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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

As sanções de Obama contra a Rússia fracassarão

30/7/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − Rediff Blogs
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mitt Romney (E) e Barack Obama na Lynn University - Debate de 23/10 2012
A nova Guerra Fria era a última coisa que o presidente Barack Obama tinha em mente no momento em que caía a noite, há bem pouco tempo, dia 22/10/2012, no campus da Lynn University na Florida. Foi a noite das facas longas, [1] do famoso debate sobre política exterior na campanha presidencial, quando Obama arrasou seu opositor, o Republicano Mitt Romney, ao ridicularizar uma de suas frases – Romney disse que a Rússia seria a maior ameaça geopolítica para os EUA no século XXI!

Eis o que disse-fez Obama, esnobando Romney:

Governador, muito me alegra que o senhor reconheça que a al-Qaeda é uma ameaça, porque há poucos meses, quando lhe perguntaram qual a maior ameaça geopolítica que os EUA enfrentam, o senhor respondeu “a Rússia” – não a al-Qaeda – o senhor disse “a Rússia”. E não interessa a ninguém trazer de volta a política exterior dos anos 1980s, porque, o senhor sabe, a Guerra Fria já acabou há 20 anos. Mas, governador... No que tenha a ver com política exterior, o senhor parece querer importar as políticas externas dos anos 1980s.

Depois, no programa para a reeleição, Obama ostentava o “reset” entre EUA e Rússia como o mais fulgurante feito de política externa de seu primeiro mandato no Salão Oval. Deitou e rolou vaidosamente sobre o acordo START sobre desarmamento com a Rússia; a ajuda valiosíssima da Rússia, que colaborava para criar a rede de rotas transitáveis conhecida como Rede Norte de Distribuição, e em outras áreas relacionadas à guerra no Afeganistão; e a Rússia que suspenderia vendas militares ao Irã, e a Rússia aliada dos EUA nas sanções contra o Irã, e tal e tal, como os ganhos mais substantivos de suas relações exteriores.

Não se sabe exatamente quando Obama mudou de lado e tornou-se soldado e seguidor de Romney. Obama atribui a metamorfose exclusivamente aos desenvolvimentos na Ucrânia, há mais ou menos quatro meses, desde a reincorporação da Crimeia pela Rússia. Mas nesse curto período, Obama passou-se para o extremo oposto, como se viu nas suas Observações sobre as mais recentes sanções da 3ª-feira (29/7/2014). Agora, Obama está gozando um gozo vicário, que consiste em “implantar medidas que tornem ainda mais fraca a já fraca economia russa”.

Sanções
Obama exulta que “projeções para o crescimento da economia russa já se aproximam do zero”. Deixa transparecer rancor, espírito mesquinho, que sujam a própria imagem dos EUA na comunidade mundial. Que ninguém se engane: há um mundo no mundo, além de EUA e Europa Ocidental. E todo esse “resto do mundo” está assistindo, hoje, com um misto de descrença e de irritação, ao desastre completo da marca “Obama”.

Essa vastíssima fatia da comunidade internacional, a maioria silenciosa, também tem algumas perguntinhas a fazer a Obama.

Para começar, por que ele se arroga o direito de interpretar a lei internacional como melhor se encaixe no que precisa ou deseja, num ou noutro ponto? Como ele explica as agressões dos EUA contra Iraque e Líbia, que resultaram na destruição dos dois países – ou a escandalosa ilegal interferência dos EUA na Síria? Quem é realmente responsável por disparar os tumultos na Ucrânia no ano passado?

Desgraçadamente, Obama não percebe que marcou gol contra e que está ferindo muito fundo a credibilidade das políticas dos EUA; e que tudo isso está tendo efeito muito estranho.

Considere-se, por exemplo, a retórica de sedução do secretário de Estado John Kerry na 2ª-feira (28/7/2014), tentando dar o tom perfeito à sua visita a Delhi, dois dias adiante. De nada adiantou. O discurso soou desafinado aos ouvidos indianos.

Na verdade, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores em Delhi acertou o alvo, na 4ª-feira (30/7/2014), quando confirmou que o ministro indiano deve discutir com Kerry as espantosas revelações do ex-empregado da CIA Edward Snowden sobre as atividades de espionagem do DSA na Índia. Disse que:

Todos sabem que há considerável preocupação na Índia quanto a autorizações dadas a agências norte-americanas para invadirem a privacidade de indivíduos, entidades e do governo da Índia. Portanto, obviamente, se há considerável preocupação, essas questões provavelmente serão discutidas, sem que eu entre agora em detalhes do que será discutido.

