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sábado, 1 de dezembro de 2012

A nova realidade em Gaza


1/12/2012, Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ramzy Baroud
Há fenômenos que não se explicam pela lógica ordinária, nem em linguagem técnica, muito menos em discursos oficiais. Como Gaza conseguiu reagir e resistir com tal vigor, enfrentando Israel e sua mais recente guerra, apesar dos anos de sítio sangrento e sob agressão ininterrupta, ainda mais enfraquecida, como parecia, depois dos ataques israelenses de 2008-9? Impossível explicar, na linguagem fora de moda dos “analistas” e “especialistas” da imprensa-empresa que há hoje. Por menos que digam, porém, muitos já viram que está emergindo em Gaza uma nova realidade.

Na “Operação Chumbo Derretido” [ing. Cast Lead] de 2008-09, Israel matou mais de 1.400 e feriu mais de 5.000 palestinos. Foi como pescar num barril. A maioria das vítimas foram civis, como sempre é, nas guerras de “autodefesa” de Israel. Investigação conduzida pela ONU, cujo relatório foi publicado em setembro de 2009 concluiu que há “provas de graves violações de direitos humanos e de leis humanitárias cometidas por Israel durante o conflito de Gaza; de que Israel praticou atos que se definem como crimes de guerra; e, possivelmente, também cometeu crimes contra a humanidade”.

Não faltaram indiciamentos e condenações, como certamente também não faltarão nas análises que se façam dos mais recentes oito dias de guerra de Israel contra Gaza. Muitos já falam de o quanto a opinião pública começa a virar-se contra Israel; de que o autodeclarado Estado Judeu está perdendo o controle sobre a velha narrativa, sempre repetida, de David versus Golias; ou de como os EUA já não conseguem proteger Israel, ante a angústia profunda de milhões de palestinos que vivem sitiados, implorando ajuda e solidariedade ao mundo.

Tzipi Livni
Boa parte disso tudo é, sim, verdade. Mas também é verdade que Israel conseguiu arrastar Gaza e o resto da Palestina de volta ao status quo – apesar dos crimes hediondos que cometeu há quatro anos – que precedeu a guerra. A ex-ministra de Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni disse a jornalistas, dia 12/1/2009, que Israel deliberadamente “enlouqueceu” em Gaza, para “restaurar (...) o poder de contenção de Israel. O Hamás entende hoje que, se atirar contra israelenses, Israel reage enlouquecidamente. E isso é ótimo”.

Foi bom, sem dúvida, para os EUA e para muitas potências europeias que jantaram e tomaram vinho alegremente com Livni em Bruxelas, pouco depois da guerra, como se não houvesse milhares de mortos e outros milhares de feridos, ou como se famílias inteiras não tivessem sido assassinadas sem ter praticado crime algum; e como se uma nação inteira não estivesse ainda em luto pelos seus filhos, homens e mulheres.

Não é que Israel tenha sido especialmente competente no trabalho de restaurar a própria posição entre os círculos oficiais ocidentais nos últimos quatro anos, o que lhe daria confiança para novamente assaltar Gaza. De fato, Israel jamais perdeu essa posição. Aquelas potências (a começar por Washington e Londres) nunca deixaram de apoiar Israel com tecnologia assassina de ponta, estimulando a economia de Israel, apesar de, internamente, suas economias estarem em frangalhos e, claro, sempre apoiando, em todas as oportunidades, o direito de Israel “se autodefender”.

Os 22 dias de guerra de Israel contra Gaza em 2008-09 foram, de fato, uma continuação de outra guerra, longa, tão longa que é difícil demarcar datas. Palestinos em Gaza (e em todos os territórios ocupados) morrem ininterruptamente, em levas de mortos que aumentam ou diminuem, conforme o humor político reinante em Telavive.

Em 2008, o enfraquecido partido Kadima usou a guerra para ganhar votos, entre eleitores obcecados por segurança. Em 2012, outra vez, aí estão as eleições gerais em Israel. Nos dois casos, Israel derramou sangue palestino, no mesmo jogo da mesma política sangrenta. E as estrelas em ascensão na política israelense lá estavam, para impressionar seus eleitores subjugados.

Gilad Sharon
Quando “mais de 90% dos judeus israelenses apoiam a guerra de Gaza” (Ha'aretz, 19/11), é menos chocante ler Gilad Sharon (filho do ex-primeiro-ministro de Israel e várias vezes acusado de crimes de guerra, Ariel Sharon) escrever no Jerusalem Post: “Gaza deve ficar sem eletricidade, sem gasolina, sem carros que andem, nada, nada. Então, eles pedirão o cessar-fogo (...). Temos de arrasar, pôr no chão quarteirões inteiros de Gaza. Gaza no chão, toda Gaza, nada em pé. Os americanos não pararam em Hiroshima – os japoneses estavam demorando para render-se – então destruíram também Nagasaki. [1]

Pois o que estava previsto para ser mais uma temporada de caça de civis e de combatentes em Gaza, como se fossem todos a mesma coisa, não saiu como estava previsto. A “Operação Pilar de Nuvem” foi pensada como coleção de oportunidades que o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu e seu ministro da Defesa, Ehud Barak colheriam festivamente, enquanto erguiam os dedos em gestos ameaçadores, e ganhariam o máximo de pontos políticos possíveis, antes de que a pressão internacional começasse a crescer. Não aconteceu assim. A guerra contra Gaza em 2012 foi fracasso político de proporções históricas para Israel.

