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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Por trás da crise grega


2/7/2015, [*] William R. Polk, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Crise grega
por Latuff - 2010
Ao focar exclusivamente os aspectos monetários da crise grega, a narrativa construída e distribuída pela mídia perde de vista grande parte do que realmente atormenta os gregos e também do que poderia possibilitar alguma solução.
Por mais de meio século, os gregos viveram tempos de grande perigo. Nos anos 1930s, viveram sob uma ditadura brutal, cujo modelo foi a Alemanha Nazista, com polícia secreta copiada da Gestapo e com os dissidentes mandados para morrer num campo de concentração numa ilha. E então, aconteceu coisa estranhíssima: Benito Mussolini invadiu a Grécia.
Para proteger o autorrespeito e o próprio país, os gregos puseram de lado o ódio contra a ditadura de Metaxas e uniram-se para combater o invasor estrangeiro. Os gregos fizeram tão belo trabalho na defesa do país deles, que Adolf Hitler teve de adiar a invasão da Rússia, para ir até lá resgatar os fascistas italianos.
Há quem diga que esse movimento pode ter salvo Josef Stalin, porque o adiamento forçou a Wehrmacht a combater na lama, neve e gelo da Rússia, condições para as quais não estava preparada. Mas, ironicamente, isso também salvou a ditadura de Metaxas e a monarquia. O rei e os mais altos oficiais gregos fugiram para o Egito então ocupado pela Grã-Bretanha e, como novos aliados, foram declarados parte do “Mundo Livre”.
Enquanto isso, na Grécia, os alemães saqueavam grande parte da indústria grega, dos estaleiros e estoques de comida. Os gregos passaram fome. Como Mussolini disse então, “os alemães tiraram dos gregos até os cordões dos sapatos”.
Então os gregos começaram a reagir. Em outubro de 1942, iniciaram um movimento de resistência que, em dois anos, tornou-se o maior da Europa. Quando a França se orgulhava dos seus menos de 20 mil partisans, o movimento da resistência grega alistara 2 milhões de resistentes, e já derrotara pelo menos duas divisões de soldados alemães. E sem nenhuma ajuda externa.

