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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Cessar-fogo põe fim aos ataques de Israel a Gaza




Baby Siqueira Abrão
Brazilian journalist - Middle East correspondent
Jornalista brasileira – correspondente no Oriente Médio
Skype ID: alo.baby
P. O. Box 1028, Ramallah, West Bank


São pouco mais de sete da manhã na Palestina. As comemorações nas ruas de Gaza, pelo cessar-fogo intermediado pelo Egito e assinado ontem no Cairo, terminaram há algumas horas. Não se veem mais adultos e crianças – um público predominantemente masculino – comemorando pulando, dançando, com as bandeiras da Palestina e do Hamás nas mãos. Todos foram para casa. Mas ninguém conseguiu dormir.

Caças F16, helicópteros Apache e drones sobrevoaram Gaza durante toda a noite e a madrugada. É a versão sionista do conceito “cessar-fogo”: eles suspendem os bombardeios, mas mantêm a tortura física e psicológica. O barulho das aeronaves lembra aos moradores da faixa costeira palestina a tragédia (mais uma) da perda de 162 vidas em oito dias de ataques contínuos e simultâneos, vindos do ar e do mar. Mísseis, bombas e balas eram atirados ao mesmo tempo no norte, no centro e no sul de Gaza, matando civis – a maior parte deles composta de crianças, mulheres e jovens –, arrasando moradias, prédios públicos, sedes dos meios de comunicação local e internacional, destruindo a já carente infraestrutura de serviços gazense, ainda não recuperada do assalto militar israelense de 2008-2009, a operação Cast Lead.

Além dos bombardeios e das mortes que eles provocaram, a população de Gaza teve de suportar longos cortes de energia elétrica, de água, de telefonia fixa e móvel. Nos hospitais, faltam medicamentos para atender aos milhares de feridos. Muitos foram levados para o Egito porque não havia como tratar deles em Gaza. Poucos carros nas ruas, durante os oito dias de massacres, permitiram que o combustível enchesse os tanques de ambulâncias e carros de bombeiros, que não tiveram parada em momento algum. Jornalistas, cinegrafistas e funcionários de hospitais, enrolados em cobertores, dormiam em seus locais de trabalho, incapazes de dar conta da demanda de atendimento médico e de notícias.

Mesmo assim, hoje Gaza tenta voltar à normalidade. Conversas, barulho de carros nas ruas, buzinas, ruídos típicos de consertos e de trabalho, vozes infantis enchem o ar, tirando um pouco da crueza do forte zumbido dos aviões. Mas crianças agora órfãs, viúvas e viúvos recentes, pais sem filhos e filhos sem pais permanecem silenciosos em seu luto, em dor profunda talvez pelo resto da vida.

Os motivos da guerra

O que levou Israel a mais uma ofensiva militar a Gaza? A proximidade das eleições e a necessidade de Benjamin Netanyahu garantir a vitória, dizem alguns. Argumento fraco, uma vez que as pesquisas indicam que o atual primeiro-ministro tem ampla maioria das intenções de voto. Mesmo assim, pesquisa do jornal israelense Haaretz indicou que praticamente toda a nação israelense – entre 84% e 90% – aprovou a ofensiva contra Gaza. Ofensiva que teve por objetivo testar novas misturas químicas na população de Gaza, alegam outros, e estes têm, sim, parte da razão: as queimaduras e os ferimentos das vítimas sugerem o uso de novas fórmulas, experimentadas em campo. Como já demonstrei antes, baseada em documento idôneo, os habitantes de Gaza são cobaias de Israel para testes de armamentos e armas químicas.

Schlomo Sand
Há outros motivos, porém. A ampla maioria de palestinos que hoje vive na Palestina e em Israel é motivo de preocupação[1] para os sionistas. Israel quer a Palestina inteira para constituir seu “Estado judeu”, e não poderá tê-lo com maioria palestina, muçulmana e cristã. Lembremos que o judaísmo é uma religião, não a designação de um povo. Como o historiador israelense Schlomo Sand já demonstrou, em A invenção do povo judeu, não apenas a noção de “povo” é recente, e ainda indefinida, na historiografia, como a ideia de “povo judeu” surgiu com o sionismo, no século XIX, como necessidade política, para justificar a tomada da Palestina. Uma justificação insensata, pois não se tira um povo de seu país, muito menos à base da força e das armas – o método usado pelos grupos paramilitares sionistas para massacrar e expulsar os palestinos de suas casas e terras, em especial depois de 1947, quando a Assembleia Geral da ONU, pressionada pelo sionismo, recomendou a partilha da Palestina. Partilha, lembremos, que não se consumou na ONU e sim em campo, uma vez que os sionistas já haviam eliminado, com matanças e expulsão, a maioria dos palestinos, confiscando a Palestina para abrigar Israel.

Ilan Pappé
Os sucessivos ataques a Gaza fazem parte desse amplo contexto, que o historiador israelense (hoje apátrida) Ilan Pappé denominou “limpeza étnica”, usando um termo menos agressivo do que “genocídio”. Mas é de genocídio que se trata. Basta procurar a definição de genocídio na legislação internacional e ver-se-á que é exatamente isso que os vários governos israelenses vêm fazendo com os palestinos há mais de 60 anos: a eliminação, ou a tentativa de eliminação, de um grupo étnico.

Iniciada em 14 de novembro, com o assassinato de Ahmed al-Jaabari, comandante militar do Hamás com quem Israel negociara, com a mediação do Egito, mais uma das incontáveis tréguas quebradas pelos israelenses, a operação Coluna de Nuvens [2] matou sobretudo mulheres, crianças e jovens. Mulheres mortas não dão à luz; crianças e jovens assassinados não se tornam adultos, não podem ter filhos nem renovar seu grupo social à medida que os mais velhos vão perdendo as forças e perecendo.

