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terça-feira, 22 de julho de 2014

Acusação−insinuação — Como opera a propaganda dos EUA

22/7/2013, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama: "Você mente"
Por que os EUA não se uniram ao presidente Putin da Rússia, que exigiu investigação internacional objetiva, não politizada, feita por especialistas, do caso do avião da Malaysia Airlines?

O governo russo continua a distribuir fatos, inclusive fotos de satélite que mostram que havia Buks antiaéreos ucranianos em pontos dos quais o avião de passageiros pode ter sido abatido por aquele tipo de veículo armado, e documentos de que um jato de combate ucraniano SU-25 aproximou-se rapidamente do avião malaio antes de o avião ser abatido.

O chefe do Diretorado de Operações dos militares russos disse em conferência de imprensa em Moscou ontem [21/7/2014], que a presença do jato militar ucraniano foi confirmada pelo centro de monitoramento de Rostov.

O Ministério de Defesa da Rússia observou que, no momento em que o MH-17 foi abatido, um satélite dos EUA sobrevoava a área. O governo russo exige que os EUA disponibilizem as fotos e dados capturados por aquele satélite.

O presidente Putin já repetiu várias vezes que a investigação do voo MH-17 requer “um grupo representativo de especialistas trabalhando juntos sob orientação da ICAO (International Civil Aviation Organization)”. Putin, ao exigir investigação independente pelos especialistas da ICAO não age como quem tenha algo a esconder.

Vladimir Putin
Falando diretamente a Washington, Putin disse:

Até que se conheçam os resultados dessa investigação, ninguém [nem a “nação excepcional”] tem o direito de usar essa tragédia para fazer avançar seus objetivos políticos egoístas estreitos.

Putin relembrou aos EUA:

Nós várias vezes pedimos que os dois lados suspendessem imediatamente o banho de sangue e sentassem à mesa de negociações. O que se pode dizer com certeza é que, se as operações militares não tivessem sido reiniciadas [por Kiev] no dia 28/6/2014 no leste da Ucrânia, essa tragédia não teria acontecido.

E o que respondem os EUA? 

Só mentiras e insinuações.

Anteontem [20/7/2014], o Secretário de Estado dos EUA, confirmou que federalistas pró-Rússia estavam envolvidos na derrubada do avião malaio, e disse que seria “bem claro” que a Rússia esta[ria] envolvida. Eis as palavras de Kerry:

É bem claro que há um sistema que foi transferido da Rússia para as mãos de separatistas. Sabemos com certeza, com certeza, que os ucranianos não têm tal sistema em ponto algum nos arredores daquele local naquela hora, portanto é óbvio que há um dedo muito claro dos separatistas.

A declaração de Kerry é mais uma da infindáveis mentiras que secretários de Estado dos EUA mentiram ao longo do século XXI.

John Kerry: "O maior MENTIROSO de todos"
Quem poderia esquecer o pacote de mentiras que Colin Powell mentiu descaradamente na ONU sobre as “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein? Ou a mentira que Kerry repetiu incontáveis vezes, de que Assad “usou armas químicas contra seu próprio povo”? Ou as infindáveis mentiras sobre “bombas atômicas do Irã”?

Recordem que Kerry, várias vezes, disse que os EUA teriam provas de que Assad “cruzara” a “linha vermelha” e usara armas químicas. Mas Kerry jamais conseguiu comprovar o que dizia, nunca apresentou uma única prova, que fosse. Os EUA não tinham prova alguma a entregar ao primeiro-ministro britânico, nem mesmo para ajudá-lo a conseguir que o Parlamento aprovasse a participação britânica ao lado dos EUA, num ataque militar contra a Síria! O Parlamento então disse ao primeiro-ministro inglês: “sem provas, nada de guerra”.

Agora, aí está Kerry outra vez a declarar que tem “certeza”, em “declarações” que já foram desmentidas por fotos do satélite russo e incontáveis provas de testemunhas no solo.

Por que Washington não distribui as fotos do satélite norte-americano?

A resposta é: pela mesma razão pela qual Washington não distribuirá os vídeos que confiscou e que, dizem os EUA, “comprovam” que um avião de passageiros sequestrado atingiu o Pentágono dia 11/9/2001. Nenhum vídeo comprova o que os EUA mentem sobre o 11/9/2001; assim como nenhuma foto de satélite comprova as mentiras de Kerry sobre o avião malaio.

