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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pepe Escobar: “O que há de tão sexy em Benghazi?”


16/11/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O Pentágono do Amor – como no affair Petraeus-Broadwell-Kelley-Allen-agente-de-torso-nu-do-FBI – é farsa que continua a dar flor. O problema é que não se trata de sexo, mentiras & e-mails. Trata-se, sempre e só, de Benghazi.

Com escândalo ou sem, o general David Petraeus finalmente aceitou depor, em data ainda a ser marcada, ante a Comissão de Inteligência do Senado sobre o 11/9, o ataque, em 2012, ao consulado dos EUA na Líbia, no qual foram mortos o embaixador Chris Stevens e três outros cidadãos norte-americanos; é possível que lhe perguntem sobre o que a CIA fazia lá antes, durante e depois do ataque.

Barack Obama
Quanto ao presidente Obama, na primeira conferência de imprensa depois de reeleito, tratou de alertar os Republicanos – que, há semanas, vêm tentando distorcer Benghazi para que sirva aos seus objetivos – de que “me perseguirem”; perseguirem a embaixadora na ONU, Susan Rice, “que nada teve a ver com Benghazi, e apenas fazia uma apresentação baseada em informes de segurança que recebeu”; e “enlamear sua reputação” (tudo isso) é “revoltante, inadmissível”.

Mais do que os Republicanos enfrentarem problemas com o presidente, a coisa parece que tem a ver com Petraeus enfrentar problemas com a nação. Sempre em surto de negação obsessiva, os Republicanos evidentemente pirarão quando Petraeus contar ao Senado exatamente o que contou à Casa Branca há dois meses. O general – e em seguida a secretária de Estado Hillary Clinton, mais Susan Rice – todos, disseram que o ataque em Benghazi foi resultado daquele filme ridículo sobre o profeta Maomé que circulou em vídeo pelo YouTube.

David Petraeus
Àquela altura, o affair de Petraeus com a biógrafa-gata Paula Broadwell, já era passado. Mas o general, provavelmente, não sabia que já estava fisgado também na investigação que a socialite de Tampa, Jill Kelley, inspirara ao FBI, sobre e-mails persecutórios que ela recebera de Paula. E aí, semana passada, a investigação veio miraculosamente à tona, imediatamente depois das eleições, exatamente quando Petraeus foi convocado a depor no Senado. O general, ao que tudo indica, errou as contas estratégicas e não conseguiu salvar o próprio emprego. Mas não há o que leve a duvidar de que ele terá bom desempenho em seu “Especial Benghazi”.

A lean, mean killing machine [1]

Paula Broadwell
A possibilidade de que o general, hoje caído em desgraça, sairá limpo no que tenha a ver com o atual modus operandi da CIA é tão remota quando vermos Paula Broadwell no papel de Branca de Neve. Desde que Petraeus foi nomeado por Obama para dirigir a CIA, a agência foi convertida em máquina paramilitar de matar – não exatamente um paraíso de Inteligência Humana (HUMINT). Só ações clandestinas, agentes mascarados nas sombras, distante de qualquer controle pelo Executivo, Legislativo ou Judiciário ou pela mídia; de fato, absolutamente fora de qualquer controle.

Essa militarização linha duríssima da CIA implica a agência jamais ter reconhecido a Guerra dos Drones. Para nem falar sobre como se decidem os alvos dos assassinatos predefinidos, do Chifre da África à Península Arábica e as áreas tribais do Paquistão; e sobre quem é sorteado para ganhar ou mais um dia de vida ou a morte. O que torna tudo ainda mais absurdo é que a CIA recebeu, da Casa Branca, a missão de investigar com imparcialidade a sua própria empreitada de guerra suja.

Dick Chaney
Tudo isso nos leva inevitavelmente de volta a Benghazi – e à notícia-bomba, divulgada pelo canal Fox News, [2]citando fonte anônima de Washington, segundo a qual havia, no consulado em Benghazi, um “anexo da CIA” onde estavam “detidos” três combatentes de milícias líbias (leia-se: jihadistas salafistas) para interrogatórios (leia-se: para atividades aquáticas de recreação e afogamento à moda Dick Cheney).

