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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Corte nos gastos, cortes na seleção, cortes e recortes...

Cida Torneros e seu gato

Surpreendo-me com a reação de um amigo... Ele inseriu "fora, traidora!" no seu mural do Facebook, ao se referir à notícia da suspensão de concursos públicos por parte da presidenta da República, além de vários outros cortes no orçamento da União, totalizando 50 bilhões, segundo o ministro Mantega.

Fiquei pensando com meus botões enquanto degustava a informação eminentemente feminina (desculpem!) já que ninguém melhor que mulher consciente, tipo dona-de-casa, para cortar os supérfluos e ensinar à família a economizar quando é necessário apertar os cintos... Nada contra àquelas patricinhas desenfreadas, compradoras dos excessos shoppingnianos, vítimas da síndrome do consumo compulsório (quem de nós pode atirar a primeira pedra?), pois todas elas (nós) já tivemos nossos momentos de recaídas diante de algum produto tentador em alguma vitrine propositadamente anestesiante. Mas, vejamos a causa brasilis, no exato instante em que se recomeça o ano e se arranja as coisas, num país tão multifacetado.

Imagino que nas estatísticas nacionais, faltem profissionais do setor público para suprir mil e uma necessidades, como Bombril, diria até que há mil e uma utilidades a serem preenchidas em vagas para profissões que demandam atendimento público, como por exemplo, médicos, professores, agentes administrativos de setores congestionados, como justiça, etc.... Sei que tudo isso há que ser pesado e repensado pelas autoridades competentes. Fica difícil, entretanto, entender os gastos que não foram contidos pelos parlamentares (em todas as instâncias) com seus ganhos pessoais, e porque deles não partiu a iniciativa providencial de congelar seus salários, em homenagem ao povo brasileiro, num gesto ímpar, que marcaria a história deste país, como nunca antes.

Mas, lá vou eu navegando pela imaginação apequenada de uma criatura ainda crente na boa intenção humana, e adentro no eixo dos cortes e recortes. Valem os cortes de tecido, os retalhos, aqueles que são bem mais baratos, que podem nos proporcionar confeccionar blusas, vestidos, saias, etc., pela metade dos preços das lojas de marca, como faziam nossas avós e mães. Vou além, penso nos recortes de jornais que amealhamos com notícias e receitas, com informações que julgamos dignas de serem guardadas e deixadas até como herança para os nossos filhos e netos.

Chego à seleção de futebol, vejo as pessoas discutindo os cortes de jogadores, quem deve sair, quem deve entrar, quem já deu o que tinha que dar, quem só ganha dinheiro, mas não joga nada, quem tá “bichado”, quem nos lava a alma, quem nos deixa com a sensação de bobocas que ainda acreditam no ideal do amor à camisa.

E vou cortando o tempo, recorto a literatura da memória, volto a trechos de livros que me rodeiam na vida inteira, vejo-me entrecortada de idéias avulsas, de tantos pensadores, acumulei pedaços de emoções que outros me legaram, fiz alguns cortes no meu próprio coração para que sangrasse o suficiente na emoção que cada incisão proporciona.

Aí está a Dilma e ela entrou cortando! Deixem-na costurar o novo modelo, pode ser que com menos pano pra manga, se construa novas modas para um país mal acostumado à farra do boi, à pseudo ideia de que está sobrando din-din por aí. Há que respeitar os cortes. Lembro das aulas do Escobar na faculdade (lá se vão 30 anos), quando ele falava sobre o corte epistemológico. Hora de parar para rever a necessidade de cortes.

Na pele, claro, um corte dói horrores, eu me feri com vidro, há alguns anos, na perna esquerda, levei 6 pontos e fiz uma infecção difícil de conter, pois sou alérgica à penicilina. Padeci uns dois meses. Meu ex-chefe me visitou em casa, eu, perna inchada, sentada no sofá, a vida parada lá fora, aliás, era dentro de mim, a sensação de estar alijada do processo, sem poder trabalhar, mas com uma brutal capacidade de refletir, pensar, readaptar-me à vida, aceitando o corte do tempo e o corte da carne.

