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domingo, 11 de agosto de 2013

Asilo para Snowden: “É a lei, estúpido!”

8/8/2013, [*] Richard Falk, Al-Jazeera, Qatar  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Documento de concessão temporária da Rússia a Edward Snowden, por um ano, com status de refugiado político
A imprensa-empresa mais influente nos EUA tem usado três meios para reforçar seu viés a favor do governo, no caso Snowden:

Primeiro, refere-se sempre a Snowden como “vazador” [orig. lit. leaker], em vez de “alertador” [orig. whistleblower, lit. “tocador de apito”] ou “dissidente [do estado] de vigilância”, designações mais precisas e mais respeitosas.

Segundo, a imprensa-empresa dominante ignora completamente o quanto o gesto dos russos, de dar status de refugiado temporário a Snowden por um ano está em perfeito acordo com o nível normal de proteção a ser dada a qualquer pessoa acusada de crimes políticos não violentos em país estrangeiro, e perseguida diplomaticamente e legalmente por governo que busque indiciá-la e processá-la.
A Rússia entregar Snowden aos EUA nessas condições seria moralmente e politicamente escandaloso, considerando-se a natureza dos crimes de que os EUA acusam Snowden.

Terceiro, a imprensa-empresa dominante recusa-se a reconhecer que espionagem, a principal acusação feita contra Snowden, é a principal e maior, a “ofensa política” essencial, na lei internacional, e como tal é rotineiramente excluída de qualquer lista de ofensas que geram extradição.

Assim sendo, ainda que existisse tratado de extradição entre EUA e Rússia, seria preciso deixar absolutamente claro que não há nenhum dever legal, para os russos, de entregar Snowden às autoridades dos EUA para ser processado criminalmente e, sim, haveria um dever moral e político de não o entregar, sobretudo nas circunstâncias que cercam a controvérsia sobre Snowden.

Barack Obama
Se todos esses elementos estivessem sendo claramente articulados na discussão, pela imprensa-empresa, o governo dos EUA já teria sido exposto como ridículo, ao reclamar contra a disposição de vários governos estrangeiros de dar asilo a Snowden.

O governo Obama e os cabeças quentes do Senado que lastimassem o quanto quisessem por não poderem processar Snowden nos EUA; mas que o fizessem só com seus próprios botões. Em todos os casos, qualquer reclamação sempre seria o que é: império petulante, mostrando ira e fúria em caso no qual todo o seu poder mais duro, em todo o mundo, não lhe serve para coisa alguma; e suas opções políticas são proibidas por lei.

Nessas condições, pôr-se a ameaçar países estrangeiros com consequências diplomáticas adversas no caso de se recusarem e entrar no jogo não é só manifestação de frustração infantiloide: também é gesto que denuncia a própria derrota.

Os países que ofereceram asilo a Snowden ou que se recusaram, na forma adequada, a atender à requisição de Washington, quando os EUA requisitaram a custódia de Snowden, fizeram a única coisa decente que havia a fazer.

Surpreendente, isso sim, que outros governos não se tenham apresentado para fazer o mesmo. Assim se criou uma situação na qual países relativamente pequenos, como Bolívia, Venezuela e Nicarágua foram forçados a encarar sozinhos as violentas táticas “de braço longo” dos EUA – o que talvez sinalize uma bem-vinda nova atitude, mais firme, mais decidida, em toda a América Latina, de não mais aceitar como identidade regional a posição de quintal dos fundos do colosso do Norte.

Deve-se registrar que o presidente Vladimir Putin, considerando a natureza das revelações sobre o alcance global dos sistemas norte-americanos de vigilância e controle, agiu com excepcional deferência e muita consideração ante as sensibilidades norte-americanas. Em vez de simplesmente declarar que Snowden só seria entregue aos EUA se assim o desejasse, Putin cuidou de dizer que não queria que o incidente ferisse as relações da Rússia com os EUA. Chegou até a condicionar a concessão do asilo a uma muito estranha promessa, que exigiu de Snowden, de que não voltaria a divulgar documentos que arranhassem interesses norte-americanos.

