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sábado, 30 de março de 2013

O Lado Negro do Chocolate


Entenda como funciona a cadeia Produtiva da industria do Chocolate e o uso de mão de obra escrava nas fazendas de cacau na Costa do Marfim.


Enviado por Vera Vassouras
Créditos: no início do vídeo acima

quinta-feira, 31 de março de 2011

Costa do Marfim: Alassane Ouattarra, o neoliberal do FMI (que o “ocidente” ama amar...)

29/3/2011, *Daniel Balint-Kurti, African Arguments
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu  

Alassane Ouattarra
Costa do Marfim, que já foi “o primo rico” da África Ocidental, vive, desde o final do ano passado, o agravamento de uma crise há muito anunciada. Quando o presidente Laurent Gbagbo foi derrotado em eleições presidenciais ano passado, seus apoiadores denunciaram as eleições como fraudadas e o presidente recusou-se a deixar o cargo. Os dois candidatos declararam-se presidentes: Gbagbo e seu adversário Alassane Ouattara, ex-primeiro-ministro, formado nos EUA onde viveu muitos anos, funcionário do Fundo Monetário Internacional e “guru” da economia neoliberal, cuja vitória eleitoral foi imediatamente reconhecida pela União Europeia, pela ONU e pela União Africana.

Uma onda de sanções caiu sobre o país e milhares de soldados de uma força de paz da ONU e franceses foram enviados para garantir a posse e um governo paralelo de Ouattara, que se instalou num hotel de luxo da principal cidade do país, Abidjan. Desde então, a violência varre o país a partir de Abidjan, já estendida para a vizinha Abobo.

A culpa por esse último fiasco é inteiramente de Gbagbo, que se recusou a aceitar o resultado de eleições marcadas como última etapa faltante de um processo para reunificar o país dividido entre um norte armado e rebelado e um sul oficialista governista, já há mais de dez anos. Mas, embora seja fácil apontar culpados, muito mais difícil é oferecer propostas que encaminhem alguma solução para os problemas costamarfinenses. Agentes internacionais têm-se aproximado, não raras vezes bem intencionados, mas sem considerar que não se trata apenas de candidatos rivais, mas de uma população dividida por eras de política tóxica e propaganda envenenada.

Uma das causas das divisões que se veem hoje na Costa do Marfim é o ódio xenofóbico e étnico, alimentado por muitos políticos locais desde meados dos anos 1990s. Hoje, boa parte desse ódio concentrou-se num homem: Ouattara. Temerosos da popularidade e do prestígio de Ouattara entre europeus e norte-americanos, vários presidentes o rotularam como “estrangeirista” ou “entreguista”, homem que, podendo, venderia o país ao primeiro interessado. Os detratores de Ouattara denunciam também que ele não seria “costamarfinense nativo”, que seria nascido em Burkina Faso, ao norte do país. A propaganda anti-Ouattara aprofundou também, além das divisões étnicas e políticas, também as cisões religiosas que há entre grupos étnicos predominantemente cristãos no sul do país e os grupos étnicos predominantemente muçulmanos no norte do país.

A bola anti-Ouattara foi posta a rolar imediatamente depois da morte, em 1993, do presidente ‘ancestral’, primeiro presidente e pai-fundador do país, Felix Houphouët-Boigny. Ouattara, que foi Primeiro-Ministro de Houphouët-Boigny, disputou a sucessão com o deputado Henri Konan Bédié. Bédié, homem do sul, do mesmo grupo étnico de Houphouët-Boigny (os baulés), venceu as eleições – em parte por causa de decidido apoio que recebeu da França. Eleito, passou a trabalhar para que Ouattara não voltasse a ameaçar sua posição política.

Com essa finalidade, Bédié criou e alimentou uma doutrina hipernacionalista, chamada “ivoirité” em francês, que se pode traduzir por “costamarfinidade” [à maneira de “brasilidade”, “italianidade”, “germanidade” etc. (NTs)], a partir da qual determinou parâmetros que definiriam o que significaria “ser costamarfinense”. Armado com essa teoria racista e xenófoba, Bédié conseguiu incluir no Código Eleitoral a exigência de que os candidatos comprovassem sua “costamarfinidade” para serem elegíveis. O único objetivo de tudo isso era tornar Ouattara inelegível e, simultaneamente, impedir o alistamento eleitoral de inúmeros eleitores do norte, para diminuir o peso eleitoral daquela região. 