Cortemos as fatias do bolo. Dividir o pão, dividir o chão, recortar a terra, fatiar as oportunidades, cortar tantas regalias dos parlamentares, (não só deles), mas de tantos que se julgam acima do bem e do mal. É preciso sim, rever e recortar o modus vivendi nacional. Com se faz com a casa da gente, quando se corta o cartão de crédito, quando se economiza a energia elétrica, o consumo da água, se troca a empregada mensalista pela faxineira semanal, ora, é só ir à feira e garimpar melhores preços, é pechinchar nas lojas, é negociar as dívidas bancárias, é bem mais.

Cortar e avisar que vai cortar não me parece traição. Quando cortar pode servir de exemplo, devemos dar um crédito de confiança à nossa nova dirigente. Torçamos para que os “inimigos” de plantão não lhe cortem as asas, e deixem-na comandar e voar na direção que arruma a casa do Brasil; primeiro a cozinha, quem sabe, cuidando da inflação e da cesta básica, observando os oportunistas que se aproveitam para manipular preços, punindo os mal intencionados, pondo de castigo aqueles que ainda pensam que nos enganam com sórdidas e infantis manobras que se amparam em leis fajutas, que legislam em causa própria, e que, não perdem por esperar.

Corte neles, sim, que se cortem as conchavadas expectativas dos “experts” de carteirinha que pensam que ainda é possível enganar o povo brasileiro. Fora da Seleção os que só brincam de jogar futebol. Cortes sempre serão bem-vindos em quaisquer campos desde que justificados, estudados, programados e com resultados positivos a curto e médio prazo. Só não nos cortem o direito de pensar, discordar, sermos bem informados, e de sonhar com um Brasil mais justo e bem trajado com corte impecável no desfile do dia-a-dia

enviado por Cida Torneros pelo Facebook

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

"Me orgulha ver uma mulher da minha geração na Presidência"


Trecho do discurso do ministro Franklin Martins (Comunicação Social) durante cerimônia em que as ações dos oito anos do governo Lula foram registradas em cartório. O evento foi realizado no Salão Nobre do Palácio do Planalto, em Brasília (DF).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

EUA dão carta branca a Israel


Publicado em 12/12/2010 por Mário Augusto Jakobskind

O conflito palestino-israelense está agora ainda mais distante de chegar ao fim. Ou seja, as perspectivas de se alcançar um acordo de paz estão cada vez mais remotas. O governo extremista de direita de Israel decidiu dar continuidade à construção de assentamentos para abrigar colonos judeus, em sua maioria procedente dos Estados Unidos. O governo, cada vez mais fraco, de Barack Obama simplesmente também decidiu deixar tudo como está, ou seja, aceitar o jogo das colônias de Benjamin Netanyahu. Na prática, Obama se rendeu às pressões do lobby sionista e aceitou a continuidade das construções de colônias em áreas da Cisjordânia.  Em resposta ao sinal verde de Obama em relação às colônias, não restou alternativa aos palestinos do que não continuar o diálogo com Israel.

O governo brasileiro percebendo que o “caminho da paz’,  como estava sendo elaborado não daria em nada, como de fato acontece, adotou uma importante medida, a de reconhecer o Estado Palestino com as fronteiras de antes de 67, posição acompanhada agora pela Presidenta Cristina Kirchner. José Pepe Mujica, Presidente do Uruguai será o próximo a fazer o mesmo a partir de 2011, segundo informações correntes, e outros dirigentes latino-americanos devem fazer o mesmo.

Em matéria de política externa brasileira, por sinal, está havendo um grande açodamento por parte dos analistas da mídia de mercado. A Folha de S. Paulo, por exemplo, praticamente decretou a expulsão de Celso Amorim, queimando-o diariamente, e nomeou, antes até da Presidenta eleita o fazer, o ministro Antonio Patriota como o substituto do chanceler brasileiro que mais tempo ficou no cargo, superando inclusive o legendário Rio Branco. Patriota está sendo apresentado pelos analistas de sempre como um “moderado”, isso com o objetivo de indispô-lo com Amorim. Patriota e Amorim não têm divergências e o que estará em jogo é um projeto.