Inspetores de armas da ONU em campo, no Iraque, relataram que o Iraque não tinha armas de destruição em massa. Mas esse fato comprovado, porque desmascararia a propaganda dos EUA, foi simplesmente ignorado. Os EUA iniciaram guerra terrivelmente destrutiva, baseados numa mentira intencional mantida em Washington.

Inspetores da Comissão Internacional de Energia Atômica em campo, no Irã, e todas as 16 agências de inteligência dos EUA relataram que o Irã não tinha (como não tem) programa de armas nucleares. Mas esse fato comprovado era inconsistente com a agenda de guerra de Washington e foi ignorado: pelo governo dos EUA e pela imprensa-empresa press-tituta.

Agora estamos testemunhando a mesma coisa, ante a ausência de qualquer evidência que comprovasse que a Rússia teria algo a ver com a derrubada do avião malaio.

Nem todos, no governo dos EUA, são tão irresponsáveis e imorais quanto Kerry e John McCain. Esses mentem. A maioria dos agentes do governo dos EUA vivem de insinuações.

Dianne Feinstein
por Honkey Donkey
A senadora Dianne Feinstein é exemplo perfeito. Entrevistada pelo canal CNN da imprensa-empresa press-tituta, Feinstein disse:

A questão é: onde está Putin? Eu diria: “Putin, seja homem. Você tem de falar ao mundo. Tem de dizer. Se foi um erro, como espero que tenha sido, diga!”.

Putin não faz outra coisa que não seja falar ao mundo, sem parar, exigindo que se faça investigação por especialistas, não politizada. E Feinstein a perguntar por que Putin se esconde em silêncio! Feinstein lá estava para insinuar que “sabemos que você é culpado. Só não sabemos se foi crime deliberado ou acidental”.

O modo como todo o ciclo ocidental de noticiário foi orquestrado para instantaneamente culpar a Rússia, desde muito antes de que surja qualquer informação real confiável, sugere que a derrubada do avião malaio foi operação dos EUA.

É possível, é claro, que a bem adestrada imprensa-empresa press-tituta não precise de orquestração alguma vinda de Washington, para imediatamente culpar a Rússia. Por outro lado, alguns dos desempenhos “televisivos” parecem tão bem ensaiados, que simplesmente têm de ter sido preparados com antecedência.

Também foi preparado com antecedência o vídeo de YouTube montado para “mostrar” um general russo e federalistas ucranianos discutindo que teriam acabado de, por engano, derrubar um avião de passageiros.

Como já comentei, esse vídeo tem dois vícios insanáveis: já estava gravado desde antes do acidente; e, ao apresentar o que seria a fala de um militar russo, esqueceu que qualquer militar saberia ver as diferenças entre um avião de passageiros e um avião militar de combate. A própria existência daquele vídeo já implica que houve um complô para derrubar o avião e culpar a Rússia.

Já vi relatórios que dizem que o sistema russo de mísseis antiaéreos, como um de seus dispositivos de segurança, faz contato com os transponders das aeronaves, para verificar o tipo de aeronave que aparece em seu alvo. Se esses relatórios estão corretos e se os transponders do MH-17 forem encontrados, é possível que lá esteja gravado o contato.

Já vi notícias que dizem que o controle aéreo ucraniano mudou a rota do MH-17 e o mandou sobrevoar diretamente a área de conflito. Os transponders também indicarão se isso é verdade. Se for, há claramente uma prova, pelo menos circunstancial, de que foi ato intencional de Kiev – e ato que teria de ter sido aprovado pelos EUA.

Há notícias ainda de que haveria uma divergência entre os militares ucranianos e milícias não oficializadas formadas por extremistas ucranianos de direita, que aparentemente foram os primeiros a atacar os federalistas. É possível que Washington tenha usado aqueles extremistas para derrubar o avião malaio, para inculpar os russos e usar as acusações para pressionar a União Europeia a acompanhar as sanções unilaterais dos EUA contra a Rússia.

Todos a favor de chutar a Russia do clube...
por Kevin Sears
Sabe-se que os EUA estão desesperados para conseguir quebrar os crescentes laços econômicos e políticos entre Rússia e Europa.

