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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A luta pela Síria


J.Massad

15/11/2011, *Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


“Os EUA já destruíram a democracia síria uma vez, em 1949, quando a CIA patrocinou o primeiro golpe de estado da história do país.”


Quando os levantes populares começaram na Tunísia em dezembro e janeiro passados, e em janeiro e fevereiro chegaram ao Egito, os acontecimentos pareciam claros. Apesar das tentativas para censurar a imprensa, muitas notícias chegavam imediatamente aos públicos nacionais e internacionais. Tudo isso mudou dramaticamente quando começaram os levantes no Bahrain, Iêmen, Líbia, Síria, Omã e Arábia Saudita. 


Enquanto um quase blackout das empresas-imprensa impediu quase totalmente a cobertura da revolta popular e da violenta repressão que atacou o povo no Bahrain, repressão executada por soldados do Bahrain e da Arábia Saudita (e só se permitiu um noticiário intermitente do que acontecia em Omã), ainda assim continuamos a obter notícias importantes vindas do Iêmen. 

A ativa campanha de propaganda e mentiras começou, de fato, na Líbia, desde a primeira semana da revolta. 

Na Líbia, forças internacionais, do Golfo à Europa e aos EUA, assumiram a tarefa de fazer propaganda contra Gaddafi (que usara o exército contra manifestantes líbios; que seus soldados tomavam Viagra para estuprar mulheres às centenas; que Gaddafi usara mercenários “africanos” contra os líbios; que tinha armas químicas que usaria contra os líbios; que já matara 50 mil líbios etc. – acusações que, todas, foram desmascaradas como mentiras, depois que observadores internacionais demonstraram que não havia qualquer prova que confirmasse as tais “acusações”) e, além da tarefa de propaganda, assumiram também a tarefa de derrubar o governo de Gaddafi, sob o disfarce de levante popular comandado por forças da OTAN. A OTAN, não Gaddafi, bombardeou e matou centenas de civis líbios.

É preciso saber ver os mesmos desenvolvimentos também na cena síria, com muita propaganda pelo regime e por seus inimigos internacionais, que também já começaram a falar em nome da revolta popular, seja nos veículos das empresas-imprensa seja nas redes de televisão fantoches no Golfo, seja nos veículos das empresas-imprensa ocidentais e, também, pela boca de “representantes” dos manifestantes sírios.

Nos casos de Tunísia, Egito, Bahrain e Iêmen (para não falar de Marrocos, Jordânia, Omã e Arábia Saudita, onde manifestações menores, mas também significativas, continuaram durante meses), a Liga Árabe, obedecendo instruções dos EUA, não se movimentou para intervir. Mas nos casos de Síria e Líbia, sempre obedecendo a instruções dos EUA, a Liga logo se movimentou. 

Não é a primeira vez que a Liga Árabe age contra estado membro, para facilitar invasões de exércitos estrangeiros. 

O ensaio geral para o que hoje se vê aconteceu no Iraque, em 1990-1991, quando a Liga Árabe (como a ONU, depois do colapso da União Soviética) converteu-se em mais um braço armado da ambição imperial dos EUA. A Liga Árabe então uniu forças com os EUA e potências europeias para invadir o Golfo, primeiro passo para legitimar a segunda invasão norte-americana, em 2003, para derrubar Saddam Houssein. Saddam é o mesmo ditador brutal que os EUA e a França ajudaram a patrocinar nos anos 1980s; EUA e França também apoiaram Saddam, quando invadiu o Irã, invasão que matou um milhão de iranianos e 400 mil iraquianos. 

Mas Saddam não era completamente submisso às ordens imperiais e manteve-se relativamente independente do imperialismo norte-americano, apesar dos muitos bons serviços que prestou às grandes potências. Naquele momento, muitos alertaram a chamada oposição iraquiana no exílio, que clamava pela invasão, lembrando àquela oposição que a invasão norte-americana resultaria em impor lá um novo regime que seria, no mínimo, tão ruim quanto o de Saddam, provavelmente pior. 

Seria de esperar que o que se viu acontecer no Iraque – a perda de centenas de milhares de vidas iraquianas, a total destruição do país, a massiva atual repressão que lá se vê e a corrupção do regime imposto pelos EUA – levaria os árabes a ser mais cautelosos, antes de buscar a ajuda dos EUA para derrubar ditadores árabes.

