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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Karl Rove gera fúria dentro do “Velho Grande Partido” (GOP)


15/2/2013, DSWright, Firedoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido numa conversa do “orelhão” da Vila Vudu: ... o ex-José Serra & o ex-FHC devem ler.. e APRENDER A LIÇÃO!

DSWright
Karl Rove poderia ter metido a viola no saco e dado por encerrado o seu trabalho, quando re-elegeu George W. Bush em 2004. Entraria para a história como uma das mais bem-sucedidas carreiras na moderna política dos EUA. Ficaria para sempre como estrategista mestre, temido pelos inimigos, admirado pelos amigos, convertido em mito por observadores de todos os partidos e orientações políticas.

Em vez disso, Rove insistiu em permanecer em cena além do tempo que lhe cabia e, hoje, já passa vergonha.

Depois de conseguir arrecadar centenas de milhões de dólares de doadores Republicanos sob a promessa de que Mitt Romney seria presidente, Rove afundou-se definitivamente (e publicamente), quando se recusou a aceitar que o presidente Obama vencera as eleições no estado de Ohio. Em vez de fazer-se ver como alguém cujo legado de mestria política perduraria como exemplo, deixou-se ver, ao vivo, ridículo, como caso lastimável de desespero e de incompetência.

Karl Rove, antigo assessor do ex-presidente George W. Bush
E agora, ainda se recusando a admitir que é mais do que hora de sumir de cena, Rove está gerando furiosa guerra civil dentro do Partido Republicano.

Karl Rove passou uma semana tentando explicar-se – aos Republicanos.

Desde que anunciou planos, dia 4/2, para gastar dinheiro nas primárias do Congresso Republicano para promover candidatos “elegíveis”, Rove consome-se tentando apagar incêndio em mato seco, depois que ativistas conservadores declararam-se em “guerra civil” contra Republicanos do establishment.

Na essência, Rove tenta afirmar-se como fazedor de reis, num partido que já sofreu consideráveis derrotas eleitorais – resultado do ‘'legado Bush'’. No novo projeto, Rove espera conseguir vetar candidatos ao Parlamento ou, no caso de os vetados não se conformarem, desqualificá-los.

A "carga" do Tea Party 
Não surpreendentemente, o Tea Party está furioso.

Grupos do Tea Party, âncoras conservadores de programas de rádio, ativistas conservadores e inúmeros Republicanos, vendo no grupo que Rove tenta criar uma tentativa de distorcer a manifestação eleitoral dos eleitores conservadores, reagiram furiosamente pela imprensa, nas páginas conservadoras na Internet e, claro, também pelo Twitter, onde a fúria já tem hashtag oficial: #CrushRove [esmague Rove].
Quem inventou que Karl Rove seria rainha do baile?” – ladrou Mark Levin, pelo rádio.

Se continuar a ira que Rove está criando, não só os Conservadores se revoltarão contra candidatos Republicanos, mas pode acontecer até de o Partido Republicano rachar ao meio, caso os ativistas do Tea Party sintam que ficaram sem voz. Rove está a ponto de destruir o Partido para o qual sonhou inventar maioria permanente. Patética herança do ex-grande guru!



domingo, 20 de janeiro de 2013

Direitonas: o passado vos condena


18/1/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Parry
Um dos pilares em que se apoia a direita dos EUA é que respeitariam a história norte-americana e, especialmente, a Constituição, mais e melhor que o resto dos norte-americanos.

O que se vê cada dia mais claramente é que a direita nos EUA não apenas absorveu uma ideia gravemente distorcida do que seja a Constituição, como também muitos conservadores destacados têm compreensão aberrante da história dos EUA, como o demonstrou recentemente o senador Rand Paul.

Na 4ª-feira, o Republicano do Kentucky apareceu no noticiário da rede Fox News, insistindo em comparar as ordens executivas assinadas pelo presidente Barack Obama sobre armas e segurança, ao que fez Franklin Delano Roosevelt (FDR), presidente dos EUA durante grande parte da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial.

Franklin Delano Roosevelt
Na “versão Paul” daquela história, “FDR tinha um pouco desse “complexo de rei”, como Obama. Então “tivemos de conter FDR, porque governou por tanto tempo que achou que seria presidente perpétuo. Hoje me preocupa muito que o presidente [Obama] acumule tantos poderes e tanta arrogância, que ‘'parece que pensa'’ que pode fazer o que quiser”.  

No que tenha a ver com FDR, Paul referia-se à 22ª Emenda, que passou a limitar a presidência a dois mandatos de quatro anos. Roosevelt foi o único presidente eleito mais de duas vezes (elegeu-se quatro vezes). Mas a 22ª Emenda nada teve a ver com “conter” o presidente Roosevelt.

Roosevelt morreu logo no início de seu quarto mandato, em 1945. A 22ª Emenda foi aprovada no Congresso em 1947 e ratificada pelos estados em 1951. Em outras palavras: Roosevelt já estava morto há vários anos, quando foi aprovada a 22ª Emenda.

Rand Paul
A história errada de Paul o põe em companhia de importantes Republicanos que se jactam de conhecer a história dos EUA e a Constituição, mas jamais se interessam por apresentar com correção os fatos históricos. Por exemplo, inúmeros candidatos potenciais à presidência pelo “Velho Grande Partido” [ing. Great Old Party, GOP] em 2012, inclusive o governador de Massachusetts, manifestaram perfeita ignorância de fatos básicos da Revolução Americana.

Mitt Romney, que foi governador durante quatro anos do estado onde começou a guerra revolucionária, escreve, em seu livro No Apology: The Case for American Greatness [Sem pedir desculpas: pela Grandeza Americana], que a Guerra Revolucionária teria começado em abril de 1775, quando os britânicos atacaram Boston, pelo mar. “Em abril de 1775, navios britânicos sitiaram o porto de Boston, e conseguiram tomar o comando da cidade” – escreveu Romney.

