Mostrando postagens com marcador Sanções da Rússia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sanções da Rússia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Embargo contra Rússia? E a Europa já se afoga em frutas, carne de porco e cavala

15/8/2014, The Guardian, UK (Ashifa Kassam de Madri;  Kim Willsher de Paris; Philip Oltermann de Berlin; Remi Adekoya Varsóvia,; e Libby Brooks Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os russos continuarão a comer maçãs, tomates e pêssegos, a diferença é que não comerão produto europeu. Comerão pêssegos, maçãs e tomates importados da Ásia, do Brasil, da África do Sul... Quer dizer: quando eles [os russos] reabrirem o mercado para nós, precisaremos de vários anos para reconquistar parte do mercado. É terrível!
(Luc Barbier, Federação dos Produtores Franceses de Frutas).

A cavala [orig. mackerel] sempre foi o item mais valioso dos estoques de pescado na Escócia (Foto Getty Images/iStockphoto)


Quantidades inadministráveis de peras francesas, armazéns lotados de salsicha alemã, pimentas polonesas apodrecendo e peixe da Escócia que ninguém compra: o movimento dos russos, de pôr fim a todas as importações de alimentos que comprava de produtores europeus, como retaliação contra as sanções que a UE impôs contra a Rússia, já começa a mostrar seus efeitos em todo o continente, que já andava a passos largos rumo a mais uma recessão.


Ano passado, as exportações de produtos de fazenda, da União Europeia para a Rússia, alcançaram € 11 bilhões  (£ 9 bilhões). Funcionários da UE em Bruxelas dão tratos à bola para encontrar remédios, que se espera que sejam anunciados na próxima semana, para suavizar o impacto das decisões dos russos, que podem reduzir à metade o mercado de exportação europeu.

Mas já se veem claros sinais de divisão dentro da própria UE. Nos últimos dias, ministros da Hungria, Eslováquia e Suécia já se manifestaram sobre o dano que seus países sofrerão se perseverarem nessa política de sanções contra os russos, que já começaram a morder empresas dos dois lados. O ministro húngaro, Viktor Orbán, disse que a União Europeia estava “atirando contra o próprio pé”. E quem já começa a mancar mais lastimavelmente são os agricultores, dos principais países exportadores de alimentos – Alemanha, Países Baixos, Polônia, Espanha e França.

Comércio bilateral Alemanha-Rússia em 2013
(clique na imagem para aumentar)
Alemanha

Os alemães exportam mais comida e produtos agrícolas para a Rússia, que qualquer outro país da União Europeia – em 2013, 1,6 bilhões de euros; e já cresce a preocupação de que, com o fim das importações pela Rússia, agricultores alemães serão empurrados para uma feroz competição contra outros países europeus, por poucos mercados. O item que a Alemanha mais exporta para a Rússia é carne de porco: das 750 mil toneladas de porco, no valor de mais de 1 bilhão de euros, vendidas à Rússia ano passado, cerca de ¼ é porco alemão.

A associação alemã de criadores de porcos, ISN, calcula que uma fazenda de criação de tamanho médio pode vir a perder vendas no valor de 40 mil euros, esse ano.

Felizmente, os exportadores europeus de carne conseguiram abrir alguns outros mercados nos últimos meses, o que os salvará das perdas que terão com o embargo imposto pela RússiaEspecialmente as Filipinas, o Japão e a Coreia do Sul, que já começam a comprar mais da Europa. E a demanda pode aumentar, se os fornecedores latino-americanos passarem a direcionar sua produção para Moscou – disse a ISN.

O ministro da Agricultura alemão, Christian Schmidt, do Partido da Democracia Cristã, disse que, apesar de o embargo russo poder ter “consequências notáveis” para os agricultores alemães, seu ministério acredita que

é claro que ninguém precisa preocupar-se com turbulências de mercado.