As sessões de interrogatório estariam sob responsabilidade de “empresas terceirizadas”, uma coleção sombria de “ex” Agentes Especiais (a própria CIA encarregou-se de lembrar à opinião pública que “desde janeiro de 2009 já não tinha autoridade para fazer prisioneiros, nos termos da Lei [orig. Executive Order] 13.491)”.

Antes, também foram “hóspedes” em Benghazi combatentes de várias guerras e conflitos no Norte da África e no Oriente Médio. Em resumo: o tal “anexo” da CIA era um dos principais buracos negros de todo o Norte da África.

Assim sendo, temos uma prisão “secreta” da CIA funcionando dentro de um consulado norte-americano – e, obviamente sem responder ao Departamento de Estado – ocupada por “ex” e atuais empresas privadas de Forças Especiais contratadas, recebendo “entregas especiais” de prisioneiros para interrogatório e cuidando de práticas de “detenção” (leia-se: tortura) que são ilegais nos EUA. Toda essa gente trabalhava para Petraeus – não para Hillary Clinton.

É mais do que provável que não seja o único desses estabelecimentos recreacionais – porque há Forças Especiais em ação por todo o Norte da África - e já se sabe que a CIA mantém outra dessas prisões ilegais na Somália.

Aposto um celeiro cheio de garrafas de Chateau Petrus, que o general não dirá palavra sobre tudo isso, no depoimento ao Senado. O general repetirá que a culpa de tudo que houve em Benghazi é do vídeo sobre o Profeta Maomé.

E há também o caso das Gataghazis

Gataghazis (Broadwell&Kelley)
O caso das Gataghazis é o máximo: a Biógrafa-Gata Paula e sua briga virtual de foice no escuro contra Jill Kelley (gata libanesa-norte-americana, também conhecida pelos codinomes de Jill Khawam, Gilberte J Kelley, Gigi Khawam, Gigi Kelley, que mantinha um negócio de “planejamento de eventos sociais” gratuitos na base do Comando Central (CENTCOM) em Tampa, Flórida. E, isso, ainda sem falar da espantosissimamente trabalhosa troca de e-mails (mais de 30 mensagens por dia) todos os dias, entre Kelley e o general John Allen e que durou, no mínimo, com certeza, três anos. É claro que o general Allen não tinha mãos para cuidar daquele amaldiçoado, chatíssimo, problema dos Talibã.

O Tampa Bay Times tem publicado vastas matérias, todos os dias, sobre a metamorfose da “reputação, consagrada por décadas, de hospitalidade e acolhimento gentil dos militares”. O jornal diz que o “marco zero” das novas travessuras sexuais “não é o Pentágono, mas uma mansão no bulevar Bayshore, onde vive uma família com apetites lascivos insaciáveis e dívidas gigantescas”: é onde moram os Kelleys [3].

Com tanta torpeza e lascívia no mercado dos contatos “sociais”, difícil é alguém pensar em política externa. Mesmo assim, tudo leva a crer que Benghazi seja só um aperitivo do que está cozinhando na Síria.

Benghazi – como Darnah, no litoral – alimentou a guerra da OTAN na Líbia fornecendo incontáveis jihadistas salafistas, inclusive gente ligada à al-Qaeda, através do “ex” Grupo Islâmico de Combate Líbio [orig. Libya Islamic Fighting Group (LIFG)].

Abdelhakim Belhadj
Não há dúvida alguma de que o embaixador Chris Stevens estava em contato íntimo com essa poderosa linha “rebelde” – inclusive com o superastro islamista Abdelhakim Belhadj. Depois que o coronel Gaddafi foi capturado e assassinado pelos “rebeldes” – com amplo apoio dos mísseis dos EUA e de soldados de Forças Especiais do Qatar por terra – islamistas líbios, com Belhaj à frente, começaram a contrabandear jihadistas salafistas armados até os dentes para juntar-se aos rebeldes sírios que querem derrubar o governo de Assad.

Demorou, mas afinal Hillary e o Departamento de Estado acordaram e perceberam o risco a que se expunham, de um contragolpe. Essa é uma das principais razões pelas quais Hillary tem tanta pressa para “refundar” a liderança da oposição síria, o que foi sacramentado no último fim de semana em Doha.

