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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Matt DeHart:Privacidade Coletiva e o Arquipélago Anônimo


Missivas de uma prisão de segurança máxima

Abril/2014, National PostMatt DeHart
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Dica de Biella Colleman pelo twitter, em: “Eloquente, apaixonada e poética defesa do anonimato, por Matt DeHart”

Matt DeHart é soldado norte-americano, atualmente preso no Canadá, depois de pedir asilo, fugindo dos EUA, onde é condenado por seu trabalho com os Anonymous.


Matt DeHart
O mar está subindo e as colinas que nos restam são poucas e muito distantes umas das outras. Mas essa não é discussão sobre a mudança climática, apesar dos perigos. Essa é discussão sobre o arquipélago anônimo no mar global da vigilância e da perda de nossa privacidade coletiva. Apesar de nossa privacidade individual estar hoje sob grave perigo, ainda há contramedidas para preservar nossos pensamentos e ideias contra olhos e ouvidos hostis. Ainda não podem ouvir a voz dentro da nossa cabeça, nem podem seguir todos, todo o tempo. Não podem roubar ideias de dentro da nossa cabeça, nem podem prever acuradamente nossas intenções imediatas nem nosso comportamento público. Eles ainda não têm esse poder, mas tentarão. Tentarão, porque cedemos a eles nosso direito à privacidade coletiva.

Parte 1

Porque “privacidade” não é coisa claramente definida na Constituição dos EUA, é o direito mais vulnerável que há. Embora como sociedade os norte-americanos ainda lutemos para definir e consagrar na Constituição ou criar limites à invasão à privacidade individual, nós já perdemos a batalha para proteger nossos direitos como comunidades, como grupos. Na verdade, só muito raramente pensamos sobre o nosso direito à privacidade coletiva.

Pensemos um pouco.

Dez indivíduos exercendo o direito de votar não podem ser contados como se fossem nove. O governo não pode entrar numa igreja, numa mesquita ou numa sinagoga e lá ficar, impedindo que quem queira entrar entre (à parte os que já estão infiltrados nas mesquitas), nem pode negar a uma parte dos membros o direito de rezar na igreja porque são muitos. Assim, ideias partilhadas por duas ou 20 pessoas são ainda menos protegidas que as ideias dentro da nossa cabeça. Nossos direitos coletivos diminuem, conforme aumentem as coletividades?

O governo responderá com o argumento da “expectativa razoável" para limitar a privacidade. É posição defensável, embora acabe sempre desmesuradamente exagerada, quando se aplica a protestos públicos ou fóruns públicos. Infelizmente, alguns governos habitualmente infiltram agentes em reuniões privadas, sem causa provável ou motivo razoável para suspeitas.

A solução restante foi reunir-nos em grupos menores ou tomar ainda mais cuidado com aqueles com os quais partilhamos ideias. É precisamente quando nosso círculo de contatos confiáveis encolhe, de um grande grupo para apenas uns poucos, até que só temos, de contato confiável, nós mesmos, que nosso conceito de privacidade e correspondentes expectativas começam a falhar. Não é legal ler meus pensamentos, mas é legal ler os pensamentos que partilho com um amigo, com dois, com dez? Qual a massa crítica a partir da qual se torna necessário vigiar ideias, algumas das quais são secretas?

Se o governo decidiu arbitrariamente que, digamos, grupos de dez ou mais, reunidos em segredo, têm de ser vigiados, o que impede o mesmo governo de diminuir o número arbitrariamente para cinco, depois dois, até chegar, no fim, a um só? Porque a ideia é que a singularidade deve ser observada e, sendo o caso, pode ser indispensável intervir contra ela, e a singularidade começa, pela própria natureza, com pequenos números.

Matt DeHart - Anonymous

Ideias em estado embrionário são vulneráveis. Para serem expressas, manifestadas, discutidas, aceitas ou rejeitadas, elas precisam de um coletivo, no qual possam ou diminuir ou crescer. Algumas ideias impopulares exigem espaço ainda mais restrito de privacidade, uma privacidade de coletivo, ou fenecem e morrem, ou permanecem sem serem jamais realmente formadas.

