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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Bibi, o sociopata

3/10/2013, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Artigo novo, em Russia Today, sobre Bibi na ONU. Russia  Today suavizou o título, que era Bibi The Sociopath (3/10/2013, Pepe Escobar, Facebook).

Bibi, o "Sociopata"
Mísseis iranianos atingirão New York em “de três a quatro anos”. Um Irã nuclear é igual a “50 Coreias do Norte”.

Pode ser a fala de sociopata doido e perigoso, ou o discurso que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin “Bibi” Netanyahu fez à Assembleia Geral da ONU. Compare você mesmo: semana passada, o presidente o Irã, Hassan Rouhani, lá estava, convocando o mundo a surfar a onda contra a Violência e o Extremismo, no seu projeto WAVE [onda], sigla de World Against Violence and Extremism.

Semana seguinte, lá estava Bibi, na mesma tribuna, denunciando o projeto de Rouhani, que para Bibi não passaria de arapuca “cínica” e “totalmente hipócrita”.

No mundo segundo Netanyahu:

Ahmadinejad era lobo em pele de lobo. Rouhani é lobo em pele de cordeiro. Rouhani tenta se fazer passar por “pio”, mas sempre esteve envolvido no “estado de terror iraniano”. Não passa de serial killer que se veste de padre para ir ao tribunal e fazer-se passar por homem “ético” e “religioso”.

Sandices à parte, a verdade é que Bibi mudou de jogo. Agora, nada de cartolinas desenhadas e súplicas, praticamente todas as semanas, para que os EUA bombardeiem o Irã. Agora, é o “programa nuclear militar” do Irã que tem de ser extinto – programa que não existe, segundo toda aquela sopa de letrinhas que são as agências de inteligência dos EUA.

E, isso, depois de Netanyahu ter dito ao presidente Barack Obama dos EUA que esquecesse – para sempre – a resolução n. 242 do Conselho de Segurança da ONU, que ordena a retirada de israelenses de todas as terras ocupadas depois da guerra de 1967.

Que bomba

Assim sendo, deixemos bem claras algumas coisas.

O estado de Israel não tem fronteiras internacionalmente reconhecidas e não tem capital internacionalmente reconhecida. É estado em perpétua expansão.

Israel desrespeitou nada menos que 69 resoluções do Conselho de Segurança da ONU e foi “protegida” de nada menos que outras 29 resoluções, cortesia dos vetos norte-americanos.

Israel ocupa hoje território soberano do Líbano e da Síria, sem dar qualquer bola a qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU.

Roubo de terras palestinas por Israel (1946 a 2000). Nos últimos 13 anos Israel ROUBOU mais.
Israel assinou os Acordos de Oslo pelos quais prometeu parar de construir em terra palestina ocupada. Na sequência, construiu 270 novas colônias. É parte do movimento de limpeza étnica em câmara lenta, no qual Israel obra ao longo das últimas seis décadas.

Israel vive a ameaçar semanalmente que bombardeará o Irã, há, no mínimo, três décadas.

Israel é potência nuclear clandestina, com mais de 400 ogivas nucleares; recusa-se a assinar o Tratado de Não Proliferação; impede inspeções de inspetores internacionais; nunca ratificou o Tratado da Convenção das Armas Químicas; usou armas químicas em Gaza; e mantém o maior arsenal de armas químicas de todo o Oriente Médio, não declarado, quer dizer, clandestino.

O Irã, por sua vez, não tem ogivas nucleares. O Irã assinou o Tratado de Não Proliferação e recebe regularmente os inspetores. O Irã não invade nenhum país soberano há, no mínimo, 250 anos. O Iraque de Saddam Hussein invadiu o Irã em 1980, mas o Irã não ocupou território iraquiano.

