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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Começou uma nova Guerra Fria. Que alívio!

2/4/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Considerada a relativa calmaria que parece configurar-se na Ucrânia, o momento parece propício para examinar o impacto que os dramáticos desenvolvimentos naquele país tiveram sobre o cenário político interno da Rússia e o que esse impacto, por sua vez, pode significar para a (des)ordem internacional. Para isso, gostaria de começar por um breve resumo de uma tese que já mencionei antes.

Preparando a parte russa do palco

Primeiro, uma lista itemizada dos tópicos que já se discutiram nesse blog:  

1. Não há real oposição parlamentar na Rússia. Mas, não, não, não porque “Putin é um ditador”, nem porque “a Rússia não é uma democracia”, mas, sim, simplesmente, porque Putin manobrou brilhantemente ou para cooptar ou para cortar as garras de qualquer oposição. Como? Usou bem sua autoridade pessoal e carisma para promover uma agenda à qual os demais partidos não se poderiam opor abertamente. Formalmente, continuam a existir os partidos de oposição, é claro. Mas absolutamente não têm qualquer credibilidade. É situação que pode mudar, com a nova Lei dos Partidos Políticos.

2. A única oposição “dura” a Putin, na Rússia moderna, são os vários indivíduos abertamente pró-EUA (Nemtov, Novodvorskaia, etc.) e movimentos e partidos associados a eles. Representam (no máximo!) 5% da população.

3. Putin aplicou “movimento de judô” nos reais opositores (adiante, mais sobre isso), usando a “Constituição (fortemente) presidencial” aprovada em 1993, para, basicamente, concentrar todos os poderes na presidência.

4. A “oposição” *real* a Putin e ao seu projeto só existe *dentro* do Kremlin, no partido “Rússia Unida” e em algumas figuras influentes. Chamo essa oposição real de “Atlanticistas Integracionistas” (AI), porque o objetivo-chave deles é integrar a Rússia à estrutura mundial anglo-sionista de poder.

5. A base *real* de poder de Putin está no povo russo que o apoia diretamente e pessoalmente, na Frente de Todos os Povos Russos, e no grupo que chamo de “Eurasianos Soberanistas” (ES), cujo objetivo básico é desenvolver uma nova ordem mundial, multipolar, para livrar-se do atual sistema financeiro internacional anglo-sionista; reorientar a maior parte possível da antiga URSS na direção de integrar-se com o Ocidente; e desenvolver o norte da Rússia.

Se quisesse simplificar ainda mais as coisas, poderia dizer que em 1999 os Atlanticistas Integracionistas (AI) e os Eurasianos Soberanistas (ES) uniram-se para levar Putin ao poder, substituindo Ieltsin. Os AI (em termos genéricos, representam os interesses do big Money & big business) queriam burocrata mais cinzento e obscuro, como Putin (era o que eles supunham), que assegurasse o continuísmo e não sacudisse demais o bote depois da partida de Ieltsin. Os Eurasianos Soberanistas (em termos gerais, representantes dos interesses de certa elite da antiga KGB, especialmente seu Primeiro Diretorado-Comando) e o próprio Putin, usaram brilhantemente o poder dado a Putin pela Constituição de 1993 (aprovada no governo de Ieltsin e dos Atlanticistas Integracionistas!), para mudar, lenta mais firmemente, a rota da Rússia: de total submissão e colonização ao/pelos EUA, para um processo que Putin e seus apoiadores chamam de  “soberanização”, i.e., de libertação nacional.

O 1o. Ministro, Dmitry Medvedev e o Presidente Vladmir Putin nos jardins do Kremlin
A partir disso, seguiu-se longa disputa de queda-de-braço, sobretudo nos bastidores, mas com eclosões de tempos em tempos que se veem do lado de fora, como a trombada entre Putin e Medvedev no caso do Irã e da Líbia ou a demissão de Kudrin por Medvedev (os dois foram empurrados para uma mesma rota de colisão, por Putin, claro). Como derradeira super simplificação, posso dizer que Medvedev representa os Atlanticistas Integracionistas; e Putin, os Eurasianos Soberanistas.

Tudo aqui está muito supersimplificado, para não alongar demais o postado. Todos encontrarão informação um pouco mais detalhada em outros postados indicados nas notas, inclusive nos comentários dos leitores do blog.

Preparando a parte ucraniana do palco

Antes deste último inverno, a maior diferença entre Rússia e Ucrânia era que na Rússia, Putin basicamente destruíra a velha oligarquia que EUA e Israel controlavam, e a substituiu por outra, que ou apoiava o Kremlin ou mantinha-se neutra. A mensagem de Putin para a oligarquia russa foi simples: “podem ser ricos, mas não comprometam o bem-estar da nação russa nem tentem intrometer-se na luta política”. Para os que não entendam por que Putin não eliminou a oligarquia russa como grupo, tenho de repetir que TUDO que Putin fez desde 1999 até agora, sempre foi numa relação de acordos e concessões entre os seus Eurasianos Soberanistas e os ainda muito poderosos Atlanticistas Integracionistas. Putin de modo algum poderia desafiar diretamente esse grupo muito poderoso, muito rico, muito bem relacionado; então, teve de andar devagar e com cuidado, passo a passo.

Na Ucrânia, bem diferente disso, os oligarcas consumaram o que eu chamaria de “Sonho de Khodorkovsky”: compraram basicamente tudo, toda a economia, toda a imprensa-empresa de massa, todo o Parlamento e, claro, também a presidência. Ao longo dos últimos 22 anos, a Ucrânia viveu basicamente escravizada por vários oligarcas que fecharam negócio bem simples com o ocidente: vocês nos apoiam e nós apoiamos vocês.

Resultado disso, os líderes ocidentais e a imprensa-empresa “não perceberam” que todos os políticos ucranianos são corruptos até a medula, inclusive Yanukovich e Timoshenko; que – diferente da Rússia, e ao contrário do que diz a propaganda anglo-sionista – as desavenças políticas na Ucrânia foram muitas vezes decididas por assassinatos encomendados; que a plutocracia ucraniana estava, literalmente, saqueando toda a riqueza da Ucrânia (“toda”, aí, significa literalmente tudo). Até que a muitíssimo rica Ucrânia ficou miseravelmente pobre e sem recursos e riqueza para pilhar, e a crise tornou-se visível, e todos viram.

