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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Putin vai à caça do Irã de Obama

13/9/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Putin ,o verdadeiro Prêmio Nobel da Paz, segundo a Fox News do Murdoch 
Quando Kathleen Troia McFarland, conhecida analista de segurança nacional da rede Fox News, que trabalhou na segurança nacional dos governos Nixon, Ford e Reagan e foi assessora de Henry Kissinger na Casa Branca, escreveu que “quem merece o Prêmio Nobel é Vladimir Putin”, sem dúvida tinha em mente a crise síria.

Kathleen T. McFarland
Na 3ª-feira (10/9/2013), McFarland escreveu que:  

Numa das mais competentes manobras diplomáticas de todos os tempos, o presidente Putin, da Rússia, salvou o mundo de desastre já quase inevitável.  

Na sequência, narrou a via pela qual a famosa gafe do secretário de Estado John Kerry em Londres ganhou asas, e

(...) a frase leviana foi colhida em pleno voo por Putin, convertida em Proposta Kerry e, depois, em “plano de paz de Obama”.

Se se acompanha seu raciocínio, é fácil ver como, ao longo dessa tumultuada semana, o processo evoluiu de tal modo que, sim, Putin sem dúvida poderia reclamar um Nobel para si.

E interessa observar também um dos destaques da cúpula anual da Organização de Cooperação de Xangai, reunida em Bishkek, Quirguistão, evento que acontecerá à margem do grande encontro, na 6ª-feira: o encontro “bilateral” já agendado entre Putin e o presidente do Irã, o recém-eleito Hassan Rouhani. A reunião Putin-Rouhani em Bishkek é reunião agendada e longamente preparada. Os dois são homens de vasta experiência na diplomacia internacional.

Depois, quando voar de volta para sua estação de trabalho na propriedade de Novo-Ogaryovo, depois de ter sugado os miolos de Rouhani, Putin, na privacidade dos próprios pensamentos, começará a coreografar mais um plano de paz: o Irã.

Hassn Rouhani e Vladimir Putin em 13/9/2013
Será a primeira vez que Putin reúne-se com o recém-eleito novo presidente do Irã. A presidência de Rouhani atraiu o interesse mundial, por pressagiar um novo engajamento significativo entre o Irã e os EUA, o que Rouhani tem sinalizado de vários modos, com manifestações de um renovado interesse de Teerã por negociar com o Ocidente – mediante pronunciamentos, indicações para compor seu gabinete ou esperta “linguagem corporal” diplomática. Rouhani prometeu que sua prioridade seria fazer reviver a economia iraniana; para isso, precisa de ambiente internacional mais favorável.

A parte boa é que o governo de Barack Obama percebe as limitações do poderio militar dos EUA, que não intimida e só com grande dificuldade, talvez, conseguiria derrotar o Irã. Mesmo assim, como no caso da Síria, Obama ainda vacila e é incapaz de jogar-se num salto de fé. Aí está cópia perfeita do dilema que ele enfrentou no caso da Síria.

O povo dos EUA, que está fartíssimo de guerras; a pressão dos aliados regionais sempre beligerantes e de seus lobbies nos EUA; um ambiente regional perigoso; um adversário já comprovadamente capaz de retaliar contra alguma agressão; a opinião pública mundial empenhadamente favorável ao diálogo – aí estão todos os ingredientes, claramente postos.

Putin pode ter intuído que é mais que hora de alguém ajudar Obama a decidir-se – ou, mesmo, a seguir objetivamente as suas próprias inclinações naturais.

Como no caso do plano russo para as armas químicas da Síria, já há um projeto russo, que tem dois, quase três anos de existência, à espera, e que bem pode servir de ponto de partida – o Irã abordando de forma mais amigável as preocupações da “comunidade internacional”; e os EUA desmontando, passo a passo, o regime de sanções e permitindo a plena integração do Irã como potência regional.

Os EUA e o Irã estão cuidadosamente testando as intenções um do outro, e qualquer observador esperto dessas três décadas de impasse já percebe que o idioma diplomático está mudando. Os EUA já não se opuseram à inclusão do Irã nas conversações Genebra-2 sobre a Síria.