Espera-se que Amorim, um dos melhores quadros da história da diplomacia brasileira, venha a ocupar a presidência da Unasul (União das Nações Sul Americanas), o que provavelmente desagradará profundamente os analistas de sempre, que deram grande espaço à declaração de Dilma Rousseff sobre a condenação a morte por apedrejamento da iraniana acusada de adultério e posteriormente de cumplicidade no assassinato do marido.

Dilma não poderia falar outra coisa, se não condenar algo que não condiz com os tempos atuais. A acusada Sakineh Ashtiani seria libertada, segundo uma Ong com sede na Alemanha, mas a TV iraniana negou. Os meios de comunicação deram muito menor destaque ao fato de a Presidenta eleita elogiar a iniciativa de Lula junto com a Turquia de tentar um acordo na área nuclear com o Irã. Foi um fato importante, que continua na ordem do dia, tanto assim que em Genebra os “grandes” se encontraram com um representante iraniano para tentar exatamente chegar a um tipo de acordo que a diplomacia brasileira também tentou. Na verdade, Brasil e Turquia almejavam, e almejam ainda, evitar uma possível guerra, tão desejada pelos falcões de Israel e dos Estados Unidos, não se excluindo a Arábia Saudita, segundo revelaram os documentos da diplomacia norte-americana tornada pública pelo site WikiLeaks.

A propósito, como estão reagindo em relação à prisão em Londres de Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, as entidades que geralmente se posicionam condenando o que consideram pressões contra a liberdade de expressão? Assange pode serextraditado para a Suécia onde voltou a ser acusado de crimes sexuais, cujos processos já tinham sido arquivados porque as supostas vitimas tinham negado as acusações contra o australiano que está sendo uma pedra no sapato na diplomacia estadunidense. Não seria hora de manifestações enfáticas de condenação às pressões que Assange vem sofrendo? Além do mais, pelo andar da carruagem, não será surpresa alguma se os Estados Unidos entrarem no circuito de duras condenações ao fundador da WikiLeaks, inclusive extraditando-o também. O mínimo que se deve exigir é que as entidades defensoras dos direitos humanos saiam imediatamente em defesa de Assange. Lula não fez por menos e solidarizou-se com Assange.

Uma coisa é certa, os 250 mil relatórios elaborados pelos diplomatas espiões dos EUA continuarão a ser divulgados, seja com Assange preso ou solto. E isso independente do desejo de Hillary Clinton, a secretária que substituiu Condoleeza Rice e continuou mantendo o esquema da ocupante do cargo no governo de George W. Bush.

No Brasil, o Ministério de Dilma Rousseff vai sendo formado. Por enquanto, dois nomes não são nada abonadores para o novo governo que toma posse a 1 de janeiro de 2011: a continuação de Nelson Jobim na Defesa, e do ex-governador do Estado do Rio, Moreira Franco ocupando o lugar de Samuel Pinheiro Guimarães no Ministério de Assuntos Estratégicos. Covenhamos, é um visível retrocesso prescindir de Guimarães e optar pelo político hoje no PMDB, porque pelo que se sabe em matéria de estratégia Franco já demonstrou ser um desastre quando governou o Estado do Rio de Janeiro, no final dos anos 80 e início da década de 90. Para quem tem memória fraca, o referido garantiu que acabaria com a violência no Rio em 100 dias e no episódio da fraude do Proconsult a TV Globo e os órgãos de informação fizeram o possível para dar a vitória ao candidato da então Arena, na mais nada menos que o, segundo o jornalista Laerte Braga, o “verme” Moreira Franco.

