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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Uri Avnery: “Um respeito decente às opiniões da humanidade”

18/10/2014, [*] Uri AvneryGush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Decent Respect” [1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Manifestante enrolado em bandeiras inglesa e palestina em frente ao Parlamento em Londres
Se o Parlamento britânico tivesse aprovado resolução a favor de ocupação israelense na Cisjordânia, a reação da imprensa israelense teria sido a seguinte:

Em atmosfera de grande entusiasmo, o Parlamento britânico aprovou por imensa maioria (274 votos a favor, meros 12 contra) uma moção pró-Israel... Mais da metade dos assentos estavam ocupados, quórum maior que o usual. Os inimigos de Israel esconderam-se e não se atreveram a votar contra.

Infelizmente, o Parlamento britânico aprovou essa semana uma resolução pró-palestinos, e a reação da imprensa israelense foi quase unanimemente a seguinte:

Metade da sala estava vazia (...) não se viam sinais de entusiasmo (...)exercício burocrático sem sentido (...) Apenas 274 membros votaram a favor da resolução, que não é obrigatória (...) Muitos membros nem se deram o trabalho de comparecer (...).

Mesmo assim, a imprensa de Israel noticiou longamente os procedimentos e os jornais publicaram vários artigos sobre o assunto. Verdadeira orgia de notícias, sobre ato desprezível, negligenciável, sem importância, insignificante, sem consequências, trivial, mínimo.

Manifestantes colocaram faixas em
frente ao Parlamento inglês
Um dia antes, 363 judeus cidadãos israelenses pediram que o Parlamento britânico aprovasse a resolução, que conclama o governo britânico a reconhecer o Estado da Palestina. Entre os signatários da petição havia um laureado do Prêmio Nobel, vários portadores da mais alta condecoração israelense civil, dois ex-ministros do Gabinete e quatro membros o Parlamento (entre os quais eu), diplomatas e um general.

A máquina oficial de propaganda israelense não entrou em ação. Sabendo que a resolução seria aprovada, tentaram esvaziar e encobrir o evento o mais possível. Ninguém conseguiu falar com o embaixador de Israel em Londres.

Terá sido, mesmo, evento insignificante? Em sentido procedimental estrito, sim, foi. Em sentido mais amplo, não foi, não, de modo algum. E para a liderança israelense, foi uma, dentre várias outras más notícias.

Poucos dias antes, notícias semelhantes chegaram da Suécia. O primeiro-ministro de esquerda recém eleito anunciou que seu governo está analisando a possibilidade de, em futuro próximo, reconhecer o Estado da Palestina.

A Suécia, como a Grã-Bretanha, sempre foi considerado país “pró-Israel”, que sempre votou lealmente contra quaisquer propostas de resolução “anti-Israel” aparecidas na ONU. Se essas importantes nações ocidentais estão reconsiderando as suas atitudes em relação à política de Israel... O que significa essa reconsideração?

Stefan Löfven é o novo Primeiro
Ministro da Suécia
Outro golpe inesperado veio do Sul. O ditador egípcio Abdel-Fatah al-Sisi, desautorizou a versão, cara à liderança israelense, de que os estados árabes “moderados” formariam como aliados de Israel contra os palestinos. Num discurso duro, al-Sisi avisou à sua recém descoberta alma-gêmea, Binyamin Netanyahu, que os estados árabes não cooperarão com Israel, enquanto não firmarmos a paz com um estado palestino.

Assim al-Sisi furou o balão recentemente inflado e posto a flutuar por Netanyahu – que os estados árabes pró-EUA, como Egito, Arábia Saudita, Jordânia, os Emirados, Kuwait e Qatar, se declarariam abertos aliados de Israel.

Na América do Sul, a opinião pública já mudou de campo e é hoje marcadamente contra Israel. O reconhecimento da Palestina está ganhando campo também em círculos oficiais. Até nos EUA, o apoio incondicional ao governo de Israel parece ir-se tornando cada vez menos unânime.

Que diabos está acontecendo?

O que está acontecendo é mudança profunda, como talvez uma deriva tectônica, na atitude pública em relação a Israel.

Soldados de Israel vigiam crianças feitas
prisioneiras na Palestina ocupada
Já há anos, Israel aparece na mídia mundial, principalmente, como o país que ocupa terras palestinas. Fotos jornalísticas de israelenses quase sempre mostram soldados pesadamente armados e blindados, sempre em confronto com palestinos que protestam e, não raro, crianças. Poucas dessas fotos têm efeito dramático imediato, mas o efeito cumulativo, incremental, não deve ser subestimado.

Um serviço diplomático verdadeiramente ativo já teria alertado seu governo há muito tempo. Mas o serviço diplomático de Israel está terrivelmente desmoralizado. Chefiado por Avigdor Lieberman, leão-de-chácara peso pesado, brutamontes tido por semifascista por muitos de seus colegas pelo mundo, todo o corpo diplomático israelense está aterrorizado. E prefere manter-se calado.

Esse processo alcançou um ponto máximo com a recente guerra de Israel contra Gaza. Não foi basicamente diferente das duas guerras de Gaza que a precederam nem faz muito tempo, mas por alguma razão teve impacto muito mais forte.

Durante um mês e meio, dia após dia, as pessoas em todo o mundo foram bombardeadas com imagem de cadáveres, seres humanos, mortos, feridos, crianças dilaceradas, mães desesperadas, prédios de apartamentos destruídos, hospitais e escolas destruídos, massas de refugiados sem-teto. Graças à Cúpula de Ferro [Iron Dome], não se viram prédios israelenses destruídos, nem qualquer civil israelense morto.

