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segunda-feira, 9 de junho de 2014

George Friedman e a Alemanha

7/6/2014, [*] Natalia MEDEN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

George Friedman, diretor do think-tank norte-americano Stratfor, entende que alguns países da OTAN devem aumentar os gastos militares. No caso da Polônia, cujo gasto militar é próximo de 2% do PIB, deve ser aumentado para 5%. [1] A “ameaça russa” em torno da qual Freedman e tantos deliram está sendo usada para impor aumento no gasto militar dos países que compõem a OTAN.

“Os gastos de defesa russos cresceram mais de 10% em termos reais anualmente ao longo dos últimos cinco anos” – disse o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, numa conferência de segurança em Bratislava, Eslováquia (15/5/2014). Comparou os investimentos crescentes de Moscou, com os números declinantes em vários países europeus membros da OTAN – vários dos quais cortaram gastos em 20% (até mesmo, 40% – imaginem só!), no mesmo período. [2]

Será que alguém, no ocidente, está realmente com medo da Rússia? Parece que não. A Casa Branca e Stratfor, por exemplo, não parecem intimidadas pela “ameaça” russa. George Friedman vê a Rússia como potência regional, não global; e Barack Obama não faz outra coisa além de meter-se a “ensinar” à Rússia o que ela deve(ria) e não deve(ria) fazer. Por exemplo, uma das lições de Obama à Rússia é que deve normalizar imediatamente as relações com Petro Poroshenko. Isso, só para começar. Porque a lista de instruções é longa:


1) Todas as tropas russas devem ser retiradas da fronteira da Ucrânia. O presidente dos EUA mete-se a dizer à Rússia onde deve(ria) pôr ou não pôr tropas, em território russo. É i-na-cre-di-tá-vel. É cômico. É além de ridículo.

2) É hora de pôr fim ao apoio dos russos às formações de resistência e autodefesa. Pronto. Não há o que abale a fantasia de BO, segundo a qual as unidades de autodefesa na Ucrânia são fantoches do Kremlin, assim como não há o que faça os EUA suspenderem o apoio que dão à operação de punição coletiva que soldados ucranianos fazem contra a população local, o que faz aumentar o ódio contra o governo de Kiev apoiado pelos EUA. Pela ‘lógica’ norte-americana, milhares de refugiados que cruzam a fronteira russa só saíram para visitar uns parentes por ali perto, na região vizinha de Rostov.

O número dos que querem deixar a Ucrânia está aumentando. As pessoas têm de enfrentar longas filas para comprar bilhetes para os trens que passam por Slavyansk, Kramatorsk e Volnovakha. Os fatos são óbvios, mas os números que a Rússia apresentou não convenceram os membros do Conselho de Segurança da ONU. Só a China acompanhou o voto dos russos. E o projeto de resolução que criaria corredores humanitários no leste da Ucrânia – região que está sob ataque do governo da junta de Kiev – foi rejeitado.

3) Que a Rússia não se atreva a suspender o fornecimento de gás. Por que os EUA assim o “exigem”, isso, é perfeito mistério. Talvez os EUA entendam que a Rússia deva doar gás à Ucrânia... E caso a Rússia discorde, que peça instruções a Barack Obama, que já tem um Prêmio Nobel e talvez receba também inspirações divinas, e Obama lhe dirá o que fazer. Um dos antecessores de Obama no trono da Casa Branca entendia que o excepcionalismo dos EUA o poria em contato direto com o Altíssimo... que teria sido apontado por Deus para agir em Seu nome sobre a terra.

Bases militares - forças terrestres - dos EUA na Alemanha
Ora! Se os norte-americanos veem a Rússia como simples potência regional, não há por que temer que os russos movam seus exércitos para lá ou para cá. E por que alarmar tanto aliados, em torno de uma “ameaça” que ninguém leva a sério? É fácil – a crise ucraniana é bom motivo para fortalecer a unidade no “Atlântico Norte”.

E quanto à Alemanha? Para George Friedman, a posição da Alemanha é obscura e instável; e ele tem lá seus motivos para pensar assim.

Já há muito tempo, a Alemanha balança entre a solidariedade transatlântica e a realidade que reflete interesses nacionais e europeus reais. É verdade: a Alemanha aumentou o número de Eurofighters para ampliar a patrulha aérea no Báltico, e tomou a decisão de enviar mais 50 oficiais graduados para o Corpo Multinacional do Nordeste (Szczecin/Poland).

Os alemães fizeram como se não tivessem percebido que não foram consultados na decisão dos EUA para modernizar a munição nuclear norte-americana em solo alemão. Mas não, não... A Alemanha não pode aumentar o orçamento militar, a chanceler e o ministro das Finanças entendem que deve ficar nos 32 bilhões de euros. Eles não creem que os Estados do Báltico estariam realmente “ameaçados” e, assim, não veem necessidade de a OTAN manter presença militar permanente na Europa Central e do Leste. O exemplo alemão é contagioso: não importa que pretexto o ocidente use, a República Tcheca e a Eslováquia absolutamente não querem receber militares norte-americanos.