Já a poluição ambiental causada pelas substâncias tóxicas atiradas com bombas e mísseis executam o genocídio a longo prazo, envenenando a natureza e os animais, incluindo os humanos. Não à toa, Gaza hoje tem um número elevado de crianças e mulheres com câncer e poucas possibilidades, em consequência do bloqueio israelense, de proporcionar-lhes tratamento eficaz. Isso significa ainda mais vidas humanas perdidas – ou eliminadas – não só pelos ataques massivos, mas também por assaltos feitos em base quase diária por Israel a Gaza.

Condenação internacional

A notícia de mais uma ofensiva militar israelense a Gaza levou milhões de pessoas às ruas, no mundo todo. Convocadas às pressas pelas redes sociais, as manifestações reuniram ativistas que entoavam palavras de ordem e levavam cartazes com dizeres que devem ter deixado o governo israelense irado. “Israel, Estado terrorista”, “Do rio [Jordão] ao mar [Mediterrâneo], a Palestina será livre”, “Saiam da Palestina, sionistas” foram os mais leves e publicáveis. Essa pressão da sociedade civil internacional, que não descansou um só instante para deter a matança em Gaza, foi fundamental para o cessar-fogo, garantem seus patrocinadores, Egito e Estados Unidos. Passeatas (em São Paulo, foram iniciativa da Frente de Defesa do Povo Palestino, que reúne dezenas de entidades pró-Palestina, de mulheres, sindicatos e associações profissionais), e-mails e telefonemas a congressistas, ministros e governos, cartas abertas, postagens nas redes sociais, em blogues e na mídia alternativa formaram uma corrente de solidariedade planetária a Gaza.

Incapazes de deter a avalanche de apoios aos palestinos, os sionistas insistiram na justificativa que vinham dando desde antes de a Pilar de Nuvens ser iniciada: “autodefesa” contra os “terroristas do Hamás”. Há cerca de 16 brigadas em Gaza, mas Israel não as cita porque associar as palavras “terrorismo” e “Hamás” faz parte da estratégia de propaganda destinada a satanizar o grupo islâmico de resistência palestina.

Os sionistas usam os foguetes Qassan atirados no sul de Israel pelas brigadas de Gaza, em geral em locais desabitados, como desculpa para a prática da guerra. Calam-se, porém, sobre os mísseis, as bombas e as balas que atiram praticamente todos os dias na população palestina, e que provocam a reação das brigadas. No caso da Coluna de Nuvens, a responsabilidade é de Israel, que em 5 de novembro matou um garoto com deficiência mental que sem querer se aproximou da zona-tampão de Gaza. Depois foi a vez de garotos de 12, 13 anos que jogavam futebol num campinho improvisado na rua onde moravam. É impossível que esses meninos representassem algum risco para Israel, mas mesmo assim seus soldados os abateram a tiros.

O ataque de uma potência ocupante a uma população ocupada é expressamente proibido pela IV Convenção de Genebra. Além disso, como lembrou o Tribunal Russell em carta que exige o embargo militar a Israel, “a tentativa de justificar esse uso ilegal de força militar beligerante e desproporcional como “autodefesa” não passa por escrutínio legal ou moral, pois Estados não podem invocar a autodefesa por atos que servem para defender uma situação ilegal que eles mesmos criaram [3].

Além disso, ao classificar o Hamás como “terrorista” e ao pressionar para que outros países, como Estados Unidos e membros da União Europeia, também o considerem assim, Israel viola outro princípio da legislação internacional: o do direito que os povos ocupados têm à resistência armada. Há uma resolução da ONU, a 3070, que se refere expressamente ao povo palestino (os destaques são meus):

A Assembleia Geral

[...]

Ciente da importância do reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e da rápida concessão de independência a países e povos coloniais [...]

Perturbada com a contínua repressão e com o tratamento inumano infligido aos povos ainda sob dominação colonial e de outras nações e subjugação estrangeira, incluindo o tratamento inumano de pessoas aprisionadas em consequência de sua luta pela autodeterminação,

Reconhecendo a necessidade imperativa de colocar logo um fim ao controle colonial, à dominação e à subjugação estrangeira,

1. Reafirma o direito inalienável à autodeterminação, à liberdade e à independência de todos os povos sob dominação colonial e de outras nações e sob subjugação estrangeira [...]

2. Também reafirma a legitimidade da luta dos povos por libertação da dominação colonial de outras nações e da subjugação estrangeira por todos os meios à disposição, incluindo a luta armada

[...]

6. Condena todos os governos que não reconhecem o direito dos povos à autodeterminação e à independência, em particular os povos da África [...] e o povo da Palestina; [...]

Repare-se que o texto fala em “reafirmar a legitimidade da luta dos povos [...] por todos os meios à disposição, inclusive a luta armada”, o que significa que em outros documentos e resoluções a legitimidade da luta armada já havia sido afirmada. Assim, tanto o Hamás como as demais brigadas de Gaza estão dentro da lei. Fora da lei, como se acabou de demonstrar aqui, e por violar convenções, leis internacionais e centenas de resoluções da ONU, está Israel.

Fim do bloqueio?

Mohammed Kamel-Amr
O cessar-fogo foi negociado entre Israel e o Hamás – ou, mais precisamente, entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o primeiro-ministro do governo de Gaza, Ismail Hanyeh – com a intermediação do presidente do Egito, Mohamed Mursi, e de seu ministro das Relações Exteriores, Mohammed Kamel-Amr. O documento final foi assinado no Cairo, para onde acorreram o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e a secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, representando os interesses de Israel.