Mas, se o que aconteceu no Iraque foi ignorado, como seria possível ignorar a calamidade que hoje está destruindo a Líbia, nesse exato momento em que escrevo, sob o disfarce de um novo governo liderado pela OTAN, e a primeira dose de violência e repressão que aquele governo da OTAN já lançou contra o povo líbio em nome de uma “democracia da OTAN” (e devem-se temer, é claro, muitas doses futuras da mesma violência)? O povo líbio ter-se-ia talvez revoltado contra uma ditadura (de Gaddafi), para trocá-la pela pilhagem e pela violência de outra ditadura, dessa vez patrocinada pela OTAN?

Aula de imperialismo 

Eis uma lição útil e bem clara, a todos que, na Síria, lutam por governo democrático. A ideia geral é simples: 

– Se você vive num país árabe, cujo ditador seja freguês-cliente dos americanos, os EUA farão tudo que puderem para reprimir a justa revolta do povo que aspira a melhor democracia. E se, mesmo contra todos os esforços dos EUA, sua revolução for bem-sucedida, os EUA então patrocinarão a contrarrevolução contra o povo e a democracia, diretamente ou indiretamente, mediante os aliados locais dos EUA, especialmente a Arábia Saudita e Israel (hoje, também o Qatar). Tudo isso se aplica, é claro, à situação na Tunísia, Egito, Bahrain, Iêmen, Marrocos, Jordânia, Omã e na própria Arábia Saudita. 

– Se você vive em país cujo ditador, ainda que aliado do ocidente, mantém linha independente de política exterior ou, no mínimo, mantém posição que nem sempre servirá garantidamente aos interesses ocidentais – o que se aplica à Síria e ao Irã (não esqueçamos os serviços que ambos os países prestaram no esforço ativo dos EUA para derrubar Saddam; e o regime sírio ajudou os EUA no apoio que deram às forças da direita libanesa, contra a esquerda libanesa e a OLP, nos anos 1970s)  e, embora menos, também a Líbia –, nesse caso os EUA apoiarão sua revolta contra um ditador, exclusivamente para substituí-lo por ditador mais servil, que obedeça, sem nenhum tipo de resistência, o que os EUA determinem. E os EUA apoiarão o fim de uma ditadura e o início de outra... sempre em nome da democracia. 

Os EUA também explicam como “medidas pró-democráticas”, os seus esforços contrarrevolucionários em países nos quais a rebelião popular conseguiu derrubar ditador pró-EUA.

Nesse contexto, de mundo dominado pelos EUA, os sírios que legitimamente tenham lutado e continuem a lutar para pôr fim a uma ditadura, têm, necessariamente, de enfrentar algumas perguntas cruciais, agora que a Liga Árabe e as potências imperiais tomaram de assalto e assumiram a liderança de uma luta que, no início, foi luta popular: 

(1) O levante popular dos sírios visou a derrubar o regime Assad, para gerar para a Síria governo democrático, ou, simplesmente, para derrubar Assad? 

Como os precedentes no caso do Iraque e da Líbia deixam muito claro, a Liga Árabe e as potências imperiais tomaram de assalto o levante dos sírios, para derrubar Assad e pôr, no lugar dele, um governo serviçal, obediente aos EUA, como os que há em outros países árabes.

(2) A segunda pergunta que os manifestantes sírios têm de responder é clara é direta: – Agora que já se conhece o objetivo das forças imperiais e da Liga Árabe, os manifestantes sírios veem o fato de ditadores do Golfo e os EUA terem assumido a liderança da luta popular, como (a) derrota final da revolta popular? Ou (b) como passo necessário para que o levante popular seja bem sucedido?

Os que vêem a luta popular dos sírios por democracia como já sequestrada por essas forças imperiais e pró-imperiais dentro e fora da Síria entendem que persistir na revolta só levará a um resultado, e não é resultado democrático: terão ajudado os EUA a pôr lá, no poder na Síria, mais um regime repressivo, serviçal dos EUA – como já aconteceu no Iraque e na Líbia. Se os sírios sonham com esse desfecho e lutaram por isso, devem continuar a lutar. 

Mas se seu objetivo não é esse, os sírios devem encarar a difícil conclusão de que foram derrotados – não pela terrível repressão do governo Assad, ao qual tão valentemente resistiram, mas por forças internacionais tão empenhadas quanto o governo Assad em negar aos sírios a democracia que merecem. 

À luz do recente movimento da Liga Árabe/EUA/Europa, a luta para derrubar Assad talvez alcance o objetivo desejado. Mas a luta para garantir regime democrático aos cidadãos sírios, essa, foi fragorosamente derrotada.

Os EUA já destruíram a democracia síria uma vez, em 1949, quando a CIA patrocinou o primeiro golpe de estado da história síria, que pôs fim a um governo democrático.

Agora, outra vez os EUA destruíram a possibilidade de o levante popular sírio levar a vitória popular democrática. Meus mais sentidos pêsames ao povo sírio. 