Nem os contribuintes alemães nem as elites alemãs querem uma Guerra Fria com a Rússia. Até os mais altos líderes militares, que apoiam a ideia de ampliar gastos militares, opõem-se à ideia de fazer da Ucrânia estado membro da OTAN. [3] Os mais conhecidos e qualificados think-tanks alemães entendem que a finlandização será a melhor solução para a Ucrânia e para a Europa. [4]

Bases aéreas dos EUA na Alemanha
(clique na imagem para aumentar)
Rols Muetzenich, representante dos social-democratas alemães, relembrou o “Relatório Harmel” [Harmel Report, 1967]. Quando era ministro de Relações Exteriores, Harmel apresentou aos ministros da OTAN um documento intitulado “Tarefas Futuras da Aliança”. O documento, aprovado pelo conselho em dezembro de 1967, expunha a chamada “Doutrina Harmel”: advogava defesa forte, combinada com boas relações diplomáticas com os países do Pacto de Varsóvia. Essa “Doutrina Harmel” ajudou a pavimentar o caminho para a détente entre leste e oeste do início dos anos 1970s, que levou à Cúpula de Helsinki de 1975, e à criação da Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE). O próprio Harmel visitou vários países do Pacto de Varsóvia.

Quanto mais se disseminam na Europa esse tipo de sentimentos e de pensamentos, mais difícil, para Washington, disfarçar a própria aflição. Já faz quase um ano que se divulgaram notícias de que os EUA espionavam as comunicações alemãs; agora, há poucos dias, o Procurador-Geral da Justiça Alemã, Harald Range, anunciou que iniciou investigação criminal oficial sobre as denúncias de que o celular da chanceler Angela Merkel teria sido grampeado.

Harald Range
A decisão do Procurador-Geral alemão e a firmeza com que declarou que há crime se o celular da chanceler é invadido sem autorização judicial, mostra bem o quão profundamente os alemães se ressentiram ao saber que os EUA espionavam, há anos, a sua chanceler.

Há alguns dias, Range informou que já havia feito contato com Edward Snowden, através do advogado alemão da equipe de defesa de Snowden, para convocar Snowden a testemunhar. Snowden – que está vivendo em Moscou desde que divulgou centenas de milhares de documentos secretos ano passado, que expuseram a extensão planetária da espionagem/vigilância eletrônica feita pela Agência de Segurança Nacional dos EUA – ainda não respondeu à convocação da autoridade alemã. Os EUA não estão nada satisfeitos com a atitude do Procurador-Geral alemão, que lhes parece fora de lugar e tomada em momento bem pouco oportuno.

Segundo George Friedman, a Alemanha estaria virando problema para a Europa. [5] George Friedman erra. A Alemanha não é problema para a Europa: a Alemanha só é problema para os EUA, nessa sua ânsia démodée e pervertida de sempre querer dominar o mundo.



Notas da autora

[1] 29/5/2014, George Friedman, Germany – a Problem for Europe, Polski Radio (em polonês, mas a tradução do GOOGLE, embora fraca é legível)
[2] Entrevista de Rasmussen, publicada (al.) por Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung (Rasmussen: Nato muss sich ruesten, Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, 4/5/2014, p. 1), “Rasmussen’s remarks at OTAN defense ministers session”, 3/6/2014.
[3] 14/4/2014, Keine Aufnahme Ukraine in die OTAN/Stuttgarter Zeitung.
[4] Kaim M. Partnerschaft Plus: Zur Zukunft der OTAN_Ukraine Beziehungen. SWP-Aktuell 38, Mai 2014. 


domingo, 17 de novembro de 2013

Declaração de Jeremy Hammond ao Tribunal de New York em 16/11/2013

16/11/2013, Jeremy Hammond, OEN – OpEdNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jeremy Hammond

Declaração ao Tribunal, New York, EUA, 16/11/2013

Bom dia. Obrigado por essa oportunidade. Meu nome é Jeremy Hammond e estou aqui para ser sentenciado por atividades de hacking que executei durante meu envolvimento com os Anonymous. Estou preso no Centro Correcional de Manhattan há 20 meses, e tive muito tempo para pensar sobre como explicaria minhas ações.

Antes de começar, quero usar parte desse tempo para reconhecer e agradecer o trabalho das pessoas que me apoiaram. Quero agradecer a todos os advogados que trabalharam no meu caso: Elizabeth Fink, Susan Kellman, Sarah Kunstler, Emily Kunstler, Margaret Kunstler e Grainne O'Neill. Agradeço também a National Lawyers Guild, à Comissão de Defesa e Rede de Apoio Jeremy Hammond, aos Free Anons, à Rede de Solidariedade com os Anonymous, ao Grupo Anarquista Black Cross e a todos os demais que ajudaram com uma carta de apoio, escrevendo para mim, assistindo às audiências do Tribunal e divulgando minha causa e meu caso.

Agradeço também aos meus irmãos e irmãs trancafiados em prisões e aos que estão fora das prisões, ainda lutando contra o poder.

