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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Declaração dos Socialistas Revolucionários Egípcios

O massacre do Cairo

Centenas de civis assassinados pelo exército no Cairo e em todas as cidades do Egito

15/8/2013, Socialist Worker, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Recado da Vila Vudu: Essa declaração foi distribuída originalmente em árabe, pelos Socialistas Revolucionários Egípcios, dia 14/8/2013. Em seguida foi publicada em inglês, no blog Socialist Worker.

Fora os militares!
Fora al-Sisi, cabeça da contrarrevolução!

O sangrento ataque às manifestações pacíficas [orig. sit-ins] na Praça Al-Nahda e em Raba'a al-Adawiyya é um massacre – que já estava preparado. Visa a liquidar a Fraternidade Muçulmana. Mas é parte também de um plano para liquidar a Revolução Egípcia e restaurar o estado policial-militar do regime de Mubarak.

Os Socialistas Revolucionários jamais, nem por um dia, defendemos o regime de Mohamed Mursi e da Fraternidade Muçulmana. Sempre estivemos nas linhas de frente da oposição àquele regime criminoso, fracassado, que traiu os objetivos da Revolução Egípcia. E que chegou até a proteger os pilares do regime de Mubarak, de seu aparato de segurança, as suas forças armadas e seus empresários corruptos. Participamos empenhadamente da onda revolucionária de 30 de Junho.

Tampouco defendemos, nem por um dia, as manifestações pacíficas de apoio à Fraternidade e seus esforços para devolver o poder a Mursi.

Mas é preciso pôr em contexto os eventos de hoje, e o uso dos militares para esmagar greves de trabalhadores. Vemos também que foram nomeados novos governadores provinciais – os novos governadores saídos das fileiras remanescentes do velho regime, da polícia e dos generais. E há ainda as políticas do governo do general Abdel Fatah Al-Sisi. O governo de Al-Sisi adotou um mapa do caminho que é claramente hostil aos objetivos e demandas da Revolução Egípcia – que clama por liberdade, dignidade e justiça social.

Esse é o contexto do massacre brutal que exército e polícia estão cometendo. Estamos vendo o sangrento ensaio geral para a liquidação da Revolução Egípcia. O massacre visa a criar um estado de terror e assim quebrar o ânimo revolucionário de todos os egípcios que exigem respeito aos seus direitos: os trabalhadores, os pobres, a juventude revolucionária.

Mas a reação da Fraternidade Muçulmana e dos salafistas, que atacam cristãos e suas igrejas, é crime sectário que só serve às forças da contrarrevolução.

O estado de Mubarak e o estado de Al-Sisi que nunca, nem por um dia, defendeu os coptas e suas igrejas, são cúmplices na sórdida tentativa de criar uma guerra civil, na qual cristãos egípcios tombarão vítimas da reacionária Fraternidade Muçulmana.

Nos declaramos em firme oposição contra os massacres de Al-Sisi e contra sua sórdida tentativa de tentar abortar a Revolução Egípcia. O massacre de hoje é o primeiro passo na direção da contrarrevolução.

Lutaremos com igual firmeza contra os ataques aos cristãos egípcios e contra a campanha sectária que só serve aos interesses de Al-Sisi e de seu projeto sangrento.

Muitos dos que se descreviam como liberais e de esquerda traíram a Revolução Egípcia, liderados pelos que participaram do governo de Al-Sisi. Eles venderam o sangue dos mártires ao governo militar e à contrarrevolução. Esses hoje têm as mãos sujas de sangue.

Nós, os Socialistas Revolucionários, jamais nos desviaremos do caminho da Revolução Egípcia. Não cederemos nem faremos qualquer concessão na luta pelos direitos e pelo sangue puro dos mártires da revolução: os que caíram na luta contra Mubarak, os que caíram na luta contra o Conselho Militar, os que caíram na luta contra o regime de Mursi e os que agora caem na luta contra Al-Sisi e seus cães.

Abaixo o regime militar!
NÃO à volta do velho regime!
NÃO à volta da Fraternidade!
Toda a riqueza e todo o poder ao povo!

Socialistas Revolucionários
Cairo, 14/8/2013 


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Revolução Permanente e Despertar Árabe


3/1/2013, Peter Hogarth, Socialist Worker, Canadá
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Leon Trotsky
Baseado na experiência da Revolução Russa de 1905, Leon Trotsky desenvolveu a teoria da “revolução permanente”, posta em prática na onda revolucionária de 1917. Um século depois, a mesma teoria continua a dar-nos meios para compreender o potencial atual e futuro do Despertar Árabe – a partir do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, do papel central da classe trabalhadora, até o potencial para mudança internacional.

