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terça-feira, 11 de março de 2014

UCRÂNIA E BRASIL


[*] Adriano Benayon  — 09.03.2014

Guerra e depressão

1. O móvel da oligarquia financeira para desencadear guerras em grande escala, bem como conflitos localizados, é ganhar mais poder, subordinando países e regiões ao império e enfraquecendo os que poderiam conter essa expansão.

2. Nas Iª e IIª Guerras Mundiais, respectivamente França versus Alemanha e Alemanha versus Rússia (União Soviética), as potências angloamericanas só se engajaram, com intensidade, no final das mesmas para ocupar espaços estando aqueles contendores desgastados.

3. As duas grandes conflagrações eclodiram após longos períodos de depressão econômica e serviram como manobra de diversão em face das consequências sociais e políticas da depressão.

4. No Século XXI, os conflitos armados grandemente destrutivos estão tornando-se mais frequentes após o golpe preparatório: a implosão das Torres Gêmeas, em setembro de 2001.

5. Os principais alvos têm sido países islâmicos, envolvendo a geopolítica da energia. Desde 2001 o Afeganistão está sob agressão. Em 2003, destruição e ocupação do Iraque. Ataques a Sudão, Somália e Iêmen. Em 2011 a brutal agressão e intervenção da OTAN na Líbia. Durante todo o tempo, pressão e hostilização a Síria e Irã.

6. Em 2013, a agressão à Síria foi intensificada com a invasão por mercenários e extremistas, grandemente armados, com participação das monarquias petroleiras do Golfo Pérsico, lideradas pela Arábia Saudita, e colaboração da Turquia e de outros membros da OTAN.

7. Mas, na Síria, o governo conseguiu resistir, com seus recursos e disposição e com apoio militar e político da Rússia e da China, inclusive no Conselho de Segurança da ONU.

Yulia Timoshenko e Vitali Klitschko, dois dos títeres do ocidente na Ucrânia

Ucrânia

8. O êxito, até o momento, dessa resistência, levou a potência hegemônica retornar a ataques mais incisivos contra a ex-superpotência, que busca reconstruir-se. Daí, o recente golpe de Estado na Ucrânia.

9. Ademais, Putin fortaleceu os laços econômicos e políticos da Rússia com a China e países da Ásia Central, frustrando a estratégia angloamericana de manter divididas e vulneráveis as potências capazes de alguma resistência a seu projeto de governo mundial absoluto.

10. Claro que os EUA nunca deixaram de reforçar o cerco à Rússia, desde a desmontagem da União Soviética, instalando bases de mísseis em ex-aliados de Moscou, com destaque para a Polônia. Teleguiaram a “revolução laranja” na Ucrânia, em 2004, mais um marco no enfraquecimento desse país de consideráveis dimensões e recursos naturais e população em grande parte russa.

11. Ao verem contida a intervenção na Síria — e presenciar o Irã muito pouco abalado pelas sanções e incessantes hostilizações — os EUA trataram de atingir o flanco da própria Rússia.

12. Instaram a União Europeia (UE), sua satélite, a fazer ingressar nela a Ucrânia, visando pô-la na OTAN, colocando bases militares contra a Rússia virtualmente dentro desta.

13. Entretanto, o presidente da Ucrânia, Yanukovich, constitucionalmente eleito, não concordou em aderir à UE sem discutir as draconianas condições impostas: adotar as medidas econômicas do figurino do FMI: cortar pela metade o valor das pensões, suprimir benefícios sociais, demitir funcionários, privatizar mais patrimônio público em favor de plutocratas, tudo para pagar dívidas com bancos ocidentais.

14. Essas são as medidas às quais estão amarrados os pífios empréstimos que UE e EUA acabam de conceder após o golpe, desencadeado sob comando da Subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, e seu Embaixador na Ucrânia.

15. Utilizaram-se de redes sociais e outros meios para arrebanhar “forças políticas descontentes” e as levaram à Praça Maidan, ignorando elas que suas lastimáveis condições de vida vão piorar muito após o golpe.

16. A polícia foi acusada de autora dos disparos feitos por gangs neonazistas e outras extremistas (as tais “forças políticas descontentes”), como foi constatado pela chefe das relações exteriores da União Europeia e pelo ministro do exterior da Estônia, conforme conversação telefônica entre ambos, cuja autenticidade foi confirmada pelo ministro.