Além da pilhagem de recursos e riqueza, outra grande “realização” dos oligarcas ucranianos foi a total subordinação do estado e de seus instrumentos às necessidades dos oligarcas: Para eles, o próprio estado tornou-se instrumento de poder e influência. Por exemplo, o serviço de segurança ucraniano SBU (ex-KGB) passou todo o tempo e consumiu todos os seus recursos, envolvidos nas lutas de poder entre vários oligarcas e suas bases de poder. Resultado disso, o SBU, em 22 anos, não capturou nenhum espião estrangeiro! Para piorar, o SBU foi comandado, de fato, a partir da base local da CIA-EUA. Essa total destruição do próprio aparelho do estado teve, ela mesma, papel chave nos eventos desse inverno e ainda é fator central na situação em campo: para todos os propósitos práticos, não existe “estado ucraniano”.

Os euroburocratas e o Tio Sam entram na dança

Banderastão, venha com mamãe... 
Foi nesse quadro de colapso total da Ucrânia como estado e como nação, que a União Europeia decidiu entrar com sua jogada: ofereceu à Ucrânia uma associação com a União Europeia. Tio Sam amou a ideia, especialmente porque incluía um capítulo político para conduzir a política externa e de segurança da Ucrânia pela pauta da União Europeia. Essa ideia de uma Ucrânia comandada pela União Europeia também tinha grande apelo aos olhos dos EUA, que acreditavam que a Ucrânia seria chave para as sempre pressupostas ambições imperiais da Rússia. Além do mais, a Casa Branca sabia que, se a Ucrânia fosse governada pela União Europeia, e a União Europeia governada pelos EUA (como sempre foi), então a Ucrânia seria governada pelos EUA. E o ocidente pôs-se a balançar uma grande cenoura no nariz do povo ucraniano: “façam uma escolha civilizacional” e unam-se à União Europeia e fiquem ricos, saudáveis e felizes. Quanto à Rússia, nada tem a opinar: a Ucrânia é estado soberano”.

Para milhões de ucranianos empobrecidos e explorados, foi como sonho que se realiza: não apenas se tornariam milagrosamente ricos e felizes como supõe-se que os europeus sejam (só na propaganda, mas... xáprálá), como, além disso, afinal se livrariam da maldita gangue de corruptos que estavam no poder. E os oligarcas ucranianos também gostaram muito da ideia: poderiam continuar a explorar a Ucrânia e seu povo, desde que se posicionassem contra a Rússia; para eles nem foi difícil, porque os oligarcas ucranianos têm medo pânico de Putin e muito mais, sim, da ideia de um “Putin ucraniano”.

A grande explosão

Há um ditado que diz que se você está com a cabeça enterrada na areia, está com o traseiro ao vento e, de fato, a realidade voltou para morder o traseiro dos ucranianos numa estranha vingança: o país estava quebrado, arruinado, a apenas duas semanas de ter de declarar um calote, e o único lugar onde poderiam encontrar dinheiro que evitasse o colapso final era a Rússia. Mas os russos impuseram uma condição para ajudá-los: nada de associarem-se com a União Europeia, porque a Rússia não podia ter um livre mercado com a Ucrânia ao mesmo tempo em que a Ucrânia abrisse seu mercado aos bens e serviços da União Europeia (não foi nenhum “plano maquiavélico” urdido por Putin, mas simples e óbvia necessidade, compreensível por qualquer um que tenha tido nota 5 em qualquer curso de “Economia 1”). Nesse ponto, Yanukovich fez seu giro repentino de 180º, que sinceramente confundiu muitos ucranianos e pediu socorro a Moscou. E abriram-se as portas do inferno: ucranianos ultrajados tomaram as ruas, querendo saber por que lhe fora negado seu sonho de prosperidade. Os EUA também entraram em pânico – se permitissem que a Rússia salvasse a Ucrânia, a Rússia fatalmente controlaria o país: “Se você paga, você manda” – ensina a lógica norte-americana.

Stepan Bandera
Então, os EUA entraram com sua maior arma: os “Talibã ucranianos”, também conhecidos como “Setor Direita” (Pravy Sektor), Partido Liberdade (Svoboda, ex-Partido Social-Nacionalista) e suas falanges de bandidos neonazistas. O surgimento repentino de Banderistas e outros neonazistas assustaram tanto os falantes de russo que, enquanto os doidos do novo regime revolucionários estavam ocupadíssimos proibindo o idioma russo e descriminalizando a propaganda nazista, a Crimeia separou-se do restante da Ucrânia, no momento em que a Ucrânia entrou num período de completo caos e nenhuma lei.

Todos sabemos o que aconteceu a partir daí e não é preciso repetir. Podemos agora considerar os mesmos eventos do ponto de vista da política interna da Rússia e o seu provável impacto global.

A visão de Moscou

Sergei Mironov
A primeira coisa a dizer aqui é que a popularidade de Putin alcançou novos píncaros: está hoje em 71,6% e, isso, apesar de ter havido poucos progressos no front anticorrupção, progresso zero na muito necessária reforma do sistema judicial, e com a economia russa entrando em tempos difíceis. Mesmo assim, apesar dos muitos problemas ainda não resolvidos que a Rússia enfrenta – Putin é hoje homem impossível de atacar, dado que se posicionou como o presidente que salvou a Crimeia e, é possível, até a Rússia (adiante, mais sobre isso).

O segundo efeito dramático dos eventos na Ucrânia é que polarizaram ainda mais a sociedade russa. Não estou dizendo que seja justo, mas o fato é que hoje os políticos russos têm de escolher. Têm de se posicionar:

1) ou são verdadeiros patriotas russos que apoiam Putin, a reintegração da Crimeia, a política russa de defender o país contra o ocidente,

2)  ou alinham-se com os “liberais” russos, que são russofóbicos, comprados e pagos pelos EUA, nada além de uma 5ª coluna (expressão que Putin já usou), pró-capitalistas, pró-OTAN e até pró-nazistas (lembrem que, agora, o ocidente já está declaradamente apoiando os nazistas na Ucrânia!).

Alexei Navalnyi
Desnecessário dizer, todos os políticos russos estão se atropelando uns os outros para mostrar que pertencem, firmemente, ao Grupo 1, acima. Até Sergei Mironov, presidente do Partido “Só Rússia” e último líder da oposição “real” que restava no Parlamento, já assumiu a liderança da ajuda à Crimeia (o que lhe valeu aparecer incluído na lista de sanções dos EUA e União Europeia). Os que não fizeram o mesmo são cachorro morto.