Mohammad Javad Zarif
Também Teerã já tem posição muito nuançada sobre a questão das armas químicas da Síria. Teerã mantém uma linha muito elaborada, segundo a qual, infelizmente, os astutos xeiques do Golfo apanharam Obama numa armadilha. Em extraordinária entrevista à Press TV de Teerã na 4ª-feira, o talentoso ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, disse:

Acho que alguns grupos e pessoas dentro dos EUA, e alguns interesses fora dos EUA, quiseram empurrar o presidente dos EUA – o qual, me parece, já relutava antes – para uma armadilha. E a armadilha, afinal, ele mesmo se criou, infelizmente. A armadilha seria envolvê-lo numa guerra. O pretexto foi o uso de armas químicas, uma questão hipotética, porque ainda não há provas de que o governo sírio tenha usado as tais armas.

O Irã não tardou a manifestar firme apoio ao plano russo sobre as armas químicas da Síria.

Tudo isso posto, o encontro de hoje em Bishkek entre os presidentes da Rússia e do Irã também tem um enquadramento regional. O governo Obama terá de engajar o regime sírio, porque o plano russo já está em andamento e avança para o estágio de plena implementação.

A execução do plano russo obrigará a uma longa e complexa carpintaria. E obriga, definitivamente, a fazer avançar o processo de Genebra-2.

Washington precisou de quatro anos para retirar de território alemão os arsenais de 100 mil armas químicas norte-americanas da guerra fria. Quando a operação começou, em 1986, previa-se um prazo de seis anos para o deslocamento daquele vastíssimo arsenal químico.

Implica dizer que será absoluta e criticamente necessário que as estruturas do estado sírio estejam operantes e disponíveis, para implementar o plano russo. Dito de outro modo, a agenda da “mudança de regime” está cancelada; e seja qual for a transição democrática possível nas atuais condições de guerra civil ela incluirá necessariamente o regime de Bashar al-Assad.

Teerã, é claro, assiste atentamente a tudo isso. A posição firme dos russos sobre a Síria ao longo de toda a crise, desde que os EUA começaram a reunir uma armada no Mediterrâneo leste, certamente impressionou o Irã, para quem qualquer projeto de “mudança de regime” em Damasco sempre teve ecos existenciais.

E é aí que o Irã verá como absolutamente imperativo o renascimento de sua parceria estratégica com a Rússia. Do ponto de vista do Irã, a conexão russa é que será fator “multiplicador de força” quando o país começa a negociar com o grupo “P5+1” (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China “mais” a Alemanha) e diretamente com os EUA.

Rouhani rapidamente levará em conta que, com sua credibilidade como negociador já crescendo aos olhos ocidentais, a sua capacidade para negociar também muito se beneficia com o fortalecimento das relações Irã-Rússia nesse momento.

Mas tango exige dois. Se se olha o passado, a visita de Putin ao Irã, em 2007, a primeira de um governante do Kremlin desde a visita de Joseph Stalin em 1943, fez subir as esperanças de uma retomada histórica nas relações bilaterais e de um novo gabarito na geopolítica do vasto espaço em que os dois países se sobrepõem na e em torno da Heartland – Ásia Central e o Cáspio, o Cáucaso e o Oriente Médio.

Naquela ocasião, aquelas esperanças levaram a nada. Putin deixou o Kremlin em 2008. Durante o governo de Dmitry Medvedev, depois que apareceu o “reset” de Obama para Rússia e EUA e a questão iraniana passou a ser pauta diária entre as duas potências, o cálculo para as relações russo-iranianas mudou.

Foi quando os grupos pró-ocidente da elite russa ganharam ascendência no Kremlin. Em pouco tempo já havia a disputa sobre se a Rússia cumpriria ou não o contrato para fornecimento de mísseis S-300 ao Irã. A Rússia dizia que agiu conforme as sanções dos EUA a obrigavam a agir, mas Teerã viu ali a “mão oculta” dos EUA e de Israel. Enquanto isso, crescia a cada dia mais complexa “questão nuclear” iraniana, que impôs limites ao engajamento do Irã, dadas as ramificações internacionais.

É muito possível e razoável supor que, diferente de Medvedev, talvez Putin já esteja agudamente consciente de que o Irã é o que os geoestrategistas norte-americanos chamariam de “estado pivô” – com potencial para virar o jogo, de um lado do campo para outro.

Mahmud Ahmadinejad
É difícil supor que não tivesse passado pela cabeça de Putin que o ex-presidente Mahmud Ahmedinejad já era “pato manco” quando os dois se encontraram no Kremlin em julho, durante a reunião de cúpula do Cáspio. Putin mergulhou entusiasmado em discussões substantivas sobre modos de reviver e fortalecer a aliança russo-iraniana, incluindo a construção, pelos russos, de uma segunda usina nuclear no Irã.