*Joseph Massad é professor associado de Política e História Cultural Árabe Moderna na Columbia University, em New York.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sarkozy, Obama e o Iluminismo


28/10/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Sem violência física, é possível obrigar alguém a cuspir a goma de mascar que esteja mascando com evidente prazer?

A Rússia provou que sim. 

Esse é o contexto no qual se insere o sucesso da diplomacia russa na reunião do Conselho de Segurança da ONU, sobre a Resolução n. 1.973, na 5ª-feira passada.  

Dmitry Rogozin
O formidável enviado russo à OTAN, Dmitry Rogozin, que sabe fazer com as palavras o que só políticos excepcionalmente bem dotados fazem, disse uma vez, em agosto, que a aliança ocidental estava “mastigando a Resolução n. 1.973”, como se fosse goma de mascar, para mostrar deliberadamente que não dava nenhuma importância nem à Resolução nem ao Conselho de Segurança. 

A R 1.973 garantiu uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia, e o Ocidente foi em frente e bombardeou a Líbia até destruir o país, matou milhares de civis inocentes e esquartejou Muammar Gaddafi com uma faca (há imagens, que não se deve divulgar, mas existem). 

Sarkozy
Ocorre-me que já ninguém sabe dizer o que teriam a ver, hoje, a história da civilização ocidental e aquele famoso “Iluminismo”, se se veem hoje esses crimes bárbaros. O Iluminismo terá sido só mais um mito? Será que o ocidente algum dia saiu da Idade das Trevas – seus Nicolas Sarkozy e Barack Obama et al.? 

Seja como for, nunca antes a diplomacia russa no período pós-soviético trabalhou tão brilhantemente pela causa da paz, como ao apresentar ao Conselho de Segurança da ONU, 5ª-feira, o projeto de Resolução que exigia o fim imediato das operações da OTAN na Líbia. A iniciativa só apareceu no último momento, quando a OTAN movimentava-se já, sob um ou outro pretexto, para aplicar o golpe da legitimidade política, fazendo crer ao mundo que o povo líbio, coletivamente, estaria clamando pela permanência de tropas ocidentais na Líbia.


O movimento dos russos foi impecavelmente lógico. Afinal, os céus líbios já estão livres da artilharia mortífera de Gaddafi. Quem precisaria de “zona aérea de exclusão”? 

Super - Obama
Engraçado é que a Resolução apresentada pelos russos, e que pôs fim aos delírios da OTAN na Líbia, foi aprovada por unanimidade. Sarkozy e Obama ficaram sem alternativa. É mais que justo que, hoje, os russos, que obrigaram o “ocidente” a cuspir a goma de mascar que tanto estavam gostando de mastigar, estejam rindo sozinhos. Muito justo.

Em termos geopolíticos, a OTAN ficou, agora, numa sinuca de bico. Toda a agenda da OTAN, que previa abrir asas e voar para o norte da África e ali fazer ninho, dependia de a OTAN permanecer na Líbia. Mas Washington e Bruxelas cederão assim facilmente, sem luta?

Uma coisa é certa: Rússia e China não cairão em nenhum “golpe da Resolução do Conselho de Segurança”... no caso da Síria.

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Das guerras do ópio às guerras do petróleo

por Domenico Losurdo

“A morte de Kadafi é uma viragem histórica”, proclamam em coro os dirigentes da OTAN e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos “rebeldes”. Sim, efetivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...


Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como “o século das humilhações”, que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Tse Tung.

Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a OTAN pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeios e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofrê-las. Neste sentido a força militar da OTAN, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um fato causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.

É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar que reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada autoconsciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento mediático. Também nisto a “intervenção humanitária” contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados “rebeldes” podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeios da OTAN que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!

Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs.

Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das “guerras internet” a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está acontecendo na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina.

Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos “tratados desiguais”, ou seja, imposto com as canhoneiras.

No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O Tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estadunidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa.

O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos.

Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores.

Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que “dissidem” da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).

Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elemento essencial do colonialismo: os “dissidentes”, ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prêmio Nobel e outros prêmios parecidos; depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de “intervenção humanitária”.

O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estadunidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição.

Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados.

A sequência temporal é em si mesma eloquente

·        1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a OTAN começa a bombardear a Iugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic.

·        2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a OTAN recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da OTAN. Poder-se-ia dizer, inclusive, que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se diretamente em legitimar e consagrar o verdugo.

Uma última observação

Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia.

E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento econômico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo.

Aqueles que, inclusive na “esquerda”, se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.