O mais confiável de todos, Alexei Navalnyi, o único líder de oposição não associado ao regime de Ieltsin dos anos 1990s, escreveu artigo no NYT intitulado Como castigar Putin, no qual chega a oferecer uma lista de nomes que os EUA devem punir. No atual clima político na Rússia é praticamente suicídio político e a carreira política de Navalnyi está acabada. É provável que emigre para Londres ou para os EUA.

Mas o maior resultado da crise na Ucrânia foi ter posto Rússia e EUA em rota aberta de colisão. Vistos os eventos do ponto de vista da Rússia, eis o que o ocidente fez:

1)   organizou um golpe armado ilegal;
2)   derrubou um governo legítimo (embora corrupto);
3)   apoiou neonazistas;
4)   pôs suas políticas anti-Rússia acima dos valores democráticos;
5)   pôs suas políticas anti-Rússia acima do direito à autodeterminação;
6)   recusou-se a reconhecer o desejo do povo russo na Crimeia;
7)   recusou-se a reconhecer o desejo dos falantes de russo na Ucrânia;
8)   puniu a Rússia com sanções (só simbólicas, porque não pôde fazer mais);
9)   só não interveio militarmente porque se acovardou ante a força militar russa;
10) ativou pesadamente o mundo, na ONU, contra a Rússia.

Sergey Glazyev
Nesse quadro – que chance têm os Atlanticistas Integracionistas de obter qualquer apoio para suas políticas? Claramente: nenhuma.

Não só isso, mas mais que isso, as sanções usadas pelo ocidente permitiram a Putin fazer o que jamais antes conseguira: assustar os russos e espantá-los para bem longe dos bancos ocidentais (ou correm para as off-shores ou para os bancos russos); criar um sistema russo de tipo SWIFT, de pagamento interbancário; facilitar os esforços para exportar mais gás para a China e o resto da Ásia; diminuir a participação dos russos em corpos nos quais os EUA mandam, como o G8 ou a OTAN; forçar a Rússia a deslocar mais capacidades militares, e mais poderosas, para as fronteiras ocidentais (pôr Iskanders em Kaliningrad, Tu-22M3s na Crimeia); reduzir o turismo russo para o exterior e direcioná-lo para dentro da própria Rússia. E afinal, mas não menos importante, reduzir ainda mais o uso do dólar norte-americano pelos russos. Tudo isso é como sonho realizado para economistas como Glazyev ou políticos como Rogozin, que muito trabalharam a favor dessas medidas, há muitos anos, mas cujos conselhos Putin teve de ignorar, para não se expor ao contra-ataque dos Atlanticistas Integracionistas. Agora, há conversas ainda mais sérias que essas, na Rússia, sobre o país retirar-se de muitos tratados militares chaves (estratégicos nucleares, estratégicos convencionais, de supervisão nuclear, etc.) ou até da Organização Mundial do Comércio (pouco provável).

Sistema de lançamento de mísseis 9K720 Iskander
Agora se tornou extremamente fácil para Putin demitir qualquer um, sob o argumento de que alguém não esteja efetivamente implementando as decisões do presidente. Agora, todos sabem que todo e qualquer Atlanticista Integracionista está exposto ao risco de ser sumariamente descartado. Na verdade, é preciso dizer que BaraCk Obama ajudou Putin imensamente e que, graças à política absolutamente ensandecida dos EUA na Ucrânia, a posição dos Atlanticistas Integracionistas (em geral, pró-EUA) foi destruída e assim permanecerá por muitos e muitos anos.

Tupolev Tu-22M3 Beltyukov
Piadinha contada pela primeira vez na TV russa, pelo (é quase inacreditável, mas é verdade) porta-voz da Comissão Russa de Investigação (uma espécie de “FBI russo”, pode-se dizer), personagem não conhecido pelo senso de humor, está hoje, já, nas ruas. É a seguinte:

Barack Obama boicotou os Jogos de Sochi e não apareceu – e os russos saímos de lá cobertos de medalhas, nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Obrigado, camarada Obama!

Obama depois apoiou muito os extremistas da Junta em Kiev – e a Crimeia voltou correndo para nós. Obrigado, Camarada Obama!

Obama impôs sanções contra os malditos oligarcas – e o dinheiro deles voltou, do Ocidente, onde estava, para a Rússia. Obrigado, Camarada Obama!

Agora, quer dizer... Se pudermos pedir mais uma coisinha... Camarada Obama! Consiga para nós a Copa do Mundo, aquela, a do Brasil, plízzz... [pano rápido]

Piadas à parte, há muita verdade nessa piada: quanto mais os EUA tentam maximizar as apostas para esmagar a Rússia, mais forte a Rússia fica, e mais forte fica Putin, na Rússia.

Quanto aos poucos fracos ativistas pró-EUA deixados na Rússia, a situação deles é desesperadora: ao longo de anos tiveram de reagir contra acusações de terem sido parceiros nos horrores do regime de Ieltsin nos anos 1990s, e agora, a esse legado terrível, têm de somar o peso das acusações de serem “pró-Banderastão”. Sinceramente: que tratem de fazer as malas e partir para o ocidente. Na Rússia, estão acabados.

Barack Obama, o Rei do Banderastão

O que significa isso, para o resto do mundo?

Várias vezes escrevi sobre a luta oculta entre os Atlanticistas Integracionistas e os Eurasianos Soberanistas como luta “interna” ou “por trás das cortinas”, o que era verdade, no geral, até agora.

Os eventos na Ucrânia mudaram isso, e o tipo de questões às quais os Eurasianos Soberanistas até agora só aludiam em termos mais ou menos oblíquos, já são abertamente discutidas pela TV russa: como coexistir com um ocidente histericamente anti-Rússia e abertamente pró-nazistas? Como reduzir a participação russa no – e a dependência russa do – sistema financeiro internacional controlado por anglo-sionistas? Que tipo de medidas tomar para assegurar que EUA e OTAN jamais tenham opção militar viável? Como lidar com a “5a. Coluna interna” dentro da Rússia, para evitar uma “Maidan em Moscou”? Como lidar com o tipo de organizações subversivas patrocinadas pelos EUA (como NED, Carnegie, etc.) que ainda operam na Rússia? Como garantir que nenhum governo pervertidamente anti-Rússia sobreviva economicamente e socialmente em Kiev? Etc.

Pessoalmente, acho que o parecer Nuland deva ser aplicado, não à União Europeia, mas aos EUA. E isso significa uma nova Guerra Fria?

Ah, sim. Podem apostar que sim, significa!