Charles Schumer
Foi abordagem construtiva, em situação extremamente delicada, que supera, qualitativamente, os arroubos hiperbólicos e as palavras agressivas do senador suposto Democrata de New York, Charles Schumer:

A Rússia nos apunhalou pelas costas (...) Cada dia que Snowden permanece em liberdade, é mais uma corte do punhal, na ferida.

Devem-se cobrar respostas honestas a esses senadores tão terrivelmente ofendidos, entre os quais John McCain e Lindsey Graham, que não perdem chance de inventar brigas. O que teriam feito, se um alertador russo tivesse revelado detalhes de um sistema russo de espionagem que estivesse ouvindo todas as deliberações secretas do governo em Washington e invadindo a privacidade de todos os norte-americanos? A indignação arrogante seria sem limites nos EUA, como também seria infinita a gratidão que cobriria o Snowden russo.

Mas Washington só faz procurar meios para manifestar o quanto está ‘ofendida’ pelo comportamento dos russos. O secretário de imprensa da presidência dos EUA, fala de “extremo desapontamento”, que pode levar Obama a cancelar encontro marcado  com Putin para setembro, em cuja agenda estão itens como Síria, redução de arsenais nucleares e o Irã.

John McCain (E) e Lindsey Graham (D)
Os senadores John McCain e Lindsey Graham, saudosos dos dias da Guerra Fria, lançaram manifesto conjunto incendiário, exigindo que os EUA passem a considerar a Rússia numa ótica de conflito. Propuseram impetuosamente que, como reação ao asilo concedido a Snowden, se acelerem os planos para instalação de sistemas de mísseis de defesa na Europa e expanda-se a OTAN, em termos que o Kremlin teria de interpretar como de antagonismo declarado.

É verdade que a nova identidade de Putin, como “defensor de direitos humanos” não tem toda a necessária credibilidade, se se considera o modo como os dissidentes políticos são tratados na Rússia, mas isso não diminui a evidência de que a resposta que deu ao caso Snowden foi corretíssima.

Há obtusidade na fúria com que a diplomacia dos EUA está atuando nesse caso. Os atos de espionagem que Snowden cometeu são puro delito de natureza política. Além disso, a natureza do que foi revelado mostrou que, sim, há ameaça real e repetida à confidencialidade das comunicações de governo em todo o mundo

No mínimo, em vez de se deixar intimidar pelas demandas descabidas dos EUA, a resposta internacional mais apropriada e mais saudável seria gritar “Falta!” e parar o jogo.

Se o mundo fosse constituído de estados igualmente soberanos e houvesse legislação global, os EUA teriam de humildemente pedir desculpas e, no mínimo, prometer que não repetiriam no futuro, o comportamento de até agora.

Snowden seria punido por desobedecer à lei norte-americana, mas seria condecorado por apontar algumas feias agressões à liberdade e à ordem constitucional, inclusive dentro dos EUA, mostrando o quanto é perigoso deixar o serviço de equilibrar segurança e respeito às liberdades civis entregue à boa fé e ao juízo de burocratas e políticos.

Vivemos um triste momento de verdade, que fala muito de alinhamentos e sensibilidades. Alguns importantes comentaristas nos EUA, como o ex-diretor da CIA Robert Gates, e Jeffrey Toobin, especialista da rede CNN para questões legais, alinharam-se com a ordem estabelecida; disseram que confiam mais em anônimos funcionários públicos obedientes ao governo, que num dissidente como Edward Snowden que se dá o direito de decidir o que o público precisa saber.

Bradley Manning (E) e Julian Assange (D)
Como nos casos de Julian Assange e Bradley Manning, o teste crucial não acontece nesse nível de abstração, mas tem a ver com a concretude e implica decidir se o que foi revelado é o tipo de segredo sujo que uma sociedade democrática poderia ignorar para sempre.

Seria de esperar que governo genuinamente democrático não desejasse encobrir crimes de guerra e a invasão da privacidade dos cidadãos, nem que tanto se empenhasse para manter esses crimes protegidos contra qualquer procedimento para aumentar a transparência.