Sam Adams
A história real é outra: os militares britânicos já controlavam Boston desde muito antes de abril de 1775; os Redcoats [jalecos vermelhos] britânicos já cercavam a cidade rebelde desde 1768. O cerco fechou-se ainda mais depois do movimento Tea Party em Boston, dia 16/12/1773, depois do qual foram impostas as chamadas “Leis Intoleráveis” [orig. “Intolerable Acts”] em 1774, que reforçaram o cerco da cidade e interromperam o comércio pelo porto de Boston.

As ações agressivas dos britânicos forçaram os líderes dissidentes, Sam Adams e John Hancock, a escapar da cidade e refugiarem-se em Lexington, quando as milícias da colônia criavam arsenais de armas e munição em Concord, cidade próxima.

John Hancock
A Guerra Revolucionária não começou com o cerco de Boston, em abril de 1775, como Romney escreveu, mas quando os Redcoats aventuraram-se para fora de Boston, dia 19/4/1775, tentando capturar Adams e Hancock em Lexington e, em seguida, avançaram mais para o interior, tentando destruir os arsenais de armas dos colonos em Concord.

Os britânicos fracassaram nas duas tentativas, mas levaram à guerra, depois de matar oito homens de Massachusetts em Lexington Green. Depois disso, os Redcoats britânicos enfrentaram resistência feroz dos Minutemen [1] perto da Ponte Concord e foram forçados a recuar muito, até de volta a Boston, sofrendo baixas pesadas. Assim, a Guerra Revolucionária começou com retumbante vitória dos colonos, não com derrota – como se lê em livro que Romney diz ter escrito ele próprio.

Minutemen
A interpretação errada que Romney faz e divulga do início dessa guerra é ainda mais surpreendente, porque o estado de Massachusetts celebra anualmente as batalhas de Lexington e Concord, com feriado dito “Dia dos Patriotas”; a equipe dos Boston Red Sox faz um raro jogo matinal, em horário adequado para que a torcida possa deixar o [estádio] de Fenway Park a tempo para assistir o fim da Maratona de Boston [2].

Século errado, Estado errado

Rick Perry
Outros rivais, que disputavam a indicação Republicana à presidência, em 2012, também leram errado outros fatos históricos da fundação da nação.

O governador Rick Perry meteu a Revolução Americana nos anos 1500s. “A razão pela qual nós fizemos a revolução no século 16 foi para acabar, pode-se dizer, com aquela Coroa que nos roubava muito dinheiro” – disse Perry, errando por dois séculos, até a data da Guerra de Independência. Para ele, teria acontecido antes de a primeira colônia inglesa ser estabelecida no Novo Mundo, em Jamestown, Virginia, em 1607, no início do século 17!

Michele Bachman
No serviço de adular eleitores do movimento Tea Party em New Hampshire, a deputada Michele Bachmann de Minnesota pontificou: “Vocês são o estado de onde partiu o tiro que foi ouvido em todo o mundo, em Lexington e Concord”. (Confundiu-se, provavelmente, porque há uma cidade chamada Concord, New Hampshire, que nada tem a ver com outra, também Concord, mas em Massachusetts).

Ainda mais significativo, a Direita norte-americana meteu na cabeça de seus seguidores uma ideia-delírio sobre o que fez a Constituição dos EUA. A narrativa da fundação, no discurso da Direita, pula, da Declaração de Independência, em 1776, diretamente para a Constituição, que foi redigida em 1787 e ratificada em 1788. Eles apagam da história os “Artigos da Confederação”, que regeram a nação de 1777 a 1787.

Ao apagar os “Artigos”, a Direita pode inventar que a Constituição teria sido escrita com o objetivo de estabelecer um sistema dominado pelos estados, com governo central mantido pequeno e fraco. Em seguida, essa versão da história é citada em apoio de um discurso da Direita norte-americana, segundo o qual funcionários federais – como Roosevelt e Obama – estariam violando a Constituição quando procuram solução nacional para os problemas econômicos e sociais dos EUA.

George Washington
Mas, na história real, os homens que redigiram a Constituição [orig. Framers of the Constitution], especialmente George Washington e James Madison, rejeitavam ali a estrutura de unidades estaduais “independentes” e “soberanas” (e governo central fraco e a “liga de amizades”) que os “Artigos da Confederação” haviam estabelecido. Os Framers já haviam testemunhado o fracasso daquele sistema e sabiam o quando ameaçava o futuro da nova nação que acabava de declarar-se independente.

Por isso, Washington e Madison lideraram o que bem se pode chamar de “um golpe de Estado” na Convenção Constituinte, na Filadélfia. Embora só tivessem representação e instruções para sugerir emendas aos “Artigos” e devolver suas sugestões às Assembleias Estaduais, Washington e Madison descartaram integralmente os “Artigos” e produziram estrutura nova e dramaticamente diferente.

James Madison
Nesse movimento, foi-se pelo ralo o palavrório dos “Artigos” sobre unidades estaduais “soberanas” e “independentes”. E toda a soberania nacional foi direcionada para “Nós, o Povo dos Estados Unidos”. A nova Constituição tornou a lei federal superior a todas as outras, e assegurou a existência de um governo central, dando-lhe novos poderes sobre a moeda e o comércio e ampla autoridade para agir em nome do “Bem-estar geral” [orig. “general Welfare”].

Washington e Madison também cuidaram de cercar as Assembleias estaduais, impondo a primazia da nova Constituição, antes de qualquer convenção especial, e requerendo, para que a Constituição fosse ratificada, o apoio de apenas nove, dentre 13 estados [as 13 colônias de então, que enviaram representantes à Assembleia Constituinte na Filadélfia]. Eram mudanças tão absolutamente radicais, que surgiu uma oposição ali mesmo, os chamados “Anti-Federalists”.

Para salvar seu plano, Madison colaborou na redação de uma série de artigos, chamados “Federalist Papers”, trabalho no qual ele mesmo cuidou de baixar um pouco o tom da nova Constituição, tão radicais eram as mudanças inicialmente propostas. Concordou também com a redação de uma Lei de Direitos [“Bill of Rights”], pela qual se davam algumas garantias específicas aos indivíduos e aos estados.