Se havia um complô para derrubar um avião de passageiros, todos os dispositivos de segurança do sistema de mísseis teriam sido desligados, para que não abortassem o ataque e para que não houvesse registro de ataque, não acidental, mas deliberado. Essa pode ser a razão pela qual os ucranianos mandaram um jato para “inspecionar” de perto o avião malaio. É possível que o alvo fosse o avião presidencial de Putin, e a incompetência dos criminosos os tenha levado a destruir um avião de passageiros.

Há inúmeras explicações possíveis. É importante, agora, manter a mente aberta e resistir contra a propaganda dos EUA, até que apareçam os fatos e as provas. No mínimo, os EUA são culpados por usar o incidente para inculpar os russos “antecipadamente”, antes de qualquer prova.

Até agora, Washington só distribuiu acusações gratuitas e insinuações. E se Washington continuar a só distribuir acusações e insinuações sem provas... logo se saberá com certeza de quem é a culpa.

Enquanto isso, lembrem do menino que gritou “lobo!”, sem haver lobo algum, muitas vezes. Tantas vezes mentiu que, quando o lobo afinal realmente apareceu, ninguém acreditou nos gritos do menino. Será esse o destino final de Washington?

Nas guerras que declarou ao Iraque, ao Afeganistão, à Líbia, à Somália e à Síria, os EUA sempre se esconderam atrás de mentiras. Por quê? Se Washington quer guerra contra o Irã, a Rússia e a China, por que não declara guerra?

Constituição dos EUA, vilipendiada pelos  neocons  
A razão é que a Constituição dos EUA exige que, para que haja guerra, o Congresso emita uma Declaração de Guerra. Com esse dispositivo, se esperava que o Congresso conseguisse impedir que o Executivo fizesse as guerras que quisesse, para promover as agendas ocultas que bem entendesse. Agora, quando já abdicou dessa responsabilidade constitucional, o Congresso dos EUA já é cúmplice nos crimes de guerra do Executivo.

E ao aprovar o assassinato premeditado de palestinos por Israel, o governo dos EUA já é cúmplice também nos crimes de guerra de Israel.

Agora, se pergunte você mesmo, e responda: o mundo não seria mais seguro, lugar de menos morte, menos destruição e menos refugiados sem teto, e não seria lugar de mais verdade e mais justiça, se os EUA e Israel não existissem?



[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton,  Oxford University.

sábado, 22 de junho de 2013

WiliLeaks: “Em defesa de Bradley Manning e Edward Snowden”

22/6/2013, Julian Assange, Embaixada do Equador, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Declaração de Julian Assange ao completar 1 ano na Embaixada do Equador em Londres

Julian Assange - WikiLeaks
Faz agora um ano que entrei nesta embaixada, buscando refúgio porque estava sendo perseguido.

Resultado dessa decisão, tenho conseguido trabalhar em relativa segurança, protegido contra os agentes dos EUA que investigam uma acusação de espionagem.

Mas hoje, está começando o suplício de Edward Snowden.

Dois perigosos processos foram postos em movimento na última década, com consequências fatais para a democracia.

O sigilo dos governos expandiu-se numa escala aterrorizante. E, simultaneamente, a privacidade dos seres humanos foi erradicada, em segredo.

Há poucas semanas, Edward Snowden revelou ao mundo a existência de um programa secreto – que envolve o governo Obama, a comunidade de inteligência e gigantescas empresas que vendem serviços de internet – para espionar todos, em todo o mundo.

Resposta automática, como mecanismo de um relógio, Edward Snowden foi acusado de crime de espionagem pelo governo Obama.

O governo dos EUA espiona todos e cada um de nós... Mas é Edward Snowden quem é acusado de espionagem, porque nos alertou.

Estamos chegando ao ponto em a honra internacional por serviços prestados à humanidade não recai sobre quem tem um prêmio Nobel da Paz. Recai, isso sim, sobre quem seja acusado de espionagem pelo Departamento de Justiça dos EUA.

Edward Snowden é o oitavo vazador de informação secreta a ser acusado de espionagem no governo do presidente Obama.

Bradley Manning (E) e Edward Snowden (D)
Na 2ª-feira, o julgamento-show de Bradley Manning entrará na quarta semana.