Corajoso soldado de Israel se defende de
ataque de mulher e filhos palestinos
Qualquer pessoa comum decente, seja em Estocolmo ou Seattle ou Cingapura, não pode ser exposta a sequência continuada daquelas imagens horríveis sem ser afetada – primeiro inconscientemente, depois conscientemente. A imagem do “israelense” vai mudando na mente, lenta, quase imperceptivelmente. O bravo pioneiro que enfrenta os selvagens que o cercam vai mudando, até mostrar um feio animal que aterroriza população indefesa.

Por que os israelenses não se dão conta disso? Porque Nós Estamos Sempre Certos.

Já se disse: o principal perigo da propaganda, de qualquer propaganda, é que a primeira vítima é o próprio propagandista. A propaganda convence o propagandista, muito mais que seu público-alvo. Se você torce um fato e o repete cem vezes, você se condena a acreditar na sua própria invenção.

Considerem a ideia de que nós seríamos obrigados a bombardear instalações da ONU na Faixa de Gaza, “porque” o Hamás as utilizaria para lançar foguetes contra nossas cidades e vilas. Jardins de infância, escolas, hospitais e mesquitas foram atacados por artilharia, aviões,drones e barcos de guerra de Israel. 99% dos israelenses acreditam que foi necessário. E ficaram muito chocados quando o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, que visitou Gaza essa semana, declarou que todos esses ataques sempre foram totalmente inadmissíveis.

Será que o Secretário-Geral não foi informado de que o exército de Israel é o Exército Mais Moral do Mundo?!

Outra ideia é a de que aqueles prédios seriam usados pelo Hamás para esconder armas.

A violência de Israel contra
crianças palestinas é lendária
Alguém, com a minha idade (91 anos), nos recordou esta semana, pelo Haaretz, que os israelenses fizemos exatamente o mesmo, em nossa luta contra o governo britânico na Palestina e atacantes árabes: nossas armas eram escondidas em jardins de infância, escolas, hospitais e sinagogas. Em alguns desses pontos há placas, hoje, como orgulhosos memoriais, para que ninguém esqueça o que fizemos.

Aos olhos dos israelenses médios, a matança e a vasta destruição durante a recente campanha foi completamente justificada. Ele já é quase incapaz de compreender a indignação planetária. E por falta de qualquer outro motivo, atribui tudo ao antissemitismo.

Depois de uma das guerras do Líbano (esqueci qual delas), recebi uma mensagem estranha: um general do exército me convidava para dar uma palestra para os oficiais sob comando dele, sobre o impacto da guerra na imprensa mundial. (Provavelmente, queria impressionar os comandados com sua atitude ilustrada).

Eu disse aos oficiais que o campo de batalhas está hoje completamente mudado, que as guerras modernas são combatidas sob o fogo da imprensa mundial, que os soldados, hoje, têm de ser capazes de considerar essa evidência quando planejam e quando combatem. Todos ouviram respeitosamente e fizeram-me perguntas pertinentes, mas duvido que tenham realmente absorvido a lição.

Ser soldado é profissão como qualquer outra. Qualquer profissional, seja ele/ela advogado ou varredor de rua, adota um conjunto de atitudes adequadas àquela profissão.

Generais pensam com realismo: quantos soldados para tal tarefa, quantos canhões. O que é necessário para quebrar a resistência do inimigo? Como reduzir ao mínimo as nossas baixas?

Generais não pensam sobre fotos no New York Times.

Na campanha de Gaza, nem as crianças foram mortas nem as casas foram destruídas arbitrariamente: tudo teve uma razão militar. É preciso matar pessoas, para reduzir o perigo de morte a que nossos soldados estão expostos. (Melhor cem palestinos mortos, que um soldado israelense). As pessoas têm de viver aterrorizadas, para que se voltem contra o Hamás. Bairros inteiros têm de ser destruídos para que os soldados israelenses consigam avançar e, também, para ensinar à população uma lição da qual se lembrará durante anos, o que ajudará a adiar a próxima guerra.

Tudo isso faz perfeito sentido militar para um general. Ele está lutando uma guerra, santo Deus, e não pode perder tempo com considerações não militares. Como o impacto sobre a opinião pública mundial. Seja como for, depois do Holocausto...

O que o general pensa, Israel pensa.

Manifestações anti-Israel e pro-Gaza
ocorreram no mundo inteiro
Israel não é uma ditadura militar. O general al-Sisi pode até ser o melhor amigo de Netanyahu, mas Netanyahu não é general. Israel gosta de fazer negócios, principalmente negócios com armas, com militares ditadores em todo o mundo, mas em Israel, propriamente dita, até os militares obedecem ao governo civil eleito.

Sim, mas...

Mas o Estado de Israel nasceu de uma guerra duríssima, o resultado da qual absolutamente não era garantido naquele momento. O exército era então, e é até hoje, o centro da vida nacional de Israel. Pode-se dizer que o exército é o único elemento realmente unificador na sociedade israelense. É onde homens e mulheres, asquenazes e orientais, religiosos e seculares (exceto os ortodoxos), ricos e pobres, tradicionais e imigrantes recém-chegados reúnem-se e são doutrinados pelo mesmo espírito.

A maioria dos judeus israelenses são ex-soldados. A maioria dos oficiais, que deixam o exército com pouco mais de 40 anos, espalham-se pela elite administrativa, econômica, política e acadêmica do país. Resultado disso, a mentalidade militar é dominante em Israel.