Valor dos produtos agroalimentares proibidos de entrar na Rússia (em euros, valores de 2013) (.pdf)
(clique no "link"para visualizar)

França

Os franceses exportaram 1 bilhão de euros em produtos alimentícios para a Rússia ano passado; o embargo russo está atingindo muito duramente os 27 mil exportadores franceses de frutas e legumes: 1% de toda a produção francesa de frutas frescas e 3% dos vegetais – 50 mil toneladas/ano, no total – saem da França diretamente para a Rússia. Mais 50 mil toneladas são exportadas para a Rússia via os países Benelux e do Báltico, em comércio de 48 milhões de euros/ano. Dessas 100 mil toneladas, 54% são maçãs, 20% batatas, 8% tomates e pepinos, 6% peras e 6% couves-flor.

Xavier Beulin, presidente do principal sindicato de produtores agrícolas da França pediu uma audiência com o presidente francês, François Hollande, e disse que estava preocupado ante a possibilidade de quantidade imensa de frutas e vegetais destinados à Rússia vir a inundar o mercado interno na França, o que jogaria os preços por terra, sobretudo no caso de produtos rapidamente perecíveis. Disse ao presidente que muitos produtores já começaram a demitir.

O mercado europeu já está super arrochado em algumas áreas (...) o que implica que os preços já praticamente não cobrem os custos de produção – disse ele. – O produto que não pode mais entrar na Rússia fatalmente aparecerá por aqui, no mercado europeu, e tememos uma crise.

A federação dos produtores franceses de frutas teme que tudo isso venha a agravar o que descreve como “dumping comercial” no mercado de frutas, sobretudo de pêssegos.

O presidente dessa federação, Luc Barbier, disse que

(...) os russos continuarão a comer maçãs, tomates e pêssegos, a diferença é que não serão produto europeu. Comerão pêssegos, maçãs e tomates importados da Ásia, do Brasil, da África do Sul... Quer dizer: quando eles [os russos] reabrirem o mercado para nós, precisaremos de vários anos para reconquistar parte do mercado. É terrível.

Fazendeiros franceses desesperados com embargo russo
Eric Guasch, que produz maçãs na região de Avignon, vende 80% das suas frutas aos russos e já dispensou os nove trabalhadores temporários que contratara.

Ainda estamos em estado de choque por causa do embargo russo. Não só por todos os pedidos cancelados, mas também por causa dos nossos caminhões que estavam na estrada e foram parados na fronteira russa e mandados retornar.

Temos problemas hoje não só com o estoque não vendido mas, também com o produto em trânsito.

Espanha

A Espanha está contando as feridas: frutas, carne e verduras foram incluídas nas sanções da Rússia contra a Europa, mas vinho e azeite de oliva não estão na lista.

Mesmo assim alguns produtores espanhóis estão sentindo a mordida, sobretudo porque as 30 mil toneladas de tomates, pêssegos e laranjas mandarin exportadas anualmente para a Rússia não encontrarão mercado num continente já afogado em excesso de produtos não comercializados.

Isabel Garcia Tejerina - Ministra da Agricultura da Espanha
Ontem e hoje pela manhã já tivemos vários pedidos cancelados” – disse a COAG, associação que representa agricultores espanhóis. Teme-se que os produtores das regiões de Murcia, Valência e Andaluzia sejam os mais duramente atingidos pelas sanções russas.

A sanções de retaliação da Rússia, resposta às sanções que os EUA aplicaram contra o país e forçaram a União Europeia a também aplicar, aconteceram num momento em que o setor exportador de alimentos já lutava contra dificuldades. A temperatura excepcionalmente elevada para a primavera fez pêssegos e nectarinas amadurecerem muito antes do previsto em toda a zona do euro, o que prolongou a temporada. Com oferta crescente, os preços já estavam em queda mesmo antes de o embargo russo entrar em vigência – disse a COAG.

O setor já está sofrendo crise profunda em relação aos preços, e a crise só se agravou ainda mais com o fechamento do importante mercado russo.

Agora, os produtores correm para tentar encontrar vias para escoar o excesso de produção, antes que o preço de seus produtos evaporem no mercado europeu.

Polônia

A mais surpreendente resposta às sanções russas foi campanha de publicidade & marketingdistribuída pelas redes sociais, conclamando os poloneses a “comer mais maçãs, para derrotar Putin”. Mas o principal problema não são as maçãs, mas legumes mais perecíveis que estão sendo colhidos agora, como pimentões e repolho.

