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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mísseis em Cuba e Mísseis na Ucrânia


Semelhanças e diferenças


25/2/2015, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Escolinha de Política da Vila Vudu: 

Elaborem o quanto quiserem intelectuais ocidentais “liberais-do-bem”, e a impressão que se tem é de que fazem o-di-a-bo, p’ra não ver o que tá aí, tão na cara: os EUA temeriam mortalmente até uma Rússia enfraquecida, em todos os casos, faça chuva ou faça sol, porque ainda temem a herança dos sete anos [foram só sete anos: 1917-1924!] de governo leninista, que mudaram o mundo para sempre. 

É a mesma razão pela qual os EUA também temem a China de Mao by Deng Xiaoping até Xi Jinping: porque Rússia e China são como a memória emocional dos pobres explorados e oprimidos de todo o mundo, que aprenderam, delas e por elas, que o comunismo é um humanismo; e que é possível derrotar o império anglo-sionista encastelado em Wall Street.

Fooorça, Maduro! Fooorça, Syriza! Fooorça, Podemos! Fooorça, BRICS!



William R. Polk, renomado analista norte-americano, que foi reitor de Harvard e consultor de política exterior, enviou-me há alguns dias seu mais recente ensaio sobre as relações EUA-Rússia (depois publicado em Consortiumnews). Acho que estamos mais ou menos no mesmo ponto das nossas reflexões, Polk e eu, sobre a crise na Ucrânia. Polk, é claro, tem vasta experiência sobre questões russo-norte-americanas. Foi conselheiro presidencial, com papel considerável durante a presidência de John Kennedy, na redução das tensões da crise dos mísseis cubanos.

Tudo isso faz de seu mais recente ensaio, altamente pertinente, objeto de leitura detalhada – quando extrai lições da crise de 1962 e a partir delas oferece um roteiro para superar-se também o impasse EUA-Rússia na questão da Ucrânia. De fato, sim, Polk traça paralelos muito claros entre o arriscadíssimo impasse de então (entre EUA e a URSS) e o de agora, os quais, para ele, teriam mais ou menos as mesmas “linhas vermelhas”. No resumo que Polk oferece,

●– É praticamente certo que nem o governo dos EUA nem o governo russo aceitariam sem responder qualquer tipo de ataque, ainda que ataque limitado.

●– Não há motivo para crer que o governo russo, se estiver na iminência de ser derrotado por armas convencionais, conseguirá evitar o recurso a armas. nucleares.

●– Todas as tentativas para limitar a escalada provavelmente fracassarão e, ao fracassarem, levarão a guerra total.
●– E as consequências previsíveis de uma guerra nuclear são catástrofe inimaginável.

Polk indica que um possível acordo na Ucrânia deva ser baseado nos seguintes elementos:

●– Rússia não aceitará que a Ucrânia seja empurrada para dentro da OTAN;

●– Rússia tem interesses legítimos na Ucrânia;

●– A intromissão dos EUA no que são assuntos essencialmente russo-ucranianos é injustificável e tem de ter fim imediatamente.

A parte triste é que está longe de garantido que o presidente Barack Obama esteja aberto para ouvir conselho tão altamente sensível. Posto em fórmula simples, Obama é incapaz de livrar-se do triunfalismo que marcou as políticas de Washington para a Rússia pós-soviética desde o início dos anos 1990s.

Robert Kagan na Brookings Institution
(não esquecer que ele é marido da Victoria "Fuck EU" Nuland!)
Fato é que um dos principais ideólogos que aparentemente orienta o pensamento de Obama sobre a Rússia, Robert Kagan, da Brookings, escreveu há apenas uma semana, que

Apesar de toda a conversa fiada sobre o declínio dos EUA, o que conta é que é no campo militar que a superioridade norte-americana continua a aparece mais claramente. Mesmo nos quintais de outras grandes potências, os EUA ainda conservam a capacidade, além de aliados poderosos, para conter quaisquer desafios contra a ordem da segurança. Mas sem a disposição dos EUA para usar o poder militar para estabelecer o equilíbrio em regiões distantes do mundo, todo o sistema desabará sobre a incontida concorrência militar de outras potências militares regionais.

Na ordem Kaganista “liberal” do mundo, admite-se que Rússia, China ou qualquer potência regional entrem em competição econômica contra os EUA, mas “competição no plano da segurança é outra coisa”, porque “não há equilíbrio estável de poder na Europa ou na Ásia, sem os EUA”.