Deu no que deu. Seu governo não só não deixou saudades como o próprio passou ao ostracismo político, sendo reabilitado recentemente como diretor da Caixa Econômica e agora futuro Ministro do governo Dilma Rousseff. Pegou mal.

enviado por Direto da Redação

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entrevista de Dilma Rousseff ao Washington Post


No Brasil, de prisioneira a Presidente
Por Lally Weymouth - segunda-feira, 06 de dezembro 2010 
Tradução de Paula Marcondes e Josi Paz, revisão de Idelber Avelar.
dilma-3.jpgTer sido uma presa política lhe dá mais empatia com outros presos políticos? 
Sem dúvida. Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, sua opinião pública, suas próprias opiniões.

Então, isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apóia um país que permite o apedrejamento de pessoas, que prende jornalistas?
Acredito que é necessário fazermos uma diferenciação no [que queremos dizer quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante] a estratégia de construir a paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política – de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão ao Iraque. Não conseguimos construir a paz, nem resolver os problemas do Iraque. Hoje, o Iraque está em guerra civil. Todos os dias, morrem soldados dos dois lados. Tentar trazer a paz e não entrar em guerra é o melhor caminho.
[Mas] eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto.

O Brasil se absteve em votar na recente resolução sobre os direitos humanos na ONU . 
Eu não sou Presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou. Não é minha posição.

Muitos norte-americanos sentiram empatia pelo povo iraquiano que se rebelou nas ruas. Por isso me pergunto se sua posição sobre o Irã seria diferente daquela do seu atual Presidente, que possui boa relação com o regime iraquiano.
O Presidente Lula tem seu próprio histórico. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre apoiou a construção da paz.

Como a Sra. vê a relação do Brasil com os EUA? Como gostaria de vê-la evoluir?
Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Tentarei estreitar os laços. Eu admirei muito a eleição do Presidente Obama. Acredito que os EUA revelaram uma grande capacidade de mostrar que são uma grande nação, e isso surpreendeu o mundo. Pode ser muito difícil ser capaz de eleger um Presidente negro nos os EUA - como era muito difícil eleger uma mulher Presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm um papel a cumprir juntos no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em todos os campos.
Também acredito que, neste momento de grande instabilidade por causa da crise global, é fundamental que encontremos formas que garantam a recuperação das economias dos países desenvolvidos, porque isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil ficará confortável se os EUA mantiverem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor fantástico. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil.

A Sra. culpa o afrouxamento monetário [quantitative easing] por isso? 
O afrouxamento monetário é um fato que nos preocupa muito, porque significa uma política de desvalorização do dólar que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização da nossas reservas de divisas, que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel que os EUA têm, já que a moeda dos EUA serve como reserva internacional. E uma política sistemática de desvalorização do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.

Quando a Sra. planeja visitar os EUA? Sei que foi convidada para antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas não podia ir.
Eu não estou aceitando os convites que recebo. Não estou visitando países estrangeiros. Tenho que montar o meu governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o Presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele me receber.

Então a Sra. convidará o Presidente Obama para vir ao Brasil?
Nós já o convidamos informalmente, durante a reunião do G-20.

Há preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil continuará o caminho econômico definido pelo Presidente Lula.
Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós foi uma grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma única administração - é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de que conseguimos controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e ter a consolidação fiscal de forma que, hoje, estamos entre os países com a menor relação dívida / PIB do mundo. Além disso, temos um déficit não muito significativo. Não quero me gabar, mas temos um déficit de 2,2 por cento. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir a proporção dívida / PIB para garantir essa estabilidade inflacionária.

A Sra. disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A Sra. irá cortar o orçamento ou reduzir o aumento anual de gastos do governo?
Não há como cortar as taxas de juros a menos que você reduza seu déficit fiscal. Somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, um dos pontos mais importantes é a redução da dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade de nossos setores agrícola e de manufatura. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema fiscal.

Se a Sra. quer baixar as taxas de juros, a Sra. tem que cortar os gastos ou aumentar a economia doméstica.
Você não pode se esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.

Qual é seu plano?Meu plano é continuar a trajetória que seguimos até aqui. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para 42%. Nosso objetivo é atingir 30% do PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do PIB, que leve o país adiante.