Victoria Nuland
Mas é preciso dizer já, imediatamente, que essa nova Guerra Fria é completamente, inteiramente, 100%, invenção dos EUA e o que a Rússia fez foi, apenas, aceitar a nova realidade e operar dentro dela. Nem Putin nem ninguém na Rússia jamais quis essa nova Guerra Fria. Ela lhes foi unilateralmente imposta pelos EUA e suas colônias na União Europeia já há 20 anos ou mais.

Pensem bem: a verdadeira principal razão pela qual EUA e União Europeia não estão impondo nenhuma sanção realmente significativa à Rússia é que já fizeram isso no passado e, hoje, já não há o que impor além de sanções que ferirão o ocidente, tanto quanto e provavelmente mais, que a Rússia. O mesmo vale para a chamada “imagem internacional da Rússia”. Alguém esqueceu os ditos idiotas e canalhas sistematicamente repetidos e promovidos como mantras pela imprensa-empresa de propaganda ocidental sobre a Rússia antes da crise na Ucrânia? Listei algumas, de meu artigo anterior sobre o tema:

– Berezovsky apresentado como empresário “processado”
– Politkovskaya “assassinada pelos assassinos da KGB”
– Khodorkovsky na cadeia, por amar a “liberdade”
– A “agressão” da Rússia contra a Geórgia
– As guerras “genocidas” dos russos contra o povo checheno
– “Pussy Riot” [Agito das Bucetas] como “prisioneiras de consciência
– Litvinenko “assassinado por Putin”
– Homossexuais russos “perseguidos” e “maltratados” pelo estado
– Magnitsky e, na sequência, a “Lei Magnitsky”
– Snowden como “traidor escondido na Rússia”
– “Eleições roubadas” para a Duma e para a presidência
– A “Revolução Branca” na praça Bolotnaya
– O “novo Sakharov” (Alexei Navalnyi)
– O “apoio da Rússia” a “Assad, o “açougueiro (químico) de Damasco”
– A constante “intervenção dos russos” em assuntos da Ucrânia
– O “total controle”, pelo Kremlin, sobre a mídia russa

Diria que a lista já está longa que chegue, e que ninguém na Rússia precisa se preocupar, porque nada que o Kremlin venha a fazer doravante poderá ser pior que isso. E em vez de fazerem guerra à Rússia, fizeram guerra ao Iraque, ao Afeganistão, ao Paquistão, à Bósnia, à Croácia, ao Kosovo, à Líbia, à Síria – os EUA inflaram o mais que puderam suas políticas anti-Rússia, e fato é que não obtiveram grande coisa.

Como se diz de pequena porção de mal, insuficiente para realmente ferir você? Nietzsche diria que o que não me destrói me fortalece. A medicina moderna fala de imunização. As palavras não importam aqui, só o fenômeno: EUA e União Europeia infligiram dor considerável à Rússia, sim, mas não suficiente para quebrá-la, e por consequência direta disso, a Rússia recebeu poderosa dose de “imunização anti-anglo-sionista, que a fará mais forte do que antes.

E essa é boa notícia para todos.

Para melhor ou para pior, a Rússia é objetivamente líder incontestável da resistência mundial contra o Império Anglo-sionista. Sim, a economia chinesa é muito maior, mas o exército chinesa não é, e a China depende crucialmente da Rússia para energia, armas e alta tecnologia. Creio firmemente que, inevitavelmente, a China assumirá a liderança na luta contra o Império Anglo-sionista, mas não é para já: a China precisa de mais tempo.

O Irã é, definitivamente, o país que há mais tempo, foi o primeiro, a abertamente desafiar os anglo-sionistas (além de Cuba e da República Popular Democrática da Coreia, mas são países muito fracos), e as ambições do Irã são primariamente regionais (o que, sim, é sinal de sabedoria da liderança iraniana).

Hassan Nasrallah
Quanto ao Hezbollah, é, na minha avaliação, o líder moral da Resistência mundial, não só por seus feitos militares realmente fenomenais, mas, principalmente, pela disposição para lutar completamente sozinhos, se necessário. Mas ser um farol moral não implica ser capaz de desafiar globalmente o Império. Rússia, China, Irã e o  Hezbollah são o que eu chamaria, parafraseando Dábliu Bush, o “Eixo da Resistência ao Império”, e a Rússia tem o papel chave nessa forte, embora informal, aliança.

A outra parte do mundo onde “isso” está acontecendo é, é claro, a América Latina, mas a recente votação na Assembleia Geral da ONU mostrou que Bolívia, Venezuela, Nicarágua e Cuba são os únicos países latino-americanos que ousaram desafiar abertamente a hegemonia dos EUA (e, na Venezuela, hoje, o regime luta pela própria sobrevivência). Vê-se que, embora a América Latina tenha enorme potencial, ele está longe de realizar-se, pelo menos nesse ponto do tempo.

Conclusão

Uma Nova Guerra Fria começou a ser construída no minuto em que a Guerra Fria de antes foi oficialmente encerrada. Assim, só se pode receber como bem vinda a nova realidade introduzida pela crise na Ucrânia: agora, a Rússia aceitou abertamente o desafio dos EUA, e todas as encenações de alguma espécie de parceria estratégica EUA-Rússia são passado remoto.

Quanto à União Europeia, teve papel tão vergonhoso e desgraçado, que será tratada pela Rússia como merece ser tratada: como protetorado submisso dos EUA, sem políticas nem ideias próprias. Agora, aquela falsa “parceria” foi afinal desmascarada, e podemos esperar uma Rússia mais assertiva, se não confrontacional, no cenário internacional.

Evidentemente, não estou dizendo que Putin pôr-se-á a bater com o próprio sapato na bancada da ONU, como se diz que Krushchev teria feito, nem Putin ameaça “enterrar” o ocidente. Putin, Lavrov e Churkin são estadistas e diplomatas e manter-se-ão impecavelmente elegantes. Mas podem esperar muitos mais votos “não” na ONU e muitos mais “lamentamos, mas, não” em questões bilaterais.

O grande beneficiário dessa nova Guerra Fria será o Irã, é claro, mas também a China. Não apenas Irã e China provavelmente obterão as armas de que tanto precisam (S-300 e Su-35 respectivamente). A China também obterá excelentes bons negócios nos preços da energia russa (os chineses são suficientemente espertos para não tentar superexplorar essa nova situação; farão tudo “na medida certa”). Síria e Hezbollah terão mais dinheiro, mais armas e mais apoio político. Países que eventualmente aspirem a tornar-se membros do “Eixo da Resistência contra o Império” terão mais ajuda financeira e política (Cuba, Nicarágua, Bolívia e, especialmente, a Venezuela precisam de toda a ajuda que possam obter); e o mesmo se diga de países mais ou menos pragmáticos que não se venderam completamente aos EUA (os países BRICS, claro, mas também países menores como Argentina, Iraque, Afeganistão, Paquistão e todos os demais que se abstiveram naquela infame votação na ONU, recentemente). Ninguém tampouco deve subestimar a importância da assistência que a China pode dar a esses países ou todos os benefícios que esses países podem obter da cooperação com os demais países BRICS.