Assim sendo, os israelenses são quase incapazes de compreender a função que tem a opinião pública mundial. O que querem de nós aqueles suecos, britânicos e japoneses? Será que pensam que gostamos de matar crianças, destruir lares? (Como disse Golda Meir: “Podemos perdoar os árabes por matar nossas crianças, mas nunca os perdoaremos por nos obrigar a matar as crianças deles”).

Os fundadores de Israel eram muito conscientes da opinião pública mundial. É verdade que David Ben-Gurion declarou certa vez que “pouco importa o que os goyim dizem, o que importa é o que os judeus fazem”, mas na vida real Ben-Gurion era muito consciente da necessidade de convencer a opinião pública mundial. Assim também o seu adversário, o líder dos sionistas de direita Vladimir Jabotinsky, que disse uma vez a Menachem Begin que, se fosse dar atenção à consciência do mundo, acabaria “pulando no [rio] Vistula”.

A opinião pública mundial é importante. Mais que isso, é vital. A resolução que o Parlamento britânico aprovou pode não ser obrigatória, mas manifesta a opinião pública, a qual, mais cedo ou mais tarde, decidirá sobre a ação de seus governos na compra de armas, nas resoluções do Conselho de Segurança, nas decisões da União Europeia, numa direção ou em outra. Como disse Thomas Jefferson, “Se o povo decide e lidera, mais cedo ou mais tarde os líderes seguirão o povo”. O mesmo Jefferson também recomendou “um respeito decente às opiniões da humanidade”.



Nota dos tradutores

[1] Expressão que aparece no 1º parágrafo da “Declaração de Independência dos 13 estados unidos da América”, lida ante o Congresso, no dia 4/7/1776 [aqui traduzido]:

Quando, no curso de eventos humanos, torna-se necessário para um povo dissolver os laços políticos que o tenham ligado a outro povo, e assumir, dentre as potências da Terra, o status separado e igual ao qual o capacitam as Leis da Natureza e o Deus da Natureza, um respeito decente às opiniões da humanidade exige que declarem as causas que levam aquele povo à separação.

[*] Uri Avnery nasceu em Beckum, Alemanha, em 10/9/1023 (91 anos) com o nome de Helmut Ostermann, Avnery e família emigraram para a Palestina em 1933, fugindo do nazismo. Em 1938, ele se juntou ao grupo paramilitar sionista Irgun. Abandonou o grupo Irgun em 1942 após se decepcionar com suas táticas. Em 1947, Avnery deu início ao seu pequeno grupo, Eretz Yisrael Hatze'ira (“Jovem Terra de Israel”) que publicava o jornal Ma'avak ("Luta"). Em 1947 ele propôs a união dos países da “região semítica”: Palestina, Transjordânia, Líbano, Síria e Iraque.
Durante a guerra árabe-israelense de 1948, Avnery lutou no front sul na Brigada Givati como comandante de um batalhão. Ferido, foi dispensado no verão de 1949.
Durante as décadas de 1950 e 1960 Avnery foi, em conjunto com Shalom Cohen, editor da revista semanalHaOlam HaZeh ("Esse Mundo"). Em 1965 Avnery criou um partido político que tinha o mesmo nome que sua revista HaOlam HaZeh – Koah Hadash. No mesmo ano, foi eleito para o KnessetDepois fundou o partido político Meri, que não conseguiu garantir lugares nas eleições de 1973. Ele voltou ao Knesset como membro do partido de esquerda de Israel, após as eleições de 1977, mas não foi reeleito em 1981. Mais tarde se envolveu com a Chapa Progressista pela Paz.
Avnery encontrou-se com Yasser Arafat em 3 de julho de 1982, durante o cerco de Beirute. Foi possivelmente a primeira vez que um israelense teve um encontro pessoal com Arafat.
Posteriormente, Avnery passou ao ativismo e fundou o movimento Gush Shalom (em hebraico: גוש שלום,Bloco da Paz) em 1993. Ele é adepto do secularismo e se opõe firmemente à influência ortodoxa na vida política.
Atualmente Avnery colabora com os sites jornalísticos CounterPunchInformation Clearing HouseLew Rockwell e The Exception Magazine

sábado, 24 de novembro de 2012

Israel e Gaza: Robert Fisk entrevista Uri Avnery

Uri Avnery: “Um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel quer paz com Hamás e Gaza. Mas e o Knesset?”


23/11/2012, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
O velho Uri Avnery tem 89 anos e ainda luta. De fato, escritor mundialmente conhecido, ainda é um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel, ainda exige paz com os palestinos, paz com o Hamás, um estado palestino nas fronteiras de 67 – com pequenos acertos de território para um lado e outro. Ainda crê que Israel poderia ter paz, amanhã ou na próxima semana. Se Netanyahu quisesse paz. “Azar de otimista incorrigível” – assim ele descreve o próprio destino. Ou talvez seja, mesmo, só, um velho mágico?

Ainda é o mesmo sujeito que encontrei há 30 anos, jogando xadrez com Yasser Arafat nas ruínas de Beirute. Cabelos e barbas hoje brancos, lança palavras – diz que ultimamente anda um pouco surdo – com a mesma fúria e o humor de sempre. Pergunto a Avnery o que estão fazendo Netanyahu e seu governo. Qual o objetivo deles nessa guerra de Gaza? Os olhos dele brilham e ele responde.