Então o que a Sra. quer dizer com “racionalizar gastos”?
Não estamos em uma recessão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas vamos continuar a crescer.
Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento no qual o país está crescendo. Temos estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, muito orgulho do fato de que conseguimos reduzir a extrema pobreza no Brasil.
Trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos maiores exemplos.

Explique como funciona o Bolsa Família.
Pagamos um estipêndio, que é uma renda para os pobres. Eles recebem um cartão e sacam o dinheiro, mas têm duas obrigações a cumprir: colocar seus filhos na escola e provar que eles comparecem a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas e passar por uma avaliação médica quando recebem as vacinas. Esse foi um fator, mas não foi o único.
Criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.

A Sra. é tão próxima do Presidente Lula. Será mesmo diferente ou apenas uma continuação da administração dele?
Eu acredito que minha administração será diferente da do Presidente Lula. O governo do Presidente Lula, do qual fiz parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a administração dele porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002.

Eu tenho os programas governamentais em andamento, que ajudei a desenvolver, como o chamado Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.
Meus desafios são outros. Vou ter que solucionar questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública.
O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do Presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões rodoviárias no Brasil, as ferrovias, as estradas, os portos e os aeroportos.
Mas há uma boa notícia: descobrimos petróleo em águas profundas.

A Sra. está sugerindo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?
Criamos um Fundo Social [no qual] alguns dos recursos do governo oriundos da descoberta do petróleo serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A Sra. tem que preparar o pais para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.
Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é meu maior desafio.

Todos os empresários que conheci em São Paulo disseram que precisam estar muito preparados para as reuniões com a Sra., porque a Sra. conhece bem a maioria dos projetos.
Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles, não.

O que significa, para a Sra., ser a primeira mulher Presidente do Brasil?
Até eu acho incrível.

Quando a Sra. decidiu que queria ser Presidente?
Foi um processo. Não há uma data. Comecei a trabalhar com o Presidente Lula e ele começou a dar algumas dicas sobre eu vir a ser indicada à presidência, mas ele não foi claro no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando.
A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria indicada, dois anos atrás, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível a vitória nas eleições. O Presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu e admitiu isso. Somos uma administração diferente - nós ouvimos o povo.

A Sra. recentemente lutou contra o câncer.
Sim, mas acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobre, melhores suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui sozinha, só pelos meus méritos. Somos a maioria neste país.

PS: Original em inglês aqui. Todos os textos d'O Biscoito Fino e a Massa estão licenciados em Creative Commons. Ou seja, você pode reproduzi-los à vontade, desde que com correta atribuição de autoria (ou de tradução, conforme o caso) e link para a fonte. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Folha conseguiu: está aberto o processo da ditadura contra Dilma