Depois de uma lista enorme de crimes e perversidades cometidas contra ele, o governo dos EUA tenta condená-lo por “ajudar o inimigo”.

A palavra “traidor” foi muito usada nos últimos dias.

Mas quem é realmente o traidor, aqui?

Quem prometeu “esperança” e “mudança” a uma geração, para imediatamente trair as próprias promessas, dando à população só miséria crescente e estagnação?

Obama e a Constituição dos EUA...
Quem jurou defender a Constituição dos EUA, para imediatamente se pôr a alimentar a besta-fera de uma lei secreta, que vai devorando viva a Constituição dos EUA, de dentro para fora?

Que fim levou a promessa de fazer o governo mais transparente da história, mas que não faz outra coisa que perseguir um vazador depois do outro, numa sequência macabra, esmagando-os sob o peso de acusações de espionagem?

Quem assumiu, com mão de ferro, no Executivo, os poderes de acusador, juiz e carrasco, tentando fazer-se de dono do planeta, sobre o qual vai impondo todos esses poderes ilegítimos?

Quem se arroga o poder de espionar o planeta inteiro – cada um de nós – e, quando é apanhado com as mãos sujas de sangue, explica que “teremos de escolher”?

Quem é esse homem? Não pode haver dúvida alguma sobre quem declaramos “traidor”.

Edward Snowden está conosco. É um de nós. Bradley Manning é um de nós.

São jovens interessados em tecnologia, inteligentes: são a própria geração que Barack Obama atraiçoou, traiu.

São da geração que cresceu na Internet, modelada pela Internet.

O governo dos EUA sempre carecerá de analistas de inteligência, de administradores de sistemas, e terá de buscá-los nessa geração e nas gerações posteriores.

Um dia, essa geração comandará a Agência de Segurança Nacional, a CIA e o FBI.

Não é fenômeno passageiro. É absolutamente inevitável.

Ao tentar esmagar esses jovens vazadores, acusando-os de espionagem, o governo dos EUA ataca mortalmente uma geração inteira. E essa batalha os EUA perderão.

Acusar, prender, matar, não é o modo certo de consertar coisa alguma. O único modo de consertar o que deva ser consertado é: MUDEM SUAS POLÍTICAS.

Parem de espionar o mundo. Ponham fim às leis secretas. 

Ponham fim à prisão por tempo indefinido, sem processo e sem acusação. 

Parem de matar gente. Parem de assassinar.

Parem de invadir países e de mandar milhares de jovens norte-americanos para matar e ser mortos.

Parem de ocupar terras de outros. Ponham fim às guerras clandestinas.

Parem de destruir os jovens: Edward Snowden, Barrett Brown, Jeremy Hammond, Aaron Swartz, Gottfrid Svartholm, Jacob Appelbaum e Bradley Manning.

A acusação formalizada contra Edward Snowden visa a intimidar qualquer país que esteja pensando em ajudá-lo a defender seus direitos.

Não se pode admitir que essa monstruosidade se consume.

Todos temos de intensificar os esforços para encontrar país que dê asilo a Edward Snowden.

Que país valoroso o defenderá, reconhecendo o inestimável serviço que prestou à humanidade?

Diga ao seu governo, onde você estiver, que se apresente. 

Apresente-se você mesmo. Defenda Snowden!


domingo, 20 de janeiro de 2013

Direitonas: o passado vos condena


18/1/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Parry
Um dos pilares em que se apoia a direita dos EUA é que respeitariam a história norte-americana e, especialmente, a Constituição, mais e melhor que o resto dos norte-americanos.

O que se vê cada dia mais claramente é que a direita nos EUA não apenas absorveu uma ideia gravemente distorcida do que seja a Constituição, como também muitos conservadores destacados têm compreensão aberrante da história dos EUA, como o demonstrou recentemente o senador Rand Paul.

Na 4ª-feira, o Republicano do Kentucky apareceu no noticiário da rede Fox News, insistindo em comparar as ordens executivas assinadas pelo presidente Barack Obama sobre armas e segurança, ao que fez Franklin Delano Roosevelt (FDR), presidente dos EUA durante grande parte da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial.