Assim também Teerã, com certeza, anotou a imensa diferença entre os modos como os russos abordaram a agenda de mudança de regime na Líbia (março 2011) e na Síria hoje.

Paradoxalmente, a presidência de Rouhani traz o Irã para muito mais perto da Rússia, precisamente por causa da abordagem “desideologizada” dos dois lados. De fato, a Rússia não vê o mundo por algum prisma “Leste-Oeste”. Nem está seduzida pelas ideias da “resistência” e de “justiça” que inflamavam Ahmedinejad, e que Rouhani, gradualmente, vai afastando do discurso iraniano.

É inconcebível que, como a Rússia de Putin, que escrupulosamente evita os excessos soviéticos, o Irã de Rouhani venha algum dia a pôr de lado os interesses nacionais como consideração central de política externa, por mais que se envolvam em questões de segurança regional.

Mas Rouhani tende às políticas neoliberais e da globalização, tanto quanto a Rússia; e os dois lados veem a inovação da economia como objetivo central de suas políticas nacionais. A primeira prioridade de Putin sempre foi trabalhar na direção de parceria equilibrada com o Ocidente, e nunca se cansa de buscar janelas de oportunidade. A abordagem de Rouhani, que pisará em solo norte-americano em poucos dias para participar da Assembleia Geral da ONU em New York, é praticamente a mesma.

Em resumo, ambos, Irã e Rússia, estão pensando de modo tal que pode dar vida nova a essa parceria estratégica. A única saída que resta a Obama para evitar o Nobel de Putin é impedir preventivamente que o Kremlin lance um novo, inderrotável, plano de paz.





[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.Em português seus artigos, traduzidos pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, podem ser encontrados no blog  redecastorphoto.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Radiografia-desmonte do Nobel de Mo Yan


13/10/2012, MK Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Anna Akhmatova

O que estamos fazendo - nem nós mesmos sabemos,
mas a cada momento, mais isso nos assusta...
Como quem saiu da prisão,
sabemos algo um do outro,
algo terrível. Estamos num círculo infernal.
Mas talvez isto não sejamos nós”.
“Através dos Espelhos”, in Anna Akhmatova - Poesia: 1912-1964, Porto Alegre, Ed. L&PM, 1991 - trad. port. do Brasil, de Lauro Machado Coelho*




O Prêmio Nobel de Literatura ter sido dado ao romancista chinês Mo Yan provocará mais de um olhar de incômodo ou de arrogância [1]. Não porque Mo não mereça a honraria, mas porque o prêmio tem história sempre muito controvertida. 

Em 2012, as controvérsias distribuem-se em três categorias – se o premiado realmente merece tão excepcional honra; por que alguns outros autores foram mais uma vez deixados de lado; e, terceira categoria, claro, a nacionalidade do premiado.


A primeira categoria induz a crer que nada se sabe nem se pode saber (por algum tempo) – até que a comissão do Nobel desencave outro nome excitante.

A segunda categoria de controvérsias é causa de incômodo – Anna Akhmatova, Yevgeny Yevtushenkov e Andrey Voznesensky foram deixados de lado, e Joseph Brodsky “ganhou”. (Vladimir Mayakovsky suicidou-se aos 37 anos, [2] antes de que o Nobel sequer soubesse de sua existência).

A terceira categoria de controvérsias obriga a considerar uma verdadeira pequena galeria de souvenirs excêntricos do tempo da Guerra Fria.

E onde entra Mo?

Sinceramente, só li sobre ele e não o conheço diretamente; parece ser romancista de vanguarda como Gao Xingjian (2000) cujo A Montanha da Alma [São Paulo: Alfaguara/Objetiva] li duas vezes (e talvez volte a ler), embora esteja longe do romancista emigrado que foi Gao (rejeitado pelo establishment chinês, optou pelo exílio). Todos os comentários concordam [3] em que Mo é autor valiosíssimo. Gao é autor de experimentos com a escritura de diferentes modalidades narrativas, e Mo, ao que parece, buscou reconectar-se à cultura e as tradições chinesas.

Fã apaixonado do realismo mágico na ficção, mal posso esperar para ler Mo.

Mas... É a nacionalidade, estúpido!