A euforia pelo cessar-fogo foi tamanha que poucos se lembraram de dar destaque à alínea C do artigo 1o do acordo:

Devem-se abrir todas as passagens e facilitar o movimento de pessoas e o trânsito de bens e produtos e devem ter fim todas as restrições à livre movimentação dos residentes em áreas de fronteira. Os procedimentos para implementar essas medidas devem começar a ser analisados e definidos 24 horas depois do início do cessar-fogo.

Caso os governos de Israel fossem sérios, o bloqueio desumano e ilegal imposto a Gaza começaria a cair hoje, 22 de novembro, à meia-noite. Alguém duvida de que Netanyhau vai encontrar um modo de se safar dessa determinação, assinada por seu governo?




Notas de rodapé

[1] De acordo com os registros oficiais de Israel, há atualmente, em toda a Palestina, incluindo Israel, 12 milhões de habitantes, dos quais 6,1 milhões são palestinos e 5,9 milhões são israelenses. O governo de Israel não faz propaganda do fato, descoberto por acaso por um jornalista israelense ao ler uma reportagem do caderno de economia do jornal Haaretz. Juntem-se a esses 6,1 milhões oficiais os mais de 7 milhões de refugiados e chegar-se-á a 13,1 milhões de palestinos com direito, reconhecido internacionalmente, a viver em seu país. Isso significaria o fim de Israel como “Estado judeu” e o estabelecimento de uma nação multiétnica, para todos os que nela vivem, onde hoje existem a Palestina ocupada e Israel.

[2] Coluna de Nuvens é nome retirado de Êxodo 13:21-22, livro da Torá ou Antigo Testamento que narra a saída dos judeus do Egito, liderados por Moisés: “E Iahveh ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para lhes mostrar o caminho, e de noite numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite. Nunca se retirou de diante do povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo, durante a noite” (A Bíblia de Jerusalém. 6 reimp. São Paulo: Paulinas, 1983. p. 125.)

[3] Trata-se do princípio ex injuria non oritut ius, consagrado pelo direito internacional. Segundo esse princípio, um direito legal não pode nascer de um ato ilegal.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Netanyahu: vitória de Pirro


21/11/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Considerada à primeira vista, a operação de lançar novo assalto contra Gaza parece movimento vitorioso. Como se Israel tivesse acertado todos os tiros, 10 em 10, em sua “Operação Pilar da Defesa”. Mas é vitória de Pirro.

Faz lembrar a ilusão de segurança que as bruxas inventam em MacBeth de William Shakespeare: “Só o poder de homem não nascido de mulher pode ferir Macbeth”. O impossível, de fato, está bem perto de acontecer: “Macbeth não será derrotado, até que a Grande Floresta de Birnam erga-se contra ele e suba a montanha até Dunsinaine”.

Ahmed al-Jaabari
A ilusão é que os israelenses destruíram o quartel-general do Hamás e explodiram em pedaços Ahmed Jaabari, comandante militar do movimento, em assassinato premeditado, o que, aparentemente, enterraria o movimento da Resistência. Mas a dura realidade é outra: a mesma operação comprovou que o “Domo de Ferro” de Israel, anunciado como impenetrável, não passa de mito: foi facilmente penetrado por mais de 2/3 dos foguetes do Hamás. Agora... Será que só resta a Israel a invasão por terra?

O problema é que essa opção também se pode revelar mais um mito, o que se viu bem claramente em 2006 nas operações de Israel contra o Hezbollah no Líbano, cujos militantes quase sempre invisíveis, também dividem-se em vários subgrupos. A dura e clara realidade parece ser que, como já alertou o presidente Barack Obama dos EUA, “se soldados israelenses entrarem em Gaza, enfrentarão risco maior de serem mortos ou feridos”.  [1]

Verdade é que vê-se cada vez mais claramente que a realidade política pode tornar-se mais ameaçadora a cada minuto. Ao final do dia de ontem, Israel fez algo que jamais antes fizera em toda a sua história: sentou-se à mesa de negociações à procura de paz, apenas três dias depois de lançar ataque militar. [2]

10 de 10

Benjamin Netanyahu
O paradoxo está em que é verdade que Netanyahu não perdeu bala e acertou seus tiros no olho do alvo. É verdade que lançou o ataque contra o Hamás como propaganda da sua Grande Israel para o público interno e é bem possível que tenha melhorado a posição de seu partido Likud, dessa vez aliado ao ultranacionalista partido Yisrael Beitnu de Avigdor Lieberman para as eleições de janeiro próximo.

A popularidade do Likud estava em queda, e o partido já se via ameaçado pela aliança de oposição do partido Kadima do ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert, e do partido Yair Labed, do ex-ministro de Relações Exteriores Shaul Mofaz. Netanyahu avaliou, corretamente, que a sociedade israelense volta-se cada vez mais para a direita militarista, e um show de força sob sua liderança daria ao seu partido proeminência suficiente para roubar o vento das velas da oposição israelense.

Netanyahu pode agora jactar-se de que, sob sua liderança, Israel “degradou” a máquina de guerra do Hamás e enfraqueceu a ameaça que o grupo representa contra Israel. Pode dizer também que o Hamás vinha-se tornando cada dia mais ativo e que ele, Netanyahu, forçou o grupo a retroceder.

Há algum acerto na avaliação de Netanyahu, segundo a qual o afastamento entre o Hamás e Damasco (e também entre o Hamás e Teerã) ao longo do ano passado, criaria boa oportunidade para atacar Gaza. Os novos patrocinadores do Hamás – o Qatar, a Turquia, etc. – são conhecidos como cães que mais ladram que mordem, diferentes, nisso, de Síria e Irã. A guerra civil na Síria também cria alguma distância entre o Hamás e o Hezbollah, o que opera a favor de Israel.

