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sábado, 24 de novembro de 2012

Israel e Gaza: Robert Fisk entrevista Uri Avnery

Uri Avnery: “Um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel quer paz com Hamás e Gaza. Mas e o Knesset?”


23/11/2012, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
O velho Uri Avnery tem 89 anos e ainda luta. De fato, escritor mundialmente conhecido, ainda é um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel, ainda exige paz com os palestinos, paz com o Hamás, um estado palestino nas fronteiras de 67 – com pequenos acertos de território para um lado e outro. Ainda crê que Israel poderia ter paz, amanhã ou na próxima semana. Se Netanyahu quisesse paz. “Azar de otimista incorrigível” – assim ele descreve o próprio destino. Ou talvez seja, mesmo, só, um velho mágico?

Ainda é o mesmo sujeito que encontrei há 30 anos, jogando xadrez com Yasser Arafat nas ruínas de Beirute. Cabelos e barbas hoje brancos, lança palavras – diz que ultimamente anda um pouco surdo – com a mesma fúria e o humor de sempre. Pergunto a Avnery o que estão fazendo Netanyahu e seu governo. Qual o objetivo deles nessa guerra de Gaza? Os olhos dele brilham e ele responde.

Você pressupõe que eles queiram alguma coisa e que queiram paz – e, nesse caso, a política deles é idiota, ou insana. Mas se você assume que não dão a mínima para a paz, mas querem um estado judeu que vá do Mediterrâneo ao rio Jordão, então, em certa medida, o que estão fazendo tem um certo sentido. O problema é que o que eles querem está levando a um beco sem saída – porque já temos um estado em toda a Palestina histórica, três quartos do qual é o estado judeu de Israel e um quarto do qual são a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ocupadas.

Apartheid em Israel

Avnery fala em sentenças perfeitas. Minha caneta corre pelo papel até ficar sem tinta. Tenho de usar uma das dele.

Se anexarem a Cisjordânia como anexaram Jerusalém Leste – diz ele – nem faz muita diferença. O problema é que nesse território que hoje é dominado por Israel, há 49% de judeus e 51% de árabes, e o desequilíbrio aumenta ano a ano, porque o crescimento populacional natural entre os árabes é muito maior que o crescimento natural do nosso lado. Portanto, a verdadeira pergunta é: se essa política continua, que tipo de estado haverá? Como é hoje, é um estado de apartheid; absoluto apartheid nos territórios ocupados e apartheid crescente em Israel. E se isso continuar, haverá absoluto apartheid em todo o país, sem dúvida alguma.

O argumento de Avnery avança, claro.

Se os habitantes árabes tiverem garantidos plenos direitos civis, logo haverá maioria árabe no Knesset [Parlamento], e a primeira coisa que esse Parlamento fará será trocar o nome do país, de “Israel” para “Palestina”, e todo o exercício dos últimos 130 anos será reduzido a nada. Limpeza étnica massiva é impossível no século 21 – diz ele ou espera ele – mas quanto à demografia, não há o que discutir.

É uma supressão. Espera-se que ninguém pense nisso, que se afaste a ideia da nossa consciência. Nenhum dos partidos fala sobre esse problema. A palavra ‘paz’ não aparece em nenhum manifesto eleitoral, exceto no do pequeno partido Meretz –, nem nos partidos da Oposição nem na Coalizão. A palavra ‘paz’ desapareceu completamente em Israel.

A esquerda em Israel? Como que, mais ou menos, hiberna – desde que a esquerda foi destruída por Ehud Barak, em 2000. Ele voltou de Camp David – como autoproclamado líder do “campo da paz” – e decidiu que “não temos parceiro para a paz”. Foi golpe mortal. Quem disse isso não foi Netanyahu, mas o líder do Partido Trabalhista. Foi o fim do movimento Paz Agora.

Esperança

Então, o otimista ressurge, com a nuvens escurecendo o mar que se avista do apartamento de Avnery, sétimo andar, em Telavive.

Quando encontrei-me com Arafat em 1982, os termos estavam ali. O mínimo e o máximo do que os palestinos queriam era a mesma coisa: um estado palestino junto a Israel, que compreenderia a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste como capital, com pequenos acertos de território e uma solução simbólica para a questão dos refugiados. Lá está sobre a mesa, como flor murcha. Olha para nós todos os dias. Já cedemos a Faixa de Gaza – para ganhar o controle sobre a Cisjordânia, assim como [Menachem] Begin cedeu todo o Sinai, para ganhar toda a Palestina.

Avnery está convencido de que o Hamás aceitaria proposta semelhante – como disse a eles, em Gaza, em 1993;

... lá estava eu, frente a 500 xeiques de barbas negras, eu falando hebraico. Aplaudiram e me convidaram para o almoço.