Darth Vader
Na era das maravilhas digitais, mais do que nunca dependemos de cidadãos de consciência, que nos protejam contra cenários orwellianos cerebrados por aspirantes a Darth Vaders que vivem nas profundezas obscuras da burocracia governamental em Washington. Esses são os indivíduos que repetidamente arrastam os EUA para o lado obscuro da força, em lugares como Guantánamo, Abu Ghraib e a base Bagram da Força Aérea, e constroem os infames “buracos negros” e inventam procedimentos depravados como a “entrega extrema” [orig. extreme rendition], pela qual suspeitos podem ser torturados sob certeza de impunidade para os torturadores, também no caso de se comprovar que o torturado é inocente.

Nós, cidadãos do mundo, devemos ser gratos pelos sacrifícios de indivíduos como Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, com certeza os principais heróis do nosso tempo. E se sonhamos com governos legítimos, nossos governantes e representantes eleitos devem também ser gratos pela possibilidade de pôr fim aos abusos do poder.


[*] Richard Falk é Professor Emérito da cátedra Albert G. Milbank de Direito Internacional na Princeton University e Professor Visitante Emérito de Estudos Internacionais na University of California, Santa Barbara. É também Relator Especial da ONU para Direitos Humanos na Palestina.

sábado, 3 de agosto de 2013

EUA desmoralizados

2/8/2013, [*] Paul Craig Roberts, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama ao saber que a Russia havia concedido asilo a Edward Snowden
Com Washington perdendo o poder de mandar no mundo, desafiada por Venezuela, Bolívia, Equador, e agora também pela Rússia, o governo dos EUA recorre já despudoradamente a chiliques de maus modos. As repetidas manifestações de infantilismo, pela Casa Branca e pelo Congresso dos EUA, envergonham todos os norte-americanos.

O mais recente surto de comportamento infantilóide em Washington é “resposta” ao Serviço de Imigração da Rússia, que garantiu asilo por um ano ao sentinela-apitador [orig. whistleblower] Edward Snowden, na Rússia, enquanto os russos analisam a possibilidade de conceder-lhe asilo permanente. Washington, depois de já ter convertido os EUA em estado sem lei, já não sabe, sequer, manter comportamento legal. Lei é o que interesse a Washington. Do ponto de vista de Washington, lei é o desejo de Washington. Qualquer um, pessoa ou país, que interfira no que Washington deseje, é declarado fora da lei.

Vladimir Putin 
Porque Obama, como Bush antes dele, rotineiramente desobedece à lei norte-americana e à Constituição dos EUA, a Casa Branca meteu-se na cabeça que o presidente Putin da Rússia também teria de desobedecer à lei russa e à lei internacional, cancelar a decisão do Serviço de Imigração da Rússia e entregar Snowden a Washington.

Washington quer porque quer que a Rússia lhe entregue Snowden, simplesmente porque Washington assim o “exige”. Como criança de dois anos, Washington simplesmente não concebe que esse tipo de “exigência” não se sobrepõe à lei internacional, nem à legislação interna de cada país. Como a Rússia atrever-se-á a não obedecer à “nação indispensável”?!

O/A porta-voz da Casa Branca, tão inexpressivo/a que não consigo lembrar nem o nome, nem se é homem ou mulher, declarou que o idiota da Casa Branca poderá “castigar” Putin e não aparecer para visitá-lo em Moscou, mês que vem. Duvido que Putin perca o sono, preocupado com se o idiota da Casa Branca aparece ou não aparece em Moscou.

O mandato do idiota da Casa Branca está chegando ao fim, mas Putin, a menos que a CIA o assassine antes, continuará em seu posto por mais dez anos. Importante, agora, é que todos os presidentes da Rússia já entenderam que o que o presidente dos EUA diga, não vale coisa alguma. Um Clinton, dois Bushes e o atual idiota da Casa Branca já violaram todos os acordos que Reagan firmou com Gorbachev. Que interesse teria o presidente da Rússia, nação governada por leis, em encontrar-se com mais um tirano?