23/Outubro/2011
Observações:
O artigo original, em italiano mais as versões em francês e castelhano encontram-se em no Blog do Domenico Losurdo 

Esta tradução foi extraída do sítio Resistir e adaptada ao português do Brasil pela redecastorphoto.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Hezbollah e o complô contra Gaddafi

“Só o Hezbollah sai com honra dessa saga sórdida”

Charles Glass
25/10/2011, Charles Glass, London Review of Books, Blogs 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Os líbios de Benghazi celebravam a vitória sobre Gaddafi ontem, no mesmo dia que marcou o 28º aniversário de outro evento de grandes proporções na história do Oriente Médio. 

Num domingo, dia 23/10/1983, às 6h22, um homem-bomba invadiu, com um caminhão carregado de explosivos, o acampamento dos Marine norte-americanos no Aeroporto de Beirute. O caminhão foi explodido naquele acampamento, no que especialistas do FBI que examinaram o local descreveram, depois, como a maior explosão com explosivos convencionais de toda a história. Morreram 252 norte-americanos entre militares e servidores civis. Ataque semelhante, também em Beirute, naquela manhã, matou 58 soldados franceses. Não há qualquer dúvida de que o nascente movimento Hezbollah foi responsável pelos dois ataques.

Os autores daquele ataque a militares dos EUA e da França, que levou os dois exércitos a deixarem o Líbano meses depois, muito provavelmente estão festejando o fim de Muammar Gaddafi talvez mais que os falantes líderes em Paris e Washington. Gaddafi, que em diferentes momentos tanto acolheu quanto rejeitou governantes britânicos, franceses, norte-americanos e árabes, nunca se entendeu com o Hezbollah. 

As raízes dessa animosidade são político-religiosas. Em agosto de 1978, Gaddafi recebeu festivamente o líder dos xiitas libaneses, Imã Musa Sadr, e dois colegas, que chegaram em visita oficial a Trípoli. Sadr era uma força a favor da reconciliação dos libaneses e, para pôr fim às disputas internas no Líbano, fez longa greve de fome. Tinha aliados cristãos e muçulmanos, num momento em que Gaddafi apoiava a aliança de muçulmanos de esquerda libaneses e palestinos. Pouco tempo depois de ter-se encontrado com Gaddafi, o Imã Sadr desapareceu. Nunca mais foi visto. Oficiais líbios garantiram que teria voado de Trípoli para Roma, viagem da qual não há notícia; como tampouco há notícia de que o Imã Sadr tenha desembarcado em Roma. Desde então, a questão de saber o que aconteceu a ele e aos clérigos que o acompanhavam dominou as relações entre as comunidades xiitas do Líbano e da Líbia. O Hezbollah foi dos poucos movimentos da resistência contra a ocupação israelense no sul do Líbano que sempre recusou qualquer ajuda que viesse de Gaddafi.

Há incontáveis versões sobre o que teria acontecido ao Imã Sadr. Nenhuma delas jamais foi confirmada. Ano passado, seu filho Sadreddine disse à Agência National News em Beirute que seu pai e os dois colegas que o acompanhavam estariam vivos, presos numa prisão líbia. Pouco depois, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah anunciou, em comunicado oficial, que “o Imã Sadr e os dois clérigos que o acompanhavam estão presos na Líbia e devem ser libertados”. Sadreddine Sadr jamais revelou suas fontes, mas, no início de 2011, nas primeiras escaramuças da guerra na Líbia, uma figura da oposição líbia disse que Sadr continuava preso na Líbia. Até agora, não se encontrou nenhum sinal do imã, que teria (ou tem) hoje 83 anos, nas prisões já abertas pelo Conselho Nacional de Transição.

A oposição do Hezbollah ao governo de Gaddafi criou dificuldades para o movimento libanês com seus apoiadores em Damasco, cujo regime baathista mantinha boas relações com o governo da Líbia de Gaddafi. E também pôs o Hezbollah, nos últimos meses, no campo dos apoiadores da ação da OTAN na Líbia. Com a aprovação decisiva do Hezbollah (que é parte, hoje, do governo libanês), o Líbano votou a favor da Resolução da ONU que aprovou a implantação de uma zona de exclusão aérea na Líbia, dia 15 de março. Sem a intervenção da OTAN, o levante de Benghazi contra Gaddafi dificilmente teria conseguido ser bem-sucedido. Se é verdade que Gaddafi foi deposto porque lutava contra a oposição de Benghazi, é verdade também que o desaparecimento de um clérigo libanês xiita também contribuiu para o desenlace.