Barack Obama-NSA (John Cole)
Os jornais indianos em geral pintaram a missão de Kerry como movida por instintos vulgares e estreitos os mais crassos – interessado em vender mais armas à Índia e em tentar remover impedimentos à exportação de reatores nucleares norte-americanos para o mercado indiano. Kerry foi pintado como caixeiro viajante suarento em peça de Arthur Miller.

Por que essas coisas acontecem? A Índia sempre foi país que caía de joelhos em transe de paixão pelo predecessor de Obama, George W. Bush. Mas de algum modo, em algum momento, formou-se uma impressão na consciência dos indianos que agora é difícil de apagar – que Obama não passaria de oportunista cínico e autocentrado, singularmente devotado a qualquer causa que apareça e, assim, altamente suscetível a virar-casaca.

E é onde a mais recente virada nas políticas de Obama para a Rússia pode ferir os interesses dos EUA. Para dar um exemplo: a Índia não quer nem ouvir falar de aproximar-se, e não se aproximará, de qualquer estratégia dos EUA para reequilibrar-se na Ásia.

Obama não está entendendo que o mundo não tem interesse algum em isolar a Rússia ou em destruir a economia russa, num momento em que a economia mundial precisa tão desesperadamente de centros de crescimento, sobretudo fora do mundo ocidental.

Assim sendo, se a Europa só quer da Rússia o gás, e impôs sanções ao petróleo russo, é ótimo para economias em rápido crescimento como Índia ou China ou Vietnam. Se a Europa não quer mais comprar armas russas, ótimo também para Índia, Iraque, Egito, Venezuela, Brasil, etc., que têm negócios de armas com a Rússia. E não há dúvidas de que os BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai não desmoronarão.

Os BRICS
O que Obama não vê é que os instrumentos da era da Guerra Fria estão ultrapassados e já não funcionam. É pura arrogância de Obama iludir-se de que ele seria alguma espécie de Flautista de Hamelin, que tocaria sua flautinha mágica e o mundo inteiro o seguiria sem fazer perguntas.

Por que o mundo guerrearia a guerra dos EUA, só para salvar a pseudo virgindade do dólar norte-americano de modo a preservar a hegemonia global dos EUA – por mais que se veja que os EUA já são país inexoravelmente em decadência?

O Banco dos BRICS, que está destinado a competir com o Banco Mundial e com o FMI – e que significa “o fim da dominação ocidental sobre a ordem financeira e econômica global”, para citar importante especialista estrategista indiano, que preside o Conselho Consultivo do Conselho de Segurança Nacional — já é inarredável fato da vida. Índia, Brasil e China não se assustarão ante as restrições que o ocidente está impondo contra bancos russos.

Nota dos tradutores

[1] Referência a outra data, 30/6/1934, conhecida como A noite das Facas Longas, quando foram assassinados dezenas de adversários (antigos e atuais) dos principais nazistas, pessoas informadas que, conhecendo Hitler, poderiam “falar demais” a seu respeito; trata-se, por isso, de um dos mais célebres e dramáticos expurgos do Partido Nacional−Socialista.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Direitonas: o passado vos condena


18/1/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Parry
Um dos pilares em que se apoia a direita dos EUA é que respeitariam a história norte-americana e, especialmente, a Constituição, mais e melhor que o resto dos norte-americanos.

O que se vê cada dia mais claramente é que a direita nos EUA não apenas absorveu uma ideia gravemente distorcida do que seja a Constituição, como também muitos conservadores destacados têm compreensão aberrante da história dos EUA, como o demonstrou recentemente o senador Rand Paul.

Na 4ª-feira, o Republicano do Kentucky apareceu no noticiário da rede Fox News, insistindo em comparar as ordens executivas assinadas pelo presidente Barack Obama sobre armas e segurança, ao que fez Franklin Delano Roosevelt (FDR), presidente dos EUA durante grande parte da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial.

Franklin Delano Roosevelt
Na “versão Paul” daquela história, “FDR tinha um pouco desse “complexo de rei”, como Obama. Então “tivemos de conter FDR, porque governou por tanto tempo que achou que seria presidente perpétuo. Hoje me preocupa muito que o presidente [Obama] acumule tantos poderes e tanta arrogância, que ‘'parece que pensa'’ que pode fazer o que quiser”.  

No que tenha a ver com FDR, Paul referia-se à 22ª Emenda, que passou a limitar a presidência a dois mandatos de quatro anos. Roosevelt foi o único presidente eleito mais de duas vezes (elegeu-se quatro vezes). Mas a 22ª Emenda nada teve a ver com “conter” o presidente Roosevelt.