Edward Snowden, asilado político em Moscou
Para nada ficar a dever ao infantilismo da Casa Branca, membros da Câmara de Representantes e do Senado dos EUA acrescentaram sua pitada de falta de vergonha, à vergonha que cobre os norte-americanos. Os idiotas do Congresso “reagiram furiosamente”, segundo os jornais, e alertaram para “graves repercussões que advirão para as relações EUA-Rússia”. Eis mais uma extraordinária demonstração da húbris de Washington. Só a Rússia teria por que se preocupar com “repercussões” nas relações. Washington pode dormir em paz. Sua Majestade Imperial, Barack I simplesmente recusará qualquer pedido de audiência que Putin lhe faça.

O Congresso parece nem perceber a própria esquizofrenia. Por um lado, o Congresso é ultrajado pela espionagem inconstitucional e ilegal mantida pela Agência Stasi de Segurança Nacional dos EUA – espionam até o Congresso! – e tenta cortar os fundos que mantêm o programa de vigilância ilegal da Agência Stasi de Segurança Nacional dos EUA. A emenda do gasto militar apresentada por Justin Amash, Republicano de Michigan, só por um triz não foi aprovada. Foi derrotada por um punhado de votos comprados pela indústria da espionagem.

Por outro lado, apesar do ultraje de descobrir-se espionado, o Congresso se empenha em escalpelar o mais bravo herói, Edward Snowden, o homem que os informou de que estavam sendo espionados. Não há demonstração mais clara da estupidez histórica do governo dos EUA: querem assassinar o mensageiro.

Congresso dos EUA por Tony Auth
Só uns poucos doidos de extrema direita ainda creem que a vigilância universal sobre todos os norte-americanos seria necessária para a segurança dos EUA. A Agência Stasi de Segurança Nacional resistirá com fúria e chantageará cada Deputado, cada Senador, mas a própria extensão da chantagem levará algum dia a tosar as asas da Agência Stasi de Segurança Nacional dos EUA. Ou, no mínimo, temos de esperar que as tosem. Se não acontecer assim, a Agência Stasi de Segurança Nacional terá tempo para organizar algum golpe, sob bandeira falsa, que aterrorizará os cordeirinhos eleitos e os porá de joelhos e dará fim a qualquer tentativa para controlar a agência-bandida.

Os EUA estão à beira do colapso econômico. A alegada “superpotência”, que hoje já enfrenta a bancarrota, não conseguiu, depois de oito anos de esforços, sequer ocupar o Iraque. E teve de entregar os pontos e desistir. Depois de 11 anos, a “superpotência” foi derrotada no Afeganistão por uns poucos milhares de Talibã e armas leves, e hoje corre à procura de toca onde se esconda, com o rabo entre as pernas.

Ante sua impotência militar os EUA limitam-se a prender, torturar e assassinar velhos, mulheres e crianças
Para compensar a própria impotência militar, Washington dedica-se a cometer crimes de guerra contra civis. Os militares norte-americanos são eméritos matadores de mulheres, crianças, velhos, médicos, enfermeiros e socorristas. O máximo que a “superpotência” pode fazer é disparar mísseis de drones pilotados à distância, contra sítios, pomares de maçãs, cabanas, barracas, escolas e centros médicos.

Os cegos esquizofrênicos que governam em Washington fizeram, dos norte-americanos, um povo odiado em todo o mundo. Os que ainda conseguem ver o suficiente para tentar escapar à tirania crescente também sabem que, onde quer que consigam esconder-se, ali também serão vistos como filhos da mais odiada nação do mundo, caçados onde apareçam, como espiões e bodes expiatórios e influência nefanda, sempre ameaçados de serem dizimados em represália contra a mais recente atrocidade ordenada por Washington.