Você pressupõe que eles queiram alguma coisa e que queiram paz – e, nesse caso, a política deles é idiota, ou insana. Mas se você assume que não dão a mínima para a paz, mas querem um estado judeu que vá do Mediterrâneo ao rio Jordão, então, em certa medida, o que estão fazendo tem um certo sentido. O problema é que o que eles querem está levando a um beco sem saída – porque já temos um estado em toda a Palestina histórica, três quartos do qual é o estado judeu de Israel e um quarto do qual são a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ocupadas.

Apartheid em Israel

Avnery fala em sentenças perfeitas. Minha caneta corre pelo papel até ficar sem tinta. Tenho de usar uma das dele.

Se anexarem a Cisjordânia como anexaram Jerusalém Leste – diz ele – nem faz muita diferença. O problema é que nesse território que hoje é dominado por Israel, há 49% de judeus e 51% de árabes, e o desequilíbrio aumenta ano a ano, porque o crescimento populacional natural entre os árabes é muito maior que o crescimento natural do nosso lado. Portanto, a verdadeira pergunta é: se essa política continua, que tipo de estado haverá? Como é hoje, é um estado de apartheid; absoluto apartheid nos territórios ocupados e apartheid crescente em Israel. E se isso continuar, haverá absoluto apartheid em todo o país, sem dúvida alguma.

O argumento de Avnery avança, claro.

Se os habitantes árabes tiverem garantidos plenos direitos civis, logo haverá maioria árabe no Knesset [Parlamento], e a primeira coisa que esse Parlamento fará será trocar o nome do país, de “Israel” para “Palestina”, e todo o exercício dos últimos 130 anos será reduzido a nada. Limpeza étnica massiva é impossível no século 21 – diz ele ou espera ele – mas quanto à demografia, não há o que discutir.

É uma supressão. Espera-se que ninguém pense nisso, que se afaste a ideia da nossa consciência. Nenhum dos partidos fala sobre esse problema. A palavra ‘paz’ não aparece em nenhum manifesto eleitoral, exceto no do pequeno partido Meretz –, nem nos partidos da Oposição nem na Coalizão. A palavra ‘paz’ desapareceu completamente em Israel.

A esquerda em Israel? Como que, mais ou menos, hiberna – desde que a esquerda foi destruída por Ehud Barak, em 2000. Ele voltou de Camp David – como autoproclamado líder do “campo da paz” – e decidiu que “não temos parceiro para a paz”. Foi golpe mortal. Quem disse isso não foi Netanyahu, mas o líder do Partido Trabalhista. Foi o fim do movimento Paz Agora.

Esperança

Então, o otimista ressurge, com a nuvens escurecendo o mar que se avista do apartamento de Avnery, sétimo andar, em Telavive.

Quando encontrei-me com Arafat em 1982, os termos estavam ali. O mínimo e o máximo do que os palestinos queriam era a mesma coisa: um estado palestino junto a Israel, que compreenderia a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste como capital, com pequenos acertos de território e uma solução simbólica para a questão dos refugiados. Lá está sobre a mesa, como flor murcha. Olha para nós todos os dias. Já cedemos a Faixa de Gaza – para ganhar o controle sobre a Cisjordânia, assim como [Menachem] Begin cedeu todo o Sinai, para ganhar toda a Palestina.

Avnery está convencido de que o Hamás aceitaria proposta semelhante – como disse a eles, em Gaza, em 1993;

... lá estava eu, frente a 500 xeiques de barbas negras, eu falando hebraico. Aplaudiram e me convidaram para o almoço.

Várias vezes, reuniu-se com delegados do Hamás depois daquele dia. Para eles, defender a Palestina é waqf [dever absoluto, sob a lei islâmica], não podem ceder a Palestina. Mas um acordo pode ser reconhecido e santificado também em termos religiosos. “Se oferecessem uma trégua de 50 anos, para mim, pessoalmente, seria suficiente”. “Claro – diz Avnery - o Hamás mantém, em seu manifesto, que quer destruir Israel. Abolir um manifesto é coisa muito difícil de fazer. Os russos algum dia aboliram o Manifesto Comunista? Pois a OLP aboliu o manifesto deles”.

E assim seguem as coisas. Os grupos da paz, pequenos mais muito ativos – Gush Shalom [Bloco da Paz], o projeto Paz Agora, que monitora as colônias, os Combatentes da Paz (ex-soldados israelenses e ex-combatentes palestinos) e outros assemelhados preparam-se para as eleições de janeiro. Curiosamente, Avnery acredita que o terrível – e muito execrado – Relatório Goldstone sobre a matança que foi a guerra de Gaza de 2008-2009, foi o que impediu, daquela vez, a invasão por terra.

Goldstone pode orgulhar-se do que fez – de fato, salvou muitas vidas.

Não poucos, na esquerda de Israel, sonham com que Uri Avnery viva outros 89 anos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Paz, de uma vez por todas!


24/11/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Uri Avnery
O mantra dessa vez foi “de uma vez por todas”.

“Temos de por fim nisso (nos foguetes, no Hamás, nos palestinos, nos árabes?), de uma vez por todas!” – eis o grito que se ouvia, dúzia de vezes por dia nas televisões, dos moradores das cidades e vilas duramente atingidas do sul de Israel.

A ponto de o novo mantra ter deslocado o slogan que dominou durante várias décadas: “Atirar e acabar com aquilo!” 

Absolutamente não funcionou. O Hamás venceu.