Roosevelt morreu logo no início de seu quarto mandato, em 1945. A 22ª Emenda foi aprovada no Congresso em 1947 e ratificada pelos estados em 1951. Em outras palavras: Roosevelt já estava morto há vários anos, quando foi aprovada a 22ª Emenda.

Rand Paul
A história errada de Paul o põe em companhia de importantes Republicanos que se jactam de conhecer a história dos EUA e a Constituição, mas jamais se interessam por apresentar com correção os fatos históricos. Por exemplo, inúmeros candidatos potenciais à presidência pelo “Velho Grande Partido” [ing. Great Old Party, GOP] em 2012, inclusive o governador de Massachusetts, manifestaram perfeita ignorância de fatos básicos da Revolução Americana.

Mitt Romney, que foi governador durante quatro anos do estado onde começou a guerra revolucionária, escreve, em seu livro No Apology: The Case for American Greatness [Sem pedir desculpas: pela Grandeza Americana], que a Guerra Revolucionária teria começado em abril de 1775, quando os britânicos atacaram Boston, pelo mar. “Em abril de 1775, navios britânicos sitiaram o porto de Boston, e conseguiram tomar o comando da cidade” – escreveu Romney.

Sam Adams
A história real é outra: os militares britânicos já controlavam Boston desde muito antes de abril de 1775; os Redcoats [jalecos vermelhos] britânicos já cercavam a cidade rebelde desde 1768. O cerco fechou-se ainda mais depois do movimento Tea Party em Boston, dia 16/12/1773, depois do qual foram impostas as chamadas “Leis Intoleráveis” [orig. “Intolerable Acts”] em 1774, que reforçaram o cerco da cidade e interromperam o comércio pelo porto de Boston.

As ações agressivas dos britânicos forçaram os líderes dissidentes, Sam Adams e John Hancock, a escapar da cidade e refugiarem-se em Lexington, quando as milícias da colônia criavam arsenais de armas e munição em Concord, cidade próxima.

John Hancock
A Guerra Revolucionária não começou com o cerco de Boston, em abril de 1775, como Romney escreveu, mas quando os Redcoats aventuraram-se para fora de Boston, dia 19/4/1775, tentando capturar Adams e Hancock em Lexington e, em seguida, avançaram mais para o interior, tentando destruir os arsenais de armas dos colonos em Concord.

Os britânicos fracassaram nas duas tentativas, mas levaram à guerra, depois de matar oito homens de Massachusetts em Lexington Green. Depois disso, os Redcoats britânicos enfrentaram resistência feroz dos Minutemen [1] perto da Ponte Concord e foram forçados a recuar muito, até de volta a Boston, sofrendo baixas pesadas. Assim, a Guerra Revolucionária começou com retumbante vitória dos colonos, não com derrota – como se lê em livro que Romney diz ter escrito ele próprio.

Minutemen
A interpretação errada que Romney faz e divulga do início dessa guerra é ainda mais surpreendente, porque o estado de Massachusetts celebra anualmente as batalhas de Lexington e Concord, com feriado dito “Dia dos Patriotas”; a equipe dos Boston Red Sox faz um raro jogo matinal, em horário adequado para que a torcida possa deixar o [estádio] de Fenway Park a tempo para assistir o fim da Maratona de Boston [2].

Século errado, Estado errado

Rick Perry
Outros rivais, que disputavam a indicação Republicana à presidência, em 2012, também leram errado outros fatos históricos da fundação da nação.

O governador Rick Perry meteu a Revolução Americana nos anos 1500s. “A razão pela qual nós fizemos a revolução no século 16 foi para acabar, pode-se dizer, com aquela Coroa que nos roubava muito dinheiro” – disse Perry, errando por dois séculos, até a data da Guerra de Independência. Para ele, teria acontecido antes de a primeira colônia inglesa ser estabelecida no Novo Mundo, em Jamestown, Virginia, em 1607, no início do século 17!

Michele Bachman
No serviço de adular eleitores do movimento Tea Party em New Hampshire, a deputada Michele Bachmann de Minnesota pontificou: “Vocês são o estado de onde partiu o tiro que foi ouvido em todo o mundo, em Lexington e Concord”. (Confundiu-se, provavelmente, porque há uma cidade chamada Concord, New Hampshire, que nada tem a ver com outra, também Concord, mas em Massachusetts).