17. Isso é evidentemente omitido pela grande mídia (imprensa-empresa), que só publica o que interessa aos governos dos EUA, aliados e satélites, todos subordinados à alta finança e ao big business.

18. Ninguém deveria desconhecer que a grande mídia (imprensa-empresa) mente, 24 horas por dia, e ainda mais, desde a destruição, por dentro, das Torres Gêmeas em New York, golpe a partir do qual os EUA institucionalizaram mais instrumentos totalitários de repressão.

19. Golpe engana muita gente, mesmo após ter sido desmascarada inúmeras vezes, como quando se comprovou ter o Secretário de Estado de Bush, Colin Powell, mentido descaradamente sobre a existência de armas de destruição de massa no Iraque, negada pelo próprio observador das Nações Unidas.

20. É ao big business que agrada o golpe na Ucrânia, após já vir lucrando, antes dele, em negócios com os oligarcas corruptos atraídos para a órbita da oligarquia financeira, principalmente britânica.

21. De fato, anunciam-se novos acordos com as petroleiras angloamericanas (Chevron, Exxon, Repsol etc.) para extrair xisto, pelo processo altamente poluente de fracking, bem como a cessão de terras ao agronegócio norte-americano, Monsanto à frente, com intenso uso dos letais transgênicos e agrotóxicos, nas grandes extensões férteis da Ucrânia.

22. O destino dos ucranianos, se confirmado o ingresso na UE, não diferirá do que assola a Grécia, Portugal, Espanha, etc. e se abaterá também sobre os russos e outras nacionalidades que vivem em territórios cedidos à Ucrânia por  Khustchev.

23. Putin está agindo com extrema cautela, tendo-se limitado a apoiar o parlamento da Crimeia em seu desejo de unir-se à Rússia, reforçando efetivos militares na península, no Mar Negro e no Mediterrâneo.

24. A China manifestou-se solidária à Rússia, inclusive por estar investindo na Ucrânia, como faz em todo lugar suscetível de exportar alimentos e outras matérias-primas.

25. A renda por habitante da Ucrânia equivale a 1/3 da russa, que não é alta, e a Rússia já acolheu três milhões de ucranianos em seu território. O agravamento das condições sociais levará a maior êxodo para a Europa Ocidental, que já tem enorme desemprego.

O Brasil está na fase dos quebra-quebras e arruaças...
Brasil

26. O processo aqui em curso tem semelhanças com o da Ucrânia: insatisfação com as condições de vida e com a corrupção; e a ignorância das causas desses males.

27. Na nova ágora da internet e redes sociais, circulam versões absurdas como a de que o governo petista tem por objetivo implantar o comunismo.

28. Na realidade, esse governo, como seus predecessores, depende do big business transnacional, cujo domínio intensifica os problemas do País: concentração, desnacionalização e desindustrialização da economia; dependência tecnológica.

29. Difundiu-se muito no Brasil vídeo em que uma jovem ucraniana defende liberdade e democracia no errado contexto das massas iludidas na Ucrânia pelos mobilizadores do golpe. Na realidade, uma peça produzida por empresa de marketing político, sob os auspícios da agência norte-americana NED — National Endowment for Democracy — patrocinada pelo governo e o Partido Republicano dos EUA.

30. Este e outros braços do império acionaram as ONGs a seu serviço, a par dos nazistas, conforme a tradição da CIA, desde o final da 2ª Guerra Mundial.  O que se vê na Ucrânia são   homicídios, vandalismo e torturas, reiteradas agora com tiros sobre manifestantes pró-Rússia.

31. O objetivo da oligarquia financeira angloamericana no Brasil, até para prosseguir apropriando-se de seus recursos de toda ordem, é intensificar a desnacionalização e demais instrumentos para enfraquecê-lo.

32. Os meios de controle da informação − inclusive espionagem eletrônica, hacking − combinam-se com a corrupção de todo o sistema institucional. A presidente é acuada para aumentar o ritmo das concessões através, principalmente, de juros escorchantes (Taxa SELIC) e remessa de lucros e dividendos para matrizes das empresas internacionais.

33. Estão presentes as consequências das falhas estruturais da economia brasileira, que venho, de há muito, denunciando, as quais se poderão manifestar de forma aguda após julho, apesar de haver eleições em outubro.