Winston Churchill
por Strogulski

Quando o desfecho da guerra começou a se configurar, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, decidiu devolver a Grécia ao regime de antes da guerra, com a monarquia e o antigo governo. Temia a influência dos comunistas ativos dentro do movimento de resistência.
Churchill tentou conseguir que o exército anglo-americano, que se aprontava para invadir a Itália, invadisse não a Itália, mas a Grécia. Fato é que tanto insistiu nessa mudança no plano de guerra que quase rompeu a aliança militar dos Aliados. Quando não conseguiu o que queria, mandou para a Grécia todos os soldados que ainda estavam sob o comando dele. Com isso precipitou uma guerra civil que rachou ao meio o país. Os líderes da resistência clandestina foram derrotados e o movimento foi esmagado. A burocracia, a polícia e os programas da ditadura do pré-guerra retomaram o controle do país.
Depois da guerra, com a Grã-Bretanha já arruinada e sem meios para sustentar sua política imperial, Londres entregou a Grécia aos norte-americanos que anunciaram a “Doutrina Truman” e afogaram o país em dinheiro, com o que impediram o sucesso eleitoral da esquerda. O dinheiro norte-americano funcionou bem por algum tempo, mas a mão pesada da ditadura criou uma nova geração de supostos democratas que desafiaram a ditadura.
Esse é o tema belamente exposto no filme Z, de Costa Gavras, estrelado por Yves Montand (trailer no fim do parágrafo, em francês). Como o filme mostra, o movimento liberal do início dos anos 1960s foi derrotado por uma nova ditadura militar, “o governo dos coronéis”.
Quando a junta militar foi derrubada em 1974, a Grécia conheceu um breve período de “normalidade”, mas nenhuma das fissuras profundas que havia na sociedade haviam sido realmente remediadas. Independente de que partido político designasse os ministros, a burocracia sempre autoperpetuada continuava no controle. A corrupção era generalizada. E, mais importante que tudo isso, a Grécia tornara-se um sistema político que Aristóteles chamaria de oligarquia.
Os muito ricos usavam o dinheiro para criar para eles mesmos um estado dentro do estado. Estenderam seu poder para todos os nichos da economia e construíram o sistema bancário grego de modo que se tornou essencialmente extra-territorializado. O porto de Piraeus encheu-se de megaiates de gente que não pagava impostos e Londres foi comprada, pelo menos em boa parte, por gente que sangrava a economia grega. Todo o dinheiro “inteligente” [orig. “smart money”] da Grécia estava aplicado fora do país.
A crise atual
Esse estado de coisas poderia ter durado muito mais tempo, mas quando a Grécia uniu-se à União Europeia em 1981, banqueiros europeus (principalmente alemães) farejaram uma oportunidade: voaram em bandos para a Grécia, para oferecer empréstimos. Até quem não tinha renda que tornasse razoável qualquer empréstimo ganhou empréstimos. Na sequência, os banqueiros começaram a cobrar pagamentos. Chocados, os empresários começaram a demitir. O desemprego cresceu. As oportunidades evanesceram.
Não há qualquer remota chance de aqueles empréstimos serem pagos. Nunca deveriam ter sido oferecidos e nunca deveriam ter sido aceitos. Para manter-se à tona o governo cortou em serviços públicos (não cortou gastos militares) e o povo sofreu muito. Nas eleições de 2004, o povo ainda não havia sofrido o suficiente a ponto de eleger a coalizão radical liderada pelo partido “Unidade” (SYRIZA). Naquele ano, o partido recebeu apenas 3,3% dos votos.
Então, depois do crash financeiro de 2008 vieram anos de dificuldades que aumentavam dia a dia, todos os políticos eram considerados culpados de tudo e havia muita ira. Era ira popular, dos que se sentiam desorientados pelos banqueiros e pela própria loucura. Não havia esperança nem havia saída à vista, e os gregos começaram a virar-se na direção do partido SYRIZA. Depois de várias tentativas, afinal nas eleições de 2015 o SYRIZA alcançou 36,3% dos votos, e elegeu 249 dos 300 membros do Parlamento.
Hoje, as condições que empurraram na direção dessa eleição são ainda mais graves: a renda nacional da Grécia caiu 25% e o desemprego entre os mais jovens é superior a 50%. Assim sendo, o que resta aos negociadores fazer?

Taxas de desemprego Eurozona, Alemanha e Grécia

Com Alemanha e UE a exigir mais e mais ARROCHO, os gregos estão furiosos. Há no país memórias profundas de ódio aos alemães (antes eram soldados, agora são banqueiros). Os gregos foram mal interpretados, mal representados e traídos pelos seus próprios políticos vezes sem conta. O Primeiro-Ministro Alexis Tsipras sabe que, se for marcado com o rótulo “vendido”, sua carreira está acabada.
E o pacote do dito “resgate” que o FMI e o BCE ofereceram pesa muito contra a Grécia. Os gregos veem a opção de sair do euro como semelhante à posição que Grã-Bretanha e Suécia assumiram desde o início, de não adotar a moeda europeia – mas terá de haver ajuste doloroso para a economia grega, caso a Grécia tome a decisão, sem precedentes, de desligar-se do euro.
Mesmo assim – a menos que FMI e BCE façam nova oferta, que traga alguma coisa que dê aos gregos chance de uma vida melhor e cancelem parte significativa da dívida – entendo que os gregos acertarão se votarem “Não”, no domingo; se rejeitarem as demandas dos banqueiros, que querem mais e mais ARROCHO; e se abandonarem o euro.
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[*] William Roe Polk (nascido em 1929 em Fort Worth , Texas) é um veterano consultor de política externa, diplomata, autor e parente do presidente James K. Polk e do proeminente advogado e diplomata Frank Polk. É ex-professor de História e ex-Reitor da Universidade de Harvard e da Universidade de Chicago tendo sido também Presidente da Adlai Stevenson Institute of International Affairs.
Polk ensinou História do Oriente Médio e Política em Harvard 1955-61, e foi então nomeado pelo Presidente Kennedy para o Departamento de Estado no Conselho de Planeamento de Política com foco no Oriente Médio e Norte da África. Serviu como membro da equipe de gestão na Crise dos Mísseis Cubanos.
Polk demitiu-se do governo federal para se juntar à Universidade de Chicago como professor de História em 1965, onde lecionou por 10 anos e estabeleceu seu Centro de Estudos do Oriente Médio. Foi vice-presidente da Fundação WP Carey e membro do Conselho de Relações Exteriores dos EUA Vive atualmente no sul da França e é casado com a Baronesa Elisabeth von Oppenheimer. Lecionou no Instituto Canadense de Relações Internacionais, no Conselho de Relações Exteriores, no Instituto Real de Relações Internacionais e no Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia de Ciências da União Soviética (hoje Rússia), bem como mais de uma centena de universidades e faculdades.
É autor de inúmeros livros:


  • Backdrop to Tragedy: The Struggle for Palestine (1957). coauthors William R. Polk, David M. Stamler, and Edmund Asfour. Beacon Press online edition.
  • The Opening of South Lebanon, 1788-1840: A Study of the Impact of The West on the Middle East (1963). Harvard University Press
  • The United States and the Arab World (1965). Harvard University Press, 3rd edition 1975: ISBN 0-674-92718-4
  • The Arab World. 4th edition 1980, hardcover: ISBN 0-674-04316-2, paperback: ISBN 0-674-04317-0
  • The Arab World Today. 5th edition 1991, ISBN 0-674-04319-7
  • Beginnings of Modernization in the Middle East: The Nineteenth Century (1968). University of Chicago Press, ISBN 0-226-67425-8
  • Passing Brave (1973). Alfred Knopf, ISBN 0-394-47893-2 reprint Panda Press 2013
  • The Elusive Peace: The Middle East in the Twentieth Century (1979). Palgrave Macmillan, ISBN 0-312-24383-9
  • Neighbors and Strangers: The Fundamentals of Foreign Affairs (1997). University Of Chicago Press, ISBN 0-226-67329-4
  • Polk's Folly: An American Family History (2000). Doubleday, ISBN 0-385-49150-6, Anchor paperback ISBN 0-385-49151-4
  • Understanding Iraq: The Whole Sweep of Iraqi History from Genghis Khan's Mongols to the Ottoman Turks to the British Mandate to the American Occupation (2005). HarperCollins hardcover: ISBN 0-06-076468-6, paperback: ISBN 0-06-076469-4
  • The Birth of America: From Before Columbus to the Revolution (2006). HarperCollins hardcover: ISBN 0-06-075090-1
  • Violent Politics: A History of Insurgency, Terrorism, and Guerrilla War, from the American Revolution to Iraq (2007). HarperCollins hardcover: ISBN 0-06-123619-5
  • Understanding Iran: Everything You Need to Know, From Persia to the Islamic Republic, From Cyrus to Ahmadinejad (2009). Palgrave * *Macmillan hardcover: ISBN 978-0-230-61678-3
  • Personal History: Living in Interesting Times Panda Press 2013
  • Distant Thunder: Reflections on the Dangers of Our Times Panda Press 2013
  • Humpty Dumpty: The Fate of Regime Change Panda Press 2013
  • Blind Man's Buff, a Novel set in Afghanistan Panda Press 2013

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mísseis em Cuba e Mísseis na Ucrânia


Semelhanças e diferenças


25/2/2015, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Escolinha de Política da Vila Vudu

Elaborem o quanto quiserem intelectuais ocidentais “liberais-do-bem”, e a impressão que se tem é de que fazem o-di-a-bo, p’ra não ver o que tá aí, tão na cara: os EUA temeriam mortalmente até uma Rússia enfraquecida, em todos os casos, faça chuva ou faça sol, porque ainda temem a herança dos sete anos [foram só sete anos: 1917-1924!] de governo leninista, que mudaram o mundo para sempre. 