O que mais se discute, no caso de Mo, é ele ser CHINÊS e, ainda mais inacreditável e surpreendente, que Mo integra “a sociedade chinesa mainstream [4], como escreve ardilosamente o Global Times chinês. O que nos leva à questão seguinte: haverá aí alguma mensagem política?

Ah, sim! A política jamais se afasta do Prêmio Nobel – como quando premiaram Pasternak (ainda em vida de [Anna] Akhmatova [5]).

Em tom de incontrolável euforia, o Global Times chinês compara 2012 e 1930, quando Sinclair Lewis recebeu o Nobel — como se o Nobel estivesse reconhecendo o aparecimento da China no cenário global hoje; assim como teria reconhecido o aparecimento dos EUA no cenário global, como grande potência, há 82 anos.

Mikhail Sholokov 
Em minha opinião, a coisa aí está mais para Mikhail Sholokov [6] (1965), tudo outra vez. Aqueles tempos foram tão tumultuosos quanto os tempos chineses, hoje.

O “Degelo de Khruchev” [7] arquitetou e promoveu transformação irreversível na economia, na política e na sociedade soviéticas. Autores libertos, desmesurados, nas artes, literatura, música; atletas soviéticos conquistando medalhas olímpicas às pencas; a muito simbólica retirada da múmia de Josef Stalin de onde estivera até então, no Mausoléu de Lênin; a URSS abrindo-se para a “comunidade internacional”; teorias da coexistência pacífica; consumismo; novas cozinhas familiares privadas, não mais coletivas. (Evidentemente, todos esses eventos enfraqueceram muito, dali em diante, o Partido Comunista Soviético).

E então sobreveio a demissão de Khruchev, em 1964. Um ano depois, havia ainda grandes perguntas no ar, sem respostas, sobre para que lado sopraria o vento, que estrada a União Soviética tomaria. O julgamento Sinyavsky-Daniel [8] com seus traços de ideologia autoritária que lutava para se reimplantar, aconteceu em 1965. Nesse momento, precisamente, Sholokov foi escolhido para receber o Nobel.

Seu romance mais conhecido (Tikhy Don [O Don Corre Tranquilo]) é retrato pungente da luta heroica e trágica dos cossacos, pela independência da região do Don, contra os bolcheviques.

Sholokov era melhor personagem que Mo. Era membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética; membro do Soviete Supremo; membro da Academia Soviética; Herói do Trabalhismo Socialista – e laureado com o Prêmio Stálin. Mas, examinado mais de perto, também era figura enigmática – arquetípico e rebelde.

Sholokov escreveu cartas a Stálin reclamando das terríveis consequências do programa de coletivização no final dos anos 1920s e início dos 1930s. E acompanhou Khruchev em sua histórica visita aos EUA em 1959. Foi símbolo do “Degelo de Khruchev”. E denunciou Alexander Solzhenitsyn.



Notas de rodapé

*Epígrafe acrescentada pelos tradutores [NT].

[1] 12/10/2012, New York Times, em: After Fury Over 2010 Peace Prize, China Embraces Nobel Selection