O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamás.

Antes desse round, o Hamás era presença importante na Faixa de Gaza, mas praticamente não era visto como organização com estatura internacional. A face internacional do povo palestino era a Autoridade Nacional Palestina de Mahmoud Abbas.

Era. Não é mais.

A Operação Pilar de Nuvem deu amplo reconhecimento internacional ao miniestado do Hamás em Gaza. (“Pilar de Nuvem” é o nome oficial em hebraico, embora o porta-voz do exército tenha decretado que o nome em inglês, para consumo de estrangeiros, deveria ser “Pilar da Defesa”).

Chefes de vários estados e muitos ministros e dignitários estrangeiros já fizeram a necessária peregrinação à Faixa.

Primeiro, chegou o poderoso e imensamente rico emir do Qatar, proprietário da rede Al- Jazeera. Foi o primeiro chefe de Estado a pôr os pés na Faixa de Gaza. Depois, chegaram o primeiro-ministro egípcio, o ministro de Relações Exteriores da Tunísia, o secretário da Liga Árabe e vários ministros de Relações Exteriores de países árabes (exceto o de Ramallah).

Em todas as deliberações diplomáticas, Gaza foi tratada como Estado de facto, com governo de facto (o Hamás). Nem a mídia israelense escapou. Os israelenses rapidamente perceberam que qualquer acordo, para ser efetivo, teria de ser construído com o Hamás.

Entre o povo palestino, o prestígio e a estatura do Hamás alcançaram as alturas. Só a Faixa de Gaza, menor que qualquer condado médio dos EUA, sobrepôs-se a toda a gigante máquina de guerra dos israelenses, das maiores e mais eficientes do mundo. O exército de Israel não sucumbiu apenas. O resultado militar só pode ser apresentado (e com boa vontade a favor de Israel), como empate.

E empate entre a minúscula Gaza e a poderosa Israel significa vitória de Gaza.

Ehud Barak
Quem lembra hoje a orgulhosa fala de Ehud Barak, no meio da guerra: “Não devemos parar até que o Hamás seja posto de joelhos e suplique por um cessar-fogo”?

E em que ponto disso tudo fica Mahmoud Abbas? De fato, não fica em ponto algum. Abbas sumiu.

Para qualquer palestino comum, esteja em Nablus, Gaza ou Beirute, o contraste é flagrante: o Hamás tem orgulho, coragem, decisão; e o Fatah é frágil, vulnerável, submisso e ignorado. Na cultura árabe, honra e orgulho têm papel central.

Depois de mais de meio século de humilhação, qualquer palestino que tenha lutado contra a ocupação é herói das massas árabes, dentro e fora do país. Abbas está identificado só com a íntima colaboração entre suas forças de segurança e o odiado exército israelense ocupante. E, fato decisivo: Abbas nada tem para mostrar, como resultado de tão dedicada colaboração com a potência ocupante.

Mahmoud Abbas
Se Abbas pudesse exibir, pelo menos, uma grande realização política em troca do muito que padeceu, a situação talvez fosse outra. Os palestinos são gente sensível. Se Abbas tivesse dado pelo menos um passo que o aproximasse de ter conseguido qualquer coisa que se assemelhasse a algum estado palestino, a maioria dos palestinos provavelmente diriam: “não tem lá muito glamour, mas, pelo menos, cumpre o que promete”.

Pois está acontecendo exatamente o contrário. O Hamás armado consegue resultados; Abbas e a não-violência nada conseguem. Como disse-me um palestino: “Ele (Abbas) deu a tudo eles (aos israelenses), calma e segurança. E o que obteve [ou continua a obter] em troca? Os israelenses cospem na cara dele!”.  

Essa mais recente rodada de violência reforçará uma convicção de todos os palestinos: “Os israelenses só entendem a linguagem da violência!” (Israelenses, claro, dizem o mesmo, dos palestinos).

Se, pelo menos, os EUA permitissem a Abbas obter o reconhecimento da Palestina como estado não-membro, como observador, por resolução da ONU, Abbas ainda teria algo a apresentar para se promover frente ao Hamás. Mas o governo de Israel está decidido a impedir, custe o que custar, que esse reconhecimento aconteça.

Barack Obama
E Barack Obama, que já depois de re-eleito decidiu bloquear todos os esforços dos palestinos na ONU, está, de fato, assegurando seu apoio ao Hamás... o que implica que esbofeteia os “moderados”. A superficial, rápida, descuidosa visita de Hillary Clinton a Ramallah essa semana foi interpretada nesse contexto.

Examinada de fora, vê-se essa atitude de Israel e dos EUA como o que é: completa loucura. Por que minar a influência dos “moderados” que querem e são capazes de fazer a paz? Por que promover os “extremistas” que se opõem à paz?

A resposta veio, plenamente declarada, da boca de Avigdor Lieberman, hoje o No. 2 de Netanyahu no campo político: Lieberman quer destruir Abbas, anexar a Cisjordânia e abrir o caminho para os colonos.

Depois do Hamás, o maior vencedor é Mohamed Mursi.

Aí está outro resultado quase inacreditável. Quando Mursi foi eleito presidente do Egito, a Israel oficial entrou em estado de histeria. Que horror! Os extremistas islâmicos tomaram o poder no mais importante país árabe! Nosso tratado de paz com nosso maior vizinho, foi-se pelo ralo! Nos EUA, a reação foi praticamente idêntica a essa.

