Mostrando postagens com marcador Slaviansk. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Slaviansk. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Ucrânia: para a Rússia as questões estratégicas (não só as táticas)

8/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Acho que a inesperada queda de Slaviansk nos atingiu com muita força. Estávamos habituados a pensar na cidade como uma nova Stalingrado, versão Donbass de Bint Jbeil, [1] e a repentina retirada das forças de Strelkov nos surpreendeu. E “nós”, aqui, significa mesmo todos nós, inclusive os Ukies (que apostavam que Strelkov lutaria até a última bala). Era o que Strelkov queria.

Eu poderia voltar linha a linha aos argumentos de Auslander ou do general Ukie anônimo, mas o máximo que teria a acrescentar é que concordo com eles. Não vejo por que voltar a tudo isso. Já discuti a evolução provável da situação de combate no Donbass e especificamente discuti a única real importância de Slaviansk, que é importância simbólica. Se alguém sinceramente ainda crê que a retirada comandada por Strelkov tenha sido qualquer coisa menos que movimento perfeito, em perfeito timing, de posição insustentável, não tenho mais o que argumentar para demovê-lo dessa crença.

Aos demais, lembro o seguinte: a retirada é uma dos movimentos mais difíceis e importantes em qualquer combate e exige competências complexas e refinadíssimas; é movimento sempre completamente subestimado por civis, e é o teste mais radical a que se pode submeter a qualidade do comando que a ordene e das forças que a executem. Pelo que se sabe, Strelkov fez retirada perfeita, em perfeita ordem e cronometrada com precisão impecável, de uma Slaviansk já cercada. Não há melhor prova de que é homem de soberbos talentos táticos.

O que quero fazer agora é considerar, não as questões táticas, mas as opções estratégicas da Rússia. Não como a Rússia tentará fazer isso ou aquilo, mas, em vez disso, considerar o que me parece que seja o provável objetivo final dos russos nessa campanha.

Os objetivos e motivos de Putin

Primeiro, tenho de dizer que a única hipótese de trabalho lógica sobre Putin é que ele está fazendo o que crê que seja o melhor para a Rússia e o povo russo. A noção de que seria “covarde”, ou que estaria “vendido” são ridículas prima facie: fosse esse o caso, não teria ordenado que as forças russas cercassem e protegessem imediata e completamente da Península da Crimeia, bem sob o nariz dos EUA e da OTAN. Nem teria ousado desafiar abertamente os anglo-sionistas na questão da Síria. Não. Se Putin ainda não mandou forças russas para o Donbass, isso nada tem a ver com medo ou com alguma suposta fraqueza russa. Isso tem tudo a ver com o fato de que Putin chegou à conclusão de que a tática certa não é essa, para alcançar o seu objetivo estratégico. Essa é a única explicação lógica.

Putin joga xadrez com o império anglo-sionista
Observo que pesquisa recente mostrou também que 60% (sessenta por cento!) dos russos concordam com ele e não querem que Putin envie tropas para o Donbass. Significará que 60% dos russos são covardes ou foram subornados pela OTAN? Improvável.

Mandar tropas russas para a Novorrússia é uma tática, um meio para alcançar outro objetivo. Não é o objetivo per se, certo? Assim sendo, qual é o objetivo?

A primeira pergunta que temos de propor é a seguinte: a Rússia pode aceitar, ou, no mínimo, conviver com o projeto dos EUA? Outra vez, qual é esse projeto? Uma Ucrânia unitária (não federal), governada por nazistas russófobos absolutamente controlados pelos EUA, com a OTAN dentro da Ucrânia e todas as formas de influência russa fora de lá.

No melhor dos casos, significaria que a Crimeia ficaria sob constante ameaça de ataque; no pior, significaria um ataque de Ukies/OTAN/EUA contra a Crimeia tão logo se tenham concentrado forças suficientes na Ucrânia. Respondam vocês mesmos: esse quadro como resultado final é aceitável para a Rússia? Há qualquer chance de Putin ser convencido a aceitar isso? Minha resposta é um enfático “de jeito nenhum, NUNCA!”. Esse simplesmente não é resultado que a Rússia possa aceitar, independente de quem esteja sentado no Kremlin.

Ok, então, quem sabe um acordo com Poroshenko? Algo como “você cede a Crimeia, eu cedo o Donbass”?

Nonsense. Primeiro, porque não há Poroshenko. Bem, OK, há um sujeito que atende pelo nome Poroshenko em Kiev, mas não tem poder algum. O poder real não é, sequer, Obama, mas o “estado profundo” dos EUA: os que manejam os cordões do fantoche Obama e os que manejam os cordões de Poroshenko. Agora, façam a vocês mesmos uma pergunta básica: o “estado profundo” dos EUA precisa do Donbass? Não. Claro que não!

O Donbass – quem precisa e quem não precisa?

O que é o Donbass? Em poucas palavras, o Donbass é região completamente russa a qual pelos absurdos da história, acabou convertida em parte da Ucrânia, exatamente como a Crimeia. Além disso, o Donbass é região quase exclusivamente focada no comércio com a Rússia. Tem carvão e capacidades industriais high tech (inclusive militares). Os EUA, a UE ou mesmo o império anglo-sionistas como um todo têm exatamente ZERO necessidade do Donbass. A Rússia sim, a Rússia poderia com certeza usar muito do potencial do Donbass, mas não outros.

Cidades e áreas controladas no Donbass (legenda)
Agora, se o Donbass for entregue em mãos da Ucrânia falida controlada pelos nazistas (o que costumo chamar de Banderastão) , ele automaticamente perderá todo e qualquer valor que tenha: amputado da Rússia, o Donbass é inútil. Como uma chave que só é útil se necessária para abrir/fechar uma porta, o Donbass só é útil dentro da relação que mantém com a Rússia. Rompa essa relação, e o Donbass vale nada.

Assim sendo, o que aconteceria com uma parte Donbass de um Banderastão unitário? Em primeiro lugar, a Rússia terá de imediatamente excluir o Donbass da Zona Comum de Comércio (para proteger Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e membros futuros), contra os produtos da União Europeia. Além disso, os doidos da Junta em Kiev já anunciaram que o Banderastão não produzirá para a indústria militar russa. Como se não bastasse o Donbass já estar em queda livre – desde o início do ano, as exportações para a Rússia caíram, se não estou enganado nos números, algo como ¼, ou 25%. Por tudo isso, encaremos os fatos: se a Junta nazista de Kiev algum dia vier a invadir e ocupar o Donbass, a região será terra abandonada e de miséria, não a grande fonte de renda que tem sido desde 1991.