Os balões de ensaio de Israel foram postos abaixo por centenas de foguetes palestinos que já chegaram bem perto no norte de Telavive e a oeste de Jerusalém. O que foi planejado para quebrar a resistência, para que nenhum palestino jamais voltasse a ousar reclamar da ocupação, do isolamento político imposto por Israel, do sítio sufocante, nem das guerras “de contenção” de Israel, resultou numa nova estranha realidade que forçou israelenses, por todos os cantos, a buscar abrigo. Quando as sirenes soaram, Israel parou; os israelenses afinal conheceram bem de perto o que os palestinos vivem praticamente sempre, todos os dias.

Morreram 167 palestinos e mais de 1.000 foram feridos. Seis israelenses morreram, entre eles um soldado ferido que morreu depois de implantado um cessar-fogo, mediado pelo Egito, dia 21 de novembro. Mas não é a quantidade de sangue derramado que torna diferente essa guerra, porque a proporção de mortos manteve-se horrendamente a mesma.

A guerra de 2012 foi diferente por causa da natureza da mensagem que o Hamás e outros grupos da Resistência tornaram, afinal audível.

Mesmo sitiados e famintos, os habitantes de Gaza são capazes de resistir, mesmo depois de seis anos de bloqueio hermético que os forçou a cavar centenas de túneis pelos quais buscaram salvação no vizinho Egito.

Mahmoud Abbas (Latuff)
Em Ramallah, a Autoridade Palestina – já com baixa credibilidade, deve-se dizer – tornou-se ainda mais irrelevante que nunca. Mahmoud Abbas tentou impor-se, ele mesmo, como um lado do conflito, falando de uma resistência popular, mas pacífica, em discurso televisionado. Convenientemente, explicou que a guerra israelense era tentativa de coagi-lo a não reivindicar o status de membro (quase) sem direitos para a Palestina, na ONU. E, enquanto os líderes israelenses tentavam entender a nova variável na velha equação israelense sempre injusta da guerra contra os palestinos, altos dignitários árabes não paravam de desembarcar em Gaza, sinal de que viam, também, que daquela vez as coisas seriam diferentes. Os norte-americanos também perceberam.

Ao mesmo tempo em que a mídia nos EUA falava sobre uma mudança na política externa dos EUA, que passaria a focar-se no sul e sudeste da Ásia, a alarmante natureza da nova guerra obrigou a secretária de Estado Hillary Clinton a voar para Israel, a oferecer mais apoio e mais solidariedade. Líderes europeus fizeram o mesmo, forçados a redemarcar as linhas. Dessa vez, Gaza foi um ponto de divisão e virada, na política regional e na política internacional: a resistência de Gaza foi fator decisivo, numa mudança tectônica.

Muitos em Israel tentaram distorcer os fatos, explicando que um cessar-fogo com o Hamás seria bom para Israel, porque daria “sossego” às comunidades de fronteira. E os objetivos de Israel teriam sido alcançados, de certo modo. O correspondente militar do jornal Ha'aretz, Amos Harel muito se esforçou para suavizar o golpe, dizendo que “A arte de medir o nível do poder de contenção não é ciência exata. Ninguém esperava que ações falhadas contra o Hezbollah em 2006 levariam a seis anos e meio de calma (que por hora ainda persiste) na fronteira do Líbano”.

Mas a questão é que Israel não tinha intenção alguma de obter paz e tranquilidade. Por décadas, Israel obrou para assegurar monopólio completo da violência e, com ele, o poder de punir, prender, intervir, ocupar e “dar lições” a quem bem entendesse, quando quisesse. Os ataques recentes de Israel contra o Sudão, os ataques passados contra o Iraque, a Tunísia, a Síria, as horrendas guerras contra o Líbano e as infinitamente repetidas ameaças ao Irã são eventos vivos na memória.

Não há dúvidas de que houve mudança, e grande. Não que os palestinos tenham conseguido reduzir o desequilíbrio do poder, mas conseguiram impor sua resistência como fator na equação da “segurança” de Israel que, antes, sempre foi determinada exclusivamente por Israel.

Palestinos festejam trégua na Faixa de Gaza
Apesar das pesadas perdas, milhares de palestinos dançaram de alegria em toda a Faixa de Gaza. Ajoelharam-se e rezaram ombro a ombro com os combatentes, agradecendo a Deus pela “vitória”. Havia homens armados, com o rosto coberto, às centenas, entre os gazenses em festa unidos aos combatentes. Israel e seus protetores começaram logo a apontar dedos acusatórios na direção, sobretudo, do Irã. Mas suas palavras naufragaram nos ecos dos cantos palestinos.

Todos os partidos e lados sabem que algo fundamental mudou, embora a batalha esteja longe de decidir-se. Está para começar guerra de outro tipo.



Nota de rodapé
[1] 19/11/2012, The Telegraph, Demien McElroy em: Ariel Sharon's son Gilad calls on Israel to “flatten Gaza.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Paz, de uma vez por todas!


24/11/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Uri Avnery
O mantra dessa vez foi “de uma vez por todas”.

“Temos de por fim nisso (nos foguetes, no Hamás, nos palestinos, nos árabes?), de uma vez por todas!” – eis o grito que se ouvia, dúzia de vezes por dia nas televisões, dos moradores das cidades e vilas duramente atingidas do sul de Israel.