É a mesma razão pela qual os EUA também temem a China de Mao by Deng Xiaoping até Xi Jinping: porque Rússia e China são como a memória emocional dos pobres explorados e oprimidos de todo o mundo, que aprenderam, delas e por elas, que o comunismo é um humanismo; e que é possível derrotar o império anglo-sionista encastelado em Wall Street.

Fooorça, Maduro! Fooorça, Syriza! Fooorça, Podemos! Fooorça, BRICS!



William R. Polk, renomado analista norte-americano, que foi reitor de Harvard e consultor de política exterior, enviou-me há alguns dias seu mais recente ensaio sobre as relações EUA-Rússia (depois publicado em Consortiumnews). Acho que estamos mais ou menos no mesmo ponto das nossas reflexões, Polk e eu, sobre a crise na Ucrânia. Polk, é claro, tem vasta experiência sobre questões russo-norte-americanas. Foi conselheiro presidencial, com papel considerável durante a presidência de John Kennedy, na redução das tensões da crise dos mísseis cubanos.

Tudo isso faz de seu mais recente ensaio, altamente pertinente, objeto de leitura detalhada – quando extrai lições da crise de 1962 e a partir delas oferece um roteiro para superar-se também o impasse EUA-Rússia na questão da Ucrânia. De fato, sim, Polk traça paralelos muito claros entre o arriscadíssimo impasse de então (entre EUA e a URSS) e o de agora, os quais, para ele, teriam mais ou menos as mesmas “linhas vermelhas”. No resumo que Polk oferece,

●– É praticamente certo que nem o governo dos EUA nem o governo russo aceitariam sem responder qualquer tipo de ataque, ainda que ataque limitado.

●– Não há motivo para crer que o governo russo, se estiver na iminência de ser derrotado por armas convencionais, conseguirá evitar o recurso a armas. nucleares.

●– Todas as tentativas para limitar a escalada provavelmente fracassarão e, ao fracassarem, levarão a guerra total.
●– E as consequências previsíveis de uma guerra nuclear são catástrofe inimaginável.

Polk indica que um possível acordo na Ucrânia deva ser baseado nos seguintes elementos:

●– Rússia não aceitará que a Ucrânia seja empurrada para dentro da OTAN;

●– Rússia tem interesses legítimos na Ucrânia;

●– A intromissão dos EUA no que são assuntos essencialmente russo-ucranianos é injustificável e tem de ter fim imediatamente.

A parte triste é que está longe de garantido que o presidente Barack Obama esteja aberto para ouvir conselho tão altamente sensível. Posto em fórmula simples, Obama é incapaz de livrar-se do triunfalismo que marcou as políticas de Washington para a Rússia pós-soviética desde o início dos anos 1990s.

Robert Kagan na Brookings Institution
(não esquecer que ele é marido da Victoria "Fuck EU" Nuland!)
Fato é que um dos principais ideólogos que aparentemente orienta o pensamento de Obama sobre a Rússia, Robert Kagan, da Brookings, escreveu há apenas uma semanaque

Apesar de toda a conversa fiada sobre o declínio dos EUA, o que conta é que é no campo militar que a superioridade norte-americana continua a aparece mais claramente. Mesmo nos quintais de outras grandes potências, os EUA ainda conservam a capacidade, além de aliados poderosos, para conter quaisquer desafios contra a ordem da segurança. Mas sem a disposição dos EUA para usar o poder militar para estabelecer o equilíbrio em regiões distantes do mundo, todo o sistema desabará sobre a incontida concorrência militar de outras potências militares regionais.

Na ordem Kaganista “liberal” do mundo, admite-se que Rússia, China ou qualquer potência regional entrem em competição econômica contra os EUA, mas “competição no plano da segurança é outra coisa”, porque “não há equilíbrio estável de poder na Europa ou na Ásia, sem os EUA”.