Washington destruiu todo o futuro de todos os norte-americanos, em casa e em todo o mundo.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica.
Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos.

sábado, 13 de julho de 2013

Declaração de Snowden em Sheremetyevo em 12/7/2013

12/7/2013, 17h, Aeroporto de Moscou - WikiLeaks
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Edward Joseph Snowden fez uma declaração a organizações de direitos humanos e indivíduos que se reuniram com ele no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou, às 17h de hoje, 12/7/2013, 6ª-feira.

A reunião durou 45 minutos. Dentre outras organizações de Direitos Humanos estavam presentes Amnesty International e Human Rights Watch, que, depois da declaração, puderam fazer perguntas ao Sr. Snowden.

A representante da organização Human Rights Watch disse, nessa oportunidade, que quando vinha para o aeroporto, recebera telefonema do embaixador dos EUA na Rússia, que lhe pediu que dissesse ao Sr. Snowden que o governo dos EUA não classifica o Sr. Snowden como “whistleblower” e que ele infringiu a lei dos EUA.

Assim se comprova mais uma vez a perseguição que os EUA movem contra o Sr. Snowden e que ele, portanto, tem integral direito de pedir e aceitar asilo.

À esquerda do Sr. Snowden vê-se Sarah Harrison, conselheira jurídica enviada por WikiLeaks; à direita do Sr. Snowden, uma tradutora. 
A seguir, a declaração:

Declaração de Snowden em Sheremetyevo

Boa-tarde. Meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no paraíso, e vivia com grande conforto. Tinha também meios para, sem qualquer ordem judicial, procurar, avaliar e ler as comunicações de vocês todos. Comunicações de qualquer pessoa, a qualquer momento. É o poder para mudar o destino das pessoas.

E também é grave violação da lei. As 4ª e 5ª Emendas da Constituição do meu país, artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e inúmeros estatutos e tratados proíbem tais sistemas de vigilância pervasiva massiva. Enquanto a Constituição dos EUA define esses programas como ilegais, o meu governo argumenta que decisões tomadas por tribunais secretos, que o mundo não tem permissão para ver, legitimam, de algum modo aquele procedimento ilegal. Essas decisões de tribunais secretos corrompem, simplesmente, as noções mais básicas da Justiça – que a Justiça, para ser feita, tem de trabalhar às claras. O imoral não pode ser transformado em moral por força de lei secreta.

Acredito no princípio declarado em Nuremberg em 1945:

Os indivíduos têm deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de obediência. Portanto, cidadãos, indivíduos, têm o dever de violar leis domésticas para impedir que se cometam crimes contra a paz e a humanidade.

Assim, fiz o que acreditei ser certo e comecei uma campanha para corrigir esses malfeitos. Não procurei riqueza para mim. Não procurei vender segredos dos EUA. Não colaborei com qualquer governo estrangeiro para garantir minha segurança. Em vez disso, levei o que eu sabia para a opinião pública, para que o que nos afeta todos nós possa ser discutido por todos nós à luz do dia e pedi justiça ao mundo.

Essa decisão moral de contar à opinião pública sobre a espionagem que nos afeta todos foi difícil e custosa, mas foi a coisa certa a fazer, e não carrego nenhum arrependimento.

Desde aquele momento, o governo e os serviços de inteligência dos EUA vêm tentando converter-me em exemplo, um alerta a todos os outros que possam decidir falar, como eu decidi. Já me converteram em apátrida e estou sendo caçado por meu ato de expressão política. O governo dos EUA pôs meu nome em listas de pessoas proibidas de voar no mundo. Exigiu que Hong Kong me entregasse, em ato contrário às próprias leis, em violação direta do princípio da não devolução – a Lei das Nações. Ameaçou com sanções os países que decidiram defender meus direitos humanos e o sistema de asilo da ONU. O governo dos EUA tomou até a medida, sem precedentes, de ordenar a exércitos aliados que forçassem o pouso de um avião presidencial no qual viajava o presidente de um país latino-americano, para revistá-lo à procura de um refugiado político. Essa perigosa escalada representa uma ameaça não só à dignidade da América Latina, mais aos direitos básicos de todos os seres humanos, de todas as nações, de viver livres de perseguição e de buscar asilo e de asilar-se.