Presidentes dos BRICS (Brasil, Índia, Rússia, China e Africa do Sul (2014)
Quanto à União Europeia, terá o gás que comprar e pagar, e terá de lidar com as ondas de pós-choque econômico de seu envolvimento na crise ucraniana: terá de manter à tona a economia ucraniana, com o queixo acima d’água, pelo menos, e terá de lidar com o inevitável fluxo de refugiados econômicos; além de caber-lhe o duvidoso prazer de resolver o problema dos “Talibã ucranianos”, hoje soltos sem rédea no Banderastão lá deles. A União Europeia terá de lidar com tudo isso sob o alto patrocínio de EUA que mal consegue disfarçar o desprezo pela Europa, ou que, como no caso Nuland, já nem se dá ao trabalho de disfarçar coisa alguma.

O Tio Sam – que queima sempre tudo em que põe a mão, terá de fazer exatamente isso no seu Banderastão: convertê-lo num Kosovo maior – grande dor para seus vizinhos, e quintal que a máquina militar norte-americana poderá usar a seu bel prazer. Mas, diferente do Kosovo, a Ucrânia fatalmente se partirá em mil pedaços, de um modo ou de outro, embora a ficção de estado funcional possa ser mantida por longo tempo. Especialmente se houver consenso entre as plutocracias que governam o ocidente, de que a forma sempre conta mais que a substância, enquanto se mantiver a aparência de um estado ucraniano unitário, tudo bem.

Francamente, e sem intenção de ofender nenhum ucraniano nacionalista que me leia, o Tio Sam tem peixe muito maior na frigideira, e não se ocupará de problemas de um “Kosovo versão 2” na Europa Central.

As linhas que esbocei acima são, é claro, apenas tendências gerais. Haverá alguns “zigs” e alguns “zags” nesse processo, mas, exceto por algum grande evento imprevisível, esse é, me parece o rumo que as coisas tomarão. Sim, haverá uma eleição presidencial a ser disputada em condições grotescas, um oligarca completamente corrupto como Poroshenko comprará a própria vitória, enquanto os regime de Kiev apoiado pelos EUA e os “Talibã ucranianos” acertam as contas e matam-se entre eles. O mais provável é que a Rússia não intervenha militarmente, a menos que a situação vire loucura absolutamente total. Haverá, mais provavelmente, alguma espécie de acordo EUA-Rússia; e o leste da Ucrânia tentará achar meio de fazer mais dinheiro com a Rússia. A Crimeia viverá um boom econômico sem precedentes, que atrairá muita atenção na falida Ucrânia, que estará desesperada para obter qualquer pequena porção da catarata de financiamentos de que a Crimeia se beneficiará. Como se diz, “dinheiro conversa com dinheiro”.

Quanto a Obama, entrará para a história como o pior presidente dos EUA em todos os tempos. Exceto o seguinte, claro.


The Saker

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O longo (20 anos!) “pas de deux” de Rússia e EUA está chegando ao fim? (2/2)

12/10/2013, The Saker [falcão peregrino], Blog “The Vineyard of the Saker”
Traduzido pelo pessoal da  Vila Vudu



A URSS e os EUA – de volta para o futuro?

É curioso, para os que se lembram da União Soviética do final dos anos 1980s, ver o quanto os EUA sob Obama tornaram-se parecidos à URSS sob Brezhnev: internamente, é caracterizado por um senso geral de desgosto e de alienação das pessoas, acionado pela inegável estagnação de um sistema apodrecido até o âmago. Um estado militar e policial extensivo, com uniformes por todos os cantos, enquanto a cada dia mais e mais pessoas são empurradas para um estado de pobreza abjeta. Uma máquina governamental de propaganda que, como no 1984 de Orwell, existe para propagandear sucessos, quando todos sabem que só fazem publicar e divulgar mentiras.

Externamente, os EUA espalharam-se por todo o mundo, e em toda parte são ou odiados ou ridicularizados. Exatamente como nos dias dos sovietes, os líderes dos EUA vivem em visível estado de medo, com medo do próprio povo, a ponto de se sentirem forçados a se autoprotegerem atrás de caríssima rede global de espiões e propagandistas, todos eles também em estado de terror permanente ante qualquer opinião divergente e para os quais o pior inimigo é o seu próprio povo.

George Orwell
Acrescentem a isso um sistema político que, longe de cooptar os melhores cidadãos, aliena-os cada vez mais profundamente, ao mesmo tempo em que promove, para as posições de poder, os mais profundamente corruptos e imorais. Um complexo industrial-prisional e outro complexo industrial-militar, ambos em pleno crescimento, mas que o país não tem, simplesmente, dinheiro para continuar a sustentar. Uma infraestrutura pública em ruínas, combinada a um sistema completamente disfuncional de assistência à saúde, no qual só os ricos e bem relacionados conseguem bom tratamento médico. E, sobretudo, um discurso público terminalmente esclerosado, entupido de clichês ideológicos e absolutamente desconectado da realidade.

Jamais esquecerei as palavras de um embaixador paquistanês na Conferência da ONU Para o Desarmamento, em Genebra, em 1992, o qual, falando a uma assembleia de arrogantes diplomatas ocidentais, disse o seguinte:

Os senhores parecem acreditar que venceram a Guerra Fria. Mas nem consideraram a possibilidade de que o que realmente aconteceu tenha sido, apenas, que as contradições internas do comunismo detonaram aquele comunismo antes de que as contradições internas do capitalismo deem cabo desse capitalismo de vocês?!

Desnecessário dizer que essas palavras proféticas foram saudadas pelo silêncio mais pétreo e foram logo esquecidas.

Pois entendo que o homem acertou em cheio: agora o capitalismo  chegou a uma crise tão profunda como a que afetava a União Soviética no final dos anos 1980s. E há chance-zero de que saiba reformar-se ou, seja como for, modificar o capitalismo que há. A única saída possível é a mudança de regime.