As maçãs podem ser armazenadas por até nove meses, mas vegetais como a páprica têm de ser comercializados imediatamente depois de colhidos; e 40% do que produzimos sempre foi destinado ao mercado russo – queixou-se Roman Sobczak, presidente do grupo produtor Polish Paprika.

Polônia - campanha "comer maçãs para derrotar Putin"
O preço de vários vegetais já caiu a menos da metade.

O ministro da Agricultura da Polônia, Marek Sawicki, manifestou seu “desapontamento” essa semana, depois de conversações com a União Europeia sobre o assunto. Sawicki foi a Bruxelas para exigir imediata compensação para os agricultores poloneses; ouviu, de resposta, que a União Europeia tem de esperar até que haja mais dados analisados, para determinar as perdas causadas ou potenciais, do embargo russo contra a União Europeia. Mas Sawicki garantiu que o comissário da Agricultura da UE Dacian Ciolos prometeu acelerar os procedimentos compensatórios com vistas aos produtores poloneses de itens agrícolas mais sensíveis, que não podem ser armazenados por longos períodos de tempo.

Reino Unido

A cavala [orig. mackerel] sempre foi o item mais valioso dos estoques de pescado na Escócia, e 20% – equivalente a 16 milhões de libras – desse estoque é anualmente exportado para a Rússia.

Para Bertie Armstrong, chefe-executivo da Federação Escocesa de Pescadores,

(...) a Rússia é mercado importante para exportação da cavala escocesa, e impedir essa via de comercialização terá consequências muito graves para os pescadores e para todo o setor de processamento do pescado em terra. Entendemos que se trate de grave questão geopolítica, mas o impacto abaixo, até o fim da cadeia, atingirá muitos setores de negócios, inclusive a indústria pesqueira escocesa.

Richard Lochhead, secretário do governo escocês para questões rurais, alimento e meio ambiente, reuniu-se com sua contraparte no governo do Reino Unido, Elizabeth Truss, na 6ª-feira, para discutir o impacto das sanções comerciais russas sobre as frotas de pesqueiros escoceses de cavala e as empresas processadoras.

Lochhead destacou a necessidade de o Reino Unido buscar algum tipo de seguro-exportação, para ajudar a indústria a exportar para a Ucrânia [sic] e explorar com a União Europeia a possibilidade de “bancar a quota” – o que significa ser pago para deixar o peixe no mar.

Pescadores do Reino Unido sob intensa pressão face embargo russo
Alex Wiseman, pescador de cavala e presidente da Associação Escocesa de Pesqueiros de Alto Mar, antevê dificuldades econômicas extremas, como resultado das sanções russas.

Tentar encontrar mercados que preencham o vazio deixado pela Rússia é impossível no curto prazo – disse ele.

Os amplamente divulgados benefícios que haveria para a saúde humana pela ingestão de peixes de carne oleosa fizeram aumentar muito a demanda no Reino Unido e na Europa continental em anos recentes; e, para Wiseman, serão necessários vários anos para recuperar a demanda, depois de perdida.

Pode até acontecer, mas demorará dez anos – disse ele; explicou que países com mercados emergentes para a cavala terão de investir muito em infraestrutura para armazenamento em baixas temperaturas, para conseguir administrar os grandes estoques.

Disse também que as sanções russas não poderiam ter chegado em pior hora para os pescadores:

Nossas quotas foram aumentadas em 80% esse ano, porque a demanda estava forte.

Agora, estamos pedindo que o governo do Reino Unido nos permita deixar o peixe nadando no mar, para que possamos pescá-lo e distribuí-lo adequadamente no mercado no próximo ano, quando as coisas tiverem melhorado. Pelo menos, não haverá os custos de armazenamento nem será preciso mexer na quota. Mas ainda temos de atravessar espessas camadas de burocracia da União Europeia, para chegar lá. 


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

“Querem ser putas do Tio Sam? Pois paguem!”