Na sua primeira conferência de imprensa, Obama limitou-se a repetir platitudes sobre a Síria (“estivemos sempre em contato com a comunidade internacional” e “consultamos repetidas vezes a oposição”, além de Turquia, Jordânia e Israel; muito significativamente, Obama não citou dois atores chaves do Conselho de Cooperação do Golfo, anti-Assad: a Arábia Saudita e o Qatar). Alertou sobre “elementos extremistas” infiltrados na oposição Síria; e não se comprometeu a armá-los. Não, pelo menos, oficialmente.

Hillary Clinton
Amanhã, 6ª-feira (16/11/2012), começa em Londres a segunda reunião de “amigos” da Síria – para dar sequência aos planos de Hillary para demitir uns e empossar outros dos tais “amigos”. O ocidente será então oficialmente apresentado ao novo líder da oposição, Maaz al-Khatib – que toda a empresa-imprensa ocidental repete, em frenesi, que seria “moderado”, com “impecáveis credenciais revolucionárias” e que deseja, segundo suas próprias palavras, conduzir a Síria na direção de converter-se em “estado cívico”.

É farsa tão ridícula quanto os contos das Gataghazis. Al-Khatib já disse que os problemas sírios só se resolvem com “armas”. A França – a qual, sob Hollande, permanece tão pateticamente neocolonialista quanto nos idos do rei Sarkô – já o reconheceu como líder e também reconheceu a nova oposição, criada essencialmente por pressão dos EUA e do Qatar, sob vagas promessas de muito dinheiro.

Maaz al-Khatib
Al-Khatib – ex imã da mesquita Umayyad em Damasco, posição que jamais obteria sem o aval da inteligência síria – é conhecido por ter convocado a Jihad para salvar o mundo muçulmano (há notícia em árabe, mas nada que o Google Translate não dê conta [4]). E o golpe fatal: Al-Khatib está convencido de que Facebook é complô de EUA-Israel contra os árabes. [5]

Com amigos como EUA, França, Arábia Saudita, Qatar e Turquia, a Síria não precisa de inimigos. Quanto à volta do chicote no lombo de quem chicoteia, preparem-se: o que aconteceu em Benghazi é só o aperitivo do que os inimigos dos EUA estão preparando.

Os EUA já não podem contar, nem com Petraeus, nem com Allen para defender a pátria? Ora! Podem convocar Jill Kelley! Ela a-do-ra quatro estrelas!



Notas de rodapé

[1]  Aprox., “uma máquina de matar enxuta”. A expressão aplica-se aos Marines e circulou muito, em tom de elogio e propaganda em 2004, na tomada de Fallujah, no Iraque. Vídeo a seguir:


[2]  Vídeo a seguir:


[4]  27/10/2012, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: Arquivo Diário de 27/10/2012(Para ler em português acione o Google Translate).

[5] 17/2/2008, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: “Arquivo Diário de 17/2/2008  (Para ler em português acione o Google Translate).

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Quem perdeu o mundo?


O estranho caso de como a Líbia virou questão eleitoral nos EUA

30/10/2012, Ira Chernus, Tom Dispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ira Chernus
Quem perdeu a Líbia? De fato, quem perdeu todo o Oriente Médio? Eis duas perguntas candentes que estão por trás da sequência infindável de manchetes sobre o “Benghazi-gate” [1]. Mas a pergunta que todos deveríamos estar fazendo é outra: Como um incidente trágico, mas isolado, num consulado dos EUA em local do qual poucos norte-americanos algum dia ouviram falar, é inflado até se converter em questão em torno da qual passou a girar toda a disputa presidencial nos EUA, que continua empatada?

Minha opinião, curta: isso aconteceu por causa da persistência do mito de uma política externa de poder; a ideia, já velha de décadas, de que os EUA teriam algum direito inalienável a ser “donos” do mundo e a controlar tudo e todos os lugares. Quero dizer: ninguém pode perder poder que nunca teve.

A campanha eleitoral em curso nos mostra como as coisas pouco mudaram, desde o início da Guerra Fria, quando os baluartes Republicanos gritavam “Quem perdeu a China?” [2].

Mais de 60 anos depois, ainda é surpreendentemente fácil preencher com alta ansiedade o enorme vácuo político: basta acusar o adversário de ter “perdido” um país, ou, pior ainda, toda uma grande região da qual os EUA, sabe-se lá como ou por quê, supunham que fossem “donos”.