Polk dificilmente encontrará ouvidos racionais que lhe deem atenção em meio ao triunfalismo e sob a mentalidade de Guerra Fria que ainda prevalecem em Washington. Mas, como escrevi há algum tempo com admiração (vide Obama’s “moving finger” writes Irã ties), e por surpreendente que seja, no que tenha a ver com o engajamento com o Irã, Obama tem sido o realismo em pessoa, perfeito na avaliação dos limites do poder dos EUA. Assim sendo... como é possível que a mesma mente capaz de reflexão tão ponderada, converta-se em exatamente o contrário de qualquer ponderação refletida e equilibrada, se o assunto é a Rússia?

Obama insiste...
Para mim, a diferença crucial está noutro ponto: a Ucrânia nada tem a ver com reagir contra alguma “agressão” russa, como Obama repete incansavelmente.

Na realidade, a Ucrânia tem muito mais a ver com os EUA reafirmarem a própria liderança transatlântica, nesses tempos de pós-Guerra Fria.

Não é o caso no que tenha a ver com o Irã, porque aí Obama conta com o apoio da Europa. E com certeza absoluta não foi o caso na crise dos mísseis em Cuba em 1962, em plena era da Guerra Fria.
_____________________________________________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House,  e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Colhidos sempre na armadilha dos seus repetidos erros (Os EUA não aprendem com a história)

[*] Conflicts Forum, Comentário Semanal 14/11/2014 (publicado dia 18/11/2014)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Kennedy e assessores na crise dos mísseis de Cuba
William Polk, veterano comentarista da política exterior dos EUA, que foi um dos três membros da Equipe de Gerenciamento de Crise, durante o impasse entre o presidente Kennedy dos EUA e Khrushchev, da Rússia, na chamada Crise dos Mísseis em Cuba, alerta agora que os EUA estamos andando diretamente no rumo de outro daqueles momentos de extremo perigo (pode-se dizer apocalípticos), em que as tensões crescem descontroladamente – na direção de guerra real.

E ele diz que as próprias dinâmicas que impelem os EUA em direção ao conflito de hoje são, precisamente as mesmas de antes (durante a crise dos mísseis em Cuba: a inabilidade para perceber como o “outro” percebe os EUA; a recusa a reconhecer a verdade do “outro” e o relato “do outro”, da história – ou a inabilidade até para perceber que pode haver outra “verdade” por aí pelo mundo, seja onde for, diferente da “verdade” dos EUA.

Em resumo, os norte-americanos assumem como autoevidente que o povo russo pense e compreenda exatamente do mesmo modo como os norte-americanos pensam e compreendem. E os russos hoje só podem estar necessariamente errados, porque, se não estivessem errados, como seria possível que não pensassem nem compreendessem as coisas como os norte-americanos pensam e compreendem, quer dizer: “racionalmente”? E se os russos agem de modo contrário ao que os norte-americanos creem que devessem agir – não é porque vejam as coisas de outro modo; é porque são beligerantes.

O que mais chama a atenção no que Polk escreveu sobre “lições que os EUA não aprenderam” é que também um ex-alto funcionário russo acaba de nos dizer exatamente a mesma coisa (que os EUA parecemos estar repetindo o mesmo perigoso padrão que levou à Crise dos Mísseis russos em Cuba).

William R. Polk
William Polk escreve:

Meses antes de a crise [1962] cair sobre nós, fiz um tour pela Turquia. Ali visitei uma base da Força Aérea dos EUA, onde 12 bombardeiros de combate estavam em “alerta máximo”. Daqueles, dois já estavam no estágio posterior de alerta, com motores ligados e com os pilotos já sentados nos respectivos cockpits. Prontos para decolar, cada um daqueles aviões estava armado com uma bomba de um megaton, e programado para voar para um alvo na União Soviética. Perto dali, no Mar Negro, em Samsun, vi pelo radar aviões de um esquadrão da Real Força Aérea britânica que estavam testando as defesas aéreas dos soviéticos na Crimeia. E adiante, na Anatolia, em locações supostamente secretas, um grupo de mísseis “Jupiter” dos EUA estava já mirado, armado e pronto para ser disparado.