E hoje – quase quatro meses depois – aí está Israel, a ouvir com máxima atenção e reverência cada fala de Mursi. Mursi, ele, o homem que conseguiu pôr fim à destruição e à matança mútuas! Mursi, o grande pacificador! Mursi, o único homem capaz de fazer a mediação entre Israel e o Hamás! Mursi, o avalista do acordo de cessar-fogo!

É possível tal coisa? Será que falamos do mesmo homem? Do mesmo Mursi? Da mesma Fraternidade Muçulmana?

Mohamed Mursi
Mursi, 61 anos – cujo nome completo é Mohamed Mursi Isa al-Ayyad (Isa é a palavra, em árabe, para “Jesus”, que é um dos profetas do Islã) – é figura absolutamente desconhecida no cenário mundial. Apesar disso, hoje, todos os principais líderes políticos do mundo confiam integralmente nele.

Quando eu festejei, de todo o coração, a Primavera Árabe, tinha em mente gente como esse homem. Agora, praticamente todos os jornalistas, analistas, comentaristas, ex-generais e políticos israelenses, que, antes, diziam os maiores disparates e “alertavam” contra os novos políticos árabes, não se cansam de elogiar o sucesso do acordo de cessar-fogo.

Durante a operação Pilar de Nuvem, fiz o que sempre faço nessas situações: assisto, alternadamente, aos canais israelenses de televisão e à rede Al-Jazeera. Volta e meia, quando me distraio e volto repentinamente a prestar atenção à televisão, fico sem saber onde estou, se lá, se cá.

Mulheres em prantos, feridos carregados, casas em ruínas, sapatinhos de crianças espalhados entre os escombros, famílias com malas às costas, tentando escapar. Cá, como lá, as cenas se assemelham. Mas, sim: morreram 30 vezes mais palestinos que israelenses – em parte por efeito do Domo de Ferro dos israelenses, de interceptação de mísseis, enquanto os palestinos estavam absolutamente sem defesa alguma.

Na 4ª-feira fui convidado para um programa a ser exibido pelo Channel 2, o mais popular (e o mais patriótico-nacionalista) em Israel. O convite, como já aconteceu várias vezes, foi cancelado no último momento. Se tivesse ido ao tal programa, só teria uma pergunta a propor aos israelenses: “Valeu a pena?”.

Valeu a pena? 

Todo o sofrimento, os mortos, feridos, a destruição, as horas e dias de terror, as crianças traumatizadas?

Gilad Sharon
E, deve-se acrescentar, a cobertura infindável, 24 horas por dia, pelas televisões, com generais aposentados sempre a repetir os press-releases do gabinete do primeiro-ministro. E as mais horrendas, as mais escandalosas ameaças, na boca de políticos e outras variantes de doidos, entre os quais o filho de Ariel Sharon, Gilad Sharon, que propôs a destruição total, de toda a cidade de Gaza e arredores, ou, melhor ainda, logo, de toda a Faixa de Gaza.

OK. Tudo isso é passado. Estamos quase exatamente onde estávamos antes. A operação, chamada, em Israel, quase sempre, de “mais uma rodada”, não passou, de fato, de rodada – não levou a lugar algum; tudo ficou onde estava antes de a “rodada” começar. 

O Hamás assumirá firmemente o controle da Faixa de Gaza, talvez mais firmemente do que antes. Os palestinos odeiam Israel hoje, mais do que já odiavam antes. Muitos dos habitantes da Cisjordânia, os quais, durante a guerra saíram à rua aos milhares em demonstrações de apoio ao Hamás, votarão em ainda maior número, a favor do Hamás, nas próximas eleições. Dentro de dois meses, os israelenses votarão, depois da guerra, exatamente como votariam antes da guerra.

Os dois lados celebram vitória impressionante. Se se unissem e fizessem só uma festa, economizariam muito dinheiro.

QUAIS SÃO, POIS, as conclusões políticas?

A mais óbvia é: FALEM COM O HAMÁS. Diretamente. Cara a cara.

Yitzhak Rabin
1922-1995
Yitzhak Rabin disse-me, certa vez, como acabara por concluir que tinha de falar com a OLP, e diretamente com ela: depois de anos de oposição, acabara por entender que a OLP era a única força que contava. “Assim sendo, era ridículo só falar com eles através de intermediários”.  

Vale exatamente o mesmo, no caso do Hamás. O Hamás está ali. Não desaparecerá, nem partirá dali. É ridículo, para os negociadores israelenses, sentarem-se lá, numa sala do quartel-general da inteligência egípcia, nos arredores do Cairo, enquanto os negociadores do Hamás permanecem na sala ao lado, a apenas poucos metros de distância, com os egípcios, corteses, andando de um lado para o outro.

Ao mesmo tempo, que Israel trate de ativar esforços na direção da paz. A sério.

No momento, é preciso salvar Abbas, que não tem substituto à vista. Israel bem poderia garantir uma vitória imediata para Abbas, para contrabalançar a grande vitória do Hamás contra a Operação Pilar de Nuvem: Israel bem pode votar a favor de garantir-se aos palestinos o direito de membro-observador – portanto, de estado reconhecido – na Assembleia Geral da ONU.

Só assim Israel mostrará ao mundo que, sim, tem interesse em fazer a paz com todo o povo palestinos, incluindo Fatah e Hamas. Só assim Israel mostrará ao mundo que tem interesse em pôr fim à violência, DE UMA VEZ POR TODAS!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Uri Avnery: “Cães de guerra: quando setembro vier”

3/9/2011, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Não se ouvia falar de cães de guerra mais aterrorizantes, desde O Cão dos Baskervilles.