Ainda mais significativo, a Direita norte-americana meteu na cabeça de seus seguidores uma ideia-delírio sobre o que fez a Constituição dos EUA. A narrativa da fundação, no discurso da Direita, pula, da Declaração de Independência, em 1776, diretamente para a Constituição, que foi redigida em 1787 e ratificada em 1788. Eles apagam da história os “Artigos da Confederação”, que regeram a nação de 1777 a 1787.

Ao apagar os “Artigos”, a Direita pode inventar que a Constituição teria sido escrita com o objetivo de estabelecer um sistema dominado pelos estados, com governo central mantido pequeno e fraco. Em seguida, essa versão da história é citada em apoio de um discurso da Direita norte-americana, segundo o qual funcionários federais – como Roosevelt e Obama – estariam violando a Constituição quando procuram solução nacional para os problemas econômicos e sociais dos EUA.

George Washington
Mas, na história real, os homens que redigiram a Constituição [orig. Framers of the Constitution], especialmente George Washington e James Madison, rejeitavam ali a estrutura de unidades estaduais “independentes” e “soberanas” (e governo central fraco e a “liga de amizades”) que os “Artigos da Confederação” haviam estabelecido. Os Framers já haviam testemunhado o fracasso daquele sistema e sabiam o quando ameaçava o futuro da nova nação que acabava de declarar-se independente.

Por isso, Washington e Madison lideraram o que bem se pode chamar de “um golpe de Estado” na Convenção Constituinte, na Filadélfia. Embora só tivessem representação e instruções para sugerir emendas aos “Artigos” e devolver suas sugestões às Assembleias Estaduais, Washington e Madison descartaram integralmente os “Artigos” e produziram estrutura nova e dramaticamente diferente.

James Madison
Nesse movimento, foi-se pelo ralo o palavrório dos “Artigos” sobre unidades estaduais “soberanas” e “independentes”. E toda a soberania nacional foi direcionada para “Nós, o Povo dos Estados Unidos”. A nova Constituição tornou a lei federal superior a todas as outras, e assegurou a existência de um governo central, dando-lhe novos poderes sobre a moeda e o comércio e ampla autoridade para agir em nome do “Bem-estar geral” [orig. “general Welfare”].

Washington e Madison também cuidaram de cercar as Assembleias estaduais, impondo a primazia da nova Constituição, antes de qualquer convenção especial, e requerendo, para que a Constituição fosse ratificada, o apoio de apenas nove, dentre 13 estados [as 13 colônias de então, que enviaram representantes à Assembleia Constituinte na Filadélfia]. Eram mudanças tão absolutamente radicais, que surgiu uma oposição ali mesmo, os chamados “Anti-Federalists”.

Para salvar seu plano, Madison colaborou na redação de uma série de artigos, chamados “Federalist Papers”, trabalho no qual ele mesmo cuidou de baixar um pouco o tom da nova Constituição, tão radicais eram as mudanças inicialmente propostas. Concordou também com a redação de uma Lei de Direitos [“Bill of Rights”], pela qual se davam algumas garantias específicas aos indivíduos e aos estados.

E as Emendas também são erradamente interpretadas 

Algumas das primeiras dez emendas àquela Constituição foram substantivas; outras, quase só retóricas. Por exemplo, a 10ª Emenda determina que poderes não garantidos pela Constituição ao governo central permanecem como poderes “do povo” e dos estados. Mas o núcleo duro de qualquer Constituição é limitar os poderes dos governos – e os poderes que a Constituição dava ao governo central eram extraordinariamente amplos.

Assim, a 10ª Emenda – apesar dos esforços que a Direita faz hoje, sempre exagerando o significado dela – visava, principalmente, a conter os Anti-Federalistas. Para que se veja como sempre foi pouco significativa, basta compará-la com o texto do 2º artigo dos “Artigos da Confederação”, que a 10ª Emenda substituiu. (Sobre isso, ver Robert Parry, America’s Stolen Narrative).   

Hoje, a Direita também distorce o sentido do objetivo original da 2ª Emenda, que diz: “Uma milícia bem regulamentada sendo necessária à segurança de um estado livre, o direito de o povo ter e portar armas não será infringido”. Sempre foi concessão feita aos estados, que queriam ter polícias estaduais para manter “a segurança”; jamais significou armar os cidadãos.

A sangrenta batalha da Rebelião dos Shays
O contexto dessas preocupações era a experiência então recente da Rebelião dos Shays no oeste de Massachusetts (em 1786-87); o medo de rebeliões chefiadas por escravos, no sul; e o medo de ataques de populações norte-americanas nativas, nas fronteiras. Os estados queriam o direito de ter polícias armadas, para enfrentar essas ameaças.