Karl Marx esquematizou o meio pelo qual o capitalismo pode ser derrotado e o socialismo pode ser criado. Escreveu sobre a necessidade de certo nível de desenvolvimento econômico e a emergência de uma classe trabalhadora majoritária capaz de derrubar o velho sistema e de, ao mesmo tempo, promover desenvolvimento industrial e social capaz de dar sustentação à nova sociedade socialista. Muitos socialistas, naquele momento, pensavam que cada país teria de passar por estágios específicos de desenvolvimento econômico e político, antes de a classe trabalhadora poder liderar uma revolução socialista. Assim chegaram a conclusões mecânicas, não raras vezes eurocêntricas, segundo as quais só países altamente desenvolvidos, como França, Alemanha e Grã-Bretanha seriam capazes de ter revoluções socialistas baseadas nos seus respectivos níveis de desenvolvimento industrial e social.

Karl Marx
Para muitos daqueles socialistas, a Rússia, velha e atrasada – com monarquia autocrática, população predominantemente camponesa e trabalhadores que mal chegavam a poucos milhões – não parecia candidata provável a fazer revolução liderada pelos trabalhadores. Mesmo Lênin e os bolcheviques pensavam que, embora a classe trabalhadora não devesse confiar na burguesia, e desempenhasse necessariamente papel de liderança num movimento revolucionário, a revolução não avançaria até um governo de trabalhadores; em vez disso, faria várias reformas democráticas, as quais tornariam possível, para futuro posterior, a luta pelo socialismo. Mas Trostsky, considerando a Revolução Russa de 1905, elaborou a teoria da “revolução permanente”, em seu livro Resultados e Perspectivas  [1] – e, apenas 12 anos depois a Rússia já era o primeiro (e até hoje o único) país a fazer sua revolução liderada pela classe operária.

Desenvolvimento desigual e combinado

A teoria da revolução permanente reconhecia o desenvolvimento internacional do capitalismo. Rompendo com o socialismo evolucionário, que ganhava destaque no Partido Social-Democrata Alemão, reformista, Trotsky entendia que o sistema-mundo do capitalismo tinha de ser descrito em termos de desenvolvimento desigual e combinado.

O capitalismo promove desenvolvimento desigual – diferentes economias capitalistas desenvolvem-se em ritmo e taxas de desenvolvimento diferentes. A natureza competitiva do capitalismo e o processo de acumulação que é o motor do sistema implicam que as diferenças entre e dentro das economias nacionais podem tornar-se muito agudas. Ao mesmo tempo, o capitalismo arrasta todas as economias do mundo para um único sistema-mundo combinado.

O resultado do desenvolvimento desigual e combinado pode ser visto na Rússia em 1905, tanto quanto no Egito em 2012:  agricultura camponesa de baixa produção e de subsistência, coexistindo com indústrias modernas; por exemplo: na Rússia Revolucionária, a fábrica Putilov; no Egito Revolucionário, o complexo de indústria têxtil Ghazl al-Malhalla.

Complexo Industrial Ghazl al-Malhalla, El Kubra no Delta do rio Nilo
Como Trotsky escreveu, o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo “permite, ou, melhor dizendo, obriga, que se adote qualquer coisa que esteja madura ou pronta antes de qualquer data marcada, ultrapassando-se assim uma longa série de estágios intermédios”.

Democracia e classe trabalhadora

Trotsky extraiu daí, como conclusão política, a noção de que as estruturas sociais e políticas dos países capitalistas também são afetadas por um ou outro país entrar com forte retardo na cena do capitalismo mundial.

Porque coexistiu com uma classe trabalhadora pequena, mas desenvolvida e com o sistema imperialista global, a burguesia russa não poderia desempenhar o papel revolucionário que a burguesia francesa desempenhara em 1789 na derrubada do feudalismo, alcançando a independência nacional e fixando um governo da democracia burguesa. O papel conservador da burguesia advém não só dos interesses que a burguesia investe no sistema, mas, também, do medo de que a classe trabalhadora que se rebele avance além das reformas democráticas e prefira, a elas, um poder alternativo.

Para Trotsky, a única classe social que poderia desempenhar esse papel protagonista seria a classe operária. A posição estratégica da classe operária na economia, e a realidade de que a luta dos operários por melhor padrão depende diretamente de trabalho cooperativo e de democracia, significava que mesmo que a classe operária não passasse de pequena porcentagem da população, ainda assim teria papel progressista, decisivo; que arrastaria para a mesma causa a grande massa dos camponeses e outras porções oprimidas da sociedade.

Zine El Abidine Ben Ali
A força decisiva que anima a classe operária manifestou-se sob vários aspectos no Despertar Árabe. Na Tunísia, o Sindicato Geral dos Trabalhadores Tunisianos [orig. General Tunisian Workers’ Union] teve papel crítico na deposição do primeiro-ministro Zine El Abidine Ben Ali. As semanas de ocupação na Praça Tahrir sacudiram o regime Mubarak, mas foram as greves massivas dos trabalhadores da indústria têxtil, dos trabalhadores portuários e dos petroleiros que, afinal, derrubaram Mubarak. Paralelamente, em outros pontos, como na Síria, onde não se observou a ação da classe operária como força organizada, não se observa tampouco qualquer tipo de desenvolvimento propriamente revolucionário.