O Hezbollah manteve inalterada a oposição a Gaddafi mesmo quando EUA, França e Inglaterra o reintroduziram festivamente na comunidade internacional, compraram o petróleo que ele tinha para vender e venderam-lhe armas. Nenhuma tortura, nenhuma violência, nenhuma ditadura líbia pareceu pouco recomendável aos olhos ocidentais, enquanto o petróleo líbio estivesse assegurado; o excelente petróleo líbio, com baixo conteúdo de enxofre e tão próximo da Europa, é o mais cobiçado dentre todos os países da OPEP. 

Gaddafi tinha 28 anos, era capitão do exército (depois, foi promovido a coronel) e comandou 8.000 soldados líbios que tomaram o poder na Líbia, em setembro de 1969, em golpe sem derramamento de sangue. 

Em novembro do mesmo ano, dia 20/11/1969, Henry Kissinger, então presidente-assistente da Comissão de Negócios do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, recebeu o seguinte memorando interno, top secret, assinado por Robert Behr e Harold Saunders, assessores do mesmo conselho:

“Nossa [dos EUA] atual estratégia é buscar estabelecer relações satisfatórias com o novo governo líbio. A recomposição de nossa balança de pagamentos e a segurança dos investimentos norte-americanos em petróleo são considerados nossos interesses prioritários. Queremos conservar nossas instalações militares, mas sem que isso ameace nosso retorno econômico.”[1]

Os EUA alertaram Gaddafi sobre tentativa de golpe de estado, pouco depois, que o novo governante sufocou. Mas a gratidão aos EUA durou pouco. Gaddafi imediatamente depois forçou os EUA e o Reino Unido a abandonarem as bases militares que mantinham no país e aumentou a taxa da Líbia nos negócios do petróleo – e, com esses lucros, construiu tanto a infraestrutura e o desenvolvimento da Líbia, quanto a estrutura de corrupção do estado que, agora, o Conselho Nacional de Transição está herdando. 

Quando Tony Blair tirou Gaddafi das sombras, depois do atentado em Lockerbie, os EUA passaram a entregar prisioneiros à Líbia para sessões especiais de interrogatório e tortura.

Só o Hezbollah sai com honra dessa saga sórdida.



Nota dos tradutores
[1] Memorandum From Robert Behr and Harold Saunders of the National Security Council Staff to the President's Assistant for National Security Affairs (Kissinger), Washington, 20/11/1969. In National Archives, Nixon Presidential Materials, NSC Files, NSC Institutional Files (H-Files), Caixa H-71, WSAG Meeting, Libya and Lebanon, 11/24/69. Top Secret. Sent for information.” Atachados, mas não impressos, os anexos do documento enviado ao Conselho de Segurança Nacional, [em inglês].

domingo, 23 de outubro de 2011

A Líbia inicia dividida a era pós-Gaddafi

J. M. Muñoz

23/10/2011, El País, Madrid, Juan Miguel Muñoz (enviado especial), Misrata
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Nota dos tradutores: - Excluíram-se da matéria abaixo:
(1)
todas as repetidas intervenções do jornalista, empenhado em “noticiar” que “todos queriam Gaddafi morto”;
(2) o tom simpático, do jornalista, sempre que se refere aos assassinos; e
(3) todas as intervenções do jornalista que visam a “provar” que Gaddafi “não podia ser julgado, porque o julgamento dividiria ainda mais o país”. 
Excluíram-se também dessa matéria, na tradução, a “noticia” de “visitantes sonrientes en la morgue improvisada”; macabra e macabramente repetida, e imoral.

Morto não vence batalhas. Não é exatamente verdade no caso de Muamar Gaddafi, mesmo de dentro da câmara frigorífica do mercado de verduras e carnes de Misrata, onde está o cadáver, que ainda gera discórdia entre os que até ontem o combatiam. Um dia depois de morto Gaddafi, ao que parece por execução sumária, a morgue foi visitada, na 6ª-feira à tarde, pelo primeiro-ministro Mahmud Jibril. Tratava-se das providências para o enterro. Mas os militares que têm sob custódia o cadáver, e o primeiro-ministro, não chegaram a qualquer acordo, por mais que todos se declarem muçulmanos devotos, e por mais que já estivesse vencido o prazo de 24 que o Corão determina para o sepultamento de todos os muçulmanos. Os soldados de Misrata querem que o corpo de Gaddafi seja enterrado em local secreto. Jibril prefere que seja enterrado em cemitério conhecido e que o túmulo seja guardado, para impedir que seja visitado.

Parece pouco, mas é a primeira divisão grave na era pos-Gaddafi, em país em que o leste e o oeste jamais conseguiram firmar qualquer tipo de pacto ou de aproximação, em quase 50 anos. A tribo de Gaddafi, Gadadfa, já reclamou o corpo, para dar-lhe enterro digno em Sirte, sua cidade natal. (...)