E as Emendas também são erradamente interpretadas 

Algumas das primeiras dez emendas àquela Constituição foram substantivas; outras, quase só retóricas. Por exemplo, a 10ª Emenda determina que poderes não garantidos pela Constituição ao governo central permanecem como poderes “do povo” e dos estados. Mas o núcleo duro de qualquer Constituição é limitar os poderes dos governos – e os poderes que a Constituição dava ao governo central eram extraordinariamente amplos.

Assim, a 10ª Emenda – apesar dos esforços que a Direita faz hoje, sempre exagerando o significado dela – visava, principalmente, a conter os Anti-Federalistas. Para que se veja como sempre foi pouco significativa, basta compará-la com o texto do 2º artigo dos “Artigos da Confederação”, que a 10ª Emenda substituiu. (Sobre isso, ver Robert Parry, “America’s Stolen Narrative”).   

Hoje, a Direita também distorce o sentido do objetivo original da 2ª Emenda, que diz: “Uma milícia bem regulamentada sendo necessária à segurança de um estado livre, o direito de o povo ter e portar armas não será infringido”. Sempre foi concessão feita aos estados, que queriam ter polícias estaduais para manter “a segurança”; jamais significou armar os cidadãos.

A sangrenta batalha da Rebelião dos Shays
O contexto dessas preocupações era a experiência então recente da Rebelião dos Shays no oeste de Massachusetts (em 1786-87); o medo de rebeliões chefiadas por escravos, no sul; e o medo de ataques de populações norte-americanas nativas, nas fronteiras. Os estados queriam o direito de ter polícias armadas, para enfrentar essas ameaças.

Nos primeiros dias da República, a 2ª Emenda jamais foi vista como direito universal para todos os cidadãos, individualmente considerados. Por exemplo, alguns estados aprovaram “Leis Negras” [orig. “Black Codes”] que proibiam negros de serem proprietários de armas. Quando o Segundo Congresso aprovou a “Lei das Milícias” [orig. “Militia Act”] de 1792, a lei mandava armar especificamente “homens brancos em idade de prestar serviço militar”.

Mesmo assim, apesar de algumas horrendas concessões que entraram na redação da Constituição dos EUA – como tolerar a escravidão – o principal objetivo dos que a redigiram foi criar o quadro geral de uma República democrática, em cujos limites a nova nação pudesse aprovar outras leis necessárias ao crescimento e ao sucesso do novo país.

Naquele momento, as monarquias europeias previam o fracasso daquela experiência de autogoverno. E Washington, Madison e outros assemelhados quiseram mostrar que os norte-americanos conseguiriam se autogovernar sem recorrer à violência. Como um dos principais objetivos da Constituição, lá está: “garantir a Tranquilidade doméstica” [orig. “domestic Tranquility”].

Os que redigiram a Constituição dos EUA também reconheceram o fracasso dos “Artigos” e a necessidade de um governo central vibrante em país tão vasto como os EUA (e que continuava a se expandir). Jamais lhes passou pela cabeça ter população armada que resistisse pela violência contra o governo constitucionalmente constituído e eleito dos EUA. Na verdade, esse comportamento foi declarado “traição” (Sobre isso ler em: “Second Amendment Madness”.

Constituição dos EUA (fac-símile)
O que hoje se vê são neo-Confederados e outros movimentos da Direita nos EUA, a gastarem somas fabulosas de dinheiro para distorcer a história dos EUA e enganar cidadãos, fazendo-os crer que teriam de fazer todo o possível para “retomar” o próprio país das garras de “Obamas” [expressão que, em vários contextos, significa ainda “dos negros” (NTs)].

Quaisquer tímidos passos na direção de qualquer racionalidade com vistas à segurança, na questão das armas – inclusive leis aprovadas pela maioria conservadora da Suprema Corte dos EUA – são apresentadas como “atos de tirania”, como se ainda se tratasse de a Coroa Britânica tentar impor sua vontade às Treze Colônias, depois de as ter impedido de ter representantes no Parlamento Britânico.

O que é mais imediatamente perigoso, no movimento de a Direita des-escrever a história dos EUA é que – quando os EUA têm, afinal, seu primeiro presidente negro – milhões de brancos tratam de armar-se enlouquecidamente, convencidos de que teriam algum dever de “defender” a Constituição, mas sem ter na cabeça qualquer ideia aproveitável sobre o que os autores da mesma Constituição tentavam fazer, ao redigir aquela Constituição.

O que se vê, não é apenas a virulenta, viciosa retórica da Direita – que compara um presidente duas vezes eleito nos EUA, que tenta implementar uma tímida, modesta legislação sobre porte de armas nos EUA, imediatamente depois de um bárbaro massacre de crianças, ao monarca inglês; vê-se também que muitos, como Rand Paul e vários de seus companheiros Republicanos insistem em continuar a difundir uma visão distorcida dos fatos e não dão um passo, na direção de conhecer a história real.



Notas dos tradutores

[1]  Minuteman [aprox. “minuteiro”]. Na história da Revolução Norte-Americana, designa membro de milícias de cidadãos armados que tinham de manter-se preparados para engajar-se em combate “em minutos”, ao serem convocados. Os primeiros “minuteiros” foram organizados no condado de Worcester, Massachusetts, em setembro de 1774, quando os líderes revolucionários tentavam substituir os soldados britânicos das antigas guardas municipais, exigindo a demissão dos antigos oficiais e a reorganização de todos os regimentos, para que passassem a ser constituídos exclusivamente por “minuteiros” [colonos nativos, não britânicos]. Em seguida, outros condados passaram a adotar o mesmo procedimento; quando o Congresso Provincial de Massachusetts reuniu-se em Salem, em outubro, ordenou que a reorganização fosse completada em todo o estado. O primeiro grande teste dos “minuteiros” foram as Batalhas de Lexington e Concord, em 19/4/1775. Em 18/7/1775, o Congresso Continental ordenou que outras colônias organizassem unidades de resistência revolucionária de “minuteiros”, o que as colônias de Maryland, New Hampshire e Connecticut logo fizeram (trad. da Encylopaedia Britannica).