Polk dificilmente encontrará ouvidos racionais que lhe deem atenção em meio ao triunfalismo e sob a mentalidade de Guerra Fria que ainda prevalecem em Washington. Mas, como escrevi há algum tempo com admiração (vide Obama’s “moving finger” writes Irã ties), e por surpreendente que seja, no que tenha a ver com o engajamento com o Irã, Obama tem sido o realismo em pessoa, perfeito na avaliação dos limites do poder dos EUA. Assim sendo... como é possível que a mesma mente capaz de reflexão tão ponderada, converta-se em exatamente o contrário de qualquer ponderação refletida e equilibrada, se o assunto é a Rússia?

Obama insiste...
Para mim, a diferença crucial está noutro ponto: a Ucrânia nada tem a ver com reagir contra alguma “agressão” russa, como Obama repete incansavelmente.

Na realidade, a Ucrânia tem muito mais a ver com os EUA reafirmarem a própria liderança transatlântica, nesses tempos de pós-Guerra Fria.

Não é o caso no que tenha a ver com o Irã, porque aí Obama conta com o apoio da Europa. E com certeza absoluta não foi o caso na crise dos mísseis em Cuba em 1962, em plena era da Guerra Fria.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House,  e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Colhidos sempre na armadilha dos seus repetidos erros (Os EUA não aprendem com a história)

[*] Conflicts Forum, Comentário Semanal 14/11/2014 (publicado dia 18/11/2014)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Kennedy e assessores na crise dos mísseis de Cuba
William Polk, veterano comentarista da política exterior dos EUA, que foi um dos três membros da Equipe de Gerenciamento de Crise, durante o impasse entre o presidente Kennedy dos EUA e Khrushchev, da Rússia, na chamada Crise dos Mísseis em Cuba, alerta agora que os EUA estamos andando diretamente no rumo de outro daqueles momentos de extremo perigo (pode-se dizer apocalípticos), em que as tensões crescem descontroladamente – na direção de guerra real.

E ele diz que as próprias dinâmicas que impelem os EUA em direção ao conflito de hoje são, precisamente as mesmas de antes (durante a crise dos mísseis em Cuba: a inabilidade para perceber como o “outro” percebe os EUA; a recusa a reconhecer a verdade do “outro” e o relato “do outro”, da história – ou a inabilidade até para perceber que pode haver outra “verdade” por aí pelo mundo, seja onde for, diferente da “verdade” dos EUA.

Em resumo, os norte-americanos assumem como autoevidente que o povo russo pense e compreenda exatamente do mesmo modo como os norte-americanos pensam e compreendem. E os russos hoje só podem estar necessariamente errados, porque, se não estivessem errados, como seria possível que não pensassem nem compreendessem as coisas como os norte-americanos pensam e compreendem, quer dizer: “racionalmente”? E se os russos agem de modo contrário ao que os norte-americanos creem que devessem agir – não é porque vejam as coisas de outro modo; é porque são beligerantes.

O que mais chama a atenção no que Polk escreveu sobre “lições que os EUA não aprenderam” é que também um ex-alto funcionário russo acaba de nos dizer exatamente a mesma coisa (que os EUA parecemos estar repetindo o mesmo perigoso padrão que levou à Crise dos Mísseis russos em Cuba).

William R. Polk
William Polk escreve:

Meses antes de a crise [1962] cair sobre nós, fiz um tour pela Turquia. Ali visitei uma base da Força Aérea dos EUA, onde 12 bombardeiros de combate estavam em “alerta máximo”. Daqueles, dois já estavam no estágio posterior de alerta, com motores ligados e com os pilotos já sentados nos respectivos cockpits. Prontos para decolar, cada um daqueles aviões estava armado com uma bomba de um megaton, e programado para voar para um alvo na União Soviética. Perto dali, no Mar Negro, em Samsun, vi pelo radar aviões de um esquadrão da Real Força Aérea britânica que estavam testando as defesas aéreas dos soviéticos na Crimeia. E adiante, na Anatolia, em locações supostamente secretas, um grupo de mísseis “Jupiter” dos EUA estava já mirado, armado e pronto para ser disparado.