Pondo de lado os valores “patrióticos” de um estado imaginário (a Ucrânia) “retomar” terras históricas (que nunca teve), o Donbass tem valor zero. Portanto, nem a Junta nem os EUA jamais aceitarão a tal troca Crimeia pelo Donbass.

Pode-se perguntar então por qual objetivo os Ukies estão lutando tanto, por que tanta luta para pôr as mãos num pedaço de terra inútil. É muito simples.

Luta-se afinal para obter o quê?

Em primeiro lugar, lembrem, os Ukies não decidem coisa alguma. Tudo é decisão do Tio Sam. E Tio Sam quer uma nova Guerra Fria. E Tio Sam inventa e incendeia guerras e crises por todos os cantos, porque é preciso justificar a existência da OTAN e manter à tona o dólar. Para Tio Sam, uma guerra no Donbass que se arraste por uma década é perfeita! E os amaldiçoados russos pagarão pela Síria, a OTAN se infiltra para mais perto da fronteira russa, os europeus borram-se de medo, o euro vira papel picado durante o processo, e a OTAN está explicada! O que seria melhor que isso?!

Mas também a Junta em Kiev precisa de uma guerra. Por um lado, a guerra gera o perfeito bode expiatório: Putin, os Moskals, o todo poderoso FSB, [2] etc.. Também cria uma atmosfera de medo, excelente para abusos políticos, agressões a direitos humanos e civis, etc.. Também permite que os nazistas ponham-se a caçar “sabotadores” e “agentes russos” (qualquer um que discorde da ideologia ou das políticas nazistas). Uma guerra é também meio perfeito para explicar a crise. É útil, até, para fazer muito dinheiro: Kolomoiski já fez milhões, cobrando sobrepreço no combustível que vende aos militares Ukies. Por fim, mas não menos importante, guerras geram caos e os escroques e bandidos sempre gostam de caos e tempos e terras sem lei: é ambiente no qual sempre prosperam.

Por tudo isso, o Tio Sam e sua Junta nazista em Kiev querem guerra, não o Donbass.

O que significa tudo isso para a Rússia?

Ora, já demonstramos que a Rússia não pode permitir que os planos dos EUA para a Ucrânia sejam bem-sucedidos. A Rússia não pode permitir um estado nazista e armado com a OTAN, junto à sua fronteira oeste. Também já demonstramos que nenhum acordo é possível, que nada há a ser negociado, simplesmente porque nem o Tio Sam nem a Junta nazista tem qualquer interesse, absolutamente nenhum interesse, em tipo algum de negociações ou acordo. A única conclusão possível a extrair disso é que só resta à Rússia uma única opção: a vitória. Ou, se vocês preferirem, a derrota total do projeto da Junta em Kiev e do Tio Sam.

Na realidade, a Rússia não tem escolha

Quero deixar bem claro que não há, falando em termos precisos, qualquer “opção” ou “escolha”. Pensem do seguinte modo: se aponto uma arma para o seu peito e digo “a bolsa ou a vida”, pode-se admitir que, em certo sentido, você tenha algo a escolher. Mas ninguém em são consciência chamaria a isso “uma opção”, “uma escolha”. É o mesmo caso: a Rússia pode, é claro, escolher pôr em risco a própria existência, mas nenhum governante russo jamais aceitará a existência de uma Ucrânia nazista unitária na fronteira da Rússia. A Rússia portanto tem de resistir contra essa probabilidade. A Rússia tem de derrotar essa aliança EUA-nazistas e seus objetivos. E para isso a Junta nazista em Kiev tem de cair.

Em termos mais simples: o objetivo real da Rússia na Ucrânia é mudança de regime.

Azul escuro - Banderastão
Amarelo escuro - Área a ser "desnazificada"
(a divisa no mapa acima é o Rio Dniepr)
E não bastará nada menos que isso. A Rússia é absolutamente obrigada a pelo menos desnazificar a maior parte da Ucrânia, no mínimo, tem de desnazificar todo o oeste do rio Dniepr e, provavelmente, também Kiev. Se a Rússia tiver fronteira com uma Ucrânia sã, normal, não nazi-louca, e aquela Ucrânia tiver fronteira comum com algum tipo de pequeno Banderastão Galiciano, acho razoável supor que a Rússia admita. Mas esse mini Banderastão será fatalmente ou inviável, ou altamente subversivo face ao resto da Ucrânia. Não consigo imaginar tal arranjo. Além do mais, as probabilidades sugerem fortemente que o pessoal do oeste da Ucrânia recuperará a racionalidade mais cedo ou mais tarde e dar-se-á conta de que nenhum governo nazista jamais fez ou fará bem a alguém, nem mesmo a eles.

No momento, o povo ucraniano está visivelmente enlouquecido. Pesquisas recentes mostram que Liashko – que é maníaco pedófilo – é a figura política mais popular no Banderastão. Depois dele, vêm Yulia Timoshenko e Vitaly Klitschko. É terrível, sim, mas reexamine esses números: todos esses nomes somados fazem 74%. Há outros 26% de eleitores. Preferem quem?

Liashko tem 23,1% dos votos. Quando o nome mais popular não chega a 25% e os seis mais populares alcançam 74% – é visível que o país está em profunda crise política. E não se sabe por que os eleitores ucranianos preferiram essas figuras. Para “preferir” Liashko é preciso ser doido, perfeito idiota ou as duas coisas. Mas e os demais? Talvez tenham sido escolhidos não como os melhores, mas como os “menos piores”? Seja qual for o caso, entendo que a maioria dos ucranianos é gente decente, mentalmente sã, boas pessoas. Claro que há doidos, mas sempre há; e o número de doidos aumenta em país em crise, em bancarrota, que há 20 anos é alvo de lavagem cerebral por neonazistas russofóbicos. Essa situação tem de mudar. Não há dúvida de que, mais cedo ou mais tarde, mudará.

Freak Show no Banderastão
Se se acrescenta a isso o fato de que a Ucrânia está basicamente acabada, em termos econômicos, morta para todas as finalidades práticas, e que não há o que consiga impedir que a crise econômica exploda antes do final do ano, pode-se ver por que a mudança de regime pode acontecer, mesmo sem qualquer intervenção russa.