Centenas de homens esperavam disciplinadamente a vez de entrar, protegendo-se do sol sob algumas árvores. (...) Na sala refrigerada ecoa o “Alá é Grande” da fila de visitantes e dos que esperam do lado de fora. (...)

Vários detalhes dão a impressão de que Misrata, aposta na ideia de demonstrar força. À entrada da província há pontos de controle, como de fronteira, em que militares pedem documentos aos que chegam e exigem o passaporte (que é fotocopiado); há aí muitos postos de controle, mais que no resto do país. É como se quisessem mandar um recado ao governo central em Trípoli. 

Em Misrata, ninguém perdoa a intervenção de Jibril, dias depois de ocupar Trípoli. “Exigiu que nossos soldados devolvessem o que havia sido retirado de Bab el Azizia. Mas eles só se apoderaram de carros e de combustível que lá encontraram. Mas Jibril só falou sobre isso, pela televisão, depois de nos ter consultado” – disse Ahmed, ex-funcionário do governo de Gaddafi.

Não é o único sinal já visível de que as disputas territoriais, históricas, começam já a aflorar. O plano previsto pelo Conselho Nacional de Transição estabelece que o presidente do Conselho, Mustafá Abdelyalil, declare a Líbia liberta, depois do que se iniciaria o processo democrático. A cerimônia oficial, que estava prevista para acontecer em Trípoli, acontecerá, ao que parece, em Bengasi, nesse domingo. 

Se as disputas territoriais se somarem às disputas tribais (...) e à luta pelo poder que já se configura entre islamistas e liberais educados nos EUA e em outros países ocidentais, o panorama político pode turvar-se. Com o agravante de que, hoje, na Líbia, há uma arma em cada casa. (...) En Trípoli, já pululam os empresários em busca de contratos. E poderosos personagens exilados, que nunca pararam de tentar golpes sempre fracassados contra Gaddafi, ainda não manifestaram suas exigências”. 

OTAN e mídia de mercado estão vibrando

Kadafi vive

Publicado em 21/10/2011 por *Mario Augusto Jakobskind

Muammar Kadafi morreu em combate. Foi coerente, porque desde o início da guerra civil incentivada pelo Ocidente dizia que resistiria até a morte. A mídia de mercado, juntamente com dirigentes de países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ficaram exultantes. Criticam Kadafi por ter resistido.   

A mídia tupiniquim para variar fez das suas. Para ficar em alguns veículos, os âncoras da CBN, uma das primeiras emissoras a informar a morte/assassinato, vibraram com o acontecimento e não escondiam nos comentários. O Globo também não escondeu sua euforia nos editoriais e no próprio noticiário. Os demais veículos impressos e eletrônicos repetiram a dose.   

Até a presidenta Dilma Rousseff, mesmo afirmando que não se deve comemorar a morte de Muammar Kadafi, escorregou ao afirmar que a Líbia está em fase de transição para a democracia. Não está, até porque vem logo a pergunta: que democracia é esta que surge através de pesados bombardeios diários durante cerca de sete meses? Isso nada mais é do que democracia armada da OTAN.

Os opositores do antigo regime líbio queriam preparar um show midiático exibindo um troféu ao estilo Saddam Hussein, mas não conseguiram. O que está fazendo agora o Conselho Nacional de Transição é tentar de todas as formas convencer a opinião pública mundial que Kadafi estava escondido numa tubulação de esgoto e pedia para não o matarem.

Aí surge a primeira contradição entre os que derrotaram Kadafi. Dirigentes europeus, como o Ministro do Exterior francês Allan Juppée, revelaram logo de saída que a OTAN tinha atingido um comboio onde estava Kadafi fugindo de Sirte, a sua cidade natal. Confirmaram então o bombardeio, que o Conselho Nacional de Transição tentou esconder.

Falta ainda esclarecer o que fizeram os “democratas” da nova Líbia com o corpo do dirigente deposto.  As imagens apresentadas nada esclarecem e foram feitas mais com o objetivo de evitar que a verdade aparecesse, ou seja, de que o fim de Kadafi foi lutando, diferente do acontecido no Iraque com Saddam Hussein. A ONU pediu uma investigação sobre as circunstâncias em que ocorreu o confronto que o levou a morte.

A TV Al Jazzeera e a CNN entraram no jogo dando crédito às versões que tentavam a todo custo ridicularizar Kadafi e evitar a versão verdadeira. Os opositores de Kadafi, que seriam pé de chinelo se não fosse a OTAN, pegaram o corpo do dirigente deposto e o levaram para um frigorífico em Misrata,onde ele estava sendo objeto de curiosidade de líbios que o fotografavam.