Os atos de desobediência civil e ação direta pelos quais estou sendo hoje sentenciado alinham-se todos pelos princípios de comunalidade e igualdade que guiaram minha vida.

Invadi os computadores de dúzias de empresas gigantes e instituições do Estado, entendendo muito claramente que o que fazia era contra a lei, e que minhas ações podiam jogar-me diretamente numa prisão federal. Mas senti que tinha a obrigação de usar minhas habilidades e competências para expor e denunciar a injustiça – e para trazer à luz a verdade.

Poderia ter alcançado os mesmos objetivos por meios legais? Tentei de tudo, de abaixo-assinados e campanhas eleitorais a manifestações pacíficas, e descobri que os que estão no poder não querem que a verdade seja exposta. Quando dizemos a verdade ao poder, somos ignorados, no melhor dos casos; ou brutalmente reprimidos, no pior. Estamos em luta contra uma estrutura de poder que não respeita nem os seus próprios mecanismos de fiscalização e equilíbrio, imaginem se respeitam os direitos dos seus próprios cidadãos ou a comunidade internacional.

Minha iniciação política aconteceu quando George W. Bush roubou uma eleição presidencial em 2000 e, na sequência tirou vantagem das ondas de racismo e patriotismo depois do 11/9, para lançar guerras imperialistas, não provocadas, contra o Iraque e o Afeganistão. Saí às ruas para protestar, acreditando, ingenuamente, que nossas vozes seriam ouvidas em Washington e que conseguiríamos parar a guerra. Em vez disso, fomos rotulados como traidores, espancados e presos.

Fui preso por numerosos atos de desobediência civil nas ruas de Chicago, mas só em 2005 comecei a usar minhas habilidades com computadores para quebrar a lei, em ação de protesto político. Fui preso pelo FBI por invadir os computadores de um grupo de direita, pró-guerra, chamado “Protest Warrior” – organização que vendia camisetas racistas em sua página Internet e agredia grupos antiguerra. Fui acusado, nos termos da Lei de Fraudes e Abusos por Computadores, e o “dano visado” no meu caso foi arbitrariamente calculado, multiplicando por US$500, os 5.000 cartões de crédito com os quais operava a base de dados de “Protest Warrior”, o que resultou num total de $2,5 milhões.

Minha sentença foi calculada a partir desse “dano”, embora nenhum cartão de crédito tenha sido usado ou algum dado tenha sido divulgado – por mim ou por qualquer outra pessoa. Fui condenado a dois anos de cadeia.

Na prisão, vi com meus próprios olhos a feia realidade de como o sistema de justiça criminal destrói a vida de milhões de pessoas mantidas em prisões fechadas. A experiência reforçou minha oposição contra as formas repressivas de poder e a favor de agir na defesa daquilo em que cada um acredite.

Quando fui solto, estava ansioso para retomar meu envolvimento nas lutas por mudanças sociais. Não queria voltar à prisão. Então, me dediquei ao trabalho de organizar comunidades, trabalho de superfície. Mas, com o tempo, frustrei-me com as limitações das manifestações pacíficas, que me parecem reformistas e inefetivas. O governo Obama continuou as guerras no Iraque e no Afeganistão, aumentou o uso de drones e não fechou a prisão da Baía de Guantánamo.

Por essa época, eu acompanhava o trabalho de grupos como WikiLeaks e Anonymous. Era inspirador e estimulante ver as ideias do hack-ativismo afinal dando resultados. Fiquei particularmente motivado pela ação heroica de Chelsea Manning, que revelou ao mundo as atrocidades cometidas pelos militares norte-americanos no Iraque e no Afeganistão. Ela assumiu enorme risco pessoal para vazar essa informação – porque acredita que a opinião pública tem o direito de saber, e por esperar que suas revelações seriam passo positivo para pôr fim àqueles abusos. Fica-se com o coração apertado, só de ouvir contar sobre o tratamento cruel que ela recebeu numa prisão militar.

Refleti profunda e longamente sobre escolher outra vez esse caminho. Tive de perguntar a mim mesmo: se Chelsea Manning mergulhou no pesadelo abismal da prisão, porque lutava pela verdade, como poderia eu, de boa consciência, fazer menos que ela, já que eu era capaz? Concluí que o melhor modo de demonstrar solidariedade era dar continuidade ao trabalho de expor fatos e enfrentar a corrupção.

Aproximei-me dos Anonymous, porque acredito em ação direta, descentralizada e anônima. Naquele momento, os Anonymous estavam envolvidos em operações de apoio aos levantes da Primavera Árabe, contra a censura, e em defesa de WikiLeaks. Eu tinha muito a oferecer como contribuição, incluindo competências técnicas, e podia articular melhor ideias e objetivos. Foram tempos entusiasmantes – o nascimento de um movimento digital de resistência, quando os conceitos e as competências do hack-ativismo estavam ganhando forma.