34. A crise brasileira tem face interna − física e financeira − como o serviço da dívida: R$ 900 bilhões para 2014; e face externa: déficit nas transações correntes com o exterior acumulando US$ 188,1 bilhões em três anos (US$ 81,4 bilhões só em 2013).

35. Além disso, seus efeitos econômicos e sociais podem ser agravados pelas repercussões do colapso financeiro no Hemisfério Norte, próximo de ressurgir.

[*]Adriano Benayon: Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica e tecnológica. Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Economistas ortodoxos fracassaram no mercado DELES!

21/11/2013, [*] Seumas Milne, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ha-Joon Chang, um dos últimos economistas independentes sobreviventes na Cambridge de Keynes: “Os apoiadores da economia neoclássica têm mentalidade quase religiosa”
(Foto: Sean Smith, para 
 The Guardian)

De um ponto de vista racional, a economia ortodoxa enfrenta graves dificuldades. Seus pregadores não só não anteviram o maior crash em 80 anos: também insistiram que as crises do presente seriam coisas do passado. Mais que isso, alguns daqueles faróis-guias tiveram papel chave no desenho dos derivativos financeiros que ajudaram a desencadear, para começar, a quebradeira.

A maioria deles eram propagandistas pagos por bancos e fundos que nos encheram de ‘'dicas’' para que saltássemos do despenhadeiro para o qual nos conduziram. Figuras aclamadas de uma disciplina que se diz científica falavam de volatilidade “muito moderada”, de um mercado cuja volatilidade já estava à beira de explodir, como em seguida explodiu, numa volatilidade de violência jamais vista antes. Outros, como Robert Lucas, “Prêmio Nobel”, insistia que a economia teria resolvido o “problema central da prevenção da depressão”.

Paul Krugman
Qualquer outra profissão e respectivos profissionais que se tivessem mostrado tão espetacularmente errados e que tivessem causado tão absoluta devastação, com certeza estariam hoje em desgraça. Seria de supor também que os economistas do “livre-mercado” que dominam nossas universidades e ganham a vida como assessores de governos e de bancos estariam repensando suas teorias e considerando alternativas.

De fato, a vasta maioria dos economistas que previram a crise já haviam, antes, rejeitado o pensamento neoclássico dominante: de Dean Baker e Steve Keen a Ann Pettifor, Paul Krugman e David Harvey. Sejam keynesianos, pós-keynesianos ou marxistas, nenhum jamais abraçou a ideologia neoliberal que correu solta por 30 anos; e todos compreenderam que, ao contrário da ortodoxia, mercados desregulados não tendem ao equilíbrio, mas aprofundam a tendência da economia à crise sistêmica.

Alan Greenspan
Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve dos EUA e grão-sacerdote da desregulação, teve, pelo menos, a honestidade de admitir que sua visão do mundo fora provada “não correta”. O mesmo não se pode dizer de outros. Eugene Fama, arquiteto da “hipótese dos mercados eficientes” de apoio à desregulação financeira, concede que não tem ideia do que “cause as recessões” - mas insiste que sua teoria teria sido confirmada. A maioria dos economistas reinantes comportaram-se como se nada tivesse acontecido.

Mas para muitos de seus alunos, não, não, foi demais, cansaram-se daquilo. Uma revolta contra a ortodoxia vem fermentando há anos e agora parece ter atingido massa crítica. Fartos de teorias de universos paralelos que nada têm a dizer sobre o mundo que os interessa, os estudantes da Manchester University criaram uma Sociedade de Economia pós-crash, de 800 membros, que exigem o fim dos cursos neoclássicos monolíticos e novo currículo, pluralista.

Querem que lhes sejam ensinadas as ideias de outros pensamentos econômicos, do pensamento keynesiano a teorias mais radicais – que tenham currículo honroso a exibir no campo da previsão de terremotos e que sejam conectadas à economia do mundo real – e economia verde e feminista. A campanha está-se alastrando rapidamente: já chegou a Cambridge, Essex, à London School of Economics e a uma dúzia de outros campus, e ligados a grupos em universidades na França, Alemanha, Eslovênia e Chile.

Como explica um dos fundadores da Sociedade em Manchester, Zach Ward-Perkins, ele e um colega concluíram, depois de um ano de ininterrupta ortodoxia: “Tem de haver mais do que isso”. A economia neoclássica é, afinal, construída sobre uma concepção da economia como soma das ações atomizadas de milhões de indivíduos dedicados a maximizar a utilidade, onde os mercados são estáveis, a informação é perfeita, capital e trabalho são iguais – e o ciclo comercial é fixo como ideia fixa.