A fórmula “Quem perdeu...?” opera como truque mágico. Não há como perceber o modo como funciona, a menos que desviemos nossa atenção, dos que gritam ‘advertências’ de perigo e alarme, para olhar o que realmente se passa por baixo dos panos.

Quem manda aqui?

O estranho caso em Benghazi já começou cheio de surpresas. Só um raro comentarista [3] não repetiu a “explicação” que se lia por todos os cantos, segundo a qual os eleitores, em 2012, pouca importância dariam a assuntos externos. Que, agora, só “a economia, estúpido!”. Que temas externos só criariam breve agitação e mais nada; e tratariam, claro, de Afeganistão, Paquistão ou China.

Embaixador Christopher Stevens
Apesar disso, a morte do embaixador dos EUA na Líbia, J. Christopher Stevens, e três outros cidadãos dos EUA virou grito de campanha contra Barack Obama. O que torna o caso ainda mais surpreendente: quando começaram a chegar notícias da tragédia, tudo levava a crer que, como caso político, a coisa não prosperaria.

Mas, dia seguinte, com as primeiras notícias sobre as mortes já em todos os veículos, Mitt Romney também já estava nas manchetes, acusando seu concorrente: “A liderança norte-americana é necessária para assegurar que os eventos na região não fujam de controle”. [4] Presidente tem de mostrar “decisão ao aplicar nosso poder” e prontidão para usar “força total”. Barack Obama falhara nas duas frentes, disse Romney, como o comprovariam as mortes em Benghazi.

O candidato Republicano foi devidamente criticado por “politizar” o incidente. Foi criticado, praticamente, por todos os lados [5]. Até Ed Rogers, conhecido porta-voz dos Republicanos, escreveu que “Romney tropeçou”  [6] e que “o presidente Obama disse a coisa certa, no tom certo”.

Mitt Romney
Romney jamais retirou uma linha do que dissera no primeiro dia – mas, de algum modo, as mesmíssimas palavras, de início denunciadas como “não presidenciais”, foram-se transformando misteriosamente em argumentos poderosos contra a reeleição do presidente. Um mês adiante, nova narrativa já dominava as manchetes: as críticas de Romney no caso da Líbia “acertavam o alvo” [7], mudando a dinâmica  [8], e estavam tendo papel fundamental [9] no ressurgimento de sua campanha.

Essa mudança de tom refletia, pelo menos em parte, com certeza, a necessidade primal da imprensa-empresa, que precisa de disputa equilibrada, para manter cativo o interesse dos consumidores. No momento em que ocorreram as mortes na Líbia, todos concordavam que Obama começava a ampliar a vantagem sobre Romney, a qual, a partir dali, poderia ser decisiva; qualquer coisa que aumentasse as chances de Romney seria sempre bem-vinda em qualquer mesa de editor de veículo-empresa.

Há notícias que, por mais que o editor insista, nunca “pegam”; mas a história da Líbia “pegou”. De algum modo ecoou nos corações e mentes de muitos norte-americanos. É preciso entender por quê.

Grande parte dessa explicação reside no poder das palavras-chaves na primeira fala: “poder” e “controle” [orig. might e control]. Seus estrategistas capturaram, naquela fala, uma verdade básica da política norte-americana: o público tem apetite insaciável por histórias sobre desafios ao poder global dos EUA e o pressuposto direito de os EUA controlarem o mundo. Então mandaram Romney repetir, insistir e insistir, naquela versão da narrativa.

Em seu primeiro grande discurso sobre política exterior [10], Romney absolveu o adversário de qualquer responsabilidade direta nas quatro mortes, mas acusou Obama de pecado mil vezes pior. Num arriscado salto de imaginação, converteu o incidente em Benghazi em ponta de lança de vasto assalto contra os EUA: “Nossas embaixadas foram atacadas. Nossa bandeira foi queimada (...) Nossa nação, atacada”. O trabalho do presidente é nos proteger, dominando nossos inimigos – disse Romney. É nosso consistente currículo de vitórias, tanto quanto nossos valores, que fazem os EUA “excepcionais” – e durante o turno de guarda de Obama, como o incidente em Benghazi teria provado, os EUA e seu excepcionalismo foram-se, todos, pelo ralo.

Não foi simples exagero, ao denunciar a “fraqueza” presidencial. Como já fizera no primeiro dia, Romney outra vez levantava questão até mais crucial em qualquer narrativa popular da política exterior dos EUA: “quem é o encarregado-em-chefe hoje e aqui?”.