Nos primeiros dias da República, a 2ª Emenda jamais foi vista como direito universal para todos os cidadãos, individualmente considerados. Por exemplo, alguns estados aprovaram “Leis Negras” [orig. “Black Codes”] que proibiam negros de serem proprietários de armas. Quando o Segundo Congresso aprovou a “Lei das Milícias” [orig. “Militia Act”] de 1792, a lei mandava armar especificamente “homens brancos em idade de prestar serviço militar”.

Mesmo assim, apesar de algumas horrendas concessões que entraram na redação da Constituição dos EUA – como tolerar a escravidão – o principal objetivo dos que a redigiram foi criar o quadro geral de uma República democrática, em cujos limites a nova nação pudesse aprovar outras leis necessárias ao crescimento e ao sucesso do novo país.

Naquele momento, as monarquias europeias previam o fracasso daquela experiência de autogoverno. E Washington, Madison e outros assemelhados quiseram mostrar que os norte-americanos conseguiriam se autogovernar sem recorrer à violência. Como um dos principais objetivos da Constituição, lá está: “garantir a Tranquilidade doméstica” [orig. “domestic Tranquility”].

Os que redigiram a Constituição dos EUA também reconheceram o fracasso dos “Artigos” e a necessidade de um governo central vibrante em país tão vasto como os EUA (e que continuava a se expandir). Jamais lhes passou pela cabeça ter população armada que resistisse pela violência contra o governo constitucionalmente constituído e eleito dos EUA. Na verdade, esse comportamento foi declarado “traição” (Sobre isso ler em: Second Amendment Madness.

Constituição dos EUA (fac-símile)
O que hoje se vê são neo-Confederados e outros movimentos da Direita nos EUA, a gastarem somas fabulosas de dinheiro para distorcer a história dos EUA e enganar cidadãos, fazendo-os crer que teriam de fazer todo o possível para “retomar” o próprio país das garras de “Obamas” [expressão que, em vários contextos, significa ainda “dos negros” (NTs)].

Quaisquer tímidos passos na direção de qualquer racionalidade com vistas à segurança, na questão das armas – inclusive leis aprovadas pela maioria conservadora da Suprema Corte dos EUA – são apresentadas como “atos de tirania”, como se ainda se tratasse de a Coroa Britânica tentar impor sua vontade às Treze Colônias, depois de as ter impedido de ter representantes no Parlamento Britânico.

O que é mais imediatamente perigoso, no movimento de a Direita des-escrever a história dos EUA é que – quando os EUA têm, afinal, seu primeiro presidente negro – milhões de brancos tratam de armar-se enlouquecidamente, convencidos de que teriam algum dever de “defender” a Constituição, mas sem ter na cabeça qualquer ideia aproveitável sobre o que os autores da mesma Constituição tentavam fazer, ao redigir aquela Constituição.

O que se vê, não é apenas a virulenta, viciosa retórica da Direita – que compara um presidente duas vezes eleito nos EUA, que tenta implementar uma tímida, modesta legislação sobre porte de armas nos EUA, imediatamente depois de um bárbaro massacre de crianças, ao monarca inglês; vê-se também que muitos, como Rand Paul e vários de seus companheiros Republicanos insistem em continuar a difundir uma visão distorcida dos fatos e não dão um passo, na direção de conhecer a história real.



Notas dos tradutores

[1]  Minuteman [aprox. “minuteiro”]. Na história da Revolução Norte-Americana, designa membro de milícias de cidadãos armados que tinham de manter-se preparados para engajar-se em combate “em minutos”, ao serem convocados. Os primeiros “minuteiros” foram organizados no condado de Worcester, Massachusetts, em setembro de 1774, quando os líderes revolucionários tentavam substituir os soldados britânicos das antigas guardas municipais, exigindo a demissão dos antigos oficiais e a reorganização de todos os regimentos, para que passassem a ser constituídos exclusivamente por “minuteiros” [colonos nativos, não britânicos]. Em seguida, outros condados passaram a adotar o mesmo procedimento; quando o Congresso Provincial de Massachusetts reuniu-se em Salem, em outubro, ordenou que a reorganização fosse completada em todo o estado. O primeiro grande teste dos “minuteiros” foram as Batalhas de Lexington e Concord, em 19/4/1775. Em 18/7/1775, o Congresso Continental ordenou que outras colônias organizassem unidades de resistência revolucionária de “minuteiros”, o que as colônias de Maryland, New Hampshire e Connecticut logo fizeram (trad. da Encylopaedia Britannica).