Interessava-me especialmente o trabalho dos hackers de LulzSec, que estavam quebrando alguns alvos importantes e iam-se tornando cada vez mais políticos. Por essa época, falei pela primeira vez com Sabu, que era muito aberto sobre as ações de hacking que ele dizia ter cometido, e estimulava os hackers a unir-se para atacar sistemas de computadores de grandes unidades do governo e de megaempresas, sob a bandeira do movimento “Anti Security”. Mas logo no início do meu envolvimento, os outros hackers de Lulzsec foram presos; restei eu, para quebrar sistemas e escrever press releases.

Hector Xavier Monsegur,
o traidor Sabu
Adiante, eu descobriria que Sabu foi o primeiro a ser preso, e que, durante todo o tempo em que eu falava com ele, ele já era informante do FBI.

Os Anonymous também se envolveram nos estágios iniciais de Occupy Wall Street. Participei regularmente nas ruas, como militante de Occupy Chicago, e entusiasmei-me ao ver um movimento mundial de massa contra as injustiças do capitalismo e do racismo. Ao final de uns poucos meses, as “Occupations” chegaram ao fim, destruídas por ataques da Polícia e prisões em massa de manifestantes, arrancados de suas próprias praças públicas.

A repressão contra os Anonymous e o Movimento Occupy deu o tom da ação dos Antisec nos meses seguintes – a maior parte de nossas ações de hacking contra alvos da Polícia foram retaliações contra as prisões de nossos camaradas.

Eu, pessoalmente, tomei por alvo os sistemas policiais, por causa do racismo e da desigualdade com que se aplica a lei criminal. Tomei por alvo as indústrias e distribuidores de equipamentos militares e policiais, que lucram com a fabricação e a venda das armas que os EUA usam para impor seus interesses políticos e econômicos por todo o mundo, e para reprimir cidadãos norte-americanos aqui mesmo. Tomei por alvo empresas privadas de segurança da informação, porque trabalham secretamente para proteger interesses do governo e de empresas privadas, à custa de atacarem direitos civis individuais, minando e desacreditando ativistas, jornalistas e outros que trabalham para conhecer e divulgar a verdade; e porque vivem de disseminar a desinformação.

Nunca tinha ouvido falar de Stratfor, até que Sabu falou sobre eles. Sabu estava encorajando pessoas a invadir sistemas, e ajudando a facilitar e dar organização estratégica aos ataques. Chegou a fornecer-me pontos vulneráveis dos alvos, passados a ele por outros hackers. Por isso, foi grande surpresa quando soube que, durante todo o tempo, Sabu trabalhava com o FBI.

Dia 4/12/2011, Sabu foi contatado por outro hacker que já havia invadido a base de dados dos cartões de crédito de Stratfor. Sabu, então, sob o olhar atento dos agentes do governo que o estavam manipulando, levou o hack para o movimento Antisec, convidando aquele hacker para nossa sala privada de bate-papo, onde ele forneceu os links para baixar toda a base de dados dos cartões de crédito, além dos pontos iniciais de vulnerabilidade para acessar os sistemas de Stratfor.

Passei algum tempo pesquisando Stratfor e revisando a informação que nos fora fornecida, e decidi que suas atividades e a base de clientes tornavam a empresa alvo bem merecido. Achei curioso que os ricos e poderosos clientes da base de dados de Stratfor só usassem seus cartões de crédito para doar para organizações humanitárias, mas meu principal papel no ataque era obter as pastas dos e-mails privados de Stratfor, onde, tipicamente, estão os segredos mais sujos.

Demorei mais de uma semana para conseguir mais acesso aos sistemas internos de Stratfor, mas acabei entrando no servidor principal. Era tanta coisa, que precisamos de vários servidores nossos para transferir os e-mails. Sabu, que estava envolvido em todos os passos da operação, ofereceu um servidor – que ele recebera do FBI e era monitorado pelo FBI. Nas semanas seguintes, os e-mails foram transferidos, os cartões de crédito usados para doações, e os sistemas de Stratfor foram desconfigurados e destruídos.

Por que o FBI nos apresentou o hacker que descobrira a vulnerabilidade inicial e por que o FBI permitiu que ele continuasse o que havia começado são coisas que, para mim, continuam a ser mistério total.

Resultado da ação de hacking contra os sistemas de Stratfor, conhecem-se hoje alguns dos perigos de haver uma indústria privada de inteligência sem qualquer tipo de regulação. Revelou-se através de Wikileaks e do trabalho de outros jornalistas pelo mundo, que Stratfor mantinha uma rede de informantes pelo mundo, informantes que a empresa usava para todos os tipos de atividade ilegal de vigilância, sempre a serviço de grandes empresas multinacionais.

Depois de Stratfor, continuei a quebrar outros sistemas-alvos, usando uma poderosa “zero day exploit” que me permitia acesso de administrador a sistemas que rodavam a popular plataforma Plesk de hospedagem de rede. Várias vezes, Sabu me pediu que lhe desse acesso a essa exploração. Recusei sempre. Sem ter seu próprio acesso independente, Sabu continuou a me fornecer listas de alvos vulneráveis. Invadi inúmeras páginas que ele me sugeriu, descarreguei as contas de e-mails e bancos de dados roubados no servidor FBI de Sabu; e passei a ele senhas e backdoors que permitiram que Sabu (e, portanto, também o FBI que controlava Sabu) controlassem aqueles alvos.