Afinal, de que serve ser superpotência global, se não consegue controlar os eventos em todo o mundo? Como disse Romney: “É responsabilidade do nosso presidente usar o grande poder dos EUA para modelar a história”. E nisso, nesse ponto absolutamente crucial, Romney insistiu, Obama falhara miseravelmente; e um embaixador dos EUA pagara, por essa falha, com a própria vida.

Uma mitologia bipartidária

O debate Romney Obama
Os debates deram a Romney uma chance para afinar seu ataque. No segundo, Obama driblou habilmente as acusações sobre a Líbia (embora, de fato, jamais tenha respondido a qualquer delas). À altura do terceiro debate [11], os estrategistas de Romney, parece, não viram vantagem e viram muitos riscos em pressionar sobre a questão líbia. Mas ainda viam grande possibilidade de ganho em manter ativada a questão mais “geral”. Então Romney rapidamente deixou para trás a questão líbia. Disse que “Estamos vendo, em nação após nação, grande número de eventos perturbadores”.

Construiu seu argumento com imagens de medo: “Vejo o Oriente Médio com uma maré montante de violência, caos, tumulto (...) Dá para ver a al-Qaeda entrando ali”. O poder em Washington precisava ser devolvido às mãos certas, para que, “sob o manto da liderança firme”, os EUA possam “ajudar o Oriente Médio” a fazer retroceder a “maré crescente do tumulto e da confusão” e submeter os terroristas.

Tradução: Durante décadas praticamente todos os governos no Oriente Médio, o coração energético do mundo, foram nossos aliados (mais exatamente, nossos fregueses [12], embora esse palavrão não possa ser usado em ambientes de gente fina). Nós construíamos  [13] os exércitos deles, apoiávamos as ditaduras deles, e contávamos com eles para calar qualquer manifestação de antiamericanismo. Agora, sob Obama, essa área crucial do mundo, que sempre mantivemos sob nosso tacão, está fugindo ao controle. Perca o controle, porque fracassa no exercício de nosso poder, e acabou-se nossa segurança nacional.

Poder, força, controle e segurança nacional são, todos, partes do mesmo pacote; nada mais importante para os EUA – e Obama estava deixando tudo isso ir-se pelo ralo. E por aí ia a narrativa Republicana (apesar de copiosos documentos vazados sobre “a armação/ manipulação/ golpe na Líbia, construída(o) dentro do Congresso [14]). O que até aí vinha sendo apresentado como grande trunfo de Obama – afinal, é o homem que matou Osama bin Laden – passava, de repente, a parecer muito pouco.

Os Democratas de fato responderam, construindo história espantosamente semelhante sobre uma (como disse o presidente no 3º debate) “liderança forte e firme”, a qual, diziam os Democratas estava conseguindo impedir que o Oriente Médio ficasse fora de controle. Em outras palavras, os EUA, de fato, não perderam, de modo algum, a Líbia. Mas essa foi a única diferença entre os dois e o único aspecto sobre o qual houve alguma disputa.

O debate entre Republicanos e Democratas não se trava entre objetivos no Oriente Médio, onde os dois lados assumem pleno apoio a ditadores amigos como na Arábia Saudita [15] e no Bahrain [16], e os dois lados concordam quanto à necessidade de eleições democráticas, pluralismo religioso, imprensa livre, direitos assegurados às mulheres, reforço ao capitalismo de livre empresa e quanto à destruição de todos os terroristas islamistas.

Em termos mais amplos, Republicanos e Democratas concordam, como concordam há décadas, que o objetivo principal, superior, dominante da política exterior de Washington tem de ser modelar a história, controlar o mundo e fazê-lo cópia perfeita dos valores norte-americanos e forçá-lo a trabalhar a favor dos interesses dos EUA. Essa visão mítica da política exterior dos EUA é raro exemplo de consenso e perfeita sintonia entre os dois partidos.

Quando falo de mito, não estou dizendo que seja mentira. Estou dizendo que é uma narrativa fundacional [17] do poder norte-americano que manifesta o que assumimos de mais basal sobre o mundo – uma história segundo a qual toda e qualquer nação do planeta é, em teoria, nossa; só não será, se nós a “perdermos”.