Mas ainda que muito se empenhem em tentar dizer coisa com coisa sobre crises, desigualdade ou a propriedade, os modelos matemáticos erigidos sobre aquelas fundações intelectuais mal enjambradas dão a tudo um verniz de rigor científico, valorizado por alunos que sonhem com empregos bem pagos na City. A economia neoclássica ofereceu os pressupostos para a dieta pró mercados desregulados, pró-privataria, pró-baixos impostos sobre a riqueza e pró-livre comércio, exatamente o quê, por 30 anos, nos contaram que seria a única via para a prosperidade.

Seus pregadores têm “mentalidade quase religiosa”, como diz Ha-Joon Chang – um dos últimos economistas independentes sobreviventes na Cambridge de Keynes. Embora sempre a clamar a favor da concorrência, os neoclássicos não toleram nem a mínima concorrência. Há 40 anos, todos os departamentos de economia eram keynesianos, e a economia neoclássica era desprezada. Tudo mudou, com a ascensãode Thatcher e Reagan.

Em instituições onde, se acreditava, estimulava-se o debate, os economistas não neoclássicos foram sistematicamente expurgados das faculdades de economia. Alguns encontraram refúgio nas escolas de comércio, estudos do desenvolvimento e departamentos de geografia. Nos EUA, a chave foi a privatização do ensino superior. Na Grã-Bretanha, a “busca da excelência” e os elogios intra-clusters de especialistas – critério para a alocação de fundos públicos para pesquisa – foi o principal mecanismo para o “saneamento” da economia, expurgada de “ideologias”.

Paradoxalmente, o aumento vertiginoso dos custos para os alunos e a “marketização” da educação superior estão empurrando os alunos na direção de inverter a ganga dessa monocultura intelectual.

George Soros
Os “livre-mercadistas” estão, agora, sendo testados no mercado, pelo mercado: e os fregueses não querem o produto que eles têm para vender. Alguns acadêmicos empresários já viram que terão de fazer concessões e estão cevando um projeto pago por Soros, para fazer “uma funilaria” nos currículos, na esperança de conseguir conter a escala das novidades, da mudança.

Mas a coisa tem de mudar. A ortodoxia do livre-mercado das últimas três décadas ajudou a criar a crise em que estamos, mas, simultaneamente, também deu credibilidade a políticas que levaram a crescimento mais lento, menor desigualdade, menos insegurança e menor degradação ambiental em todo o mundo. A continuada dominância daquela ortodoxia, mesmo depois do crash, tanto quanto o modelo neoliberal à qual aquela ortodoxia dá apoio, é questão de poder, não de credibilidade.

Se quisermos escapar da atual crise, a ortodoxia e o modelo neoliberal terão de ser, os dois, descartados.
__________________


[*] Seumas Milne (nascido em 1958) é um jornalista e escritor britânico. Muito respeitado como colunista e Editor associado do jornal The Guardian. També autor de um best-seller sobre o 1984–5 British miners' strike, The Enemy Within: The Secret War Against the Miners, focalizando o papel do MI5 e do Special Branch na disputa.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Desgoverno mundial totalitário

Dívida pública pelo mundo em 2011 (Clique na imagem para visualizar)
[*] Adriano Benayon - 14.08.2013

01. Estamos diante de mudança qualitativa na situação mundial, tanto no plano econômico como no político.

02. Depressão, desemprego crescente, concentração e financeirização absurdamente elevadas - incompatíveis sequer com o pouco que restava do estado de direito - têm levado ao Estado totalitário, cujas instituições aplicam meios e armas tecnológicas, nunca dantes vistas, para desinformar, espionar e reprimir as pessoas.

03. Poucos países, como Rússia, China e Irã, não se comportam como capachos do império anglo americano, sofrendo, por isso, pressões militares, políticas e constante campanha denigridora, apesar de com ele colaborarem em muitos terrenos e questões (1). Nem esses se desvencilharam plenamente da oligarquia financeira anglo americana, absoluta em numerosas nações subjugadas, de todos os continentes.

04. Isso, inclusive porque o império logra manter seu sistema financeiro fraudulento, inclusive o dólar e o euro no grosso das transações mundiais e constituindo mais de 90% das reservas de divisas (só o dólar, mais de 60%).