O governo dos EUA usa cinco argumentos gerais pelos quais ataca esse espaço restrito de privacidade coletiva, não importa que ideia esteja sob a específica proteção de um ou outro coletivo. São eles: terrorismo, segurança nacional, crime organizado, pornografia infantil e propriedade intelectual. Esses são os argumentos (mais geralmente) aceitos legitimamente e socialmente.

O problema que enfrentamos é que algumas das ideias que o governo considera mais perigosas e associadas a interesses do governo dos EUA não se encaixam em nenhuma dessas categorias aceitas. Num sistema tradicionalmente totalitário, as pessoas são presas e encarceradas por ideias políticas. Numa sociedade falsamente democrática, “ofensas” políticas podem ser rotuladas pelos termos de uma daquelas categorias socialmente aceitáveis. De um modo ou de outro, as pessoas acabam encarceradas.

Talvez infelizmente, ou desagradavelmente, é verdade que ideias políticas impopulares, assim como provas de crimes cometidos pelo estado podem, sim, ser igualmente protegidas naqueles pequenos coletivos, onde também se podem proteger comportamentos realmente ilícitos.

Mesmo assim, temos de manter a privacidade de nossos coletivos, ou a civilização ocidental deixará de existir.

Em Os Miseráveis, Victor Hugo descreve esses tipos que se reúnem em segredo em quartinhos dos fundos de estabelecimentos privados. Os homens urdiam em segredo mudanças positivas. Embora seja ficção, Hugo falava ali de eventos acontecidos.

A República Constitucional dos EUA não existiria sem quartos dos fundos privados e espaços coletivos secretos nos quais se reuniam os conspiradores que conspiravam contra a Coroa Britânica. Se o rei George tivesse um informante em cada grupo de conspiradores ou houvesse alguma coisa como a Agência de Segurança Nacional, a Revolução Americana jamais teria acontecido. Quando perdemos essa privacidade para manter coletivos, perdemos a capacidade para desafiar em massa o estado– sobretudo quando o estado, nos EUA, viola a própria Constituição. Isso é o que vemos acontecer hoje, aqui.

O último bastião para resistir contra a total perda de privacidade é o anonimato. Mediante o anonimato, podemos restaurar a privacidade coletiva.


*****
Parte 2, em breve (Arquipélago Anônimo).



Para saber mais sobre o caso de Matt, leia a matéria de Adrian Humphreys no National Post, Hacker, Creeper, Soldier, Spy: The Story of Matt DeHart (ing.).

Links


domingo, 30 de junho de 2013

Grande serviço público de “Anonymous IRC”

29/6/2013, Anonymous IRC
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Anonymous IRC
Estamos tentando oferecer um guia das informações importantes e algumas opiniões sobe o escândalo NSA/Prism e a situação de Edward Snowden. Está separado em cinco categorias: Matéria de jornal sobre Vigilância / Reações de/ Opiniões de/sobre Snowden / Documentos vazados / e Artigos que não se encaixaram em nenhuma das outras categorias.

Estamos fazendo o possível para evitar a redundância. A relação abaixo não é completa e tende, claro, para o nosso lado: muitas das informações foram recolhidas de nosso Twitter que tende, também é claro, para o nosso lado. Se você achar que deve incluir algum artigo, deixe um comentário.

Matérias de jornal sobre vigilância:

June 6th: NSA collecting phone records of millions of Verizon customers daily – Glenn Greenwald for The Guardian
June 20th: The top secret rules that allow NSA to use US data without a warrant – Glenn Greenwald for The Guardian
June 21st: GCHQ taps fibre-optic cables for secret access to world’s communications – Ewen MacAskill, Julian Borger, Nick Hopkins, Nick Davies and James Ball for The Guardian
June 22th: For secretive surveillance court, rare scrutiny in wake of NSA leaks – Peter Wallsten, Carol D. Leonnig and Alice Crites for The Washington Post
June 25th: NSA takes surveillance fact sheets off website – Alex Byers for Politico
June 27th: NSA collected US email records in bulk for more than two years under Obama – Glenn Greenwald for The Guardian
June 27th: How the NSA is still harvesting your online data – Glenn Greenwald and Spencer Ackerman for The Guardian
June 27th: FAQ: What You Need to Know About the NSA’s Surveillance Programs – Jonathan Stray for ProPublica
June 27th: Latest Glenn Greenwald Scoop Vindicates One Of The Original NSA Whistleblowers – Michael Kelly for Business Insider
June 28th: Secret Court Declassifies Yahoo’s Role in Disclosure Fight – Claire Cain Miller and Nicole Perlroth for the New York Times
*** DELETED due to “pending investigation”. Text mirror of the Article: http://pastie.org/8095620
Updated June 29th: NSA slides explain the PRISM data-collection program – Washington Post

Reações Internas (EUA) e Internacionais

Domestic and international reactions:
June 24th: Senators: NSA must correct inaccurate claims over privacy protections – Spencer Ackerman for The Guardian
June 26th: GCHQ surveillance: Germany blasts UK over mass monitoring – Alan Travis, Kate Connolly and Nicholas Watt for The Guardian
June 26th: Memories of Stasi color Germans’ view of U.S. surveillance programs – Matthew Schofield for McClatchy
June 28th: Senators want public answers on NSA surveillance – Richard Lardner for Associated Press
June 30th: Key US-EU trade pact under threat after more NSA spying allegations – Ian Traynor in Brussels, Louise Osborne in Berlin and Jamie Doward for The Guardian
June 30th: Secret-court judges upset at portrayal of ‘collaboration’ with government- Carol D. Leonnig, Ellen Nakashima and Barton Gellman for The Washington Post
June 30th: German prosecutors probe NSA surveillance claims – Frank Jordans for Associated Press

Edward Snowden
Sobre Edward Snowden:

June 23rd: Hong Kong shocked and relieved at Snowden’s departure to ‘third country’– Ernest Tao for the South China Morning Post
June 23rd: Snowden’s travels raise concerns of foreign involvement – Richard Wolf for USA Today
June 24th: Edward Snowden’s departure from Hong Kong filled with intrigue, questions – by Jia Lynn Yang for the Washington Post
June 24th: HK chief defends handling of Snowden affair – Agence France-Presse
June 25th: Kerry: US Not Looking for Confrontation with Russia over Snowden – Scott Stearns for Voice of America
June 25th: Snowden sought Booz Allen job to gather evidence on NSA surveillance – Lana Lam for the South China Morning Post
June 27th: Ecuador offers U.S. rights aid, waives trade benefits – Alexandra Valencia and Brian Ellsworth for Reuters
June 28th: Ecuador: Snowden travel doc issued from London embassy “has no validity” (and: Diplomats from Russia, Cuba, Venezuela, and Ecuador will meet on Monday to discuss the Snowden situation) – Cyrus Farivar for Ars Technica
June 28th: Ecuador cools on Edward Snowden asylum as Assange frustration grows– Rory Carroll and Amanda Holpuch for The Guardian
June 30th: Ecuador president: Snowden can’t leave Moscow – Associated Press

Opiniões:

June 20th: Analysis: Government Privatization Paves the Way for Crony Corruption – Norm Ornstein for Government Executive
June 22nd: On the Espionage Act charges against Edward Snowden – Glenn Greenwald for The Guardian
June 23rd: U.S. Surveillance Is Not Aimed at Terrorists – Leonid Bershidsky for Bloomberg
June 23rd: The Snowden Effect, Special Sunday Edition – Charles P. Pierce for Esquire
June 24th: The Other Snowden Drama: Impugning the Messenger – David Carr for The New York Times
June 24th: Demonizing Edward Snowden – Which Side Are You On? – John Cassidy for the New Yorker
June 24th: Anglo-Saxon Spies: German National Security Is at Stake – Jakob Augstein for Der Spiegel
June 26th: Why U.S. is being humiliated by the hunt for Snowden – Simon Tisdall for CNN
June 26th: The US is the one with some explaining to do – South China Morning Post Editorial
June 26th: The personal side of taking on the NSA: emerging smears – Glenn Greenwald for The Guardian
June 27th: Lawyers said Bush couldn’t spy on Americans. He did it anyway. – Timothy B. Lee for the Washington Post
June 27th: If Big Brother came back, he’d be a public-private partnership – Timothy Garton Ash for The Guardian
June 27th: What an NSA charm offensive looks like – Jack Shafer for Reuters
June 28th: Who is Leaking More: Edward Snowden or the Government Officials Condemning Him? – By Trevor Timm for Freedom Of The Press Foundation
June 28th: The Criminal N.S.A. – Jennifer Stisa Granick and Christopher Jon Sprigman for The New York Times
June 29th: Who’s a Journalist? A Question With Many Facets and One Sure Answer– Margaret Sullivan for The New York Times
June 29th: Freedom: The Big American Lie – Thomas Frank for Frankfurter Allgemeine Zeitung

Documentos vazados:


Artigos que não se encaixam nas outras categorias:

June 26th: Al-Qaida said to be changing its ways after leaks – Kimberly Dozier for Associated Press
For comparison, April 16th 2011: Al-Qaida in Yemen adapts to evade U.S. – Adam Goldman and Matt Apuzzo for Associated Press
June 27th: Restricted web access to The Guardian is Armywide, officials say – Phillip Molnar for The Monterey County Herald
June 27th: Few Consequences When Cybersecurity Contractors Go Bad – Josh Glasstetter for techpersident

terça-feira, 28 de maio de 2013

Jeremy Hammond, sobre as acusações às quais responde: “Hoje me declarei culpado”

28/5/2013, Campanha Free Jeremy Hammond!
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

Jeremy Hammond
Jeremy Hammond (nascido dia 8/1/1985) é ativista político, desenvolvedor de páginas para internet e músico em Chicago. Foi acusado pelo governo dos EUA de ter divulgado arquivos de propriedade da agência privada de espionagem Stratfor, distribuindo-os pela página de WikiLeaks. É criador-fundador da página HackThisSite.org, para treinamento em segurança de computadores, criada em 2003, logo depois de Hammond ter concluído o ginásio na Glenbard East High School.

Aaron Swartz
Dia 20/2/2013, em declaração publicada em: Jeremy Hammond on Aaron Swartz & the Criminalization of Digital Dissent, por ocasião da morte de Aaron Swartz, Hammond escreveu:

Enfrento hoje várias acusações por conspiração e invasão de computadores, decorrentes de um suposto envolvimento que eu teria com Anonymous, LulzSec e AntiSec, grupos que descobriram e expuseram a corrupção reinante em instituições governamentais e empresas como Stratfor, The Arizona Department of Public Safety e HB Gary Federal.

A pena, para o meu caso, foi dramaticamente aumentada recentemente, porque a “Lei Patriótica” [orig. Patriot Act] alargou muito a definição legal do que seja “a perda” sofrida por essas empresas invadidas e cuja corrupção foi afinal exposta. Graças à nova lei, a empresa Stratfor pôde declarar que teria sofrido danos superiores a 5 milhões de dólares, incluídos aí o custo exorbitante que pagou para alugar serviços externos de proteção e empresas de “infosec”, para contratar novos servidores, 1,6 milhão de dólares de indenização por “perda potencial de lucros” durante o tempo em que seu website esteve fora do ar, e, até, as custas – 1,3 milhão de dólares – de um processo trabalhista movido contra eles.

Somando-se as acusações que me foram feitas, de uso de “meios sofisticados” e de ter atacado “infraestrutura crítica”, há risco de eu receber pena entre 30 anos de cadeia e prisão perpétua.