A ponto de o novo mantra ter deslocado o slogan que dominou durante várias décadas: “Atirar e acabar com aquilo!” 

Absolutamente não funcionou. O Hamás venceu.

O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamás.

Antes desse round, o Hamás era presença importante na Faixa de Gaza, mas praticamente não era visto como organização com estatura internacional. A face internacional do povo palestino era a Autoridade Nacional Palestina de Mahmoud Abbas.

Era. Não é mais.

A Operação Pilar de Nuvem deu amplo reconhecimento internacional ao miniestado do Hamás em Gaza. (“Pilar de Nuvem” é o nome oficial em hebraico, embora o porta-voz do exército tenha decretado que o nome em inglês, para consumo de estrangeiros, deveria ser “Pilar da Defesa”).

Chefes de vários estados e muitos ministros e dignitários estrangeiros já fizeram a necessária peregrinação à Faixa.

Primeiro, chegou o poderoso e imensamente rico emir do Qatar, proprietário da rede Al- Jazeera. Foi o primeiro chefe de Estado a pôr os pés na Faixa de Gaza. Depois, chegaram o primeiro-ministro egípcio, o ministro de Relações Exteriores da Tunísia, o secretário da Liga Árabe e vários ministros de Relações Exteriores de países árabes (exceto o de Ramallah).

Em todas as deliberações diplomáticas, Gaza foi tratada como Estado de facto, com governo de facto (o Hamás). Nem a mídia israelense escapou. Os israelenses rapidamente perceberam que qualquer acordo, para ser efetivo, teria de ser construído com o Hamás.

Entre o povo palestino, o prestígio e a estatura do Hamás alcançaram as alturas. Só a Faixa de Gaza, menor que qualquer condado médio dos EUA, sobrepôs-se a toda a gigante máquina de guerra dos israelenses, das maiores e mais eficientes do mundo. O exército de Israel não sucumbiu apenas. O resultado militar só pode ser apresentado (e com boa vontade a favor de Israel), como empate.

E empate entre a minúscula Gaza e a poderosa Israel significa vitória de Gaza.

Ehud Barak
Quem lembra hoje a orgulhosa fala de Ehud Barak, no meio da guerra: “Não devemos parar até que o Hamás seja posto de joelhos e suplique por um cessar-fogo”?

E em que ponto disso tudo fica Mahmoud Abbas? De fato, não fica em ponto algum. Abbas sumiu.

Para qualquer palestino comum, esteja em Nablus, Gaza ou Beirute, o contraste é flagrante: o Hamás tem orgulho, coragem, decisão; e o Fatah é frágil, vulnerável, submisso e ignorado. Na cultura árabe, honra e orgulho têm papel central.

Depois de mais de meio século de humilhação, qualquer palestino que tenha lutado contra a ocupação é herói das massas árabes, dentro e fora do país. Abbas está identificado só com a íntima colaboração entre suas forças de segurança e o odiado exército israelense ocupante. E, fato decisivo: Abbas nada tem para mostrar, como resultado de tão dedicada colaboração com a potência ocupante.

Mahmoud Abbas
Se Abbas pudesse exibir, pelo menos, uma grande realização política em troca do muito que padeceu, a situação talvez fosse outra. Os palestinos são gente sensível. Se Abbas tivesse dado pelo menos um passo que o aproximasse de ter conseguido qualquer coisa que se assemelhasse a algum estado palestino, a maioria dos palestinos provavelmente diriam: “não tem lá muito glamour, mas, pelo menos, cumpre o que promete”.

Pois está acontecendo exatamente o contrário. O Hamás armado consegue resultados; Abbas e a não-violência nada conseguem. Como disse-me um palestino: “Ele (Abbas) deu a tudo eles (aos israelenses), calma e segurança. E o que obteve [ou continua a obter] em troca? Os israelenses cospem na cara dele!”.  

Essa mais recente rodada de violência reforçará uma convicção de todos os palestinos: “Os israelenses só entendem a linguagem da violência!” (Israelenses, claro, dizem o mesmo, dos palestinos).

Se, pelo menos, os EUA permitissem a Abbas obter o reconhecimento da Palestina como estado não-membro, como observador, por resolução da ONU, Abbas ainda teria algo a apresentar para se promover frente ao Hamás. Mas o governo de Israel está decidido a impedir, custe o que custar, que esse reconhecimento aconteça.

Barack Obama
E Barack Obama, que já depois de re-eleito decidiu bloquear todos os esforços dos palestinos na ONU, está, de fato, assegurando seu apoio ao Hamás... o que implica que esbofeteia os “moderados”. A superficial, rápida, descuidosa visita de Hillary Clinton a Ramallah essa semana foi interpretada nesse contexto.

Examinada de fora, vê-se essa atitude de Israel e dos EUA como o que é: completa loucura. Por que minar a influência dos “moderados” que querem e são capazes de fazer a paz? Por que promover os “extremistas” que se opõem à paz?

A resposta veio, plenamente declarada, da boca de Avigdor Lieberman, hoje o No. 2 de Netanyahu no campo político: Lieberman quer destruir Abbas, anexar a Cisjordânia e abrir o caminho para os colonos.

Depois do Hamás, o maior vencedor é Mohamed Mursi.