Franklin Delano Roosevelt
Na “versão Paul” daquela história, “FDR tinha um pouco desse “complexo de rei”, como Obama. Então “tivemos de conter FDR, porque governou por tanto tempo que achou que seria presidente perpétuo. Hoje me preocupa muito que o presidente [Obama] acumule tantos poderes e tanta arrogância, que ‘'parece que pensa'’ que pode fazer o que quiser”.  

No que tenha a ver com FDR, Paul referia-se à 22ª Emenda, que passou a limitar a presidência a dois mandatos de quatro anos. Roosevelt foi o único presidente eleito mais de duas vezes (elegeu-se quatro vezes). Mas a 22ª Emenda nada teve a ver com “conter” o presidente Roosevelt.

Roosevelt morreu logo no início de seu quarto mandato, em 1945. A 22ª Emenda foi aprovada no Congresso em 1947 e ratificada pelos estados em 1951. Em outras palavras: Roosevelt já estava morto há vários anos, quando foi aprovada a 22ª Emenda.

Rand Paul
A história errada de Paul o põe em companhia de importantes Republicanos que se jactam de conhecer a história dos EUA e a Constituição, mas jamais se interessam por apresentar com correção os fatos históricos. Por exemplo, inúmeros candidatos potenciais à presidência pelo “Velho Grande Partido” [ing. Great Old Party, GOP] em 2012, inclusive o governador de Massachusetts, manifestaram perfeita ignorância de fatos básicos da Revolução Americana.

Mitt Romney, que foi governador durante quatro anos do estado onde começou a guerra revolucionária, escreve, em seu livro No Apology: The Case for American Greatness [Sem pedir desculpas: pela Grandeza Americana], que a Guerra Revolucionária teria começado em abril de 1775, quando os britânicos atacaram Boston, pelo mar. “Em abril de 1775, navios britânicos sitiaram o porto de Boston, e conseguiram tomar o comando da cidade” – escreveu Romney.

Sam Adams
A história real é outra: os militares britânicos já controlavam Boston desde muito antes de abril de 1775; os Redcoats [jalecos vermelhos] britânicos já cercavam a cidade rebelde desde 1768. O cerco fechou-se ainda mais depois do movimento Tea Party em Boston, dia 16/12/1773, depois do qual foram impostas as chamadas “Leis Intoleráveis” [orig. “Intolerable Acts”] em 1774, que reforçaram o cerco da cidade e interromperam o comércio pelo porto de Boston.

As ações agressivas dos britânicos forçaram os líderes dissidentes, Sam Adams e John Hancock, a escapar da cidade e refugiarem-se em Lexington, quando as milícias da colônia criavam arsenais de armas e munição em Concord, cidade próxima.

John Hancock
A Guerra Revolucionária não começou com o cerco de Boston, em abril de 1775, como Romney escreveu, mas quando os Redcoats aventuraram-se para fora de Boston, dia 19/4/1775, tentando capturar Adams e Hancock em Lexington e, em seguida, avançaram mais para o interior, tentando destruir os arsenais de armas dos colonos em Concord.

Os britânicos fracassaram nas duas tentativas, mas levaram à guerra, depois de matar oito homens de Massachusetts em Lexington Green. Depois disso, os Redcoats britânicos enfrentaram resistência feroz dos Minutemen [1] perto da Ponte Concord e foram forçados a recuar muito, até de volta a Boston, sofrendo baixas pesadas. Assim, a Guerra Revolucionária começou com retumbante vitória dos colonos, não com derrota – como se lê em livro que Romney diz ter escrito ele próprio.

Minutemen
A interpretação errada que Romney faz e divulga do início dessa guerra é ainda mais surpreendente, porque o estado de Massachusetts celebra anualmente as batalhas de Lexington e Concord, com feriado dito “Dia dos Patriotas”; a equipe dos Boston Red Sox faz um raro jogo matinal, em horário adequado para que a torcida possa deixar o [estádio] de Fenway Park a tempo para assistir o fim da Maratona de Boston [2].

Século errado, Estado errado

Rick Perry
Outros rivais, que disputavam a indicação Republicana à presidência, em 2012, também leram errado outros fatos históricos da fundação da nação.