7/8/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Caros amigos,

Fiz uma pausa na minha vida no espaço “de carne e osso”, para comentar a grande novidade do dia:

● – A Rússia está proibindo, por 12 meses, todas as importações de carne de boi, de porco, frutas e legumes, carne de frango, pescado, queijos e laticínios em geral, da União Europeia, dos EUA, da Austrália, do Canadá e do Reino da Noruega, para a Rússia.

● − A Rússia também fechou o espaço aéreo para linhas europeias e norte-americanas que sobrevoem [seu] espaço aéreo para o leste da Ásia, a saber, a Região do Pacífico Asiático, e está considerando mudar os pontos chamados de entrada e saída do espaço aéreo russo, para voos europeus, agendados e charter.

Além disso, a Rússia está preparada para modificar as regras de uso das rotas transiberianas e interromperá conversações com autoridades aéreas dos EUA sobre o uso das rotas transiberianas. Finalmente, a começar nesse inverno, podemos revogar direitos adicionais concedidos por autoridades aéreas russas além de acordos prévios.

EUA e União Europeia vs export/import Rússia
É desenvolvimento interessante e importante, que exige análise muito mais sutil que o cálculo estreito do quanto pode custar aos EUA ou à União Europeia. Em vez de tentar cálculo desse tipo, destacarei os seguintes elementos:

Primeiro, é resposta tipicamente russa. Há uma regra básica que todas as crianças russas aprendem na escola, em brigas de rua, no exército e por toda parte: nunca ameace e nunca prometa; aja. Diferente dos políticos ocidentais que passaram meses ameaçando sanções, os russos limitaram-se a dizer vagamente que se reservavam o direito de responder. Então, BANG! Aí está embargo amplo e de grande alcance, o qual, diferente das sanções ocidentais, terá forte impacto no ocidente, mas ainda maior na própria Rússia (mais sobre isso, adiante).

Essa tática de “palavras zero & só ação” é concebida para maximizar a contenção de atos hostis: uma vez que os russos nunca anunciaram antes o que poderiam fazer como retaliação, só Deus sabe o que podem fazer agora, na sequência! :-)

Segundo, as sanções escolheram a dedo os próprios alvos. Os europeus têm agido como prostitutas sem cérebro nem autorrespeito em todo esse assunto; sempre se opuseram às sanções, desde o primeiro momento, mas não tiveram coragem de fazer-saber ao Tio Sam. Por isso, acabaram tendo de render-se total e vergonhosamente. A mensagem dos russos é simples: “Querem ser putas do Tio Sam? Pois paguem o preço!” Esse embargo ferirá especialmente o sul da Europa (Espanha, França, Itália, Grécia) cuja produção agrícola sofrerá muito. São também os países mais fracos na União Europeia. Ao atingi-los, a Rússia está maximizando a inevitável fricção dentro da União Europeia em torno das sanções contra a Rússia.

Terceiro, não é só que as empresas de aviação da União Europeia sofrerão com custos mais altos e tempos de voo mais longos nas importantíssimas rotas da Europa à Ásia: as empresas de aviação asiáticas nada sofrerão, o que assegura às segundas dupla vantagem competitiva. Que tal esse arranjo, para castigar um dos lados e recompensar o outro? A União Europeia criou problemas para uma empresa aérea russa (Dobrolet), por causa de seus voos para a Crimeia, e por isso toda a comunidade das empresas aéreas da União Europeia pagará o preço de tremenda desvantagem em relação às suas contrapartes asiáticas.

Vai desfazer nossa amizade no Facebook?
Quarto, a Rússia usou essas sanções para fazer uma coisa vital para a economia russa. Explico-me: depois do colapso da URSS, a agricultura russa permaneceu em completo desarranjo, e Yeltsin só fez piorar tudo. Os agricultores russos simplesmente não podiam competir contra avançadas empresas de agroindústria, que se beneficiam de grande economia de escala, de pesquisa química e biológica de alta (e caríssima) tecnologia, que controlam toda a cadeia de produção (quase sempre coligadas em imensas empresas holdings) e têm alta capacidade para marketing  e qualidade. O setor agrícola russo precisava muito, precisava desesperadamente, de barreiras e tarifas que o protejam contra as gigantes capitalistas ocidentais; mas, em vez disso, a Rússia só fez ordenar-se voluntariamente pelos padrões da OMC; até se tornou membro. Agora, a Rússia está usando esse embargo total para dar à agricultura russa um tempo crucialmente necessário para investir e alcançar fatia muito maior do mercado russo.