Aí está outro resultado quase inacreditável. Quando Mursi foi eleito presidente do Egito, a Israel oficial entrou em estado de histeria. Que horror! Os extremistas islâmicos tomaram o poder no mais importante país árabe! Nosso tratado de paz com nosso maior vizinho, foi-se pelo ralo! Nos EUA, a reação foi praticamente idêntica a essa.

E hoje – quase quatro meses depois – aí está Israel, a ouvir com máxima atenção e reverência cada fala de Mursi. Mursi, ele, o homem que conseguiu pôr fim à destruição e à matança mútuas! Mursi, o grande pacificador! Mursi, o único homem capaz de fazer a mediação entre Israel e o Hamás! Mursi, o avalista do acordo de cessar-fogo!

É possível tal coisa? Será que falamos do mesmo homem? Do mesmo Mursi? Da mesma Fraternidade Muçulmana?

Mohamed Mursi
Mursi, 61 anos – cujo nome completo é Mohamed Mursi Isa al-Ayyad (Isa é a palavra, em árabe, para “Jesus”, que é um dos profetas do Islã) – é figura absolutamente desconhecida no cenário mundial. Apesar disso, hoje, todos os principais líderes políticos do mundo confiam integralmente nele.

Quando eu festejei, de todo o coração, a Primavera Árabe, tinha em mente gente como esse homem. Agora, praticamente todos os jornalistas, analistas, comentaristas, ex-generais e políticos israelenses, que, antes, diziam os maiores disparates e “alertavam” contra os novos políticos árabes, não se cansam de elogiar o sucesso do acordo de cessar-fogo.

Durante a operação Pilar de Nuvem, fiz o que sempre faço nessas situações: assisto, alternadamente, aos canais israelenses de televisão e à rede Al-Jazeera. Volta e meia, quando me distraio e volto repentinamente a prestar atenção à televisão, fico sem saber onde estou, se lá, se cá.

Mulheres em prantos, feridos carregados, casas em ruínas, sapatinhos de crianças espalhados entre os escombros, famílias com malas às costas, tentando escapar. Cá, como lá, as cenas se assemelham. Mas, sim: morreram 30 vezes mais palestinos que israelenses – em parte por efeito do Domo de Ferro dos israelenses, de interceptação de mísseis, enquanto os palestinos estavam absolutamente sem defesa alguma.

Na 4ª-feira fui convidado para um programa a ser exibido pelo Channel 2, o mais popular (e o mais patriótico-nacionalista) em Israel. O convite, como já aconteceu várias vezes, foi cancelado no último momento. Se tivesse ido ao tal programa, só teria uma pergunta a propor aos israelenses: “Valeu a pena?”.

Valeu a pena? 

Todo o sofrimento, os mortos, feridos, a destruição, as horas e dias de terror, as crianças traumatizadas?

Gilad Sharon
E, deve-se acrescentar, a cobertura infindável, 24 horas por dia, pelas televisões, com generais aposentados sempre a repetir os press-releases do gabinete do primeiro-ministro. E as mais horrendas, as mais escandalosas ameaças, na boca de políticos e outras variantes de doidos, entre os quais o filho de Ariel Sharon, Gilad Sharon, que propôs a destruição total, de toda a cidade de Gaza e arredores, ou, melhor ainda, logo, de toda a Faixa de Gaza.

OK. Tudo isso é passado. Estamos quase exatamente onde estávamos antes. A operação, chamada, em Israel, quase sempre, de “mais uma rodada”, não passou, de fato, de rodada – não levou a lugar algum; tudo ficou onde estava antes de a “rodada” começar. 

O Hamás assumirá firmemente o controle da Faixa de Gaza, talvez mais firmemente do que antes. Os palestinos odeiam Israel hoje, mais do que já odiavam antes. Muitos dos habitantes da Cisjordânia, os quais, durante a guerra saíram à rua aos milhares em demonstrações de apoio ao Hamás, votarão em ainda maior número, a favor do Hamás, nas próximas eleições. Dentro de dois meses, os israelenses votarão, depois da guerra, exatamente como votariam antes da guerra.

Os dois lados celebram vitória impressionante. Se se unissem e fizessem só uma festa, economizariam muito dinheiro.

QUAIS SÃO, POIS, as conclusões políticas?

A mais óbvia é: FALEM COM O HAMÁS. Diretamente. Cara a cara.

Yitzhak Rabin
1922-1995
Yitzhak Rabin disse-me, certa vez, como acabara por concluir que tinha de falar com a OLP, e diretamente com ela: depois de anos de oposição, acabara por entender que a OLP era a única força que contava. “Assim sendo, era ridículo só falar com eles através de intermediários”.  

Vale exatamente o mesmo, no caso do Hamás. O Hamás está ali. Não desaparecerá, nem partirá dali. É ridículo, para os negociadores israelenses, sentarem-se lá, numa sala do quartel-general da inteligência egípcia, nos arredores do Cairo, enquanto os negociadores do Hamás permanecem na sala ao lado, a apenas poucos metros de distância, com os egípcios, corteses, andando de um lado para o outro.

Ao mesmo tempo, que Israel trate de ativar esforços na direção da paz. A sério.

No momento, é preciso salvar Abbas, que não tem substituto à vista. Israel bem poderia garantir uma vitória imediata para Abbas, para contrabalançar a grande vitória do Hamás contra a Operação Pilar de Nuvem: Israel bem pode votar a favor de garantir-se aos palestinos o direito de membro-observador – portanto, de estado reconhecido – na Assembleia Geral da ONU.