Essas intrusões, as quais foram todas sugeridas por Sabu quando já cooperava com o FBI, afetaram milhares de nomes de domínio; na grande maioria eram páginas oficiais de governos estrangeiros, dentre os quais XXXXXXX, XXXXXXXX, XXXX, XXXXXX, XXXXX, XXXXXXXX, XXXXXXX e XXXXXX XXXXXXX. [1]

Num caso, Sabu e eu demos informação de acesso a hackers que trabalharam para desconfigurar e destruir muitas páginas oficiais de governo em XXXXXX.

Não sei como outras informações que lhes forneci podem ter sido usadas, mas penso que a coleta e o uso desses dados, pelo FBI e, portanto, pelo governo dos EUA, têm de ser investigados.

O governo hoje está celebrando minha condenação e minha prisão, na esperança de que fechará a porta e encerrará a história para sempre. Eu assumi plena responsabilidade pelos meus atos, quando me declarei culpado. Quando o governo dos EUA será forçado a responder pelos seus crimes?

Os EUA inflam a ameaça que os hackers representariam, para justificar os negócios multibilionários do complexo industrial da cibersegurança, mas, ao mesmo tempo, o próprio governo é também responsável pela mesma conduta que ele mesmo processa e condena, e diz que trabalha para prevenir. A hipocrisia da “lei e da ordem” e as injustiças causadas pelo capitalismo não podem ser “curadas” por reformas institucionais; só podem ser corrigidas por desobediência civil e ação direta. Sim, eu violei a lei. Mas acredito que às vezes as leis têm de ser violadas, para criar espaço para a mudança.

Frederick Douglas
!818-1895
Nas palavras imortais de Frederick Douglas,

O poder não dá nada que não lhe seja exigido. Nunca deu e nunca dará. Descubra a quê algum povo submeteu-se em silêncio, e você terá a exata medida da injustiça e dos malfeitos impostos àquele povo, e a injustiça e os malfeitos continuarão, até que o povo se levante contra eles, seja com palavras, seja com armas, ou com ambos. Os limites de cada tirano podem ser medidos pela capacidade de tolerar dos que eles oprimem.

Não estou dizendo que não me arrependo de nada. Percebo que divulguei informação pessoal de gente inocente, que nada tinha a ver com as operações das instituições que tomei como alvos. Peço desculpas pela divulgação de dados que tenha ofendido pessoas e eram irrelevantes para meus objetivos. Acredito no direito individual à privacidade – contra a vigilância do Estado e contra agentes como eu; e vejo bem a ironia de eu ter-me envolvido em ataques contra esses direitos.

Meu compromisso é trabalhar para fazer desse mundo um lugar melhor para todos nós. Ainda acredito na importância do hack-ativismo como forma de desobediência civil, mas é hora, para mim, de mudar para outros modos de buscar a mudança. O tempo de cadeia pesa muito sobre minha família, meus amigos e a comunidade. Sei que precisam de mim em casa. Reconheço que, há sete anos, já estive à frente de um juiz federal, enfrentando acusações semelhantes, mas isso não diminui a sinceridade do que digo aqui hoje.

Custou-me muito escrever isso, para explicar minhas ações, sabendo que o que fiz – sinceramente – pode custar-me ainda mais anos de vida na cadeia. Sei que posso ser condenado a dez anos, mas espero que não seja, porque acredito que há muito trabalho a ser feito.

Mantenham-se fortes e continuem a lutar.




Nota dos tradutores
[1] Ontem (15/11/2013), Jeremy Hammond distribuiu documento por Pastebin, intitulado Targets supplied by FBI to Jeremy Hammond [Alvos fornecidos pelo FBI a Jeremy Hammond] em que todos esses nomes aqui censurados aparecem listados. No documento de pastebin, fica muito claro que Hammond não tem dúvidas de que as invasões “orientadas” por Sabu estavam sendo, de fato, orientadas pelo FBI, para alvos que interessavam ao FBI, inclusive a empresa Strafor.



terça-feira, 28 de maio de 2013

Jeremy Hammond, sobre as acusações às quais responde: “Hoje me declarei culpado”

28/5/2013, Campanha Free Jeremy Hammond!
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

Jeremy Hammond
Jeremy Hammond (nascido dia 8/1/1985) é ativista político, desenvolvedor de páginas para internet e músico em Chicago. Foi acusado pelo governo dos EUA de ter divulgado arquivos de propriedade da agência privada de espionagem Stratfor, distribuindo-os pela página de WikiLeaks. É criador-fundador da página HackThisSite.org, para treinamento em segurança de computadores, criada em 2003, logo depois de Hammond ter concluído o ginásio na Glenbard East High School.

Aaron Swartz
Dia 20/2/2013, em declaração publicada em: Jeremy Hammond on Aaron Swartz & the Criminalization of Digital Dissent, por ocasião da morte de Aaron Swartz, Hammond escreveu:

Enfrento hoje várias acusações por conspiração e invasão de computadores, decorrentes de um suposto envolvimento que eu teria com Anonymous, LulzSec e AntiSec, grupos que descobriram e expuseram a corrupção reinante em instituições governamentais e empresas como Stratfor, The Arizona Department of Public Safety e HB Gary Federal.