Não esqueçam que os produtos russos são LIVRES DE ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS; [20/5/2014, Rússia prendeu o demônio Monsanto de volta na garrafa, F. William Engdahl, Global Research, Canadá (em inglês)] que usam muito menos conservantes, antibióticos, corantes, intensificadores de sabor e pesticidas. E, dado que são produção local, não exigem que se usem técnicas desse tipo de refrigeração/preservação que, como todos sabem, fazem todos os produtos ficar com gosto de caixa de papelão. Em outras palavras, os produtos agrícolas russos têm muito melhor sabor e qualidade – o que, como se sabe, não basta para fazer um campeão de mercado. Esse embargo servirá como impulso poderoso para investir, desenvolver, e alcançar melhores fatias de mercado.

Quinto, há 100 países que não votaram com os EUA na questão da Crimeia. Os russos já anunciaram que esses são os países com os quais a Rússia comerciará para obter produtos que não se possam produzir indigenamente. Boa recompensa a quem se levanta contra o Tio Sam.

Sexto, é pouquinho, mas é doce: vocês perceberam que as sanções da União Europeia foram impostas só por três meses e “para posterior revisão”? Ao impor embargo por 12 meses, a Rússia também envia mensagem bem clara: “E agora?! Quem vocês acham que se beneficiará da confusão que vocês armaram?”.

Sétimo, é absolutamente errado calcular que o país X da UE exportava Y milhões de dólares à Rússia, e daí concluir que o embargo russo custará Y milhões de dólares ao país X da UE. Por que está errado? Porque a não venda desse produto criará um excedente que afetará adversamente a demanda ou, se a produção cair, afetará os custos de produção (economias de escala). Na direção inversa, para um hipotético país não-UE Z, um contrato com a Rússia pode significar dinheiro suficiente para investir, modernizar-se e tornar-se mais competitivo, não só na Rússia, mas nos mercados mundiais, inclusive na UE.

Sanções!
Oitavo, os países bálticos desempenharam papel particularmente daninho em todo o caso da Ucrânia, e agora algumas de suas indústrias mais lucrativas (por exemplo, de pescado), que eram 90% dependentes da Rússia, terão de fechar. Aqueles países já estão em terrível confusão, mas agora a coisa piorará muito. Mais uma vez, a mensagem bem simples: “Querem ser putas do Tio Sam? Pois paguem!”

Nono, e esse é tópico realmente importante: o que está acontecendo é que a Rússia vai gradualmente se separando das economias ocidentais. O ocidente rompeu alguns laços financeiros, militares e aeroespaciais; a Rússia rompeu os laços monetários, agrícolas e industriais. Não esqueçam nem por um instante que o mercado EUA/UE é mercado em processo de naufrágio, afetado por profundos problemas sistêmicos e questões sociais gigantescas. Em certo sentido, a comparação perfeita ainda é o Titanic, com a orquestra tocando enquanto o navio afundava. A Rússia é como um passageiro que, naquele momento, recebeu a notícia de que as autoridades do Titanic não o consideravam bem-vindo a bordo e o desembarcariam no próximo porto. Quer dizer... Mas... Que diabo de ameaça é essa?!

Décimo e último, mas de modo algum menos importante, essa guerra comercial, combinada à russofobia histérica do ocidente, está oferecendo a Putin a melhor campanha de Relações Públicas com que o Kremlin poderia sonhar. A propaganda na Rússia só tem de dizer à população a mais absoluta verdade:

Os russos fizemos tudo certo; fizemos tudo conforme o manual deles; fizemos todo o possível para desescalar essa crise; e, em troca, a única coisa que pedimos foi que, por favor, façam parar o genocídio do nosso povo na Novorrússia... E o que fez o Ocidente? Como respondeu? Com uma campanha insana de ódio, com sanções contra nós e com apoio total aos nazistas genocidas em Kiev.