Contudo, mesmo ante essa agressão historicamente desproporcional, países em todo o mundo ofereceram-se apoio e asilo. Essas nações, entre as quais Rússia, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador, têm minha gratidão e meu respeito, por terem sido as primeiras a erguer-se contra as violações de direitos humanos cometidas pelos poderosos, mais do que pelos sem poder. Ao se recusar a ceder os próprios princípios ante a violência da intimidação, todos esses países se fazem credores do respeito do mundo. Tenho intenção de viajar a cada um desses países, para apresentar meus agradecimentos, pessoalmente, aos governos e aos cidadãos.

Anuncio hoje que formalmente aceito todas as ofertas de apoio ou de asilo que recebi e todas as que venham a ser-me oferecidas no futuro. Com, por exemplo, a garantia de asilo que me deu o presidente Maduro da Venezuela, meu estatuto de asilado é hoje formal – e nenhum estado tem base legal para limitar ou interferir no meu direito de gozar o direito daquele asilo.

Mas, como vimos, alguns governos da Europa Ocidental e estados da América do Norte demonstraram já sua disposição para agir à margem da lei. E essa ameaça persiste ainda hoje. Essa ameaça ilegal torna impossível minha viagem para a América Latina e me impede de usufruir os meus direitos de asilo, direito garantido para todos os homens e mulheres do mundo.

A intenção manifesta de estados poderosos para agirem contra a lei é ameaça que pesa contra todos nós e não se pode deixar que se concretize.

Assim sendo, peço que me ajudem a obter o direito de livre passagem pelo espaço aéreo de nações necessárias para que se complete em segurança a minha viagem para a América Latina. Peço também asilo à Rússia, até que aqueles estados aceitem obedecer à lei e permitam que eu viaje em segurança. Hoje apresentarei à Rússia o meu pedido de asilo. Espero que seja aceito.


Se tiverem perguntas, responderei as que eu puder. Obrigado.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Declaração de Edward Snowden, em Moscou

1/7/2013, WiliLeaks
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Edward Snowden
Deixei Hong Kong há uma semana, depois que ficou claro que minha liberdade e minha segurança estavam ameaçadas, por eu ter revelado a verdade.

Permaneço em liberdade graças a esforços de antigos e novos amigos, de minha família e de outros que sequer conheço e provavelmente nunca conhecerei. Confiei a eles a minha própria vida, e eles retribuíram essa confiança, com fé em mim, pela qual serei sempre agradecido.

Na 5ª-feira (27/6/2013), o presidente Obama declarou, perante o mundo, que não permitiria “manobras e negociações” [orig. "wheeling and dealing"] com o meu caso. Mas agora já há notícias de que, apesar de ter prometido o que prometeu, o presidente ordenou ao vice-presidente que pressione os líderes das nações às quais pedi proteção, para que rejeitem meus pedidos de asilo.

Esse tipo de falsidade, num líder mundial, não é justiça, nem é justiça a pena extralegal do exílio. São as mesmas velhas ferramentas da violência política. O objetivo delas é assustar, não eu, mas os que tentarem me ajudar.

Durante décadas, os EUA foram dos mais fortes defensores do direito humano de buscar asilo. Infelizmente, esse direito, declarado e aprovado pelos EUA no artigo 14 da Declaração Universal dos Direitos do Humanos, é agora negado pelo atual governo do meu país. O governo Obama adotou agora a estratégia de usar cidadãos, como armas. Apesar de eu não ser condenado por nenhum crime, os EUA revogaram unilateralmente meu passaporte, fazendo de mim apátrida. Sem qualquer ordem judicial, o governo dos EUA quer agora me impedir de exercer um direito básico. Um direito que é de todos: o direito de buscar asilo.

No fim, o governo Obama não tem medo de vigilantes como eu, Bradley Manning ou Thomas Drake. Somos homens sem pátria, prisioneiros ou impotentes. Não. O governo Obama tem medo de você. Tem medo de qualquer público bem informado e indignado, que exija que o governo Obama nos dê o governo constitucional que prometeu. Faz bem em temer todos os que ele teme.