O governador Rick Perry meteu a Revolução Americana nos anos 1500s. “A razão pela qual nós fizemos a revolução no século 16 foi para acabar, pode-se dizer, com aquela Coroa que nos roubava muito dinheiro” – disse Perry, errando por dois séculos, até a data da Guerra de Independência. Para ele, teria acontecido antes de a primeira colônia inglesa ser estabelecida no Novo Mundo, em Jamestown, Virginia, em 1607, no início do século 17!

Michele Bachman
No serviço de adular eleitores do movimento Tea Party em New Hampshire, a deputada Michele Bachmann de Minnesota pontificou: “Vocês são o estado de onde partiu o tiro que foi ouvido em todo o mundo, em Lexington e Concord”. (Confundiu-se, provavelmente, porque há uma cidade chamada Concord, New Hampshire, que nada tem a ver com outra, também Concord, mas em Massachusetts).

Ainda mais significativo, a Direita norte-americana meteu na cabeça de seus seguidores uma ideia-delírio sobre o que fez a Constituição dos EUA. A narrativa da fundação, no discurso da Direita, pula, da Declaração de Independência, em 1776, diretamente para a Constituição, que foi redigida em 1787 e ratificada em 1788. Eles apagam da história os “Artigos da Confederação”, que regeram a nação de 1777 a 1787.

Ao apagar os “Artigos”, a Direita pode inventar que a Constituição teria sido escrita com o objetivo de estabelecer um sistema dominado pelos estados, com governo central mantido pequeno e fraco. Em seguida, essa versão da história é citada em apoio de um discurso da Direita norte-americana, segundo o qual funcionários federais – como Roosevelt e Obama – estariam violando a Constituição quando procuram solução nacional para os problemas econômicos e sociais dos EUA.

George Washington
Mas, na história real, os homens que redigiram a Constituição [orig. Framers of the Constitution], especialmente George Washington e James Madison, rejeitavam ali a estrutura de unidades estaduais “independentes” e “soberanas” (e governo central fraco e a “liga de amizades”) que os “Artigos da Confederação” haviam estabelecido. Os Framers já haviam testemunhado o fracasso daquele sistema e sabiam o quando ameaçava o futuro da nova nação que acabava de declarar-se independente.

Por isso, Washington e Madison lideraram o que bem se pode chamar de “um golpe de Estado” na Convenção Constituinte, na Filadélfia. Embora só tivessem representação e instruções para sugerir emendas aos “Artigos” e devolver suas sugestões às Assembleias Estaduais, Washington e Madison descartaram integralmente os “Artigos” e produziram estrutura nova e dramaticamente diferente.

James Madison
Nesse movimento, foi-se pelo ralo o palavrório dos “Artigos” sobre unidades estaduais “soberanas” e “independentes”. E toda a soberania nacional foi direcionada para “Nós, o Povo dos Estados Unidos”. A nova Constituição tornou a lei federal superior a todas as outras, e assegurou a existência de um governo central, dando-lhe novos poderes sobre a moeda e o comércio e ampla autoridade para agir em nome do “Bem-estar geral” [orig. “general Welfare”].

Washington e Madison também cuidaram de cercar as Assembleias estaduais, impondo a primazia da nova Constituição, antes de qualquer convenção especial, e requerendo, para que a Constituição fosse ratificada, o apoio de apenas nove, dentre 13 estados [as 13 colônias de então, que enviaram representantes à Assembleia Constituinte na Filadélfia]. Eram mudanças tão absolutamente radicais, que surgiu uma oposição ali mesmo, os chamados “Anti-Federalists”.

Para salvar seu plano, Madison colaborou na redação de uma série de artigos, chamados “Federalist Papers”, trabalho no qual ele mesmo cuidou de baixar um pouco o tom da nova Constituição, tão radicais eram as mudanças inicialmente propostas. Concordou também com a redação de uma Lei de Direitos [“Bill of Rights”], pela qual se davam algumas garantias específicas aos indivíduos e aos estados.

E as Emendas também são erradamente interpretadas 

Algumas das primeiras dez emendas àquela Constituição foram substantivas; outras, quase só retóricas. Por exemplo, a 10ª Emenda determina que poderes não garantidos pela Constituição ao governo central permanecem como poderes “do povo” e dos estados. Mas o núcleo duro de qualquer Constituição é limitar os poderes dos governos – e os poderes que a Constituição dava ao governo central eram extraordinariamente amplos.