A pena, para o meu caso, foi dramaticamente aumentada recentemente, porque a “Lei Patriótica” [orig. Patriot Act] alargou muito a definição legal do que seja “a perda” sofrida por essas empresas invadidas e cuja corrupção foi afinal exposta. Graças à nova lei, a empresa Stratfor pôde declarar que teria sofrido danos superiores a 5 milhões de dólares, incluídos aí o custo exorbitante que pagou para alugar serviços externos de proteção e empresas de “infosec”, para contratar novos servidores, 1,6 milhão de dólares de indenização por “perda potencial de lucros” durante o tempo em que seu website esteve fora do ar, e, até, as custas – 1,3 milhão de dólares – de um processo trabalhista movido contra eles.

Somando-se as acusações que me foram feitas, de uso de “meios sofisticados” e de ter atacado “infraestrutura crítica”, há risco de eu receber pena entre 30 anos de cadeia e prisão perpétua.

Encenações e táticas sujas de tribunal e longas sentenças não são anomalias: são partes inseparáveis de um sistema de “justiça” fundamentalmente vicioso e corrupto, que visa a arrancar, além da vida, também a maior quantidade possível de dinheiro do encarceramento em massa, sobretudo de negros e, em todos os casos, dos mais pobres. A tática de cooptar informantes, em troca de sentenças mais leves, é não só usada corriqueiramente para que Procuradores repressores dediquem-se a intimidar a participação dos cidadãos em manifestações de protesto e a ampliar a caçada islamofóbica a bruxas, caçada sob a qual nenhum cidadão está protegido contra qualquer acusação sem provas de “terrorismo”; a mesma tática é usada também em muitos casos de drogas, nos quais os acusados estão expostos, sem qualquer proteção democrática ou civil, às penas mais severas do mundo.

No caso de Aaron Swartz, sobre o qual se lançaram 13 acusações graves, é provável que a intensa pressão, feita por uma Procuradora ferozmente ambiciosa, a qual, mesmo sabendo das fragilidades psicológicas de Aaron, continuou a exigir que fosse encarcerado até a velhice, seja a causa que o levou à morte.
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Hoje, Jeremy Hammond declarou-se culpado dos crimes de que é acusado e distribuiu a seguinte declaração:

Hoje me declarei culpado da acusação de ter violado a Lei de Fraudes e Abusos em Computadores [orig. Computer Fraud and Abuse Act]. Foi decisão muito difícil. Espero conseguir explicar aqui os meus motivos.

Acredito no poder da verdade. Fiel a essa convicção, não quero ocultar o que fiz, nem me esconder por ter feito o que fiz. Agora, que já declarei que não aceito cooperar com os juízes, em troca de penas menores, sinto-me livre para contar ao mundo o que realmente fiz e por quê, sem ser obrigado a expor aos juízes nenhuma das minhas táticas e nenhum dos meus recursos, e sem pôr em risco a vida, a segurança e o bem-estar de outros ativistas, online e offline.

Ao longo dos últimos 15 meses tenho-me mantido relativamente calado sobre detalhes do meu caso, enquanto trabalhava com meus advogados para revisar nossa posição e conceber a melhor estratégia legal possível. O caso que o Estado construiu contra mim tem inúmeras incongruências e problemas, dentre os quais a nenhuma credibilidade do informante do FBI, Hector Monsegur.

Mesmo assim, porque os Procuradores inflaram, sem qualquer comprovação, todos os danos que sou acusado de ter provocado, logo percebi que, se condenado, minha pena seria superior a 30 anos.

Meus advogados são maravilhosos e há uma comunidade muito ativa que me apóia do lado de fora. Nada disso muda o fato de que já posso me considerar condenado. Mas, ainda que fosse declarado não culpado no tribunal, os procuradores já disseram que há oito outras acusações contra mim, a partir de queixas apresentadas em vários pontos do país. Se me absolvessem aqui, com certeza seria despachado para vários outros tribunais, acusado, em cada distrito, pelos mesmos crimes. O processo, assim, seria indefinidamente reencenado.

Concluí que a via mais prática a seguir seria aceitar a acusação que me foi feita aqui em New York, receber a pena de, no máximo dez anos de prisão e, com ela, uma imunidade que me poupará de ser re-acusado e re-condenado em todos os tribunais federais.

Agora, então, que já me declarei culpado, é um alívio poder contar a todos que, sim, trabalhei com os Anonymous para invadir a página de Stratfor, além de outros websites. Esses outros incluem páginas de empresas fornecedoras de equipamento militar e policial, empresas de inteligência privada, empresas de segurança da informação e agências de administração e aplicação de leis.

Fiz o que fiz porque acredito que as pessoas têm pleno direito de saber o que os governos e as empresas privadas fazem em seus gabinetes e salas fechadas. Fiz o que acredito ser a coisa certa.