ATENÇÃO: Essa longa nota histórica nos pareceu importante, para ajudar a entender a “questão das armas em mãos de civis” nos EUA, que hoje tanto se discute. Ajuda a entender também o significado LOCAL que tem, nos EUA, a legislação “antiarmas” que Obama acaba de assinar. Nos EUA, essa discussão tem raízes históricas (e imaginárias) profundas.
É discussão, portanto, que significa uma coisa dentro dos EUA e significa outra coisa, absolutamente diferente, fora de lá. De fato, é discussão que significa NADA – quando é apenas papagueada, de segunda, terceira, quarta mão (e aumentando), por exemplo, pelos jornais, jornalistas e “analistas” brasileiros, que só fazem ler, copiar e reproduzir incansavelmente material produzido e publicado nos EUA.

[2] Mais uma vez, são informações que ajudam a começar a entender o sentido imaginário (e histórico) profundo de uma resistência de cidadãos armados, contra um exército imperial na Revolução Americana, que sobrevive entre os norte-americanos nossos contemporâneos.

Por um lado, não há “pacifismo” e “democratismo” liberal, de superfície, moralista e metido a “ético”, que consigam facilmente convencer esses norte-americanos “patriotas” de que se deveriam desarmar cidadãos armados que resistiram (armados) contra uma potência colonial e a derrotaram. Tudo isso é mobilizado no imaginário político e histórico, dentro da sociedade norte-americana, quando se fala em “armas”, lá, em 2012.

Mas, por outro lado, os Republicanos não têm qualquer interesse em fazer lembrar a importância de haver cidadãos armados em luta de resistência popular contra o Estado e suas instituições e apoiadores, se se candidatam à presidência do mesmo Estado. Então, num movimento muito frequente dentro do imaginário da mais pura má-consciência, da mais pura ideologia, defendem a indústria de armas. Para fazê-lo, são obrigados a apagar, do próprio argumento, o significado POLÍTICO das armas que tanto defendem.

Tudo vira conversa de doidos, que a imprensa-empresa apresenta como se se discutissem “fatos” e houvesse aí alguma discussão “democrática”.

Difícil imaginar “ideias no lugar”, tão artificialmente tratadas pela imprensa-empresa como se estivessem “fora de lugar”, por um lado; e, por outro, “ideias fora do lugar”, artificialmente tratadas como se estivessem “no lugar”. E tudo é apresentado como se aí houvesse algum “fato jornalístico” noticiável e tudo é “discutido” como se houvesse o que discutir nos termos em que a imprensa-empresa discute e ensina a discutir. A imprensa-empresa, que se constrói sobre o “atual” e o “diário”, em busca neurótica de uma “atualidade” inalcançável, é espaço privilegiado para promover esse papo de malucos e dar-lhe foro de verdade.

domingo, 11 de novembro de 2012

Obama reeleito: mais e menos


11/11/2012, Lawrence Davidson, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lawrence Davidson
Barack Obama obteve a reeleição dia 6/11 – e a reação de muitos na esquerda foi: “E daí?”. Ora! Fomos poupados de quatro anos de Mitt Romney. E a esquerda, outra vez: “E daí? São todos farinha do mesmo saco”.

Sim, talvez sejam, mas até farinha do mesmo saco pode variar. Ofereço aqui algumas diferenças positivas e, depois, algumas semelhanças negativas em relação a Romney e seus assessores conservadores. Comecemos pelo lado mais alegre:

– Em termos de probabilidades, os EUA, sob Obama estão menos expostos ao risco de, de repente, nos descobrirmos já em guerra contra o Irã, o que aconteceria no caso de Romney ser eleito. Nas questões da guerra no Oriente Médio, Obama parece capaz de pensar com relativa independência; Romney, como ele próprio disse, não vê diferença alguma entre interesses dos EUA e interesses de Israel.

– Obama tomou atitude sensível, pode-se dizer, em relação aos levantes da Primavera Árabe, exceto, claro, no Bahrain, onde o seu governo manteve o apoio à monarquia, o que foi lamentável. A reação de Romney à Primavera Árabe seria telefonar para Netanyahu e consultá-lo sobre o que fazer.

– Nas questões dos direitos para mulheres, para os gays, relacionados ao meio ambiente e nas questões de educação, qualquer governo Obama sempre será preferível a qualquer governo Romney.