Raízes históricas da russofobia das elites norte-americanas

Tudo isso – dito acima – posto, torna-se de fato muito simples entender por que a Rússia em geral, e Putin em especial, provocam ódio tão amplo, geral e irrestrito aos plutocratas ocidentais: depois de terem-se autoconvencido de que teriam vencido a Guerra Fria, hoje aqueles mesmos plutocratas têm de enfrentar um duplo desapontamento; de um lado veem crescer a Rússia, em plena recuperação; de outro lado veem o declínio econômico e político do ocidente, que parece estar-se convertendo agora em agonia dolorosa e lenta.

Em sua ira amarga e ressentida, os líderes ocidentais sequer percebem que a Rússia nada tem a ver com os atuais problemas do ocidente. De fato, aconteceu exatamente o oposto: o colapso da URSS criou nova demanda por dólares norte-americanos na Europa Oriental e na Rússia, o que deu alguma sobrevida ao sistema econômico internacional puxado pelos EUA (alguns economistas, como Nikolai Starikov, estimam que o colapso da URSS deu cerca de dez anos de vida, a mais, ao dólar norte-americano).

No passado, a Rússia sempre foi arqui-inimiga histórica do Império Britânico. Quanto aos judeus – a Revolução de 1917 trouxe grande esperanças para muitos judeus do leste da Europa, mas tiveram vida curta, a partir do momento em que Stálin derrotou Trotsky e o Partido Comunista foi expurgado de praticamente todos os membros judeus. Mais uma vez, a Rússia teve papel trágico na história dos judeus azquenazes e isso, é claro, deixou marca profunda na visão de mundo dos neoconservadores, os quais são, até hoje, furiosamente russofóbicos.

Stalin (E) e Trotsky (D)
Alguém poderia contra-argumentar que muitos judeus são profundamente gratos ao Exército Soviético, que libertou judeus dos campos de concentração dos nazistas; e pelo fato de a União Soviética ter sido o primeiro país a reconhecer Israel. Mas nesses dois casos a gratidão recai sobre a UNIÃO SOVIÉTICA, não sobre a Rússia, que muitos judeus azquenazes ainda associam a políticas e valores anti-judeus.

Não surpreende, pois que ambos, os “Anglos” e as elites judaicas nos EUA alimentem horror quase instintivo, e muito medo, da Rússia, sobretudo se vista como ressurgente ou antiamericana. De fato, não erram, nessa percepção: a Rússia, sim, está definitivamente, sim, ressurgindo; e a vasta maioria da opinião pública russa é, sim, veementemente antiamericana, pelo menos no sentido em que “EUA” signifique o modelo civilizacional ou o sistema econômico dos EUA.

O sentimento antiamericano na Rússia

O sentimento sobre os EUA passou por mudança dramática, depois da queda da União Soviética. Nos anos 1980s, os EUA não eram apenas “populares”: estavam absolutamente “na moda”. A juventude russa criou vários grupos de rock (alguns dos quais imensamente populares, e populares até hoje, como o grupo DDT de São Petersburgo), roupas e fast food à moda dos EUA eram os sonhos de todos os adolescentes russos, e muitos intelectuais pensavam sinceramente os EUA como “líder do mundo livre”. Evidentemente, a propaganda de estado da URSS sempre desejou apresentar os EUA como país imperialista agressivo, mas o esforço deu em nada: naquele momento a maioria dos russos gostava muito dos EUA. Um dos grupos pop mais populares dos anos 1990s (o Nautilus Pompilius) tinha uma canção (Goodbye America) que dizia (vídeo –som- e letra traduzida a seguir[NTs]):


Adeus EUA, oh
Onde jamais estive,
Adeus para sempre!
Pegue seu banjo
E toque na minha despedida
la-la-la-la-la-la, la-la-la-la-la-la
Seus jeans gastos
Ficaram apertados demais para mim
Nos ensinaram por tempo demais
A amar seus frutos proibidos.

Apesar de algumas exceções a essa regra, acho que, no início dos anos 1990s quase todo o povo russo, especialmente os mais jovens, haviam engolido toda a propaganda norte-americana, isca, anzol e vara. A Rússia, naquele momento era desanimadoramente pró-EUA.

O colapso catastrófico da URSS em 1991 e o apoio total, incondicional que o ocidente deu a Yeltsin e aos seus oligarcas mudou tudo isso. Em vez de tentar ajudar a Rússia, os EUA e o ocidente usaram toda e qualquer ocasião que encontraram para enfraquecer a Rússia no plano externo (envolvendo toda a Europa Oriental na OTAN, apesar de terem prometido que não o fariam). E, internamente, o ocidente apoiou os oligarcas judeus que estavam, literalmente, saqueando para fora da Rússia toda a riqueza russa, como vampiros sugando uma jugular; e o ocidente, simultaneamente, estimulou todas as formas imagináveis de separatismo.

Ao final dos anos 1990s, as palavras “democrata” e “liberal” já eram palavrões. Uma piada do final dos anos 1990 é bom exemplo desse sentimento generalizado:

Um novo professor chega à classe:
– Meu nome é Abram Davidovich, e sou liberal. Agora, cada um de vocês levante-se e se apresente, como eu fiz.
– Meu nome é Masha, e sou liberal.
– Meu nome é Petia, e sou liberal.
– Meu nome é Joãozinho, e sou stalinista.
– Joãozinho! Por que você é stalinista?!
– Minha mamãe é stalinista, meu papai é stalinista, meus amiguinhos são stalinistas e eu também sou stalinista.
– Mas, Joãozinho, se sua mãe fosse puta, seu pai viciado em cocaína, e seus amigos, homossexuais... Você seria o quê?!
– Aí, sim, eu seria liberal.

Observem que, na piada, “liberalismo” e “judeus” já aparecem associados: o nome Abram Davidovich é nome tipicamente judeu. Observem também a inclusão de “homossexuais” entre a puta e o viciado em cocaína, e lembrem dessa piada sempre que avaliarem a típica reação dos russos à campanha anti-Rússia orquestrada por organizações ocidentais de homossexuais.

O efeito político desses sentimentos é bem evidente: nas últimas eleições, nenhum partido político pró-ocidente obteve votos suficientes para eleger sequer um representante ao Parlamento. E, não! Não foi porque Putin tivesse proibido os partidos pró-Ocidente (como vários propagandistas gostam de crer). Há atualmente 57 partidos políticos na Rússia, e alguns poucos são pró-ocidentes. O fato real e inegável é que a porcentagem de russos que manifestam simpatia pelos EUA e pela OTAN/União Europeia não chega a 5%. Pode-se também dizê-lo de outro modo: todos, absolutamente todos os partidos políticos representados no Parlamento russo são profundamente antiamericanos, até o muito moderado “Just Russia”.