Relógio - por Josetxo Ezcurra
Além disso, como quem acompanha atenta e cuidadosamente a imprensa-empresa russa, posso dizer a vocês que o que está acontecendo hoje parece muito com coisa já conhecida. Parafraseando Clausewitz, pode-se dizer que o que estamos vendo hoje é “uma continuação da IIª Guerra Mundial, mas por outros meios”. Em outras palavras, uma luta a ser combatida até o fim, entre dois regimes, duas civilizações que não podem conviver no mesmo planeta e que estão atadas uma à outra, em luta de vida e morte. Nessas circunstâncias, o apoio do povo russo ao presidente Putin só fará aumentar ainda mais.

Em outras palavras: em movimento que os judocas conhecem bem, Putin usou a fúria da campanha ocidental anti-Rússia e anti-Putin, mas contra o ocidente e a favor da Rússia e de Putin: a Rússia beneficiar-se-á de tudo isso, economicamente e politicamente. Longe de ser ameaçada por algum tipo de “Maidan nacionalista” no próximo inverno, o regime de Putin será fortalecido pelo modo como gerenciou a crise (os índices de aprovação popular de Putin estão ainda mais altos que antes).

Sim, claro, os EUA já mostraram que têm vasto conjunto de capacidades para ferir a Rússia, sobretudo mediante um sistema de cortes e tribunais de justiça (nos EUA e na UE) que é tão subserviente ao estado profundo dos EUA, quanto as cortes e os tribunais da Coreia do Norte são subservientes ao “Amado Líder” deles, em Piongueangue. E a perda total do mercado ucraniano (de importações e de exportações) também ferirá a Rússia. Temporariamente. No longo prazo, toda essa situação é imensamente proveitosa para a Rússia.

Entrementes, Maidan está novamente em fogo, Andriy Parubiy renunciou, e os Ukies não param de bombardear hospitais e igrejas na Novorrússia. Sem novidades, pois.

Movimento livre na União Europeia
Quanto à Europa, amanheceu furiosamente bombardeada e em choque. Francamente, nessa manhã, minha feia capacidade para sentir prazer ante a desgraça de alguns parece não ter limites. Que aquelas arrogantes não entidades do tipo de Van Rompuy, Catherine Ashton, Angela Merkel ou José Manuel Barroso se afoguem na tempestade de merda que a estupidez deles, a falta de vergonha, de coragem, de espinha dorsal dessa gente, criou.

Nos EUA, Jen Psaki parece viver sob a impressão de que a região de Astrakhan mudou-se durante a noite para a fronteira da Ucrânia, enquanto o Ministério de Defesa da Rússia anuncia que:

(...) abrirá contas especiais nas redes sociais e redes abertas de distribuição de vídeos e filmes, para conseguir fazer chegar ao Departamento de Estado dos EUA e ao Pentágono informação prestável, não errada, sobre as ações do exército russo.

Será que, tudo isso posto, os líderes da UE conseguirão entender que puseram seu dinheiro no cavalo errado?

The Saker

PS: Tenho de sair novamente. Estarei de volta no sábado à tarde. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O “Zen” das frutas e legumes poloneses

4/8/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Rússia suspende importação de legumes, verduras e frutas da Polônia a partir de 4/8/2014
Para mandar um recado, ignore o gângster-chefe e chute primeiro o guarda-costas – eis um velho moribundo método da guerra fria, que a Rússia pode estar ressuscitando, ao notificar a Polônia de que está suspendendo a importação de frutas e legumes daquele país, medida que entra em vigor hoje, ao mesmo tempo em que medidas similares estão sendo consideradas contra os países da União Europeia em conjunto. [1]

A Rússia diz que foram violadas as condições sanitárias, mas, se, como suspeita a Voice of America, Moscou está apenas chutando deliberadamente um dos guarda-costas dos EUA, os norte-americanos não poderão fingir que não perceberam ou não entenderam o recado. A decisão de Moscou equivale a chutar as partes moles sensíveis da Polônia, que exporta 2/3 de toda a sua produção de frutas e legumes para a Rússia.