Obviamente, os regimes sírio e iraniano estão reduzidos ao papel de coadjuvantes, quando poderiam ser dois atores protagonistas que fariam toda a diferença em relação à capacidade militar do Hamás. Assim, com o Iraque devolvido à Idade da Pedra e a Síria naufragada numa longa guerra civil, Israel só teria de preocupar-se com o Egito e estaria praticamente liberado para fazer o que bem entendesse no plano regional.

Mohamed Mursi
A mais importante conquista de Israel no atual conflito for ter conseguido engajar construtivamente o governo egípcio de Mohamed Mursi, da Fraternidade Muçulmana. Ter enviado dois negociadores israelenses ao Cairo mostra a facilidade com que Telavive engajou o governo de Mursi. Com toda a certeza, é mais que simples vitória simbólica para Telavive que Mursi, pela primeira vez, tenha sido obrigado a articular a palavra “Israel” em declaração pública no Cairo, numa conferência de imprensa, no domingo. [3]

Não há dúvidas de que EUA, a Liga Árabe e Israel estão confiando em Mursi para uma função de “mediação” – e para negociar um cessar-fogo. Do ponto de vista de Telavive, o que quer que se decida como condições para um cessar-fogo negociado hoje (ainda que sob os auspícios da ONU), carregará o selo implícito da aprovação de Mursi, e essa pode ser a abertura de que Israel precisa desesperadamente, pela qual possa ter esperança de arrancar-se (com a ajuda dos EUA) da enrascada em que está, de modo a readquirir capacidade para agir no plano físico e no plano da ONU, no próximo governo. Claro que nem Netanyahu sonha com a volta aos tempos de Hosni Mubarak, mas qualquer coisa é melhor que o atual nada.

Shimon Peres
Bem visivelmente, o presidente de Israel, Shimon Peres não perdeu tempo e apressou-se a colher as vantagens dessa janela de oportunidade, e abertamente elogiou os esforços de Mursi para por fim às hostilidades. Disse que “o Egito é player importante no Oriente Médio”. [4] Israel tentará, daqui em diante, minar os laços que ligam a Fraternidade Muçulmana e o Hamás, que cada dia mais se vai convertendo às políticas de Mursi para Gaza.

O conflito de Gaza também obrigou a opinião pública egípcia a encarar sua hora da verdade – que os egípcios estão sitiados numa espécie de terra-de-ninguém. As simpatias da rua egípcia vão integralmente para os palestinos, mas os egípcios não querem que a escalada na região arraste o Egito para conflito com Israel. Os egípcios sentem afinidades culturais com Gaza, mas estão muito aflitos ante a possibilidade de o enclave palestino virar local de produção de militantes que acabem por criar condições para nova guerra entre Egito e Israel.

No que tenha a ver com a Turquia, outro grande player regional, Israel obrigou o primeiro-ministro islâmico da Turquia, Recep Erdogan também indiretamente, a perceber o que está escrito pelos muros, a saber, que o Cairo, não Ancara, é o centro, hoje, de toda a diplomacia regional sobre o conflito em Gaza. O veterano e influente jornalista Murat Yetkin, escreveu no diário Hurriyet, órgão do establishment turco, que Ancara não está satisfeita com o “papel secundário” e com o doloroso reconhecimento de que a potência regional do Egito já ultrapassou a da Turquia. Escreveu ele, sobre a frustração que grassa em Ancara:

O papel do Egito na região volta à cena depois da Revolução Tahrir, e o governo do Egito é mais forte (...) A oposição síria, que começou nos campos de refugiados na Turquia, já declarou que considera o Cairo como seu quartel-general. A Primavera Árabe funcionou para o Egito e o país está nascendo das cinzas, outra vez, oferecendo modelo realista aos países árabes. E se Mursi conseguir salvar Gaza da ira de Israel, pode vir a ser um segundo Gamal Abdel Nasser, com o aval extra de ser eleito para o mundo árabe.

Recep Tayyip Erdoğan
O ataque israelense contra Gaza mudou a bússola da política do Oriente Médio. Com certeza obrigará a reavaliar as políticas turcas. E Israel espera que haja mais realismo de parte de Erdogan sobre os laços da Turquia com Israel. Israel anda dizendo que a fratura dos laços só feriu, até agora, interesses nacionais vitais da Turquia, na medida em que a partilha de inteligência está suspensa; e Ancara perdeu sua capacidade para mediar os conflitos no Oriente Médio.

Mas é caso ainda sem sentença definitiva. Erdogan também é demagogo. Sua retórica estridente ultrapassou em muito a de Mursi, quando Erdogan chamou Israel de “estado terrorista”, e passou a repetir que Telavive pratica “limpeza étnica”. Erdogan parece preferir surfar a crista da onda da opinião pública árabe, em vez de cuidar de algum “reset” nas relações turco-israelenses.

No geral, analisada a coisa do ponto de vista da política externa, Netanyahu parece ter colhido uma sequência de vitórias. De fato, o golpe mais “matador” envolveu Obama. Netanyahu forçou o presidente dos EUA a manifestar clara solidariedade a Israel no teatro do Oriente Médio, apesar das flagrantes diferenças que houve entre os dois, no ano passado, em vários campos, e inobstante a malfadada aliança com Mitt Romney, em momentos críticos da campanha eleitoral nos EUA – que muito irritou Obama.

Percepções e impressões fazem, sim, grande diferença na política do Oriente Médio e, mais uma vez, Netanyahu mostrou-se competentíssimo na arte de levar pelo nariz o governo dos EUA.