ATENÇÃO: Essa longa nota histórica nos pareceu importante, para ajudar a entender a “questão das armas em mãos de civis” nos EUA, que hoje tanto se discute. Ajuda a entender também o significado LOCAL que tem, nos EUA, a legislação “antiarmas” que Obama acaba de assinar. Nos EUA, essa discussão tem raízes históricas (e imaginárias) profundas.
É discussão, portanto, que significa uma coisa dentro dos EUA e significa outra coisa, absolutamente diferente, fora de lá. De fato, é discussão que significa NADA – quando é apenas papagueada, de segunda, terceira, quarta mão (e aumentando), por exemplo, pelos jornais, jornalistas e “analistas” brasileiros, que só fazem ler, copiar e reproduzir incansavelmente material produzido e publicado nos EUA.

[2] Mais uma vez, são informações que ajudam a começar a entender o sentido imaginário (e histórico) profundo de uma resistência de cidadãos armados, contra um exército imperial na Revolução Americana, que sobrevive entre os norte-americanos nossos contemporâneos.

Por um lado, não há “pacifismo” e “democratismo” liberal, de superfície, moralista e metido a “ético”, que consigam facilmente convencer esses norte-americanos “patriotas” de que se deveriam desarmar cidadãos armados que resistiram (armados) contra uma potência colonial e a derrotaram. Tudo isso é mobilizado no imaginário político e histórico, dentro da sociedade norte-americana, quando se fala em “armas”, lá, em 2012.

Mas, por outro lado, os Republicanos não têm qualquer interesse em fazer lembrar a importância de haver cidadãos armados em luta de resistência popular contra o Estado e suas instituições e apoiadores, se se candidatam à presidência do mesmo Estado. Então, num movimento muito frequente dentro do imaginário da mais pura má-consciência, da mais pura ideologia, defendem a indústria de armas. Para fazê-lo, são obrigados a apagar, do próprio argumento, o significado POLÍTICO das armas que tanto defendem.

Tudo vira conversa de doidos, que a imprensa-empresa apresenta como se se discutissem “fatos” e houvesse aí alguma discussão “democrática”.

Difícil imaginar “ideias no lugar”, tão artificialmente tratadas pela imprensa-empresa como se estivessem “fora de lugar”, por um lado; e, por outro, “ideias fora do lugar”, artificialmente tratadas como se estivessem “no lugar”. E tudo é apresentado como se aí houvesse algum “fato jornalístico” noticiável e tudo é “discutido” como se houvesse o que discutir nos termos em que a imprensa-empresa discute e ensina a discutir. A imprensa-empresa, que se constrói sobre o “atual” e o “diário”, em busca neurótica de uma “atualidade” inalcançável, é espaço privilegiado para promover esse papo de malucos e dar-lhe foro de verdade.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Eleições, EUA: há chances para o partido de Obama?

28/10/2010, Michael Tomasky, New York Review of Books, vol. 57, n. 16
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
 
Como vão as coisas para o partido de Obama? Em Washington, a voz geral é que, nas próximas eleições de 2/11, o partido perderá a maioria na Câmara de Deputados [ing. House of Representatives] e provavelmente também no Senado (embora nesse caso haja menos certezas). Se os Republicanos assumirem a maioria de uma ou das duas casas, o partido e os jornalistas conservadores proclamarão que os eleitores rejeitaram “o socialismo” e começará a campanha para que Barack Obama passe à história como presidente de um único mandato.

O efeito mais pernicioso, desses desdobramentos, ao qual poucos têm dado atenção, será que, no instante em que alcancem a maioria, os Republicanos chegarão à presidência das principais comissões – e desencadearão ‘investigações’ de todo o tipo contra o governo Obama. Por exemplo, ‘denunciarão’ e exigirão ‘investigação’ contra o Departamento de Estado que, para os Republicanos, favoreceu réus negros, ao não acolher a denúncia contra o Novo Partido Black Panther da Filadélfia, acusado de irregularidades eleitorais.

As acusações serão puro denuncismo, sem qualquer tipo de base fatual, mas servirão para desviar a atenção do governo dos objetivos políticos, criarão uma aura de ‘governo corrupto’ (ou racista pró negros) e, de tanto espernearem, é bem possível que os Republicanos ainda peguem um ou outro peixe grande, apanhado por perjúrio ou obstrução da justiça. (O mais provável é que reemerjam as acusações à moda dos julgamentos de Chicago, execrados vez ou outra por falhas processuais, mas que jamais deixaram de ser instrumento de campanha dos Republicanos.) Os Republicanos jogam para ganhar.

Como as coisas chegaram a esse ponto, para Obama? Há inúmeras razões. O estado da economia é, evidentemente, a primeira delas. Se os ‘estímulos’ tivessem operado o milagre de manter baixas as taxas de desemprego, abaixo de 8%, como Christina Romer, que acaba de deixar a presidência do Conselho de Conselheiros Econômicos, prometeu que aconteceria (num dos comentários menos prudentes, feito por auxiliar direto do presidente Obama), o descontentamento e a frustração dos eleitores talvez não fossem tão acentuados, e os rugidos da minoria irada do “Tea Party” não ecoassem tanto. Fato é que os principais conselheiros econômicos do presidente, como Timothy Geithner e Lawrence Summers (que deixará o cargo no final do ano) estavam realmente convencidos de que, em outubro e novembro desse ano, a economia estaria em plena recuperação. Se tivessem acertado, o prognóstico político para os Democratas ainda seria perder assentos, mas não na escala catastrófica hoje prevista.