Para muitos norte-americanos (embora não seja bem assim no resto do mundo), essa narrativa não reflete húbris ou arrogância ou intoxicação pelo poder imperial. É normal: é senso comum. Ao longo de nossa história, no coração da mitologia nacional dominante sempre houve, assumida, a ideia de que os EUA seriam “a locomotiva do mundo” e todas as demais nações seriam “o reboque” (como Dean Acheson, Secretário de Estado do presidente Harry Truman, disse certa vez). A razão era simples (pelo menos para os norte-americanos): éramos a primeira e a maior nação fundada sobre verdades morais universais que seriam, supostamente, autoevidentes para qualquer pessoa razoável.

Claro que controlar o mundo atenderia nossos interesses de vários modos tangíveis. Mas nosso autointeresse principal, reza o mito, sempre foi e sempre será o aprimoramento moral – quiçá, a perfeição – de todo o mundo. Servindo a nós mesmos, servimos a toda a humanidade.

A mais furiosa batalha política que há ou pode haver

A única questão que vale a pena debater, portanto, é como podemos usar nosso poder preponderante e nossa riqueza do modo mais produtivo e esperto, para manter o controle efetivo. Muitos norte-americanos contam com que seu presidente saiba o que fazer. Simultaneamente, muitos norte-americanos temem que ele não saiba. Um pilar mais recente da narrativa dos dois partidos – o mito da insegurança da pátria [18] – sugere coisa diferente.

Segundo esse mito, não importa a força militar máxima que acumulemos, nem o controle máximo que exerçamos, sempre há “uma maré montante de tumulto” em algum canto do mundo, que ameaça nossa segurança nacional. A todo momento, em algum ponto do mundo, temos algo crucial a perder. O nome da ameaça pode mudar com surpreendente facilidade. Mas o perigo tem de estar em algum lugar. É essencial, para manter o mito, a narrativa, a história.

E aquela narrativa, por sua vez, é hoje essencialmente importante em todas as eleições presidenciais. Como Maureen Dowd, colunista do New York Times escreveu certa vez, “Todas as eleições seguem a mesma narrativa: o pai forte conseguirá proteger a casa, contra os invasores?” [19] (Pensem em Ronald Reagan e o conto dos reféns iranianos  [20], ou em George W. Bush e o 11/9  [21]). Se um dos candidatos é o presidente, a questão passa a ser: “Mostrou-se pai suficientemente forte para controlar o mundo e, assim, proteger a casa?”.

Todos os desafiantes apostam nessa ansiedade, recolhendo o exemplo mais à mão, o mais acessível do dia, como gancho ao qual se penduram as sempre idênticas acusações de fraqueza e omissão ante perigos. Desde os dias do “Quem perdeu a China”, os Republicanos jogam essa carta com notável competência [22].

Esse ano, parecia que um Democrata que “avançou” [23] no Afeganistão, matou bin Laden e conduziu pessoalmente  [24] uma campanha de assassinatos em massa (também individuais), armado com drones e diretamente da Casa Branca teria, sem dúvida possível, protegido bem o flanco direito contra esse previsível ataque do Grande Velho Partido [orig. Great Old Party, GOP, os Republicanos]. Então, o destino doou as mortes em Benghazi à campanha de Romney, às salas de redação dos jornais e televisões, e a considerável porção do público norte-americano. Dê-se ao pessoal da campanha de Romney um mérito que é deles: perceberam a oportunidade logo ao primeiro momento do primeiro dia.

Mitt tinha de perguntar “Quem perdeu a Líbia?” e, em seguida, converter a pergunta em “Quem perdeu o Oriente Médio?” – não só para melhorar suas chances, mas também porque parte muito significativa dos eleitores ansiavam por esse “debate.” Afinal, cada vez que surge a pergunta “Quem perdeu........ [preencha a lacuna]?”, a própria pergunta reafirma, simultaneamente, tanto a promessa de que merecemos, mesmo, controlar o mundo, quanto a perturbadora ansiedade de que estamos sob risco de perder o que nos pertence por direito.