Foram cevados por um antigo admirador do falecido “rabino” Meir Kahane, que até a Suprema Corte de Israel definiu como fascista. A tarefa deles é proteger os colonos judeus e atacar os palestinos. São cães colonos judeus ou, melhor, colonos judeus cães.

Todos os canais de televisão em Israel os mostraram demoradamente, louvando-lhes a eficácia e o ardor.

Tudo isso, em preparação para “Setembro”.

SETEMBRO não é só nome de mês, o sétimo do antigo calendário romano. Setembro é símbolo de um terrível perigo, de uma inominável ameaça existencial.

Em poucas semanas, os palestinos pedirão à ONU que reconheça o Estado da Palestina. Já têm ampla maioria na Assembleia Geral. Depois, segundo avaliação oficial pelo exército de Israel, abrir-se-ão as portas do inferno. Multidões de palestinos se levantarão, atacarão o muro “de separação”, atacarão as colônias exclusivas para judeus, desafiarão o exército, criarão o caos.

“A Autoridade Palestina está planejando um banho de sangue”, disse Avigdor Lieberman, animadíssimo. E quando Lieberman prevê violência, não é prudente ignorá-lo.

O exército de Israel prepara-se, há meses, para essa eventualidade. Essa semana, anunciou que está treinando os colonos, também, para que conheçam perfeitamente os casos em que estão autorizados a atirar para matar. Isso confirma o que todos já sabemos: não há qualquer diferença clara entre o exército e os colonos que vivem nas colônias exclusivas para judeus – muitos colonos são oficiais do exército, e muitos oficiais vivem nas colônias. A frase oficial é “o exército de Israel defende os israelenses onde estejam”.

Um dos cenários para os quais o exército de Israel está preparado, como disseram, é o caso de os palestinos atirarem contra militares e colonos “de dentro das manifestações públicas”. É declaração terrível. Participei de centenas de manifestações e jamais vi ninguém atirar em ninguém “de dentro” de alguma manifestação. Esse atirador teria de ser louco, porque quem atira “de dentro” de uma manifestação de massa expõe todos os que estão à volta à retaliação. Mas foi o pretexto que Israel encontrou para atirar contra manifestantes em manifestações não-violentas.

Soa tão assustador e horrendo, porque já aconteceu no passado. Depois da primeira intifada, uma história de sucesso dos palestinos (e levou ao acordo de Oslo), o exército israelense preparou-se diligentemente para a segunda. A arma escolhida foram “atiradores de elite”.

A segunda (“al-Aqsa”) intifada começou depois do fim da conferência de Camp David em 2000 e da “visita” de deliberada provocação, de Ariel Sharon, ao Templo do Monte. Os palestinos faziam manifestações de massa, não violentas. O exército de Israel respondeu com “assassinatos seletivos”. Duplas de um atirador “de elite” e um oficial do exército tomavam posição em diferentes pontos do percurso por onde passariam os manifestantes; o oficial do exército selecionava os alvos – manifestantes que lhe parecessem “animadores”. Foram assassinados.

A tática foi considerada altamente efetiva. Em pouco tempo, as manifestações não violentas acabaram, substituídas por ações muito violentas, ditas “terroristas”. E, assim, o exército de Israel voltou à brutalidade que conhece bem, terreno familiar.

No total, na segunda intifada, foram assassinados 4.546 palestinos, 882 dos quais crianças; e 1.044 israelenses, 716 dos quais civis, 124 crianças.

Temo que as preparações para a terceira intifada, prevista para começar no próximo mês, seguem as mesmas linhas. Mas as circunstâncias serão bem diferentes. Depois dos eventos no Egito e Síria, os manifestantes palestinos podem reagir de outro modo, e o “banho de sangue” pode ser muito maior. E também será maior a reação internacional e dos árabes. Imagino cartazes e faixas contra Binyamin al-Assad e Bashar Netanyahu.

Mas a maioria dos israelenses não estão preocupados. Acreditam que todo o cenário é resultado de maquinações de Netanyahu, como truque para pôr fim aos enormes protestos sociais que agitam Israel. “Os jovens que protestam querem justiça social e estado de bem-estar, como crianças que querem sorvete, enquanto o desastre espreita na próxima esquina” – nas palavras de um dos coronéis (aposentado). 

Os colonos judeus e seus cães mal podem esperar.

Até faz sentido, porque os colonos judeus desempenham papel central no conflito. São eles que impedem que se faça qualquer tipo de acordo de paz. Não admitem, sequer, qualquer tipo de negociações de paz significativas.

É até bem simples: qualquer tipo de paz entre Israel e o povo palestino terá de basear-se em devolver a Cisjordânia, Jerusalém Leste e a Faixa de Gaza ao futuro Estado da Palestina. Já há, sobre isso, amplo consenso mundial. A única questão é saber exatamente por onde passarão as fronteiras, uma vez que também há consenso sobre algumas pequenas trocas de território.

Isso implica que a paz, necessariamente, implicará remoção de grande número de colônias hoje ocupadas por judeus e a evacuação de todos os colonos das colônias exclusivas para judeus espalhadas por toda a Cisjordânia.

Os colonos e seus aliados dominam completamente a coalizão que hoje governa Israel. Opõem-se à devolução de qualquer palmo do território que Deus prometeu só aos judeus. (Até os colonos judeus que não acreditam em deus, acreditam que fazem jus à terra que deus prometeu só aos judeus.) Por isso, não há negociações de paz, não tem fim a construção de prédios e mais prédios em territórios ocupados, nem se vê qualquer movimento em direção a qualquer tipo de paz.