O lobby de Israel em Washington e o Congresso dos EUA impuseram um bloqueio financeiro ao Irã, o qual, para todas as finalidades práticas, é uma declaração de guerra. Por causa do bloqueio, o rial iraniano sofreu grave depreciação – com consequências drásticas para a vida dos iranianos comuns. Apesar de tudo isso, na reunião com Obama, nessa 2ª-feira em Washington, Netanyahu não exigiu só mais sanções: também disse que Israel atacará unilateralmente o Irã, se as palavras de Rouhani não gerarem “ação”.

A verdadeira “comunidade internacional”, como a vasta maioria no mundo em desenvolvimento, incluindo as potências emergentes reunidas no grupo BRICS, conhecem esses dados como a própria palma da mão. Todos esses fatos ajudam a ver com clareza o jogo de Bibi.

Basta examinar o mapa

Para a direita israelense, a mera possibilidade de que haja diálogo entre EUA e Irã é a real “ameaça existencial”. Bibi não aceitará sequer que o Irã enriqueça urânio para propósitos civis, direito que o Irã tem, garantido a ele pelo Tratado de Não Proliferação.

Um acerto entre EUA e Irã é proposta de ganha-ganha para todos: não só para os dois diretamente envolvidos, mas também para os europeus sedentos de energia, para a economia global, para as empresas multinacionais, para tudo e todos. Exceto para Israel.

O pesadelo de Bibi é a República Islâmica do Irã, não apenas como ator independente no Sudoeste da Ásia – o que o Irã já é – mas também, como potência regional em ascensão; quanto a isso, a única via possível para o Irã é a via ascendente, se se considera sua vasta população de jovens e bem educados, os massivos recursos de energia, a localização privilegiada e os complexos laços que ligam o Irã à Ásia Central, do Sul e do Leste.

Para a direita israelense, o status quo é ideal. Os fantoches dos EUA, como as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), e as repúblicas árabes seculares vivem momentos de caos – com graus diferentes de “empurrão” dos israelenses – como o Iraque e especialmente a Síria.

É fácil para Israel manobrar entre esses atores; os israelenses podem, por exemplo, rejubilar-se com um golpe militar no Egito (porque militares egípcios não são ameaça) e com a parceria com a Arábia Saudita para tentar derrubar Assad na Síria. A balcanização do Oriente Médio dividido por linhas sectárias é, para Israel, doce como mel.

Mas o Irã como potência econômico-política emergente, com relações normalizadas com os EUA e a Europa Ocidental, é assunto muito mais sério, a ameaçar “existencialmente” a suposta hegemonia no Oriente Médio, que depende exclusivamente do músculo militar (além, é claro, da capacidade nuclear clandestina).

Isso explica a obsessão de Netanyahu com a mudança de regime em Teerã – ou, a segunda melhor opção, o total isolamento, bem distante do Ocidente (porque, no que tenha a ver com o Oriente, o Irã está firmando relações com todos os atores chave na Ásia).

O ponto crucial é que apresentar o Irã como “ameaça existencial” foi expediente extremamente útil para a direita israelense, como tática diversionista, que desvia a atenção geral para bem longe do que acontece na vida real: Israel, como estado ocupante militarizado está completamente, literalmente, terrivelmente, varrendo do mapa um povo inteiro – os palestinos. Quem ainda duvide que examine o mapa.

Eis assim onde estamos. Netanyahu é falcão/abutre de extrema direita que jura pela Eretz Israel – uma Israel “Expandida” com fronteiras móveis, sempre em expansão, e hegemonia incontrastável militar/nuclear no Oriente Médio. Tem aliados poderosos: a extrema direita e os neoconservadores nos EUA; Republicanos ensandecidos que apoiarão qualquer coisa, desde que seja contra Obama; grande parte do Congresso dos EUA manipulado pelos israelenses; vastas fatias do complexo de imprensa-empresa nos EUA e no mundo. Essa gente não parará ante coisa alguma. Farão todo o possível para ver gorar qualquer acordo entre Washington e Teerã.