Assim, a 10ª Emenda – apesar dos esforços que a Direita faz hoje, sempre exagerando o significado dela – visava, principalmente, a conter os Anti-Federalistas. Para que se veja como sempre foi pouco significativa, basta compará-la com o texto do 2º artigo dos “Artigos da Confederação”, que a 10ª Emenda substituiu. (Sobre isso, ver Robert Parry, America’s Stolen Narrative).   

Hoje, a Direita também distorce o sentido do objetivo original da 2ª Emenda, que diz: “Uma milícia bem regulamentada sendo necessária à segurança de um estado livre, o direito de o povo ter e portar armas não será infringido”. Sempre foi concessão feita aos estados, que queriam ter polícias estaduais para manter “a segurança”; jamais significou armar os cidadãos.

A sangrenta batalha da Rebelião dos Shays
O contexto dessas preocupações era a experiência então recente da Rebelião dos Shays no oeste de Massachusetts (em 1786-87); o medo de rebeliões chefiadas por escravos, no sul; e o medo de ataques de populações norte-americanas nativas, nas fronteiras. Os estados queriam o direito de ter polícias armadas, para enfrentar essas ameaças.

Nos primeiros dias da República, a 2ª Emenda jamais foi vista como direito universal para todos os cidadãos, individualmente considerados. Por exemplo, alguns estados aprovaram “Leis Negras” [orig. “Black Codes”] que proibiam negros de serem proprietários de armas. Quando o Segundo Congresso aprovou a “Lei das Milícias” [orig. “Militia Act”] de 1792, a lei mandava armar especificamente “homens brancos em idade de prestar serviço militar”.

Mesmo assim, apesar de algumas horrendas concessões que entraram na redação da Constituição dos EUA – como tolerar a escravidão – o principal objetivo dos que a redigiram foi criar o quadro geral de uma República democrática, em cujos limites a nova nação pudesse aprovar outras leis necessárias ao crescimento e ao sucesso do novo país.

Naquele momento, as monarquias europeias previam o fracasso daquela experiência de autogoverno. E Washington, Madison e outros assemelhados quiseram mostrar que os norte-americanos conseguiriam se autogovernar sem recorrer à violência. Como um dos principais objetivos da Constituição, lá está: “garantir a Tranquilidade doméstica” [orig. “domestic Tranquility”].

Os que redigiram a Constituição dos EUA também reconheceram o fracasso dos “Artigos” e a necessidade de um governo central vibrante em país tão vasto como os EUA (e que continuava a se expandir). Jamais lhes passou pela cabeça ter população armada que resistisse pela violência contra o governo constitucionalmente constituído e eleito dos EUA. Na verdade, esse comportamento foi declarado “traição” (Sobre isso ler em: Second Amendment Madness.

Constituição dos EUA (fac-símile)
O que hoje se vê são neo-Confederados e outros movimentos da Direita nos EUA, a gastarem somas fabulosas de dinheiro para distorcer a história dos EUA e enganar cidadãos, fazendo-os crer que teriam de fazer todo o possível para “retomar” o próprio país das garras de “Obamas” [expressão que, em vários contextos, significa ainda “dos negros” (NTs)].

Quaisquer tímidos passos na direção de qualquer racionalidade com vistas à segurança, na questão das armas – inclusive leis aprovadas pela maioria conservadora da Suprema Corte dos EUA – são apresentadas como “atos de tirania”, como se ainda se tratasse de a Coroa Britânica tentar impor sua vontade às Treze Colônias, depois de as ter impedido de ter representantes no Parlamento Britânico.

O que é mais imediatamente perigoso, no movimento de a Direita des-escrever a história dos EUA é que – quando os EUA têm, afinal, seu primeiro presidente negro – milhões de brancos tratam de armar-se enlouquecidamente, convencidos de que teriam algum dever de “defender” a Constituição, mas sem ter na cabeça qualquer ideia aproveitável sobre o que os autores da mesma Constituição tentavam fazer, ao redigir aquela Constituição.