Os colonos judeus foram postos onde estão, na Cisjordânia, especificamente para essa finalidade: criar “fatos em campo” que destruíssem qualquer possibilidade de criar-se um Estado Palestino viável. Portanto, nem interessa discutir se são os colonos judeus ocupantes que impedem que os territórios ocupados sejam devolvidos em troca de paz, ou se o governo de Israel usa os colonos como força de ocupação, para o mesmo objetivo. Dá sempre na mesma: os colonos judeus ocupantes boicotam qualquer esforço de paz na região.

Como diriam os norte-americanos: São os colonos judeus ocupantes, estúpido!

Muitos bons judeus israelenses estão fazendo papel de idiotas, ou são idiotas.

Anda “na moda”, em alguns círculos, “abraçar” a causa dos colonos judeus ocupantes, em nome da unidade nacional. Judeus não devem brigar entre eles, dizem, como ensinava a velha sabedoria dos guetos. Colonos judeus ocupantes e armados são como nós.

Destaca-se entre os que dizem isso a deputada Shelly Yachimovitch, candidata, com outros cinco candidatos, à liderança do moribundo Partido Trabalhista (Labor). Durante anos, trabalhou na defesa da justiça social, falava de paz, ocupação, colônias, Palestina e temas afins. Agora, como parte da campanha pela liderança, aparece como defensora apaixonada dos colonos ocupantes. Como ela mesma disse, “É claro que não considero a empreitada dos colonos como pecado ou crime. No início, houve perfeito consenso. O Partido Trabalhista foi quem promoveu a colonização dos territórios [ocupados]. Esse é um fato histórico.”

Há quem acredite que Yachimovitch apenas finge que pensa assim, para conquistar os votos de que precisa para chegar ao comando do partido, e que planeja atrair o que resta do Partido Kadima, para tentar deslocar Tzipi Livni e, talvez, chegar ao posto de primeiro-ministro.

Pode ser. Pessoalmente, acho que ela realmente acredita no que diz – o que, sei, é raro em políticos, homens ou mulheres.

Falando sério: não é possível abraçar, ao mesmo tempo, a causa dos colonos judeus armados e a luta por justiça social em Israel. Não é pensável, não há meio possível, ainda que alguns líderes do movimento de protesto social defendam essa via, como recurso tático.

Não há nem pode haver estado de bem-estar em Israel, enquanto houver guerra. Os incidentes de fronteira, nas duas últimas semanas, mostram como é fácil distrair a opinião pública e silenciar os protestos: basta desfraldar a bandeira da segurança. E como é fácil, para o governo, alimentar e prolongar qualquer tipo de incidente.

Semear o medo de “quando setembro chegar” é outro exemplo.

Mas as razões pelas quais o governo não se interessa por separar justiça social e segurança são mais profundas. Reformas sociais sérias exigem dinheiro, muito dinheiro. Mesmo depois da reforma do sistema de impostos – impostos diretos mais “progressivos”, impostos indiretos menos “regressivos” – e ainda que tivéssemos posto fim aos cartéis dos ‘magnatas’, são necessários dezenas de bilhões de dólares para recuperar as escolas, os hospitais e os serviços sociais em Israel.

Esses bilhões só podem vir do orçamento militar e das colônias. Investem-se somas astronômicas nas colônias – não só na moradia fortemente subsidiada para colonos judeus, salários pagos pelo Estado a muitos colonos (em porcentagem muito superior à que se vê na população em geral), mas, também, em infraestrutura (estradas, fornecimento de água e eletricidade, etc.) e no enorme contingente militar necessário para proteger as colônias. As preparações em curso para “quando setembro vier” mostram outra vez o quanto tudo isso custa.

Mas essa ainda não é toda a história. Por trás de todos esses fatos jaz a principal razão para a deformação de tudo, em Israel: o próprio conflito entre israelenses e palestinos.

Por causa do conflito, é preciso manter gigantesco establishment militar. Cada israelense paga, para manter as forças armadas, mais do que qualquer outro cidadão em qualquer outro país ocidental. Israel, com população de apenas 7,5 milhões de habitantes, mantém o 4º ou 5º maior establishment militar do mundo. A ajuda militar que os EUA paga a Israel cobre apenas pequena parte dos custos. 

Assim sendo, o fim da guerra é condição necessária para qualquer esforço que vise a converter Israel em estado de bem-estar com padrões “escandinavos”, com satisfatória justiça social. O conflito não é um fator a mais das dificuldades sociais em Israel: é o principal fator.

Pode-se amar ou odiar os colonos judeus armados, fazer-lhes oposição ou abraçar aquela causa, como cada um entenda. Nada disso altera o fato de que as colônias exclusivas para judeus armados, nos territórios palestinos ocupados, são o principal obstáculo à paz e ao estabelecimento, em Israel, de algum estado de bem-estar. Não só pelo muito que custam em dinheiro; não só por causa dos pogroms que colonos judeus armados fazem, de tempos em tempos; não só pelo modo como hoje controlam o sistema político. Mas, sim, porque existem.

Diferentes do cão dos Baskervilles, no romance de Sherlock Holmes, que era pista importante justamente porque não latiu na noite do crime, os cães das colônias exclusivas para judeus em Israel estão latindo muito alto. É latido de guerra