[2] Prominent Russians: Vladimir Mayakovsky (July 19, 1893 – April 14, 1930)
[3] 12/10/2012, The Guardian, UK, Howard Goldblatt em: My hero: Mo Yan.
[4] 12/10/2012, Global Times, em: Nobel Prize a win for mainstream values
[5] Collection of Poems by Anna Akhmatova:  ((Born 1889, Died 1966)
[6] Leia mais sobre Mikhail Sholokhov.
[7] Orig. Khrushchev Thaw. Período, de meados dos anos 1950s ao início dos 1960s, quando a repressão e a censura foram reduzidas na URSS e milhões de prisioneiros foram libertados dos campos de trabalhos forçados, com a política de “des-stalinização” de Nikita Khrushchev. [NT].
[8] Orig. Sinyavsky-Daniel Trial. “Em setembro de 1965, autoridades soviéticas prenderam um conhecido crítico literário, Andrei Sinyavsky, e um tradutor relativamente obscuro, Yuly Daniel, e os acusaram de denegrir o sistema soviético em trabalhos publicados no exterior, sob pseudônimo. Os trabalhos em questão eram satíricos, mas de modo algum antissoviéticos; no ensaio On Socialist Realism [Sobre o realismo socialista], por exemplo Sinyavsky (ou "Abram Tertz") advogava nada mais radical que um retorno ao estilo aventuroso de Vladimir Mayakovsky. Apesar disso, depois de uma campanha furiosa de denúncias pela imprensa em janeiro de 1966, os dois foram condenados, em tribunal espetaculoso em fevereiro. Sinyavsky foi condenado a sete anos, e Daniel a cinco, em regime fechado, num campo de trabalhos forçados.
Tudo sugere que elementos conservadores do regime Brezhnev-Kosygin, determinados a por fim aos “experimentos” artísticos da era Khrushchev, criaram o “caso” como sinal para alertar os artistas de que havia uma linha vermelha que não poderia ser ultrapassada; e para calar os intelectuais. Mas foi sinal ambíguo, em momento em que os conservadores absolutamente não estavam firmemente plantados no poder – e o “sinal” não produziu os efeitos esperados. Sinyavsky e Daniel recusaram-se a representar os papéis a eles atribuídos e defenderam-se vigorosamente no tribunal. Houve protestos nas ruas de Moscou contra as prisões em dezembro de 1965, seguidos de uma campanha pública, que fez crescer o número de protestos e samizdat [prática pela qual indivíduos e grupos de pessoas copiavam e distribuíam clandestinamente livros e outros bens culturais que haviam sido proibidos pelo governo na União Soviética], que levaram à edição de Chronicle of Current Events [Crônica dos Eventos Atuais] em abril de 1968.
O julgamento Sinyavsky-Daniel tem sido interpretado como a faísca que galvanizou o movimento dissidente, e acabou por induzir muitos intelectuais a deixar de trabalhar dentro do sistema” [De WALLACE, JONATHAN D.. “Sinyavsky-Daniel Trial". Encyclopedia of Russian History. 2004. [NT].

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MK Bhadrakumarfoi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sábado, 13 de outubro de 2012

A Cólera dos Deuses

Raul Longo

Enviado por Raul Longo

Pedro Machado foi quem recordou a metáfora exata em “Aguirre – A Cólera dos Deuses”, do alemão Werner Herzog: uma das balsas de espanhóis em busca do Eldorado dá voltas sem conseguir escapar de um redemoinho amazônico. À margem, na outra embarcação se cogita entre possibilidades de salvamento e o abandono dos companheiros para o prosseguimento em busca do ouro.

“Uma discussão política” – Pedro fez questão de notar.

Sem dúvida! E a decisão é sintomática: a noite, enquanto os demais dormem, Aguirre alveja os que circulam no crítico movimento das águas. Sem mais motivos para atrasos os exploradores prosseguem até serem tolhidos, um a um, pelos agravos da selva.

Aguirre, último sobrevivente, imagina-se o único a desfrutar das riquezas com as quais os naturais do novo continente por muito tempo iludiram a ganância dos exploradores, enviando-os para os rincões mais terríveis das selvas e desertos. Dourados ou Eldorado são as palavras que denominam cidades e regiões do Canadá à Patagônia, marcando o rastro de por onde o desvario europeu extinguiu civilizações.
Klaus Kinsky como Aguirre em "A Cólera dos Deuses" 
Finalizando a saga, delirando um poder maior do que Pizarro a quem servia e exterminou os Incas, maior do de Cortez, exterminador dos Astecas, maior até do que o do rei de Espanha; o germânico Klaus Kinski interpreta o delírio de Aguirre exultando-se: “Que grande traição!”

Em Fausto, outro alemão, Goethe, já havia traçado a mesma metáfora. Depois de firmar um pacto com Mefisto, o protagonista da história ordena a demolição do único abrigo domiciliar de um casal de velhos que o acolhera quando em dificuldades. Fausto não titubeia em desalojar seus protetores para a passagem de seu egoísmo e interesses.

No mesmo dia em que a imprensa internacional divulga o levantamento que aponta as dificuldades de sobrevivência de 72%, da população da Grécia; como Aguirre o Comitê Nobel da Noruega alveja portugueses, espanhóis, italianos e ¾ do povo que deu origem a cultura e civilização ocidental.

Johann Wolfgang von Goethe
Não são as únicas vítimas dos faustos do capitalismo que hoje promove na Europa e na América do Norte a miserabilidade que em décadas recentes desalojou milhares de famílias, adolescentes e crianças por toda a América Latina e na África, continua promovendo um dos maiores crimes da história da chamada civilização cristã. Mas a resolução do Comitê que em Oslo confere o principal Prêmio Nobel acaba de reafirmar o que há muito se vem questionando sobre essa instituição, outrora das poucas ainda conceituada.