A tentação, para a verdadeira comunidade internacional, é mandar Netanyahu calar a boca – e ir brincar com suas cartolinas desenhadas. Obama semana passada disse na ONU que suas prioridades, agora, são o Irã e mais esforço para resolver a questão e a tragédia dos palestinos. Quer dizer: a bola está no campo de Obama – não no campo do sociopata.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
Livros


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vença quem vencer, Obama ou Romney: As relações dos EUA com o mundo árabe mudarão


30/10/2012, The Independent, Robert Fisk em Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
Depois dos gestos e palavras de amor eterno de Obama-Romney a Israel, semana passada, os árabes puseram a pensar para decidir, com calma, qual dos dois candidatos seria melhor para o Oriente Médio. Parece que preferirão Barack Obama; mas o problema – como sempre – é o fato triste, patético, obscenamente óbvio, de que essa decisão não fará nem um átomo de diferença.

George Bush invadiu o Iraque depois de dar permissão a Ariel Sharon para prosseguir na colonização da Cisjordânia ocupada. Obama caiu fora do Iraque, ampliou a guerra de aviões-robôs, os drones, na fronteira Paquistão-Afeganistão e depois meteu o rabo entre as pernas, quando Benjamin Netanyahu informou-o de que nem se discutiria qualquer possibilidade de Israel retirar-se para as fronteiras de 1967. Em vez de ordenar “Sim, Israel se retirará”, como presidente forte e independente, Obama lá ficou, encolhido em sua poltrona na Casa Branca, enquanto o Primeiro-Ministro de Israel lhe dizia, com todas as letras, que a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU – o próprio fundamento do inexistente “processo de paz” – era letra morta.

Desde então, Mitt Romney, que parece entender tanto de Oriente Médio quanto aquele pastor texano que queimou um Corão, só faz repetir que os palestinos “não têm interesse algum em fazer a paz” e até hoje ainda não conseguiu explicar satisfatoriamente por que, em 2005, como governador de Massachusetts, mostrava-se tão interessado em instalar escutas clandestinas em mesquitas. Assim sendo, só resta desejar boa sorte aos árabes.

Mas a verdade é que o próximo presidente não terá liberdade para definir qualquer política independente para o Oriente Médio. O amancebamento com Israel continuará – a menos que Israel ataque o Irã e arraste os EUA para mais uma guerra no Oriente Médio. 

De novidade, isso sim, é que, pela primeira vez na história dos EUA, o candidato que consiga ser eleito presidente terá de lidar com um novo mundo árabe, com um novo mundo muçulmano.

O "Despertar Árabe" na Praça Tahrir no Cairo, Egito (Junho/2012)
O ponto crítico é que o Despertar Árabe (acabemos, por favor, para sempre, com a conversa de “primavera”) manifesta a voz de gente que exige ser tratado com dignidade. Há aí também muçulmanos não árabes – e que outra coisa seria, senão isso, a minirrevolução dos Verdes iranianos, depois das últimas eleições no Irã?

E devem-se somar os milhões de muçulmanos que vivem na parte do mundo que nós ainda gostamos de chamar de Oriente Médio – que nada parece ter de “médio”, para quem viva lá – e que, agora, também planejam tomar decisões próprias, baseados nos próprios desejos, não nos desejos dos sátrapas ex-presidentes e dos patrões dos sátrapas, em Washington. La Clinton continua sem dar sinais de ter percebido isso. Obama talvez veja. Romney? Aposto que não acertaria o nome de nenhuma das nações da região, no mapa, exceto um, claro.

Ao contrário do que o ocidente crê, que os árabes estariam lutando por “democracia”, a batalha e a tragédia do Oriente Médio hoje – e seja qual for o saldo da revolução “soft” na Tunísia ou da carnificina na Síria – acontecem em torno da palavra “dignidade”, sobre o direito de, como ser humano, dizer o que deseja que seja feito a quem ele decida dizer, e nunca mais admitir que um déspota se apresente como proprietário de um país inteiro (desde que autorizado a tanto pelos EUA) e trate, países e cidadãos, como se fossem sua propriedade privada.