O único plano de jogo à vista

De tudo que se viu acima, podem-se extrair três conclusões simples e básicas:

1) Em nenhum caso a Rússia pode deixar que a Novorrússia caia.
2) Mudar o regime de Kiev é objetivo estratégico russo vital.
3) Moscou só movimentará suas forças militares como último recurso.

Agora, me parece, o plano de jogo de Putin vai-se tornando claro: manter a Novorrússia capaz de resistir, enquanto espera por mudança de regime em Kiev. Não significa, é claro, que a ajuda russa se tornará oficial, embora possa acontecer, especialmente se os Ukies surtarem completamente e a situação humanitária agravar-se muito. Além disso, e por cínico que possa parecer, a guerra na Novorossia é fantástico fator psicológico de mobilização do povo russo e na Novorrússia a. Mais uma vez, tratemos de encarar, o que chamo de “potencial de resistência” da Novorrússia está longe de ter sido alcançado e muitos novorrussos ainda estão em casa, assistindo a tudo pela TV. Mas agora que Slaviansk caiu e parecem estar próximas a quedas de Donetsk e Lugansk, e agora que do centro da cidade já se ouve a artilharia Ukie, não tenham dúvidas de que mais e mais novorrussos vão dar-se conta de que não se trata de guerra a que possam simplesmente assistir pela televisão: votaram em massa pela independência; agora terão de defender também em massa o próprio voto e a própria escolha.

Quanto à Rússia, posso assegurar que a onda gigante de notícias horríveis, ofensivas, de enfurecer, que chegam da Ucrânia, já tiveram impacto enorme na Rússia. Considerem esses números que um funcionário do Kremlin distribuiu ontem. Oficialmente, há agora 481.268 refugiados da Ucrânia na Rússia; 414.726 só na área da fronteira (Rostov); e 20.461 já solicitaram status oficial de refugiados. Assim, enquanto o Departamento de Estado nega a realidade desse fenômeno, ou, quando não nega, explica que o êxodo se deve ao frio nas “montanhas Rostov” (não existem) ou por pessoas que visitam os avós”, os públicos russos veem enormes aviões Il-76 de transporte abarrotados de passageiros, famílias inteiras, longas filas de refugiados nos postos de fronteira russos (os quais, vale lembrar, os Ukies atingem a tiros regulamente “por engano”), conjuntos de música popular (dentre outros, DDT) fazem concertos beneficentes para levantar fundos para os refugiados, cidades inteiras de barracas são construídas pelo EMERCOM (ministério russo de Defesa Civil, Emergências) e grupos imensos de refugiados são hospedados por toda a Rússia, em hotéis, casas de família ou em centros especialmente organizados ou construídos. Por tudo isso, que ninguém se engane: embora os horrores no Donbass continuem “não vistos” na imprensa-empresa anglo-sionista ocidental, são imagens diárias sempre presentes na imprensa russa; e essa barragem de eventos e imagens está tendo efeito profundo, que é efeito de longo prazo, sobre a população em geral.

Ucrânia: entradas e saídas de gás para a Europa 
Boas notícias para Novorossia e Rússia

O Banderastão está condenado. Nesse momento, ainda está sendo mantido artificialmente vivo pela ajuda ocidental, pelo gás russo (desviado ilegalmente para reservas locais durante a primavera) e, sobretudo, por ação da inércia. Assim como um grande trem não pode parar instantaneamente, assim também um grande estado como a (hoje defunta) Ucrânia não acaba da noite para o dia. Mas vai perdendo energia em altíssima velocidade. Moscou fechou a torneira do gás, os empréstimos externos mal conseguirão cobrir os juros da dívida Ukie, e a guerra no leste do país não só está custando bilhões, como também está destruindo a infraestrutura da parte mais rica da ex-Ucrânia. A Junta de Kiev é constituída de doidos incompetentes, que não têm sequer ideia sobre o que fazer para enfrentar os problemas reais, e que, também por isso, nada fazem além de executar ordens que recebem do Tio Sam. Quanto ao Tio Sam, não só não dá a mínima bola aos Ukies e àquele patético Banderastão-lá-deles – como, também, está felicíssimo por ter conseguido criar uma grande crise entre a União Europeia e a Rússia.

E quanto a chamada “operação antiterroristas” contra a Novorrússia? Bem, digamos apenas que o ministério da Defesa do Banderastão tem exatamente ZERO de experiência militar, e que já anunciou que a estratégia Ukie será cercar e bloquear Lugansk e Donetsk. É, é verdade: os Ukies já anunciaram que não tentarão tomar essas cidades.  Claro: dado que a Junta mentiu sempre em tudo que “declarou”, pode-se ter certeza que tentarão tomar as cidades. Mas, dado que as chances de sucesso estão bem perto de zero (operações de ataque urbano comprometeriam praticamente todas as vantagens que os Ukies conseguiram até agora), tomaram a providência de anunciar que não tentarão.

[Como tema colateral, quero anotar fato interessante: depois da “vitória” Ukie em Slaviansk, uma longa lista de altos oficiais Ukies foram demitidos e substituídos. É informação eloquente sobre o real significado do que aconteceu, ou não é?!].

Não há dúvidas de que o tempo corre a favor da Rússia e que o colapso de todo o estado do Banderastão é inevitável dentro dos próximos 4-6 meses. O que realmente falta saber é se a Novorossia será capaz de resistir por todo esse tempo sem ajuda russa declarada. Meu palpite é que, sim, resistirá, mas com a tomada pelos Ukies de todo o noroeste da Novorossia (a grande área em torno de Slaviansk-Kramatorsk) os novorrussos não têm mais profundidade estratégica. Agora, é tempo de “nem um passo para trás” para a Novorrússia e para a própria Rússia. Outro sucesso dos Ukie poderia virar a maré, sobretudo psicologicamente. Uma coisa é desistir de defender cidade indefensável; outra coisa bem diferente é perder Gorlovka ou Snezhnoe e arriscar-se a perder o núcleo Krasnyi Luch - Antartsit. Se esses núcleos-chaves forem tomados pelos Ukies, defender Lugansk e Donetsk passará a ser o último recurso da Novorossia.