Analistas que observam há anos a história das eleições para o Congresso lembram que o partido do presidente que esteja no cargo sempre perde assentos nas eleições de meio de mandato – desde 1862; a média de assentos perdidos em eleições de meio de mandato é de cerca de 32 na Câmara de Deputados e dois no Senado. Só duas vezes, desde a Guerra Civil – em 1934, durante a Depressão; e em 2002, depois dos ataques do 11/9 –, o partido do presidente ganhou assentos, dois anos depois de ter tomado posse. Outros especialistas argumentam que a maioria Democrata cresceu mais do que a média e contra a tendência histórica em 2006 e 2008: efeito da impopularidade de George W. Bush; os Democratas ganharam alguns assentos que normalmente não ganhariam e, nesse sentido, as perdas de 2010 podem ser vistas, em certa medida, como movimento pelo qual os Republicanos recuperam os votos que tradicionalmente são seus.

O primeiro argumento é evidentemente verdadeiro. O segundo tem algum fundamento, mas seu peso tem sido exagerado. Os Democratas expandiram sua base em 2006 e 2008, vencendo em áreas que sempre haviam sido Republicanas. Mas não chegaram lá apenas por causa da impopularidade de um governo Republicano. Algumas daquelas áreas estavam em processo de mudança demográfica, suficientemente profunda para tornar mais palatáveis os candidatos Democratas. No 7º Distrito de Michigan (a oeste e ao sul de Ann Arbor), no 5º Distrito de Virginia (sudoeste, incluindo Charlottesville), e no 19º Distrito de New York (condados de Dutchess e Rockland), por exemplo, um aumento no número de eleitores com formação universitária ajudou a construir as vitórias dos Democratas em 2006 e 2008, e é possível que voltem a vencer nesses distritos.

No longo prazo, o mapa dos distritos competitivos expandiu-se a favor dos Democratas, por causa dessas mudanças, que também levaram mais eleitores latinos para o sudoeste (pode-se prever que até o Texas talvez seja estado Democrata à altura do ano 2020). Mas em 2010, os atuais representantes Democratas em três desses distritos – Mark Schauer, Tom Periello e John Hall, respectivamente – estão hoje lutando para salvar o próprio futuro político e há alto risco de não serem reeleitos [1].

Entre os Democratas e a esquerda norte-americana há, como sempre, mais diferenças do que semelhanças na avaliação que fazem sobre como as coisas chegaram ao ponto em que estão. O argumento padrão da esquerda é que Barack Obama não conseguiu atender nem às expectativas da esquerda politizada nem da população mais pobre em pelo menos dois campos cruciais: o pacote de ‘estímulos’ à economia e as leis de reforma das Finanças e da Saúde. Os centristas argumentam que Obama foi excessivamente ‘esquerdista’ e ‘populista’ e deveria ter-se concentrado mais na administração do déficit. Alguns observadores culpam Obama por ter-se dedicado excessivamente a construir ‘consensos’ entre os dois partidos, o que consideram esforço ingênuo e excessivo, que se fundamentaria numa espécie de fé messiânica nos pressupostos poderes de persuasão do próprio presidente, apesar de ter de disputar votos nas eleições locais (ing. caucuses) em que dominam alguns grupos decididos a em nenhum caso colaborar com Democratas. Outros criticaram o presidente Obama por não se ter posto em campanha corpo a corpo mais agressivamente ao longo do ano, e não ter nem tentado definir pessoalmente os termos do debate, em vez de deixar que os Republicanos os definissem.

Há alguns grãos de verdade em cada um desses argumentos; o último, acima, é o mais difícil de enfrentar e desmentir. Nos longos discursos de 6/9 (Dia do Trabalho) e de 8/9, nos quais Obama declarou sua posição sobre impostos, pequenos empreendimentos e outras questões, e no qual falou em tom raramente usado, muito pessoal e focado, sobre o líder dos deputados Republicanos de Ohio, John Boehner, Obama aceitou a disputa. Mas é estranho que tenha demorado tanto tempo a fazê-lo, sobretudo depois de os Republicanos terem exposto a própria intransigência e depois de um longo verão durante o qual os Democratas sofreram vários revezes políticos, desde o fracasso das tentativas para aprovar legislação sobre energia, até a chuva de números muito ruins sobre o desemprego, sem esquecer a agitação demagógica, intolerante, vergonhosa, que se criou em torno da construção do Centro Islâmico de Manhattan.

Deve-se considerar contudo que é perfeitamente possível que as eleições de 2/11 não sejam tão ruins para os Democratas quanto a maioria dos jornais prevê. Não se sabe, sequer, se o “Movimento Tea Party” conseguirá dividir os votos da ala mais conservadora dos Republicanos [ing. GOP, Great Old Party]. Mas, aconteça o que acontecer, ainda que os Democratas não percam a maioria na Câmara de Deputados ou que só percam por pequena margem, e no Senado com margem mínima, não há dúvidas de que a situação é difícil. Mais uma vez, como aconteceu depois do 11/9, e tem acontecido frequentemente na política norte-americana, os Republicanos têm conseguido rotular os Democratas, não apenas como partido elitista, mas, em larga medida, também como partido alienado das grandes questões ‘americanas’ [“antiamericano”, nesse sentido], rótulos contra os quais nem o presidente nem qualquer dos Democratas reagiram.

Quem tenha visto a campanha eleitoral de Obama, conduzida com mão de mestre, durante a qual a equipe sempre respondia a todos os ataques com rapidez e eficácia, seria levado a crer que os Democratas teriam, afinal, aprendido a responder e não admitiriam quaisquer novos ataques à sua imagem e aos seus fundamentos. Nada disso aconteceu depois da posse de Obama.

Minha resposta pessoal à questão de como as coisas chegaram ao ponto (muito ruim) a que chegaram tem menos a ver com se Obama seria homem mais de esquerda ou mais de centro; e tem mais a ver com a aparente incapacidade, talvez recusa, pelo presidente e por seu Partido, a expor em argumentos claros, convincentes e persuasivos as suas crenças centrais, construindo um discurso claro de oposição ao discurso dos Republicanos. É problema antigo, desde os anos Reagan. E é um ponto frágil, que muitos Democratas e militantes da esquerda norte-americana esperavam que Obama conseguisse modificar – porque a campanha eleitoral fez crer que Obama seria capaz de modificar. Mas, acabada a campanha, nem Obama nem qualquer de seus assessores e conselheiros deram qualquer atenção a esse ponto.