Sim, revoluções são confusas. A revolução egípcia não saiu como se pensou que sairia. A Líbia está rachando ao meio. A Síria é um cataclismo. Mas o povo árabe afinal começou a falar e, doravante, os árabes saberão exigir que seus presidentes e primeiros-ministros obedeçam aos seus desejos, não a ordens de Washington ou de Moscou.

Diferente da crença cara aos Romneys, para os quais haveria déficit de valores civilizacionais entre os árabes – que perderiam de longe para os valores da civilização de Israel – os povos do Oriente Médio estão comprovando exatamente o contrário. É processo lento, negócio demorado: todos os leitores que nesse momento leem esse artigo já estarão mortos, ou muito velhos, antes de que a “revolução” árabe se complete.

 Enoch Powell
Mas os tempos em que presidentes dos EUA davam instruções aos potentados do Oriente Médio sobre o que dizer e fazer, esses tempos estão acabando. Ainda demorará para que venha abaixo o regime saudita, com todas as outras bombas de gasolina espalhadas pelo Golfo. E é preciso dizer que a tragédia dos palestinos, provavelmente, está e sempre esteve no coração do Despertar Árabe.

Infelizmente, os palestinos são os únicos que não se beneficiam das revoluções árabes. Já não resta terra suficiente, aos palestinos, para que tenham Estado seu. Aí está fato acima de qualquer enrolação [orig. above peradventure [1]] (como dizia Enoch Powell [2]).

Quem ainda duvida, compre passagem e voe até Israel e olhe para a Cisjordânia. Não há mais espaço para os palestinos; essa é a tragédia real que os presidentes dos EUA, sejam quais forem, têm de encarar nos anos futuros.



Notas de tradução
[1] Orig. “[acima de] peradventure”. Termo arcaico, em desuso. A expressão “Acima de peradventure” significa “acima” ou “à prova” de qualquer argumento real ou inventado, e até, como os tradutores preferiram, “acima de qualquer enrolação”. Tradução tentativa. Todos os comentários, correções e sugestões são bem-vindos.
[2] Enoch Powell (1912-1998). Deputado conservador, ministro da Saúde da Grã-Bretanha nos anos 60. Foi poeta e linguista. Famoso por um discurso “Rios de sangue, de 1968, contra a entrada de imigrantes na Inglaterra, considerado racista (em inglês).

domingo, 5 de junho de 2011

Como o “lobby” israelense congela o debate sobre o Oriente Médio

MJ Rosemberg

4/6/2011, MJ Rosenberg, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Essa semana, depois da escandalosa recepção ao primeiro-ministro Netanyahu no Congresso dos EUA, quero partilhar uma lembrança pessoal de como o status quo no Oriente Médio é preservado no Capitólio.

Era 1988, e eu trabalhava como assessor para política exterior do senador Carl Levin (Democrata, Michigan). Um dia, em fevereiro, Levin chamou-me a sua sala. Estava muito preocupado com uma declaração que lera no New York Times aquele dia. Um artigo citava o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Shamir, que dissera que rejeitava a ideia de retirar-se de qualquer parte da terra que Israel ocupara na guerra de 1967: “O ministro Shamir disse em entrevista a uma rádio, que ‘é claro que, para mim, nenhuma troca de território por paz será jamais aceitável’” (matéria de arquivo, só acessível para assinantes do jornal).

Levin entendeu perfeitamente o que Shamir estava fazendo: estava repudiando duas Resoluções do Conselho de Segurança da ONU, n. 242 e 338 (de cuja redação Israel participou) e que ordenavam “a retirada das forças armadas de Israel dos territórios ocupados no recente [1967] conflito” em troca de paz e segurança. Aquelas resoluções manifestavam então, como manifestam até hoje, a política oficial dos EUA e da ONU. Mas, em 1988, Shamir as declarara nulas e sem efeito.