Superior Tribunal Militar acata pedido do jornal e libera acesso ao arquivo. Quais serão as consequências da divulgação das informações agora? Por Celso Marcondes. Foto: Roberto Stuckert/ Divulgação
Superior Tribunal Militar acata pedido do jornal e libera acesso ao arquivo. Quais serão as consequências da divulgação das informações agora?
“STM libera processo da ditadura contra Dilma”: essa é manchete de capa da edição desta quarta-feira 17 do jornal Folha de S.Paulo. 
A matéria principal ocupa quase toda a página 4 e na abertura já comemora: “advogada da Folha diz que resultado é vitória ‘de toda a sociedade’ ”.
Essa “vitória” que o jornal encampa em nosso nome começou a ser organizada em setembro deste ano, quando a Folha protocolou mandado de segurança no Superior Tribunal Militar. Na ocasião, ela argumentou que era direito de todos os brasileiros saber o histórico da candidata antes que as urnas presidenciais fossem abertas.
No STM, o julgamento foi suspenso duas vezes, mas a Folha não se fez de rogada, em 19 de outubro apelou para o Supremo Tribunal Federal, na esperança de que ele determinasse a abertura dos arquivos antes da realização do segundo turno. Relatora do caso, a ministra Cármem Lúcia, devolveu o caso ao STM, que só agora, por 10 votos contra 1, liberou o acesso do ávido jornal paulistano ao processo.
Na próxima semana será publicada a ata da sessão e a partir daí os repórteres da Folha poderão se deliciar com a leitura de tudo o que os ditadores e seus funcionários escreveram sobre nossa presidenta eleita quando ela tinha cerca de 20 anos.
Até aqui, o que, em síntese, todos sabem, é que Dilma Rousseff combateu a ditadura militar desde muito jovem. Militou numa organização guerrilheira chamada Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, ficou presa por mais de dois anos, foi torturada barbaramente e depois de libertada retomou sua vida no Rio Grande do Sul.
Do meu ponto de vista, é o suficiente, não preciso saber mais. Fico satisfeito em ter conhecimento que, mesmo usando de métodos que nunca aprovei, ela teve a coragem de combater os terroristas que tomaram de assalto o governo e o Estado brasileiro em 1964. Eram eles, como se sabe, militares, apoiados e sustentados por civis, entre os quais muitos empresários, inclusive da área de comunicação.
No entanto, para muita gente conhecer este resumo daquela fase da vida de Dilma não bastou. Desde o momento em que ela foi cogitada como candidata do presidente Lula, a internet foi dominada por uma onda de mensagens que questionavam o currículo militante da candidata. Taxada de cara como “terrorista” até uma ficha falsa foi montada, a descrever os atentados, sequestros e assaltos a banco nos quais ela teria se metido. (Clique aqui para ler o que publicamos então)
A mesma Folha, na época, foi o único jornal que embarcou na história da suposta ficha e a publicou em primeira página, com os devidos comentários desairosos. Sem ouvir antes a acusada. Revoltada, Dilma reagiu, pediu direito de resposta, o jornal foi obrigado a lhe dar espaço e a recuar na denúncia, reconhecendo que não tinha atestado a autenticidade da peça montada não se sabe aonde, o que se constituiu num dos episódios mais vergonhosos da história recente do jornal.