Encenações e táticas sujas de tribunal e longas sentenças não são anomalias: são partes inseparáveis de um sistema de “justiça” fundamentalmente vicioso e corrupto, que visa a arrancar, além da vida, também a maior quantidade possível de dinheiro do encarceramento em massa, sobretudo de negros e, em todos os casos, dos mais pobres. A tática de cooptar informantes, em troca de sentenças mais leves, é não só usada corriqueiramente para que Procuradores repressores dediquem-se a intimidar a participação dos cidadãos em manifestações de protesto e a ampliar a caçada islamofóbica a bruxas, caçada sob a qual nenhum cidadão está protegido contra qualquer acusação sem provas de “terrorismo”; a mesma tática é usada também em muitos casos de drogas, nos quais os acusados estão expostos, sem qualquer proteção democrática ou civil, às penas mais severas do mundo.

No caso de Aaron Swartz, sobre o qual se lançaram 13 acusações graves, é provável que a intensa pressão, feita por uma Procuradora ferozmente ambiciosa, a qual, mesmo sabendo das fragilidades psicológicas de Aaron, continuou a exigir que fosse encarcerado até a velhice, seja a causa que o levou à morte.
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Hoje, Jeremy Hammond declarou-se culpado dos crimes de que é acusado e distribuiu a seguinte declaração:

Hoje me declarei culpado da acusação de ter violado a Lei de Fraudes e Abusos em Computadores [orig. Computer Fraud and Abuse Act]. Foi decisão muito difícil. Espero conseguir explicar aqui os meus motivos.

Acredito no poder da verdade. Fiel a essa convicção, não quero ocultar o que fiz, nem me esconder por ter feito o que fiz. Agora, que já declarei que não aceito cooperar com os juízes, em troca de penas menores, sinto-me livre para contar ao mundo o que realmente fiz e por quê, sem ser obrigado a expor aos juízes nenhuma das minhas táticas e nenhum dos meus recursos, e sem pôr em risco a vida, a segurança e o bem-estar de outros ativistas, online e offline.

Ao longo dos últimos 15 meses tenho-me mantido relativamente calado sobre detalhes do meu caso, enquanto trabalhava com meus advogados para revisar nossa posição e conceber a melhor estratégia legal possível. O caso que o Estado construiu contra mim tem inúmeras incongruências e problemas, dentre os quais a nenhuma credibilidade do informante do FBI, Hector Monsegur.

Mesmo assim, porque os Procuradores inflaram, sem qualquer comprovação, todos os danos que sou acusado de ter provocado, logo percebi que, se condenado, minha pena seria superior a 30 anos.

Meus advogados são maravilhosos e há uma comunidade muito ativa que me apóia do lado de fora. Nada disso muda o fato de que já posso me considerar condenado. Mas, ainda que fosse declarado não culpado no tribunal, os procuradores já disseram que há oito outras acusações contra mim, a partir de queixas apresentadas em vários pontos do país. Se me absolvessem aqui, com certeza seria despachado para vários outros tribunais, acusado, em cada distrito, pelos mesmos crimes. O processo, assim, seria indefinidamente reencenado.

Concluí que a via mais prática a seguir seria aceitar a acusação que me foi feita aqui em New York, receber a pena de, no máximo dez anos de prisão e, com ela, uma imunidade que me poupará de ser re-acusado e re-condenado em todos os tribunais federais.

Agora, então, que já me declarei culpado, é um alívio poder contar a todos que, sim, trabalhei com os Anonymous para invadir a página de Stratfor, além de outros websites. Esses outros incluem páginas de empresas fornecedoras de equipamento militar e policial, empresas de inteligência privada, empresas de segurança da informação e agências de administração e aplicação de leis.

Fiz o que fiz porque acredito que as pessoas têm pleno direito de saber o que os governos e as empresas privadas fazem em seus gabinetes e salas fechadas. Fiz o que acredito ser a coisa certa.

Estou preso já há 15 meses. Várias semanas desses meses passei-as em cela solitária. Proibiram-me visitas e telefonemas e qualquer contato com minha família e meus amigos. Tendo-me declarado culpado, poupo a mim, à minha família e à minha comunidade de ativistas a repetição de todo esse processo e seus padecimentos.