Aquelas armas eram defensivas ou de ataque? Quero dizer, eram ameaça montada contra a União Soviética; ou defesa do “Mundo Livre”? Meus colegas no governo dos EUA entendiam que fossem armas de defesa. Eram parte de nosso sistema de “contenção”. Montamos tudo aquilo para nos proteger, não como ameaça contra os russos.

Os russos pensavam de modo completamente diferente. E, como resposta ao que viam, decidiram estacionar alguns dos mísseis deles em Cuba. Os estrategistas soviéticos acreditavam que, ao criar equilíbrio contra os nossos mísseis postos junto à fronteira deles, os mísseis deles também seriam defensivos; assim como os nossos, nas fronteiras deles, nos pareciam defensivos. Os EUA pensamos de outro modo. Para nós, o movimento dos russos, de pôr mísseis junto às fronteiras dos EUA, sempre seria inquestionavelmente ofensivo. E por pouco não fomos à guerra, para obrigar os russos a remover de Cuba aqueles mísseis.

Até que “poucos minutos antes da meia-noite” voltamos a pensar racionalmente: recolhemos nossos Jupiters, e os russos removeram os mísseis que eles haviam instalado em Cuba.

A primeira lição a ser aprendida dessa quase catástrofe é sempre tentar compreender o ponto de vista do adversário. Como escrevi alguns meses antes da Crise dos Mísseis Russos em Cuba, os russos tinham um ponto: os mísseis que mantínhamos na Turquia eram obsoletos. Dependiam de propulsão por combustível líquido. Esse tipo de combustível demora vários minutos para entrar em ignição. Para que tivessem alguma utilidade, seria preciso dispará-los antes que mísseis ou bombardeios soviéticos os destruíssem em terra. Isso, por sua vez, significava que só serviam como armas para “primeiro ataque”. E, por definição, qualquer primeiro ataque é sempre “ofensivo”.

Insisti para que os retirássemos com urgência da Turquia. Não foram retirados. Os militares norte-americanos entendiam que aqueles mísseis seriam parte essencial de nossa defesa estratégica. E os mísseis lá ficaram, até que os russos puseram os seus mísseis em Cuba. Então, sim, os EUA retiramos os mísseis. Só os retiramos quando os russos retiraram os deles. Assim, em certo sentido, a Crise dos Mísseis foi um toma-lá-dá-cá. Em minha opinião, não há meio mais idiota de pôr em perigo a sobrevivência da humanidade!

União Europeia
Foi assim naquele momento – e é assim hoje: Qual é a percepção que EUA e União Europeia têm sobre o que estão tentando fazer na Ucrânia? Estão tentando “criar uma Ucrânia orientada pelo ocidente, integrada, próspera, territorialmente una, segura e democrática”.

Muitos europeus veem esse objetivo como – simplesmente – reflexo do impulso gravitacional “civilizacional” da União Europeia. Os russos pensam de outro modo.

Os russos sabem bem dos profundos cismas que dividem a Ucrânia, de ódios antigos. Pensam que o ocidente está usando essas velhas animosidades para criar uma plataforma ofensiva mediante a qual o ocidente tentará enfraquecer a Rússia. Então a liderança russa reage: aumenta a segurança em torno da histórica base naval russa em águas temperadas; e reage com força no Donbass, contra um governo de Kiev hostil. E volta a mesma pergunta: a reação russa foi ofensiva ou defensiva?

Para a Rússia, os seus próprios movimentos são defensivos (de fato, são existencialmente defensivos).

O ocidente vê as coisas de outro modo: vê os movimentos dos russos como ameaça contra toda a ordem europeia do pós-guerra, nada menos que isso. Então, o ocidente posicionou seus “mísseis” junto à fronteira russa. Mas nessa nova modalidade de guerra, não se trata literalmente de bombas, como as que William Polk viu na Turquia, já na pista e com turbinas ligadas; trata-se agora dos “bombardeiros” do Tesouro dos EUA, carregados com bombas de nêutrons financeiros: as tais sanções, pensadas para causar dano aos lucros futuros que a Rússia poderia auferir da venda dos hidrocarbonos. Para o ocidente, é ação de “contenção”, ato “correcional”, que levará a Rússia a “arrepender-se” do “mau comportamento” de antes.

Para os russos, é absolutamente outra coisa: para os russos, é movimento de ataque; é guerra. Guerra contra o presidente Putin e guerra contra a própria Rússia.