– Se houver vagas a serem preenchidas na Suprema Corte nos próximos quatro anos, estamos menos expostos ao risco de o presidente indicar juízes conservadores extremistas fundamentalistas em governo de Obama, que em governo de Mitt Romney.

– Obama proibiu a tortura que Bush oficializou. Se se consideram os assessores neoconservadores de Mitt Romney, é razoável temer que seu governo cedesse à tentação de reoficializar a tortura nos EUA.

Obamney Combo
As similitudes

Aí ficam listadas algumas coisas positivas, que não se pode dizer que não tenham importância. São importantes. Mas Obama arrasta também um lado obscuro que, às vezes, faz eco à mentalidade dos Republicanos mais conservadores. Para citar algumas dessas sombras:

– Barack Obama é negro afro-americano com, ao que parece, a cabeça cheia de ideias seletivas em matéria de liberdades civis. Deu emprego a outro negro afro-americano, Eric Holder, em cuja cabeça há os mesmos pontos cegos. Holder comanda o FBI e permitiu que a agência se pusesse a caçar elementos de outro grupo minoritário, dessa vez, muçulmanos, envolvendo-os em supostas atividades terroristas as quais, sem o esquema do FBI, praticamente com certeza, jamais teriam sido executadas.

– Durante seu primeiro mandato, Obama pôs-se a caçar “estrangeiros ilegais”, deportando-os aos magotes; e só modificou essa política quando as eleições se aproximavam. Nesse front, Obama absolutamente não merece confiança alguma.

– Obama continuou a aplicar políticas criminosas do presidente Bush, muitas das quais foram institucionalizadas na “Lei Antiespionagem” [orig. Patriot Act] e leis correlatas. Dentre essas políticas criminosas, estão práticas inconstitucionais, como a detenção por tempo indefinido e as escutas clandestinas, não autorizadas.

– E, muito embora a política de Obama para o Oriente Médio provavelmente não nos leve à guerra tão ardentemente ansiada por Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e amigo de Romney, Obama continua dedicado a usar seus drones para assassinar civis e a usar suas sanções draconianas para também matar civis, em muitos casos, de fome.

A minoria de Romney

A eleição, propriamente dita, não trouxe resultados tranquilizadores. Basta examinar o mapa que mostra quem venceu em quais estados, e o que se vê é uma assustadora onda vermelha (e quanto ao motivo pelo qual a imprensa-empresa decidiu pintar de vermelho os estados Republicanos, apenas uma geração depois do fim do comunismo russo, aí está um fenômeno superior à minha capacidade de compreender!).
 
Resta, à guisa de consolo, que os estados “vermelhos” são (exceto o Texas) os menos populosos. Mesmo assim, segundo os números finais da eleição publicados no Philadelphia Inquirer (8/11), coisa como 57.591.058 de norte-americanos votaram em Romney, sujeito que pode ser facilmente confundido com o “camaleão anão”, um subgrupo dos camaleões com grande talento para “ajustar as cores da própria camuflagem conforme o olhar das espécies” que o desafiem.

Dos eleitores de Romney, 62% são homens brancos e, mais surpreendentes, 56% são mulheres brancas. Será que toda essa gente votou mais contra Obama, que a favor de Romney? Ou não passavam de bons pacientes para serem usados em shows de hipnotismo e de mentira-encenação coreografados por especialistas?

Depois da vitória, o presidente reeleito fez discurso do tipo “agora vamos, unidos para sempre” o qual, nas atuais circunstâncias, foi embaraçoso, ruim de ouvir.

Depois de termos, tantos de nós, como o presidente, passado meses e meses sob fogo cerrado de ofensas e difamações, ridicularizados sem trégua, preferiríamos ver algum tipo de “resposta” pública, uma reação qualquer, uma vírgula, que fosse, de reação contra a campanha suja dos Republicanos. Seriam sentimentos humanos e adequados às circunstâncias.

Mas, na opinião de Obama, embora alguns até possam discordar “ferozmente”, a montanha de ofensas e desaforos e mentiras e calúnias que assacaram contra ele e contra seus seguidores não passou de manifestação “ruidosa, confusa” de democracia. Segundo o presidente Obama, apesar da guerra imundíssima de que fomos vítimas, todos nós desejamos o mesmo tipo de EUA.

Não, não concordo. Os Republicanos e neoconservadores militaristas do Tea Party não desejam o mesmo tipo de EUA que Obama deseja (ou, pelo menos, eu e muitos outros sinceramente esperamos que Obama deseje). Aposto qualquer coisa que nem John A. Boehner, presidente da Câmara de Deputados controlada pelos Republicanos, deseja os mesmos EUA que Obama deseja!