Em conclusão (derrubar alguns mitos)

Acho que, em conclusão, há alguns mitos a serem derrubados. O primeiro é o mito de que a resistência teria sido inútil, que Strelkov ou Putin (ou ambos) fizeram aos novorrussos o que Papa Bush fez aos xiitas iraquianos: disse-lhes que se levantassem em motim, para serem massacrados. Essa ideia assume que nazistas possam operar sem terror e massacres.

Permitam-me lembrá-los de que não houve levante, nem Strelkov, em Odessa, cidade que, mesmo sem levante, foi massacrada e vive hoje em regime diário de terror. Além disso, o mesmo regime de terror vê-se também na Carcóvia que, inicialmente, só queria unir-se à Novorrússia, mas cuja resistência bem efetivamente esmagada pelas forças especiais da Ucrânia e pelos bandidos do Setor Direita (Pravy Sektor). O mesmo vale para Mariupol.

Igor Strelkov -Ministro da Defesa da RPD
Todas essas cidades vivem hoje em atmosfera de medo, governadas pelos esquadrões-da-morte e gangues de bandidos dos oligarcas locais, aos quais essas cidades literalmente *dadas* pela Junta (gente como Kolomoiski ou seu testa-de-ferro Palitsa, em Odessa).

Contra nazistas, recomenda-se sempre resistir até a última bala, e a solução para a parte que os nazistas ocuparam da Ucrânia ainda é a mesma: luta, luta e mudança de regime em Kiev. Culpar Putin e/ou Strelkov pela guerra é simplesmente ridículo.

Outro desses mitos é comparar a Crimeia e o Donbass. Em termos simples, absolutamente não há o que comparar. São regiões completamente diferentes, com geografia radicalmente diferente e formação étnica e ideológica completamente diferente. Supor simploriamente que Putin poderia ter feito no Donbass o que fez na Crimeia é absolutamente fechar os olhos à realidade em campo. Não há absolutamente razão alguma que faça crer que o povo de Novorrússia está todo ele unido num único desejo de ser parte da Rússia – como era o caso na Crimeia.  Sim, eles votaram a favor da soberania, mas “soberania” pode significar qualquer coisa, desde uma entidade soberana numa Ucrânia federal ou confederada, até um status independente como parte da Federação Russa. Não devemos confundir sentimentos antinazistas e sentimentos antiucranianos. Pode-se detestar a Junta nazista em Kiev e, mesmo assim, desejar permanecer ucraniano, na identidade. Assim sendo, sim, há sinais claros de que o Donbass nada quer ter a ver com o regime nazista que está no poder em Kiev; mas absolutamente nada autoriza a concluir automaticamente que uma maioria de novorrussos quer que o Donbass seja parte da Rússia. É possível que isso esteja mudando, agora, com a guerra; mas ainda nada se pode afirmar.

Por fim, há a questão da Rússia potência global. Alguns acreditam que a Rússia é fraca e simplesmente não pode sustentar luta aberta global contra o Império Anglo-sionista. Esses dizem, com razão, que a Rússia depende de vários itens que tem de importar (medicamentos, chips de computadores, etc.). Outros dizem que a Rússia é quase invulnerável, que pode sustentar confronto econômico direto com o ocidente e levar a melhor. Nenhuma dessas avaliações é correta.

A Rússia é dependente de importações para várias coisas. E há muito dinheiro russo no ocidente, em bancos britânicos e em paraísos fiscais. A economia russa está OK, no máximo, mas, com toda a União Europeia em recessão, há sinais de que a Rússia pode, sim, seguir a mesma via. E é normal. Há apenas 15 anos, a Rússia estava a um passo de virar estado falido, como a Ucrânia hoje; e o que Putin conseguiu é um quase milagre, mas também os quase milagres exigem tempo, e a Rússia está longe, muito longe, de ter recobrado sua plena saúde. Há também grandes problemas sistêmicos dentro da Rússia, como corrupção, fuga de capitais, política ensandecida de juros, muitas empresas russas operando fora do país, sistema de impostos sub-par, etc.. Sim, sim, a Rússia está melhorando e melhorando, tem reservas gigantes de dinheiro e de recursos naturais e humanos, e as perspectivas de longo prazo são, sim, excelentes. Mas há coisas que a história, sim, ensina. Também na história da Rússia.

Piotr Stolypin
O brilhante primeiro-ministro e reformador russo Piotr Stolypin disse em frase que ficou famosa, que:

Deem à Rússia 20 anos de paz interna e externa, e vocês não reconhecerão o país.

Foi assassinado por um revolucionário em 1911 e todos sabemos o que aconteceu na sequência. Putin tampouco ganhou seus 20 anos de paz, e nada sugere que venha a ganhar; e nem a Rússia, não, pelo menos, enquanto o anglo-sionistas ocuparem o planeta. Implica que, tão cedo, a Rússia não recuperará saúde plena e todo o seu potencial.

Em outras palavras, não importa que a Rússia possa ou não de algum modo sobreviver a confronto em grande escala com o ocidente– o que interessa, aqui e agora, é que a Rússia tem interesse estratégico em fazer tudo que esteja ao seu alcance para evitar esse confronto.

Essa é a razão pela qual Putin tem sido tão cuidadoso, e é provavelmente a razão pela qual 60% dos russos não querem que o poder militar russo entre na Novorrússia: não querem comprometer o que foi alcançado com tanto esforço e a tão alto preço, pela Rússia de Putin, nos últimos 15 anos. Mais uma vez: se não houver outro meio para salvar a Novorrússia de ser tomada pelos nazistas, forças russas entrarão, muito provavelmente, na Novorrússia. Mas entendo que o Kremlin tem um mandato recebido do povo russo, para guardar essa opção como absoluto último recurso (com ações militares menores, mesmo limitadas, sempre, por definição, possíveis).

The Saker


Notas dos tradutores
[1] A Batalha de Bint Jbeil foi das principais batalhas da guerra de 2006, quando Israel atacou o Líbano e foi derrotada pela Resistência do Hezbollah.
[2] FSB é a sigla, transliterada do russo, de Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (substituiu a KGB). Por exemplo, lê-se sobre esses especialistas, em português.