Porém, seus proprietários não pararam por aí e durante toda a campanha eleitoral colocaram jornalistas para investigar este período de sua vida. Não faltaram entrevistas com ex-companheiros de militância, nem com ex-militares ou carcereiros que teriam tido contato com Dilma nos anos 70. O que se buscava então era, digamos, algo mais concreto no currículo da militante: teria participado de algum sequestro ou assalto? Atirado ou matado alguém? Delatado companheiros? Em nenhum momento, porém, qualquer jornalista, depois de muitas entrevistas e pesquisas em outros arquivos que existem pelo País, conseguiu qualquer prova de participações ou atos da jovem de 20 anos em eventos semelhantes.
O que imaginavam os que pretendiam “conhecer melhor a história” da candidata era que, se acusada concretamente de participação numa ação violenta, haveria material de combustão suficiente para abalar sua campanha eleitoral. Numa sociedade pronta para ser comovida por campanhas conservadoras incentivadas por parte da grande mídia, é fácil imaginar a repercussão que teria uma manchete do tipo “Dilma participou de assalto que ocasionou morte de inocente”.
Esta manchete – ou similares – nunca chegou à televisão ou aos grandes jornais, embora tenha frequentado à exaustão a internet. Durante a campanha de José Serra, porém, cansamos de assistir a insinuação: “no meu currículo não há manchas, nem zonas obscuras”, ele dizia sempre, a deixar claro que o candidato “do bem” não tinha nada a esconder, mas a “do mal” deveria ter.
Às vésperas da realização do segundo turno, a liminar da Folha de S.Paulo endereçada ao STF gerou uma onda de rumores nas campanhas. Esperava-se que uma “grande novidade” vinda da abertura do processo causasse comoção suficiente para abalar a trajetória da candidata rumo à vitória nas urnas. A sabedoria da ministra Cármem Lúcia, porém, tirou do Supremo a responsabilidade pela decisão e inviabilizou o final da história antes do pleito. (Clique aqui para ler o que publicamos então)
Dentro de alguns dias o caso terá seu desfecho. Todo o Brasil saberá o que está escrito na ficha real de Dilma Vana Rousseff guardada no cofre militar até aqui.
Saberemos finalmente se a presidenta eleita – não diplomada ainda -, no auge dos seus 20 anos, participou ou não de assaltos, sequestros e atentados. Conheceremos também como foi seu comportamento nas masmorras.
Estará tudo lá, escrito, bonitinho, preto no branco, apenas marcado pela ação do tempo. Com carimbos, assinaturas, rubricas e protocolos. Também pareceres, fotos, recortes de jornais, talvez. Tudo com as devidas chancelas de Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.
Os jornalistas da Folha devorarão avidamente as informações do processo e nos brindarão com um resumo delas. Outros órgãos de imprensa, como já fizeram no dia de hoje com a decisão do STM, repercutirão tudo.
Aí então, uma parte dos brasileiros dirá: nada me toca, continuo a admirar a coragem que a presidenta tinha aos seus 20 anos. Se ela de fato participou de algum ato violento, seus algozes já a fizeram pagar por isso. Mesmo assim, não reconheço nenhuma credibilidade nos arquivos infectos e nos processos manchados de sangue dos generais que escreveram o pior momento da nossa história. E credibilidade é matéria prima da imprensa.
Porém, haverá quem vá dizer: não avisamos? Vocês elegeram uma terrorista.
O efeito que este debate irá causar ninguém sabe medir. È fato, porém, que a Folha comemora hoje a “vitória de toda a sociedade”. Enquanto ela comemora, muitos arquivos e processos continuam fechados. E torturadores e seus mandantes caminham impunes por nossas ruas. Ou morrem de velhice.