Na política norte-americana, os Republicanos sempre falam em temas muito amplos e tendem a misturar todos os detalhes; e os Democratas sempre ignoram os temas amplos e focam-se nos detalhes. Os Republicanos, por exemplo, falam constantemente de “direitos” e “liberdade” e balizam todas as suas iniciativas – cortes de impostos, desregulação etc. – nos limites dessas amplas categorias. Os Democratas, por sua vez, falam mais de programas específicos e de políticas e não se manifestam sobre os grandes temas. Há um motivo para que as coisas seja  assim: os temas dos Republicanos, “direitos” e “liberdade” são temas populares, que estão na boca do povo; e as políticas dos Republicanos raramente são populares; e os temas dos Democratas (“comunidade”, “tolerância”, “justiça social” não são temas populares e raramente são ouvidos pelas ruas; e vários dos programas de políticas dos Democratas (“Reforma da Saúde”, “assistência pública à Saúde” e até, em vários casos, a política de precificar as emissões de carbono) contam, quase sempre, com maior apoio popular. Por isso, quando tudo parece estar falhando, os Democratas tentam assustar os eleitores com o risco de a Assistência Social ser extinta, no caso de os Republicanos serem eleitos – como, aliás, já estão fazendo nesse exato momento.

Mas os Democratas sempre erraram muito em um ponto, desde os anos Reagan: eles absolutamente não conseguem conectar suas políticas e suas crenças políticas mais fundamentais. De fato, é como se os Democratas tentassem ocultar aquelas crenças políticas fundamentais, ou mudam de assunto sempre que o tema emerge. O resultado disso tem sido que, já há muitos anos, os Republicanos têm conseguido expor sua filosofia como algo que seria ‘autenticamente’ “americano”, ao mesmo tempo em que encontram ponto de apoio para mover sua alavanca contra os Democratas, acusados de serem opositores dos valores nacionais norte-americanos. “Querem transformar os EUA em país socialista europeu”, por exemplo, é linha de ataque retórico que circula desde muito antes do governo Obama – foi usada contra o plano de reforma da Saúde, de Clinton.

Considerem-se então os problemas específicos que Obama têm de encarar, mestiço (visivelmente negro), com nome exótico e biografia absolutamente atípica entre os presidentes dos EUA. Acrescente-se a maior crise econômica em 80 anos, e as respostas do governo à crise, respostas que, para um grupo super organizado e energizado da extrema direita, aproximam os EUA do socialismo. Um dos efeitos desse processo é que os EUA conhecem hoje uma nova facção, o rico movimento “Tea Party” que se autoproclamou símbolo, praticamente, do americanismo mais ‘puro’ e que trabalham incansavelmente para apresentar o presidente, suas ideias, suas políticas e seus apoiadores, não só como não-americanos, mas como ativos antiamericanos. Pesquisa feita pela revista Newsweek, distribuída no final de agosto, mostra que cerca de 1/3 dos norte-americanos declaram com “absoluta verdade” e como “provável verdade” que Obama “aceita os objetivos dos fundamentalistas islâmicos que querem implantar a lei islâmica em todo o mundo” [2].

Nesse quadro, nenhum Democrata de destaque, nem o próprio Obama, teve a ideia de declarar algo como “Amamos os EUA como vocês amam. Para nós, amar os EUA é oferecer assistência pública de boa qualidade à saúde de todos; é defender a preservação do meio ambiente e impor rédea firme, efetiva, contra os especuladores de Wall Street”. Até agora, os Democratas deixaram-se diminuir, eles mesmos; não fizeram outra coisa além de oferecer versões limitadas de ações políticas legítimas; e entregaram aos Republicanos, sem luta, a bandeira do amor proclamado aos EUA.

Esse é um dos fatores que nenhuma pesquisa aferiu até agora, mas estou convencido de que a hesitação dos Democratas, que não se decidem a associar seus programas a crenças mais profundas está desmoralizando o partido aos olhos da esquerda norte-americana e confundindo (ou deixando que se afastem) os independentes. Os eleitores vão às urnas com a impressão de que os Republicanos lutam pelos EUA; e que os Democratas lutam pelas próprias candidaturas. Na campanha eleitoral, Obama impôs, com vigor, um apelo nacional, patriótico; seus dois discursos, na convenção de 2004 e em Iowa, no Dia Jefferson-Jackson, em novembro de 2007, são exemplo disso. Hoje, qualquer impressão de que os Democratas tenham alguma posição coerente sobre o tipo de país que desejam já virou pó. Como se, hoje, os únicos  problemas que realmente mobilizam e preocupam os Democratas fossem as posições divergentes, dentro do partido, sobre a reforma da Saúde ou o desempenho de Tim Geithner. 

O Congresso que assumirá em janeiro do próximo ano, mesmo que os Democratas não percam a maioria, será muito diferente do que Obama encontrou ao assumir a presidência. A margem de vantagem dos Democratas nas duas Casas – que hoje é de 77% na Câmara e de 18% no Senado, contando-se os dois senadores independentes que votam com os Democratas nos caucuses – estará significativamente menor. Dado o número de Democratas conservadores e de centristas que permanecerão no Congresso, mas provavelmente votarão com os Republicanos, a chance de que o governo consiga aprovar leis progressistas aproxima-se perigosamente do zero.

É bastante provável que deputados conhecidos não se reelejam – e Ted Kennedy e Robert Byrd, últimos laços remanescentes dos melhores dias do Senado, morreram durante a última legislatura. –Patty Murray do estado de Washington, que chegou ao Senado em 1992,  nas eleições do “Ano da Mulher”, depois da polêmica Anita Hill-Clarence Thomas, enfrenta hoje disputa duríssima contra o Republicano Dino Rossi, que, em 2004, perdeu a eleição para governador mais disputada da história dos EUA (depois de ter sido declarado vencedor). Russ Feingold, de Wisconsin, está perdendo, segundo pesquisas, para Ron Johnson, candidato financiado pelo Movimento “Tea Party”, que se casou com herdeira de uma fábrica de plástico que ele próprio converteu em megaempresa, e que disse, mês passado, sobre o aquecimento global: “O mais provável é que o aquecimento seja efeito das manchas solares, ou simples movimento de acomodação, semelhante aos que sempre aconteceram na longa duração, no tempo geológico, e que sempre provocaram alterações climáticas.” Se Murray e Feingold não se elegerem, a eleição marcará clara e fragorosa derrota dos Democratas.