Continuo firme nas minhas convicções e impressionado pelos esforços de tanta gente.

Edward Joseph Snowden

2ª-feira, 1/7/2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Pepe Escobar: “Nosso homem em Quito”

24/6/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online –The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
HONG KONG. Então, será Nosso Homem em Quito. A narrativa pode não ter a elegância das de Graham Greene, mas o enredo bate, sem dúvida, o da trilogia Bourne – porque está acontecendo ao vivo, em tempo real, bem aí à frente dos nossos olhos.

Só um ex-agente da CIA para bater a “inteligência” dos EUA – melhor dizendo, a carência de inteligência. A história da fuga de Edward Snowden, de Hong Kong, é coisa para estudar e aprender. No domingo, num restaurante de Hong Kong(Orig. at dim sum) fui alertado por uma fonte: “Prepare-se para coisa grande; ele sairá a qualquer momento”. Em Hong Kong, eram 12h30, horário local. Na verdade, Snowden já decolara do aeroporto Chek Lap Kok, no voo SU 213, destino Moscou, às 11h. Mas ninguém sabia. Hong Kong ainda digeria a primeira página do South China Morning Post, que exibia provas ainda mais devastadoras da ciberespionagem dos EUA contra a China.

Às 14h, houve o primeiro alerta no South China Morning Post: ele estava num avião, rumo a Moscou. Telefonei à rede Russia Today em Moscou: não sabiam; e puseram-se em campo. Na empresa-imprensa ocidental persistia o mais ensurdecedor silêncio. Até que, afinal, o Post noticiou, com algum detalhe. Mas demorou eras, antes de a Agência Reuters, afinal, distribuir um despacho curto (como comentei em minha página no Facebook). Quando a “comunidade internacional” começou a receber notícias de Snowden, ele já voava há cinco horas.

Asia Times Online também foi informado por fonte muito próxima de Snowden, que uma rápida parada em Hong Kong sempre foi parte do Plano A: ele jamais cogitou pedir asilo político, nem a Hong Kong, nem à China. Sempre esteve focado em “um terceiro país”. Mas Snowden usou Hong Kong como plataforma ideal para revelar ao mundo como operam os intestinos do estado-de-vigilância-orwelliano/Panopticon-EUA.

Primeiro, um bloco de revelações genéricas, para o The Guardian. Em seguida, mergulhou na clandestinidade para preparar a fuga – porque sabia que Washington partiria contra ele com unhas e dentes (e drones?). E então, um outro conjunto de revelações, ao jornal South China Morning Post, focadas em Ásia e China. Quando Washington acordou, Snowden já deixara o prédio. Jason Bourne, pode sapatear de raiva.

Não se trata de “deixamos Snowden escapar”. Tudo foi cronometrado meticulosamente, em operação que envolveu Snowden e o governo de Hong Kong, com mediação de WikiLeaks.

A declaração do governo de Hong Kong foi distribuída às 16h05 (vale repetir: Snowden já estava viajando há cinco horas). Ali se lia que “[O Sr. Edward Snowden] deixou Hong Kong hoje, por decisão pessoal, por um terceiro país, por via legal e normal”, porque o governo não recebera “informação legal suficiente para considerar o pedido dos EUA”, que pedia a prisão preventiva de Snowden.

Quer dizer: o governo dos EUA supôs que poderia simplesmente intimar o governo de Hong Kong: faça o que mandamos, ou saia da frente... e justo no dia em que os crimes de hacking serial dos EUA contra Hong Kong e China eram manchete nos jornais! Snowden já estava viajando há cinco horas rumo a Moscou, e a imprensa-empresa norte-americana ainda papagaiava a narrativa oficial – repetindo, como o Conselheiro de Segurança Nacional de Obama, que Snowden esta(ria) com a corda no pescoço.