A Rússia, portanto, reage conforme sua percepção, defensivamente: e cria um sistema paralelo de finanças, comércio e câmbio, com a China.

O ocidente não entende assim, e o preço do petróleo cai em quase 1/3. Para o ocidente, não passa de reação técnica ante condições de mercado. Os russos, relembrando o modo como a Arábia Saudita operou para derrubar o preço do petróleo em 1986, o que empurrou a União Soviética para a implosão financeira, pensam de outro modo.

Queda de preço do petróleo provocada pela Arábia Saudita sob comando dos EUA
Os russos relembram o passado e sabem que entraram num túnel em escalada que pode, sim, levar à guerra. Pode ser guerra “a quente”, ou nova modalidade de “guerra” comandada pelo Tesouro dos EUA.

Assim sendo, quais as lições da Crise dos Mísseis Russos em Cuba que poderiam nos guiar dessa vez, quando Kiev já teve suas eleições, e o Donbass, suas contraeleições; quando Kiev ostenta suas forças armadas reequipadas; e o Donbass, as suas milícias rearmadas e reabastecidas?

A primeira lição que William Polk extrai disso tudo é que – diferente, ao contrário da narrativa convencional – os EUA não obrigaram Khrushchev a recolher seus mísseis, graças a alguma potente exibição de força. A verdade é que os EUA silenciosamente removeram seus mísseis Júpiter da Turquia; depois disso, a URSS retirou os seus mísseis de Cuba.

Absolutamente não foi – ao contrário do que reza o folclore – um caso de a URSS ter-se recolhido sob pressão.

Na verdade, depois da crise, quando os eventos foram postos em perspectiva, analisados como se fossem um jogo, para deles extraírem-se as lições que houvesse, os oficiais norte-americanos compreenderam que – se Kennedy tivesse insistido na escalada (em vez de iniciar a desescalada) – os EUA e a Rússia teriam entrado em guerra: a mais devastadora guerra nuclear.

Por quê? Porque quando se analisaram friamente os eventos, ficou comprovado que a teoria da “contenção” baseava-se em pressupostos antropomórficos viciosos.

Estados não “pensam” como se fossem indivíduos: há neles uma comunidade com história diversificada tecida de incontáveis fios, que reflete uma variedade de saberes e práticas e tradições comunitárias. O Estado não age necessariamente como um indivíduo agiria, especialmente se o tal “indivíduo” for concebido como “racionalista” avesso a risco e maximizador de utilidades. Em vez disso, Polk e seus colegas concluíram que estavam tendo de lidar com lideranças-com-comando [orig. ruling leaderships]. E essas lideranças, por uma vasta variedade de fatores psicológicos e competitivos, podem simplesmente concluir que não podem pagar o custo de “ser o primeiro a piscar” – e custe o que custar, sejam quais forem os riscos.

O sonho dos NEOCONS
O resumo final de tudo isso é o perigo que advém de assumir (falsamente) que, dado que todos partilhamos basicamente os mesmos órgãos sensoriais, todos percebermos o mundo de modo semelhante. A “realidade” é escorregadia demais para que as coisas sejam assim. O que para um parece leitura evidente de uma situação, e atos racionais e defensivos, pode deslizar, na percepção do “outro”, até alcançar o polo extremo oposto: e aparecer como pura agressão. O tema básico de William Polk é que todos devemos nos manter atentos a o quão rapidamente o que é “defensivo” gera o que é “agressivo” em nossas políticas exteriores.

Não que esse importante, profundo conselho tenha qualquer chance de encontrar ouvidos receptivos em Washington nesse momento. 

Num artigo do Financial Times, o editor de The National Interest observa que os líderes Republicanos, no rescaldo de suas impressionantes vitórias nas eleições de meio de mandado, parecem agora exultantes ante a possibilidade, para eles já ao alcance da mão, de obterem uma vingança. Os neoconservadores pressionaram muito o presidente Obama no quesito “fraqueza” da política exterior, durante toda a campanha. Agora, estão tomando suas “vitórias arrasadoras” como se legitimassem aquela dureza de linha dura conservadora doentia.

Claro que Obama ainda tem todo o restante do mandato, e pode usá-lo para retroceder e des-escalar – mas não há dúvidas de que, se o fizer, terá de remar contra correntes muito fortes.

No ocidente, a narrativa Republicana de política exterior fracassada por causa da fraqueza do presidente será vista como “coisa da política” e reflexo do ir e vir eleitoral.