Um dos parágrafos da “lei da costamarfinidade” determinava que quem tivesse pai ou mãe (bastaria um) que não pudesse comprovar “origem costamarfinense” não poderia candidatar-se à presidência. Em seguida, Bédié e seus apoiadores reuniram quantidade imensa de documentos para demonstrar que o pai e a mãe de Ouattara eram estrangeiros e que o próprio Ouattara seria nascido em área do norte do país já pertencente ao vizinho Burkina Faso. O conceito de “costamarfinidade” passou a ser argumento central de toda a campanha anti-Ouattara. Bédié inflou o fervor nacionalista à volta desse conceito, e construiu um novo e inflamado “orgulho de ser costamarfinense” e a correspondente resistência xenófoba à ideia de o país ser governado por estrangeiros.

Esse patriotismo xenófobo veio acompanhado por forte preconceito tribal; Bédié dizia que, dentre todos os costamarfinenses, a tribo baulé seria “a mais apta” a governar, por causa de suas tradições políticas que, dizia ele, teriam nascido no Egito antigo. As tribos do norte, por sua vez, não seriam suficientemente ‘nacionais’ e teriam usurpado a nacionalidade legítima das tribos do sul.

Pouco depois de eu chegar à Costa do Marfim como jornalista em meados de 1999, Abidjan converteu-se em cenário de manifestações cada dia mais violentas organizadas por apoiadores de Ouattara, quase todos dos grupos étnicos no norte, que não admitiam ser impedidos de circular pelo país, frequentemente presos em bloqueios nas estradas ou acusados de portarem documentos falsos. No final do ano, o governo Bédié foi derrubado por um golpe militar disparado por uma disputa entre facções de oficiais militares jovens, mas disputa que só se converteu em golpe militar porque aconteceu em contexto político onde já havia alto nível de conflito. Assumiu o governo o general Robert Guéï.

De início, Robert Guéï flertou com Ouattara. Mas em pouco tempo adotou a via de torcer, ao seu modo, o conceito de costamarfinidade. Passou a propagandear que Ouattara seria homem de “dupla nacionalidade”. E daí por diante, entre acusações de golpes de uns contra outros, Ouattara contra Guéïa e Guéï contra todos, a crise só fez complicar-se cada dia mais. Depois de várias prisões, num momento em que se dizia que um golpe militar teria sido descoberto, lembro do discurso em tom ameaçador, pela televisão, feito pelo porta-voz da junta militar de governo: “Se eles querem por fogo no país, então queimemos tudo, sem deixar nada em pé. Em seguida, veremos o que nos ensinam as cinzas”. Era como se todos mais ou menos soubessem que estavam destruindo o país, mas continuassem a por lenha na fogueira.

No final de 2000, o general Guéï, por sua vez, foi derrubado, depois de recusar-se a reconhecer sua derrota, em eleições nas quais concorreu com Laurent Gbagbo (Ouattara fora impedido de candidatar-se). Gbagbo – veterano líder da oposição democrática na Costa do Marfim e que viveu anos na França como exilado político – foi eleito por uma coalizão de vontades na qual se uniram militares da oposição, que derrubaram Guéï. Gbagbo declarou-se presidente e, outra vez, os apoiadores de Ouattara levantarem-se em revolta. Gbagbo respondeu aos ataques, com o exército na rua. Em seguida, a descoberta em Abidjan de um cemitério clandestino onde havia mais de 50 cadáveres de pessoas de várias etnias do norte deu aos defensores de Ouattara os mártires que lhes faltavam – a ajudou a aprofundar ainda mais a divisão do país.

A essa altura, o exército já expulsara grande número de jovens oficiais, todos vindos do norte do páis, o que os obrigou a fugir para Burkina Faso, onde organizaram movimento rebelde. Em setembro de 2002, esses rebeldes atacaram. Não conseguiram tomar a capital, Abidjan, mas assumiram controle militar de toda a metade norte do país.