Pois mesmo assim, na noite da vitória, Obama disse aos seus apoiadores que “acabo de falar com o governador Romney e... Estou ansioso para sentar com ele e conversar sobre o muito que podemos fazer juntos para levar avante esse país”.

Pode não ser oferecimento apenas pro forma, gesto gracioso do vencedor, que estende uma mão conciliatória. Estou convencido de que Obama quer, sim, fazer exatamente o que disse, porque, no âmago do âmago de seu coração, Obama é homem que cede, é homem de concessões. Concederá praticamente qualquer coisa a qualquer um, em praticamente qualquer negociação.

Considerada a estrutura política dentro da qual Obama vive, isso implica que ele fará concessões aos mais cruéis e gananciosos Republicanos, sionistas e neoconservadores – bastando para tanto que eles “ouçam a razão” - e deixem-se convencer por Obama. De fato, a única provável exceção nessa lista são os norte-americanos progressistas que, parece, são vistos por Obama e seus assessores como grupo limítrofe, quase periférico, cujos objetivos e valores não merecem a mesma consideração.

Por tudo isso, os primeiros indicadores sugerem que o segundo mandato de Obama será bastante semelhante ao primeiro. Embora, sim, muitos dos seus apoiadores entendam que não, nada disso, porque engoliram aquele verso sedutor da trilha sonora que diz que “o melhor ainda está por vir”.

Como disse-me um obamista, semana passada, “agora tudo será diferente em Washington, porque Obama provou que a maioria está com ele”. Pensei com meus botões que... Ora bolas! Isso já ficou provado em 2008.

A lista de desejos de Obama

OK, OK, para os que confiam que, no segundo mandato, aparecerá um Barack Obama “com reais inclinações progressistas”, listo aqui algumas coisas que o presidente pode fazer para provar que as coisas não serão exatamente iguais. Muitos dos pontos seguintes foram inspirados em coluna recente de Juan Cole, “Lista de desejos do presidente Obama: Top Ten. [1]

– Obama pode propor e lutar com empenho para aprovar leis que neutralizem essa lei horrenda que criou os Citizens United e a qual, dentre outras coisas, reforça a farsa segundo a qual empresas são “gente” e podem votar e, portanto, os Super PAC têm direito de comprar eleições. Simultaneamente, o Obama “real” pode também investir algum capital político numa campanha decente a favor de uma reforma decente dos sistemas de financiamento de campanhas eleitorais.

– Obama pode empenhar-se a favor de forte regulação, sobretudo para bancos e todos os setores financeiros da economia.

– Obama pode lutar para fortalecer os direitos sindicais, tanto no setor privado, quanto público.

– Pode também trabalhar a favor de leis que tornem ilegais todos os esforços dos conservadores para limitar o direito de ir e vir dos cidadãos; pode dedicar-se, para começar, a pôr fim ao projeto de se emitirem documentos de identidade com foto.

– Obama pode remodelar todas as prioridades do FBI e de outras agências, afastando-as de qualquer missão que tenha a ver com a aplicação da Lei (inconstitucional) Antiespionagem; impedindo essas agências públicas de envolverem-se em esquemas terroristas com vistas a prender e a matar (mais) gente inocente; e impedindo-as, também, de qualquer prática que implique violência contra o direito à privacidade (proibir escutas clandestinas) de milhares de norte-americanos. Em outras palavras, o segundo mandato de Obama deve, afinal, mostrar um presidente eleito que se faz ver, publicamente, em clara oposição aos crimes da era Bush, hoje já travestidos e convertidos em “crimes legais”.

– Por fim, especificamente no que tenha a ver com o Oriente Médio, o presidente Obama pode:

a) parar de criar obstáculos aos esforços dos palestinos para obterem status de membros da ONU; e
b) declarar o perdão dos líderes da Holy Land Foundation, injustamente condenados em acusação de apoio a terroristas, num dos mais escandalosos erros judiciários do século 21.

E... o Barack Obama que se prepara para seu segundo mandato lutará por todas essas causas? Meu palpite é que esforços, se houver, serão, no máximo, mornos. E cada avanço, se houver, virá aguado, diluído em concessões e mais concessões e concessões sem parar. Não porque “política é isso”, ou “tem de ser jogada assim”, mas porque esse é o único modo pelo qual o Barack Obama real quer fazer política.



Nota de rodapé
[1]  11/7/2012, Informed Comment, Juan Cole em: “Top Ten Wish List Progressives should Press on President Obama