Em 2009 o Comitê entregou o Nobel da Paz para o atual presidente dos Estados Unidos que assumira em janeiro daquele mesmo ano e sequer tivera tempo de realizar algo que o justificasse. Talvez a intenção tenha sido estimular o principiante, mas o discurso de agradecimento do afrodescendente, Barack Obama decepcionou pelo velho diapasão de todos os que dirigiram sua branca e bélica nação, constituindo-se numa declaração de guerra ao mundo que não deixou dúvidas sobre quais os pactos assumidos pelas grandes potências do Hemisfério Norte.

Se na ocasião as palavras de Obama desprestigiaram a premiação a ele conferida, agora o Comitê Nobel da Noruega desqualifica a instituição do prêmio em si, provocando ainda maior repúdio a cada notícia sobre promoção de guerras para contrabando de pedras preciosas e tráfico de armas ou desesperos coletivos que levam muitos indivíduos ao suicídio, à venda de órgãos, a entrega de seus filhos para adoção ou para a prostituição. Multidões de desempregados, desalojados, famintos. Desesperados sem saída para o redemoinho provocado pelos planos de austeridade impostos pela União Europeia.

José Manuel Durão Barroso
O português José Manuel Durão Barroso que preside a Comissão Executiva da União Europeia considerou a premiação uma grande honra. Durão que durante a Revolução dos Cravos se dizia socialista, em 2003 hospedou na Ilha Terceira do arquipélago dos Açores a George Bush, Tony Blair e o espanhol Aznar. Mais tarde a estes quatro juntou-se a quinta besta do atual apocalipse econômico: Berlusconi. E se deu a invasão do Iraque, apesar das advertências de Sadam Hussein profetizando que as mães do ocidente chorariam sangue.

Hussein também foi imposto aos iraquianos pelos mesmos que o mataram, na tentativa de atingir o Irã em represália à deposição de um dos mais cruéis entre os tiranos apoiados pelas nações capitalistas do ocidente: o xá Reza Pahlevi.

No governo de Ronald Reagan o episódio da guerra Iraque x Irã teve reflexos no outro lado do mundo, quando com o apoio de Israel a CIA furou o embargo de armas aos Aiatolás proposto pelo próprio Estados Unidos. O lucro obtido financiou a ação dos Contras que pretendiam derrubar o governo Sandinista, por sua vez também substituto de outra hereditária tirania aliada aos Estados Unidos: a dos Somoza, levados ao poder desde que marines invadiram a Nicarágua em 1912. 

Com o apoio das corporações financeiras sionistas, Estados Unidos e Inglaterra de alguma forma vêm se equilibrando entre os efeitos da crise internacional, mal contendo o desemprego em massa e o aumento incontrolável do número de desabrigados. Mas essas grandes corporações sediadas no Reino Unido, na Holanda e Suíça não vêm razão de manter o malogro das pretensões dos demais consorciados ao encontro dos Açores.

Werner Herzog
E o que a Grécia tem a ver com isso tudo? Por que as nações europeias beneficiadas pela previdência de seus então presidentes Schröder e Chirac -- quando se recusaram a participar da orgia neoliberal – cobram dos gregos os custos de uma Troia que não invadiram? Por que esse presente de alemão?

Na Europa crescem as cogitações sobre informações não oficiais de existência de grande bacia de petróleo no Mar Egeu, a justificar as pressões de hoje para garantir futuras maiores participações na exploração de um provável Eldorado negro.

De fato, o Egeu fica logo acima da Líbia, onde há bem pouco, por traição de Berlusconi, Sarkozy e outros dirigentes Europeus se executou Muammar Kadafi, garantindo o saqueio do petróleo líbio à Europa. Mas ainda é Pedro Machado quem faz uma leitura mais ampla, considerando que não seja no petróleo do Oriente Médio, na mão de obra barata e no mercado de consumo do Extremo-Oriente, no ouro das Américas e nos diamantes de África onde se possa justificar a prepotência e desfaçatez da civilização ocidental e cristã que há meio milênio se expande em destruição do que há de humano no mundo.

Concordo com Pedro e concluo que à essa autofagia que ameaça a toda a humanidade e a si mesma, a civilização ocidental foi condenada pela cólera de seus deuses que não falam pela pena de Goethe, pela câmera de Herzog ou pela dramaticidade de Kinski. Mas pela boca de outra alemã que declara a resolução do Comitê Nobel da Noruega como “decisão maravilhosa”: a da chanceler Angela Merkel.