As eleições de dezembro do ano passado – adiadas inúmeras vezes, já há alguns anos – estavam previstas para restaurar a unidade do país, mas uma persistente campanha de ódio étnico, de xenofobia – que se mistura na Costa do Marfim a uma sempre presente resistência a um ‘imperialismo’ francês e norte-americano (os franceses mantêm interesses gigantescos na Costa do Marfim) que parece ter-se ‘colado’ à imagem de Ouattara, tornou essa unidade praticamente impossível. (...)

Apesar de as disputas políticas entre grupos políticos armados terem longa história na Costa do Marfim, Ouattara tem sido muito frequentemente culpado, por muitos costamarfinenses, de ser instigador das lutas no país. Ano passado, venceu as eleições e deveria ter podido assumir o poder e governar. 

Mas, se tivesse acontecido, é provável que seus apoiadores, nacionais e estrangeiros, armados e ‘empresariais’ também tornassem seu governo tão impossível e inviável, e a Costa do Marfim tão ingovernável, quanto, hoje, os apoiadores do governo de Gbagbo tornam impossível a sucessão e a posse de Ouattara e tornam o país ingovernável

*Daniel Balint-Kurti, entre outros países, trabalhou como jornalista na Costa do Marfim de 1999 a 2007 produzindo relatórios, publicações e artigos para agências noticiosas, incluindo Dow Jones, Reuters e Associated Press. Em setembro de 2007, publicou um documento com título de: Ivory Coast’s rebel Forces Nouvelles for Chatham House .
Balint-Kurti atualmente lidera uma ONG britânica - Global Witness - na República Democrática do Congo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A Rainha Hilária da Líbia

Pepe Escobar

31/3/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
  

O impasse na Líbia pode arrastar-se por semanas, se não por meses. Nesse caso, cresce a possibilidade da balkanização. Pensem numa Líbia Leste, capital Benghazi, rica em petróleo e sob governo-fantoche lá posto pelos EUA (um Hamid Karzai líbio, como o presidente do Afeganistão). Seria uma espécie de Arábia Saudita norte-africana (a Casa de Saud adoraria). 

E pensem numa Líbia Oeste, capital Trípoli, empobrecida, irada e governada por Muammar Gaddafi e filhos. Se acontecer, estaremos de volta aos anos 1950s: a Líbia como a nova Coreia. Ou, ainda pior, de volta aos anos 1960s: a Líbia como o novo Vietnã. 

Vietnã? Não surpreende que um paranóico consórcio EUA-franco-inglês faça de tudo para derrubar Gaddafi. Não querem meio Bolinho Primavera: querem o Kebab inteiro. 

O discurso da rainha

O novo fazedor de governos líbios é fazedora, uma rainha, a secretária de Estado Hillary Clinton. Qualquer dúvida que ainda houvesse de que o Departamento de Estado trabalha freneticamente para construir um novo fantoche-governo, apimentado com colaboradores anglófonos, desapareceu depois da conferência de Londres sobre a Líbia. 

A oposição “oficial” líbia se autodenominava tautologicamente “Conselho Nacional Interino de Transição” [ing. Interim Transitional National Council]. Agora é “Conselho Nacional Interino” [ing. Interim National Council (INC). Quem correr à procura de abrigo, ao simples som da sigla INC está antecipadamente justificado. A sigla traz aterradoras memórias doIraqi National Congress [Congresso Nacional Iraquiano] inventado por Washington[1], com as fabulosas e fabuladas “armas de destruição em massa”, na antevéspera da invasão do Iraque em 2003. 

E quanto ao novo comandante militar do INC Khalifa Hifter – ex-coronel do exército líbio que passou quase 20 anos em Vienna, Virginia, não distante da CIA em Langley? Os progressistas adorarão saber que seus românticos “rebeldes” são agora comandados diretamente por homem da CIA. 

Na conferência de Londres, o INC lançou em grande estilo seu muito atenta e profissionalmente redigido manifesto político – “Uma visão da Líbia democrática” [ing. A vision of democratic Líbia, 29/3/2011, Guardian]" – no qual juntaram todas as frases certas e acertados ruídos: liberdade de expressão, eleições presidenciais e parlamentares e, crucialmente importante, a promessa de “um estado que recebe força e energia de nossas mais fortes crenças religiosas na paz, verdade, justiça e igualdade”. 