O que se vê, não é apenas a virulenta, viciosa retórica da Direita – que compara um presidente duas vezes eleito nos EUA, que tenta implementar uma tímida, modesta legislação sobre porte de armas nos EUA, imediatamente depois de um bárbaro massacre de crianças, ao monarca inglês; vê-se também que muitos, como Rand Paul e vários de seus companheiros Republicanos insistem em continuar a difundir uma visão distorcida dos fatos e não dão um passo, na direção de conhecer a história real.



Notas dos tradutores

[1]  Minuteman [aprox. “minuteiro”]. Na história da Revolução Norte-Americana, designa membro de milícias de cidadãos armados que tinham de manter-se preparados para engajar-se em combate “em minutos”, ao serem convocados. Os primeiros “minuteiros” foram organizados no condado de Worcester, Massachusetts, em setembro de 1774, quando os líderes revolucionários tentavam substituir os soldados britânicos das antigas guardas municipais, exigindo a demissão dos antigos oficiais e a reorganização de todos os regimentos, para que passassem a ser constituídos exclusivamente por “minuteiros” [colonos nativos, não britânicos]. Em seguida, outros condados passaram a adotar o mesmo procedimento; quando o Congresso Provincial de Massachusetts reuniu-se em Salem, em outubro, ordenou que a reorganização fosse completada em todo o estado. O primeiro grande teste dos “minuteiros” foram as Batalhas de Lexington e Concord, em 19/4/1775. Em 18/7/1775, o Congresso Continental ordenou que outras colônias organizassem unidades de resistência revolucionária de “minuteiros”, o que as colônias de Maryland, New Hampshire e Connecticut logo fizeram (trad. da Encylopaedia Britannica).

ATENÇÃO: Essa longa nota histórica nos pareceu importante, para ajudar a entender a “questão das armas em mãos de civis” nos EUA, que hoje tanto se discute. Ajuda a entender também o significado LOCAL que tem, nos EUA, a legislação “antiarmas” que Obama acaba de assinar. Nos EUA, essa discussão tem raízes históricas (e imaginárias) profundas.
É discussão, portanto, que significa uma coisa dentro dos EUA e significa outra coisa, absolutamente diferente, fora de lá. De fato, é discussão que significa NADA – quando é apenas papagueada, de segunda, terceira, quarta mão (e aumentando), por exemplo, pelos jornais, jornalistas e “analistas” brasileiros, que só fazem ler, copiar e reproduzir incansavelmente material produzido e publicado nos EUA.

[2] Mais uma vez, são informações que ajudam a começar a entender o sentido imaginário (e histórico) profundo de uma resistência de cidadãos armados, contra um exército imperial na Revolução Americana, que sobrevive entre os norte-americanos nossos contemporâneos.

Por um lado, não há “pacifismo” e “democratismo” liberal, de superfície, moralista e metido a “ético”, que consigam facilmente convencer esses norte-americanos “patriotas” de que se deveriam desarmar cidadãos armados que resistiram (armados) contra uma potência colonial e a derrotaram. Tudo isso é mobilizado no imaginário político e histórico, dentro da sociedade norte-americana, quando se fala em “armas”, lá, em 2012.

Mas, por outro lado, os Republicanos não têm qualquer interesse em fazer lembrar a importância de haver cidadãos armados em luta de resistência popular contra o Estado e suas instituições e apoiadores, se se candidatam à presidência do mesmo Estado. Então, num movimento muito frequente dentro do imaginário da mais pura má-consciência, da mais pura ideologia, defendem a indústria de armas. Para fazê-lo, são obrigados a apagar, do próprio argumento, o significado POLÍTICO das armas que tanto defendem.

Tudo vira conversa de doidos, que a imprensa-empresa apresenta como se se discutissem “fatos” e houvesse aí alguma discussão “democrática”.

Difícil imaginar “ideias no lugar”, tão artificialmente tratadas pela imprensa-empresa como se estivessem “fora de lugar”, por um lado; e, por outro, “ideias fora do lugar”, artificialmente tratadas como se estivessem “no lugar”. E tudo é apresentado como se aí houvesse algum “fato jornalístico” noticiável e tudo é “discutido” como se houvesse o que discutir nos termos em que a imprensa-empresa discute e ensina a discutir. A imprensa-empresa, que se constrói sobre o “atual” e o “diário”, em busca neurótica de uma “atualidade” inalcançável, é espaço privilegiado para promover esse papo de malucos e dar-lhe foro de verdade.