EUA, que dão a Israel toda a assistência de que Israel precisa. O vice-versa não existe.

Mas deixemos de lado a segunda sandice. Na declaração de Cantor, de lealdade a Netanyahu, o que mais choca é a promessa de que a maioria Republicana na Câmara de Deputados dos EUA trabalhará para vigiar a política dos EUA para o Oriente Médio.

Quase instantaneamente, o diretor da sucursal em Washington da Jewish Telegraphic Agency, Ron Kampeas, disse que a frase de Cantor parecera-lhe “espantosa”.

Acrescentou que não se lembrava de “outro líder de oposição que tenha dito a mandatário estrangeiro, em encontro pessoal, que apoiará o país estrangeiro contra o presidente dos EUA.” Kampeas estava evidentemente chocado, mas, de fato, repetiu e reforçou a enorme ofensa já praticada por Cantor.

A declaração de lealdade de Cantor a representante de país estrangeiro já seria “espantosa” e configuraria ofensa grave ao presidente dos EUA, mesmo que tivesse sido feita a representante do Canadá ou do Reino Unido, dois dos mais próximos aliados dos EUA, em relação aos quais praticamente não há qualquer divergência.

Mas há diferenças políticas consideráveis entre os EUA e Israel, que existem há décadas, sobretudo quanto à construção de colônias exclusivas para judeus em territórios palestinos ocupados – na Cisjordânia, em Gaza, em Jerusalém Leste etc.

Israel é também destinatário da maior ajuda que os EUA distribuem em todo o planeta, o que significa que o presidente dos EUA tem pleno direito de manifestar com firmeza e clareza todas as diferenças políticas que haja entre Israel e EUA.

Mas nenhum funcionário público norte-americano, eleito ou nomeado – e em nenhum caso – tem direito de declarar apoio a Israel ou a qualquer governo estrangeiro, no caso específico em que esse apoio implique apoio a governo estrangeiro contra posições do presidente dos EUA.

Uma coisa é fazer oposição a algumas políticas dos EUA; outra coisa completamente diferente é dizer a representante estrangeiro “Estou com você; não estou com meu presidente.” Ah, mas, sim: não há dúvidas de que Cantor foi sincero.

Chama a atenção que, assim como se opõe sem qualquer critério a todas as políticas do presidente Obama – Cantor é Republicano e opor-se ao presidente Obama é exatamente o que fazem todos os Republicanos –, o Deputado apóie também sem qualquer critério todas as políticas de Israel.

Cantor é obsessivamente partidário, no plano doméstico. Mas, no que tenha a ver com Israel, nenhum partido o preocupa: em Israel ele apoia qualquer partido e qualquer governo. Sente-se no direito de criticar o atual governo dos EUA; mas, em Israel, pouco lhe importa o governo que esteja no poder.

Cantor não errou por ter dito a Netanyahu o que, afinal, não é segredo para ninguém. Errou por ter dito ao mundo que disse o que disse a Netanyahu. É a definição clássica, em Washington da palavra “gaffe” – enunciar inadvertidamente uma verdade inconveniente. No caso de Cantor, a gaffe desencadeou uma tempestade.

Por isso tenho a impressão de que Cantor simplesmente não entende o que está fazendo.

Cantor é homem do American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) desde sua primeira eleição. Já deve ter perdido a conta do número de reuniões do AIPAC a que assistiu. Vezes mais do que suficientes para já ter entendido que o lobby judeu é obsessivamente atento ao que diz e faz; nunca, em momento algum, o lobby judeu deixou de manifestar total lealdade aos EUA; simultaneamente, apoia as políticas israelenses que visam a minar os objetivos de nossa política externa.

Nunca, em momento algum, ouviu-se qualquer voz do AIPAC declarar-se leal a Israel e não-leal aos EUA. De fato, a acusação de deslealdade aos EUA é a acusação que o AIPAC mais detesta. Aí então, sem mais nem menos, aparece o próximo líder da maioria Republicana na Câmara de Deputados e professa sua lealdade a Israel, contra os EUA: estou com Israel, acerte ou erre.

Cantor precisou de vários dias para dar-se conta de o quanto sua frase foi ofensiva. Provavelmente, ouviu protestos até de tipos do “Tea Party” os quais, diga-se deles o que se disser, levam muito a sério a lealdade aos EUA.

Então, Cantor pôs-se a explicar que havia sido mal interpretado. A verdade inconveniente enunciada para quem quisesse ouvir, a gaffe, passou a ser divulgada como se não tivesse sido o que foi. Eis o que Dana Milbank, do Washington Post escreveu:

Brad Dayspring, assessor de imprensa de Cantor, contou-me que a promessa de Cantor, de que a maioria Republicana “trabalhará para vigiar o governo” nada teve a ver com as relações Israel-EUA”.

Mmmm. Não vejo como a jura de Cantor, de lealdade a Netanyahu, contra Obama, poderia “nada ter a ver com as relações Israel-EUA”, no contexto em que ocorreu – antes de Netanyahu encontrar-se com Clinton – e apesar de Cantor estar falando com o primeiro-ministro de Israel. E a propósito de quê, então, Cantor teria dito o que disse?

Teria dito o que disse, para explicar a rejeição à lei “Não pergunte, Não responda” [ing. “Don't Ask, Don't Tell”] ou para manifestar-se contra os cortes de impostos para milionários, de Bush? Talvez... a respeito de subsídios para a agricultura? Calma, Eric. Essa ‘explicação’ parece piada!

Não há nem poderia haver dúvida alguma sobre o que os Republicanos andam dizendo. E dessa vez, serão responsabilizados pelo que, sim, disseram.