Na verdade, trata-se de momento de provação Zen para o presidente Obama dos EUA. Um guarda-costa dos mais firmes e leais está sendo impiedosamente espancado... E o chefão-em-chefe tem de assistir de longe, sem poder mover um músculo. É pouco provável que Washington tenha condições de oferecer compensação financeira a Varsóvia pela renda que perderá. Obama, provavelmente, recomendará que Varsóvia procure Bruxelas, para tentar compensação. Estará começando um ciclo vicioso de sanções?

É difícil dizer quem vencerá e o mais provável é que todos só percam. Todos os relatos sugerem que a Rússia entrou em modo de revide. A União Europeia terá de incluir nessa contabilidade, que Moscou começará em breve a remover as cláusulas de tratamento preferencial (isenção de taxas e impostos de aduana) que há tempos garante aos produtos que a Ucrânia exporta para o mercado russo.

Vladimir Putin
A Agência Reuters diz que Moscou está preparando as necessárias novas regras. É problema para a União Europeia, porque os EUA estão com as mãos firmemente fechadas no que tenha a ver com dinheiro, e esperarão que a Europa (leia-se: a Alemanha) compense a Ucrânia por qualquer perda de renda, o que virtualmente significa salvar a economia daquele país, porque, sem as exportações para o mercado russo, a indústria ucraniana ruirá.

Mas, nessa história ainda em andamento, todos os olhos estão postos na parte da Terceira Rodada de sanções que envolvem transferência, para a Rússia, de “tecnologias sensíveis” no setor do petróleo. A impressão que ficou da fala de Obama na 3ª-feira (29/7/2014), quando anunciava as sanções, é que a exploração e a produção de petróleo russas serão terrivelmente atingidas.

A Agência Reuters conta história bem diferente, em análise aprofundada da situação presente do mercado de petróleo, e sugere que a coisa é muito complicada e que é altamente provável que Obama tenha marcado gol contra.

As três principais conclusões da análise distribuída pela Reuters são:

  1. a Rússia dependeu sempre, tradicionalmente, da tecnologia ocidental, sobretudo por uma questão de conveniência; agora, será obrigada a pôr a mão na massa e a desenvolver tecnologias próprias, o que só fará acelerar a erosão que já se observa no monopólio do ocidente sobre aquela tecnologia;
  2. a China, principalmente, apostará na situação que se vê e, no final, será a grande vencedora nessa questão; e
  3. as sanções contra a Rússia, muito provavelmente, marcarão o fim da liderança tecnológica do ocidente no setor petróleo.

Os BRICS possuem tecnologia de petróleo & gás
Curiosamente, os especialistas em petróleo também estão questionando o fundamento da onda de propaganda comandada por Obama. Cito um trecho mais longo da opinião de especialistas, no conceituado periódico sobre petróleo, Peak Oil News:

Os estudiosos de política externa no Departamento de Estado talvez não compreendam que a produção de petróleo na Rússia acaba de atingir um pico do período pós-URSS e daqui em diante já estaria em declínio. O efeito das sanções de EUA-UE será apressar esse declínio russo, o que fará subir os preços do petróleo, no instante em que a produção dos EUA atinja seu máximo possível e imediatamente depois despenque em mergulho inevitável, de nariz rumo ao fundo do poço, o que deve acontecer em 2017-2020. A Rússia, ainda estará exportando petróleo naquele ponto futuro, e se beneficiará dos preços mais altos (talvez suficientemente mais altos a ponto de compensar a produção perdida por causa das sanções). Os EUA, por sua vez, que ainda serão um dos maiores importadores de petróleo do mundo, estarão ante reprise do choque do petróleo de 2008, que contribuiu para seu crash financeiro.

Não há dúvidas de que os especialistas em política externa do Departamento de Estado acreditam sinceramente na propaganda recente, sobre os EUA repentinamente convertidos em nova superpotência energética, capaz de abastecer a Europa de petróleo e gás, para substituir as exportações russas. É possível que os europeus sejam doidos a ponto de também terem embarcado nessa fantasia. Mas essa aposta tem de altíssima, o que tem de ruinosa. Deve-se esperar que os jogadores acordem dessas alucinações, antes de o jogo ficar realmente feio.