Entrevista com Igor Strelkov, Ministro da Defesa da República Popular de Donetsk (8/7/2014)

9/7/2014, Primeiro Canal Republicano de TV, Donetsk
Vídeo e transcrição traduzida ao ing. (sem revisão). Começa em 1’06.
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



A verdade é que os alvos primários que foram atacados em Slaviansk e Kramatorsk não foram posições da nossa Milícia de defesa, embora essas posições fossem perfeitamente conhecidas, nem foram atacados bairros periféricos da cidade. O inimigo só atacou fábricas, empresas e instalações industriais. Em Nikolaievka, em especial, o inimigo continuou a bombardear a Usina Termoelétrica durante três dias sem parar, mesmo todos sabendo que lá não havia forças da Resistência. E, além disso, o bombardeio continuou durante um dia inteiro, mesmo depois que nós já havíamos nos retirado. Em outras palavras, o bombardeio não tinha objetivo militar.

Do mesmo modo, o bombardeio foi dirigido contra o distrito industrial, onde estão instaladas numerosas fábricas em Slaviansk e onde nenhum dos nossos soldados das forças de defesa jamais pôs os pés. Sequer instalamos postos de controle ali. Pois as fábricas foram regularmente e metodicamente bombardeadas pela artilharia de Kiev.


Entrevistador:  Bom-dia, hoje, no estúdio desse nosso Primeiro Canal Republicano de televisão, para falar aos cidadãos da República Popular de Donetsk, RPD [orig.  ing. DPR (Donetsk People’s Republic)], está conosco o ministro da Defesa e presidente do Conselho de Segurança, Igor Ivanovich Strelkov.

Igor Strelkov: Bom-dia.

Entrevistador: E o comandante da Milícia Popular da RPD, Pavel Gubarev.

Pavel Gubarev: Bom-dia.

Entrevistador: Igor Ivanovich, a palavra é sua.

Igor Strelkov: Quero dar as boas-vindas aos que nos assistem e nos ouvem, e dizer que, nesse momento tão difícil para o povo da República Popular de Donetsk, sinto-me feliz de poder estar aqui com vocês, e que possa, com vocês, defender nossa pátria-mãe comum, a Rússia, a qual, como creio, estende-se das fronteiras dessa formação chamada Ucrânia, até o Extremo Leste.

Estamos aqui lutando, precisamente, pela Rússia. E lutamos também pelos direitos das Repúblicas de Donetsk e Lugansk. Lutamos pelos direitos de autodeterminação de vocês, pelo direito de usar a língua de vocês, de viverem a cultura e o modo de vida de vocês. E pelo direito de manterem-se livres de obrigações impostas a vocês por gente para a qual a terra de vocês e a sociedade de vocês não passam de objeto de maquinações políticas e de especulação financeira de vários tipos. Gente que vive em estado de subserviência, sob controle externo e nem se dá o trabalho de tentar esconder isso. Por isso lutamos e continuaremos a lutar. E espero que possamos continuar a contar com o apoio de vocês.

Não me preparei especificamente para um comunicado ou discurso; passei o dia ocupado com questões de planejamento estratégico. Não tenho texto para ler aqui. O pessoal da TV preparou algumas perguntas e espero que, respondendo as perguntas deles conseguirei também dar respostas às suas preocupações sobre o que está acontecendo, como prosseguem as hostilidades e como planejamos continuar a defender a República. Se nosso anfitrião se dispuser a iniciar as perguntas, estamos à disposição.

Tropas Ukies chegam a Slaviansk
Chegou o momento de deixar Slaviansk

Entrevistador: Igor Ivanovich, temos aqui uma pergunta que se ouve sempre: porque Slavyansk rendeu-se e por que as forças retornam a Donetsk e cidades próximas?

Igor Strelkov: Desde o início das hostilidades, Slaviansk serviu como um escudo para Donetsk. Com nossas posições em Slaviansk, montamos um escudo para proteger todo o território da RPD [República Popular de Donetsk] e da RPL [República Popular de Lugansk, orig. LPR, Lugansk People’s Republic]. Nos interpusemos contra o centro da ofensiva do inimigo e dividimos suas forças, o que deu às lideranças sociais e políticas nas duas Repúblicas a oportunidade para organizar-se e, atuando conforme o nosso exemplo, tomar da Junta as rédeas do poder [local]; em certa medida, impedindo que a Junta se fixasse.

Por isso, dizemos que a tarefa foi completada – essa específica tarefa – que nas duas Repúblicas, em Donetsk e em Lugansk, os governos estabeleceram-se como era desejo do povo, em termos de implementar a soberania do Estado e realizar o referendo, e de criarem suas próprias forças armadas. Nesses termos, sim, entendemos que nossa tarefa foi completada substancialmente.

É natural que Slavyansk tenha-se tornado e continue a ser, para mim pessoalmente e para nós todos, uma cidade muito importante, cidade à qual estamos profundamente conectados. Indubitavelmente, tivéssemos oportunidade de mantê-la, teríamos continuado a defendê-la pelo tempo que pudéssemos. Mas a situação militar que se formou ali significava que continuar a manter Slavyansk teria levado a baixas que não poderíamos admitir na Milícia; e manter a cidade já não atendia a nenhum objetivo nem estratégico nem tático.

O inimigo concentrou ali quantidade gigantesca de artilharia e um grupo blindado próximos à cidade. Não poderíamos continuar a manter nossa posição por muito mais tempo, sem quantidades adequadas de armamento pesado, artilharia e, sobretudo, munição. Passo a passo, sempre contendo o inimigo, ganhando um dia depois do outro, continuamos a nos retirar para os limites da cidade. E finalmente chegou o dia em que a situação alcançou o ponto em que compreendemos que o círculo se fechara em torno da cidade; e que o plano tático do inimigo não é nos atacar mas, simplesmente, pôr abaixo a cidade, destruí-la completamente com artilharia e depois dizimar nossa infantaria com os tanques.

Compreendemos que nos falta armamento suficiente para nos defender contra esses movimentos. É falta grave, falta-nos, mesmo, tudo. O inimigo simplesmente passaria a nos matar, nos próximos dias, sem que pudéssemos agir correspondentemente.

Nessa situação, a decisão foi tomada. Eu, pessoalmente, tomei a decisão. Não dividi a responsabilidade com ninguém. E dei conhecimento dela apenas ao Conselho Militar que agiu imediatamente. A decisão foi de proceder à retirada, salvar a guarnição e a cidade, da destruição sem sentido. Seria destruição, mesmo, sem sentido, porque seríamos bombardeados de longe, de uma distância contra a qual não teríamos meios para responder. Tomei também a decisão de realocar os destacamentos experientes em combate para novas posições, nas quais pudessem continuar a defender a República.