Estou preso já há 15 meses. Várias semanas desses meses passei-as em cela solitária. Proibiram-me visitas e telefonemas e qualquer contato com minha família e meus amigos. Tendo-me declarado culpado, poupo a mim, à minha família e à minha comunidade de ativistas a repetição de todo esse processo e seus padecimentos.

Quero agradecer a todos os meus amigos e apoiadores pelos maravilhosos e repetidos gestos de solidariedade. Estou aliviado por ter assumido a responsabilidade pelo que fiz e por ter dado pelo menos um passo na direção de voltar a ver a luz do dia.

[assina] Jeremy Hammond

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sábado, 17 de março de 2012

Stratfor, a “CIA privada”, comprou um “jornalista de renome”


16/3/2012, Adam Weinstein, Mother Jones
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:
Quem leia os e-mails de Stratfor publicados por Wikileaks e leia as colunas jornalísticas publicadas no Brasil sobre questões internacionais (aquele ridículo festival de “a Casa Branca informou” e “o Observatório Sírio de Direitos Humanos informou que houve 63,78 novas mortes hoje” etc.) – já viu, desde o primeiro e-mail, que o que escrevem os “especialistas” de Stratfor e o que “noticiam” os jornalistas e correspondentes internacionais brasileiros são, de fato, os mesmíssimos péssimos jornalismo & opinionismo mais toscos.  Quanto a Robert D. Kaplan, cuja contratação por Stratfor é aí abaixo espinafrada, sempre foi colunista traduzido e publicado n’O Estado de S.Paulo, como se comprova, por exemplo, em: Novas democracias. Ou algo parecido com isso


Adam Weinstein é reporter de assuntos de Segurança Nacional, Relações Civis-Militares, Orçamento e Política Nuclear. Veterano da Marinha dos EUA e ex combatente no Iraque



Stratfor, a agência-empresa privada de inteligência que tem sede no Texas, e que já foi chamada de “a CIA privada”, ou “a CIA clandestina”, anunciou essa semana que contratou o jornalista Robert D. Kaplan, há muito tempo correspondente nacional do jornal The Atlantic, para trabalhar como “principal estrategista geopolítico da empresa” [1].

É movimento no mínimo curioso, e dos dois lados, e que visa, pelo menos aparentemente, a soprar nova vida naquela empresa, hoje em frangalhos, que viu recentemente seus e-mails de comunicação interna expostos a críticas devastadoras.

“Além de mobilizar todo o vasto conhecimento que acumulou sobre os muitos países pelos quais viajou, Robert trabalhará como valioso mentor de nossos analistas regionais e globais” – disse George Friedman, presidente da empresa Stratfor, em declaração. “Os leitores de Stratfor terão acesso ao pensamento de um dos mais importantes escritores do campo dos assuntos internacionais”.

Muito conhecida (e raramente elogiada) nos círculos políticos e de segurança desde a fundação, nos anos 1990s, Stratfor ganhou as manchetes do mundo no mês passado, quando Wikileaks começou a publicar na rede os 5 milhões de e-mails que hackers capturaram da empresa. Em vez de comprovar os talentos e competências nos prognósticos, sempre alardeados pela empresa, a maioria dos e-mails até agora divulgados só comprovaram o espírito de cínico mercantilismo e de autoelogio desbragado dos empregados da empresa (“Posso pôr as mãos nos materiais confiscados da fortaleza de Osama bin Laden”, um deles escreveu, na noite em que Osama bin Laden foi morto no Paquistão [2]). Desde o início da publicação dos e-mails por Wikileaks, Stratfor viu-se obrigada a oferecer de graça aos clientes [3], as suas análises e informações, antes caríssimas. 

A captura e publicação dos e-mails pode ter provocado grave dano aos negócios futuros de Stratfor; assim sendo, o que sugere a contratação agora anunciada? Kaplan [4] é autor prolífico, cujas dúzias de livros publicados cobrem conflitos em, praticamente, todos os continentes. Suas ruminações pop-históricas sobre guerras – com citações de Tucídides e Bismarck, para fazer sermões sobre democracia, exibem um etos de guerreiro “pagão”, e muito ajudaram a promover a invasão do Iraque – sempre imediatamente citadas e recitadas por líderes políticos de várias bandeiras. Os presidentes Bill Clinton e George W. Bush sabidamente recorreram a seus conselhos, e Kaplan já participou de um influente painel político no Pentágono durante o governo Obama. Nesse sentido, a contratação pode ser vista como um movimento da empresa Stratfor para refazer pontes abaladas com seus clientes dentro do governo, dentre os quais os Marines e o Departamento de Segurança Nacional.

Mas especialistas em política internacional dizem que o casamento também pode ser interessante por razões menos nobres.

“Além do polpudo salário que suspeito que Kaplan passe a receber, a união faz pleno sentido intelectual”, diz Daniel Drezner, professor na Escola Fletcher de Direito e Diplomacia da Tufts University, e blogueiro da revista Foreign Policy, por e-mail: “Kaplan e George Friedman partilham um mesmo senso de determinismo geográfico que os autoriza a proclamar os próprios supostos poderes para prever acontecimentos”.