Só assim Israel mostrará ao mundo que, sim, tem interesse em fazer a paz com todo o povo palestinos, incluindo Fatah e Hamas. Só assim Israel mostrará ao mundo que tem interesse em pôr fim à violência, DE UMA VEZ POR TODAS!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que se esconde por trás do “Pilar de Nuvem”


22/11/2012, Rami Zurayk e Anne Gough, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os agricultores estão hoje no meio do período crucial de colheita de azeitonas e produção de azeite; e a destruição dos pomares é golpe terrível contra a segurança alimentar e econômica de Gaza. [EPA]
Rami Zurayk
Desde a criação do estado, em 1948, Israel sempre usou a comida e a nutrição (ou a falta de comida e a desnutrição) como meio para implantar-se militarmente e realizar a ocupação territorial da Palestina. Enquanto todos os olhos voltam-se hoje para a matança de crianças e a erradicação de famílias inteiras [1], em Gaza na operação “Pilar de Nuvem”, Israel continua em seu plano de longo prazo para dizimar os meios de produção de comida, de criação de animais e as capacidades dos habitantes de Gaza para tomar decisões econômicas e políticas sobre o que plantar e o que comer.

Anne Gough
Gaza e toda a Palestina Ocupada está sendo “re-estruturada” como entidade na qual a desnutrição seja endêmica, o acesso à comida negado e as pessoas forçadas a viver sob o medo constante de não ter comida suficiente para si e para a família. 

Nos últimos oito anos, o setor de alimentos e criação de animais em Gaza foi severamente agredido, o que fez piorar as condições do setor agrícola, já gravemente abaladas por seis anos de sítio e bloqueio impostos por Israel, além das campanhas militares e décadas de ocupação.

Nos primeiros cinco dias do assalto, o Ministério da Agricultura de Gaza que as perdas nos setores de agricultura e pesca sejam superiores a US $50 milhões. Segundo nosso colega Mohammad El Bakri, que trabalha com o Sindicato das Comissões de Trabalho Agrícola [2] e outros especialistas em Gaza, os agricultores estão hoje no meio do período crucial de colheita de azeitonas e produção de azeite; e a destruição dos pomares é golpe terrível contra a segurança alimentar e econômica de Gaza.

A crise da água

Os ataques aéreos dos israelenses contra os túneis [3] limitaram o fluxo de entrada de alimentos e combustível em Gaza. Poucas lojas permanecem abertas e a ONU já alertou para o risco de crise de água. Há notícias de bombardeios que visam diretamente aos poços de irrigação. O Ministério de Saúde de Gaza já está sem estoque de 40% dos remédios essenciais [4] e com estoque muito baixo de seringas e bandagens. 

A terrível situação em que Gaza sobrevive hoje começou em 1948, quando milícias sionistas armadas expulsaram mais de 700 mil palestinos das áreas em que viviam, 200 mil dos quais fugiram para Gaza, onde a população triplicou nesses mais de 60 anos.

Historicamente, Gaza sempre foi conhecida pelo oásis de água fresca de Wadi Gaza [5] , importante ponto de parada nas rotas comerciais entre o Egito e a Síria. Já não é um oásis, as terras arrasadas e absolutamente esterilizadas pelas escavadeiras e niveladoras de Israel ao longo de toda a fronteira leste de Gaza (29% da terra arável [6]) é terra inacessível. Barcos israelenses atiram com canhões de água contra pescadores palestinos, impedindo-os de trabalhar além da distância de três milhas náuticas da praia.

Esgotos poluídos estão vazando dentro do aquífero do litoral, das redes de água e esgoto e dos prédios bombardeados no ataque israelense de 2009-9 contra Gaza, na Operação Chumbo Derretido. [7]

Israel também impediu a entrada em Gaza do equipamento necessário para reparar a infraestrutura danificada. Sem acesso a água para beber, muita gente em Gaza sobrevive hoje com 20 litros/dia/pessoa [8], quando, em Israel, o consumo médio de água é de 300 litros/dia/pessoa. [9]

Todas as 10 mil pequenas propriedades e granjas de Gaza foram danificadas no massacre de 2008-9 [10], meio milhão de árvores foram arrancadas, mais de um milhão de frangos e galinhas foram mortos [11], além de ovelhas, bois, vacas e cabras. Os israelenses destruíram 60% da indústria agrícola em Gaza, provocando perdas da ordem de US$ 268m.

A proporção da população de Gaza que vive sob condições de insegurança alimentar aumentou 75% depois do massacre de 2008-9, e muitas casas já são classificadas hoje como em situação de insegurança alimentar crônica, em Gaza. Dois anos depois dos ataques de 2008-9, a taxa de desemprego em Gaza era de 45,2%. [12]

Campos isolados

Na Cisjordânia a situação também é desesperadora. Os Acordos de Oslo de 1995 dividiram a Cisjordânia em uma Área A, sob controle da Autoridade Palestina, representando 3% da Cisjordânia; uma Área B, sob controle conjunto, equivalente a 25%; e uma Área C, equivalente a 72% da área, sob total controle de Israel, inclusive os campos agricultáveis do vale do rio Jordão.