Quero agradecer a todos os meus amigos e apoiadores pelos maravilhosos e repetidos gestos de solidariedade. Estou aliviado por ter assumido a responsabilidade pelo que fiz e por ter dado pelo menos um passo na direção de voltar a ver a luz do dia.

[assina] Jeremy Hammond

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os “hackers” não devem divulgar as falhas de segurança que descubram


29/11/2012, *Andrew (‘weev’) Auernheimer, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


*Andrew (‘weev’) Auernheimer é rato de internet, condenado duas vezes por crimes consecutivos de hacking de computadores; tem nos costados mais de uma década de trabalho com C, asm, Perl e de furiosa militância no IRC  [2]. É militante ativo na luta pela liberdade e, em breve, será prisioneiro numa prisão federal dos EUA.


NOTA DO EDITOR: O autor dessa coluna, também conhecido como “weev”, foi condenado, semana passada por invasão de computadores, depois de capturar, da página internet da empresa AT&T, uma lista não protegida de endereços de e-mails de mais de 100 mil proprietários de iPad, e entregá-la a um jornalista. A sentença definitiva deverá ser pronunciada dia 23/2/2013.

Nesse exato momento há um hacker por aí, em algum lugar, produzindo uma exploração zero-day  [3]. Quando terminar, sua exploração permitirá que qualquer pessoa que conheça o caminho tenha acesso a milhares – eventualmente, a milhões – de sistemas de computadores.

Mas o momento crítico não é a produção; é a distribuição. O que o hacker fará com o que obtiver em sua exploração? Eis o que pode acontecer depois de a falha/brecha no programa ter sido descoberta:

O hacker decide vender a terceiros o que encontrou. O hacker pode vender sua exploração a agentes inescrupulosos que vivem de comprar e vender informações de segurança, oferecendo o produto como “a proteção”. Ou o hacker pode vender o que encontrou a governos repressores, que podem usar a descoberta para espionar ativistas que protestam contra o mesmo (ou outros) governos opressores. (Há casos conhecidos de governo, entre os quais o governo dos EUA, que usam saberes obtidos de hackers para invadir qualquer coisa, inclusive outros serviços de inteligência doméstica e de países estrangeiros).

O hacker avisa o proprietário do sistema falhado, o qual pode – ou não – “remendar” [to patch] a falha. O proprietário/vendedor do sistema falhado pode “remendar” o programa vendido a clientes preferenciais (tradução: os que pagam mais caro), antes de remendar o programa vendido a clientes “comuns”. Ou o proprietário/vendedor pode decidir não distribuir o remendo, porque a análise custo-benefício feita por um de seus MBAs-empregados “mostra” que é mais barato não fazer, simplesmente... coisa alguma.

O proprietário/vendedor distribui o “remendo”, mas os clientes demoram a baixá-lo e instalá-lo. Não é raro que grandes usuários procedam, eles mesmos, às suas próprias testagens – e muitas vezes encontram falhas em programas, antes do proprietário/vendedor do programa; nesses casos, acontece frequentemente de o usuário produzir e distribuir “em casa”, para ele mesmo, remendos melhores. Tudo isso significa que os “remendos” distribuídos pelo proprietário/vendedor podem permanecer durante meses (às vezes, anos), sem serem usados pela grande maioria dos clientes/compradores/usuários.

O proprietário/vendedor cria um executável blindado com métodos anti-investigação e peritagem policial, para impedir a engenharia reversa. É o modo certo para aplicar remendos. Também é procedimento caríssimo, intensivo em mão de obra – o que implica dizer que só muito raramente é usado. Assim sendo, descobrir vulnerabilidades é tão simples quanto desarrolhar o executável velho e meter ali o novo executável, num IDA Pro debugger com BinDiff, para comparar e ver o que mudou num código disassembled. Já disse: é fácil.

Basicamente, explorar as vastas massas não remendadas é jogo fácil para qualquer explorador. Todos têm, cada um, seus próprios interesses a proteger. E os interesses de cada proprietário nem sempre coincidem com os interesses dos usuários.