Além do mais, como descobrimos depois que saímos do cerco, naquele mesmo dia o inimigo tomou Artyomovsk, expulsando de lá a pequena força de nossa milícia que estava lá acampada. Assim se criou real perigo de que não só Slaviansk, mas também toda a região, inteira, de Kramatorsk-Druzhkovka-Konstantinovka viesse a ser cercada e sitiada. De fato, essa é precisamente a razão pela qual, porque o inimigo estava já começando a cortar nossas linhas de comunicação, foi tomada a decisão pela retirada também de outras cidades, porque defende-las, depois de estarem cercadas, praticamente não teria qualquer propósito. Só teria resultado em mais vítimas desnecessárias e mais desnecessária destruição.

Áreas controladas no Donbass em 6/7/2014
Os heróis da retirada de Slavyansk

Entrevistador: Obrigado. Nós aqui entendemos que os homens que deram cobertura à sua retirada são heróis. O senhor pode nos falar mais sobre eles?

Igor Strelkov: Não foram mais de algumas dúzias de homem que ficaram para trás para cobrir a nossa retirada. De fato, cumpriram admiravelmente a tarefa deles. Tanto quanto sei até agora, a maioria deles já saiu da área cercada. Além disso, acabo de ser informado de que também o grupo que protegeu nossa retirada de Nikolayevka, os 13 combatentes daquele grupo também saíram do cerco com sucesso e deslocaram-se para Seversk, com baixas mínimas.

Prontidão de Donetsk para resistir a um sítio

Entrevistador: Temos aqui outra pergunta: a cidade de Donetsk está preparada, nesse momento, para defender-se contra sítio prolongado e para uma ofensiva?

Igor Strelkov: Bem, não posso dizer, de modo algum, que aquela cidade esteja pronta para defesa, dentre outros motivos porque a cidade como um todo continua a operar como em tempos de paz. Até aqui não se tomou qualquer medida defensiva. O estágio em que estão as preparações de defesa na cidade até aqui é o mesmo em que estava Slaviansk há dois meses. Em outras palavras, as fortificações existentes são suficientes para deter Carros Blindados de Transporte de Soldados [orig. APCs, Armoured Personnel Carriers] e algo como a Guarda Nacional ou destacamentos do Ministério do Interior.

Quanto às colunas de blindados do inimigo, que agora está usando massivamente tanques e artilharia, a cidade só com muita dificuldade conseguirá defender-se contra eles, e ao custo de baixas significativas do nosso lado das milícias. Mas estamos tomando medidas urgentes, diariamente, para assegurar que a cidade esteja preparada para combate. No que tenha a ver com erigir fortificações.

No que tenha a ver com o espírito da população, é aparente, todos veem, que os moradores de Donetsk continuam a viver exatamente como em tempos de paz. Continuam sem entender, ou recusam-se a acreditar que um ataque pode acontecer onde o inimigo – as unidades de punição coletiva e os esquadrões da morte ucranianos – lançar barragem massiva de artilharia e ataques aéreos contra áreas residenciais. Ora... por bom tempo nós também não acreditávamos.

Mas depois de um mês, ou, mais precisamente, três meses de sítio, mas um mês de sítio ativo, acabamos por ter de nos convencer de que o inimigo escolhera a tática, não de agir contra nossas unidades armadas, as unidades de autodefesa da Milícia, mas uma tática terrorista de destruir – a destruição da infraestrutura, destruição de instalações industriais. É isso, e por estranho que possa parecer a alguns, embora absolutamente não me pareça estranho.

A verdade é que os alvos primários que foram atacados em Slaviansk e Kramatorsk não foram posições da nossa Milícia de defesa, embora elas fossem perfeitamente conhecidas, nem foram atacados bairros periféricos da cidade. O inimigo só atacou fábricas, empresas e instalações industriais.

Em Nikolayevka, em especial, o inimigo continuou a bombardear a Usina Termoelétrica durante três dias sem parar, mesmo todos sabendo que lá não havia forças da Resistência. E, além disso, o bombardeio continuou durante um dia inteiro, mesmo depois que nós já havíamos nos retirado. Em outras palavras, o bombardeio não tinha objetivo militar. Do mesmo modo, o bombardeio foi dirigido contra o distrito industrial, onde estão instaladas numerosas fábricas em Slaviansk e onde nenhum soldado das forças de defesa jamais puseram os pés. Sequer instalamos postos de controle ali. Pois as fábricas foram regularmente e metodicamente bombardeadas pela artilharia de Kiev.

Em outras palavras, o objetivo do qual estamos falando nunca foi expulsar da cidade as nossas forças de defesa. Isso não interessa ao inimigo. O inimigo ali tinha o objetivo claro de causar a maior destruição possível à infraestrutura, enquanto fazia crer que estaria expulsando a nossa milícia. O objetivo não era militar. O objetivo era privar as pessoas dos seus empregos, das moradias, dos meios necessários para manter a vida diária. De fato, o objetivo era forçar a população ao êxodo, porque não encontrarão meios para sobreviver nem depois de cessadas as hostilidades.

Estou firmemente convencido de que o atual governo ucraniano e o comando do exército ucraniano não se deterão antes de fazer o mesmo também em Donetsk. Que ninguém se iluda – mesmo que sejamos forçados a nos retirar daqui, nem assim o governo da Ucrânia permitirá que os moradores de Donetsk continuem a viver aqui.

A chamada Europa Unida não deseja ter de enfrentar a concorrência da indústria de Donetsk. Não querem a concorrência contra nossos cientistas. A única coisa que querem ver aqui é um território do qual possam recolher algumas centenas de milhares, talvez mesmo um milhão de unidades individuais de trabalho barato, para usá-las na Europa. É só o que querem.

Pavel Gubarev: Além do gás, é claro.

Igor Strelkov: Não vou falar sobre o gás, porque não é minha especialidade. Mas é certo que estão aqui para destruir o coração industrial do Donbass, o qual, em primeiro lugar, impõe importante concorrência à indústria europeia e, em segundo lugar, trabalha quase completamente, ou, pelo menos, em grau significativo, para o complexo militar-industrial russo.