De fato, o exército de Israel pode invadir qualquer área a qualquer tempo. A bifurcação da terra palestina e a construção de muros e cercas separaram os agricultores de seus campos plantados e dos mercados; [13garantiram impunidade aos colonos israelenses fanáticos e violentos; e desfiguraram completamente a paisagem. 

O objetivo de longo prazo de Israel em Gaza não é só o sítio e o bloqueio, mas, também, implantar naquela região condições e práticas de des-desenvolvimento que forcem os palestinos a depender completamente, ou da potência israelense ocupante, ou da ajuda internacional.

Em 2007, os militares israelenses produziram um cálculo do número mínimo de calorias/dia autorizadas para os habitantes de Gaza. [14] O mecanismo de controle da ingestão calórica caracteriza punição coletiva e eterno sofrimento, mas não leva à morte por fome. Não pode haver qualquer dúvida de que essa política de des-alimentação criada por Israel e implantada contra os palestinos é do conhecimento e conta com o apoio do governo dos EUA.

As consequências do mais recente assalto israelense contra Gaza, em 2012, só se tornarão plenamente visíveis depois que a poeira assentar. Mas não se afastarão muito do objetivo já declarado de Dov Weisglass em 2006: “A ideia é pôr os palestinos em dieta, mas sem matá-los de fome”.


Notas de rodapé

[1] 18/11/2012, The Guardian, UK, Harriet Sherwood (de Jerusalém) em: Gaza: four children killed in single Israeli air strike
[3] 18/11/2012, ONU, em: Gaza situation report, 18 November
[4] 18/11/2012, The Independent, UK, Jeremy Laurance em: Overwhelmed Palestinian doctors run out of life-saving medicines
[5] 6/4/2007, NYTimes, Mark Zeitoun em: A Gaza Tragedy: Complicity when the dam breaks
[6] Ver Agricultura na Cisjordânia Ocupada(em inglês)
[7] 27/10/2009, Anistia Internacional, em: Israel rations Palestinians to trickle of water
[8] Idem item [7]
[9] Idem item [7] e [8]
[10] 23/1/2009, Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) em: The humanitarian situation in Gaza and FAO’s response
[11] 12/2006 – 1/2009, United Nations Environment Programme em: Environmental Assessment of the Gaza Strip
[12]  UNRWAUnited Nations Agency for Palestine Refugees, em: Labour Market Briefing /Gaza Strip – 2nd Half 2010
[13]  13/11/2012, UNRWAUnited Nations Agency for Palestine Refugees, em: Farmer's income stuck on the ‘other’ side of the Barrier
[14] Idem nota [13]

Cessar-fogo põe fim aos ataques de Israel a Gaza




Baby Siqueira Abrão
Brazilian journalist - Middle East correspondent
Jornalista brasileira – correspondente no Oriente Médio
Skype ID: alo.baby
P. O. Box 1028, Ramallah, West Bank


São pouco mais de sete da manhã na Palestina. As comemorações nas ruas de Gaza, pelo cessar-fogo intermediado pelo Egito e assinado ontem no Cairo, terminaram há algumas horas. Não se veem mais adultos e crianças – um público predominantemente masculino – comemorando pulando, dançando, com as bandeiras da Palestina e do Hamás nas mãos. Todos foram para casa. Mas ninguém conseguiu dormir.

Caças F16, helicópteros Apache e drones sobrevoaram Gaza durante toda a noite e a madrugada. É a versão sionista do conceito “cessar-fogo”: eles suspendem os bombardeios, mas mantêm a tortura física e psicológica. O barulho das aeronaves lembra aos moradores da faixa costeira palestina a tragédia (mais uma) da perda de 162 vidas em oito dias de ataques contínuos e simultâneos, vindos do ar e do mar. Mísseis, bombas e balas eram atirados ao mesmo tempo no norte, no centro e no sul de Gaza, matando civis – a maior parte deles composta de crianças, mulheres e jovens –, arrasando moradias, prédios públicos, sedes dos meios de comunicação local e internacional, destruindo a já carente infraestrutura de serviços gazense, ainda não recuperada do assalto militar israelense de 2008-2009, a operação Cast Lead.

Além dos bombardeios e das mortes que eles provocaram, a população de Gaza teve de suportar longos cortes de energia elétrica, de água, de telefonia fixa e móvel. Nos hospitais, faltam medicamentos para atender aos milhares de feridos. Muitos foram levados para o Egito porque não havia como tratar deles em Gaza. Poucos carros nas ruas, durante os oito dias de massacres, permitiram que o combustível enchesse os tanques de ambulâncias e carros de bombeiros, que não tiveram parada em momento algum. Jornalistas, cinegrafistas e funcionários de hospitais, enrolados em cobertores, dormiam em seus locais de trabalho, incapazes de dar conta da demanda de atendimento médico e de notícias.

Mesmo assim, hoje Gaza tenta voltar à normalidade. Conversas, barulho de carros nas ruas, buzinas, ruídos típicos de consertos e de trabalho, vozes infantis enchem o ar, tirando um pouco da crueza do forte zumbido dos aviões. Mas crianças agora órfãs, viúvas e viúvos recentes, pais sem filhos e filhos sem pais permanecem silenciosos em seu luto, em dor profunda talvez pelo resto da vida.