O que, apesar das dimensões trágicas, não passou de evento de guerra na Líbia, passou a ser a questão central de uma campanha eleitoral presidencial nos EUA, porque comprovou que é, nas eleições de 2012, a palavra código que aciona todo o pacote mitológico. Para muitos norte-americanos, a mais profunda sensação de segurança pode advir, simplesmente, de sentir que nossa mitologia tradicional – as velhas lentes familiares através das quais vemos nossa nação e seu papel no mundo – permanece intacta.

Mas, no horizonte, já é impossível não ver uma outra questão que começa a aparecer: por quanto tempo ainda sobreviverá essa mitologia? Foi grave e profundamente ferida na Guerra do Vietnã, quando a fantasia do controle global foi violentamente sacudida pela realidade. A mesma ferida voltou a abrir-se, com quantidades terríveis de sangue, em várias guerras, hoje, sem sentido e sem resultados aproveitáveis [25] e nos conflitos no Iraque, no Afeganistão e por toda a parte.

Hoje, estão em curso tantas mudanças inquietantes em todo o mundo, que nem se as pode prever, muito menos controlá-las. Não tarda – talvez já em 2020, talvez mesmo em 2016 – o grito de batalha já seja, quem sabe, “Quem perdeu o mundo?”.

Já é até possível imaginar que, algum dia, os norte-americanos conseguirão abordar o debate do qual realmente precisamos – sobre eleger um novo paradigma de política exterior adequado ao mundo real, hoje, onde a fantasia do controle global já se tornou irrelevante, porque os fatos mais corriqueiros já a contradizem bem evidentemente, enquanto declina o poder dos EUA e outras nações já vão, aos poucos, ganhando força.

Mas que ninguém espere que a velha mitologia morra morte silenciosa, discreta. A batalha política entre o velho mito contra novo mito é a mais furiosa batalha política que há ou pode haver.



Notas de rodapé

[2] Wikipedia - China Hands (em inglês)
[3] 23/9/2012, Tom Dispatch, Tom Engelhardt em: Obama Against the World
[4] 12/9/2012,Washington Post, em: Mitt Romney’s statement on the Libya ambassador attack
[5] 12/9/2012, Los Angeles Times, David Lauter e Mitchell Landsberg em: Romney's quick criticism on Libya draws rebuke
[6] 12/9/2012, Washington Post, Ed Rogers em: The president was poised; Romney stumbled
[7]  11/10/2012, Washington Post, Scott Wilson em: Ryan presses Biden on Libya
[8] 15/10/2012, Bloomberg – Businessweek, Margaret Talev e John McCormick em: Romney Gaining Ground as Scrutiny Rises on Taxes, Libya
[9] 13/10/2012, Newser, John Johnson em: Romney Steps Up Criticism Over Libya Attack
[10] 8/10/2012, Washington Post, em: Text of Romney Speech on Foreign Policy at VMI
[11] 22/10/2012, Debate transcrito (em inglês) 
[12] 31/1/2011, lobelog Foreign Policy, Gareth Porter em: Why Washington Clings To A Failed Middle East Strategy
[13] 14/9/2012, The Atlantic, Armin Rosen em: “The U.S. and Egypt Sure Look Like Allies, at Least on Military Matters
[14] Idem nota [13]
[15] 13/1/2012, Council on Foreign Relations, Thomas W. Lippman em: Saudi Arabia Remains Indispensable U.S. Ally, Argues New CFR Book”  
[16] 18/9/2012, Tom Dispatch, Jen Marlowe em: Terror and Teargas on the Streets of Bahrain
[17] Blog MythicAmerica, Ira Chernus em: THE MEANING OF “MYTH” IN THE AMERICAN CONTEXT
[18] Blog Mythic America, Ira Chernus em: “THE MYTHOLOGY OF HOMELAND INSECURITY
[19] 31.1/2012, The New York Times, Maureen Dowd em: Who’s Tough Enough?
[20] Verão de 1992, The Fletcher Fórum, Warren Cohen em: October Surprise: America's Hostages in Iran and the Election of Ronald Reagan. By Gary Sick
[21] 14/12/2004, Tom Dispatch, Tom Engelhardt  em: Tomgram: Ira Chernus on the Electoral Fear Factor
[23] 10/12/2009, Tom Dispatch, Tom Engelhardt em: The Nine Surges of Obama’s War
[25]  20/10/2012, redecastorphoto, Nick Turse em: “Fórmula falhada para guerra permanente - Império muda de pele, não de vícios (em português, trad. Vila Vudu)