Vamos aguardar para ver como Kadafi será enterrado, pois seu túmulo sendo localizado poderá se tornar um local de peregrinação de cidadãos líbios inconformados com o processo de recolonização que está sofrendo o país norte africano, mas que a mídia de mercado tenta a todo custo esconder.

Valem algumas perguntas que o tempo responderá com maior precisão. Empresas de que países ocidentais vão lucrar com a reconstrução da Líbia, cuja infraestrutura foi severamente afetada com os bombardeios da OTAN? Até o Brasil já se ofereceu para esta empreitada, mas antes os países que destruíram terão prioridade. 

O petróleo deverá ficar sob controle não mais do Estado líbio, mas totalmente em poder das transnacionais do setor, que conseguirão muito mais concessões do que já tinham conseguido na Era Kadafi?

O Pentágono não vai querer abrir mão do Africom (Comando Militar dos EUA para a África), incrivelmente com sede em Stuttgart, na Alemanha, para se instalar na Líbia, área estratégica para o controle do continente africano? Por sinal, o economista egípcio Samir Amin considerou esse detalhe como o motivador do surgimento dos rebeldes em Benghazi e o apoio dos EUA a esses grupos.  

Dirigentes da OTAN anunciaram o fim das operações militares no próximo dia 30 de outubro, mas isso não significará que a Líbia estará livre da influência dos países que a bombardearam. Claro que não.  

Maiores detalhes sobre esses e outros fatos relacionados com os acontecimentos mencionados podem ser encontrados no livro Líbia, Barrados na Fronteira – o que não saiu na mídia sobre a invasão na Líbia, que será lançado no próximo dia 11 de novembro, na sede da ABI, rua Araújo Porto Alegre 71, as 18,30, com um debate.

Quando, com o passar do tempo, se analisar os acontecimentos na Líbia, um dos destaques caberá à cobertura midiática. Para analistas independentes que acompanharam a guerra civil, a mídia deixou até de ser mídia para se tornar protagonista da guerra, a própria guerra, manipulando imagens e fazendo o jogo de um dos lados, exatamente o dos opositores de Kadafi. Assim foi, por exemplo, a cobertura da Al Jazzeera, o canal estatal do Catar, que colocou imagens de grupos rebeldes de forma a parecer que eles tivessem grande apoio popular, o que nunca aconteceu ao longo de todos os meses.

Com a morte/assassinato de Kadafi estão surgindo analistas de áreas acadêmicas dos mais diversos quadrantes prevendo o futuro da Líbia. Na mídia de mercado de um modo geral falam que agora a Líbia conhecerá a democracia e coisas do gênero. Vamos ver.

Mas, em suma, guardem o que está sendo dito pelos analistas de sempre e aguardem as próximas semanas e meses para constatar quem erra ou acerta mais. Eis um exercício recomendável para as escolas universitárias de comunicação, claro, se houver interesse de que na formação dos futuros jornalistas o espírito crítico fique aguçado, como requer o jornalismo propriamente dito. 

*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação
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sábado, 22 de outubro de 2011

Alvo de “targeted assassination” e pré-condenado à morte pelos EUA-OTAN?

Falam os advogados de Seif-al-Islam Gaddafi

Franklin Lamb
22/10/2011, Franklin Lamb, Al-Manar Líbano  
e em Counterpunch 

Tarde da noite, anteontem, dia 20/10/2011, o escritório da secretária de Estado e a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA e a Embaixada da Líbia em Washington, DC, receberam comunicado, por fax, de uma firma internacional de advogados, cujos profissionais preparam-se para embarcar para a Líbia. 

Esses advogados, cujos serviços foram contratados por amigos da família Gaddafi, têm a tarefa de defender Seif-al-Islam no processo iniciado dia 26/6/2011 na Corte Criminal Internacional e, também, agora, em todas as ações penais que o governo do Conselho Nacional de Transição inicie contra ele, na Líbia.

Seif-al-Islam
Foram alertados por apoiadores de Gaddafi na Líbia e em países vizinhos, para várias evidências de que o Conselho Nacional de Transição, controlado pela OTAN, já tem planos para assassinar Seif-al-Islam, antes que ele possa fazer qualquer contato com a imprensa internacional e seus apoiadores, consequência de, dia 29/8/2011, seu pai tê-lo nomeado seu representante oficial. Seif, antes, já anunciara seus planos para candidatar-se em eleições futuras, que seriam organizadas. Pesquisas informais de opinião mostraram que teria mais de 70% dos votos, se se candidatasse, ainda que as eleições se realizassem já com o país controlado pela OTAN.