A Europa é muito dependente do gás da Rússia
(clique na imagem para aumentar)
Bem obviamente, os europeus não são doidos. Bateram na mesa e exigiram que o gás ficasse fora do pacote de sanções que Obama propunha. A questão é simples: as economias europeias não vivem sem o gás russo (Washington Post).

Pode-se dizer, para manter a metáfora, que quem está em posição de poder bater na mesa agora é a Rússia. Será que a Rússia retaliará, racionando o gás para a Europa? Analistas de Morgan Stanley estimam que, sim, Moscou pode decidir-se por essa opção. Hmm. Sentiram calafrios?

Minha opinião, porém, é que não se deve temer que Moscou escolha essa via. Por um lado, o imposto sobre exportações de gás para a Europa é bom dinheiro para a Rússia; segundo, Moscou compreende perfeitamente bem que os grandes países europeus – exceto talvez a Grã-Bretanha – não estão realmente empenhados no que o chefão-em-chefe os pressiona a fazer, e só cederam porque sangue, afinal, é mais denso que água.

Esse parece ser também o entendimento de Moscou sobre a coisa toda. A reação mais detalhada dos russos à Terceira Rodada de sanções veio do ministro Sergey Lavrov, de Relações Exteriores, em reunião com a imprensa em Moscou na 3ª-feira (29/7/2014). Lavrov ofereceu resumo detalhado e consistente do que realmente se passa por trás do teatro de sombras apresentado para a opinião pública na Ucrânia; destacou que os EUA estão calibrando deliberadamente as tensões, torpedeando toda e qualquer incipiente iniciativa de paz que apareça.

Sergey Lavrov - MRE da Rússia
Revelou que parceiros europeus da Rússia revelaram a Moscou, em contatos privados, as desconfianças e preocupações que lhes causam o plano de jogo de Obama. Lavrov disse, com palavras cuidadosamente medidas e selecionadas, que as atitudes europeias ante as sanções contra a Rússia são “artificiais”.

Interessante: o jornal britânico The Independent publicou também matéria exclusiva, evidentemente baseada em fontes ocidentais de alto nível, em que diz que Berlim e Moscou estavam, sim, bem próximos de firmar acordo sensibilíssimo sobre a Ucrânia; mas tiveram de pô-lo em banho-maria, quando o avião da Malaysia Airlines foi derrubado no leste da Ucrânia.

Em palavras do The Independent,

(...) fontes internas, que participaram das discussões, disseram ontem que o “plano de paz” alemão continua sobre a mesa e é a única proposta de acordo que está sendo analisada. As negociações pararam por causa do desastre do MH17, mas recomeçarão tão logo as investigações tenham sido concluídas.

Ora, ora... Essa informação dispara uma pergunta grávida de possibilidades: Por que, afinal, nesse mundo, um homem racional como o presidente Putin tomaria atitude tão descabida e bizarra como minar o seu próprio plano de paz, que ele trabalhosamente estava discutindo com a chanceler Angela Merkel, e derrubaria à bomba o avião de um país amigo, como a Malásia, com o qual a Rússia até já teve cooperação de defesa?

Angela Merkel e Vladimir Putin 
Será possível, pois, que alguém tenha tentado minar o tratado de paz russo-alemão? Será possível, pois, que os russos tenham razão todas as vezes que sugerem que haja mais, na tragédia do MH17 no leste da Ucrânia, do que o olho já viu? (Lavrov também tocou nisso).

Curiosamente, na declaração de 29/7/2014, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia especifica EUA, Grã-Bretanha e Lituânia, que estão recorrendo “desavergonhadamente” a táticas de bloqueio dentro do Conselho de Segurança da ONU contra qualquer movimento a favor de o caso do voo MH17ser investigado por comissão internacional.


Nota dos tradutores
[1] Quem queira conhecer, não algum fato, mas a opiniãozinha velha conhecida de sempre dos “especialistas” da revista Exame, da Ed. Abril, sobre esses mesmos fatos, encontra aquela opiniãozinha em: Rússia barra frutas e vegetais da Polônia por sanções” de 30/7/2014. Muito estranhamente, a notícia só se encontra aí, hoje, nessa versão – e em revista orientada para público “especialista” – em toda a mídia brasileira.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.