As coisas não são tão preto ou branco

Proprietários/vendedores são motivados a proteger os próprios lucros e os interesses dos acionistas, acima de qualquer outro interesse. Os governos são motivados a valorizar acima de tudo os interesses da própria segurança, muito mais que os interesses e direitos individuais dos próprios cidadãos, e muito mais, ainda, que os interesses e direitos de outras nações.

E, para muitos atores do campo da segurança da informação, é muito mais lucrativo vender novos tratamentos, que nunca param de surgir, para tratar sintomas de doenças, do que vender a cura definitiva.

Muito claramente, nem todos os atores agirão eticamente ou competentemente. Além e acima de tudo, o hacker original raramente é pago por seu trabalho altamente qualificado, que exige alta e raríssima disciplina científica, e que visa a melhorar o programa do vendedor/proprietário e, em última análise, a proteger os usuários.

A quem contar o que só você sabe? Resposta: a ninguém; a absolutamente ninguém.

White Hat Hackers
Os cartolas brancas [4] são os hackers que decidem revelar o que descobrem: ao proprietário/vendedor ou ao grande público. Esses chamados “cartolas brancas” do mundo têm seu papel, distribuindo, com suas descobertas, também novas armas digitais.

O pesquisador Dan Guido fez a engenharia reversa de todas as ferramentas (“vírus”) usadas atualmente para exploração em massa (como Zeus, SpyEye, Clampi e outras). Suas descobertas sobre a fonte das explorações/ataques, divulgadas pelo Exploit Intelligence Project [5], são bem claras:

Os chamados cartolas brancas do mundo vêm desempenhando um papel na distribuição de armas digitais.

- Nenhuma das explorações usadas para exploração em massa foi desenvolvida por autores de programas-vírus [mal-intencionados].

– Diferente disso, todas as explorações vieram de “Advanced Persistent Threats” [Ameaças Persistentes Avançadas] (termo que a indústria usa para designar estados-nação) ou de descobertas feitas por cartolas brancas.

– Descobertas feitas por cartolas brancas correspondem a 100% das falhas lógicas usadas para ataques.

Os criminosos, segundo Guido, realmente “preferem o código dos cartolas brancas”, porque funciona de modo muito mais confiável que códigos distribuídos por fontes do submundo. A maioria dos autores de vírus não têm, de fato, a sofisticação necessária para alterar explorações já operantes e aumentar-lhes a efetividade.

Navegar pelo cinza

Alguns hackers de visão ampla da rede de computadores EFnet [6], rede de membros anônimos, anteviram com clareza, há 14 anos, o atoleiro de conflitos morais em que se converteria a questão da segurança de dados. Sem qualquer interesse em acumular riqueza pessoal, eles deram o primeiro passo do movimento de defesa da ética no campo dos computadores conhecido como Anti Security [literalmente, “antissegurança”] [7], ou “antisec”.

Os hackers do movimento Antisec focaram-se no movimento de investigação/exploração como atividade de disciplina intelectual, quase espiritual. Os Antisec não eram – não são – “grupo”; são, mais, uma filosofia com uma única posição nuclear:

Uma exploração é arma poderosa, que só deve ser exposta a pessoa que você tenha certeza (por conhecimento resultante de experiência-contato pessoal) que sempre agirá no interesse da justiça social. [8]

Afinal de contas, entregar o resultado de uma exploração a entidades sem essa ética fará de você parte dos crimes que venham a ser cometidos. É exatamente como entregar um rifle a quem você saiba que matará alguém.

Entregar o resultado de uma exploração a entidades sem ética fará de você parte dos crimes que a entidade cometa

Lulz Sec
Apesar de o movimento já ter mais de uma década de existência, a expressão “antisec” voltou recentemente aos noticiários. Mas, agora, creio que atos criminosos sancionados pelo Estado, estão sendo apresentado como se fossem atos de antisec. Por exemplo: Sabu, do movimento Lulzsec, foi preso pela primeira vez dia 7/6/2011; seus atos foram rotulados como “antisec” no dia 20 do mesmo mês. Significa que tudo que Sabu tenha feito sob esse rótulo foi feito com pleno conhecimento e, provavelmente, com a cumplicidade, do FBI. (O que inclui a divulgação pública de tabela de dados de autenticação que comprometeram a identidade de, possivelmente, milhões de indivíduos, pessoais e privados).  