Várias vezes, reuniu-se com delegados do Hamás depois daquele dia. Para eles, defender a Palestina é waqf [dever absoluto, sob a lei islâmica], não podem ceder a Palestina. Mas um acordo pode ser reconhecido e santificado também em termos religiosos. “Se oferecessem uma trégua de 50 anos, para mim, pessoalmente, seria suficiente”. “Claro – diz Avnery - o Hamás mantém, em seu manifesto, que quer destruir Israel. Abolir um manifesto é coisa muito difícil de fazer. Os russos algum dia aboliram o Manifesto Comunista? Pois a OLP aboliu o manifesto deles”.

E assim seguem as coisas. Os grupos da paz, pequenos mais muito ativos – Gush Shalom [Bloco da Paz], o projeto Paz Agora, que monitora as colônias, os Combatentes da Paz (ex-soldados israelenses e ex-combatentes palestinos) e outros assemelhados preparam-se para as eleições de janeiro. Curiosamente, Avnery acredita que o terrível – e muito execrado – Relatório Goldstone sobre a matança que foi a guerra de Gaza de 2008-2009, foi o que impediu, daquela vez, a invasão por terra.

Goldstone pode orgulhar-se do que fez – de fato, salvou muitas vidas.

Não poucos, na esquerda de Israel, sonham com que Uri Avnery viva outros 89 anos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os “Documentos da Palestina” [Palestine Papers]

23/1/2011, Gregg Carlstrom, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu (tradução em andamento)


Introdução

A rede de televisão Al-Jazeera recebeu mais de 1.600 documentos internos, relativos a uma década de negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, aos quais teve acesso irrestrito.

São quase 1.700 arquivos, milhares de páginas de correspondência diplomática que detalha ‘por dentro’ o andamento do processo de paz. Os documentos – memorandos, e-mails, mapas, minutas de atas de encontros privados, relatórios de encontros de alto nível, papéis estratégicos e até apresentações em Power Point – datam de 1999 a 2010.

É material volumoso e detalhado, que oferece panorama jamais visto, interno, do andamento das negociações em que se envolveram representantes de alto nível dos EUA, de Israel e da Autoridade Palestina.

A rede Al-Jazeera divulgará os documentos entre os dias 23 e 26 de janeiro de 2011. Os documentos revelam detalhes até agora ignorados sobre:

– a disposição da Autoridade Palestina para aceitar as construções ilegais de Israel em Jerusalém Leste;

– a disposição da Autoridade Palestina para aceitar soluções “criativas” sobre o status do Monte do Templo/Haram al-Sharif/Temple Mount;
– as concessões que a Autoridade Palestina estava disposta a fazer quanto aos direitos dos refugiados e o direito de retorno;
– detalhes da cooperação para questões de segurança entre a Autoridade Palestina e Israel; e
– trocas privadas entre negociadores da Autoridade Palestina e dos EUA, no final de 2009, quando o Relatório Goldstone estava sendo discutido na ONU.
Dada a natureza excepcionalmente sensível desses documentos, a rede Al-Jazeera não revelará a(s) fonte(s) nem qualquer detalhe sobre como os documentos lhe foram entreges. A autenticidade dos documentos foi cuidadosamente examinada, por longo tempo e estamos convencidos de que são autênticos.

Cremos que é material de valor inestimável para jornalistas, especialistas, historiadores, políticos e para a opinião pública.

Sabemos que parte do que aqui divulgamos gerará controvérsia, mas nosso dever é informar, não ocultar informação, e provocar debate e reflexão, não impedi-los ou dificultá-los. Nossos leitores e telespectadores verão que criamos uma sessão de comentários, na qual todos podem manifestar-se. Mantemos nossa política editorial, e nos reservamos o direito de não publicar comentários que nos pareçam ofensivos, mas todas as vozes da sociedade serão respeitadas e todas as opiniões adequadamente manifestadas serão ouvidas.

Apresentamos esses documentos como serviço prestado a nossos leitores e telespectadores, como reflexo de nossa postura fundamental – que o debate e as políticas públicas crescem, florescem e afirmam-se quando podem respirar e recebem luz plena, sem as quais, não há democracia nem transparência democrática.


Principais documentos [em tradução]

Alguns documentos só são acessíveis em .pdf [podem ser impressos, mas não podem ser copiados]
Janeiro 2003 [Documento em .pdf em inglês ]

Comentário
Plano do M16 britânico para a segurança na Palestina, no qual o governo britânico discute o treinamento de oficiais e a recomposiçõa da cooperação entre as agências israelenses e palestinas, além de outras iniciativas com vistas à retirada das tropas israelenses e a construir capacidade palestina.