05. Sem a ameaça do poder militar e sem as incríveis manipulações nos “mercados financeiros” pelos bancos da oligarquia, o dólar teria, de há muito, perdido toda credibilidade.

06.
Essa moeda é emitida em quantidades colossais, mais de vinte trilhões tendo sido passados aos bancos da oligarquia financeira angloamericana e a alguns europeus a ela vinculados, para livrá-los do colapso criado por esses próprios bancos, com a orgia dos derivativos.

07. A injeção de dinheiro no sistema financeiro oligárquico, por parte dos tesouros nacionais e dos bancos centrais, através da criação de moeda, levou os tesouros a se superendividar, e os bancos centrais a exceder os limites toleráveis de emissões.

08. Por isso, não haverá como usar o mesmo “remédio” no próximo colapso, que terá consequências ainda piores que as do anterior, de 2007/2008, inclusive, como já aconteceu em Chipre, o confisco de haveres dos depositantes.

09.
Desde o anterior, com as empresas produtivas e as pessoas em dificuldades, os bancos quase não emprestaram aos que produzem, e geraram a bolha do dólar e as dos mercados de títulos e de ações.

10. De fato, os governos títeres fizeram o contrário do que recomenda a ciência econômica não pautada pela submissão ideológica à oligarquia: deixar falir os grandes bancos e aplicar recursos financeiros na produção em bases saudáveis, desmontando carteis e oligopólios e fomentando pequenas e médias empresas, bem como fortalecendo as estatais e investindo na infra-estrutura.

11. O montante dos derivativos não registrados em bolsas (over the counter), que havia ultrapassado 600 trilhões de dólares no auge da “crise” em 2008, voltou a fazê-lo em 2011 (dados do Bank for International Settlements – BIS).

12. Grande, se não a maior, parte dos derivativos revelou-se podre, por serem pacotes de obrigações securitizadas, em cuja base estavam instrumentos de crédito-débito sem condições de serem adimplidos.

13.
Os vultosos prejuízos resultantes desencadearam o colapso e deveriam ter causado a falência dos grandes bancos, cujos controladores, executivos e acionistas haviam obtido ganhos bilionários com as fraudes.

14. A sequela do colapso financeiro foi a depressão e o desemprego nos EUA, Inglaterra, Japão e na quase totalidade da Europa, com reflexos em todo o Mundo.

15.
Aí entra a desinformação. Nos EUA, os órgãos oficiais falseiam as estatísticas de diversas formas, inclusive superestimando a produção, ao aplicar aos preços deflatores muito inferiores à inflação verdadeira, e subestimando o desemprego.

16. Mas as pessoas sentem a deterioração de suas condições de vida e protestam. Diante disso, a oligarquia recorre à repressão policial, reforçando cada vez mais a natureza totalitária do poder público que controla. É o inelutável reverso político da medalha econômica e social.

17. O Estado policial, a serviço da oligarquia, já estava consolidado antes da implosão das Torres Gêmeas, em Nova York, e do míssil disparado conta o Pentágono, em Washington, em 11.09.2001, pois praticar um golpe dessa magnitude, conseguir ocultá-lo na “investigação”, reprimir os que demonstraram a verdade e impor à mídia a difusão da mentira oficial, são façanhas só possíveis sob instituições totalitárias.

18.
Esse golpe - vale recordar – foi perpetrado para aterrorizar a população, obter do Congresso mais leis repressoras e “justificar” ações de guerra de grande envergadura, no Oriente Próximo e no Norte e Leste da África, no Afeganistão, Iraque, Líbia, e mais recentemente Síria.

19. Muita gente imagina que a oligarquia não tem como evitar a depressão e crê que ela não entende como a política econômica a poderia suprimir.

20. Entretanto, a recorrência das depressões e a continuidade das guerras demonstram que elas não são catástrofes naturais, mas, sim, deliberadamente cultivadas, além de consequência da concentração extrema do poder econômico, causada pelas políticas públicas comandadas pela oligarquia.

21.
A oligarquia tem por objetivo central aprofundar e tornar absoluto seu poder econômico e político. Para isso, nada melhor que tornar pobre a grande maioria dos razoavelmente prósperos e a totalidade dos trabalhadores, que, em situação de vida menos desfavorável, contariam com recursos financeiros e tempo para organizar-se e resistir à concentração do poder e aos desmandos da repressão totalitária.