Netanyahu é atento observador da política dos EUA, e apostou que conseguiria forçar a mão de Obama, dado o completo controle que Israel tem sobre o Congresso dos EUA, a imprensa e os think-tanks, apesar dos sinais preocupantes que continuaram a aparecer, de tempos em tempos, de que o presidente Obama começava a trabalhar numa correção de curso na fracassada estratégia dos EUA para o Oriente Médio.

Netanyahu não errou. Aliás, a Operação Pilar da Defesa tem algo em comum com a sangrenta Operação Chumbo Derretido (dezembro de 2008): as duas surgiram imediatamente depois de vitórias eleitorais de Obama.

Avigdor Lieberman
Não é pouca coisa, também, que, exceto os países árabes, praticamente ninguém condenou o “direito de defesa” de Israel. Players influentes como Rússia, China e países europeus adotaram posição de neutralidade, com clamores de “restrição” dirigidos aos dois lados do conflito. Rússia e China, ambas, estão à espera de grandes oportunidades de negócios no mercado israelense. (Moscou também conta com as afinidades com Lieberman, imigrado da ex-União Soviética). Não há dúvidas de que os campos gigantes de petróleo e gás no Mediterrâneo catapultou Israel para o status de parceiro energético muito cortejado. Europeus, russos, chineses – o Leviatã é dor de cabeça para todos eles. Dito em outros termos, Israel não é mais amputado quádruplo com economia precária.

Contar as árvores

Finalmente, o conflito de Gaza pode ter sufocado o ameaçador movimento, pela Autoridade Palestina, de forçar uma votação na Assembleia Geral da ONU, dia 29/11, pelo reconhecimento de um Estado palestino – ação à qual Israel se opunha com unhas e dentes. Havia sinais crescentes de que Ramallah conseguiria mobilizar o apoio necessário, mas, no quadro regional em perpétua mudança, haverá agora pressões gigantescas sobre Mahmoud Abbas para que não obre na direção de aumentar as tensões.

Seja como for, os “ganhos” de Israel – políticos, diplomáticos e militares – acabarão por ser aferidos em relação às “perdas” que lhe custará ter atacado com tal fúria, com tal ira desmesurada e “desproporcional” os desamparados e miseráveis habitantes civis de Gaza. A imagem de Israel na comunidade mundial, sem dúvida, sofreu duro golpe. E haverá quem entenda que, feitas as contas, as perdas ultrapassam em muito os ganhos, e que a história apenas se repetiu – Israel responde em fúria e desespero sempre que tem de enfrentar realidades emergentes, o que nada resolve e pode, inclusive, complicar ainda mais o futuro.

É verdade, Israel pode ter reduzido a capacidade do Hamás em termos militares. Mas pode não passar de contragolpe, se tanto, apenas temporário para o Hamás, porque se deve considerar que, em pouco tempo, seus arsenais podem estar recompostos.

Mahmoud Abbas
A realidade em campo é que os foguetes do Hamás continuam a chover sobre Israel e Israel não tem informação aproveitável sobre de onde, precisamente, são lançados. Hoje, quem treme e pede paz é Israel, não o Hamás. Mais importante, o Hamás já conta com os foguetes iranianos, mais letais. O Hamás perceberá rapidamente que o apoio continuado do Irã vale o próprio peso, em ouro, agora que o Hamás busca alcançar o status de que goza o Hezbollah para forçar um confronto estratégico com Israel. É possível, em resumo, que Israel esteja empurrando o Hamás de volta para o abraço iraniano – o que Israel só tem motivos para temer.

Também em termos políticos e diplomáticos, o Hamás vence, de longe, a disputa. O bloqueio israelense contra Gaza não poderá ser mantido. A fila de ministros do Exterior estrangeiros que visitaram Gaza na 3ª-feira (20/11/2012), fala por ela mesma. Não há qualquer dúvida de que o Hamás pôs abaixo a estratégica dos israelenses, de “contenção”. Ironicamente, o que se viu foi que Israel já começou a “lidar” com o Hamás sem sequer se aperceber, enquanto o padrão dos contatos diplomáticos para por fim ao atual conflito vai-se desdobrando até aqui e pelos próximos dias.

Khaled Meshal
Israel já deve ter percebido que a paisagem política regional mudou fenomenalmente a favor do Hamás, a partir, simplesmente, do fato de que Khaled Meshal mostrava-se em conferência de imprensa ao vivo, no Cairo, no momento em que a fúria dos jatos israelenses atacava Gaza. Em forma resumida, pode-se dizer que a Primavera Árabe foi colheita amarga para Israel; e o crescimento do islamismo na região, sob o estandarte dos Irmãos da Fraternidade Muçulmana opera a favor do Hamás.

É possível que Israel, no processo, tenha empurrado o prato da balança, no campo palestino, a favor do Hamás e da Jihad Islâmica (contra o Fatah) como as genuínas vozes da Resistência. A posição do Irã parece afinal vitoriosa, agora que aliados secretos de Israel, como a Jordânia e as oligarquias do Golfo Persa, já estão obrigadas a lutar no contrapé.

A luta para forçar uma “mudança de regime” na Síria torna-se ainda mais complicada, na medida em que a agenda da Resistência avança. Movimentos frenéticos de britânicos e da União Europeia, essa semana, no charivari regional para oficializar o reconhecimento diplomático para a “nova” oposição síria, deixa ver o nervosismo generalizado no “ocidente”.