O Despertar Árabe também mostra a incapacidade da burguesia local para garantir “pão, liberdade e justiça social” e para desafiar o imperialismo. O presidente Mohammed Mursi, da Fraternidade Muçulmana chegou ao poder como alternativa a Mubarak, mas ele e a Fraternidade – organização que atravessa o sistema de classes e que inclui muitos egípcios pobres, mas sob o comando de elementos de classe média – só contribuíram para reafirmar o controle dos militares sobre a economia egípcia, asseguraram a Israel e aos EUA a fidelidade dos Irmãos e arrancaram do Parlamento uma lei que isenta a própria Fraternidade Muçulmana de qualquer supervisão pelo Parlamento. Quando na oposição, os Irmãos diziam que, se fossem eleitos, romperiam o cerco contra Gaza; mas quando Israel novamente atacou Gaza, a Fraternidade Muçulmana sumiu de cena. E foram os socialistas e outros ativistas egípcios que afinal romperam o cerco de Gaza, com ajuda e solidariedade aos palestinos.

Como escreveu Hossam El-Hamalawy, socialista egípcio, pouco depois de Mubarak ter sido derrubado do governo,

Hossam El-Hamalawy
Agora, temos de levar Tahrir para as fábricas. Com o avanço da revolução, acontecerá, inevitavelmente, uma polarização de classes. Temos de nos manter atentos e vigilantes. Temos as chaves da libertação de toda a região, não só do Egito. Temos de avançar, em revolução permanente que dê poder ao povo desse país, com democracia direta de baixo para cima. [2]

As recentes rebeliões contra a Fraternidade e o estabelecimento de sindicatos independentes mostram o potencial da segunda fase da revolução egípcia –, com consequências regionais e globais.

Da revolução democrática à revolução social

Dado que a burguesia não é capaz de resolver as questões democráticas, agrárias e nacionais básicas, Trotsky ensina que também é impossível encontrar solução para esses problemas, sem desafiar os limites da propriedade privada burguesa e do próprio capitalismo.

O exemplo da Rússia de 1917 é bastante claro. Em fevereiro começou uma demanda por direitos democráticos e “paz, terra e pão”; o que começou em fevereiro converteu-se em revolução de trabalhadores socialistas, depois que se constatou que o governo capitalista que substituíra o governo do czar não conseguiria pôr fim à guerra, nem pôr fim às relações de propriedade da terra, nem alimentar o povo. Trabalhadores e camponeses russos entenderam que não poderiam confiar nos novos governantes para que lhes dessem “paz, terra e pão”; que teriam de tomar eles mesmos o poder – e “todo o poder aos sovietes”.

Dessa noção surge o argumento final pela revolução permanente de Trotsky: a revolução socialista completa “é impensável dentro de limites nacionais (...) Assim, a revolução socialista converte-se em revolução permanente, num novo e mais amplo sentido da palavra; e só alcança a completude na vitória final da nova sociedade em todo nosso planeta”.

Embora as revoluções na Tunísia e no Egito estejam longe de ser revoluções socialistas, é bem evidente que provocaram convulsões em outros países – disparando revoltas regionais no Norte da África e no Oriente Médio, inspirou trabalhadores do setor público em Wisconsin (EUA), ativistas dos movimentos Occupy e estudantes no Quebec, no movimento que ficou conhecido como “printemps érable” [lit. “primavera do bordo” [3]]. Estamos muito distantes do potencial de socialismo revolucionário que a Revolução Russa despertou em 1917, mas não há dúvidas de que o Despertar Árabe trouxe nova vida às lutas em todo o mundo.

Movimento "Printemps érable" (Canadá) em 22/5/2012
A teoria da revolução permanente de Trotsky ajuda a compreender os limites que, até agora, surgiram no caminho das revoluções e o quanto a organização e a atividade da classe trabalhadora global são absolutamente indispensáveis na luta para construir mundo melhor. Nessa linha, vê-se que países menos desenvolvidos podem ocupar lugar potencialmente central naquela luta, não necessariamente periférico, como antes se supunha.



Notas dos tradutores

[1] Pode-se ler (espanhol), em: “Leon Trotsky: Resultados y Perspectivas”

[2] 14/2/2011, The Guardian, Hossam El-Hamalawy em: “Egypt protests continue in the factories”

[3] A expressão, intraduzível, beneficia-se da semelhança entre os sons /arabe/[árabe] e /érable/[bordo ), a árvore cuja folha aparece na bandeira do Canadá]. Leia mais sobre os movimentos da Primavera do Bordo no Canadá.