Aquelas armas eram defensivas ou de ataque? Quero dizer, eram ameaça montada contra a União Soviética; ou defesa do “Mundo Livre”? Meus colegas no governo dos EUA entendiam que fossem armas de defesa. Eram parte de nosso sistema de “contenção”. Montamos tudo aquilo para nos proteger, não como ameaça contra os russos.

Os russos pensavam de modo completamente diferente. E, como resposta ao que viam, decidiram estacionar alguns dos mísseis deles em Cuba. Os estrategistas soviéticos acreditavam que, ao criar equilíbrio contra os nossos mísseis postos junto à fronteira deles, os mísseis deles também seriam defensivos; assim como os nossos, nas fronteiras deles, nos pareciam defensivos. Os EUA pensamos de outro modo. Para nós, o movimento dos russos, de pôr mísseis junto às fronteiras dos EUA, sempre seria inquestionavelmente ofensivo. E por pouco não fomos à guerra, para obrigar os russos a remover de Cuba aqueles mísseis.

Até que “poucos minutos antes da meia-noite” voltamos a pensar racionalmente: recolhemos nossos Jupiters, e os russos removeram os mísseis que eles haviam instalado em Cuba.

A primeira lição a ser aprendida dessa quase catástrofe é sempre tentar compreender o ponto de vista do adversário. Como escrevi alguns meses antes da Crise dos Mísseis Russos em Cuba, os russos tinham um ponto: os mísseis que mantínhamos na Turquia eram obsoletos. Dependiam de propulsão por combustível líquido. Esse tipo de combustível demora vários minutos para entrar em ignição. Para que tivessem alguma utilidade, seria preciso dispará-los antes que mísseis ou bombardeios soviéticos os destruíssem em terra. Isso, por sua vez, significava que só serviam como armas para “primeiro ataque”. E, por definição, qualquer primeiro ataque é sempre “ofensivo”.

Insisti para que os retirássemos com urgência da Turquia. Não foram retirados. Os militares norte-americanos entendiam que aqueles mísseis seriam parte essencial de nossa defesa estratégica. E os mísseis lá ficaram, até que os russos puseram os seus mísseis em Cuba. Então, sim, os EUA retiramos os mísseis. Só os retiramos quando os russos retiraram os deles. Assim, em certo sentido, a Crise dos Mísseis foi um toma-lá-dá-cá. Em minha opinião, não há meio mais idiota de pôr em perigo a sobrevivência da humanidade!

União Europeia
Foi assim naquele momento – e é assim hoje: Qual é a percepção que EUA e União Europeia têm sobre o que estão tentando fazer na Ucrânia? Estão tentando criar uma Ucrânia orientada pelo ocidente, integrada, próspera, territorialmente una, segura e democrática.

Muitos europeus veem esse objetivo como – simplesmente – reflexo do impulso gravitacional “civilizacional” da União Europeia. Os russos pensam de outro modo.

Os russos sabem bem dos profundos cismas que dividem a Ucrânia, de ódios antigos. Pensam que o ocidente está usando essas velhas animosidades para criar uma plataforma ofensiva mediante a qual o ocidente tentará enfraquecer a Rússia. Então a liderança russa reage: aumenta a segurança em torno da histórica base naval russa em águas temperadas; e reage com força no Donbass, contra um governo de Kiev hostil. E volta a mesma pergunta: a reação russa foi ofensiva ou defensiva?

Para a Rússia, os seus próprios movimentos são defensivos (de fato, são existencialmente defensivos).

O ocidente vê as coisas de outro modo: vê os movimentos dos russos como ameaça contra toda a ordem europeia do pós-guerra, nada menos que isso. Então, o ocidente posicionou seus “mísseis” junto à fronteira russa. Mas nessa nova modalidade de guerra, não se trata literalmente de bombas, como as que William Polk viu na Turquia, já na pista e com turbinas ligadas; trata-se agora dos “bombardeiros” do Tesouro dos EUA, carregados com bombas de nêutrons financeiros: as tais sanções, pensadas para causar dano aos lucros futuros que a Rússia poderia auferir da venda dos hidrocarbonos. Para o ocidente, é ação de “contenção”, ato “correcional”, que levará a Rússia a “arrepender-se” do “mau comportamento” de antes.