Essa versão de antisec nada tem a ver com os princípios sobre os quais se baseia o movimento antisec do qual estou falando.

Mas o pessoal envolvido em atividade criminosa – os hackers que tomaram a decisão moralmente falhada de vender suas explorações a governos – já começa a defender publicamente os seus pecados indefensáveis.

Nesse ponto, precisamente, é onde o movimento antisec oferece contexto e quadro cultural útil, além de uma filosofia-guia, para que se pense sobre as áreas cinzentas da atividade de hacking. Por exemplo, a função-chave, nuclear, do movimento antisec, define como absolutamente inadequado, para jovens hackers, cultivar qualquer tipo de relacionamento com o complexo militar-industrial.

Bem claramente, a exploração de programas de computação pode implicar abuso de direitos humanos e violações de privacidade. E bem claramente também, nós temos de fazer alguma coisa quanto a isso.

Mas não acredito em leis de controle sobre o desenvolvimento e a venda dessas explorações. Os que vendam explorações não devem ser impedidos de vendê-las – mas, se venderem, têm de ser declarados gente-do-mal.

Em tempos de ciberespionagem rampante e invasão dos computadores de dissidentes políticos, o único destino ético que você deve dar aos resultados de suas explorações de zero-day é revelá-los a alguém que os usará no interesse da justiça social. Nunca será o proprietário/vendedor, nunca será algum governo, nem nunca será alguma empresa comercial: sempre será uma pessoa, um indivíduo.

Em raros casos, esse indivíduo talvez seja um jornalista que poderá amplificar o desmascaramento e a vergonha pública de algum operador de aplicativo para a rede. Mas, em muitos casos, o dano de expor as multidões de usuários que usam programas não remendados (e de desperdiçar o potencial da exploração, que deixa de ser usada contra governos opressores) ultrapassa, em muito, qualquer benefício que se obtenha por denunciar o erro ou o crime de uma empresa proprietária/vendedora. Nesses casos, a filosofia de antisec brilha como moralmente superior; e você não deve revelar a ninguém os resultados de sua exploração.

Assim, portanto, é hora de o movimento antisec voltar ao diálogo público sobre a ética de expor explorações. É o único modo que há para armarmos o pessoal do bem – sejam lá quem forem – pelo menos dessa vez, para variar.



Notas dos tradutores

[1]  O verbo to hack significa, originalmente, o movimento que se faz com um facão ou foice, para abrir uma picada em mato fechado. Metaforicamente, passou a designar a ação de abrir acesso a programas e computadores, para ver, copiar ou introduzir dados. Opõe-se ao verbo to crack, em que o processo de entrar em programas (mal) protegidos é feito com intenção criminosa.
[2]  Internet Relay Chat (IRC) é um protocolo de comunicação utilizado na Internet. É usado basicamente para bate-papo (chat) e troca de arquivos, permitindo a conversa em grupo ou privada. Foi documentado formalmente pela primeira vez em 1993.
[3]  Zero Day Exploit – [lit. exploração de dia-zero] Exploração cibernética feita através de uma vulnerabilidade em programa, da qual o desenvolvedor do programa não se tenha apercebido e que é descoberta pelo hacker. A expressão é usada no sentido de que o desenvolvedor do programa terá zero dias para trabalhar num patch [remendo, conserto], antes de um possível ataque (Urban Dictionary).
[4] Orig. Whitehat. Sobre os “cartola-branca”; Urban Dictionary (em inglês)

[5]The Exploit Intelligence Project v2 (vídeo em inglês)

[6] Ver em Eris Free Network – EFnet. (em inglês)
[7] Ver na Wikipédia: Antisec Movement(em inglês)