22. Um exemplo disso ocorre com os brasileiros, que, se empregados, têm de desperdiçar cinco horas diárias estressando-se no trânsito. Além disso, o lazer é arruinado pela anticultura, e pela promoção de vícios e pela destruição de valores inculcadas pelos meios de comunicação e de entretenimento.

23. Os moderníssimos e cada vez mais poderosos instrumentos da eletrônica e da informática são intensamente empregados a serviço disso, como também da espionagem industrial e a repressiva, causando danos às economias nacionais e à privacidade e à segurança de cada indivíduo.

24. O Brasil, transformado em zona passiva da exploração e da opressão imperiais, tem o “privilégio” de votar na urna eletrônica menos confiável do Mundo, e agora seus eleitores vão ser submetidos pela “Justiça” ao cadastramento biométrico, ficando, assim, expostos a mais abusos contra seus direitos.

25.
Por mais absurdo que pareça às mentes sadias, infere-se o objetivo de dizimar a população mundial, por parte da oligarquia instituidora da “nova ordem mundial”. Basta, para isso, ver o que ocorre, há decênios.

26. Percebe-se mais um “sentido” da depressão econômica: favorecer o aumento da subnutrição, da má nutrição e das doenças, inclusive através do estresse, fonte da intoxicação endógena e da perda da imunidade.

27. O fomento das doenças, além de fonte de lucros das indústrias da “saúde”, faz “controle demográfico”, complementando o controle da natalidade. Para tanto, estão aí os transgênicos, agrotóxicos, o lançamento de rastros químicos por aviões, a gigantesca poluição de produtos como petróleo e seus derivados, carvão, xisto, os da indústria química e n outros.

28. Na mesma direção, refrigerantes, fumo, drogas, antibióticos, quimioterapia, radioterapia e os hormônios, inclusive administrados ao gado e aves. Ademais, a medicina orientada pelos interesses financeiros da indústria farmacêutica e da de equipamentos médicos.

(1)
O caso emblemático do analista Snowden provocou a fúria dos agentes imperiais, tendo o presidente Putin agido com exemplar firmeza, ao lhe conceder asilo, em contraste com a atitude dúbia da China, que rapidamente o despachou para a Rússia.


[*] Adriano Benayon - Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica e tecnológica. Depois, Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sair da “crise”


*Adriano Benayon - 15.10.2012

1. O jornal Valor publicou, em setembro, artigos de dez “renomados” economistas sobre a “crise” mundial e seus desdobramentos. Na realidade, trata-se de depressão econômica, caracterizada por queda, desde 2008, de emprego, produção, consumo e investimentos, em quase todos os países “desenvolvidos”. 

2. Pior que esconder a depressão nas estatísticas oficiais é não apontar-lhe a causa essencial: a concentração dos meios de produção e das finanças sob o comando de um grupo de pessoas contáveis nos dedos, coadjuvadas por executivos cujo total não passa de 0,001% da população (mil vezes menos que o falado 1%).

3. A concentração determina as causas imediatas do colapso e da depressão:

a) desregulamentação (falta de controles públicos e supressão dos que havia) dos mercados financeiros, deixados ao bel prazer dos alavancadores dos títulos podres, como derivativos de 600 trilhões de dólares (nessa moeda e em euros);

b) os bancos e financeiras, manipuladores e aproveitadores da criação de títulos, não arcarem com os ônus dos estragos que produziram, postos nos ombros dos Estados, que viraram devedores de créditos de que não se beneficiaram.

4. Ainda mais importante que entender as causas é atentar para o fato de a depressão continuar, porque isso interessa à oligarquia financeira, detentora do real governo nas “democracias” ocidentais.

5. De fato, a depressão serve para tornar ainda maior a concentração do capital, e mais absoluto o poder oligárquico. Serve como? Enfraquecendo ainda mais os Estados nacionais, dos quais a oligarquia se havia apoderado.

6. Com o Estado subordinado aos oligarcas, quem irá conter os abusos tirânicos e quem propiciará algum espaço à verdadeira economia de mercado, capaz de viabilizar o desenvolvimento tecnológico através da competição e da demanda em economias livres da concentração?

7. Depois do colapso financeiro originado nos derivativos, em vez de se liquidarem os bancos metidos neles - como de direito, se as sociedades tivessem governos a seu serviço - os colossais prejuízos decorrentes da especulação foram transferidos para os Estados, que passaram a ser os grandes endividados.