Mas os russos e grande parte do Oriente Médio já estão pensando de modo bem diferente (ver, sobre o que os Republicanos dizem hoje, artigo de Rahada Dragham em Al Arabiya: “A última chance de Obama reconquistar a credibilidade perdida”, ing.). Já percebem que, seja quem for o próximo presidente (e possivelmente também o presidente Obama, sob novas pressões domésticas) será mais agressivo contra a Rússia, o Irã e o governo da Síria. Esses personagens não verão o resultado da eleição como simples “coisa da política”, mas como promessa de escalada na violência.

Bases militares NUCLEARES dos EUA na Europa
É possível evitar a escalada da violência? É possível que os “mísseis Júpiter” e os “mísseis russos em Cuba” sejam desarmados e retirados de onde estiverem? Há solução assim tão “simples”? Ora... Mas o que desejam exatamente os “mísseis defensivos” da Rússia? Aí a coisa aparece bem clara: os russos querem Ucrânia neutra, não alinhada; acordos geoeconômicos não excludentes, que não tentem pôr os russos na posição de vizinho condenado a mendigar; descentralização da autoridade de Kiev, para as regiões; a volta do idioma russo como língua oficial; e fim do subsídio russo ao gás consumido na Ucrânia.

Quanto à Europa, o não alinhamento da Ucrânia, por ele só, jamais foi visto como algo antieuropeu. Basta que a Europa retire seus “mísseis do alinhamento UE e OTAN”, em troca de a Rússia retirar seus “mísseis da militarização das milícias”. Não seria difícil para qualquer diplomata competente, se a questão fosse só a Ucrânia. Infelizmente não é (como nunca foi).

A “guerra” dos EUA contra a Rússia tem tanto a ver com a autopercepção, nos EUA, de seu próprio declínio, quanto tem a ver com a Ucrânia – e esse é problema psicológico muitíssimo mais profundo, razão pela qual as tensões com a Rússia parecem condenadas à escalada. O conflito entre EUA e Rússia só se agravará – a menos que algum líder norte-americano consiga gerir esses sintomas coletivos de ansiedade, os quais, também no nível individual, sempre têm muito a ver com como somos percebidos pelos outros. Essas ansiedades, sejam individuais ou coletivas, como nos ensinam os psicólogos, quase sempre se manifestam inconscientemente pela linguagem ou comportamento de agressão (o que, provavelmente, foi o que emergiu durante as eleições de meio de mandato).

Infelizmente, administrar a percepção que os norte-americanos têm deles mesmos não foi, até hoje, o forte de Obama. É verdade que Obama tentou mudar a “pegada” física que os EUA estão deixando sobre o mundo, refletir um mundo em mutação (e, nisso, teve algum sucesso). Mas, ao mesmo tempo, Obama abraçou a retórica de promoção do “excepcionalismo” e da “indispensabilidade” dos EUA. É o mesmo que dizer que apesar de ter tentado cuidar do aspecto prático da mudança, Obama, ao mesmo tempo, não apenas negligenciou a luta contra a resistência à mudança psicológica necessária, mas, de fato, obrou para reforçar a resistência contra aquela mudança psicológica necessária (para continuar a usar esse tipo de linguagem).

Evidentemente, qualquer ajuste real a um novo papel da nação norte-americana no mundo exige ação pelos dois lados: pelo lado da preparação psicológica e pelo lado da implementação prática do ajuste e da mudança.


[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Os EUA “piscaram” em Cuba... E “piscam” na Ucrânia

28/5/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido por mberublue


Num entre-copos no Bar do Xibiu na Vila Vudu, o Mosca Triste perguntou pro Mberublue:
— Uai! E quem será que piscou no Vietnã, no Iraque, na Síria e agora está piscando no Afanagistão e no Panaquistão (sic)?

Thomas Friedman
Thomas Friedman continua a ser o comentarista de política externa mais imbecil de toda a mídia norte-americana. Hoje ele afirmou que, ao não invadir a Ucrânia, Putin “piscou”, mesmo sabendo que a Federação Russa nunca teve essa intenção. A interpretação equivocada que Friedman faz da história é ainda pior que a sua incompreensão daquilo que está acontecendo bem embaixo do seu nariz em política externa. Sua coluna de hoje começa assim:

Em outubro de 1962, em plena crise dos mísseis em Cuba, houve um instante, quando navios soviéticos que se aproximavam e estavam a apenas algumas milhas de um bloqueio naval dos Estados Unidos, no último instante se retiraram, levando o então Secretário de Estado, Dean Rusk, a dizer uma das mais famosas frases sobre a Guerra Fria: “estávamos olho no olho. Acho que o adversário piscou”.
...