Levin pediu-me que redigisse uma carta dirigida ao secretário de Estado George Shultz, declarando que o Senado dos EUA entendia que as resoluções da ONU permaneciam plenamente válidas e manifestavam a política dos EUA, Shamir gostasse ou não. A carta foi escrita, não exatamente nesses termos, é claro: uma carta muito polida. E Levin queria que a carta fosse endereçada a Shultz, não ao próprio Shamir, para evitar arrepiar demais os falcões de Israel.

Escrevi um primeiro rascunho. Levin editou e reeditou. Em seguida, convocou o presidente do AIPAC, Thomas A. Dine, para que examinasse os termos da carta. Tom aprovou: na avaliação dele, a carta estava “ótima”. Levin disse a Dine que manteria em sigilo o fato de que a carta fora aprovada por ele, para evitar-lhe qualquer embaraço.

Levin então pediu-me que entregasse a carta ao secretário de Estado, mas pediu algum tempo porque, antes, queria tentar reunir algumas outras assinaturas de senadores. Em uma hora, a carta estava assinada por 30 senadores. Não fosse sexta-feira, Levin teria facilmente reunido mais uma centena de assinaturas, mas era tarde, e a Casa já estava praticamente vazia.

Entreguei a carta. Levin não queria excessivo alarde sobre a carta e, por isso, o gabinete do senador não informou a imprensa. Na prática, era iniciativa secreta.

Mas um dos senadores passara cópia da carta ao New York Times. E em minutos os telefones começaram a tocar. Repórteres e financiadores do AIPAC (que não sabiam que Dine conhecia e aprovara o texto) estavam furiosos.

Levin foi procurado para entrevistas pelos três principais programas de notícias das manhãs de domingo. Não aceitou. De fato, como previsto há muito tempo, embarcou no sábado para Moscou.

No domingo, a primeira página do New York Times estampava manchete e longa matéria sobre a “Carta dos 30”, de Levin:

“Trinta senadores dos EUA, inclusive muitos dos principais apoiadores de Israel, enviaram carta em que criticam o primeiro-ministro Yitzhak Shamir e seu Partido Likud, sugerindo que estariam obstruindo esforços para um acordo de paz no Oriente Médio.

A extraordinária crítica pública a Israel veio em carta dirigida ao secretário de Estado George P Shultz, que retornou hoje de viagem de vários dias ao Oriente Médio. O secretário Shultz propôs, nessa viagem, as linhas gerais de um acordo provisório entre Israel e os palestinos (...).

Os senadores que assinaram a carta declaram-se preocupados ante a continuada resistência, por Israel, à ideia de ceder terras ocupadas em troca de paz, pedra angular dos esforços do secretário Shultz. Embora a carta também critique outros estados árabes, exceto o Egito, auxiliares do senador informaram que a intenção foi, principalmente, mandar recado claro ao primeiro-ministro Shamir e ao bloco do Likud.”

Era tão significativo o fato de que, antes, nenhum senador dos EUA jamais criticara qualquer política de Israel (nem indiretamente), que, no domingo, o Sunday Times insistiu no assunto e publicou a carta na íntegra.

Na segunda-feira, o mundo veio abaixo. Como Levin estava na Rússia, seus assessores tiveram de responder aos telefonemas dos jornais e às ameaças de doadores de campanha, eleitores e organizações ‘pró-Israel’, todos furiosos. E, às tantas, aconteceu algo absolutamente inimaginável.

Um alto funcionário da embaixada de Israel veio ao gabinete, para apresentar pessoalmente mensagem de protesto do primeiro-ministro Shamir. O chefe de gabinete do senador Levin, Gordon C Kerr, disse-lhe que não fazia sentido algum um funcionário de embaixada apresentar qualquer protesto contra carta de senadores norte-americanos dirigida ao próprio governo dos EUA. Disse-o, é claro, em termos absolutamente polidos. O funcionário da embaixada de Israel insultou Levin e fez-lhe graves ameaças. Kerr expulsou-o do gabinete.