Pelo menos sete candidatos do Movimento “Tea Party” venceram eleições primárias dos Republicanos para o Senado. Christine O’Donnell de Delaware foi a que mais recebeu atenção, desde a surpreendente vitória de 14/9 sobre o moderado Mike Castle; mas enquanto luta para explicar sua atividade passada no mundo da finança, dentre outras atividades, outros candidatos da direita não repetem a vitória eleitoral. Em Utah, Mike Lee quase com certeza derrotará o candidato Democrata Sam Granato. O Salt Lake Tribune, que no início do ano apoiava um opositor de Lee, escreveu:

“As políticas de [Tim] Bridgewater são quase igualmente radicais. Concorrem, de fato, dois ideólogos da extrema direita, nessas eleições. Mas, em nossas discussões, percebemos em Bridgewater um pouco mais de abertura para ideias mais amplas, uma fagulha de pragmatismo. De Lee, nem isso se pode dizer.”

No Colorado, Ken Buck aparece com pequena vantagem à frente do candidato Democrata Michael Bennet, indicado quando Obama nomeou o então Senador Ken Salazar para a presidência do Departamento do Interior. Sobre Seguridade Social, Buck disse que “Nem sei se é constituicional ou não”. É contra o aborto, inclusive em caso de estupro e incesto.

Christine O’Donnell e Sharron Angle de Nevada também são contra o aborto. Sharron concorre com o Líder da Maioria no Senado Harry Reid e também é contra o aborto, sem exceções, nem nos casos de risco para a vida da mãe. Em janeiro, perguntada num programa dos conservadores, sobre se haveria alguma razão que justificasse o aborto, respondeu “Não na minha Bíblia”.

Angle falava num programa de rádio dos conservadores: muitos candidatos do “Tea Party” têm evitado os programas da grande mídia, e só falam aos eleitores pelos seus blogs, páginas do Facebook, programas das rádios religiosas e da direita e (quando encontram espaço livre na grade) pelo canal Fox News.

Todos viram as dificuldades pelas quais passou Rand Paul, do Kentucky – que provavelmente também será eleito ao Senado – quando se deixou entrevistar por Rachel Maddow da rede MSNBC. A entrevistadora apertou de tal modo o cerco sobre Paul, na questão dos direitos civis, que ele acabou por admitir que, como consequência lógica de sua oposição a qualquer limitação à liberdade de associação, Paul teria sido contrário à Lei dos Direitos Civis de 1964. Depois dessa entrevista, Paul e outros candidatos do Movimento “Tea Party” têm evitado esse tipo de entrevista.

Angle disse à Rede de Televisão Cristã que não daria entrevistas a veículos de mídia que não fossem conservadores, porque os veículos não conservadores não a ajudariam no esforço para arrecadar fundos de campanha (“não há dinheiro para mim, por lá”).

Na Câmara, nenhum dos Democratas corre risco de não se eleger. Na Califórnia, por exemplo, o lugar de Henry Waxman parece garantido. Mesmo assim, os Democratas terão de amargar alguns territórios perdidos. Desde 1969, David Obey, nome destacado da esquerda norte-americana, é representante do 7º Distrito de Wisconsin, na fronteira norte das Cidades Gêmeas. Esse Distrito, segundo o analista político Nate Silver, passará, quase com certeza para os Republicanos. Os Democratas também perderão espaço em Indiana, Colorado, Arizona, Washington, West Virginia, New Mexico e em vários outros estados.

Ainda não se sabe com precisão quantos candidatos Republicanos à Câmara de Deputados estão sendo apoiados por grupos do Movimento “Tea Party”, porque há quantidade astronômica desses grupos e porque a grande mídia muitas vezes rotula alguns candidatos sem que tenham recebido apoio declarado do Movimento. Vale a pena observar, contudo, que grande número de candidatos Republicanos à Câmara de Deputados têm prometido atender a uma das principais exigências do Movimento “Tea Party”: que o governo federal não gaste mais do que arrecada, com auditoria anual do orçamento. É exigência ao mesmo tempo radical e quimérica – o governo Reagan, que os “Tea Partistas” consideram santificado, administrou déficits durante seis de seus oito anos de mandato. A exigência – e não é segredo para ninguém – é ataque direto aos itens reservados no orçamento para a Seguridade Social e o Medicare, uma vez que comprometem 40% dos gastos federais; o verdadeiro objetivo de muitos conservadores é afastar o governo da administração das aposentadorias e pensões e da saúde.

Os candidatos que defendem essas posições, vale lembrar, estão sendo e serão apoiados por quantidades jamais vistas de dinheiro das grandes corporações. Depois da decisão da Suprema Corte, em Janeiro, no processo dos “Cidadãos Unidos”, as corporações ficaram livres para gastar quanto queiram [3]. Especialistas têm dito que as grandes empresas, com ações na Bolsa, até agora não modificaram seus padrões de contribuição para campanhas eleitorais; mas empresas menores, familiares, “estão saltando para o bolo das doações para campanhas eleitorais, a maioria tendendo para o lado dos Republicanos” [4]. Em fevereiro, o Center for Responsive Politics estimava que serão gastos mais de 3,7 bilhões de dólares nas eleições de meio de mandato de 2010, 30% mais do que em 2006 – e ainda sem levar em conta os efeitos da decisão da Suprema Corte no caso dos “Cidadãos Unidos” [5].