Para os russos, é absolutamente outra coisa: para os russos, é movimento de ataque; é guerra. Guerra contra o presidente Putin e guerra contra a própria Rússia.

A Rússia, portanto, reage conforme sua percepção, defensivamente: e cria um sistema paralelo de finanças, comércio e câmbio, com a China.

O ocidente não entende assim, e o preço do petróleo cai em quase 1/3. Para o ocidente, não passa de reação técnica ante condições de mercado. Os russos, relembrando o modo como a Arábia Saudita operou para derrubar o preço do petróleo em 1986, o que empurrou a União Soviética para a implosão financeira, pensam de outro modo.

Queda de preço do petróleo provocada pela Arábia Saudita sob comando dos EUA
Os russos relembram o passado e sabem que entraram num túnel em escalada que pode, sim, levar à guerra. Pode ser guerra “a quente”, ou nova modalidade de “guerra” comandada pelo Tesouro dos EUA.

Assim sendo, quais as lições da Crise dos Mísseis Russos em Cuba que poderiam nos guiar dessa vez, quando Kiev já teve suas eleições, e o Donbass, suas contraeleições; quando Kiev ostenta suas forças armadas reequipadas; e o Donbass, as suas milícias rearmadas e reabastecidas?

A primeira lição que William Polk extrai disso tudo é que – diferente, ao contrário da narrativa convencional – os EUA não obrigaram Khrushchev a recolher seus mísseis, graças a alguma potente exibição de força. A verdade é que os EUA silenciosamente removeram seus mísseis Júpiter da Turquia; depois disso, a URSS retirou os seus mísseis de Cuba.

Absolutamente não foi – ao contrário do que reza o folclore – um caso de a URSS ter-se recolhido sob pressão.

Na verdade, depois da crise, quando os eventos foram postos em perspectiva, analisados como se fossem um jogo, para deles extraírem-se as lições que houvesse, os oficiais norte-americanos compreenderam que – se Kennedy tivesse insistido na escalada (em vez de iniciar a desescalada) – os EUA e a Rússia teriam entrado em guerra: a mais devastadora guerra nuclear.

Por quê? Porque quando se analisaram friamente os eventos, ficou comprovado que a teoria da “contenção” baseava-se em pressupostos antropomórficos viciosos.

Estados não “pensam” como se fossem indivíduos: há neles uma comunidade com história diversificada tecida de incontáveis fios, que reflete uma variedade de saberes e práticas e tradições comunitárias. O Estado não age necessariamente como um indivíduo agiria, especialmente se o tal “indivíduo” for concebido como “racionalista” avesso a risco e maximizador de utilidades. Em vez disso, Polk e seus colegas concluíram que estavam tendo de lidar com lideranças-com-comando [orig. ruling leaderships]. E essas lideranças, por uma vasta variedade de fatores psicológicos e competitivos, podem simplesmente concluir que não podem pagar o custo de “ser o primeiro a piscar” – e custe o que custar, sejam quais forem os riscos.

O sonho dos NEOCONS
O resumo final de tudo isso é o perigo que advém de assumir (falsamente) que, dado que todos partilhamos basicamente os mesmos órgãos sensoriais, todos percebermos o mundo de modo semelhante. A “realidade” é escorregadia demais para que as coisas sejam assim. O que para um parece leitura evidente de uma situação, e atos racionais e defensivos, pode deslizar, na percepção do “outro”, até alcançar o polo extremo oposto: e aparecer como pura agressão. O tema básico de William Polk é que todos devemos nos manter atentos a o quão rapidamente o que é “defensivo” gera o que é “agressivo” em nossas políticas exteriores.

Não que esse importante, profundo conselho tenha qualquer chance de encontrar ouvidos receptivos em Washington nesse momento. 