Sentimentos anti-Rússia nos EUA?

Se se considera o ininterrupto fogo de artilharia de propaganda anti-Rússia nos veículos da imprensa-empresa ocidental, vale a pena examinar para saber se há ou não sentimentos anti-Rússia no ocidente. É difícil avaliar objetivamente, mas, como nascido na Europa Ocidental e residente por um total de 15 anos nos EUA, posso dizer que sentimentos anti-Rússia no ocidente são raros, praticamente inexistentes. Nos EUA, sempre houve forte sentimento de anticomunismo – que persiste até hoje –, mas, seja lá como for, a maioria dos norte-americanos consegue estabelecer a diferença entre uma ideologia política que eles absolutamente não compreendem (mas detestam, mesmo assim) e o povo que, no passado, esteve associado àquela ideologia.

Os “políticos” norte-americanos, é claro, na expressiva maioria, odeiam a Rússia, mas entre os norte-americanos poucos são os que nutrem sentimentos de oposição ou de temor contra a Rússia ou o povo russo. Para mim, isso se explica por uma combinação de vários fatores.

Em primeiro lugar, dado que cada vez mais pessoas no ocidente vão-se dando conta de que não vivem em democracia, mas numa plutocracia dos 1% mais ricos, todos tendem a ver com olhos mais céticos a propaganda oficial (foi exatamente o que também aconteceu entre os russos, nos anos 1980s). Além disso, cada vez mais e mais pessoas no ocidente opõem-se à ordem imperial plutocrática que as empobrece e desempodera e as converte em servos das corporações; essas pessoas tendem a ser simpáticas à Rússia e a Putin, que “enfrentam os bastardos em Washington”. Mas, num plano mais fundamental, há o fato de que, numa bizarra virada histórica, a Rússia de hoje defende os valores ocidentais de ontem: a lei internacional, o pluralismo, a liberdade de expressão, os direitos sociais, o anti-imperialismo, oposição à intervenção militar contra estados soberanos, rejeição da guerra como meio para resolver disputas, etc..

No caso da guerra na Síria, a posição da Rússia foi absolutamente consistente e coerente, sempre na defesa da lei internacional; essa firmeza impressionou muita gente nos EUA e na Europa, e já se ouvem cada vez mais elogios a Putin, vindos de gente que, antes, nutria contra ele as mais terríveis suspeitas e profundas desconfianças.

A Rússia, é claro, não é uma utopia, nem alguma espécie de sociedade perfeita, longe disso; mas o país tomou a decisão fundamental de tornar-se país *normal*, exatamente o antônimo de ser império global, e qualquer país normal aceita defender os princípios do “ocidente de ontem”, não só a Rússia. De fato, a Rússia é muito não-excepcional, na compreensão pragmática de que defender esses princípios não é questão de algum idealismo simplório, mas um objetivo político firmemente realista. No ocidente, os governantes e sua imprensa-empresa adestrada dizem aos povos que Putin é o perfeito mal, ex-ditador da KGB, grande ameaça para os EUA e seus aliados. Mas desde que as pessoas possam ouvir o que Putin realmente diz, poucos são os que não se percebem em perfeito acordo de opiniões com ele.

Numa outra engraçada virada histórica, assim como a população soviética procurava a BBC, a Voice of America ou a Radio Liberty para obter notícias e informação, hoje, cada dia mais gente no ocidente assiste aos programas de Russia Today, Press TV ou Telesur para obter informação mais confiável. Daí a reação de pânico de Walter Isaacson, Presidente do Comitê de Presidentes de Redes de Comunicação [orig. Chairman of the Broadcasting Board of Governors] comissão que supervisiona a mídia norte-americana dirigida para audiências estrangeiras:

Walter Isaacson
Não podemos nos deixar ultrapassar e descartar por nossos inimigos, na luta pela comunicação. Já há Russia Today, a Press TV do Irã, a TeleSUR da Venezuela e, claro, a China também está lançando seu canal internacional de notícias, 24 horas no ar, com correspondentes em todo o mundo.

Gente como Isaacson sabem que estão lenta e inexoravelmente perdendo a batalha informacional pelo controle da cabeça e dos pensamentos do grande público.

E agora, com todo esse affair Snowden, a Rússia vai-se convertendo em porto seguro para tantos ativistas políticos que precisam salvar-se da ira do Tio Sam. Rápido exame pela Internet, ajuda a ver que a cada dia mais pessoas falam de Putin como “líder do mundo livre”, e há, até, quem já esteja recolhendo assinaturas pelo planeta, para exigir que Obama transfira a Putin o prêmio Nobel que recebeu. Fato é que muitos que, como eu, realmente combatemos contra o sistema soviético, estamos gostando muito de ver esse giro de 180 graus, em relação à posição mundial nos anos 1980s.

Elites ocidentais – ainda paralisadas, catatônicas, na Guerra Fria

O mundo mudou radicalmente nos últimos 20 anos, mas as elites ocidentais nunca mudaram e não mudam. Obrigadas a encarar uma realidade que as frustra, essas elites buscam desesperadamente re-combater a Guerra Fria, na esperança de re-vencer.

Assim, afinal, se explica o ciclo infinito de repetição de campanhas de propaganda para denegrir a Rússia, de que falei no início desse postado. Tentam apresentar a Rússia como alguma espécie de nova União Soviética, com minorias oprimidas, encarceradas ou dissidentes assassinados, com pouca ou nenhuma liberdade de expressão, mídia monolítica controlada pelo governo, e aparelho sempre presente de vigilância contra os cidadãos.

O problema é que essa leitura aparece com 20 anos de atraso, as acusações não convencem a opinião pública ocidental e têm tração zero dentro da Rússia. Na verdade, as tentativas para interferir em assuntos internos da Rússia têm sido sempre tão mal feitas, tão ridículas, que têm tido efeito de tiro saído pela culatra. Primeiro, as tentativas patéticas em que o ocidente se empenhou para criar uma revolução “colorida” nas ruas de Moscou, até as tentativas contraproducentes para criar algum (qualquer) tipo de crise em torno dos direitos humanos na Rússia – e cada passo empreendido pela máquina de propaganda ocidental só fez reforçar a posição de Vladimir Putin e de seus “Soberanistas Eurasianos”, contra a facção dos “Integracionistas Atlanticistas” que há dentro do Kremlin.