Milícianos de autodefesa em Donetsk
Suficiência das Forças de Defesa (as Milícias)

Entrevistador: A julgar pelas declarações deles, eles absolutamente não querem ver pessoal russo em nosso território. Mas sentimos essa terra como nossa terra – a República Popular de Donetsk, a República Popular de Lugansk. Não deixaremos nossa terra. Mas quero falar especificamente das Forças de Defesa, as Milícias. Temos forças suficientes, considerando as que foram recrutadas por Pavel Gubarev?

Igor Strelkov: Não, claro que não, absolutamente não. Mesmo que só para uma cidade, de um milhão de habitantes, sem contar o restante da República, temos poucos milicianos. O território da cidade é imenso. E o território da RPD controlado por nosso governo também é muito grande.

É impossível estabelecer controle seguro e defender todo o nosso território com as forças com que contamos hoje. Se se considera a superioridade colossal do inimigo, eu diria que ele tem domínio absoluto sobre nós, em termos de blindados e artilharia, mesmo sem contar o domínio aéreo. É absolutamente difícil, é impossível, defender nosso território com as forças que temos hoje.

Gostaria também de acrescentar ao que já disse até aqui, que é impossível fazer “meia guerra”, guerra pela metade. É erro supor que alguns, em alguns pontos, conseguirão defender essa República com forças reduzidas e orçamento muito pequeno. Temos de mobilizar recursos, mobilização séria. Infelizmente, esses recursos, em primeiro lugar e sobretudo em termos de armamento e munição, não foram preparados. Hoje, simplesmente não existem.

Se esses recursos existissem, implementaríamos mobilização geral sem hesitar. Não importaria se ¾ do pessoal em idade para mobilização militar fugisse de prestar serviço militar; o ¼ restante bastaria. Infelizmente, não podemos fazer a mobilização. Seja como for, temos condições para armar, equipar e treinar, de forma rápida pelo menos, vários milhares de voluntários em bem pouco tempo.

Entendo que aproximadamente de oito a dez mil homens bastaria para deter completa e irrevogavelmente o exército ucraniano, que só obteve as primeiras vitórias porque havia muitos buracos em nossa defesa, e porque eles tinham meios de locomoção que nós não tínhamos. Nossos meios de locomoção continuam em estado miserável. Nossas linhas de suprimento não estão tão mal. Mas continuaremos a lutar e continuaremos a detê-los.

Contudo, sem participação mais ativa da população do Donbass na defesa, será muito difícil contê-los. Precisamos de pessoal. Repito: temos de alistar de oito a dez mil homens nas fileiras das Milícias, para assegurar nossa defesa. Que sejam voluntários ou recrutados, não faz diferença.

Voluntários da autodefesa de Donetsk
Precisamos também de profissionais militares

Entrevistador: Há falta específica de voluntários com qualificações específicas, ou conhecimento técnico ou profissional?

Igor Strelkov: Em primeiro lugar, precisamos de todos. Precisamos de todos os tipos de profissionais com todos os tipos de qualificação militar e também precisamos de gente com conhecimento técnico específico. Em guerra, não é difícil dar treinamento especial em poucos dias, particularmente durante as hostilidades. Mas profissionais superqualificados que jamais viram guerra ou treinamento militar, se são postos em situação de fogo real, de modo geral revelam-se imprestáveis como combatentes. Os militares sabem bem disso.

A ameaça contra Donetsk (e preparar um Exército)

Entrevistador: Temos aqui várias questões difíceis dos nossos telespectadores: o que os civis devem fazer? O que devem esperar? O perigo é realmente grave? O senhor já comentou algumas dessas questões, mas pode falar um pouco mais sobre o perigo que estamos enfrentando?

Igor Strelkov: Não quero assustar ninguém, mas acredito que, sem ajuda real e efetiva da Rússia, se a Rússia não nos der ajuda militar direta, a Junta de Kiev, que já está completamente fora de controle com certeza usará todo o arsenal de forças e meios que tem à sua disposição, sobretudo porque as decisões não são tomadas em Kiev, nem na Ucrânia, mas, principalmente, do outro lado do oceano. E lá já está decidido destruir completamente o Donbass. Ou eles empurrarão a Rússia para uma guerra global aqui, em território da Ucrânia, ou arrancarão daqui tudo que querem arrancar, sem aquela guerra. E por essa razão, continuarão a avançar, bombardear, pôr por terra o que encontrem pela frente.

Repito o que já disse: cada homem deve tomar sua própria decisão. Se é homem, tem de estar preparado para guerrear pela sua terra. Claro, nem todos podem fazê-lo do mesmo modo, seja por questões morais ou características pessoais ou de personalidade. Absolutamente não são todos que podem seguir esse caminho. Mas falando bem francamente, o número de voluntários que já surgiram nos últimos três meses, da população do Donbass, de vários milhões de habitantes, terra dos mineiros, gente experiente em condições difíceis de vida e trabalho, tem sido muito baixo.

Gostaria de partilhar aqui uma informação, porque sei que muitos já teriam se unido às nossas milícias, se houvesse garantias [financeiras] para as suas famílias.

Igor Strelkov por Christopher
(The Saker)
Entrevistador: Absoluta verdade.

Igor Strelkov: Agora já podemos oferecer algumas garantias [financeiras] às famílias dos que se alistem. A partir desse mês, planejamos pagar aos membros das Milícias somas que, me parecem, serão bem significativas, pelos padrões locais: de cinco a oito mil hryvnia. Nosso plano é começar a fazer esses pagamentos em julho. Assim, é possível que mais voluntários possam unir-se a nós. Em outras palavras, estamos criando um exército regular, de militares profissionais.

Negociações com Ossetia do Sul

Entrevistador: Entendido. Outra questão: o senhor falou de negociações em andamento. O senhor falou sobre a Rússia. Mas e quanto à Ossétia do Sul, que reconheceu nossa independência?

Igor Strelkov: Não posso responder essa pergunta.

Ataques aéreos contra a Mina de Carvão n. 21 (Pokrovka)

Entrevistador: OK. Outro assunto. O que aconteceu na Mina de Carvão n. 21 em Pokrovka?

Sukhoi Su-25 da FA da Ucrânia
Igor Strelkov: Um jato Su-25 atacou com cinco foguetes o que lhes pareceu que fosse um dos nossos destacamentos. Mas errou o alvo.