Num artigo do Financial Times, o editor de The National Interest observa que os líderes Republicanos, no rescaldo de suas impressionantes vitórias nas eleições de meio de mandado, parecem agora exultantes ante a possibilidade, para eles já ao alcance da mão, de obterem uma vingança. Os neoconservadores pressionaram muito o presidente Obama no quesito “fraqueza” da política exterior, durante toda a campanha. Agora, estão tomando suas “vitórias arrasadoras” como se legitimassem aquela dureza de linha dura conservadora doentia.

Claro que Obama ainda tem todo o restante do mandato, e pode usá-lo para retroceder e des-escalar – mas não há dúvidas de que, se o fizer, terá de remar contra correntes muito fortes.

No ocidente, a narrativa Republicana de política exterior fracassada por causa da fraqueza do presidente será vista como “coisa da política” e reflexo do ir e vir eleitoral.

Mas os russos e grande parte do Oriente Médio já estão pensando de modo bem diferente (ver, sobre o que os Republicanos dizem hoje, artigo de Rahada Dragham em Al Arabiya: A última chance de Obama reconquistar a credibilidade perdida, ing.). Já percebem que, seja quem for o próximo presidente (e possivelmente também o presidente Obama, sob novas pressões domésticas) será mais agressivo contra a Rússia, o Irã e o governo da Síria. Esses personagens não verão o resultado da eleição como simples “coisa da política”, mas como promessa de escalada na violência.

Bases militares NUCLEARES dos EUA na Europa
É possível evitar a escalada da violência? É possível que os “mísseis Júpiter” e os “mísseis russos em Cuba” sejam desarmados e retirados de onde estiverem? Há solução assim tão “simples”? Ora... Mas o que desejam exatamente os “mísseis defensivos” da Rússia? Aí a coisa aparece bem clara: os russos querem Ucrânia neutra, não alinhada; acordos geoeconômicos não excludentes, que não tentem pôr os russos na posição de vizinho condenado a mendigar; descentralização da autoridade de Kiev, para as regiões; a volta do idioma russo como língua oficial; e fim do subsídio russo ao gás consumido na Ucrânia.

Quanto à Europa, o não alinhamento da Ucrânia, por ele só, jamais foi visto como algo antieuropeu. Basta que a Europa retire seus “mísseis do alinhamento UE e OTAN”, em troca de a Rússia retirar seus “mísseis da militarização das milícias”. Não seria difícil para qualquer diplomata competente, se a questão fosse só a Ucrânia. Infelizmente não é (como nunca foi).

A “guerra” dos EUA contra a Rússia tem tanto a ver com a autopercepção, nos EUA, de seu próprio declínio, quanto tem a ver com a Ucrânia – e esse é problema psicológico muitíssimo mais profundo, razão pela qual as tensões com a Rússia parecem condenadas à escalada. O conflito entre EUA e Rússia só se agravará – a menos que algum líder norte-americano consiga gerir esses sintomas coletivos de ansiedade, os quais, também no nível individual, sempre têm muito a ver com como somos percebidos pelos outros. Essas ansiedades, sejam individuais ou coletivas, como nos ensinam os psicólogos, quase sempre se manifestam inconscientemente pela linguagem ou comportamento de agressão (o que, provavelmente, foi o que emergiu durante as eleições de meio de mandato).

Infelizmente, administrar a percepção que os norte-americanos têm deles mesmos não foi, até hoje, o forte de Obama. É verdade que Obama tentou mudar a “pegada” física que os EUA estão deixando sobre o mundo, refletir um mundo em mutação (e, nisso, teve algum sucesso). Mas, ao mesmo tempo, Obama abraçou a retórica de promoção do “excepcionalismo” e da “indispensabilidade” dos EUA. É o mesmo que dizer que apesar de ter tentado cuidar do aspecto prático da mudança, Obama, ao mesmo tempo, não apenas negligenciou a luta contra a resistência à mudança psicológica necessária, mas, de fato, obrou para reforçar a resistência contra aquela mudança psicológica necessária (para continuar a usar esse tipo de linguagem).

Evidentemente, qualquer ajuste real a um novo papel da nação norte-americana no mundo exige ação pelos dois lados: pelo lado da preparação psicológica e pelo lado da implementação prática do ajuste e da mudança.


[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.