É linguagem em código – extremamente polida – para fazer referência ao islã na Líbia pós-Gaddafi (sem fazer arrepiar as penas seculares ocidentais). Além da redação em inglês impecável, a coisa toda grita o que de fato é “peça vil de propaganda preparada por redatores profissionais de Relações Públicas ocidentais”. O Conselho jura que a plataforma foi redigida originalmente em árabe. Mas, não. Definitivamente não é trabalho do Google Translator. 

Portanto, o INC declara que o oriente entregará ao ocidente, como paga pelos Tomahawks, Tornados e Rafales, uma democracia secular. Outro poderia dizer que uma coalizão de oportunistas e militares desertores surfou a onda da radicalização de massas no norte da África, lucrou com a falta de lideranças políticas na classe média e entre os trabalhadores e conseguiu montar uma aliança militar com o imperialismo ocidental. Qual das duas versões é mais plausível? 

No momento, o INC está sendo exibido em todo o planeta, para ser visto como fantoche do ocidente – totalmente dependente de apoio político e militar. Bem vindos à Líbia convertida em mais uma base de operação avançada ao estilo do Pentágono – para vantagem do próprio Pentágono (via AFRICOM), das majors ocidentais do petróleo, e de todos os tipos imagináveis de negócios escusos anglo-franco-norte-americanos (ver “Não há business como o guerra-business”, Asia Times Online, 30/3/2011, em português). Bem vindos à nova Líbia que abrigará uma base militar dos EUA e acolherá exercícios da OTAN e não gastará dinheiro do petróleo em projetos de desenvolvimento na África subsaariana. 

Como importantes atores internacionais – os países BRICSs e a Alemanha – já alertaram, a Resolução n. 1.973 do CSONU está sendo mais torcida que um biscoito pretzel. A rainha hilária já diz abertamente que é legal armar os “rebeldes”. Outra soldada da brigada feminina de combate da rainha hilária, a embaixadora dos EUA na ONU Susan Rice, disse que os EUA “não descartaram” armar os rebeldes – repetindo exatamente as palavras do presidente Barack Obama. Impressionadíssimo, o ministro de Relações Exteriores da Grã-Bretanha William Hague macaqueou as anteriores. Idem, o Qatar. 

Enquanto isso, a OTAN assumiu. Literalmente. A partir da 3ª-feira, os ataques aéreos da OTAN serão comandados do Centro de Operações Aéreas Combinadas da base de Poggio Renatico na Itália, 40 quilômetros ao norte de Bologna. Mas isso é só o começo. 

O almirante James Stavridis, comandante supremo aliado da OTAN para a Europa disse em audiência no Senado em Washington que a OTAN não considera usar forças terrestres na Líbia post-Gaddafi – não, pelo menos, por hora. Mas como a OTAN instalou forças de paz nos Bálcãs, Stavridis acrescentou, "a possibilidade de um regime de estabilização existe”. 

E eis aí, então, o pacote completo: um regime-fantoche do ocidente; coturnos ocidentais de ocupação “no solo”; um raquítico protetorado ocidental. Adeus à soberania da Líbia. E, isso, só umas poucas horas depois de Obama ter apaixonadamente declarado ao mundo que se tratava de missão humanitária. 

É preciso uma completa suspensão da capacidade de duvidar, para conseguir acreditar que um governo Obama que continua a disparar aviões-robôs armados contra civis no Afeganistão, no Paquistão, no Iêmen e – agora e então – também na Somália, estaria muito gravemente preocupado com proteger civis líbios. 

A “democrática” Israel pode bombardear 1.500 civis libaneses em 2006 ou assassinar quase 1.500 civis no inverno de 2008/2009 em Gaza – e a ninguém ocorreu arrancar resoluções da ONU nem disparar Tomahawks dos céus, nem se ouviram arrogantes imperialistas humanitários a invocar, em massa, qualquer R2P (“responsabilidade de proteger”). 

Em 1999, a OTAN quase destruiu Belgrado para “proteger civis” no Kosovo. Imediatamente depois, o Kosovo converteu-se em protetorado infinitamente corrupto governado por uma máfia das drogas. Legiões de neoconservadores diziam que a razão real pela qual os EUA invadiram o Iraque foi “proteger” iraquianos contra o ditador do mal Saddam e criar democracia (mediante choque e pavor). 