Os motivos da guerra

O que levou Israel a mais uma ofensiva militar a Gaza? A proximidade das eleições e a necessidade de Benjamin Netanyahu garantir a vitória, dizem alguns. Argumento fraco, uma vez que as pesquisas indicam que o atual primeiro-ministro tem ampla maioria das intenções de voto. Mesmo assim, pesquisa do jornal israelense Haaretz indicou que praticamente toda a nação israelense – entre 84% e 90% – aprovou a ofensiva contra Gaza. Ofensiva que teve por objetivo testar novas misturas químicas na população de Gaza, alegam outros, e estes têm, sim, parte da razão: as queimaduras e os ferimentos das vítimas sugerem o uso de novas fórmulas, experimentadas em campo. Como já demonstrei antes, baseada em documento idôneo, os habitantes de Gaza são cobaias de Israel para testes de armamentos e armas químicas.

Schlomo Sand
Há outros motivos, porém. A ampla maioria de palestinos que hoje vive na Palestina e em Israel é motivo de preocupação[1] para os sionistas. Israel quer a Palestina inteira para constituir seu “Estado judeu”, e não poderá tê-lo com maioria palestina, muçulmana e cristã. Lembremos que o judaísmo é uma religião, não a designação de um povo. Como o historiador israelense Schlomo Sand já demonstrou, em A invenção do povo judeu, não apenas a noção de “povo” é recente, e ainda indefinida, na historiografia, como a ideia de “povo judeu” surgiu com o sionismo, no século XIX, como necessidade política, para justificar a tomada da Palestina. Uma justificação insensata, pois não se tira um povo de seu país, muito menos à base da força e das armas – o método usado pelos grupos paramilitares sionistas para massacrar e expulsar os palestinos de suas casas e terras, em especial depois de 1947, quando a Assembleia Geral da ONU, pressionada pelo sionismo, recomendou a partilha da Palestina. Partilha, lembremos, que não se consumou na ONU e sim em campo, uma vez que os sionistas já haviam eliminado, com matanças e expulsão, a maioria dos palestinos, confiscando a Palestina para abrigar Israel.

Ilan Pappé
Os sucessivos ataques a Gaza fazem parte desse amplo contexto, que o historiador israelense (hoje apátrida) Ilan Pappé denominou “limpeza étnica”, usando um termo menos agressivo do que “genocídio”. Mas é de genocídio que se trata. Basta procurar a definição de genocídio na legislação internacional e ver-se-á que é exatamente isso que os vários governos israelenses vêm fazendo com os palestinos há mais de 60 anos: a eliminação, ou a tentativa de eliminação, de um grupo étnico.

Iniciada em 14 de novembro, com o assassinato de Ahmed al-Jaabari, comandante militar do Hamás com quem Israel negociara, com a mediação do Egito, mais uma das incontáveis tréguas quebradas pelos israelenses, a operação Coluna de Nuvens [2] matou sobretudo mulheres, crianças e jovens. Mulheres mortas não dão à luz; crianças e jovens assassinados não se tornam adultos, não podem ter filhos nem renovar seu grupo social à medida que os mais velhos vão perdendo as forças e perecendo.

Já a poluição ambiental causada pelas substâncias tóxicas atiradas com bombas e mísseis executam o genocídio a longo prazo, envenenando a natureza e os animais, incluindo os humanos. Não à toa, Gaza hoje tem um número elevado de crianças e mulheres com câncer e poucas possibilidades, em consequência do bloqueio israelense, de proporcionar-lhes tratamento eficaz. Isso significa ainda mais vidas humanas perdidas – ou eliminadas – não só pelos ataques massivos, mas também por assaltos feitos em base quase diária por Israel a Gaza.

Condenação internacional

A notícia de mais uma ofensiva militar israelense a Gaza levou milhões de pessoas às ruas, no mundo todo. Convocadas às pressas pelas redes sociais, as manifestações reuniram ativistas que entoavam palavras de ordem e levavam cartazes com dizeres que devem ter deixado o governo israelense irado. “Israel, Estado terrorista”, “Do rio [Jordão] ao mar [Mediterrâneo], a Palestina será livre”, “Saiam da Palestina, sionistas” foram os mais leves e publicáveis. Essa pressão da sociedade civil internacional, que não descansou um só instante para deter a matança em Gaza, foi fundamental para o cessar-fogo, garantem seus patrocinadores, Egito e Estados Unidos. Passeatas (em São Paulo, foram iniciativa da Frente de Defesa do Povo Palestino, que reúne dezenas de entidades pró-Palestina, de mulheres, sindicatos e associações profissionais), e-mails e telefonemas a congressistas, ministros e governos, cartas abertas, postagens nas redes sociais, em blogues e na mídia alternativa formaram uma corrente de solidariedade planetária a Gaza.

Incapazes de deter a avalanche de apoios aos palestinos, os sionistas insistiram na justificativa que vinham dando desde antes de a Pilar de Nuvens ser iniciada: “autodefesa” contra os “terroristas do Hamás”. Há cerca de 16 brigadas em Gaza, mas Israel não as cita porque associar as palavras “terrorismo” e “Hamás” faz parte da estratégia de propaganda destinada a satanizar o grupo islâmico de resistência palestina.