O xis da questão é que, enquanto a questão palestina permanecer no centro da mesa, o ocidente estará sobre furiosa pressão para “conter-se” e ver com objetividade a prioridade viciosa que tantos atribuem à “mudança de regime” na Síria... ao mesmo tempo em que o mesmo ocidente nada faz a respeito da questão mãe de todas as questões no conflito entre árabes e israelenses. É possível que Israel tenha prestado grave desserviço aos EUA, Grã-Bretanha e França e aos seus aliados regionais, quando chamou toda a atenção do mundo, outra vez, para o problema, ainda não resolvido, dos palestinos.

Assim também, enquanto o Egito talvez negocie um cessar-fogo para o atual conflito, que ninguém espere que ajude a manter o bloqueio de Gaza fechando a passagem de Rafah, ou dando sobrevida à cooperação de inteligência da era Mubarak. Vale dizer que Mursi pode ter simplesmente tentado lidar com as pressões presentes, enquanto seu movimento estratégico geral, na questão palestina e nas relações entre Egito e Israel permanece absolutamente o mesmo de sempre. Mursi também já mostrou competência e talentos táticos, e deve-se prever que manterá Israel sem saber com certeza quais suas intenções.

O teste limite será o Sinai, que é um barril de pólvora. Não há solução simples para pôr sob controle o Sinai sem-lei e os militantes se estão reagrupando onde os serviços egípcios de segurança não controlam absolutamente coisa alguma. Israel não tem escolhas fáceis à frente; e o ataque contra Gaza pode ter complicado as coisas ainda mais.

Nic Robertson
A falha fundamental, o erro, na estratégia de Netanyahu é não ver que o Oriente Médio é hoje região completamente diferente do que antes foi. Nas palavras de Nic Robertson, da CNN  [5]:

O Hamás ocupa hoje espaço completamente diferente. Ainda cercado nos becos superpopulosos de Gaza, onde foi eleito há seis anos, mas, agora, com muitos amigos fora de lá. O que mudou, mudou no rastro da Primavera Árabe que varreu de lá alguns tradicionais aliados de Israel e substituiu-os por governantes mais simpáticos aos Hamás (...). O Egito está longe de estar só na revolução regional que começa a isolar Israel...

Assim sendo, onde fica Israel, hoje? Posto em poucas palavras, embora Israel seja mais forte militarmente, está hoje em posição política muito mais fraca do que estava em 2009. A retórica do Egito hoje, embora ainda não se tenha aproximado de suspender o acordo de paz com Israel, já tomou, sim, nítido viés pró=-Hamás. Todo o mundo árabe, universalmente e há muito tempo, rejeita profundamente o modo como o estado de Israel trata os palestinos. Antes, a maioria dos líderes árabes eram ditadores e não precisavam fazer qualquer concessão à rua árabe. Hoje, isso mudou. Os novos governantes regionais pós-Primavera Árabe eleitos democraticamente, sabem muito bem que há radicais linha-dura à espreita, esperando uma oportunidade.

Obama parece compreender o problema que o encara face a face, e vê a imperiosa necessidade de cuidar de reestruturar, desde os fundamentos, todo o discurso dos EUA para o mundo muçulmano. Em sua primeira conferência de imprensa, depois de anunciado o resultado das eleições estava cheia de pistas do que passa por sua cabeça, no trabalho de modelar as políticas dos EUA para situações-problema como a Síria e o Irã.

Isso dito, Obama talvez estivesse mantendo reservados os seus pensamentos, quando Netanyahu jogou-o, precipitadamente, dentro da crise de Gaza, mas isso não significa que seus pensamentos venham a mudar muito. Ao contrário, é provável que Obama sinta a compulsão, antes do que Netanyahu imagina, de romper as amarras que tanto prejudicam os interesses de longo prazo dos EUA no Oriente Médio.

O ponto nuclear, central, de toda essa questão, é que a estratégia dos EUA para o Oriente Médio enfrenta hoje crise profunda. E a menos e até que as contradições mais fundamente enraizadas sejam expostas e resolvidas, os EUA não podem nem congregar nem dispersar os recursos que têm para “reequilibrá-los” na Ásia... onde se vai constituindo um desafio histórico que decidirá o destino mais amplo dos EUA como superpotência.

Há momentos em que, na prontidão para vencer uma batalha, ninguém vê que, ali, perdeu a guerra. O momento presente bem pode ser um desses. Netanyahu talvez tenha ganho a batalha e obrigado Obama a apoiá-lo, mas não demora e também Netanyahu perceberá que isso, de fato, nem vitória foi.



Notas de rodapé

[1]  18/11/2012, USA Today, em: Obama warns against ramping up in Gaza

[2]  20/11/2012, USA Today, em: Conflict puts Gaza blockade back on negotiating table

[3]  20/11/2012, Haaretz, em: When Morsi says 'Israel' out loud

[4]  19/11/2012, Ministério das Relações Exteriores de Israel, em: President Peres meets with Quartet Special Envoy Tony Blair

[5] 20/11/2012, CNN (vídeo, em inglês, a seguir) em: How Middle East has changed since last Gaza conflict

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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Israel-2012: “Pilar sobre areia movediça e loucura”


16/11/2012, John Mearsheimer blog, London Review of Books,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


John Mearsheimer
Em resposta a não se sabe o quê, na luta de eterna retaliação entre Israel e os palestinos em Gaza, Israel decidiu escalar, e avançou, na violência, a ponto de assassinar um comandante militar do Hamás, Ahmad Jaabari. O Hamás, o qual, de fato tem desempenhado papel menor na atual troca de golpes, e até parece interessado em negociar uma trégua de longo prazo, respondeu, como seria de esperar que respondesse, com centenas de foguetes contra Israel, alguns dos quais caíram já próximos de Telavive. Não surpreendentemente, os israelenses ameaçaram com conflito ainda maior, que incluiria uma possível invasão por terra, em Gaza, para derrubar o Hamás e eliminar o perigo dos foguetes.