Simultaneamente, Levin recebeu mensagem do presidente Ronald Reagan em que o presidente agradecia a contribuição de organizar apoio à posição do seu governo; e Shamir pôs-se a telefonar para os senadores, dizendo-se “atônito” por suas políticas estarem sendo alvo de críticas.

Aconteceu então o momento que, para mim, foi a experiência mais chocante de todos os anos em que trabalhei para o governo dos EUA. William Safire, o colunista mais influente do New York Times, telefonou-me, em fúria. Disse que sabia, de fonte segura, que nem Levin nem eu escrevêramos aquela carta. Disse que sabia que a carta fora escrita por um assessor do líder do Partido Labour de Israel, Shimon Peres.

Disse que aquele assessor, alguém chamado Yossi Beilin, entregara-me um rascunho manuscrito da carta e que eu convencera Levin a assinar e reunir apoios. Disse-me que eu trabalhava para derrubar o governo de Shamir e substituí-lo por governo de Peres. Por pouco não deixei escapar uma gargalhada.

A simples ideia de que um assessor de senador tivesse tanto poder já era, só ela, um absurdo. Mas Safire fez ameaças. Perguntou se eu achava correto que um assessor de um senador dos EUA estivesse a serviço de partido político estrangeiro, e se eu sabia o que aconteceria quando Levin descobrisse sobre mim, na coluna de Safire no New York Times. Assustador. Como assessor de senador, eu jurara fidelidade aos EUA e à Constituição. Tinha passe livre, dado pela segurança. As consequências seriam arrasadoras.

Eu disse a Safire que eu rascunhara a carta e que Levin reescrevera, ele mesmo, longos trechos. Disse que jamais ouvira falar de Beilin (pura verdade). Safire, então, enlouqueceu. Disse que sabia que eu estava mentindo, porque recebera a história “real” de fontes seguras: de Benyamin Netanyahu, então embaixador de Israel na ONU, e de Steve Rosen, número dois do comando do AIPAC (que, mais tarde, foi acusado de espionagem).

Respondi que não me interessava quem lhe tivesse contado. Que era mentira. E que Levin tomara a iniciativa de escrever ao secretário de Estado para ajudar Israel, porque entendia que, se Israel se opusesse à retirada dos territórios palestinos ocupados, o conflito jamais teria fim.

A conclusão da conversa foi que Safire recuou, não antes de me ameaçar mais uma vez: se ele descobrisse que eu mentira, eu estaria “acabado”. Disse que não escreveria a coluna, porque – acredite quem quiser – acreditava mais em mim que em suas fontes.

E foi isso. Ninguém mais falou sobre a “Carta dos 30”, exceto para lembrar que, depois dos ataques viciosos contra Levin, poucos senadores dos EUA voltaram a desafiar o governo de Israel e o AIPAC.

E qual é a moral da história?

É a seguinte: criticar Israel é muito perigoso. Não fosse o medo, o que levaria um poderoso colunista do New York Times a telefonar a um assessor de senador e ameaçá-lo nos termos em que Safire ameaçou-me, de destruir minha carreira? Só o medo. E o que faria um colunista do New York Times agir como empregado do governo de Israel? Naquele dia, Safire não foi nem jornalista: trabalhava como agente do governo de Israel.

Quem, sabendo disso, surpreender-se-ia com o circo em que se converteu o senado dos EUA, aos pulos nas cadeiras, levanta e senta, levanta e senta, gritando de amores por Netanyahu? Quem se atreveria a vaiar um gorila de uma tonelada? Com certeza, não os eleitos para o Congresso dos EUA.

A parte boa de toda essa história, é que Levin apoiou-me 100%.

A carta criou-lhe muitos problemas com doadores de campanha, mas ele sempre a defendeu – e de lá até hoje já foi reeleito quatro vezes. De fato, disse-me, há muito tempo, que se orgulha muito de ter redigido aquela carta. Ele redigiu. Não eu.