extraído de CartaCapital

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O retrato de um país feliz


A incontestável vitória de Dilma Rousseff tem um significado especial. Ela simboliza a ascensão social e econômica de milhões de brasileiros

Por Leonardo Attuch
Para além da continuidade nas políticas econômica e social, Leonardo Attuch, redator-chefe da Dinheiro, aposta em uma ênfase maior às mulheres na composição do novo governo. 
Confira a análise em vídeo abaixo:


Dia D. O 31 de outubro de 2010 será lembrado para sempre como o Dia Dilma. O dia em que o Brasil consagrou, pela primeira vez em sua história, uma mulher como presidente da República. Dilma Vana Rousseff, uma mineira de 62 anos, chega ao poder pelos votos de 55,7 milhões de brasileiros, 12 milhões a mais do que seu oponente José Serra. 
Um resultado convincente, incontestável e que revela um significado óbvio: a presidente eleita é o retrato de um Brasil feliz e que pretende seguir no mesmo rumo, com crescimento econômico e inclusão social. 
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"Como a primeira mulher a chegar à Presidência da República, eu não tenho o direito de errar.
E eu não vou errar"
De um país onde mais de 40 milhões de pessoas – praticamente uma Espanha – foram incorporadas à classe média e ao mercado de consumo nos últimos anos. E onde a erradicação da pobreza extrema já parece ser uma meta alcançável num horizonte relativamente curto.“Eu pretendo honrar a confiança dos brasileiros”, disse Dilma Rousseff, na noite do domingo 31, ao saber do resultado final. “Vou dar tudo de mim e um pouco mais.”
Chegar à Presidência da República de qualquer nação relevante nunca é fruto de uma escolha pessoal – é quase sempre destino. Da militância estudantil ao Palácio do Planalto, Dilma construiu uma trajetória única e absolutamente original. Combateu a ditadura militar, foi presa, incorporou-se à vida política no Rio Grande do Sul, enfrentou o apagão elétrico como secretária de Minas e Energia do governo gaúcho e foi descoberta pelo PT às vésperas da posse de Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro mandato. 
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Rumo mantido: Lula cumprimenta sua candidata pela eleição. "Valeu, Dilma", disse ele 
Trabalhadora, firme e disciplinada, ela foi aos poucos conquistando seu espaço em Brasília e soube se impor sobre outros nomes do PT que antes pareciam mais fortes. Ao longo da campanha, mostrou fibra, determinação e transmitiu mais credibilidade e sinceridade ao eleitor. 
Ganhou não apenas pela popularidade transferida a ela pelo presidente Lula, mas também por seus próprios méritos. Um deles, o de contribuir, com a coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento, para o novo ciclo de desenvolvimento que se inicia no Brasil. 
Afinal, os ventos que a levam ao Palácio do Planalto são, sobretudo, econômicos. A média de crescimento do PIB nos oito anos do governo Lula foi de 4%, o que foi suficiente para gerar mais de 14,5 milhões de empregos com carteira assinada. São brasileiros que, como a grande maioria da população, progrediram nos últimos anos. 
“O ganho não foi apenas econômico, mas essencialmente de autoestima”, avalia o professor e ex-ministro Delfim Netto. “Perdemos definitivamente o nosso complexo de vira-latas.” 
No campo social, a curva de redução da pobreza extrema, que já vinha caindo desde 1994, com a implantação do Plano Real, acentuou-se nos últimos anos. Eram 26,6% da população em 2002 e hoje são 15,5%. E a renda média do trabalho também avançou de forma mais rápida. 
No início do governo Lula, um trabalhador que vivesse com o salário mínimo necessitava de 175 horas de trabalho para adquirir uma cesta básica – em 2009, eram necessárias 109 horas. 
“Com mais renda, milhões de brasileiros entraram no mercado e foram ao varejo para ter acesso a bens de consumo indispensáveis”, avalia a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, uma das maiores redes varejistas do País.
Aos ganhos de renda, somou-se uma oferta de financiamentos jamais vista no País. No início do governo Lula, o estoque das operações de crédito era de R$ 400 bilhões – hoje, o volume é de R$ 1,6 trilhão. 
Esse R$ 1,2 trilhão a mais fez com que o País se transformasse no quarto maior mercado de veículos do mundo e experimentasse uma revolução no mercado imobiliário. O Brasil, nas palavras de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, passou a colher os “dividendos da estabilidade”.
Dilma herdará, portanto, um país no auge de saúde econômica e financeira no dia 1º de janeiro de 2011, quando receber a faixa presidencial das mãos de Luiz Inácio Lula da Silva. 
A média das estimativas de mercado aponta uma tendência de crescimento de 5,5% nos próximos quatro anos. A inflação deve permanecer dentro da meta de 4,5%, e a dívida interna pode cair para pouco mais de 30% do PIB.
São números alvissareiros. Pela primeira vez, o Brasil elege uma liderança que chega ao poder sem grandes incêndios econômicos a apagar. Dilma, portanto, terá a oportunidade de fazer com que o Brasil avance em áreas como educação, saúde, segurança e infraestrutura. E, neste último campo, o Brasil não tem escolha. 
Gerar mais energia e modernizar estradas, portos e aeroportos será essencial não apenas para garantir a continuidade do crescimento, como também para preparar o Brasil para dois eventos de porte global: a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. A vantagem é que, apesar do desafio, o Brasil tem os recursos necessários para superá-lo.
Já como presidente eleita, Dilma Rousseff emitiu vários sinais importantes – e todos eles na direção correta. O primeiro foi a escolha do ex-ministro Antônio Palocci como seu braço direito. Palocci será sempre uma âncora relevante não apenas na economia, mas também na articulação política. 
No tocante à equipe, há também indícios de que os dois timoneiros da economia, Guido Mantega e Henrique Meirelles, poderão continuar nos postos que ocupam. E Dilma também falou sobre os primeiros desafios, como o de enfrentar a guerra cambial antes mesmo da posse – ela será convidada de honra da próxima reunião do G20, em Seul, na Coreia do Sul, nos dias 11 e 12 de novembro. 
Por fim, Dilma também sinalizou que fará um governo de políticas afirmativas em relação às mulheres, ajudando a construir um país em que todos tenham oportunidades iguais. Sim, Dilma, a mulher também pode. Sim, Dilma, você pode!
Especial - A presidente Dilma
extraído da Revista IstoÉ