Leem-se as seguintes expressões, em referência ao Hamás e à Jihad Islâmica Palestina [ing. Palestinian Islamic Jihad (PIJ): 

"2. Degradar as capacidades dos rejeicionistas [orig. rejectionists] – Hamás, PIJ e as Brigadas Al-Aqsa – até romper as comunicações entre suas lideranças e capacidades de controle; deter oficiais-chave da hierarquia média; e confiscar seus arsenais e recursos financeiros mantidos nos Territórios Ocupados, EUA e – informalmente – monitores do Reino Unido reportarão ambos a Israel e ao Quarteto. Podemos também explorar o recolhimento temporário das principais líderes do Hamás e do PIJ, assegurando que sejam bem tratados, com financiamento da União Europeia.”

2/5/2005 [Documento em .pdf em inglês]

Comentário
(Aqui o original em inglês )

Relatório do Escritório de Ligação Militar do Reino Unido (em Jerusalém) resumindo os projetos dos britânicos para reforçar e apoiar as forças de segurança da Autoridade Palestina. A maior parte dos projetos é de logística e infraestrutura, como ar-condicionado, veículos, espaço para escritórios, mobiliários e itens básicos. Também se delineiam os custos a serem pagos às forças de inteligência da Autoridade Palestina, para Inteligência Geral [orig. General Intelligence (GI)] e Serviços de Segurança Preventiva [orig. Preventative Security Services (PSS)].

– Meeting Summary: Shaul Mofaz and Nasr Yousef
1/10/2005, TEXTO INTEGRAL em inglês

– Meeting Minutes: Bilateral Meeting on Security
6/5/2008, TEXTO INTEGRAL em inglês

– Meeting Minutes: Saeb Erekat and David Hale
17/9/2009,TEXTO INTEGRAL em inglês


23/1/2011, Al-Jazeera

Sigla [inglês]
Por extenso/Expressão equivalente, em port., não oficial
AMA
Agreement on Movement and Access/Acordo sobre Movimento e Acesso
API
Arab Peace Initiative/Iniciativa de Paz Árabe
BATNA
Best alternative to a negotiated agreement/Melhor alternativa a um acordo negociado
CBM
Confidence-building measure/Medida para construir confiança
CEC
Central Elections Committee/Comissão Central para eleições
GOI
Government of Israel/Governo de Israel
KSCP
Kerem Shalom crossing point/Ponto de passagem Kerem Shalom
LO
Liaison Office/Escritório de Ligação
MB
Muslim Brotherhood/Fraternidade Muçulmana [grupo de militantes]
MF
Multi-national force/Força multinacional
MFA
Israeli ministry of foreign affairs/Ministério de Negócios Externos de Israel
NAD
Negotiations affairs department/Departamento de negociação comercial
NSU
Negotiation support unit/Unidade de apoio às negociações
NUG
National unity government/Governo de unidade nacional
PA
Palestinian Authority/Autoridade Palestina
PG
Presidential Guard/Guarda presidencial
PLC
Palestinian Leadership Council/Conselho da Liderança Palestina
OS
Permanent status/Status permanente
PSN
Permanent status negotiations/Negociações do status permanente
RCP
Rafah crossing point/Ponto de passagem de Rafah
RM
Road Map/Mapa do Caminho
SPB
State with provisional borders/Estado com fronteiras provisórias
SSR
Security sector reform/Reforma do setor de segurança
SWG
Security working group/Grupo de Trabalho de segurança
TOR
Terms of reference/Termos de referência
WG
Working group/Grupo de Trabalho


Nomes de pessoas

Em vários documentos, aparecem abreviaturas para designar os principais negociadores: Tzipi Livni, por exemplo, aparece como “TL” e “TZ”. Oferecemos aqui uma relação das abreviaturas mais frequentes dos principais nomes:
Abreviatura
Nome por extenso [grafia em inglês]
AA
Abu Ala' (Ahmed Qureia)
AB
Azem Bishara
AG
Amos Gilad
AM
Abu Mazen (Mahmoud Abbas)
ARY
Gen. Abdel Razzaq Yahia
BM
Ban Ki-moon
BO
Barack Obama
CR
Condoleezza Rice
DW
David Welch
ES
Ephraim Sneh
GS
Gilad Shed
JS
Javier Solana
KD
Gen. Keith Gayton
KE
Khaled el-Gindy
MD
Mohammad Dahlan
MO
Marc Otte
PP
Tenente-general Pietro Pistolese
PR
Coronel Paul Rupp
PS
Pablo Serrano
RD
Rami Dajani
RN
Gen. Raji Najami
SA
Samih al-Abed
SE
Saeb Erekat
SF
Salam Fayyad
ST
Shalom Tourgeman
TB
Tal Becker
TL
Tzipi Livni
UD
Udi Dekel
YAR
Yasser Abed Rabbo
YG
Yossi Gal