Se Pequim teve ou não ação indireta sobre a decisão do governo de Hong Kong é questão aberta a um Mar do Sul da China de especulações. Fato é que a solução foi perfeita para Hong Kong – que passaria a enfrentar pressão total dos EUA para extraditá-lo – mas também para Pequim, que continua a mandar no jogo e furiosamente exige explicações sobre as ações da Agência de Segurança Nacional dos EUA a espionar as empresas chinesas de telefonia, rede Ásia-Pacífico de fibra ótica e até a Universidade Tsinghua de Pequim.  
Resta a questão do passaporte norte-americano de Snowden, revogado no sábado. Dependendo de quando, exatamente, Hong Kong foi oficialmente notificada, é possível que tenha havido uma estreita faixa de tempo, e ele tenha conseguido apresentar passaporte válido no balcão de check-in da Aeroflot no centro de Hong Kong, digamos, às 9h da manhã do domingo, antes dos 20 minutos de trânsito até o aeroporto Chek Lap Kok.

É possível também que WikiLeaks tenha providenciado algum outro tipo legal de arranjo. Ou o consulado russo em Hong Kong, que permanece perfeitamente calado.

É complô dos comunistas!

Keith Alexander
A previsível fúria no Capitólio, cheia de retórica contra “nações hostis” combinada à inevitável demonização do presidente Vladimir Putin da Rússia, para nem falar do espião-chefe, general Keith Alexander da Agência de Segurança Nacional, além das platitudes de sempre sobre “defender essa nação contra um ataque terrorista”, apresentando Snowden como “um indivíduo que, na minha opinião, não agiu movido por propósito nobre” – tudo soa como romance de espionagem barato. O Império não gosta de tomar um direto no olho.

Para Washington, só resta esperar que Moscou prenda Snowden. Bobagem. O ministro Sergey Lavrov da Rússia até já disse que a Rússia, sim, consideraria a possibilidade de dar asilo político a Snowden, se lhe for pedido. E a frase de Dmitry Peskov, porta-voz de Putin: “Não sei de nada”?! Isso não tem preço.

A rede Xinhua, por sua vez, como era de prever, deitou e rolou:

Washington deve, antes, explicar as gravações. Os EUA, que há muito tempo tenta fazer-se de vítima inocente de cibercriminosos, aparece agora como o maior vilão de nossa era.

Agora se joga a etapa final da “Aventura Snowden” – depois que deixar a cápsula-hotel que lhe coube no terminal E do aeroporto Sheremetyevo (the Four Seasons it ain't) e embarcar rumo ao asilo político no Equador, via Havana. E com WikiLeaks tuitando alegremente os momentos-chave da saga, como na declaração oficial:

Snowden segue rumo à República do Equador, por rota segura, em busca de asilo. Viaja com escolta de diplomatas e dos advogados de WikiLeaks.

A decisão de Hong Kong “desapontou” o Departamento de Justiça dos EUA e, como Russia Today noticia, os EUA já estão pedindo gentilmente que os países latino-americanos detenham Snowden. Na mesma linha cordial, todos os países do mundo devem “pedir gentilmente” que Washington ponha fim ao seu Império Mundial de Bases Militares.

Em meio ao excitamento provocado pelo “caso Snowden”, que não se perca o foco. O aspecto mais crucial da história é Obama e o Espião Supremo, Keith Alexander, jurando que o complexo militar/segurança, orwelliano privatizado, seria essencial para evitar ações terroristas. Mentira monumental. Obama deixou-se ver como mentiroso-em-chefe e cúmplice.

O ex-embaixador Joe Wilson e sua esposa Valerie Plame Wilson – demitidos pela gangue de Dick Cheney – não perderam o foco nem deixaram passar a oportunidade, em coluna muito oportuna, que The Guardian publicou. 

Assim sendo, rumo a Quito. O perigo existe e ronda de todos os lados. Mas, chegado a Quito, o ponto, o set, o jogo estará ganho – como já disse na entrevista: “Game Set Match: US loses as Snowden slips from their hands” que pode ser assistida (em inglês) logo ao final deste artigo.

A HBO que trate de começar a selecionar as estrelas do filme, e rápido. Com Ryan Gosling no papel principal. Edward Snowden, claro, escreverá o roteiro.