É possível que a Operação “Pilar de Defesa”, como os israelenses chamaram a atual campanha, converta-se em guerra de larga escala. Mas mesmo que aconteça, não porá fim aos problemas de Israel em Gaza. Afinal de contas, Israel já fez guerra devastadora contra o Hamás no inverno de 2008-9 – Operação Chumbo Derretido – e o Hamás ainda está no poder e ainda dispara foguetes contra Israel.

No verão de 2006, Israel também fez guerra contra o Hezbollah para eliminar o arsenal de mísseis da resistência libanesa e enfraquecer a posição do grupo na política do Líbano. Outro fracasso israelense: o Hezbollah tem hoje número várias vezes superior de mísseis em relação aos que tinha em 2006, e é consideravelmente mais influente do que antes, na política do Líbano. O mais provável é que a “Operação Pilar da Defesa” também fracasse.

Israel pode usar de força contra o Hamás, de três modos diferentes.

Hassan Nasrallah
Primeiro, pode tentar minar a organização, assassinando os líderes, como acaba de fazer, ao matar Jaabari, há dois dias. Mas a decapitação não funciona, porque sobram substitutos para os líderes mortos, e não raras vezes os substitutos são mais competentes e mais perigosos para Israel, que os anteriores. Isso, precisamente, Israel já deveria ter aprendido no Líbano, em 1992, quando assassinou o então principal homem do Hezbollah, Abbas Musawi, só para descobrir que o substituto dele, Hassan Nasrallah, era adversário muito mais formidável.

Segundo, os israelenses podem invadir Gaza e tomar a área. Talvez o exército de Israel possa fazer isso, até sem dificuldade, derrubar o Hamás e, teoricamente, acabar com os foguetes lançados de Gaza. Mas, nesse caso, teriam de ocupar Gaza por longo período, durante anos, porque, se não permanecerem como força ocupante em terra, o Hamás voltará ao poder; e os foguetes recomeçarão e Israel terá sido devolvida ao ponto em que estava antes.

Qualquer tentativa de ocupar Gaza disparará resistência furiosa e sangrenta – o que os israelenses aprenderam no sul do Líbano, entre 1982 e 2000. Depois de 18 anos de ocupação tiveram de declarar-se derrotados e retirar-se da área ocupada. Por isso, precisamente, o exército de Israel nem tentou invadir ou conquistar o sul do Líbano em 2006, nem Gaza em 2008-9. Nada mudou desde então, que torne a invasão de Gaza alternativa viável, hoje. Ocupar Gaza, além do mais, porá mais 1,5 milhão de palestinos sob o controle formal de Israel, o que, em vez de reduzir, fará crescer muito a chamada “ameaça demográfica”. Ariel Sharon ordenou a retirada de colonos israelenses de Gaza, em 2005, exclusivamente para reduzir o número de palestinos que viviam sob bandeira israelense; voltar para lá hoje será derrota, não vitória, no campo estratégico.

Terceiro, a opção preferencial, o bombardeio aéreo, com artilharia, mísseis, morteiros e foguetes. O problema, nesse caso, é que essa estratégia não funciona exatamente como prega a propaganda. Israel fez exatamente isso contra o Hezbollah em 2006 e contra o Hamás em 2008-9, e o que se vê hoje é que os dois grupos continuam no poder e continuam armados, mais armados hoje, do que antes. É absolutamente impossível acreditar que haja analistas de defesa sérios, em Israel, que ainda creiam que mais uma campanha de bombardeio contra Gaza conseguirá derrubar o Hamás ou pôr fim, definitivamente, aos ataques de foguetes.

Assim sendo, o que, afinal, acontece em Gaza?

No plano mais elementar, as ações de Israel em Gaza continuam absolutamente ligadas aos esforços do projeto sionista para criar uma Israel Expandida, a Grande Israel, que se estenderia do rio Jordão ao Mar Mediterrâneo. Apesar das infinitas conversas sobre a Solução de Dois Estados, os palestinos não terão estado próprio, não fosse por outras razões, sempre seria porque o governo Netanyahu faz oposição obsessiva à ideia. O primeiro-ministro e seus aliados políticos estão profundamente comprometidos com a ideia de converter os Territórios Ocupados em parte permanente de Israel. Para que esse projeto “prospere”, os palestinos na Cisjordânia e em Gaza terão de ser forçados a viver em enclaves de miséria, similares aos bantustões que havia na África do Sul governada pelos brancos racistas do apartheid. Os judeus israelenses começam a entender perfeitamente esse processo: pesquisa recente [1] mostrou que 58% deles entendem que Israel já pratica política de apartheid contra os palestinos.

Mas criar uma Grande Israel gerará problemas ainda maiores. Além de provocar dano gigantesco à imagem e à reputação de Israel em todo o mundo, nem toda a ambição israelense por sua Grande Israel quebrará a resistência palestina. Eles continuarão a lutar, então, já não contra apenas a ocupação, mas contra, também, a monstruosidade de viverem sob estado de apartheid. E continuarão a resistir contra todos os esforços de Israel, enquanto não conquistarem o direito à autodeterminação.

Mahmoud Abbas
O que se vê hoje em Gaza é uma das dimensões da resistência palestina. Outra é o plano de Mahmoud Abbas de requerer, dia 29 de novembro próximo, à Assembleia Geral da ONU, o reconhecimento da Palestina, mesmo que como estado não membro, mas, já, como estado. Isso, hoje, é o que mais preocupa o governo de Israel, porque é o caminho para que os palestinos possam, a seguir, acusar Israel por crimes de guerra e crimes contra a humanidade ante a Corte Internacional de Justiça.