8. A partir das dívidas públicas assim engendradas, as políticas sob o comando dos bancos levam à falsa austeridade e às privatizações favorecedoras dos cartéis dos oligarcas. Através delas desaparecem não só estatais, mas também grande massa de empresas médias e pequenas.

9. No setor “privado” reinam os grandes bancos e os cartéis transnacionais, cada vez mais abrangentes. Fecham-se as portas do capitalismo a ingressantes da classe média alta. A oligarquia consolida seu status de tirania.

10. Diferentemente do que muitos dizem, a crise econômica atual não provém somente do liberalismo, mas, sim, de o mundo estar dirigido e regulado pelos concentradores. Só os oligarcas ficam livres da regulamentação.

11. A depressão nos EUA, Europa e Japão leva à queda das exportações da China, a qual pretende acelerar a expansão do mercado interno e reduzir o ritmo de crescimento dos investimentos em favor da elevação do consumo.

12. Assim, a função de locomotiva do dinamismo mundial, desempenhada ultimamente pela China, não deverá prosseguir na mesma intensidade, prevendo-se queda nas importações de minérios e, portanto, das exportações do Brasil e da Austrália.

13. Em conclusão, nada se vê no horizonte, capaz de interromper o presente círculo vicioso, na maioria dos países, de deterioração das condições sociais e da infra-estrutura econômica.

14. EUA e Europa prosseguem emitindo moeda para comprar títulos podres, o que reduz quedas no valor dos ativos financeiros e das commodities. Mas isso só adia nova recaída, enquanto avilta, ainda mais, o dólar e o euro, moedas que não mais deveriam ser aceitas como divisas internacionais.

15. Muitos recordam que a grande depressão mundial dos anos 30 somente acabou devido ao choque de procura da Segunda Guerra Mundial, a partir de 1942/43. 

16. Mas então, só nos EUA, foram mobilizadas 14 milhões de pessoas, e agora, os conflitos armados não geram mais tantos empregos, nem mesmo nas indústrias de armamentos e nas básicas. Só matam aos milhões, com armas intensivas de tecnologia.

17. As agressões a diversos países desde 2001, as quais contribuíram para elevadíssimos déficits orçamentários, visam elevar os lucros da indústria bélica, um dos grandes feudos da oligarquia, ademais dos objetivos imperiais.

18. A guerra em grande escala seria muito mais dispendiosa e tornou-se menos provável, porque surge uma superpotência, a China, além de ocorrer alguma recuperação do poder bélico da Rússia, ex-superpotência que propiciou o equilíbrio desaparecido no final dos anos 80.

19. Por fim, não há necessidade de novas guerras monstruosas, além de inúteis para sair da “crise”. A saída não é difícil se pusermos cobro à tirania política da oligarquia financeira.

20. Bastaria os Estados assumirem o controle de seus Tesouros e dos bancos centrais, extinguirem o grosso das dívidas que inviabilizam a sanidade das economias e promoverem investimentos produtivos estatais e privados no âmbito de uma economia descartelizada.

21. Fora disso, i.e., sem transformação das relações de poder, o cenário é mais depressão, e a dificuldade para essa transformação decorre da deterioração, em todos os aspectos, da vida dos povos subjugados pelo império.

22. Com efeito, a tirania conta, para afastar a revolução, com os frutos de investimentos, desde há um século, nas indústrias da comunicação social e do entretenimento e nos sistemas de “educação”, para destruir valores e culturas e embotar o discernimento, tudo isso potencializado por mais tecnologia.

23. A destruição das Torres Gêmeas em Nova York e o ataque ao Pentágono, realizados pelo Estado policial, há onze anos, são exemplos notáveis da produção de terror para justificar agressões imperiais e reforçar leis repressoras totalitárias.

24. É em cima dessas realidades, desconhecidas da maioria, que se monta nos EUA o mega-espetáculo das eleições presidenciais.

25. A eleição para presidente da maior superpotência mundial deveria ser evento de capital importância, merecedor da cobertura que tem, se houvesse real opção para os eleitores.

26. Trata-se, porém, de algo irrelevante, já que, como de hábito, os candidatos dos dois partidos estão igualmente vinculados à oligarquia concentradora, sediada em Wall Street, Londres e outras praças-chave da finança mundial.

*Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro “Globalização versus Desenvolvimento”.
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