Houve um simbolismo pungente, profundo, na mais recente reunião dos 21 países reunidos na Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [orig. Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC], em Bali. Obama teve de cancelar sua viagem por causa da crise do orçamento nos EUA; e Putin recebeu a homenagem musicalmente horrível, mas politicamente muito significativa, de um “Parabéns a você”, de aniversário, cantado em coro por todos os presidentes dos países do Pacífico na região. Pode-se imaginar a fúria, na Casa Branca, ao verem os “aliados” do Pacífico, a cantar serenatas de aniversário para Putin!

Conclusão: “Estamos em todos os lugares”

Em uma de suas mais belas canções, David Rovics [1] canta os seguintes versos (We Are Everywhere), que quero registrar na íntegra (vídeo a seguir) porque se aplicam direta e completamente à situação atual:


When I say the hungry should have food
I speak for many
When I say no one should have seven homes
While some don't have any
Though I may find myself stranded in some strange place
With naught but a vapid stare
I remember the world and I know
We are everywhere

When I say the time for the rich, it will come
Let me count the ways
Victories or hints of the future
Havana, Caracas, Chiapas, Buenos Aires
How many people are wanting and waiting
And fighting for their share
They hide in their ivory towers
But we are everywhere

Religions and prisons and races
Borders and nations
FBI agents and congressmen
And corporate radio stations
They try to keep us apart, but we find each other
And the rulers are always aware
That they're a tiny minority
And we are everywhere

With every bomb that they drop, every home they destroy
Every land they invade
Comes a new generation from under the rubble
Saying “we are not afraid”
They will pretend we are few
But with each child that a billion mothers bear
Comes the next demonstration
That we are everywhere.

Esses versos são bela expressão da esperança que deve inspirar todos os que nos opomos ao Império EUA-sionista: estamos em todos os lugares, literalmente.

De um lado, estão o 1%, os imperialistas Anglos e os sionistas-neoconservadores; do outro lado, estamos o resto do planeta e, potencialmente também 99% do povo dos EUA. Se é verdade que nesse ponto do tempo Putin e seus Soberanistas Eurasianos são o grupo mais forte e mais bem organizado dessa resistência planetária contra o Império, também é verdade que não estão no centro da luta e nem são cruciais na luta. Sim, sim, a Rússia pode desempenhar e desempenhará esse papel, mas como PAÍS NORMAL dentre outros PAÍSES NORMAIS, alguns pequenos e economicamente fracos, como o Equador; outros gigantescos e muito poderosos, como a China. Mas até o pequeno Equador foi enorme, gigante, quando garantiu refúgio a Julian Assange (e a China apequenou-se, ao pedir que Snowden, por favor, se escafedesse). Quer dizer: o Equador não é pequeno.

Seria ingênuo esperar que esse processo de “desimperialização” dos EUA possa acontecer sem violência. Os impérios francês e britânico só vieram abaixo depois do morticínio da 2ª Guerra Mundial; e os impérios nazista e japonês foram arrasados sob montanhas de bombas. O colapso do império soviético gerou comparativamente menos mortes, e a violência não aconteceu dentro, mas na periferia dos sovietes. Na Rússia, o número de mortos na miniguerra civil de 1993 contava-se aos milhares, não aos milhões. E, graças à grande bondade de Deus, nenhuma bomba atômica foi jamais detonada por agente da Rússia, em lugar algum.

Assim sendo, o que acontecerá quando o Império EUA-sionista-neoconservador afinal desabar, em colapso, sob o próprio peso? Ninguém sabe com certeza, mas pode-se pelo menos esperar que, assim como não apareceu qualquer grande força para salvar o Império Soviético em 1991-1993, tampouco há de aparecer alguma grande força interessada em salvar o Império Norte-americano. Como David Rovic diz tão bem, a grande fraqueza dos 1% que comandam o império EUA-sionista é que “eles são pequena minoria, e nós estamos em todos os lugares”.

Nos últimos 20 anos, os EUA e a Rússia seguiram rotas diametralmente opostas, e, ao que parece, trocaram os papéis. Esse pas-de-deux está agora chegando a alguma espécie de fim. Circunstâncias objetivas puseram os dois países em oposição, mas, isso, só por causa da natureza do regime em Washington DC.

Os líderes russos podem bem repetir as palavras do rapper britânico Lowkey e declarar “I’m not anti-America, America is anti-me!” [Não sou antiAmérica, a América é que é anti-eu (vídeo a seguir)] e podem facilmente ser acolhidos pelos 99% dos norte-americanos que, saibam disso ou não, são também vítimas do Império EUA-sionista-neoconservador.


Enquanto isso, a gigantesca barreira de propaganda anti-Rússia continuará sem refresco, simplesmente porque parece ter-se convertido numa forma de psicoterapia para uma plutocracia ocidental que não vê saída e consome-se em pânico. E, como em todos os casos precedentes, essa propaganda não terá efeito algum.

Espero que, na próxima vez que começar o falatório sobre seja lá o que inventem depois da atual campanha “ecológica” da ONG Greenpeace, todos vocês relembrem o que leram aqui.

[assina] The Saker

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Nota dos tradutores

[1] Tradução de We Are Everywhere

Quando digo que os famintos devem poder comer
Falo pelos muitos
Quando digo que ninguém deve ter sete casas
se outros não têm nenhuma
Ainda que eu esteja preso numa cidade estranha
sem nada e ninguém além de um olhar sem vida
Ainda assim lembro do mundo e sei
Que nós estamos em todos os lugares

Quando digo que a hora dos ricos não demora a chegar
São muitas as vias, as vitórias, as pistas do futuro
Havana, Caracas, Chiapas, Buenos Aires
Quantas e quantas pessoas querem e esperam
e lutam pelo seu quinhão
Eles se escondem em suas torres de marfim
Mas nós estamos em todos os lugares

Religiões e prisões e raças
fronteiras e nações
Agentes do FBI e deputados e senadores
e rádios e televisões-empresas
Só querem nos segregar, nos separar
Mas sempre nos reencontramos uns os outros
E os que mandam sempre sabem bem
que eles são poucos, poucos, uma ínfima minoria
E que nós estamos em todos os lugares

Com cada bomba lançada
cada lar que põem abaixo
cada terra que ocupam
Uma nova geração nasce debaixo das ruínas
e diz “Não temos medo”
Vão mentir que somos poucos
Mas cada um filho que um bilhão de mães amamentam
dirão na próxima manifestação de rua
Que estamos em todos os lugares.


[Tradução de trabalho, sem valor literário, só para ajudar a ler]