Entrevistador: Há feridos? Mortos?

Igor Strelkov: Não. Sem baixas. Como lhe disse, erram o alvo.

A Situação em Snezhnoye e em Saur-Mogila

Entrevistador: Muito bom. É boa notícia. E o senhor pode comentar a situação militar na cidade de Snezhnoye e em Saur-Mogila? Como estão nossos milicianos?

Igor Strelkov: Estão bem. Há um destacamento estacionado lá. Primeiro, quero dizer que o Batalhão Vostok está lá, comandado por comandante bastante competente. Deu conta de organizar seus combatentes de modo que eles continuam a manter as posições chaves com número mínimo de baixas.

Creio que continuaremos a conseguir manter Snezhnoye e áreas nos arredores. Já enviamos para lá reforços substanciais. Não permitiremos que o inimigo consiga abrir caminho na direção do rio Don nem bloquear o corredor que agora nos conecta à região de Lugansk.

Coordenação com Lugansk

Entrevistador: Significa que nesse momento temos coordenação com Lugansk?

Igor Strelkov: Ainda não é coisa que mereça muitas comemorações. Nossa coordenação ainda é fraca, mas está melhorando aos poucos.

Comando Unificado e Recrutamento de Forças Armadas

Entrevistador: É minha opinião pessoal, mas também de vários de nossos telespectadores que nos escrevem, que é preciso haver coordenação unificada ou um gabinete do comandante do exército ao qual os voluntários possam comparecer para se alistar nas Milícias e ser dirigidos, dali, para os diferentes batalhões. Até aqui, o que temos feito é divulgar vários números de telefone durante nossa programação. Ajudaria muito, se houvesse um gabinete de comando unificado.

Igor Strelkov: É, essa é a lei da psicologia humana. A história já mostrou que é verdade, em muitas ocasiões. Mas o processo de transformar unidades guerrilheiras em exército regular, em formações regulares armadas, é processo muito difícil. É muito complexo. Há muitos fatores objetivos e subjetivos envolvidos. Infelizmente, não há varinha mágica que faça tudo acontecer depressa e ao mesmo tempo. Seja como for, essa é tarefa prioritária para nós, porque, naturalmente, a situação de haver vários grupos, com diferentes comandos separados, não pode continuar. Não é aceitável, nem do ponto de vista de operações militares futuras, nem do ponto de vista da necessidade de manter o exército em ordem na retaguarda.

Hoje afinal tivemos uma reunião conjunta, da qual participaram comandantes de unidades das milícias e os que vêm de outras regiões, como o Batalhão Vostok e o Batalhão Oplot. Chegamos a um importante acordo com respeito à delimitação de nossas esferas de responsabilidade, com respeito à criação de gabinetes de comandos regionais e o comando conjunto do comandante da cidade; e com respeito à introdução da lei marcial nas áreas adjacentes às posições do inimigo. Até agora, não temos planos de instituir nem lei marcial nem toque de recolher na cidade inteira. Esperaremos que o inimigo use força direta; não vemos necessidade de complicar prematuramente a vida dos cidadãos.

Denis Pushlin e Aleksandr Borodai
Negociações com a Federação Russa

Entrevistador: Nosso governo, Pushlin, Borodai, pelo que entendi, estão nesse momento em Moscou. Andrei Purgin está aqui. Há negociações em andamento com Moscou?

Igor Strelkov: Não posso comentar sobre isso, porque no momento trabalho exclusivamente em questões militares.

Entrevistador: Sim, senhor. Obrigado. No próximo programa, Katya Mikhailova convidará representantes da República que possam comentar e responder essas perguntas.

Incidentes com milicianos em Donetsk

Igor Strelkov: Gostaria de acrescentar mais uma coisa. Infelizmente, e não esconderei isso, a chegada a Donetsk de número considerável de nossos milicianos, muitos dos quais passaram semanas em trincheiras, levou a vários incidentes. Felizmente, ninguém resultou ferido no processo.

Peço que os moradores de Donetsk por favor compreendam que as pessoas que acabam de chegar aqui passaram não só por estresse severo, mas por perigo mortal durante semanas e, até, durantes meses.

Por exemplo, o Batalhão Semionovka algumas vezes perdeu até 20 homens, entre mortos e feridos, num só dia. Foram feridos, mas não se dispersaram. A Milícia sofreu bombardeio massivo inclusive de armas químicas, bombas incendiárias, munição de fragmentação, e ataques de artilharia dos mais pesados calibres.

Nem todos os combatentes estavam suficientemente bem preparados para chegar em formação a uma cidade que vive vida absolutamente normal, depois do que passaram nas trincheiras e Slaviansk e Kramatorsk, cidades que estão completamente destruídas e foram ferozmente atacadas.

Nem todos reagiram adequadamente a essa repentina mudança nas circunstâncias. E houve casos de combatentes que manifestaram comportamento impróprio ante moradores da cidade. Pode ter acontecido de alguns terem suposto que tudo lhes seria permitido, dado que voltam como heróis. É verdade que são heróis, porque mantiveram as próprias posições sob fogo. Alguns foram ofendidos.

Ukies usam bombas de fósforo em Slaviansk
Mas, repito, não houve vítimas a lamentar e ninguém resultou ferido por efeito dessas ações. Mais uma vez peço desculpas por esses incidentes e quero assegurar a todos que o comando da Milícia trata com extremo rigor essas questões. [Incidentes como esses] são indício de falta de disciplina.

Todas as bebidas alcoólicas são proibidas nas milícias. É regra que existia já em Slaviansk e mantivemos aqui, com máximo rigor. Combateremos com firmeza todos os sinais de desmazelo e desleixo.

Devo acrescentar ainda que, em circunstâncias de guerra, puniremos severamente a prática de qualquer crime. Crimes assim definidos pelo Código Militar, é claro. Outros crimes não se incluem entre nossas responsabilidades.

Criminosos que sejam condenados por prática de crimes em nossa área de operações serão julgados em cortes militares de campanha. Além disso tudo, como fui informado, há vários moralmente instáveis, que estão tentando obter vantagens das circunstâncias de interregnum.

O exército, é claro, tomará todas as medidas necessárias para garantir a ordem. Não agradará a todos, mas não há outro modo possível.

*** FIM DA ENTREVISTA ***