Fato indiscutível é que Washington – dessa vez com ajuda anglo-francesa – está bombardeando mais uma capital árabe e muçulmana. E por milagre – se alguém ainda acredita no que diga o Pentágono – com zero de “danos colaterais”. 

E quanto à Costa do Marfim?

Na Costa do Marfim, está-se a um passo de verdadeiro genocídio. Já há quase um milhão de refugiados internos. A “comunidade internacional” – que atualmente parece ser formada só de EUA, França, Grã-Bretanha, alguns poucos países da OTAN e umas poucas ditaduras árabes, com o Qatar como a superstar – não deu um pio. 

Laurent Gbagbo perdeu as eleições presidenciais na Costa do Marfim, mas não reconheceu a derrota. Controla gigantesca milícia armada até os dentes – e vão usar todas as armas que têm contra eleitos e intelectuais da oposição e líderes da sociedade civil. Todos os que tenham apoiado o candidato eleito, Alassane Ouattara, são alvos declarados. 

Alguém ouve aí ecos de Gaddafi? Melhor que isso: aí se ouvem ecos de Rwanda em 1994, de Uganda em 2008 e do Congo durante os anos 1990s. Não algumas centenas de civis mortos, mas centenas de milhares de civis mortos (no caso do Congo, provavelmente quase quatro milhões). Nem um cacarejo sobre alguma “responsabilidade de proteger”, emitido pela “comunidade internacional”. 

Se o consórcio EUA-franco-inglês estivesse realmente interessado no fim da violência na Líbia, a única solução sensível teria sido despachar para lá uma comissão de investigação da ONU para conhecer os fatos em campo. Hoje, ninguém sabe com precisão quantos civis foram mortos pelas forças de Gaddafi nem quantos ataques aéreos foram disparados por seu exército. E ninguém tampouco sabe quantos negros africanos foram estuprados e assassinados pelos “rebeldes” que identificam todos os negros como mercenários de Gaddafi. 

Gaddafi já aceitara a inspeção por uma comissão independente da ONU. A primeira medida de quem deseja exercer a “responsabilidade de proteger” não é bombardear cidades com Tomahawks. É buscar mediadores, exigir um cessar-fogo e iniciar negociações. 

O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan está correto, quando diz que essa guerra “humanitária” vai-se rapidamente convertendo num “segundo Iraque” ou em “mais um Afeganistão”. Também disse que a Turquia está conversando com Gaddafi e com o INC. Faz todo o sentido que – como membro da OTAN – a Turquia tenha exigido para si o controle do porto e do aeroporto de Benghazi, para acelerar a distribuição de ajuda humanitária. Se algum cessar-fogo houver, terá sido por exclusivo mérito da Turquia – que continua a trabalhar incansavelmente para estabelecer um corredor humanitário, com apoio dos italianos. O neonapoleônico presidente francês libertador de árabes Nicolas Sarkozy sentir-se-á pessoalmente ofendido com qualquer tipo de paz. 

A Turquia é também importante ponte com a União Africana – que foi absolutamente marginalizada pelo consórcio EUA-França-Grã-Bretanha. França e Grã-Bretanha, já absolutamente paranóicas com as ondas de migrantes da África e, agora, também da Líbia – não têm condições para fazer qualquer trabalho de mediação. A Itália – que já enfrenta ondas e ondas de novos migrantes na ilha de Lampedusa – está, pelo menos, tentando trabalhar no front humanitário com a Turquia. 

Nada garante que os esforços de mediação da Turquia tenham qualquer resultado positivo. A intervenção militar estrangeira movida por Pentágono/AFRICOM/OTAN contra a Líbia – “legitimada” por um muito duvidoso mandato-cobertura da ONU – está-se revelando um golpe-de-mestre contrarrevolucionário. 

Que ninguém se engane sobre o alvo de tudo isso: esmagar a Grande Revolta Árabe de 2011, quebrar-lhe o impulso de avançada, mostrar quem manda, apresentar um neocolonialismo siliconado. Para saber como está planejado e desenvolve-se, basta prestar atenção ao discurso da Rainha Hilária.


Nota de tradução
[1] Ver: Iraqi National Congress( SourceWatch) [em inglês].