Participo do grupo que fez contato com aquela empresa de advogados que já trabalham, agora, para salvar a vida de Seif-al-Islam. A seguir, um trecho do documento entregue anteontem em Washington:

“Exigimos que nosso cliente, Seif al Islam al Gaddafi, passe imediatamente a receber proteção, mesmo que venha a ser preso e que, se estiver ferido, receba tratamento adequado, a ser supervisionado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, até que tenhamos contato pessoal com ele e haja tempo para que tomemos as providências indispensáveis para assegurar-lhe tratamento médico, proteção e perfeitas condições de segurança.

Insistimos que nosso cliente não poderá ser interrogado ou questionado de nenhum modo por ninguém, incluídas as autoridades do atual governo líbio, ou por investigadores da Corte Criminal Internacional, enquanto não tiver mantido contato legal e oficial com seus advogados e, no caso de estar ferido, antes que se recupere dos ferimentos.

Seif-al-Islam tem pleno direito de ser protegido, em cumprimento a normas internacionais. 

Exigimos que o Conselho de Segurança da ONU e organizações de Direitos Humanos em todo o mundo tomem todas as medidas legais indispensáveis para proteger e preservar a vida e a integridade física de nosso cliente.
Latuff
Respeitosamente solicitamos que a Corte Criminal Internacional assuma total responsabilidade sobre os restos mortais de Muammar e Mutassim Gadhafi, e que providencie para que sejam feitos todos os exames necroscópicos necessários, cujos laudos técnicos servirão como base legal para as medidas judiciais de acusação contra os responsáveis por essas duas execuções, as quais, como sugerem todos os indícios, foram execuções extra-judiciais. 

Informações obtidas por familiares e amigos de nosso cliente não deixam dúvidas de que a OTAN já ordenou seu assassinato. Há fortes motivos para crer que a OTAN planejou e já trabalha para executar planos para assassinar nosso cliente; esse assassinato visa a impedir que a OTAN seja exposta às medidas legais cabíveis, em processos nos quais seja acusada de práticas que, hoje, já são de conhecimento internacional, em muitos casos com testemunhos oculares de fontes confiáveis, além de elementos probatórios físicos e conclusivos, de feitos constatados ao longo dos últimos seis meses, durante os quais a OTAN atuou como exército agressor contra a Líbia e sua população civil.

Estamos concluindo os trâmites para apresentar à Corte Criminal Internacional nosso pedido formal de proteção para nossos clientes. Saif-al-Islam deve ser transferido para santuário de proteção, fora do território líbio, para evitar que seja assassinado como seu pai.

Já trabalhamos também para acusar formalmente os governos da Líbia e dos EUA, além da OTAN, pelo assassinato brutal do pai e do irmão de nosso cliente e por qualquer tipo de agressão que tenha sido ou venha a ser feita diretamente a Seif al Islam.

Assim também, trabalhamos para demonstrar ao Tribunal Criminal Internacional que, depois de aprovada a Resolução de 17/3/2011, no Conselho de Segurança da ONU, a OTAN várias vezes atacou alvos civis, com mais de 9.000 ataques aéreos, já como parte de sua campanha para assassinar o coronel Gaddafi e seus auxiliares e conselheiros mais próximos.

Demonstraremos também ao Tribunal Criminal Internacional que a OTAN várias vezes delegou a terceiros a missão de assassinar Moammar Gadhafi e que seus assassinos, no crime afinal perpetrado dia 20/10/2011, sabiam que havia uma grande recompensa em dinheiro para quem o assassinasse. Na verdade, os oito meses de continuada destruição da Líbia, comandada por oficiais da OTAN e vários líderes ocidentais, sempre visou, sobretudo, a silenciar o governante líbio, afinal assassinado.”

Gaddafi foi um dos grandes, talvez o maior, financiadores da campanha eleitoral do presidente Nicholas Sarkozy da França e guardava informações sobre seus contatos com outros líderes ocidentais, informações que, se divulgadas, seriam desastrosas para mais de uma importante carreira política. 

Os próximos dias serão um importante teste para a comunidade internacional, até saber-se se a lei internacional “vale para a OTAN e seus estados membros, e para a Líbia. Do resultado do que aconteça nos próximos dias, depende a evolução da situação na Líbia – que poderá afundar ainda mais em longa guerra civil, complicada excepcionalmente, segundo notícias recentes, por milícias armadas de mais de seis países africanos que se organizam para reunir-se em território líbio, para tentar proteger a população civil, na Líbia que foi criminosamente destruída pela OTAN.