Como se trata afinal, de putinismo versus obaminismo, eu gostaria de ser o primeiro a declarar, aqui em minha coluna, que o adversário – Putin – “piscou”.

Nikita Kruschev na ONU
Não foi a União Soviética que “piscou” na crise dos mísseis em Cuba, mas os Estados Unidos. Quem recuou foi Kennedy e não Kruschev.

Os Estados Unidos, já nos idos de 1959/60 tinham planos para instalar e efetivamente começaram em 1961 as instalações de mísseis balísticos intercontinentais nucleares na Itália e na Turquia. Esses mísseis “Júpiter” poderiam atingir Moscou em minutos e dariam aos Estados Unidos a possibilidade de um primeiro ataque incapacitante contra a União Soviética.

Em abril de 1961 a CIA treinou e apoiou uma força de cubanos exilados para a invasão de Cuba. Foram derrotados e expulsos de Cuba, mas o incidente fez aumentar o desejo de Cuba por proteção da União Soviética.

As conversações com Cuba foram iniciadas e um acordo firmado, cujo escopo era conter a ameaça norte-americana de instalação de mísseis na Europa através da implantação de mísseis em Cuba, na mesma proporção.

Aconteceu então a “crise dos mísseis de Cuba”, na qual, em troca da retirada de seus mísseis de Cuba, a União Soviética exigia a retirada dos mísseis Júpiter da Europa. Também exigiu que os Estados Unidos se abstivessem de qualquer nova tentativa de invasão de Cuba.

Robert Kennedy
Kennedy “piscou”, concordando nos seguintes termos:

Ainda naquela noite, mais tarde, houve um encontro secreto entre Robert Kennedy e o embaixador russo, Anatoly Dobrynin. Chegaram ambos a um acordo básico: a União Soviética retiraria seus mísseis de Cuba sob a supervisão das Nações Unidas em troca da promessa de Washington de não invadir Cuba. Em acordo adicional, os Estados Unidos concordavam em eventualmente remover seus mísseis Júpiter da Turquia.

Através das instalações dos mísseis Júpiter na Turquia, os Estados Unidos teriam obtido vantagem. Mas a União Soviética a anulou e no final os Estados Unidos recuaram. Cuba nunca mais foi invadida e os mísseis Júpiter na Turquia foram desmontados. A União Soviética entregou a seus aliados em Havana garantias de segurança, enquanto os EUA desistiram de garantir os interesses de seus aliados Itália e Turquia.

A crise ucraniana, iniciada através de um golpe instigado pelos Estados Unidos, está ainda longe do fim, mas até o momento, o grande prêmio foi conquistado pela Rússia. A Criméia e seus mares adjacentes com suas reservas de centenas de bilhões de dólares em reservas de hidrocarbonetos são novamente parte da Federação Russa. A Ucrânia continua dependente da Rússia para seus suprimentos de energia e trocas econômicas em geral. Nem União Europeia nem Estados Unidos darão armas ou dinheiro em quantidade suficiente que garanta a sobrevivência da Ucrânia. Deixarão o novo governo da Ucrânia no gancho até ver como ele lidará com a inevitável crise de energia que se seguirá. Enquanto isso, Rússia e China formam uma nova aliança. No médio e longo prazo, a Rússia imporá sua vontade à Ucrânia e não há o que os Estados Unidos possam fazer em relação a isso, a não ser bombardear a Rússia, para mudar o desenrolar dos acontecimentos.

A administração Kennedy criou um mito: na crise dos mísseis em Cuba, que foram os soviéticos que piscaram para encobrir sua própria retirada. Copiando esse mito, Friedman está criando outro, mais falso ainda. O novo mito é que a Rússia “piscou” na Ucrânia. O fato de Friedman pensar ser necessária a criação de um novo mito só pode ser explicado pela necessidade de mais uma vez encobrir a inevitável retirada dos EUA da Ucrânia.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera  A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que tínhamos incorporado às nossas traduções do blog  Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Poderia ser ouvida se não tivesse sido retirada do YouTube.