Meio morbidamente, será interessante ver o que acontecerá num Congresso ocupado por tão vasta população de pessoas tão ávidas de mudar-se para lá quanto enfáticas ao declarar que “desprezam” todos os políticos e a política. Saia o que sair das próximas eleições, uma coisa é certa: se os Republicanos conseguirem maioria na Câmara de Deputados, por-se-ão a investigar freneticamente o governo Obama, o que bem possivelmente talvez chegue a outra drama de outro impeachment.

É assunto que ninguém discute, mas não é segredo. No final de agosto, o jornal POLITICO noticiou:

“Tudo, do mais microscópico – o Novo Partido dos Panteras Negras – ao mais massivo – o ‘resgate’ dos grandes bancos – já está na lista das tarefas dos Republicanos, para investigar em futuro próximo, disseram vários assessores dos Republicanos entrevistados pelo jornal POLITICO.
Os assessores dos Republicanos dizem que não haverá caça às bruxas, mas não há dúvidas de que esperam entusiasmados a possibilidade de extrair informação ocultada por um governo que se vangloria de ser transparente.
Meia dúzia de muito agressivos aspirantes a presidente de comissões – liderados pelos Deputados Darrell Issa (R-Calif.) e Lamar Smith (R-Texas) – trabalham em silêncio, preparando-se para uma possível longa temporada de ataques e convocações e denúncias, que não se via desde as guerras de Clinton, no final dos anos 1990s [6].

Michelle Bachmann, Deputada por Minnesota, disse, como sempre, no tom absolutamente sem autocomedimento dessa nova direita, ao ser interrogada sobre como os Republicanos usarão seu poder de investigar: “Oh, sim, acho que temos de investigar e investigar. Temos de ter audiência depois de audiências, convocações todos os dias, cada dia uma denúncia e nova Comissão Especial de Inquérito. Fazê-los sangrar.”

Os Republicanos mais provavelmente negarão que seu objetivo final seja o impeachment. Mas por que não seria? Até agora, têm demonstrado que jogam para a própria torcida, e muitos, da torcida dos Republicanos acreditam que Obama não seria cidadão norte-americano e, portanto, estaria ilegalmente na presidência. Em pesquisa Em  pesquisa Harris, de março, 24% dos Republicanos creem que Obama “pode ser o Anticristo”. Quando os seus eleitores mais fiéis pensam assim, nada fazer para derrubar o homem que ocupa a presidência beira a falta de competência, seria como um médico recusar-se a salvar o doente. Se os Democratas estão preocupados com o muito discutido “déficit de entusiasmo” entre os eleitores Republicanos e Democratas, boa ideia talvez fosse tirar da penumbra essas ideias, para ventilá-las ao sol.

Na terceira semana de setembro, algumas novas pesquisas mostravam resultados melhores para os Democratas. Os índices de aprovação de Obama parecem estabilizados, e de fato, se se consideram os números do desemprego, nem são os piores – melhores que os de Reagan em situação semelhante. E os Republicanos continuam a perder para os Democratas, em várias pesquisas sobre opinião pública e as grandes questões políticas.

Muita coisa pode acontecer até o dia das eleições e, até lá ainda se disputarão questões importantes. Como a questão da renovação dos cortes de impostos de Bush. Os cortes foram aprovados em 2001, sob regras de ‘reconciliação’ que, dez anos depois, já perderam a vigência, com números que fazem lembrar 2000. Pesquisas recentes mostram que a maioria apoia Obama e vários Democratas, que propõem manter os cortes para famílias que ganhem até 250 mil dólares anuais e extingui-los para as famílias de renda mais alta. Os Republicanos desejam manter todos os cortes de impostos, tornando-os permanentes. A maioria (53%) apoia a proposta dos Democratas, contra 38% a favor de manter os cortes de impostos, segundo pesquisa de meados de setembro, feita pelo New York Times/CBS.

O quanto essa questão e essa diferença podem favorecer os Democratas nas próximas eleições ainda é questão a discutir, discussão que não interessa igualmente a todos os Deputados e Senadores, hoje em campanha eleitoral. (...)

Evidentemente, se pode argumentar, como tema de economia política, que os EUA não precisam de mais cortes nos impostos ou que, pelo menos, não precisam só disso. Ocultado ou perdido em praticamente todas as discussões sobre se os norte-americanos mais ricos aceitarão voltar a pagar 39,6% em vez de 35% de impostos sobre toda a renda que ultrapassar os $250 mil dólares, está o fato de que, de 1950 a 1963, nos tempos em que se construía por aqui uma vasta classe média, quando os temas democráticos que falavam de “comunidade” ainda não eram considerados tóxicos, a taxa marginal média que se discutia para as super grandes fortunas, taxa que as maiorias dos dois partidos apoiavam, ultrapassavam os 90%. De fato, havia inúmeros meios para escapar dessas taxas. E aqueles dias nunca mais voltarão.

Mas enquanto os Democratas permitirem que os Republicanos continuem a dar a impressão de que defendem valores norte-americanos (além de eles mesmos definirem aqueles valores), assuntos como aquela pequena diferença de 4,5% serão atacados em termos de luta de classes (e nada pode ser menos americano que a luta de classes!), mas os ataques continuarão a ecoar longe, longe, bem longe das poltronas das presidências das Comissões da Câmara de Deputados. [30/9/2010]

NOTAS
[1] Nate Silver, em 2008, passou a publicar seu blog no The New York Times; como antes, publica previsões de resultados para todas as eleições, em todo o país. 
[2] Resultados por partido mostram que 52% dos Republicanos pensavam assim; 27% dos independentes; e menos de 17% dos Democratas. Ver , question 24
[3] Ronald Dworkin, “The Devastating Decision”, 25/2/2010; e “The Decision That Threatens Democracy”, 13/5/2010.
[4] Michael Luo e Stephanie Strom, “Donor Names Remain Secret as Rules Shift,” The New York Times, 21/9/2010.
[5] “Midterm Elections Will Cost at Least $3.7 Billion,” Open Secrets, 23/2/2010.
[6] Glenn Thrush, “GOP Plans Wave of White House Probes”, Politico, 27/8/2010