Robert D. Kaplan
De fato, Stratfor e Kaplan subscrevem uma escola de pensamento tida em alta conta por muitos especialistas em inteligência e política externa. São crentes devotados da “geopolítica”, termo de política externa particularmente caro a Henry Kissinger, que denota um pressuposto cuidado amoral, desapaixonado, pelos “interesses nacionais” (como acesso a minérios e petróleo). É conceito muito discutido em seminários de alunos e frequentemente descartado por gente de melhor estofo, por simplório e imperialista. “O talento de Kaplan consiste em dizer aos poderosos o que querem ouvir, com ares de conhecimento empírico e vestes teóricas, sem que, de fato, haja nem uma coisa nem outra no que dizem”, escreve Robert Farley, professor de relações internacionais que assina um blog em Lawyers, Guns, and Money.

As credenciais jornalísticas de Kaplan não poderiam ser menos confiáveis. Fez fama com matérias sobre terras sempre distantes, em prosa sempre assustadora – cobriu a ação dos mujahideen no Afeganistão em 1990, antes que a maioria dos norte-americanos conseguissem achar o país no mapa. Seus livros são regularmente elogiados pelo New York Times, pelo Washington Post e pelo Wall Street Journal, dentre outros veículos afamados que lhe compram artigos e reportagens. Trabalhou no The Atlantic por mais de 25 anos e foi recentemente listado entre os “100 principais pensadores globais” pela revista Foreign Policy.

Apesar disso, para alguns especialistas em questões internacionais, o trabalho de Kaplan reproduz e perpetua estereótipos étnicos. Segundo um analista britânico de política internacional, o livro Balkan Ghosts, de Kaplan, que se supõe que tenha influenciado as ideias de Clinton sobre Bósnia e Kosovo, é conhecido no campo dos estudos europeus sobre o sudeste da Europa por pintar os povos da ex-Iugoslávia como primitivos e violentos. “É um dos textos no qual nasceu a “teoria” dos “ódios regionais seculares” para explicar as guerras na Iugoslávia”, escreveu-me, por e-mail, aquele analista. “Por isso é considerado texto muito problemático pelo pessoal que há 20 anos estuda o sudeste europeu e os conflitos étnicos.” 

Esse tipo de raciocínio geopolítico redutivo aparece bem claro no primeiro comentário de Kaplan já a serviço de Stratfor, no qual compara a Primavera Árabe às revoltas esquerdistas na Europa de meados do século 19 (“1848 na Europa: o ano que não aconteceu”). Assim também a conversa [vídeo] com Friedman, da Stratford, na qual Kaplan explica que “o Irã é uma potência regional potencial” porque tem acesso às águas cálidas e às linhas de gás natural da Ásia Central  [5]. (E acrescenta: “Os iranianos respondem a pressões, mas só a pressões extremas”.) É perfeito para fazer dueto com Friedman, que disse uma vez, a uma multidão reunida para ouvi-lo em Davos: “Há uma solução para a proliferação [de armas]: bombardear tudo”.

George Friedman
Friedman gosta de dizer que sua empresa não vende mero jornalismo “retrógrado” [6] , o que não é difícil, porque jornalistas sérios não vivem, em geral, de seguir ativistas que se opõem a grandes empresas como Coca-Cola, Intel e ADM. Esse tipo de atividade levanta uma pergunta óbvia sobre Kaplan: Depois de trabalhar para uma butique de espionagem privada, os veículos de mídia continuarão a valorizar seu trabalho [7], ou sua carreira como jornalista está definitivamente encerrada?

Nem Kaplan nem Friedman responderam meus convites para comentar essa matéria. Kaplan ainda aparece listado como correspondente nacional no expediente de The Atlantic, mas, se espera manter o posto ativo, é parada dificílima. Stratfor “é piada”, escreveu Max Fisher, um dos colegas de Kaplan no Atlantic  [8], mês passado.

“A reputação do grupo entre o pessoal das relações internacionais, professores, analistas e jornalistas, é baixa; são considerados mais como panfleteiros que como fonte de informação ou ideias aproveitáveis”, escreveu. “Um amigo meu, que escreve sobre questões de inteligência, disse, certa vez, que Stratfor é The Economist, uma semana antes, e muitas centenas de vezes mais cara”.



Notas dos tradutores

[2] Telegrama 1146487, de 14/5/2011, 1h47, The Global Intelligence Files em: “Re: OBL take -- quick response needed
[3] Março, 2012, Stratfor.com em: FAQ
[5] Blip TV – Stratfor.com –Confronting Iran's Growing Ambitions (Agenda)
[6] Stratfor single (free) – Institucional
[7] “No Brasil, um carinha como esse Kaplan sempre encontrará emprego de jornalista na Rede Globo e em todo o Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), com direito a fotinho na página do Instituto Millenium. Na pior das hipóteses, pode fazer um bico no canal Globo News, como yesman do William Waack, ou como professor do Celso Lafer. Avisa-lá!” [risos, risos] (Entreouvido na Vila Vudu).