O beco é absolutamente sem saída, para Israel: o sonho de uma Grande Israel força Telavive a manter à distância, os palestinos.

Os líderes israelenses têm uma estratégia “de pinça” para enfrentar o problema palestino. Num dos braços da “pinça”, dependem dos EUA como cobertura diplomática, sobretudo na ONU. E têm de manter Washington escravizada ao lobby israelense, [2]pressionando os políticos norte-americanos para que se alinhem a Israel contra os palestinos e nada façam para impedir a colonização dos Territórios Ocupados.

Ze’ev Jabotinsky
O segundo braço da “pinça” é o conceito sionista de Ze’ev Jabotinsky, da “Muralha de Ferro”: essa abordagem, na essência, manda bater nos palestinos até reduzi-los à total submissão. Jabotinsky compreendeu que os palestinos resistiriam aos esforços sionistas para colonizar a terra palestina e subjugar os habitantes. Por isso disse que os sionistas e, eventualmente, Israel, teriam de castigar os palestinos tão furiosamente, tão loucamente, a ponto de os próprios palestinos reconhecerem que seria inútil continuar a resistir.

Essa é a estratégia que Israel sempre usou, desde a fundação, em 1948. A Operação Chumbo Derretido, tanto quanto a Operação Pilar de Defesa são manifestações dessa ideologia sionista. Em outras palavras: com o bombardeio contra Gaza, Israel não visa a derrubar o Hamás, nem a pôr fim aos foguetes – esses dois objetivos são absolutamente inalcançáveis. Em vez disso, os atuais ataques contra Gaza são mais um capítulo da sempre mesma velha estratégia sionista para coagir os palestinos a se renderem, a desistir completamente de qualquer aspiração à autodeterminação e a submeterem-se ao jugo israelense, num estado de apartheid.

É bem evidente que Israel continua abraçada à ideologia sionista do Muro de Ferro. Vê-se nas declarações dos governantes israelenses, repetidas vezes, desde o fim da Operação Chumbo Derretido em janeiro de 2009: sempre dizem que o Exército de Israel voltará a Gaza e, mais uma vez, massacrará palestinos. Os israelenses sabem que os ataques de 2008-9 não enfraqueceram o Hamás. Ao final de cada ataque-massacre, Israel imediatamente começa a planejar o massacre seguinte.

Quando ao contexto-oportunidade do massacre em curso, é fácil de explicar. Para começar, Obama acaba de ser reeleito, apesar do muito que Netanyahu trabalhou, sem se esconder, para levar Mitt Romney à presidência. O erro de avaliação do primeiro-ministro, muito provavelmente, comprometeu gravemente suas relações pessoais com Obama e pode ter comprometido, também, o “relacionamento especial” entre os EUA e Israel. Nesse quadro, uma guerra em Gaza é excelente vacina, porque Obama, que enfrenta desafios internos gigantescos, econômicos e políticos, que crescerão sobre ele nos próximos meses, absolutamente não tem escolha senão apoiar Israel e culpar os palestinos.

Mitchell Plitnick
Em Israel, Netanyahu enfrentará eleições em janeiro e, como escreve Mitchell Plitnick  [3], “o gambito de Netanyahu, que formou chapa única com o partido fascista Israel Nosso Lar [orig. Yisrael Beiteinu], absolutamente não está mostrando, nas pesquisas, os resultados que o primeiro-ministro esperava”. Fazer guerra contra Gaza não apenas permite que Netanyahu se mostre “durão” quando a segurança de Israel é ameaçada, mas, também, pode ter um efeito de congregar os eleitores a seu favor, melhorando suas chances de ser reeleito.

Seja como for, a Operação Pilar da Defesa não alcançará o objetivo de fazer os palestinos desistir da luta por autodeterminação, nem os convencerá a viver ajoelhados sob o tacão dos israelenses. O objetivo de Israel é delirante, inalcançável; os palestinos jamais aceitarão ser confinados em meia dúzia de enclaves, em estado de apartheid. O que, desgraçadamente, implica dizer que Pilar da Defesa não será a última vez que Israel massacra os habitantes de Gaza.

Ehud Olmert
Mas, no longo prazo, é possível que vejamos o fim das campanhas israelenses de bombardeio e massacre de civis desarmados, porque nada garante que Israel consiga manter-se como estado de apartheid. Além de ter de enfrentar para sempre a resistência palestina, não há como supor que a opinião pública mundial apoie, nem, sequer, que tolere, um estado de apartheid.

Em novembro de 2007, Ehud Olmert disse [4], ainda como primeiro-ministro, que “se a Solução dos Dois Estados fracassar”, Israel enfrentará “luta ao estilo da que se viu na África do Sul” e, quando isso acontecer, “será o fim do estado de Israel”.

Diante disso, seria de supor que os líderes israelenses se pusessem imediatamente a trabalhar para que os palestinos tivessem estado seu e estado viável. Mas, não! Não se vê nem sinal disso. O que prossegue, sempre, sempre, é a loucura israelense de supor que massacres como a Operação Pilar da Defesa conseguirão dobrar os palestinos.




Notas de rodapé

[2]  23/3/2006, London Review of Books, vol. 28, n. 6, pp. 3-12, John Mearsheimer e Stephen Walt em: The Israel Lobby

[3]  15/11/2012, Foreign Policy lobelog, Mitchell Plitnick em: Continued US Support For Israeli Bombing Of Gaza Bodes Ill For Obama’s Second Term

[4]  27/11/2007, Haaretz, Gideon Levy em: Olmert to Haaretz: Two-state solution, or Israel is done for