Os sionistas usam os foguetes Qassan atirados no sul de Israel pelas brigadas de Gaza, em geral em locais desabitados, como desculpa para a prática da guerra. Calam-se, porém, sobre os mísseis, as bombas e as balas que atiram praticamente todos os dias na população palestina, e que provocam a reação das brigadas. No caso da Coluna de Nuvens, a responsabilidade é de Israel, que em 5 de novembro matou um garoto com deficiência mental que sem querer se aproximou da zona-tampão de Gaza. Depois foi a vez de garotos de 12, 13 anos que jogavam futebol num campinho improvisado na rua onde moravam. É impossível que esses meninos representassem algum risco para Israel, mas mesmo assim seus soldados os abateram a tiros.

O ataque de uma potência ocupante a uma população ocupada é expressamente proibido pela IV Convenção de Genebra. Além disso, como lembrou o Tribunal Russell em carta que exige o embargo militar a Israel, “a tentativa de justificar esse uso ilegal de força militar beligerante e desproporcional como “autodefesa” não passa por escrutínio legal ou moral, pois Estados não podem invocar a autodefesa por atos que servem para defender uma situação ilegal que eles mesmos criaram [3].

Além disso, ao classificar o Hamás como “terrorista” e ao pressionar para que outros países, como Estados Unidos e membros da União Europeia, também o considerem assim, Israel viola outro princípio da legislação internacional: o do direito que os povos ocupados têm à resistência armada. Há uma resolução da ONU, a 3070, que se refere expressamente ao povo palestino (os destaques são meus):

A Assembleia Geral

[...]

Ciente da importância do reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e da rápida concessão de independência a países e povos coloniais [...]

Perturbada com a contínua repressão e com o tratamento inumano infligido aos povos ainda sob dominação colonial e de outras nações e subjugação estrangeira, incluindo o tratamento inumano de pessoas aprisionadas em consequência de sua luta pela autodeterminação,

Reconhecendo a necessidade imperativa de colocar logo um fim ao controle colonial, à dominação e à subjugação estrangeira,

1. Reafirma o direito inalienável à autodeterminação, à liberdade e à independência de todos os povos sob dominação colonial e de outras nações e sob subjugação estrangeira [...]

2. Também reafirma a legitimidade da luta dos povos por libertação da dominação colonial de outras nações e da subjugação estrangeira por todos os meios à disposição, incluindo a luta armada

[...]

6. Condena todos os governos que não reconhecem o direito dos povos à autodeterminação e à independência, em particular os povos da África [...] e o povo da Palestina; [...]

Repare-se que o texto fala em “reafirmar a legitimidade da luta dos povos [...] por todos os meios à disposição, inclusive a luta armada”, o que significa que em outros documentos e resoluções a legitimidade da luta armada já havia sido afirmada. Assim, tanto o Hamás como as demais brigadas de Gaza estão dentro da lei. Fora da lei, como se acabou de demonstrar aqui, e por violar convenções, leis internacionais e centenas de resoluções da ONU, está Israel.

Fim do bloqueio?

Mohammed Kamel-Amr
O cessar-fogo foi negociado entre Israel e o Hamás – ou, mais precisamente, entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o primeiro-ministro do governo de Gaza, Ismail Hanyeh – com a intermediação do presidente do Egito, Mohamed Mursi, e de seu ministro das Relações Exteriores, Mohammed Kamel-Amr. O documento final foi assinado no Cairo, para onde acorreram o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e a secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, representando os interesses de Israel.

A euforia pelo cessar-fogo foi tamanha que poucos se lembraram de dar destaque à alínea C do artigo 1o do acordo:

Devem-se abrir todas as passagens e facilitar o movimento de pessoas e o trânsito de bens e produtos e devem ter fim todas as restrições à livre movimentação dos residentes em áreas de fronteira. Os procedimentos para implementar essas medidas devem começar a ser analisados e definidos 24 horas depois do início do cessar-fogo.

Caso os governos de Israel fossem sérios, o bloqueio desumano e ilegal imposto a Gaza começaria a cair hoje, 22 de novembro, à meia-noite. Alguém duvida de que Netanyhau vai encontrar um modo de se safar dessa determinação, assinada por seu governo?




Notas de rodapé

[1] De acordo com os registros oficiais de Israel, há atualmente, em toda a Palestina, incluindo Israel, 12 milhões de habitantes, dos quais 6,1 milhões são palestinos e 5,9 milhões são israelenses. O governo de Israel não faz propaganda do fato, descoberto por acaso por um jornalista israelense ao ler uma reportagem do caderno de economia do jornal Haaretz. Juntem-se a esses 6,1 milhões oficiais os mais de 7 milhões de refugiados e chegar-se-á a 13,1 milhões de palestinos com direito, reconhecido internacionalmente, a viver em seu país. Isso significaria o fim de Israel como “Estado judeu” e o estabelecimento de uma nação multiétnica, para todos os que nela vivem, onde hoje existem a Palestina ocupada e Israel.

[2] Coluna de Nuvens é nome retirado de Êxodo 13:21-22, livro da Torá ou Antigo Testamento que narra a saída dos judeus do Egito, liderados por Moisés: “E Iahveh ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para lhes mostrar o caminho, e de noite numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite. Nunca se retirou de diante do povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo, durante a noite” (A Bíblia de Jerusalém. 6 reimp. São Paulo: Paulinas, 1983. p. 125.)

[3] Trata-se do princípio ex injuria non oritut ius, consagrado pelo direito internacional. Segundo esse princípio, um direito legal não pode nascer de um ato ilegal.